quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

CHIQUINHA GONZAGA


Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935),  conhecida como Chiquinha Gonzaga. 

Nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de outubro. Filha de José Basileu Alves Gonzaga, primeiro-tenente, de família ilustre do Império, e Rosa Maria Lima, mestiça e pobre. 
Apesar de a família de José Basileu não ter grandes condições financeiras, Chiquinha Gonzaga recebeu a mesma educação dada às crianças burguesas da época. Estudou português, cálculo, inglês e religião com o Cônego Trindade e música com o Maestro Lobo.

Em 1863, com dezesseis anos, seguindo as exigências do seu pai, Chiquinha Gonzaga casa-se com Jacinto Ribeiro do Amaral, um jovem e rico oficial da Marinha, oito anos mais velho que ela. 
Em 1864 nasce seu filho João Gualberto e em 1865 nasce Maria do Patrocínio. 
Chiquinha, de gênio forte e decidida, continua sua dedicação ao piano, compondo valsas e polcas, para desagrado do marido.

Aos 18 anos, já então Sra. Francisca Edwiges do Amaral Gonzaga
Em 1866, Chiquinha Gonzaga é obrigada pelo marido, co-proprietário de um navio e Comandante da Marinha Mercante, a acompanhá-lo no transporte de escravos, armas e soldados para a Guerra do Paraguai. 
Insatisfeita com a situação, pois as ordens do marido eram que ela não se envolvesse com música, Chiquinha volta com o filho para a casa de seus pais, onde havia ficado sua filha Maria. 
Não tendo apoio da família e descobrindo que está grávida, volta a viver com seu marido. Em 1867 nasce seu terceiro filho Hilário. O casamento durou pouco tempo.

Após a separação, Chiquinha passa a viver com o Engenheiro João Batista de Carvalho Júnior. Levando seu filho João Gualberto, o casal vai morar em Minas Gerais. 
Em 24 de agosto de 1876 nasce Alice, filha do casal. 
Pouco depois com ciúme do marido, Chiquinha volta para o Rio de Janeiro, com seu filho João Gualberto, deixando Alice com o pai.

Chiquinha volta a viver da música. Dava aulas de piano e obteve grande sucesso, compondo polcas, valsas, tangos e cançonetas. 
Ao mesmo tempo, juntou-se a um grupo de músicos de choro. 
Foi a necessidade de adaptar o som de seu piano ao gosto popular que lhe valeu a glória de se tornar a primeira compositora popular do país. 
O sucesso de Chiquinha Gonzaga começou em 1877, com a polca "Atraente". 
A partir da repercussão de sua primeira composição impressa, Chiquinha resolveu se lançar no teatro de variedades. Estreou compondo a trilha da opereta de costumes "A Corte na Roça", de 1885.

Aos 29 anos
Em 1899, Chiquinha conhece o músico português, João Batista Fernandes Lages, que vivia no Rio de Janeiro. 
Chiquinha com 52 anos e ele com apenas 16, começaram um relacionamento. 
Para não enfrentar o moralismo da época, Chiquinha registrou João Batista como seu filho. 
Viveram juntos e felizes, mas Chiquinha protegia sua privacidade.

Em 1934, aos 87 anos, Chiquinha Gonzaga escreveu a partitura da opereta "Maria". 
Chiquinha compôs as músicas de 77 peças teatrais, tornando-se responsável por cerca de 2.000 composições. 
Em 1897, todo o Brasil dançou sua estilização do corta-jaca, sob a forma de tango "Gaúcho", mais conhecido como "Corta-Jaca". Dois anos depois, compôs "Ó Abre Alas", a primeira marcha carnavalesca.

Última foto, aos 85 anos de idade

Compositora, pianista e regente brasileira. 
Primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Autora da primeira marchinha de carnaval "Ó abre alas". 
Desde criança mostrou interesse pela música. Dedicou-se ao piano e compôs valsas e polcas.

Separada do marido, dava aulas de piano e apresentava-se com o conjunto Choro Carioca, em festas domésticas, tocando piano. 

Seu primeiro sucesso, aos 29 anos de idade, foi a composição "Atraente", um animado choro. 
Dedicou-se a musicar peças para o Teatro de Revista, sofrendo preconceitos, mas finalmente inicia sua carreira de maestrina com a revista "A corte na roça". Sua música faz grande sucesso e recebe vários convites de trabalho. 
Sua carreira ganha prestígio com a marcha-rancho "Ó abre alas" feita para o carnaval de 1899.

