segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os flamboyants 
Rubem Alves

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A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzsche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.

Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol. Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir… Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acarinhando a pele — os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, “pensar é estar doente dos olhos”. Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: “Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela… Você não quer vir até a nossa casa para tomar um cafezinho?”

Fui. Mas ele me advertiu: “Não diga nada para ela. É surpresa…” Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.

As crianças da 3ª série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O Gambá Que Não Sabia Sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menininha, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica 'Se Eu Tiver Apenas Um Ano a Mais de Vida'
Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: “Recortei a crônica e trouxe para a professora…” Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.

As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma idéia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: “Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?” Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: “Não chore porque eu vou abraçar você…”
As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades — porque a vida é tão boa! Por isso, o que nos resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.
Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres… E, como disse Walt Whitmann, “quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha”.

O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.
Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.

Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. “Você sabe rodar piões?”, eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os “outros” definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.

Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.

Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)… Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: “Não gostaria de brincar com corrupio?” E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. “Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?” E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: “Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar…” São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar…

Pois a Julieta — aquela do Romeu — me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu. Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.

Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: “Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver… Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E concluí que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz…”
Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria…

As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando…
*            *           *

Rubem Alves, em 'Mansamente Pastam as Ovelhas'

Alma -Flora Figueiredo

Alma
Flora Figueiredo



Acho que os sentimentos têm células, 
pois as sinto remexer, 
intensas libélulas 
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos, 
sempre crescem. 
A cada instante que vivo, 
mais então se expandem, 
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações 
e quando me perco pelas emoções, 
ele se avoluma e me maltrata. 
Chega a ser tão grande seu efeito, 
que rompe o peito,sangra 
e se dilata.

Ah minhas células emotivas! 
Quero-as em mim 
coladas e cativas 
fazendo-me viver intensamente. 
Eu as batizo com o nome de "alma" 
e as responsabilizo a viver eternamente 
ainda quando o coração se acalma 
e põe-se a dormir 
irreversivelmente.
*        *        *

Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A deliciosa sensação de estar sozinho e sentir-se verdadeiramente feliz
Lara Brenner , na página 'Revista Bula - Crônicas'

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Solidão: estado de quem se encontra ou vive só, isolamento (Aurélio).

Enquanto enchia minha farta taça de vinho pela segunda vez, já com os dentes e lábios roxos, dei-me conta de que a mesa a que me sentava estava vazia, exceto por mim. Na cozinha também havia ninguém, assim como em todo o apartamento. Sequer música se podia ouvir. Eu estava só e engolida pelo silêncio.

Por um segundo, incomodou-me um pouco que a ideia de que alguém, vendo aquilo, pudesse concluir ser um momento de solidão abandonada. O ato de beber sozinho carrega a história de escritores decadentes e amores de insucesso, conferindo ao álcool um comportamento ambíguo: consumido em grupo, serve para brindar a vida; já em isolamento, serve para afogar as mágoas.

Entre um gole e outro de vinho, a verdade me caiu como um estalo: entre mim e aquele líquido, havia nada além de glória. Não existia ânsia por companhia, tampouco sofrimento por sua ausência. Pareceu-me injusto que não houvesse na Língua uma palavra que expressasse a glória de estar só, mas felizmente o sociólogo Paul Tillich teve a cortesia de me apresentá-la. Solitude. As quatro sílabas dançavam em minha língua já meio dormente. “O idioma criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” A Língua quase nunca desaponta.

Jobim inventou que é impossível ser feliz sozinho. Terceirizando a responsabilidade pela plenitude do espírito, criou-se o estigma do hedonismo acompanhado, de que a felicidade só é boa quando dividida. As redes sociais estão aí para perpetuar o sentimento: haja sorrisos, brindes, porres e bossa. Haja viagens, selfies em grupo, bares lotados e músicas entoadas em coro. Ficar sozinho parece coisa de gente humilhada e infeliz, mas talvez não suportar a própria companhia por um instante seja o autêntico sinal de infelicidade. Pessoas que têm hábitos como ir a cinema, beber, dançar e fazer compras sem companhia causam grande furor às demais, ainda que ninguém tenha a curiosidade de indagar se aquilo é ato intencional. Só que a balbúrdia costuma causar ilusão de felicidade e a verdadeira fuga pode residir aí.

