domingo, 15 de julho de 2018

Cinema - INGMAR BERGMAN

Ingmar Bergman e um mergulho 
no rio escuro do cinema 
Juliano Mignacca

"O filme é um sonho, como a música. 
Nenhuma arte passa à nossa consciência da maneira que o filme faz. 
Ele vai diretamente aos nossos sentimentos e toca o fundo de nossas almas."
Ingmar Bergman, 14 de julho 1918 - 30 de julho 2007 


O Sétimo Selo, 1956



Na cena final do filme Luz de Inverno, de Ingmar Bergman, há um diálogo entre o pastor e o ajudante da igreja no qual este especula que a dor física de Cristo teria sido insignificante se comparada à dor de quando ele gritou: “Deus, meu Deus! Porque me abandonastes?” 
Prossegue a personagem de Allan Edwall: “Jesus acreditou que tudo aquilo que ele havia pregado fora em vão. No momento antes de morrer, Cristo foi tomado pela dúvida. Certamente este deve ter sido seu maior sofrimento. O silêncio de Deus”. 
O trecho desse magnífico filme de 1962 ilustra um dos temas mais recorrentes na obra do sueco Ingmar Bergman : o silêncio, a afasia de Deus.
Luz de Inverno, 1962

As personagens são impotentes para resolver suas angústias. As convicções religiosas podem amenizá-las. Mas, se a fé é invenção do homem, como dizer que Deus também não é? Se ele existe, por que não se manifesta? Dúvidas. 
Qual certeza se tem do que vem após a morte? Como todo mundo, Bergman não pode responder a essas perguntas. Ainda assim, é interessante como seus filmes lidam de forma direta sobre essas questões. Sem metáforas. Não há rodeios. 
Da mesma maneira aborda outras tantas inquietações do homem. As existenciais em Morangos Silvestres (1957). A sensualidade, o desejo como motor da vida em Monika e o Desejo (1952). 
O filme Persona (1966), uma obra-prima, cuja densidade psicanalítica se soma a uma experimentação estética de grande refinamento. 
A busca pela identidade espiritual em Sétimo Selo (1956). 
Cenas de um Casamento (1973), produzido para a TV sueca, que retrata como a idealização da felicidade a dois pode ser repentinamente arruinada. É como um soco no estômago a frieza e a agressividade dos diálogos no processo de separação do casal. 
Sua obra é aberta às investigações da vida. Por isso tem ressonância em qualquer lugar e qualquer período. É atemporal. 


Persona, 1966

É improvável refletir sobre Bergman algo que ainda não tenha sido dito pela crítica ou observado pelos amantes da sétima arte. Há milhares de textos sobre o autor e sua obra. Até mesmo porque são mais de 50 filmes numa carreira de 60 anos. 
Por incrível que pareça, teve uma vida profissional ainda mais fecunda com o teatro. Produziu três vezes mais para essa outra arte. Foi um artista completo. Diretor e roteirista, tinha enorme capacidade de extrair atuações impressionantes de seus atores. Trabalhava quase sempre com os mesmos, todos excepcionais, diga-se de passagem.

Descobriu mulheres lindas para papéis marcantes. Como não se apaixonar por elas? Ele próprio não pôde escapar. 
Relacionou-se com a belíssima Bibi Andersson e com Liv Ullman, com quem  fez 10 filmes e uma filha. Uma das atrizes mais emblemáticas da historia do cinema. 
Conquistou também a estonteante Harriet Andersson, que trabalhava como ascensorista quando a conheceu. Para que ela atuasse, realizou Monika e o Desejo. O filme causou enorme escândalo em festivais de cinema, sobretudo na América do Sul, primeiro lugar do mundo onde seus filmes teriam ganhado reconhecimento, antes mesmo que na Suécia.
Dirigiu a espetacular Ingrid Thulin e Kari Sylwan, que trabalhou em Gritos e Sussurros e Face a Face
Todas elas alternando entre papéis frágeis e densos. Ora protagonistas, ora como coadjuvantes. 
E como não mencionar os atores, cujas atuações certamente permanecem latentes na memória dos cinéfilos. Erland Josephson, Gunnar Björnstrand, Max Von Sydow…


Harriet Andersson, Monika e o Desejo, 1952

Ingrid Thulin e Max Von Sydow, A Hora do Lobo, 1968


Liv Ullman e Kari Sylwan, Gritos e Sussurros, 1972


Em julho o cineasta completou aniversário de vida e morte. 
Será sempre oportuno reverenciá-lo. Afinal, é um dos maiores artistas da história do cinema. 
Penetrar na obra de Bergman é como um mergulho num rio à noite, na escuridão das incertezas. A diferença é que no rio, quando necessário, é possível emergir em busca de luz e segurança. Com o cinema de Bergman, dificilmente se sairá ileso.


*            *            *




quinta-feira, 12 de julho de 2018

CARPE DIEM - Antônio Cícero

Da página Revista PROSA VERSO & ARTE

“Carpe diem”
– por Antônio Cícero (*)


Um dos poemas mais famosos do poeta romano Horácio é a ode 1.11. Nela, dirigindo-se a uma personagem feminina, Leucônoe, o poeta lhe diz que não procure adivinhar o futuro:


Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.

[Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.]



A frase “carpe diem” tornou-se um aforismo epicurista e um tema poético a que inúmeros poetas recorrem.
No Brasil, por exemplo, Gregório de Matos, imitando um famoso poema de Góngora, diz, em soneto dedicado a uma “discreta e formosíssima Maria“:


Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o Dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

O soneto mencionado de Góngora, uma obra-prima, é o seguinte:

Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano;
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

no sólo en plata o viola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

O poeta Mário Faustino escreveu o seguinte belíssimo soneto chamado Carpe Diem:


Que faço deste dia, que me adora? 
Pegá-lo pela cauda, antes da hora 
Vermelha de furtar-se ao meu festim? 
Ou colocá-lo em música, em palavra, 
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra? 
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim 
Tremenda noite deixa se ela ao leito 
Da noite precedente o leva, feito 
Escravo dessa fêmea a quem fugira 
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre 
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre. 
Já nele a luz da lua — a morte — mora, 
De traição foi feito: vai-se embora.)

