segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"1984", de George Orwel

A questão da liberdade em "1984", 
de George Orwell
Luiz Antonio Ribeiro - na página 'Notaterapia'


Em qualquer lugar, quando o termo “distópico” é mencionado, é praticamente impossível não suscitar o nome do autor e jornalista britânico George Orwell. 
Não à toa, o termo orwelliano se tornou uma palavra com significado além da referência ao autor, mas um termo valioso quando a liberdade é, de alguma forma, ameaçada ou prejudicada pelo uso da supervisão incessante, constante alteração de fatos ou negação da verdade. 
Em sua obra prima, “1984”, George Orwell conseguiu, de forma magistral, colocar a discussão sobre liberdade em voga por gerações e gerações de leitores.

Em “1984”, seguimos o dia-a-dia de Winston Smith, um operário do governo responsável por retroativamente alterar as notícias de forma que o Estado, representado pela figura do Grande Irmão, sempre esteja como provedora absoluta de todas as boas coisas na sociedade. Sociedade esta da Pista de Aterrissagem Número 1, que para nós, leitores, nada mais é do que a ilha da Grã-Bretanha e a Irlanda. 
O mundo está mergulhado em guerras perenes entre três superpotências – Oceania, Eurásia e Lestásia, com inimigos e aliados mudando constantemente de posicionamento de acordo com a conveniência. E, a cada mudança, os fatos são modificados (de maneira irônica, até) pelo Ministério da Verdade.
Após a leitura da obra de George Orwell, a sensação de desespero e impotência é avassaladora. A construção da distopia é feita de uma forma que faz o leitor questionar todas as pequenas liberdades das quais ele desfruta diariamente – e que nunca considerou o real valor até encontrar uma alternativa tão cruel. Sabe quando falta luz na sua casa e aí você dá o valor à energia elétrica? É tipo isso. 
Em toda virada de página, encontramos uma nova tinta para essa realidade distópica. A esmagadora vida a serviço do Partido, as sutilezas da novilíngua, a língua desenvolvida pelo governo de forma a diminuir palavras já existentes, reduzindo seus significados e, lentamente, restringindo a capacidade de pensamento da população. Se não conseguem pensar em algo, é porque este algo não existe.

Inevitavelmente, “1984” faz com que o debate sobre liberdade surja naturalmente na cabeça do leitor. Mais assustador do que a ideia de um Partido único que observa tudo e todos vinte e quatro horas por dia, é de fato enxergar essa opressão nos pequenos atos cotidianos. 
A teletela, uma televisão cujo observador é também observado, priva o morador de quaisquer liberalidades domésticas. 
O prazer carnal não existe – o único intuito do ato é a procriação; qualquer prazer é inibido e tudo, absolutamente tudo que é feito é em nome do Grande Irmão.
Caminhar pelas ruas de Londres, que, para nós, afastados da realidade distópica de George Orwell, pode ser uma das atividades mais prazerosas em uma das cidades turísticas mais visitadas do mundo, se torna uma marcha para a agonia; a incapacidade de pensamento e a castração intelectual da população da Oceania estão presentes com peso em cada parágrafo.

Poderíamos tratar com mais carinho do enredo, da aventura do protagonista Winston Smith – que, no início da obra, se vê questionando as mesmas coisas que nós, leitores, questionamos. Entretanto, a leitura de “1984” é tão rica na sua ambientação que o mero comentário sobre o universo criado por Orwell é suficiente para sufocar – e instigar os que nunca leram – os curiosos. 

O Estado totalitário descrito em “1984”, uma vez lida a obra, se torna quase uma personagem. Quaisquer decisões de aumento de vigilância no mundo real suscitam o debate interno entre liberdade, privacidade e até que ponto nós estamos dispostos a aceitar que tenhamos a vida privada de alguma forma vigiada. 
Ao descrever um Estado sem quaisquer liberdades de absoluta opressão, George Orwell fez com que todos dessem valor à liberdade e à privacidade.