É bem provável que uma vida inteira de solitude se transforme em solidão, mas é curioso como viver apenas em grupo cansa e chega uma hora em que tudo o que se quer fazer é correr dali para a calmaria do mar, que só é alcançada quando se nada para dentro. Solitude é uma opção, um deleite, uma vontade. Talvez sua graça seja saber que é facultativa e que, quando a alma pedir por compartilhamento, haverá pessoas queridas que ficarão felizes em oferecê-lo.

Necessário, portanto, ser forte e seguro para curtir a solitude, sendo a recompensa tanto simbólica quanto aproveitável. Basta perceber que grandes decisões e guinadas na vida costumam ser precedidas por momentos de recolhimento. Bastar-se não se restringe à negação das pessoas e do mundo, e, sim, saber que existir não depende necessariamente de alguém além de si.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ARIANO SUASSUNA - 'O sol de Deus'




O sol de Deus
[Com tema de Renato Carneiro Campos]

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque a teia do Destino
não houve quem cortasse ou desatasse.

Não serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao som do Sino.
Verei o Jaguapardo e a luz da Tarde,
Pedra do Sonho e cetro do Divino.

Ela virá-Mulher- aflando as asas,
com o mosto da Romã, o sono, a Casa,
e há de sagrar-me a vista o Gavião.

Mas sei, também, que só assim verei
a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sertão.

*            *            *
Ariano Suassuna, “Poemas”. [seleção e notas de Carlos Newton Júnior]. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1999.


domingo, 28 de janeiro de 2018

Entrevistas do Além - 'Revista Bula'

Marcel Proust entrevista Clarice Lispector
ENTREVISTAS DO ALÉM - 'REVISTA BULA'

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O escritor francês Marcel Proust gostava de jogar uma brincadeira de salão chamada “Confissões”, onde os participantes respondiam perguntas pessoais. Em sua homenagem, hoje o jogo ficou conhecido como “Questionário Proust”.

A Revista Bula, depois de ter adquirido em um concorrido leilão no eBay a Tábua Ouija original do filme “O Exorcista”, entrou em contato sobrenatural com o próprio Marcel Proust, em carne, osso e ectoplasma, que, relembrando seus tempos de jornalista, assinou contrato exclusivo como nosso correspondente do outro lado da vida.

Sempre nas altas rodas aristocráticas e altas esferas celestiais, Marcel Proust entrevista a escritora nascida na Ucrânia naturalizada brasileira Clarice Lispector. Eis o encontro de dois judeus de gênio, que deram novo significado para a expressão “o povo do livro”.
Com vocês, na série Entrevistas do Além, o legitimo Questionário Proust com Clarice Lispector, psicografado em javanês pelo meio médium ligeiro Ademir Luiz.


Marcel Proust — Mademoiselle Lispector, fala francês?
Clarice Lispector — Falo, leio e traduzo francês, embora tenha vivido primeiro em iídiche e depois em português. Você tem um cigarro?

Marcel Proust — Estou tentando parar de fumar.
Clarice Lispector — Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.

Marcel Proust — Mademoiselle tem, eu. Compromete-se a falar tudo nesta entrevista?
Clarice Lispector — Não se conta tudo, porque o tudo é um oco nada.

Marcel Proust — Clarice Lispector é bela ou é fera?
Clarice Lispector — Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente, nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que elogios literários. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.
Marcel Proust — Encontrou-se com Deus?

Clarice Lispector — Não tenho religião, por enquanto. Mas sei que quando eu inventar um Deus, ele não existe. Na verdade, acho que Deus não sabe que existe.

Marcel Proust — E Lúcifer?
Clarice Lispector — Ainda não, mas não tenho medo. Ele que se resguarde de mim. Como eu dizia para a Lygia Fagundes Telles, mulher é que é o diabo.

Marcel Proust — Brasileira ou ucraniana?
Clarice Lispector — Sou pernambucana.

Marcel Proust — Fui muito ligado à minha mãe. O que são para mademoiselle os laços de família? O que é ser mãe?
Clarice Lispector — À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.