Mas Horácio, em outra ode igualmente famosa, a 3.30, afirma que suas Odes sobreviverão às milenàrias pirâmides:


Erigi um monumento mais duradouro que o bronze, 
mais alto do que a régia construção das pirâmides 
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo 
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte 
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei 
no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou, 
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos. 
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
Melpómene, com o délfico louro.

[Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens, dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex:
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.]

A própria admiração que a ode continua a suscitar, parecendo confirmar o vaticínio de Horácio, aumenta essa admiração.

Ou seja, enquanto na ode 1.11 o poeta recomenda ignorar o futuro, na ode 3.30 ele exalta o futuro dos seus poemas.
Que haja uma contradição aqui não é nenhum problema. Diferentemente dos textos teóricos, os poéticos podem contradizer-se, ainda que sejam do mesmo autor, sem que, com isso, sofram o menor arranhão.
Se ambos forem bons, então, ao ler o primeiro, concordamos inteiramente com ele; ao ler o segundo, é com este que concordamos inteiramente, sem deixar de continuar a concordar com o primeiro. Ambos podem ser profundamente verdadeiros ou reveladores.
Um poema é capaz de contradizer a si próprio e ser uma obra-prima: ele pode até ter que se contradizer, como o “Odeio e Amo” (“Odi et amo”), de Catulo, para vir a ser uma obra-prima.

De todo modo, o poeta Haroldo de Campos escreveu um magnífico poema, intitulado Horácio Contra Horácio, que diz:


ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide 
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo 
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas 
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos 
o instante a ruína a desmemória

Não só, portanto, aos poetas é lícito contradizerem-se uns aos outros ou a si próprios, tanto em diferentes poemas quanto no mesmo poema, como tais contradições podem constituir o motivo de um poema.

Observo, porém, que a ode 1.11 pode também ser lida de modo que não necessariamente contradiga a ode 3.30.
Digamos que a concepção de poesia subjacente à ode 3.30 seja que, dado que o grande poema vale por si, ele é, em princípio, indiferente às contingências do tempo. Sendo assim, não se concebe um tempo em que tal poema venha a caducar.

Logo, mesmo reconhecendo a possibilidade de que os textos se percam, talvez a verdadeira razão do orgulho de Horácio seja o fato de que suas odes intrinsecamente merecem existir. Isso quer dizer que elas merecem existir AGORA.

E merecem existir agora, seja quando for agora: seja quando for que alguém diga ou pense: “agora”. É desse modo que, precisamente ao celebrar “o instante a ruína a desmemória”, o poema se faz eterno agora. Nesse sentido, apreciá-lo é colher o dia: “carpere diem”.


*            *            *

(*)Artigo do poeta Antônio Cicero foi originalmente publicado 6 de fevereiro de 2010, na coluna do autor na “Ilustrada”, da Folha de São Paulo.

Poeta romano Horácio
Quinto Horácio Flaco (latim: Quintus Horatius Flaccus – 65 a.C.-8 a.C.). Poeta lírico, satírico e filósofo latino. Horácio nasceu em Venúsia, Itália, no ano 65 a. C. Filho de um escravo liberto que exercia a função de cobrador de impostos, fez seus estudos em Roma onde foi aluno de Lucio Orbílio Pupilo. Aperfeiçoou seus estudos literários em Atenas.

Estabeleceu-se em Roma como escriba de questores. Foi amigo do poeta Virgílio, que o apresentou a Caio Mecenas que o levou para integrar os círculos literários, tornando-se o primeiro literato profissional romano. Cultivou diversos gêneros literários principalmente a ode, em que utilizou os moldes gregos. Procurou sempre imprimir um cunho nacional às suas produções.

Seu primeiro livro conhecido foi “Sátiras” (35 a.C.). Sua obra prima, são os três livros de poemas líricos, “Odes” (23 a.C.), complementados por um quarto volume escrito em 13 a.C. Gozou de grande prestígio junto ao imperador Augusto e para ele compôs “Carmem Saeculare” (20 a.C.), um hino epistolar de caráter litúrgico dedicado a Apolo e Diana. Sua poesia escrita em forma de sentença teve muitas delas transformadas em provérbios. Faleceu em Roma, Itália, no ano 8 a.C.
***

sábado, 30 de junho de 2018

Zélia Duncan - Todos os verbos



Todos os verbos
Zélia Duncan  

Errar é útil
Sofrer é chato
Chorar é triste
Sorrir é rápido
Não ver é fácil
Trair é tátil
Olhar é móvel
Falar é mágico
Calar é tático
Desfazer é árduo
Esperar é sábio
Refazer é ótimo
Amar é profundo

E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo .(bis)

Abraçar é quente
Beijar é chama
Pensar é ser humano
Fantasiar também
Nascer é dar partida
Viver é ser alguém
Saudade é despedida
Morrer um dia vem
Mas amar é profundo

E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo

*         *         *

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Da página 'Obvious'

MONTAIGNE E O TEMPO DESPERDIÇADO
Fellipe Torres

Escritor e filósofo do século 16 foi um mestre dos assuntos realmente pequenos (e, por isso mesmo, muito grandes). Analisou a ociosidade, as cócegas, a bebedeira, o sono, o sexo, a flatulência.