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Publicidade 'literária'

Sabonete Phebo: O último resquício de civilização em um mundo de barbárie


O homem ao meio da selvageria apega-se ao último sinal de refinamento como uma criança aperta contra o peito seu bichinho de pelúcia favorito. Na mão do homem, bem guardado pelos dedos cerrados, repousa um sabonete Phebo. Sem dúvida a magnum opus da Granado Pharmacia, empresa responsável pelo sabonete entre dezenas de produtos, o Phebo é uma joia rara no comércio brasileiro. Sua linha mediterrânea (“Figo da Turquia”, “Tuberosa do Egito”, Alfazema Provençal”, “Cedro do Marrocos” e “Limão Siciliano”) transcende a responsabilidade com a higiene pessoal do corpo, da virilha, do bumbum e atrás da orelha. 
Os sabonetes Phebo são uma viagem no tempo, são o cheiro de avós, uma homenagem à tradição. O tipo de sabão que ultrapassa a pele e limpa até a alma.

Eu não vou julgar se, na intimidade do box embaçado, você abrir a boca e morder o Phebo. 
Morde, vai. Mastiga. Sob efeito do Phebo, você se transporta dessa miséria, do aluguel, dos boletos de contas empilhados em cima da escrivaninha (cheia de adesivos de marcas de skate) que você tem desde os 14 anos. Sob efeito de Phebo, você vira um barão balonista voando pelos ares cantarolando uma melodia do Rimsky-Korsakov. 
Só a caixinha dos sabonetes Phebo já é mais elegante e sofisticada que a maioria dos itens de decoração das nossas casas

Disco de vinil na parede é o equivalente decorativo do blazer com camiseta de cultura pop, um equívoco assustadoramente popular que deixa seu quarto com cara de bar de rock do interior. 
Outro cenário recorrente: alguém critica Romero Britto e você pensa “caraio, que artista de altíssimo calibre intelectual essa pessoa gosta? Rothko? J.M.W. Tuner?” e aí descobre que ela coleciona toy art, boneco, bonecrinho, hominho. 
A arte em E.V.A., mesmo feia, é a menos pior das três, pois já estimulava o lado criativo da sua tia-avó anos antes da popularização do livro para colorir de adultos. 
O fato é que E.V.A., disco de vinil ou toy art: nada chega perto da elegância tradicional da embalagem do sabonete Phebo.


Talvez seja a classe média impregnada no meu sangue, mas Ph com som de F é a coisa mais chic que existe, ainda mais com essa fonte. 
E a ilustração botânica? O obsoleto ofício que uniu a ciência e arte repousa agora lindo e melancólico em uma caixa de sabonete. (...)

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sábado, 29 de julho de 2017

Amor à primeira vista - Wislawa Szymborska

Amor à primeira vista
Wislawa Szymborska (Polônia 1923-2012)

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Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram –
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?
- mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Mais Dostoiévski, por favor

Mais Dostoiévski, por favor
Thiago Ribeiro – em ‘Obvious’

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(...)
A crítica mais comum a Dostoiévski normalmente se inicia na dificuldade da leitura e quase sempre se encerra naquilo que seria uma tendência depressiva de seus romances, sempre entremeados por crises de consciência, culpas cristãs e um sem número de questões meio fora de moda no mundo atual. 
Sim, porque diante da felicidade incessante e inabalável de Facebooks e Instagrams, ser crítico, olhar para o mundo e ver mazelas que perpassam toda a sociedade, perceber a face negativa da natureza humana seja no rico ou no pobre – sim, os pobres não são todos bonzinhos sempre explorados pelos ricos maldosos -, e se entristecer por isso se torna praticamente um atestado de não pertencimento ao universo.
Dostoiévski não teria segundo esses críticos, portanto, nada de bom, leia-se aproveitável, a nos oferecer. 
De fato, nenhum manual prático de como ser um líder carismático adorado por seus empregados, como conquistar todas as mulheres do mundo em 10 lições, como ser um gordinho feliz e desavergonhado em público ou como viver o amor livre com todos os seus parceiros sem desrespeitar a nenhum deles poderá ser jamais encontrado em Memórias do Subsolo, Crime e Castigo, O Idiota, O Eterno Marido ou em qualquer outra obra do russo. Dostoiévski que“apenas” nos oferece a chance de olhar e mergulhar em profundidade na alma humana, em todas as suas crises de consciência, contradições e complexidades que, como diria uma amiga, fazem do viver uma arte apenas permitida aos profissionais.