Marcel Proust — Muitos consideram sua literatura difícil de ser compreendida. Como responderia a essa crítica?
Clarice Lispector — Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. E não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Marcel Proust — O argentino Jorge Luis Borges afirmou que sua visão de paraíso é uma biblioteca. E a sua?
Clarice Lispector — Prefiro não responder. Minha felicidade é clandestina.

Marcel Proust — E sua visão de inferno?
Clarice Lispector — Somos livres, e este é o inferno.

Marcel Proust — Qual livro levaria para uma ilha deserta?
Clarice Lispector — “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce. Um livro que está sempre perto de meu coração selvagem.

Marcel Proust — Uma obra inesquecível?
Clarice Lispector — “Felicidade”, de Katherine Mansfield. Esse livro sou eu.

Marcel Proust — Mademoiselle, como refugiada e depois esposa de diplomata, passou por várias cidades, como Maceió, Rio de Janeiro, Lisboa, Marrocos, Nápoles entre outras. Viu algumas delas como uma cidade sitiada?
Clarice Lispector — Todas e nenhuma. Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase e por um triz escapo.

Marcel Proust — O que é imoral?
Clarice Lispector — Verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

Marcel Proust — O que é mais importante para um escritor, vocação ou talento?
Clarice Lispector — Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Marcel Proust — O português é mesmo a língua da solidão?
Clarice Lispector — Solidão? O que acontece é que a gente procura o outro para se livrar de si mesmo. Se isso ocorre com gente, talvez ocorra com idiomas.

Marcel Proust — E do que sente saudades?
Clarice Lispector — Sinto saudades de quem não me despedi direito, das coisas que deixei passar, de quem não tive, mas quis muito ter.

Marcel Proust — Por falar nisto, mademoiselle reencontrou-se com Lúcio Cardoso?
Clarice Lispector — Na vida éramos parecidos demais. Não fui em seu velório, nem em seu enterro ou na missa. Havia dentro de mim silêncio demais. Agora, aqui, só digo que conseguimos ser suficientemente diferentes.

Marcel Proust — O que é só para mulheres?
Clarice Lispector — O destino de uma mulher é ser mulher. Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração.

Marcel Proust — Quais seus defeitos?
Clarice Lispector — Tenho tantos defeitos! Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor, às vezes parecem farpas.

Marcel Proust — O que acha de sua estátua, representada ao lado de seu querido cão Ulisses, colocada na praia do Leme na cidade do Rio de Janeiro?
Clarice Lispector — Acho que me colocaram muito longe de Drummond, fixado em Copacabana.

Marcel Proust — O que escrever significa para mademoiselle?
Clarice Lispector — Quanto não escrevo estou morta. Minha liberdade é escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo.

Marcel Proust — O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?
Clarice Lispector — O ovo é a alma da galinha.

Marcel Proust — GH ou K?
Clarice Lispector — Não sei, mas há quem diga que GH esmagou Gregor Samsa.

Marcel Proust — Qual é a hora da estrela?
Clarice Lispector — Durante a noite e na madrugada elas brilham mais forte.

Marcel Proust — Soube que o músico Bob Dylan ganhou o Nobel?
Clarice Lispector — Manuel Bandeira dizia que eu era poeta. O que posso eu dizer de Bob Dylan?

Marcel Proust— Mademoiselle faleceu antes da popularização da internet. Olhando de cima e por cima, o que acha da rede?
Clarice Lispector — Acho que quem me cita precisa ler meus livros inteiros.

Marcel Proust — Leu “Em Busca do Tempo Perdido”?
Clarice Lispector — Sim, para mim foi uma aprendizagem, um livro dos prazeres.


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domingo, 31 de dezembro de 2017

Olha aí em frente... - 2018!

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Tem um Ano Novo ali em frente. Viu? Nós já podemos entrar. Mas vamos com calma. Todos nós cabemos lá. Tem espaço e tem tempo pra você e para mim e todo mundo. Os mesmos trezentos e sessenta e cinco dias que nos cabem estão lá, esperando. O Ano Novo ali em frente já deu as caras. Está no ponto, os motores ligados, as horas organizadas em fila indiana aguardando sua vez de acontecer.