A peça de teatro "Forrobodó", musicada por Chiquinha Gonzaga, e apresentada em um bairro pobre do Rio de Janeiro, torna-se um sucesso, atingindo 1500 apresentações. As músicas são cantadas por toda cidade. "Forrobodó" torna-se o maior sucesso teatral de Chiquinha e um dos maiores do Teatro de Revista do Brasil.

Chiquinha Gonzaga lutou pelos direitos autorais, depois de encontrar em Berlim, várias partituras suas, reproduzidas sem autorização. 
É fundadora, sócia e patrona da SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, ocupando a cadeira nº 1.

E foi cercada dessa glória que Chiquinha Gonzaga viveu em companhia de João Batista, até 28 de fevereiro de 1935, quando faleceu.

*            *             *



De 12 de janeiro a 19 de março de 1999 foi exibida a minissérie 'Chiquinha Gonzaga', produzida pela Rede Globo. 
Escrita por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes, baseada na vida da maestrina e compositora, dirigida por Jayme Monjardim, Luiz Armando Queiroz e Marcelo Travesso.

Trilha sonora da minissérie na globoradio.globo.com

DRUMMOND e A Banda


Notas sobre A banda
Carlos Drummond de Andrade
 
O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. 
Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. 

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. 

E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

In:  Correio da Manhã, 14/10/66


*            *            *

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DALTON TREVISAN e MACHADO

Carta de Dalton Trevisan à Academia Brasileira de Letras


Curitiba, 15 de junho de 2012
À Academia Brasileira de Letras,
Rio de Janeiro


Prezado Senhor Geraldo Holanda Cavalcanti, Presidente em exercício:

As honrarias é de bom uso que se agradeçam. Entre as maiores essa da nossa Academia de Letras – guarda zelosa da língua e das tradições literárias –, o dileto Prêmio Machado de Assis.

Ele nos iniciou, o grande bruxo, no prazer secreto da leitura – uma jornada não a virgens terras ou mares, ainda mais longe, aos confins do coração humano. E nos introduziu a que doces criaturas, desde então da nossa particular estima.

Primeiro – grande lascivo! – as mulheres. Capitu, enganosa, calculista, perversa (os braços… nus no baile… os mais belos… Os braços merecem um período), que traiu o ingênuo Bentinho e afogou nos seus lindos olhos de ressaca o incauto Escobar.

Sofia, essa (os braços… oh! os braços! Que benfeitos!), do busto emergindo das cadeiras amplas como uma grande braçada de folhas sai de dentro de um vaso, endoidou de vez o pobre Rubião com suas barbas e bigodes longos, perdido no vago o olhar cismático – a viver do que podia ter sido.

Virgília, a florida Virgília dos opulentos e magníficos braços nus… Eia, essa forte obsessão de braços – a oportunidade única de fartar os olhos quando as musas desciam o vestido para cobrir os sapatos!

Mais as figuras inesquecíveis dos contos. Na Missa do Galo, a boa Conceição de roupão branco, grandes olhos espertos, metade dos braços à vista e bastou ao moço entrever-lhe, a furto, o bico das chinelinhas para que a sua imagem durante a missa pairasse entre ele e o padre.

O Pestana, de Um Homem Célebre, o autor insatisfeito de polcas da moda, tocadas nos bailes e assobiadas nas ruas, mas que ansiava por sinfonias clássicas e expirou bem com os homens e mal consigo mesmo. Uma sábia lição para nós outros: se não compomos sonatas, bem nos contentemos com polcas ligeiras.

Uns Braços, esse famoso par de braços nus, belos e cheios de d. Severina, cuja visão faz o jovem escrevente esquecer de si e de tudo. E, dorminhoco, ai dele, perdeu de vê-la quando, inclinando-se, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.

Tais e tantos personagens, Capitu, Bentinho, Sofia, Rubião, Virgília, Braz Cubas, além dos vários comparsas: o agregado José Dias que, nas horas graves, era gravíssimo; as boas e patuscas viúvas dos saraus; esse homem grave o dr. Vilaça, medido e lento; sem esquecer d. Plácida, que brotou da conjunção de luxúrias vadias e o impávido major, o terrível major Siqueira, que falando chovia a cântaros – todos eles gente viva, vivíssima que, pelo resto da vida, continuamos a frequentar e conversar. Graças ao gênio Machado de Assis.

E mais não escrevo, por não me alongar. Perdoe, caro Senhor, o tremido da letra e o desgrenhado do estilo.

