quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

"Velhice, por que não? (trechos) - Lya Luft

Velhice, por que não? 
Lya Luft


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“(...)
Detestamos ou tememos a velhice pela sua marca de incapacidade e isolamento. É algo a ser evitado como uma doença. Não deixa de ser tolo encarar o tempo como um conjunto de gavetas compartimentadas nas quais somos jovens, maduros ou velhos – porém só em uma delas, a da juventude, com direito a alegrias e realizações. Pois a possibilidade de ter saúde, projetos e ternura até os 90 anos é real, dentro das limitações de cada período. 
Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda ler, ouvir música, olhar a natureza; exercer afetos, agregar pessoas, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de seda… ) ou ágil, mas ainda lúcido. Ter adquirido uma relativa sabedoria e um sensato otimismo – coisas que podem melhorar com o correr dos anos. Mas predomina a ideia de que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo – até mesmo nos mutilando ou escondendo. 
No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese sem muita discussão, ainda que seja em nosso desfavor. Isso se manifesta até na pressa com que acrescentamos, como desculpa: “Sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas… jovem de espírito.” Porque ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro ou velho? Ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição, não me parece totalmente indesejável.
(...)
Trato bem ao meu corpo, esse grande gato”, escreveu uma poeta com essa sensatez dos artistas e das pessoas simples. “Afinal até aqui ele me serviu, e cada dia gosto mais dele, do jeito que está ficando.” 
Gostar de seu velho corpo com sua necessidade de cuidados e de amor, de mais treinamento para que funcione direito, de paciência porque nem sempre é como lembro que foi um dia, é uma forma de felicidade que a experiência pode ensinar.
Há poucas décadas alteraram-se nossos prazos, e os conceitos sobre juventude, maturidade e velhice. Passamos a viver mais. Nem sempre passamos a viver melhor. Esse me parece um dos mais extraordinários desperdícios da nossa época. Minhas avós, muito mais jovens do que sou agora, me pareciam – e deviam se sentir – velhas: lentas e vagamente reumáticas, roupa escura, cabelo grisalho, óculos na ponta do nariz, fazendo doces ou tricô.
Vou detestar se, ficando velha, alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante do que o jovem. Mais sereno, mais misterioso, mais sedutor.
(...)
Somos seres humanos completos em qualquer fase, na completude daquela fase.
Custa-nos acreditar nisso na velhice, como na adolescência era difícil termos confiança em nós e nossas escolhas quanto ao futuro.
Com direito e dever de procurar interesses e revisar outros, ter alegrias e prazeres, sejam eles quais forem. Posso na velhice não ser um atleta na cama nem mesmo ter atração pela vida sexual, mas sou capaz de exercitar minha alegria com amigos, minha ternura com família, meu prazer em caminhadas, em jardinagem, em leitura, em contemplação da arte. Porém, numa sociedade em que sucesso e felicidade se reduzem a dinheiro, aparência e sexo, se somos maduros ou velhos estamos descartados. Cada dia será o dia do desencanto. Em lugar de viver estaremos sendo consumidos. Em vez de conquistar estaremos sendo, literalmente, devorados pelos nossos fantasmas – na medida em que permitirmos isso. Essa é a nossa possibilidade, a nossa grandeza ou a nossa derrota: viver com naturalidade – ou experimentar como um súbito castigo dos deuses – os novos 70 ou 80 anos. Algumas pessoas parecem tombar subitamente da juventude impensada para a velhice ressentida.
Foram apanhados desprevenidos. Nunca tinham pensado. Estavam desatentos.
Triste maneira de percorrer isso que é afinal o milagre da existência.
Imaginamos enganar a máquina do tempo, e suas engrenagens nos atropelaram em lugar de nos impulsionar. Para quem só pensa nos desencantos da maturidade, eu falo no encanto da maturidade. Para quem só sabe da resignação da velhice, eu lembro a possível sabedoria da velhice. É preciso seguir em frente com o meu tempo. Mas qual é, onde está, em que lugar ficou… o meu tempo?
(...)
Uma de minhas mais queridas amigas tem quase 90 anos, e espero pelo fim de semana para tomar com ela, em sua casa aconchegante, o uísque dos fins de tarde de domingo. 
Sempre temos assunto. Ela sabe de tudo, é informada, é interessada. Não fala preferencialmente de sua saúde, que já não é a de dez anos atrás. Comenta coisas de jornal, política, música. Pergunta pelos amigos. Já não vai ao cinema, mas, como é grande leitora, há mil assuntos para se falar. Ela gosta de rir e nos divertimos muito.
Pensando nela e em outras pessoas assim, questiono se ter 80 anos ou mais será realmente uma condenação ou se pode ser o coroamento de uma vida. Verdade que para haver um “coroamento” é preciso uma estrutura razoável para ser “coroada”. Generosa, de conquistas, de perdas mas igualmente de elaboração e acúmulo. Vivida com gosto e dor, com afetos bons e outros menos bons. O prato luminoso do positivo mais pesado do que o das coisas escuras.