Tem um Ano Novo ali em frente. Olha como é bonito em sua roupa nova, seu cheiro de tinta fresca, seu hálito doce de cachorro filhote lambendo o nariz da gente. Olha! Esse entusiasmo sincero , essa beleza de gente esforçada. Porque pouca coisa nesse mundo tem a graça honesta de quem se empenha no trabalho como quem dá jeito na vida! O Ano Novo ali em frente é uma delas. Está pronto, o coração aberto, as mãos operosas ansiando pelo que será.

Fácil não há de ser. Nunca é. Vai doer. Sempre dói. E talvez a dor piore com o tempo e a idade. Mas tentar ainda é o único jeito de fazer. Tem um Ano Novo ali em frente e eu tenho uma porção de votos para nós. 
Não repare no jeito, na pressa, mas daqui a pouco é meia-noite do dia 31 e se a gente não corre o prazo acaba e a mágica se perde.

Primeiro, eu desejo a você e a mim um pouco mais de leveza. Aliás, “um pouco” não. Eu desejo que no Ano Novo ali em frente a vida seja muito mais leve para nós. Não estou pedindo menos trabalho, menos afazeres e compromissos e prazos mais brandos. Nada disso. Eu só quero que vá longe o peso morto e inútil das picuinhas que grudam na vida feito carrapatos famintos. Então, libertos de tanta intriga e tanto fardo e tanta bobagem, você e eu seremos simplesmente mais leves e soltos em nosso caminho no Ano Novo ali em frente.

Que nesse caminho sobrem trabalho e saúde, amor e amigos. Que o solzinho manso do sábado de manhã e o vento amoroso do domingo à tarde escorreguem gentis para o resto da semana. E que as noites sejam carinhosas conosco.

E que apesar de todos os nossos erros, você e eu sigamos levando a vida com correção e decência.

Eu desejo tudo isso, sim. Desejo profundamente. Porque vontade rasa não realiza nada.

E, sobretudo, eu desejo que a gente sonhe, sonhe muito. 
E se o sonho não virar realidade, que a realidade vire sonho!

Tem um Ano Novo bem ali. Vamos a ele. Vamos a nós. 
A gente se vê por lá.

Feliz Ano Novo ali em frente!


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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Neste mundo pesado... - André J.Gomes

Neste mundo pesado, benditas sejam as pessoas leves
André J. Gomes - 9 de dezembro de 2017

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Ah, quem me dera ser um tipo engraçado mesmo. Não "engraçadinho", que por aí tem tantos. Queria ser um pândego autêntico. Teria sempre, de cabeça, um relato cheio de graça, jamais de "gracinha", para sacar no instante preciso, desarmando interlocutores cheios de ódio, desconhecidos travados de fúria, rivais tomados de ira partindo um contra o outro.

Eu queria ser um sujeito engraçado. Desses que na hora certa dizem coisas tão divertidas, mas tão incrivelmente alegres que fazem quem estiver perto parar e sorrir.

A cada palavra minha, uns iam gargalhar de doer o ventre, outros ririam rasgado de esquecer as dores. E outros sentiriam um fiozinho de leveza em seu lá dentro capaz de provocar um riso tímido, um alívio de contentamento, um refresco humilde no peso da vida. Mas ninguém, ninguém seria indiferente à minha graça. Eu queria ser um sujeito assim.

Quando eu contasse uma lembrança brincalhona, um caso curioso da minha avó, um chiste à toa, por exemplo, no ponto de ônibus, toda pessoa aborrecida com o atraso do transporte, o cansaço do trabalho ou o preço do feijão desabaria na risada. Esse riso haveria de afetar o cidadão ao lado, e o outro, o outro e os outros mais. E todos nós ali, contagiados, juntos, riríamos tanto e tão refeitos, restabelecidos, que quase nem notaríamos o ônibus demorando.

Quem tomasse parte desse instante chegaria em casa comentando com a mulher, o marido, os filhos, os irmãos: “você não sabe! Hoje um sujeito divertido fez todo mundo dar risada no ponto!”