Entrado em anos, ai de mim, os muitos achaques me proíbem de agradecer pessoalmente esse prêmio tão caro ao coração. O que busquei, embora desjeitoso, fazer nestas sentidas palavras.

Com as melhores saudações.

Dalton Trevisan


*                        *                        *

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

FAL AZEVEDO - escritora paulistana


Richard Gere e Hatchi - 'Sempre a seu lado'

"Seu cachorro ama você.
Seu cachorro foi programado biologicamente 
pra amar você.
Ele ama você, 
mesmo quando você se atrasa 
ou esquece de botar água pra ele.
Mesmo que você tenha fraquejado.
Mesmo que você fraqueje todos os dias.
Mesmo que você ceda e se perca, 
mesmo que você minta.
Mesmo que você tenha tanto ódio dentro de você, 
que doa.
Mesmo que você tenha tanta dor dentro de você, 
que você odeie.
Mesmo que você tenha estragado tudo.
(...)

Mesmo que você chegue em casa sujo, pobre, humilhado, mal humorado.
Mesmo que os outros riam de você.
Mesmo que você esteja de ressaca.
Mesmo que você tenha gatos, muitos gatos.
Seu cachorro ama você, 
mesmo quando você não está com saco pra ele
e tranca o bichinho na área de serviço.
(...)

Seu cachorro ama você mesmo quando você se odeia.
Mesmo quando você é mesquinha, 
seu cachorro vai amar você.
(...)

Mesmo quando você chora debaixo do chuveiro, 
pra sua cara não ficar inchada, 
seu cachorro vai te amar.
Seu cachorro ama você para sempre, 
mesmo que nada, nada, nada tenha salvação 
e que, em parte, a culpa seja sua."

*            *            *

Do Livro "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite"




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

CHICO ANYSIO (1931-2012)


Chico Anysio
Chico Viana, revista 'Língua Portuguesa'

(...)
Chico Anysio não teria sido o humorista que foi se não associasse a preocupação social à consciência linguística.

O humor, afinal de contas, está nas palavras. O que há de risível em pessoas, fatos, situações deriva sobretudo da forma de os representar. Para torná-los engraçados é preciso dominar uma retórica em cujo repertório se incluem figuras de linguagem, jogos vocabulares, frases de efeito, aproximação de elementos contrastantes. 

No retrato que faz de si, publicado com exclusividade pelo jornal O Globo por ocasião de sua morte , o artista alia o humor ao lirismo.

O mergulho no passado é uma das marcas da "escrita do eu", que busca recompor vivências perdidas. 
Mesmo num escrito tão pessoal, o autor amplifica as referências subjetivas num "nós" que engloba meninos pobres como ele, e com essa visão solidária afirma sua brasilidade.



O menino 
Chico Anysio


Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido.

Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.
É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir.

Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.

Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.

Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.

Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.

Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga.

De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia em seu quarto.

Tímido até a ousadia, seus silêncios gritam nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.

Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto.

Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz.

Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador de jeito que ele é, não duvido nada.

Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.

Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todas os dias.

Mas se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque... ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.


*            *            *


In: Jornal O GLOBO,28/03/12 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

CECÍLIA MEIRELES - Romanceiro...(Trechos)

Museu da Inconfidência - MG

Romanceiro da Inconfidência (trechos)
Cecília Meireles


Parte I – fala inicial

(...)
Quem ordena, julga e pune? 
Quem é culpado e inocente? 
Na mesma cova do tempo 
cai o castigo e o perdão.
(...)

Na mesma cova, as palavras, 
o secreto pensamento, 
as coroas e os machados, 
mentira e verdade estão.
(...)

Choramos esse mistério, 
esse esquema sobre-humano, 
a força, o jogo, o acidente 
da indizível conjunção 
que ordena vidas e mundos 
em pólos inexoráveis 
de ruína e de exaltação 
Ó silenciosas vertentes 
por onde se precipitam 
inexplicáveis torrentes 
por eterna escuridão!
(...) 

*        *        *

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

CRUZ E SOUSA - Acrobata da dor


Acrobata da Dor
Cruz e Sousa

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

*            *            * 

In:  “Broquéis”, 1893.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

MICHELANGELO


Para o Blog do NOBLAT - OBRA-PRIMA DO DIA - PINTURA
Enviado por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa - 1.2.2013 | 12h00m

Paixão por Michelangelo
Michelangelo Buonarroti nasceu em 6 de março de 1475 em Caprese, localidade próxima à cidade toscana de Arezzo, Itália e faleceu em Roma no dia 18 de fevereiro de 1564, aos 89 anos.