E viver hoje em dia não pode ser arte (tem de ser banal), não pode ser complexo (tem de ser fácil), não pode ter crises de consciência (tem de ser leve), não pode ter valores absolutos (tem de ser relativo), não pode ter compromissos (a não ser com o próprio eu) não pode ter sofrimento (temos Facebook e Instagram para encher de sorrisos). 
Dostoiévski não se casa com o nosso tempo porque fala de um tipo de vida não permitida, ou quase proibida, para os padrões atuais.

É na altura da superfície que se vive, que se conversa, que se discute, que se aplaude e que se vaia. 
É na altura da superfície que se ama e que se constrói todo um mundo de maniqueísmos rasos, fáceis e fanáticos. 
É da profundidade da superfície que sai um emaranhado de regras burocráticas que ensinam o ser humano a ser humano, que estabelecem o que é permitido ou não na vida em sociedade. E é desta mesma profundidade que os próprios tutelados aceitam todas essas regras que os cerceiam, regras que nada mais fazem do que atentar contra a capacidade individual de escolher entre o certo e o errado, entre o moral e o imoral, entre o bom e o mau.

Mas não estaria essa capacidade individual de fato cada vez mais reduzida?, é a pergunta que se coloca. E a resposta infelizmente pode ser um triste sim. Pois a cada livro “Faça isso que vai dar certo” que se vende numa livraria enquanto um Dostoiévski fica na prateleira, limita-se um pouco mais a potencialidade de discernimento individual da sociedade. 
Receber e se contentar com receitas pré-fabricadas significa não querer gastar tempo, ou indiretamente assumir a incapacidade pessoal, para se chegar aos melhores ingredientes para o próprio bolo.
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(...) coloquemos mais Doistoiévski em nossas vidas. Para que olhemos as dramáticas crises de consciência de Raskolnikovs, Ivans e Dimitris Karamázovs como um símbolo da mais profunda essência humana, chave fundamental para nos engrandecermos e evoluirmos como seres habitantes de um mundo cada vez mais necessitado de amor, lucidez e respeito ao próximo. Porque, por mais que sejam leves e reconfortantes textos fáceis com receitas de como ser feliz, nada mais profícuo para a verdadeira evolução humana do que um mergulho profundo e sincero sobre si mesmo, um mergulho de reconhecimento de erros, de definição de valores e caminhos, de busca por discernimento e autonomia reais. 
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Certamente será bem mais difícil do que com os manuais e possivelmente gere um tempo razoável de nariz torcido, semblante franzido e (por que não?) lágrimas no rosto. Mas o resultado será, pelo menos, mais sólido e resistente às intempéries cotidianas.
O protagonista das Memórias do Subsolo perguntava se por acaso um homem com consciência pode ter algum respeito próprio. 
A resposta talvez esteja mais para não do que para sim, mas só o desenvolvimento dela, a consciência, é capaz de nos levar a um nível razoável de lucidez sobre os nossos próprios atos – ainda que deles não nos orgulhemos – e os atos dos outros sobre nós.
Se um homem com consciência corre o risco de não ter respeito por si próprio, aquele sem consciência certamente não terá respeito algum pelo próximo e só merecerá respeito daqueles que, assim como ele, vivem no mundo da inconsciência.

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domingo, 23 de julho de 2017

PARA ESTARMOS MAIS PERTO UNS DOS OUTROS
André J. Gomes - em 'Revista Letra'

Tela de Edward Hopper

De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta.


Um dia estaremos mais perto uns dos outros. Não importa quando e nem como. Mas nós seremos mais próximos do que somos hoje.

Nesse dia, estaremos para além de qualquer classificação superficial. Seremos mais que certos ou errados, pobres ou ricos, brancos ou pretos ou vermelhos e amarelos, homens ou mulheres, novos ou velhos. Mais que tudo isso, seremos simples pessoas mais próximas.