Ah, quem me dera ser um tipo engraçado mesmo. Não “engraçadinho”, que por aí tem tantos. Queria ser um pândego autêntico. Teria sempre, de cabeça, um relato cheio de graça, jamais de “gracinha”, para sacar no instante preciso, desarmando interlocutores cheios de ódio, desconhecidos travados de fúria, rivais tomados de ira partindo um contra o outro.

No segundo que antecede uma briga de bar, lá estaria eu, enfiado entre os valentões irascíveis. Implacável, eu gritaria um chiste saboroso, simples, e confusão nenhuma iria para a frente, porque todos cairiam numa gargalhada irresistível, profunda, demorada. E ao fim todos desabaríamos em descabido estado de festa, unidos, leves, reconciliados com a graça da vida. Essa vida espantosa, sublime, que tanta gente tenta fazer ordinária e vil.

Fosse eu um sujeito engraçado de fato, minha graça seria requisitada pelas Nações Unidas em missões de paz ao redor do mundo. Sairia por aí, diplomata sem formação, orientado a contar passagens pitorescas para carrancudos chefes de estado, conspirando por melhorar seus humores, em minha pequena contribuição para a paz, a compreensão e a ajuda generosa entre os povos. Eu queria ser um sujeito poderosamente engraçado.

E ainda que um dia, por qualquer sorte, a vida me levasse tudo, família, amor, trabalho, dinheiro, saúde, esperança, amigos, eu manteria aqui dentro um punhado de lembranças inventadas, memórias recreativas, recordações contentes queimando numa fogueirinha humilde que me aqueceria o coração e me conservaria, para sempre, um sujeito nem rico e nem pobre, nem louco e nem são, nem certo e nem errado. Nada senão alguém confusa e inexplicavelmente cheio de graça.

Quem sabe assim eu me sentisse menos triste à tardinha, quando o sol apronta as malas e me faz sentir saudade e esperança. Tristeza que dói mansinha compensando o fato de que vai doer para sempre.

Se eu fosse um brincalhão espirituoso eu teria tudo isso. Teria só para dividir aqui e ali, alastrando por todo canto uma chama de sonho, de riso e de festa.

E aquela moça amiga, alegre de nascença e juventude que agora vai doente, tristonha e sozinha, ao me receber numa visita breve, cheia de graça e de lembranças infantis, abriria um sorriso franco e a fé na vida lhe voltaria a brilhar na fronte. Eu queria, ah, como eu queria ser um sujeito engraçado.

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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