Foi um gigante. Pensador, deixou obra literária, em prosa e verso, considerada notável. 
Arquiteto, foi o criador da cúpula da Basílica de São Pedro. 
Do mármore tirou alma, espírito. 
Com tinta e pincel mostrou o momento em que Deus, estendendo a mão, cria Adão.


É lugar comum chamá-lo de gênio. Prefiro dizer que ele foi tocado pelo divino ao nascer: é a única explicação. Amou a beleza e dela se serviu para mostrar sua fé em Deus.


 
Todos conhecemos a Pietà de Michelangelo, não é? Mas há detalhes que sempre impressionam. Ele a esculpiu quando estava com 22 para 23 anos.
(...)




Cristo, sem nenhuma das marcas da Paixão em seu corpo, tem o rosto sereno. 
A intenção de Michelangelo não foi representar a morte dolorosa e violenta, mas o reencontro tranquilo do Filho com o Pai ao retornar à Vida Eterna.
(...)

 

Em 1504, depois de três anos de trabalho, Michelangelo entrega à Florença a estátua de David. 
Não é um simples pastor de ovelhas, como na Bíblia, é um guerreiro momentos antes de atacar, corajoso e forte, certo de que combatia o bom combate. Dá para sentir sua determinação e concentração.

Reparem no olhar de David. Em sua expressão. Em sua mão segurando a pedra. 
Lembremo-nos que isso é uma estátua esculpida em mármore, por um homem e não por um deus. 
Ou estarei enganada e esse rosto foi esculpido por Deus?
(...)

Somos nós que o olhamos de modo diverso a cada vez ou Michelangelo deu mesmo vida ao patriarca? A ponto de correr a lenda do Parla! - o escultor, impressionado com o que fez, dá com o cinzel num joelho da estátua e lhe manda que fale. Si non è vero, e non è vero, è bene trovato.


Capella Sistina, Vaticano, Roma 
Pietà, Basílica de São Pedro, Vaticano, Roma 
David, Galleria dell'Accademia, Florença 

*            *            *

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MARIA BETHÂNIA - Fado



Fado
Composição: Roque Ferreira

Por quem tu te consomes, coração?
E somes nessas águas de arrebentação
Rolando ao sal dos sonhos, vais arrastando dores
Inaugurando mares com teu pranto de amores

Por quem te enclausuras na força das marés
E cantas sem ternura à luz dos cabarés?

Por quem tu te desvelas, coração?
E levantas velas, vais na ventania
Sabendo do naufrágio que o tempo anuncia
Preferes a procela à paz da calmaria

Que anjo dissoluto põe tua embarcação
Na fúria dessas águas, longe da viração

*        *        *

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ARISTÓTELES - Ética a Nicômaco




Do 'Blog do Noblat' - Ricardo Noblat
Ética a Nicômaco (excertos)
Aristóteles

A virtude ética é adquirida pelo hábito; não nascemos com ela, mas nossa natureza é capaz de adquiri-la e aperfeiçoá-la. 
A virtude tem dois aspectos, o intelectual e o moral; a virtude intelectual (sabedoria) provém em sua maior parte da instrução, que lhe é necessária para se manifestar e se desenvolver. Também exige prática e tempo, enquanto a virtude moral (prudência) é filha dos bons hábitos.

Não nascemos com nenhuma virtude moral; na verdade, nada modifica uma condição que nos é dada pela natureza; por exemplo, a pedra tem um peso que é seu: nada muda essa situação, nem que ela seja jogada ao ar mil vezes ela perderá seu peso; o fogo não saberia descer, só sabe subir; e assim sucessivamente com todos os corpos que não podem modificar suas características originais. 
Ao nascer, não temos nem virtudes, nem vícios.

Não é pois por um dom da natureza que uma virtude nasce em nós; somos sim naturalmente predispostos a adquiri-la e vivenciá-la, desde que a aperfeiçoemos pelo costume, assim como acontece com as artes e os ofícios.

Aquilo que deve ser estudado, aprendemos pela prática: é construindo que nos tornamos arquitetos; é tocando a cítara que nos tornamos citaristas.

O mesmo acontece com as virtudes. De tanto enfrentar situações perigosas e de nos habituar ao medo ou à audácia, passamos a ser pusilânimes ou corajosos.