Ainda que distantes na geografia, guardaremos em nós a lembrança ou o desejo do encontro. E o encontro nada mais será que um pedido assentido e sincero de compreensão. Encontrar será a prática simples de pensar em alguém e querer nada senão compreendê-lo e aceitá-lo.

Viveremos perto o suficiente para nos vermos, nos ouvirmos e nos sentirmos ali. Próximos o bastante para dividir nossas alegrias e nossas dores, para seguir os caminhos de cada um sem nos perder de vista. Íntimos a ponto até de nos afastarmos quando preciso, em respeito à nossa necessidade humana da solidão que de quando em vez nos empurra para o claustro.

Entre tantas respostas e ponderações absolutas e julgamentos e certezas tão comuns desse mundo, estaremos juntos para nos fazer perguntas sem esperar respostas. Apenas nos perguntaremos coisas à toa, pelo puro e simples exercício de falar e ouvir. Mais ouvir do que falar.

Em longas conversas de manhã, sentados no sol de um banco de praça, nossos livros sobre o colo esperando atenção, relembraremos sem saudade os tempos frios em que nos tornamos duros estranhos. Riremos juntos de nossos ódios superados, nossas pendengas ridículas e desconfianças daninhas. E de tão boas, nossas conversas se estenderão sem pressa e sem culpa pela tarde e pela noite, até o mundo amanhecer de novo em cada dia seguinte.

Até lá, as histórias de uma gente que aprendeu a viver separada demais, uns contra os outros, fazendo do conjunto da vida uma imensa guerra campal, gritalhona e infértil serão nada além de velhas narrativas de barbárie e estupidez. Peças de um museu inexistente. Sombras de uma guerra em que os vencedores celebravam sua superioridade sem se dar conta de que, no fim do jogo, todas as peças sempre voltam para a caixa.

Então, façamos um trato. De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta. Alguém está a nos advertir que devíamos passar mais tempo juntos, ficar mais perto uns dos outros, tomar sol, apanhar vento, esperar a lua que se esconde por trás das nuvens.

Em todos os sentidos, de todas as formas, você e eu e todos nós seremos uma só vizinhança afetiva, moradores de um só quarteirão amoroso. Perto ou longe, não importa, seremos simples pessoas mais próximas, afeitas e dispostas a fazer da vida um longo e sincero gesto de amor ao outro.

É que um dia, se Deus quiser, estaremos mais perto uns dos outros.

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terça-feira, 18 de julho de 2017

TURBILHÃO - Martha Medeiros

TURBILHÃO
Martha Medeiros
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Fico escutando as quantias (dois milhões, quatro, nove) e a cifra vai aumentando até que de milhões a bilhões muda apenas a consoante no início da palavra, pois parece que já não se trata de dinheiro – entramos num território mais subjetivo e intangível.

Que grana toda é essa que saía de uma conta corrente para entrar em outra, numa transferência que parecia uma simples jogada do Banco Imobiliário
O brinquedo da Estrela existe até hoje e é assim descrito nos sites de venda: “Você agora poderá ser um próspero proprietário de imóveis. Ter crédito em banco, títulos, terrenos, casas e hotéis nos melhores pontos da cidade. Onde o céu é o limite! Cabe a você investir tudo que possui para tornar-se um milionário e monopolizar o mercado imobiliário. Para isso, você terá que provar que tem faro para os negócios.” 
Dinheiro de papel. A gente se divertia com isso. Era fácil se sentir rico. Ter o céu como limite. 
Em que momento a pessoa se apega tanto a uma fantasia infantil que não consegue mais crescer? Troca dinheiro de papel por dinheiro de verdade sem perceber que está negociando outros valores.

Ouço, leio: sete milhões, 25 milhões, 300 milhões. E apenas uma palavra me vem à cabeça: pobreza. Que vida miserável. Não bastasse a total ausência de escrúpulos, a pessoa não consegue se contentar com o suficiente, nunca atinge um montante que sirva para apaziguar sua insignificância. 
A ganância é um sorvedouro, o muito é pouco, é nada para quem carrega dentro de si um buraco profundo no lugar onde deveria haver retidão.

Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu? Que saldo deveria aparecer em nosso extrato para nos sentirmos seguros, satisfeitos e dizer: ok, já tenho o que preciso, me basta.
Não é aos 30 nem aos 40 anos de idade que a gente começa a acumular bens. Nosso patrimônio é constituído bem mais cedo, antes até de aprendermos a brincar com o Banco Imobiliário. 
É o que investiram em nós, na infância, que vai determinar para que servirá, de verdade, o nosso faro, se para correr atrás de uma vida digna ou para enfiar o nariz numa lixeira. 
Se tiverem investido no nosso caráter, seremos tão ricos que não nos importaremos de parecer uma pessoa barata aos olhos dos outros - nos contentaremos com uma casa boa e não gigante, com um carro legal e não um tanque de guerra, e nos vestiremos com despojamento em vez de desfilar por aí feito uma árvore de natal. 
Alguém tem medo de parecer barato aos olhos dos outros? 
Melhor não perguntar a quem não vale nada.

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sábado, 17 de junho de 2017

Murar o medo - Mia Couto

Conferência do Estoril sobre Segurança, realizada em 2011
Mia Couto - escritor moçambicano


Bom, nada mais inseguro do que um escritor numa conferência sobre segurança, um escritor que se sente um pouco solitário porque foi o único convidado nesta e na anterior edição. Preciso de um abrigo, preciso de um refúgio. É um texto que vou ler... o presidente tinha dito que eu devia falar espontaneamente. Não sou capaz em sete minutos. 
Eu escrevi este texto que vou ler e chama-se Murar o Medo.


Murar o Medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.

Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. 
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.

Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. 
Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.

Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. 
O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. 
Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. 
Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. 
O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. 
Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? 
Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.

Essa arma chama-se fome.

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi -- ou será -- vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. 

A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.

Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. 
Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global, e dizer:
"Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras."

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.

Muito obrigado.

Mia Couto
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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Bruxa dos Relógios (trechos) - Lya \Luft

A Bruxa dos Relógios
Lya Luft
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"(...)
Quando criança, eu achava que no relógio de parede do sobrado de uma de minhas avós, aquele que soava horas, meias horas e quartos de hora que me assustavam nas madrugadas insones em que eu eventualmente dormia lá, morava uma feiticeira que tricotava freneticamente, com agulhas de metal, tique-taque, tique-taque, tecendo em longas mantas o tempo da nossa vida.

Nessas reflexões, e observações, mais uma vez constatei o que todo mundo sabe: vivemos a idolatria da juventude — e do poder, do dinheiro, da beleza física e do prazer.
Muitos gostariam de ficar para sempre embalsamados em seus 20 ou 30 anos. Ou ter aos 60, “alma jovem”, o que acho muito discutível, pois deve ser bem melhor ter na maturidade ou na velhice uma alma adequada, o que não significa mofada e áspera.
(...)
Passada (ou abrandada) a insegurança juvenil, é possível desafiar conceitos que imperam, desatar alguns fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas, a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz — seja lá o que isso for.
Então podemos murmurar, gritar, cantar. Podemos até dançar. Não há marcações nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar: cada minuto vale, o tempo que flui mostra o valor máximo das coisas mínimas — se eu parar para observar.
(...)
E quando alguém resolver não pagar mais o altíssimo tributo da acomodação, mas dar sentido à sua vida, verá que a bruxa dos relógios não é inteiramente má.
E vai entender que o tempo não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra, oferece — até mesmo a possibilidade de, ao envelhecer, alargar ainda mais as varandas da alma.

*            *            *

Texto publicado originalmente na revista 'Veja.'

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aceita que a vida ajeita - André J.Gomes

Aceita que a vida ajeita
André J. Gomes -  Página 'Conti outra' 16 de abril 2017


Que venha. Seja lá o que for, venha. A gente aceita. Encara, luta, cai, levanta, vai em frente. Aceita o que foi, o que é e o que vem. Não, nós não somos conformistas, permissivos, acomodados, medrosos, trouxas. Nós somos gente. E a gente aceita.

Aceita até mesmo quando rejeita, recusa, esperneia, grita. A gente aceita o inaceitável em conclusão íntima. O teto desaba, o assoalho rompe, as paredes apertam. E a gente aceita.