E da juventude, o que você diz?”, me indagam. 
Não preciso falar tanto dela porque é cantada e louvada em todos os meios de comunicação, em todos os salões, em todos os quartos. Ela é deslumbramento e aflição, crescimento e inépcia, angústia e êxtase como todos os nossos estágios – apenas tudo ali está condensado em intensidade e brilho. 
Mas não acho que só ela vale a pena, só ela nos avaliza. Como não defendo a ideia de que a maturidade e a velhice sejam melhores. São diferentes. Com seus lados bons e ruins. 
Idade não dá aval de bondade e graça. O velho sempre bonzinho é um mito, a velhinha doce pode ser comum nos livros de história, mas na realidade é muito diferente.
(...)
Na idade avançada os interesses não precisam ou não podem ser os de antes: atividade, trabalho, dinheiro, viagens, conquistas. A certa altura mudam as possibilidades mas não se anula a pessoa. 
O bem-estar e a alegria residem nas coisas mais triviais: esse é um dos aprendizados que o tempo nos dá. Por isso mesmo, a essa altura é mais simples ser feliz. Novos afetos são possíveis em qualquer idade: sempre se podem estabelecer novos laços com pessoas, coisas, lugares, interesses
(...)
O tempo tem de ser sempre o meu tempo, para realizar qualquer coisa positiva e plausível – ainda que seja mudar de lugar a cadeira (até a de rodas) e ver melhor a chuva que cai. 
Uma velha senhora mora sozinha mas curte as amizades, a família, livros e músicas, a natureza. De vez em quando abre uma garrafa de champanha e faz um brinde, sozinha (não chorosa): a coisas boas que teve, coisas boas que tem, e uma ou outra que ainda pretende viver. 
Um dia lhe manifestei minha admiração por isso. Com um sorriso entre tímido e divertido ela respondeu que sempre havia o que celebrar. Era um privilégio estar viva tendo consciência disso, e sem graves problemas de saúde. Poder apreciar a luz da manhã, o aroma da comida, o perfume das pessoas. Comunicar-se, saber das notícias, que podiam ir do esporte à música, à política, ao… o que eu quiser. Participar ainda. 
Me enterneceu essa visão positiva de uma mulher ficando velha. Sua idade não era o ponto de estagnação, mas de fazer tranquilamente coisas que antes não podia. Não tinha mais de cumprir tantos deveres nem realizar tantas expectativas. “Acho que as pessoas são mais condescendentes comigo”, ela disse com um sorrisinho malicioso. “Devem pensar “ela está velhinha, coitada” e assim eu posso finalmente respirar fundo, e ser mais… natural.” 