"Velhice, por que não? (trechos) - Lya Luft

Velhice, por que não? 
Lya Luft


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“(...)
Detestamos ou tememos a velhice pela sua marca de incapacidade e isolamento. É algo a ser evitado como uma doença. Não deixa de ser tolo encarar o tempo como um conjunto de gavetas compartimentadas nas quais somos jovens, maduros ou velhos – porém só em uma delas, a da juventude, com direito a alegrias e realizações. Pois a possibilidade de ter saúde, projetos e ternura até os 90 anos é real, dentro das limitações de cada período. 
Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda ler, ouvir música, olhar a natureza; exercer afetos, agregar pessoas, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de seda… ) ou ágil, mas ainda lúcido. Ter adquirido uma relativa sabedoria e um sensato otimismo – coisas que podem melhorar com o correr dos anos. Mas predomina a ideia de que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo – até mesmo nos mutilando ou escondendo. 
No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese sem muita discussão, ainda que seja em nosso desfavor. Isso se manifesta até na pressa com que acrescentamos, como desculpa: “Sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas… jovem de espírito.” Porque ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro ou velho? Ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição, não me parece totalmente indesejável.
(...)
Trato bem ao meu corpo, esse grande gato”, escreveu uma poeta com essa sensatez dos artistas e das pessoas simples. “Afinal até aqui ele me serviu, e cada dia gosto mais dele, do jeito que está ficando.” 
Gostar de seu velho corpo com sua necessidade de cuidados e de amor, de mais treinamento para que funcione direito, de paciência porque nem sempre é como lembro que foi um dia, é uma forma de felicidade que a experiência pode ensinar.
Há poucas décadas alteraram-se nossos prazos, e os conceitos sobre juventude, maturidade e velhice. Passamos a viver mais. Nem sempre passamos a viver melhor. Esse me parece um dos mais extraordinários desperdícios da nossa época. Minhas avós, muito mais jovens do que sou agora, me pareciam – e deviam se sentir – velhas: lentas e vagamente reumáticas, roupa escura, cabelo grisalho, óculos na ponta do nariz, fazendo doces ou tricô.
Vou detestar se, ficando velha, alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante do que o jovem. Mais sereno, mais misterioso, mais sedutor.
(...)
Somos seres humanos completos em qualquer fase, na completude daquela fase.
Custa-nos acreditar nisso na velhice, como na adolescência era difícil termos confiança em nós e nossas escolhas quanto ao futuro.
Com direito e dever de procurar interesses e revisar outros, ter alegrias e prazeres, sejam eles quais forem. Posso na velhice não ser um atleta na cama nem mesmo ter atração pela vida sexual, mas sou capaz de exercitar minha alegria com amigos, minha ternura com família, meu prazer em caminhadas, em jardinagem, em leitura, em contemplação da arte. Porém, numa sociedade em que sucesso e felicidade se reduzem a dinheiro, aparência e sexo, se somos maduros ou velhos estamos descartados. Cada dia será o dia do desencanto. Em lugar de viver estaremos sendo consumidos. Em vez de conquistar estaremos sendo, literalmente, devorados pelos nossos fantasmas – na medida em que permitirmos isso. Essa é a nossa possibilidade, a nossa grandeza ou a nossa derrota: viver com naturalidade – ou experimentar como um súbito castigo dos deuses – os novos 70 ou 80 anos. Algumas pessoas parecem tombar subitamente da juventude impensada para a velhice ressentida.
Foram apanhados desprevenidos. Nunca tinham pensado. Estavam desatentos.
Triste maneira de percorrer isso que é afinal o milagre da existência.
Imaginamos enganar a máquina do tempo, e suas engrenagens nos atropelaram em lugar de nos impulsionar. Para quem só pensa nos desencantos da maturidade, eu falo no encanto da maturidade. Para quem só sabe da resignação da velhice, eu lembro a possível sabedoria da velhice. É preciso seguir em frente com o meu tempo. Mas qual é, onde está, em que lugar ficou… o meu tempo?
(...)
Uma de minhas mais queridas amigas tem quase 90 anos, e espero pelo fim de semana para tomar com ela, em sua casa aconchegante, o uísque dos fins de tarde de domingo. 
Sempre temos assunto. Ela sabe de tudo, é informada, é interessada. Não fala preferencialmente de sua saúde, que já não é a de dez anos atrás. Comenta coisas de jornal, política, música. Pergunta pelos amigos. Já não vai ao cinema, mas, como é grande leitora, há mil assuntos para se falar. Ela gosta de rir e nos divertimos muito.
Pensando nela e em outras pessoas assim, questiono se ter 80 anos ou mais será realmente uma condenação ou se pode ser o coroamento de uma vida. Verdade que para haver um “coroamento” é preciso uma estrutura razoável para ser “coroada”. Generosa, de conquistas, de perdas mas igualmente de elaboração e acúmulo. Vivida com gosto e dor, com afetos bons e outros menos bons. O prato luminoso do positivo mais pesado do que o das coisas escuras.