Aceita pagar por serviços odiosos, aceita esperar de pé em filas enormes por um atendimento de cara feia. Aceita circular de bandeja em mãos por praças de alimentação lotadas até encontrar uma mesa vazia, engordurada, ao lado da lixeira entupida, transbordando sujeira dos outros. A gente aceita o que tem.

Amores capengas e amantes ausentes a gente também aceita. Aceita pela mera ilusão de não estarmos sós.

A gente aceita passar a semana inteira esperando a “sexta-feira, sua linda”, analgésico e antídoto para os venenos de todo dia. A gente aceita. Aceita tudo que não traz nada. Aceita as críticas e pouco reflete sobre elas, senão para nos convencer de que “errado” é quem as fez e não nós mesmos, nós e nossa perfeição religiosa e autoenganada, fundamentada em versículos bíblicos descaradamente adulterados.

Para amansar antigas feras, a gente aceita raciocínios impostos por terapeutas e analistas desinteressados, iludidos de que chegaremos à nossa subjetividade por discernimento próprio.

A gente aceita pagar mais caro por aquilo a que naturalmente tem direito pela simples lógica da civilidade e do princípio da vida em sociedade. Um espaço dois centímetros maior na poltrona do avião, médicos que nos examinem com o mínimo de cuidado, um bairro calmo para dormir à noite sem esperar que alguém invada nossa casa na madrugada, um atendimento decente em qualquer canto.

Que nos culpem pelo que não cometemos, só para fugir de discussões cansativas, a gente aceita de bom grado. E daí? Que mal há em não querer gastar tempo discutindo balela? A gente aceita, aceita que é mais fácil.

Aceita porque, afinal, por mais que nos defendamos, aqueles que nos culpam de qualquer coisa não vão mesmo acreditar. Se o fizessem, assinariam para si mesmos um vergonhoso atestado de covardia. Então aceitam o cargo autoimposto de suprassumos das ciências, reis da cocada preta, generais da banda.

A gente aceita e se acostuma a viver com medo, aceita a morte lenta e o tempo breve, aceita sentimentos burocráticos e cobranças descabidas. Aceita meia hora de amor e duas paçoquinhas.

A gente aceita tudo. Aceita o que deu pra fazer, aceita o mínimo e acha o máximo. Aceita o mais provável e o menos pior. A gente aceita. A gente aceita que a vida ajeita.

*            *            *

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou... BELCHIOR

As 10 melhores canções de Belchior
Eberth Vêncio - na página 'Revista Bula


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Não é todo dia que faço isso. Vou dar trégua à loucura e falar um pouco dos próprios sentimentos. 
Foi noticiado que o cantor Belchior morreu dormindo. Fiquei vívido e insone após a notícia. 
Uma artéria de grosso calibre, a maior do corpo humano, teria estourado nas entranhas feito uma bomba-relógio, ceifando a vida de um “antigo compositor cearense”, um “reles cidadão latino-americano” que, pelo que constava, pelo que se propagava na mídia, era atormentado por questões existencialistas primárias, como dinheiro e desilusão, por exemplo. 
Não creio que Belchior estivesse quebrado. Eu suponho que o seu coração, sim, estivesse partido, espatifado, falido de amor e de fé.

Tudo são conjecturas. Não tive o prazer e a honra de conhecer Belchior, pessoalmente. 
No início dos anos 1990, vi um show dele em Goiânia, futuro criatório dos sertanejos-universitários (cruz-credo!). 
É incrível quando se sente dor, tristeza, uma melancolia danada pela morte de alguém que, sequer, nos conhecia. Foi bem assim que me senti quando soube do fim silencioso de Belchior. 
Ele morava de favor, incógnito, na casa de um amigo em Santa Cruz do Sul.

Acho que compreendo o que Belchior sentia no seu exílio voluntário. No fundo, eu penso que ele tenha entregado os pontos. Isso é um palpite, um sentimento muito pessoal, pois, eu quase sempre sofro do mesmo ímpeto de jogar a toalha: eu acredito que ele tenha optado em se postar fora do jogo, que ele tenha se recusado, peremptoriamente, a viver a vida tal e qual a vivemos no planeta, em especial, no Brasil, um país de povo inculto, sofrido, desonesto, matreiro, religioso, hipócrita e feliz. Que mistura é essa? 
O que será mesmo essa tal felicidade?