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Há quem considere perda de tempo acompanhar os comezinhos alheios nas redes sociais. Estão certos. Mas tempo foi feito para se perder, mesmo, oh gente! 
Com moderação, até bula de remédio vale a pena ser lida (há reações adversas para quase tudo na vida). 
Bem antes da internet, lembrem-se, já éramos seres sociais, comentaristas do cotidiano, prosadores. Já “curtíamos" e “compartilhávamos" belos pratos de comida, nascimento de filho, papo com taxista, coração partido, tombo na calçada, missa de sétimo dia, o ponto de vista e a experiência de vida alheia.

Um mestre dos assuntos realmente pequenos (e, por isso mesmo, muito grandes) foi Michel de Montaigne, escritor e filósofo do século 16, considerado o inventor do gênero ensaio. 
Nada era desimportante para a pena do francês. A sua vasta obra analisou a ociosidade, as cócegas, a bebedeira, o sono, o sexo, a flatulência. A beleza das prostitutas de Florença. O cheiro do gibão, a coceira na orelha, o gosto do vinho. Tudo era digno de investigação. 
Assuntos tratados com tanta seriedade quanto a guerra, a tristeza, a morte. 
Fez perguntas como: será que os elefantes têm religião?

O mais famoso de seus ensaios trata do forte laço de amizade com Etienne de La Boétie, relacionamento que durou apenas cinco anos, antes de ser interrompido pela morte do colega conselheiro, autor de um tratado contra a tirania. 
Montaigne escreveu pela primeira vez sobre o amigo na mesma época em que começou a produzir seus ensaios, em 1572. 
Como possuía o hábito de revisar e alterar seus escritos, acrescentou novas ideias ao texto pelos próximos 20 anos. Na primeira versão, lia-se: “Se pressionado a dizer por que eu o amava, sinto que isso não pode ser expresso”. Depois, e aos poucos, incluiu a frase: “Exceto dizendo: porque era ele; porque era eu”.

Fantástica introdução aos ensaios e à biografia de Montaigne é a obra Quando brinco com minha gata, como sei que ela não está brincando comigo? (Difel, 2013), de Saul Frampton. 
Por meio dela, acompanhamos o pensador em sua investigação sobre a experiência de si próprio. 
O trabalho de valorização do comum e ordinário, a importância do aqui e agora. 
No livro, Frampton classifica os escritos de Montaigne como a "primeira representação sustentada da consciência humana na literatura ocidental”. Ou seja, ele foi pioneiro em dar atenção à experiência real de viver. Buscar lições morais nas pequenas coisas.
O questionamento que dá nome à publicação de fato foi considerado por Michel de Montaigne. 
A frase sobre brincar com a gata ficou famosa como uma expressão do ceticismo do autor (será que ela é mesmo o animal de estimação dele, ou seria o contrário?). 
A escrita de Montaigne, aliás, é repleta de animais, baseada no extenso conhecimento do escritor sobre pecuária, agricultura e caçadas. Ele pondera sobre o canto dos galos, a imponência dos cavalos, o hábito de “conversarmos” com cachorros, a alimentação das andorinhas, a organização das abelhas e das aranhas, a automedicação das tartarugas e das cegonhas. Nessas observações, misturam-se fatos, histórias absurdas e fábulas.

Entre as características mais importantes dos ensaios de Montaigne, está o fato de serem extremamente humanos, preocupados com o autoconhecimento, com as semelhanças e diferenças entre as pessoas. 
Ao lado de 'Dom Quixote' e das peças de Shakespeare, compõem aquela que é considerada uma das mais importantes obras literárias da Renascença. São mais de cem textos, ora específicos, ora genéricos.

Embora alguns sejam datados, outros soam extremamente atuais, e inspiram a sociedade até hoje. 
É o caso de seus pensamentos sobre educação, em que critica o apego demasiado aos livros e à “decoreba”. 
Para o filósofo, esse modelo exige muito tempo e esforço, o que “afastaria os jovens dos assuntos mais urgentes da vida”
Afinal, a educação deveria formar indivíduos aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à vida prática. Essa perspectiva humanista, defensora de uma educação voltada para a ação e para a experiência, é resumida em uma frase: “Entre os estudos, comecemos por aqueles que nos façam livres”.

No seu volumoso trabalho, Montaigne desvia de razões definitivas, de questões centrais levantadas pela filosofia moderna (surgida 30 anos depois dele, com Descartes). 
Está mais interessado no conhecimento empírico, nas pequeníssimas coisas da vida. Fica a meio caminho entre o individualismo e a descoberta do outro. 
Não busca verdades indubitáveis, mas se faz perguntas simples e eficazes, como: “Terei desperdiçado o meu tempo?”
Uma possível resposta está nas primeiras páginas dos Ensaios: “Portanto, leitor; sou eu o próprio assunto do meu livro. Não há razão para você gastar seu tempo livre com um assunto tão frívolo e fútil. Então, adeus. Montaigne, nesse primeiro dia de março de mil quinhentos e oitenta”.

*            *             *

Publicado originalmente no suplemento literário 'A Palavra', da Academia Pernambucana de Letras.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Confidência do Itabirano



Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;]*
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

*            *            *

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Maneira deAmar - Drummond

Maneira de Amar
Carlos Drummond de Andrade



Resultado de imagem para regando um girassol

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. 
Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. 
O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.

Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. 
Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.

O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. 