E da juventude, o que você diz?”, me indagam. 
Não preciso falar tanto dela porque é cantada e louvada em todos os meios de comunicação, em todos os salões, em todos os quartos. Ela é deslumbramento e aflição, crescimento e inépcia, angústia e êxtase como todos os nossos estágios – apenas tudo ali está condensado em intensidade e brilho. 
Mas não acho que só ela vale a pena, só ela nos avaliza. Como não defendo a ideia de que a maturidade e a velhice sejam melhores. São diferentes. Com seus lados bons e ruins. 
Idade não dá aval de bondade e graça. O velho sempre bonzinho é um mito, a velhinha doce pode ser comum nos livros de história, mas na realidade é muito diferente.
(...)
Na idade avançada os interesses não precisam ou não podem ser os de antes: atividade, trabalho, dinheiro, viagens, conquistas. A certa altura mudam as possibilidades mas não se anula a pessoa. 
O bem-estar e a alegria residem nas coisas mais triviais: esse é um dos aprendizados que o tempo nos dá. Por isso mesmo, a essa altura é mais simples ser feliz. Novos afetos são possíveis em qualquer idade: sempre se podem estabelecer novos laços com pessoas, coisas, lugares, interesses
(...)
O tempo tem de ser sempre o meu tempo, para realizar qualquer coisa positiva e plausível – ainda que seja mudar de lugar a cadeira (até a de rodas) e ver melhor a chuva que cai. 
Uma velha senhora mora sozinha mas curte as amizades, a família, livros e músicas, a natureza. De vez em quando abre uma garrafa de champanha e faz um brinde, sozinha (não chorosa): a coisas boas que teve, coisas boas que tem, e uma ou outra que ainda pretende viver. 
Um dia lhe manifestei minha admiração por isso. Com um sorriso entre tímido e divertido ela respondeu que sempre havia o que celebrar. Era um privilégio estar viva tendo consciência disso, e sem graves problemas de saúde. Poder apreciar a luz da manhã, o aroma da comida, o perfume das pessoas. Comunicar-se, saber das notícias, que podiam ir do esporte à música, à política, ao… o que eu quiser. Participar ainda. 
Me enterneceu essa visão positiva de uma mulher ficando velha. Sua idade não era o ponto de estagnação, mas de fazer tranquilamente coisas que antes não podia. Não tinha mais de cumprir tantos deveres nem realizar tantas expectativas. “Acho que as pessoas são mais condescendentes comigo”, ela disse com um sorrisinho malicioso. “Devem pensar “ela está velhinha, coitada” e assim eu posso finalmente respirar fundo, e ser mais… natural.” 

Certa vez li uma história mais ou menos assim: Uma jovem corria para ficar em forma. Passou por uma velhinha que cuidava de seu jardim na frente da casa, e gritou ao passar:
Vovó, se eu fosse magra como você, não precisaria ficar aqui correndo desse jeito! 
A velhinha a fez parar com um sinal, aproximou-se dela, e lhe disse sorrindo: 
Filha, quando a gente fica velha como eu, tudo é mais fácil. A gente pode até se aposentar e gostar de cuidar das rosas.
Mas se sonharmos apenas com a viagem à Lua, cuidar das rosas pode parecer tedioso demais, e não cultivaremos coisa alguma. 
A vida é sempre a nossa vida, aos 12 anos, aos 30 anos, aos 70. Dela podemos fazer alguma coisa mesmo quando nos dizem que não. Dentro dos limites, do possível, do sensato (até alguma vez do insensato), podemos. 
Só seremos nada se acharmos que merecemos menos de tudo que ainda é possível obter.


*               *               *
 LYA LUFT, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006.

domingo, 17 de setembro de 2017

Pequenos atos de amor... - Eberth Vêncio

Pequenos atos de amor são fundamentais para tornar o mundo um lugar melhor para se viver

Eberth Vêncio -  em 'Revista Bula'