A virtude ética está relacionada com sentimentos e ações. No entanto, agir virtuosamente e ser virtuoso são coisas diferentes. 
Ser virtuoso requer três coisas: a) que a pessoa saiba o que está fazendo; b) que tenha a intenção de fazer o que está fazendo; c) que tenha essa intenção por saber que é o mais correto e por nenhum outro motivo;  
e que aja com firmeza e determinação.

Sendo assim, o modo como somos educados desde a infância não tem pouca importância. Que digo? Tem importância extrema, na verdade é essencial. Por isso é importante exercer nossas atividades de modo virtuoso, determinadamente, pois as diferenças de conduta podem criar hábitos diferentes em quem nos cerca.

Vejamos o que acontece nas cidades: os legisladores, ao bem habituá-los, formam cidadãos virtuosos. E essa deve ser a intenção de todo legislador. 
Todos aqueles que não se comportam assim, deixam de cumprir seu papel, pois é só por aí que uma Cidade difere da outra, uma boa Cidade de uma cidade má.


*            *            *

Aristóteles nasceu em 384 a.C, em Stagira, na margem norte do Mar Egeu. Seu pai, médico do rei da Macedônia, se chamava Nicômaco, nome que ele depois deu a seu filho. Foi preceptor de Alexandre, o Grande. Quando Alexandre já não precisa mais dele, ele volta para Atenas onde funda o Liceu. É a um seu aluno que devemos a herança de ler o que ele escreveu. Faleceu em Atenas, em 322 a.C.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

GRACILIANO RAMOS e o futebol...


A rasteira de Graciliano Ramos no futebol

Plínio Fraga in 'Prosa on line' - Jornal O Globo, 02-02-2013

Em texto no jornal alagoano ‘O Índio’, escritor satirizou a adequação do esporte ao povo sertanejo 

(...)
Em 1921, Palmeira dos Índios, cidade no agreste alagoano, a 200 quilômetros de Maceió, sofria com a pobreza de sua gente. Um dos editoriais daquele período do jornal “O Índio”, intitulado “Nosso povo”, começava assim: 
“O estado em que se encontram as nossas populações sertanejas — não nos iludamos — é a mais profunda barbaria. (...) Parece incrível que é possível viver como vivem, pobre diabos, meio selvagens, quase bichos, sem nenhum conforto. As casas em que moram são as habitações do homem primitivo, não mais cômodas talvez que as cavernas dos trogloditas.” 

Graciliano seria prefeito de Palmeira dos Índios dez anos mais tarde, com os famosos e irônicos relatórios de sua administração, nos quais dizia, por exemplo, que se a cidade podia ser chamada de “princesa do sertão”, era “uma princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavada”. 
Estava ainda longe da carreira que o consagraria como escritor, era um crítico mordaz da sociedade em que vivia e usava o jornalismo como arma de combate. 

Graças à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, não é difícil ter acesso ao texto original do jornal “O Índio”, que circulava em Palmeira dos Índios (AL). Fazia cerca de 30 anos que o futebol acabara de ser importado para o Brasil. Era um esporte da elite. Com o pseudônimo J. Calisto, Graciliano assinava uma coluna intitulada “Traços a esmo”, em que fazia comentários ácidos em geral. 

No domingo de 10 de abril de 1921, começou assim: 
“Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.” 

Argumentava que a cultura física estava inteiramente descurada entre nós. 

“Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.” 

Afirmava claramente não ser contra o futebol só por ter sido importado. 

“Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não. No caso afirmativo, seja muito bem-vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos.” 

A grande dúvida é que Graciliano ora parece claro que se dirigia especificamente à sua gente do sertão, aos leitores do jornal de sua pequena Palmeira dos Índios, ora parece falar para o Brasil como um todo, sendo que neste caso o jornal “O Índio” decerto não era o melhor palanque, e talvez fosse audácia demais para um talento de então apenas 29 anos. 

A contraposição sertão/grandes cidades aparece no texto com frequência reforçando a ideia de que fala mais para sua gente do que para todo o país: 
“As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; nós somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego. Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. Nas cidades assiste-se, cochilando, à representação de peças que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre nós há criaturas que nunca viram um gringo”, comentava. 


Rasteira, “esporte nacional por excelência” 

Sugeria para a mocidade exercitar-se em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, como o murro, o cacete, a faca de ponta. 

“Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega. Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar. Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.” 

A conclusão de Graciliano, irônica e política, é tão brilhante que deveria ser suficiente para sepultar a polêmica sobre suas intenções a respeito da profecia futebolística. 

“A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro — e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa. 

Cultivem a rasteira, amigos! 

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique.” 


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