- 'Você o tratava mal, agora está arrependido?'
- 'Não,' respondeu, 'estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava'. "


*            *            *

Em ' Contos plausíveis'.  Rio de Janeiro: J. Olympio Editora, 1985.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Falando em Belchior

Da página 'Pensar Contemporâneo' - Via brasil247

As veias rompidas da vida e da América de Belchior
Ricardo Flaitt


Não foi uma veia aberta que decretou a morte de Belchior. Em realidade, foram as veias abertas da América Latina e as veias do nosso povo, que se romperam diante de nossa indiferença com seus grandes artistas. 
Belchior, poeta cearense, muito além da questão do seu auto-exílio, fato é que só o redescobrimos na ausência, quando já não dava mais, quando tudo era uma frase no Facebook ou uma citação no twitter.

Belchior, que transitou do particular ao universal, em suas letras cíclicas, atemporais, porque falam do homem, da vida, do mundo, das coisas e dos seres, sintetizou o nosso passar pela Terra que, exceto os penduricalhos, é sempre sonhar e lutar por um mundo melhor, em busca da realização dos desejos individuais, mas em sintonia fina com uma evolução coletiva, em uma simbiose dialética entre o ser humano e a sociedade em que ele convive.

Sendo a poesia a arte de condensar milhões de sentimentos em poucos versos, em suas letras, Belchior sintetizou os anseios de uma geração, a dos anos 70, que lutava contra a ditadura e empinava o nariz para o alto em busca de oxigênio de liberdade, que tomava porrada, que era torturada, que reagia frente à opressão e à censura.

Vítima da transformação do mundo, à medida que o país foi se democratizando, a partir da década de 80, Belchior, gradativamente foi relegado a uma situação de um produto obsoleto, um artista que todo mundo reconhecia, que todos o colocavam na estante dos maiores, mas que já não encontrava sintonia nas rádios. 
Ele mesmo disse, em “Velha Roupa Colorida”: “O que algum tempo era jovem e novo, hoje, é antigo…” Assim ficou Belchior.

As transformações do mundo oitentista, que por um lado revelaram bandas extraordinárias como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Titãs, dentre tantas outras, no campo da sociedade, em contrapartida, dava início a um processo de potencialização da idiotização musical, que se consolidou na década de 90, com axés e sertanejos com duplos sentidos em suas conotações sexuais.

“Eles venceram, e o sinal ficou fechado para Belchior”. 
Falar da vida, em ritmo de poesia e profundidade de filosofia era demais para uma juventude que não mais enxergava o inimigo da ditadura e começou a sofrer a pior forma de dominação: a do pensamento, da pasteurização, da massificação.

E nós não resistimos. Não fomos capazes de compreender o momento, nem de interceder. 
O povo o esqueceu, os antigos companheiros parecem também terem se unido. Como consequência, gênios como Belchior foram fenecendo diante de nossos olhos.

Diante da morte de Belchior, coloquemo-nos a pensar, então, quando morrerem outros grandes como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, só para citar os mais notáveis.

É inevitável o questionamento: o que será da música brasileira quando acabar essa geração? Qual música ouviremos, ou melhor, nesses tempos, a frase mais adequada é, qual música CON(sumiremos)?

Se a música, literatura, cinema e artes em geral são representações de um povo, nós seremos explicados por grupos como “É o Tchan”; sertanejos com letras sexuais ou de uma construção rasteira, oca, superficial, que ainda são misturados com funk, pop, arrocha e eletrônica; por funks/pancadões com letras que beiram a imbecialidade? Qual seria a música do nosso povo?

Evidente que não dá para amarrar o tempo no poste e seria idiotice negar e respeitar as novas formas de manifestação cultural, no entanto, o que se verticaliza e nos assusta com a morte de Belchior é que ficou explícita a forma devastadora de como nós tratamos nossos grandes artistas.

Em troca de suas grandes letras e músicas, que compartilharam visões de mundo, que transformaram as pessoas por dentro, que criaram ângulos nos olhos para ver, encantar-se e questionar o mundo e seus sistemas, em troca de sua sensibilidade nós lhe presenteamos com o esquecimento, a rejeição, como um produto descartável.
Gênio que era, sempre via antes:

“Tudo poderia ter mudado, sim,
pelo trabalho que fizemos – tu e eu.
Mas o dinheiro é cruel
e um vento forte levou os amigos
para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos,
e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não.”
(Não Leve Flores, Alucinação / 1976).

Belchior foi morto por mim, por você, por nós. Perdoe-nos Belchior, e justo com você, que no álbum “Alucinação” disse que só queria amar e mudar as coisas.

*            *             *

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Carta a Ofélia- Fernando Pessoa

Carta a Ofélia  (trechos)

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“ Se a vida, que é tudo, passa por fim, 
como não hão-de passar o amor e a dor, 
e todas as mais coisas, 
que não são mais que partes da vida?
(...)
Quanto a mim o amor passou
mas conservo-lhe uma afeição inalterável, 
e não esquecerei nunca (...)

Peço que não faça como gente vulgar,
que é sempre reles,
e não me volte a cara quando passe por si
nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor.
Fiquemos um perante o outro
como dois conhecidos desde a infância
que se amaram um pouco quando meninos
embora na vida adulta sigam outras afeições.
Conserva nos escaninhos da alma, 
a memória desse amor antigo e inútil.”
**
Trechos de carta de FERNANDO PESSOA à sua amada Ofélia, em 29 de novembro de 1920.
*            *            *

domingo, 6 de maio de 2018

Sugestão Leitura - "O apanhador no campo de centeio"

O Apanhador no Campo de Centeio
por que ler a obra prima de J.D. Salinger?
Amanda Leonardi - em 'Matérias Literárias', página 'Prosa, Verso e Arte'

Resultado de imagem para O apanhador no campo de centeio edição recente

Publicado em 1951, o romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, tornou-se um clássico da literatura americana. 
O livro conta sobre a vida de um jovem de dezessete anos chamado Holden Caulfield, que vive em Nova York, já foi expulso de várias escolas, não consegue ter interesse em nenhuma das matérias da escola e é de certa forma bem rebelde e um pouco inocente ao mesmo tempo. Alguns podem julgá-lo imaturo por suas atitudes inocentes, ou talvez pela aparente ausência de praticidade em seus ideais, mas Holden Caulfield é, na verdade, apenas um jovem que não consegue encontrar seu lugar no mundo principalmente por discordar da forma superficial como todos lhe parecem.