Certa vez li uma história mais ou menos assim: Uma jovem corria para ficar em forma. Passou por uma velhinha que cuidava de seu jardim na frente da casa, e gritou ao passar:
Vovó, se eu fosse magra como você, não precisaria ficar aqui correndo desse jeito! 
A velhinha a fez parar com um sinal, aproximou-se dela, e lhe disse sorrindo: 
Filha, quando a gente fica velha como eu, tudo é mais fácil. A gente pode até se aposentar e gostar de cuidar das rosas.
Mas se sonharmos apenas com a viagem à Lua, cuidar das rosas pode parecer tedioso demais, e não cultivaremos coisa alguma. 
A vida é sempre a nossa vida, aos 12 anos, aos 30 anos, aos 70. Dela podemos fazer alguma coisa mesmo quando nos dizem que não. Dentro dos limites, do possível, do sensato (até alguma vez do insensato), podemos. 
Só seremos nada se acharmos que merecemos menos de tudo que ainda é possível obter.


*               *               *
 LYA LUFT, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006.

domingo, 17 de setembro de 2017

Pequenos atos de amor... - Eberth Vêncio

Pequenos atos de amor são fundamentais para tornar o mundo um lugar melhor para se viver

Eberth Vêncio -  em 'Revista Bula'


Qualquer coisa serve. Qualquer coisa de mais simples já serve. 
Qualquer pequeno ato impagável, de alguém por outro alguém, como pagar um almoço para quem tem fome, já servirá. 
Qualquer mínima atitude que releve a tradicional má fama do ser humano terá valia. 
Recaídas de ternura; como eu, por exemplo, aqui e agora. 
Apagar um foco de incêndio. 
Acender o brilho no olhar de um ser desencantado. 
Fazer palhaçada numa enfermaria. 
Demover um suicida. 
Ouvir. Ouvir. Ouvir e mais ouvir. 
Transmutar-se em árvore, ser todo ouvidos, ter a devida paciência para florescer e escutar a dramática história de vida de quem fazia planos para se matar em breve. 
Abreviar o sofrimento de um ser vivo em estado terminal. Concorrer com Deus mesmo querendo não ser Deus. Aliviar o sofrimento de alguém com o simples toque das mãos. 
Reduzir a velocidade nos atos cotidianos. 
Ir e vir. Sim. A garantia constitucional de ir e vir, porém, com mais calma, em ritmo baiano, se é que me entendem. 
Doar xícaras de sangue. 
Gastar o próprio tempo em prol do crescimento interior de terceiros. 
Tratar bem um desconhecido, como se vocês já se conhecessem de vidas pregressas. 
Rezar com a avó, no seu leito de morte, mesmo sendo um ateu. 
Ajudar um animal a parir. 
Ajudar uma mulher a parir. 
Trocar as roupas de um defunto, deixá-lo com a aparência impecável para o último adeus. 
Consolar um desafeto que perdeu a mãe. 
Adotar uma criança. 
Adotar um cachorro. 
Adotar um padrão de vida mais simples. 
Questionar as premissas existenciais desse mundo-cão. 
Servir na Cruz Vermelha. Atuar pelo Green Peace. 
Vestir azul e declamar poemas de Paulo Leminski na ala dos loucos varridos. 
Visitar os velhos de um asilo. 
Resgatar refugiados no mar do exílio. Pescar homens. 
Derribar muros. Cancelar cancelas. 
Abarcar, abarcar, abarcar. Arreganhar os braços e mais abarcar, abarcar, abarcar. 
Oferecer um emprego. 
Ceder um dos quartos. 
Vender um dos carros. 
Ir a pé ao trabalho. 
Barbear mendigos. Drenar furúnculos. 
Ensinar uma orquídea a brotar. 
Botar o bloco na rua. Organizar passeata. 
Desarrumar o quarto, partir. 
Ensandecer com flores o paladar dos colibris. 
Ler para crianças. Alfabetizar homens crescidos, de graça. 
Engrossar o coro dos descontentes que defendem a todo custo a preservação do meio ambiente. 
Ser meio diferente, circular por aí, completamente na sua, livre e fora do quadrado. 
Gastar todo amor que ainda resta em prol de quem está do seu lado.


*            *            *

domingo, 10 de setembro de 2017

Marina Colasanti - 'Lá fora, a noite'

Lá fora, a noite
Marina Colasanti

Arte:  P. Mitkov

É quando a família dorme
– inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha –
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.