Qualquer coisa serve. Qualquer coisa de mais simples já serve. 
Qualquer pequeno ato impagável, de alguém por outro alguém, como pagar um almoço para quem tem fome, já servirá. 
Qualquer mínima atitude que releve a tradicional má fama do ser humano terá valia. 
Recaídas de ternura; como eu, por exemplo, aqui e agora. 
Apagar um foco de incêndio. 
Acender o brilho no olhar de um ser desencantado. 
Fazer palhaçada numa enfermaria. 
Demover um suicida. 
Ouvir. Ouvir. Ouvir e mais ouvir. 
Transmutar-se em árvore, ser todo ouvidos, ter a devida paciência para florescer e escutar a dramática história de vida de quem fazia planos para se matar em breve. 
Abreviar o sofrimento de um ser vivo em estado terminal. Concorrer com Deus mesmo querendo não ser Deus. Aliviar o sofrimento de alguém com o simples toque das mãos. 
Reduzir a velocidade nos atos cotidianos. 
Ir e vir. Sim. A garantia constitucional de ir e vir, porém, com mais calma, em ritmo baiano, se é que me entendem. 
Doar xícaras de sangue. 
Gastar o próprio tempo em prol do crescimento interior de terceiros. 
Tratar bem um desconhecido, como se vocês já se conhecessem de vidas pregressas. 
Rezar com a avó, no seu leito de morte, mesmo sendo um ateu. 
Ajudar um animal a parir. 
Ajudar uma mulher a parir. 
Trocar as roupas de um defunto, deixá-lo com a aparência impecável para o último adeus. 
Consolar um desafeto que perdeu a mãe. 
Adotar uma criança. 
Adotar um cachorro. 
Adotar um padrão de vida mais simples. 
Questionar as premissas existenciais desse mundo-cão. 
Servir na Cruz Vermelha. Atuar pelo Green Peace. 
Vestir azul e declamar poemas de Paulo Leminski na ala dos loucos varridos. 
Visitar os velhos de um asilo. 
Resgatar refugiados no mar do exílio. Pescar homens. 
Derribar muros. Cancelar cancelas. 
Abarcar, abarcar, abarcar. Arreganhar os braços e mais abarcar, abarcar, abarcar. 
Oferecer um emprego. 
Ceder um dos quartos. 
Vender um dos carros. 
Ir a pé ao trabalho. 
Barbear mendigos. Drenar furúnculos. 
Ensinar uma orquídea a brotar. 
Botar o bloco na rua. Organizar passeata. 
Desarrumar o quarto, partir. 
Ensandecer com flores o paladar dos colibris. 
Ler para crianças. Alfabetizar homens crescidos, de graça. 
Engrossar o coro dos descontentes que defendem a todo custo a preservação do meio ambiente. 
Ser meio diferente, circular por aí, completamente na sua, livre e fora do quadrado. 
Gastar todo amor que ainda resta em prol de quem está do seu lado.


*            *            *

domingo, 10 de setembro de 2017

Marina Colasanti - 'Lá fora, a noite'

Lá fora, a noite
Marina Colasanti

Arte:  P. Mitkov

É quando a família dorme
– inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha –
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.

*        *        *

No livro “Rota de colisão”. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993.

sábado, 9 de setembro de 2017

Aos que vierem... - Bertolt Brecht

Aos que vierem depois de nós
Bertolt Brecht (Tradução Manuel Bandeira)

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I
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
(...)

III
(...)
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

*            *            *

Rubem Braga - 'Homem ao mar'

Homem ao mar
Rubem Braga

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De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado a esconderá. Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem. 
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu".

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
*            *            *

- Rubem Braga, in "A Cidade e a Roça", 1953.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Da página"Semema"- Quem sou eu - Adriano Dias

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Tela do catalão Guim Tió Zarraluki
Adriano Dias - na página "Semema"


Quem eu sou, 
Neste espectro político, ou social, tão binário?
Sou o Otário.
Sou o que ganha pouco e paga muito imposto 
E se ganho mais, mais imposto pago,
E quando sonego, 
Sou pego
E pago em dobro.
Sou o otário que vota
Com argumentos vagos
E nem bem lembro em quem votei para cada cargo.
Ou não voto
E pago o pato em dobro,
Acusado de omisso por ambos os lados.
Eu sou aquele que não entende direito a situação,
Nem tampouco a realidade,
E escuta atento à defesa da tese dos convictos,
E todos me convencem de suas verdades tão bem articuladas,
Mas, no fundo,
Acabo achando esse povo mesmo é meio maluco.
Eu sou quem dá a segunda chance,
Quando é traído,
E acaba sofrendo de novo
E ainda acho que a culpa foi minha.
Eu sou o que compra mais caro
E quando vende não vale mais nada;
Eu sou quem rói o osso e carrega o piano,
Quem empresta o dinheiro que nunca volta e não esquento, juro!
Eu sou aquele que o radar flagra,
E só roubam meu carro quando não tem seguro!
Eu sou o atingido pela bala perdida,
Eu sou o que fica para apanhar, quando todo mundo corre
E
Quando acontecer a Revolução,
Não importa de que lado eu esteja, na briga,
Eu sou quem morre.

*           *          *