O livro é narrado em primeira pessoa, portanto, pode-se praticamente ouvir os pensamentos de Holden Caulfield ao passo em que se avança a leitura do romance. 
O jovem conta não sua vida toda, mas um período desde que foi expulso de sua última escola e passou por uma série de acontecimentos que o fizeram crescer e compreender melhor o mundo e a si mesmo. 
O romance começa com Holden já dizendo que tudo que será narrado foram fatos que ocorreram há um ano – ele tinha dezesseis quando os vivenciou e nos conta já com dezessete, depois de ter sido internado em uma instituição de reabilitação.

Resumindo, é um romance que trata de crescimento, sim, mas não é para adolescentes, como alguns poderiam julgar pelo fato de o protagonista ser um adolescente. É um livro que trata de questões existenciais como encontrar sua identidade no mundo, de autoconhecimento, de uma busca por algum significado na vida. Ou seja, é um livro para todos.

O estilo do romance de Salinger é altamente inovador: nele não temos um narrador em terceira pessoa ou um simples narrador em primeira pessoa nos contando as coisas como elas ocorreram de forma cronológica e objetiva – temos um narrador em primeira pessoa realmente de dezessete anos, que realmente representa o protagonista, nos contando sobre sua vida de forma pessoal e muitas vezes subjetiva, com uma linguagem que um adolescente usaria de fato. 
O texto é marcado pela constante presença de gírias típicas da época em que o livro foi escrito – entre as décadas de 40 e 50. Porém, não é somente a presença das gírias que torna o vocabulário jovial e vívido: o texto flui de uma forma natural, soa como os pensamentos de um jovem, sem nenhuma construção forçada, nenhuma frase de efeito mais rebuscada. O que não significa que o romance não tenha frases marcantes e um estilo literário único – praticamente lírico em algumas partes, pois Holden é sensível, inocente (apesar de rebelde e desregrado), vê o mundo de uma forma muito única, o que o torna extremamente carismático.

Salinger conseguiu construir o personagem de forma tão detalhada que quase parece que Holden é real: o jovem tem um estilo próprio de pensar e falar, tem manias próprias, tem uma história de vida que, apesar de não contada de forma cronológica, nos é mostrada com um recorte sabiamente construído, nos revelando importantes partes do passado do personagem através de suas memórias. E principalmente: o psicológico de Holden Caulfield é muito bem desenvolvido.

Ele não é um personagem plano, somente bom ou somente mau, certo ou errado, não é um estereótipo; ele é um adolescente ao mesmo tempo inocente, sensível e rebelde, sem rumo, sem um lugar na sociedade. Holden não é apenas um retrato fixo, pintado com palavras imóveis, ele é um ser humano construído com as palavras de Salinger, com uma grande profundidade psicológica que vai além da superfície limitada de muitos personagens. Ele é praticamente uma pessoa que nasceu na literatura, um personagem altamente vívido, cujos pensamentos e ações são justificados por sua personalidade.

Portanto, utilizando  uma linguagem leve, praticamente coloquial, para construir a mente de um jovem, Salinger inovou, escrevendo uma obra única que definitivamente marcou época e influenciou gerações. 
A importância da obra é tanta que não se limita à literatura: chega à cultura popular em geral, sendo muito comentada em filmes, músicas, e até teorias conspiratórias, como foi o caso do assassino de John Lennon. O homem disse ter lido O Apanhador no Campo de Centeio e isso o influenciou a assassinar um ser humano. Obviamente, o homem não compreendeu bem a significado dessa profunda obra de Salinger.

O que nos leva a pensar o que pode haver de tão significativo nesse romance, para chegar ao ponto de que, se mal compreendido, pode chegar a causar um impacto tão forte no raciocínio de uma pessoa – não que possa transformar alguém em um assassino, mas pode causar diferentes impactos em diferentes pessoas. Entretanto, se bem compreendido, pode mudar a forma de pensar de quem o lê, libertando o leitor e não o levando à prisão.

O Apanhador no Campo de Centeio é um clássico da literatura americana, leitura exigida em muitos colégios americanos, estudado em cursos de literatura por todo o mundo. 
Por que tantos estudos sobre um livro que narra os pensamentos de um adolescente perdido? Porque muitos se identificam com o protagonista, seja por também estarem perdidos, sem lugar na sociedade, sem nenhum rumo planejado, seja por serem contra a superficialidade que Holden tanto odeia ou porque em algum lugar dentro de cada um ainda haja algo da inocência que Holden tanto sonha em preservar, salvando as crianças de caírem do campo e centeio.

Dito isso, ainda há mil motivos por que um ser humano precisa ler O Apanhador no Campo de Centeio. E talvez ler não seja, ainda, a palavra certa: o correto seria dizer que todo bom leitor – ou ser humano com qualquer questionamento sobre si mesmo ou o mundo onde vive – precisa saborear a obra prima de Salinger, prender-se a cada palavra, compreendendo todo o significado deste clássico. Ou os significados, pois todo bom clássico há de ter diferentes possibilidades de interpretação e este não é uma exceção neste ponto.
(...)
O Apanhador no Campo de Centeio é um romance altamente subjetivo, cujo significado acaba sendo muito pessoal para cada leitor, talvez isso tenha ocasionado o fato de um assassino dizer que se identificou com Holden Caulfield e por isso cometeu um crime. 
O fato é que as buscas de Holden por si mesmo pela cidade de Nova York representam a busca dele em si mesmo, o que todos conseguem  identificar se não se sentem confortáveis no mundo onde vivem. 
Esse é um livro capaz de fazer o leitor sentir que pertence a este mundo, que existem mais pessoas tão perdidas quanto ele, como Holden.