*        *        *

No livro “Rota de colisão”. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993.

sábado, 9 de setembro de 2017

Aos que vierem... - Bertolt Brecht

Aos que vierem depois de nós
Bertolt Brecht (Tradução Manuel Bandeira)

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I
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
(...)

III
(...)
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

*            *            *

Rubem Braga - 'Homem ao mar'

Homem ao mar
Rubem Braga

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De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado a esconderá. Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem. 
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu".

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
*            *            *

- Rubem Braga, in "A Cidade e a Roça", 1953.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Da página"Semema"- Quem sou eu - Adriano Dias

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Tela do catalão Guim Tió Zarraluki
Adriano Dias - na página "Semema"


Quem eu sou, 
Neste espectro político, ou social, tão binário?
Sou o Otário.
Sou o que ganha pouco e paga muito imposto 
E se ganho mais, mais imposto pago,
E quando sonego, 
Sou pego
E pago em dobro.
Sou o otário que vota
Com argumentos vagos
E nem bem lembro em quem votei para cada cargo.
Ou não voto
E pago o pato em dobro,
Acusado de omisso por ambos os lados.
Eu sou aquele que não entende direito a situação,
Nem tampouco a realidade,
E escuta atento à defesa da tese dos convictos,
E todos me convencem de suas verdades tão bem articuladas,
Mas, no fundo,
Acabo achando esse povo mesmo é meio maluco.
Eu sou quem dá a segunda chance,
Quando é traído,
E acaba sofrendo de novo
E ainda acho que a culpa foi minha.
Eu sou o que compra mais caro
E quando vende não vale mais nada;
Eu sou quem rói o osso e carrega o piano,
Quem empresta o dinheiro que nunca volta e não esquento, juro!
Eu sou aquele que o radar flagra,
E só roubam meu carro quando não tem seguro!
Eu sou o atingido pela bala perdida,
Eu sou o que fica para apanhar, quando todo mundo corre
E
Quando acontecer a Revolução,
Não importa de que lado eu esteja, na briga,
Eu sou quem morre.

*           *          *

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"1984", de George Orwel

A questão da liberdade em "1984", 
de George Orwell
Luiz Antonio Ribeiro - na página 'Notaterapia'


Em qualquer lugar, quando o termo “distópico” é mencionado, é praticamente impossível não suscitar o nome do autor e jornalista britânico George Orwell. 
Não à toa, o termo orwelliano se tornou uma palavra com significado além da referência ao autor, mas um termo valioso quando a liberdade é, de alguma forma, ameaçada ou prejudicada pelo uso da supervisão incessante, constante alteração de fatos ou negação da verdade. 
Em sua obra prima, “1984”, George Orwell conseguiu, de forma magistral, colocar a discussão sobre liberdade em voga por gerações e gerações de leitores.

Em “1984”, seguimos o dia-a-dia de Winston Smith, um operário do governo responsável por retroativamente alterar as notícias de forma que o Estado, representado pela figura do Grande Irmão, sempre esteja como provedora absoluta de todas as boas coisas na sociedade. Sociedade esta da Pista de Aterrissagem Número 1, que para nós, leitores, nada mais é do que a ilha da Grã-Bretanha e a Irlanda. 
O mundo está mergulhado em guerras perenes entre três superpotências – Oceania, Eurásia e Lestásia, com inimigos e aliados mudando constantemente de posicionamento de acordo com a conveniência. E, a cada mudança, os fatos são modificados (de maneira irônica, até) pelo Ministério da Verdade.
Após a leitura da obra de George Orwell, a sensação de desespero e impotência é avassaladora. A construção da distopia é feita de uma forma que faz o leitor questionar todas as pequenas liberdades das quais ele desfruta diariamente – e que nunca considerou o real valor até encontrar uma alternativa tão cruel. Sabe quando falta luz na sua casa e aí você dá o valor à energia elétrica? É tipo isso. 
Em toda virada de página, encontramos uma nova tinta para essa realidade distópica. A esmagadora vida a serviço do Partido, as sutilezas da novilíngua, a língua desenvolvida pelo governo de forma a diminuir palavras já existentes, reduzindo seus significados e, lentamente, restringindo a capacidade de pensamento da população. Se não conseguem pensar em algo, é porque este algo não existe.