Sim. Nossos ídolos ainda são os mesmos e eles estão morrendo. Isso é sintoma de que também estamos definhando sob o cajado cruel e impiedoso do tempo. 
Há quem afirme, esbanjando autoconfiança e empáfia, que toda espécie de idolatria é descartável, que não precisamos de ídolos para sobreviver às agruras da vida, que este subterfúgio seria um mister para os fracos. Eles devem estar certos. A razão quase sempre está certa. 
E é por essa e outras certezas que a poesia, a música e a arte de maneira geral vicejam como uma espécie de antídoto para tanta racionalidade. Há que se sublimar para suportar a pressão de estar jogando o jogo da vida. Para não afundar, cada qual se agarra nos destroços que consegue. Eu, por exemplo, prefiro a música.

Foi assim, entristecido, tomado de abismal melancolia, que propus ao editor da Revista Bula fazermos uma enquete entre os nossos leitores, a fim de prestar um tributo ao cantor, compositor e poeta Belchior, elegendo, dentre tantas pérolas da sua vasta obra, as mais belas canções. 
Internet é um território pantanoso onde os néscios abundam. 
Antes mesmo dessa publicação acontecer, houve quem nos acusasse de hipocrisia e de oportunismo ao homenagearmos Belchior, que andava sumido, há mais de dez anos fora do calor dos holofotes e do mercado fonográfico brasileiro. O que não falta é gente para atazanar, vocês sabem. Não lhes dou a mínima. 
A maioria retumbante das pessoas entendeu a proposta e, generosamente, escolheu a sua preferida, dentre tantas composições emblemáticas. De acordo com os leitores da Revista Bula, “As 10 Melhores Canções de Belchior” seguem abaixo, para o deleite e consolo de quem curte música de qualidade. 
Declaro toda minha gratidão e respeito. Salve, Belchior! Um dos mais incompreendidos e subestimados artistas brasileiros.


Fotografia 2x4 (1976)

Tudo Outra Vez (1979) Paralelas (1977)


Galos, Noites e Quintais (1977)

 A Palo Seco (1973)

 Alucinação (1976)

 Divina Comédia Humana (1978)

 Coração Selvagem (1977)

 Comentários a Respeito de John (1979)

 Como Nossos Pais (1976)

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domingo, 9 de abril de 2017

Os Ninguéns - Eduardo Galeano

Imagem relacionada
Tarsila do Amaral - 'Operários'
Os Ninguéns
Eduardo Galeano

As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

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Em  “O livro dos abraços”. tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2002

terça-feira, 4 de abril de 2017

Possibilidades - Wislawa Szymborska

POSSIBILIDADES
Wislawa Szymborska

Arte: ANJANA ILYER

Prefiro cinema. 
Prefiro os gatos. 
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta. 
Prefiro Dickens a Dostoievski. 
Prefiro-me gostando dos homens em vez de estar amando a humanidade. 
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha. 
Prefiro a cor verde. 
Prefiro não afirmar que a razão é culpada de tudo. 
Prefiro as exceções. 
Prefiro sair mais cedo. 
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa. 
Prefiro as velhas ilustrações listradas. 
Prefiro o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não os escrever. 
No amor prefiro os aniversários não redondos para serem comemorados cada dia. 
Prefiro os moralistas, que não me prometem nada. 
Prefiro a bondade esperta à bondade ingênua demais. 
Prefiro a terra à paisana. 
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores. 
Prefiro ter objeções. 
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem. 
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais. 
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas. 
Prefiro os cães com o rabo não cortado. 
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros. 
Prefiro as gavetas. 
Prefiro muitas coisas que aqui não disse, a outras tantas não mencionadas aqui. 
Prefiro os zeros à solta a tê-los numa fila junto ao algarismo. 
Prefiro o tempo dos insetos ao tempo das estrelas. 
Prefiro isolar. 
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando. 
Prefiro levar em consideração até a possibilidade do ser ter a sua razão.

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