O romance é capaz de despertar no leitor um pouco de apanhador no campo de centeio realmente, algo desse sentimento do protagonista que é inerente a todo ser humano, porém muitos ficam cegos com a superficialidade do mundo “adulto” – o mundo cheio de ordem e ambições imposto aos adultos – e acabam achando Holden inocente demais, alguns até chegam a julgá-lo imaturo. Porém, conceitos de maturidade ou imaturidade não são realmente o ponto mais importante do livro.

É, sim, uma trajetória de crescimento, mas não em direção à idade adulta apenas mas em direção a si mesmo, em direção a se conhecer e aceitar-se como indivíduo, como ser humano, e não se contentar a ser só mais um adulto vazio em uma sociedade superficial. 
Mas Holden Caulfield também não é perfeito, não é um jovem sonhador, inocente, uma espécie de Peter Pan adolescente, embora o seu desejo de salvar as crianças do mundo adulto de certa forma o assemelhe ao personagem da literatura infantil.  Holden é um jovem que está crescendo, está se tornando adulto, portanto, apesar de odiar o mundo superficial destes, ele não é um menino inocente: Holden mente, adora mentir até sobre o próprio nome, ele mata aulas, briga com colegas, é expulso de escolas, mente para os pais.

Sintetizando tudo isso: Holden Caulfield é um adolescente de carne e osso, que tem princípios e defeitos. O mais interessante nesta obra é exatamente isso – como o protagonista consegue ter uma personalidade ao mesmo tempo tão puxada para dois extremos, o lado inocente e o lado rebelde, e isso ter uma verossimilhança tão grande. 
Porém, vendo por outro ponto de vista, tal fusão de extremos faz muito sentido de fato: a sociedade que o cerca é fria, cega, presa a correntes que os mantém no nível aceitável socialmente, para aparentar que são felizes, apesar de, por trás das máscaras, serem todos insatisfeitos, presos a eles mesmos, acomodados em sua queda. Todos que seguem as regras da sociedade superficial têm um lugar nesta, mesmo que seja em uma queda, eles têm um mapa de suas mentes, por isso parecem – talvez realmente sejam – tão vazios como Holden os vê.

Já Holden é o contrário de tudo isso, o que não quer dizer que ele também não se sinta em queda, preso também de alguma forma. Tanto é que o jovem realmente reclama de tudo e de todos, e são poucas coisas, geralmente coisas simples, pouco notadas pela maioria, que o agradam. 
Mas Holden deseja a liberdade, e a encontra em coisas bem simples como ser capaz de observar o lago congelado e divagar a respeito do destino dos patos, para onde eles vão quando o lago congela? – imagina Holden. Tal divagação do protagonista pode ser um símbolo para o seu temor de para onde vai a inocência, a essência do ser humano quando sua alma congela. 
O jovem Holden é um símbolo da quebra do adolescente com o mundo adulto, da tentativa de construir um mundo novo com a nova geração, de uma tentativa de salvar o futuro, de impedir que as crianças caiam do campo de centeio e se tornem também adultos frios, vazios, consumistas e superficiais.

Por isso todos precisam ler e reler O Apanhador no Campo de Centeio, para lembrar de Phoebe no carrossel, aos dez anos de idade, dizendo que está muito velha para isso mas se divertindo como se tivesse seis anos. 
Para lembrar que não precisamos deixar de ser nós mesmos depois dos vinte, dos trinta, dos quarenta, ou até dos oitenta anos. 
Para lembrar que não é preciso, na verdade, se preocupar tanto com a queda do campo de centeio, pois o próprio protagonista acaba por compreender como é possível sobreviver a tal queda. 
Esse é um livro que pode ajudar o leitor a se encontrar, caso esteja perdido, que pode fazer refletir sobre como se caiu do campo de centeio e por quê – e o mais importante: como sobreviveu a tal queda.

E se nenhum dos motivos já citados neste artigo fizerem sentido para algum leitor, ainda assim a leitura do livro é tão acolhedora que os pensamentos do jovem Holden é praticamente uma forma de se sentir em casa. O personagem de Salinger é tão vívido e carismático que muitas vezes parece que suas palavras não estão somente escritas no papel, mas gravadas na alma de quem o lê. 

Ler esse livro é como conversar com Holden, é como conversar com Salinger. Porque Salinger é um daqueles autores que dá vontade de, depois de terminar de ler um livro seu, tê-lo como um grande amigo para poder ligar e conversar a hora que quiser, como Holden diz que ocorre, raramente, com alguns autores.
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domingo, 25 de março de 2018

O Outono -Flora Figueiredo


O Outono
Flora Figueiredo

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Meio-tom. 
Bom termo entre os excessos, 
equilibrado confesso, 
pondero entre extremos. 
Outono, 
coleciono trechos de poesia 
tirados de cores e de brisas, 
do peito da tarde que se descamisa 
em seu desfecho. 
Da maturidade deixo a fruta 
que se queda pronta sobre a terra 
quando minha temporada já se encerra 
e cede vez à estação substituta.
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- Em  "Estações". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995


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segunda-feira, 19 de março de 2018

'Meditações', JOHN DONNE

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“Talvez aquele para quem estes sinos dobram esteja tão mal que ele sequer sabe que dobram por ele. E talvez eu possa me achar muito melhor do que sou, como fazem aqueles que me rodeiam, e ao ver o meu estado podem tê-lo feito dobrar por mim, e eu nem saiba disso. (...)”

