quarta-feira, 31 de julho de 2013

ROBSON MARTINS FONTES - O homem sem palavras II

O homem sem palavras - II
Robson Martins Fontes - (no blog 'Caminho Poético')

Caminhou durante horas a ponto de se confundir com a poeira. 
O vento estapeava o seu rosto com a delicada luva do inverno. 
Apenas voltou a si quando sentou no chão e sentiu o peso do mundo nas suas costas. 
Ele era forte, mas sabia que naquele dia nublado a tempestade surgiria depois de suas lágrimas. Olhou ao seu redor e não viu. 
Seus olhos pareciam uma janela de ônibus que foi embaçada com uma chuva momentânea, inesperada. 
Nesse dia ele entardeceu de junto com a noite. 
O fluxo de pessoas que procuram entretenimento noturno tinha aumentado. 
Muitos olhares chegavam até ele, porém ignorou todos, assim como tinha ignorado sua existência até agora. 
Aquele silêncio o colocava em contato consigo. E quanto mais se afundava no silenciar, emergia com voracidade o entendimento sobre si. 
Ele chegou a espantar-se com a própria sombra. Ele era uma projeção de si mesmo. 
Gostava de manipular a imagem que imprimiam sobre ele. Contudo, estava se sentindo muito cansado para continuar, apesar de estar mais leve agora. 
Ele não era poeira. Não mesmo. Poeira costuma impregnar as coisas. Ele não. Era uma nuvem que vivia se desvanecendo. 
Seu único medo era o que ele se convencia de ser depois de deixar de ser. Essa constância o arrepiava. 
Não se importava com as modificações do corpo. Era mais interessado nas mudanças da alma. Esta o inquietava. Sua alma estava tão estreita.


Avistou um bar. As pessoas pareciam felizes. Não. Estavam bêbadas mesmo. 
Não queria se sentir covarde e beber. Porém, logo arrumou uma justificativa: estava frio e ele sentia que precisava se aquecer. Por que não um casaco? 
Ele sentia que naquela noite ele não precisava aquecer o corpo, mas sim a alma.


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