“...toda a humanidade provém de um autor, e forma um único livro; quando alguém morre, um capítulo não é arrancado do livro mas traduzido para uma linguagem melhor, e cada capítulo deve ser assim traduzido (...)”

“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
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JOHN DONNE – poeta inglês (1572-1631) in ‘Meditações’

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domingo, 18 de março de 2018

De 'Revista Bula'
EULER DE FRANÇA BELÉM, em IDEIAS


Professor de Stanford, Niall Ferguson afirma que a polarização nas redes sociais está levando a sociedade a um estado de declínio que só pode ser qualificado de ‘incivilidade’

Umberto Eco (1932-2016) disse que as redes sociais possibilitaram o surgimento — e quiçá uma hegemonia — de uma “legião de imbecis”. Antes, concentrados em bares, tomando vinho ou cerveja, “falavam sem prejudicar a coletividade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. O escritor e filósofo italiano sugere que os jornais filtrem de maneira rigorosa as informações divulgadas nas redes sociais, porque, no geral, não são confiáveis.

O historiador escocês Niall Ferguson — autor de livros seminais sobre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, além de obras sobre a decadência do Ocidente (é autor de um livro heterodoxo no qual apresenta a tese de que o colonialismo não foi lucrativo para a Inglaterra. Trata-se de “Império — Como os Britânicos Fizeram o Mundo Moderno”, Crítica, 448 páginas, tradução de Marcelo Musa Cavallari) — segue o mesmo caminho de Umberto Eco, acrescentando sua própria interpretação. O professor de Stanford afirma que a polarização excessiva nas redes sociais está levando a sociedade “a um estado de declínio que só pode ser qualificado de “incivilidade”.

Suas interpretações foram colhidas pelos repórteres Ana Paula Ribeiro e Gustavo Schimitt, de “O Globo”. “A minha preocupação hoje é que a sociedade civil foi tão erodida pelo advento das redes sociais que não podemos mais falar em sociedade civil. Os Estados Unidos se tornaram uma sociedade não civilizada. A polarização se tornou um veneno. Eu me pergunto se a civilização não está se tornando algo diferente, em uma não-civilização ocidental”, critica Niall Ferguson. No livro “A Grande Degeneração — A Decadência do Mundo Ocidental” (Planeta do Brasil, 128 páginas, tradução de Janaina Marcantonio), o autor não arrola as redes sociais como um dos fundamentos da ruína do Ocidente.


Umberto Eco, escritor e filósofo: “Os imbecis agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”

Dirigentes do Facebook e do Twitter não estão, sugere Niall Ferguson, minimamente preocupados com a extensão do dano que está acontecendo no tecido social. Quanto mais barbárie, produzida ou não pela tensão ideológica, mais pessoas circulam pelas redes, aumentando seus ganhos financeiros. “Uma das consequências das redes sociais gigantes é a polarização. As pessoas se agrupam em grupos de esquerda ou de direita. O que notamos é um maior engajamento em tuítes de linguagem moral, emocional e até obscena. As redes estão polarizando a sociedade, produzindo visões extremistas e fake news”, frisa o historiador.

Há quem compare Donald Trump a Ronald Reagan, a Bush pai e a Bush filho. Apesar das limitações dos três, notadamente dos dois Bush — Reagan revelou-se um estadista muito superior ao que esperava a intelligentsia internacional —, Trump é muito mais despreparado. Sua visão de política global é unicamente americana, não incorpora nem parte das ideias de seus “aliados”. Império que se comporta tão-somente como nação isolada, como Estado fechado, não tem futuro, às vezes nem presente. Por que um político com escassa visão mundial se tornou presidente dos Estados Unidos? É provável que as redes tenham contribuído para a vitória de Trump. Pode-se não gostar de Hillary Clinton, mas não há dúvida de que é mais qualificada do que o presidente republicano. A vitória de Trump resulta da hegemonia do provincianismo dos Estados Unidos — país que é, a um só tempo, cosmopolita e caipira.

A rigor, Niall Ferguson não discute isto, mas sublinha que a exposição de Trump era muito maior do que a de Hillary Clinton — inclusive em Estados considerados democratas. Tudo indica, portanto, que as redes sociais funcionaram, sobretudo para o candidato republicano. Niall Ferguson afirma que os analistas de campanhas eleitorais devem ficar atentos às redes sociais. Porque o comportamento dos candidatos, atraindo (ou não) seguidores e engajamento, pode ser decisivo no resultado do pleito.

Insensatez
Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apresenta uma tese ligeiramente diversa da de Niall Ferguson. O professor diz que, mais do que incivilidade, a polarização está gerando insensatez nas redes sociais. “A tendência é que discursos exacerbados sejam favorecidos nas redes. E isso vai produzindo o efeito bolha: as pessoas que fazem parte delas dentro das redes são governadas por algoritmos e não pelo discernimento racional. O que é um paradoxo, porque tudo o que o Brasil precisa neste momento é de sensatez. Mas parece que os ventos favorecem a insensatez”, afirma o mestre. Não é uma visão apocalíptica, mas também não é integrada. É moderada.


Eugênio Bucci: contrariando Ferguson, o professor da USP aposta mais em insensatez do que em incivilidade
Ao contrário do que diz Niall Ferguson, mais apocalíptico, Eugênio Bucci sugere cautela, pois não aposta que as redes sociais vão corromper a democracia no Ocidente. “As redes não podem ser definidas como mal absoluto. É bom lembrar que também representam um arejamento das democracias. E foram responsáveis por imprimir nova dinâmica nas relações entre a sociedade e o Estado”, pontua.

O professor Fabio Malini, coordenador do Laboratório de estudos sobre Internet e Cultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), corrobora a tese de Niall Fergunson. A incivilidade já predomina no Brasil, sobretudo no comportamento político (o que vai além do comportamento dos políticos). “A polarização é corriqueira na política. Mas, nas redes sociais, tem um modelo específico de atenção das pessoas que influi nisso. A proximidade tem sido a tônica de como algoritmos são construídos fortalecendo bolhas ideológicas, onde há atitudes impulsivas, que redundam em decisões emocionais.”

As redes sociais são incontornáveis, quer dizer, vão continuar (goste-se ou não, são positivas). O mais provável é que, após uma primeira fase como terreno da barbárie, retome o caminho civilizatório, abrindo oportunidade ao debate entre indivíduos que pensam de maneiras diferentes a respeito de política, economia, cultura e comportamento. Isto, claro, numa perspectiva otimista. No momento, tornaram-se frigoríficos de ideias, de comportamentos e de pessoas. Talvez não seja possível piorar.

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segunda-feira, 5 de março de 2018

Drummond/Vinícius -

A música popular entra no paraíso
Carlos Drummond de Andrade
10 de julho de 1980


Deus — Quem é este baixinho que vem aí, ao som do violão, de copo cheio na mão?

São Pedro — Senhor, pelos indícios, só pode ser o Vosso servo Vinicius, Menestrel da Gávea e dos amores inumeráveis.

Deus — Será que ele vem fazer alaúza no céu, perturbando o coro dos meus anjos-cantores, diplomados pela Schola Cantorum do mestre São Jorge, o Grande?

São Pedro (hesitante) — Bem… Eu acho, com a devida licença, que ele traz um som novo, mais terrestre, menos beatífico, é certo, mas com uma suavidade brasileira inspirada nos seresteiros seus avós, os quais já têm assentos cativos junto ao Vosso trono, Senhor. Coisa mui digna de Vossa especial atenção.

Deus — Hum, hum…

São Pedro — Posso continuar, Senhor?

Deus — Vá dizendo, Pedro. É sabido que você tem um fraco por essa gente que canta de noite, esteja ou não pescando, principalmente não estando.

São Pedro — Pois eu digo, Senhor, que esse baixinho aí, todo simpatia e delicadeza, é um de Vossos bons servidores na Terra, pois combateu a maldade pela ternura, a injustiça pela fraternidade, e compôs os cânticos profanos que, elevando o coração dos ouvintes, fazem o mesmo que os cânticos sagrados.

Deus (surpreso) — O mesmo?

São Pedro — O mesmo, Senhor, porque Vós permitistes ao homem trilhar a vida direta ou a vida indireta, conforme o gosto dele. Este poetinha escolheu a segunda, por inclinação natural, e manifestou à sua maneira própria o amor à humanidade, distribuindo-o de preferência, na medida do possível, a umas quantas eleitas.

Deus — Não terá sido antes dispersão do que concentração?

São Pedro — As duas coisas, mas unidas tão sutilmente! E essa unidade paradoxal, mas espontânea, produziu os hinos do amor carnal, nos quais foi glorificado o corpo que concedestes às criaturas, e por essa forma glorificou-se a Vossa divina Criação.

Deus — Menos mal, se assim foi. Então esse… como lhe chamas?

São Pedro — Vinicius, não o patrício romano, que o amor conduziu do paganismo à fé cristã, mas o de Melo Moraes, filho de pais que curtiam o “Quo Vadis”. Este nasceu diretamente para o amor, e não precisou meter-se nas embrulhadas do paganismo de Nero para achar o rumo de sua alma. Ele já estava traçado pelas estrelas de outubro, Vossas mensageiras. Vinicius nasceu com a célula poética, e esta desabrochou em cânticos variados, na voz de seus lábios e na dos instrumentos. Com estes cânticos ele encantou o seu povo. E era um povo necessitado de canto, um canto tão necessitado mesmo!

Deus — Ele deu alegria ao Meu povo?

São Pedro (exultante) — Se deu, Senhor! E para isso não precisava sempre compor canções alegres. Ia até o fundo das canções tristes, mas dava-lhes uma tal doçura e meiguice que as pessoas, ouvindo-as, não sabiam se choravam ou se viam consoladas velhas mágoas. Era um coração se desfazendo em música, Senhor. Deu tanta alegria ao povo, que até a última hora de sua vida (esta não chegou a ser longa, mas se alongou em canção) trabalhou com seu fiel parceiro Toquinho para levar às crianças um tipo musical de felicidade. Morreu, pois, a Vosso serviço, Senhor.

Deus (disfarçando a emoção) — Mande entrar, mande entrar logo esse rapaz. Vinicius entra rodeado de anjos, crianças, virgens e matronas que entoam mansamente:

Se todos fossem iguais a você,
que maravilha viver!
Uma canção pelo ar,
uma mulher a cantar,
uma cidade a cantar,
a sorrir, a cantar, a pedir
a beleza de amar,
como o sol, como a flor, como a luz,
amar sem mentir nem sofrer.
Existiria a verdade,
verdade que ninguém vê,
se todos fossem no mundo
iguais a você!

De vários pontos, vêm-se aproximando Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Ciro Monteiro, Noel Rosa, Dolores Duran, Orfeu, Eurídice, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Portinari, Murilo Mendes, Maysa, Lúcio Rangel, Tia Ciata, Santa Cecília, Antônio Maria, Bach, Ernesto Nazaré, Jaime Ovalle, Chiquinha Gonzaga e outros e outros e outros que não caberiam neste relato, mas cabem na imensidão do céu e som, e unem-se ao coral:

Teu caminho é de paz e de amor.
Abre os teus braços e canta
a última esperança,
a esperança divina
de amar em paz!

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