Inevitavelmente, “1984” faz com que o debate sobre liberdade surja naturalmente na cabeça do leitor. Mais assustador do que a ideia de um Partido único que observa tudo e todos vinte e quatro horas por dia, é de fato enxergar essa opressão nos pequenos atos cotidianos. 
A teletela, uma televisão cujo observador é também observado, priva o morador de quaisquer liberalidades domésticas. 
O prazer carnal não existe – o único intuito do ato é a procriação; qualquer prazer é inibido e tudo, absolutamente tudo que é feito é em nome do Grande Irmão.
Caminhar pelas ruas de Londres, que, para nós, afastados da realidade distópica de George Orwell, pode ser uma das atividades mais prazerosas em uma das cidades turísticas mais visitadas do mundo, se torna uma marcha para a agonia; a incapacidade de pensamento e a castração intelectual da população da Oceania estão presentes com peso em cada parágrafo.

Poderíamos tratar com mais carinho do enredo, da aventura do protagonista Winston Smith – que, no início da obra, se vê questionando as mesmas coisas que nós, leitores, questionamos. Entretanto, a leitura de “1984” é tão rica na sua ambientação que o mero comentário sobre o universo criado por Orwell é suficiente para sufocar – e instigar os que nunca leram – os curiosos. 

O Estado totalitário descrito em “1984”, uma vez lida a obra, se torna quase uma personagem. Quaisquer decisões de aumento de vigilância no mundo real suscitam o debate interno entre liberdade, privacidade e até que ponto nós estamos dispostos a aceitar que tenhamos a vida privada de alguma forma vigiada. 
Ao descrever um Estado sem quaisquer liberdades de absoluta opressão, George Orwell fez com que todos dessem valor à liberdade e à privacidade.

*            *            *


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Publicidade 'literária'

Sabonete Phebo: O último resquício de civilização em um mundo de barbárie


O homem ao meio da selvageria apega-se ao último sinal de refinamento como uma criança aperta contra o peito seu bichinho de pelúcia favorito. Na mão do homem, bem guardado pelos dedos cerrados, repousa um sabonete Phebo. Sem dúvida a magnum opus da Granado Pharmacia, empresa responsável pelo sabonete entre dezenas de produtos, o Phebo é uma joia rara no comércio brasileiro. Sua linha mediterrânea (“Figo da Turquia”, “Tuberosa do Egito”, Alfazema Provençal”, “Cedro do Marrocos” e “Limão Siciliano”) transcende a responsabilidade com a higiene pessoal do corpo, da virilha, do bumbum e atrás da orelha. 
Os sabonetes Phebo são uma viagem no tempo, são o cheiro de avós, uma homenagem à tradição. O tipo de sabão que ultrapassa a pele e limpa até a alma.

Eu não vou julgar se, na intimidade do box embaçado, você abrir a boca e morder o Phebo. 
Morde, vai. Mastiga. Sob efeito do Phebo, você se transporta dessa miséria, do aluguel, dos boletos de contas empilhados em cima da escrivaninha (cheia de adesivos de marcas de skate) que você tem desde os 14 anos. Sob efeito de Phebo, você vira um barão balonista voando pelos ares cantarolando uma melodia do Rimsky-Korsakov. 
Só a caixinha dos sabonetes Phebo já é mais elegante e sofisticada que a maioria dos itens de decoração das nossas casas

Disco de vinil na parede é o equivalente decorativo do blazer com camiseta de cultura pop, um equívoco assustadoramente popular que deixa seu quarto com cara de bar de rock do interior. 
Outro cenário recorrente: alguém critica Romero Britto e você pensa “caraio, que artista de altíssimo calibre intelectual essa pessoa gosta? Rothko? J.M.W. Tuner?” e aí descobre que ela coleciona toy art, boneco, bonecrinho, hominho. 
A arte em E.V.A., mesmo feia, é a menos pior das três, pois já estimulava o lado criativo da sua tia-avó anos antes da popularização do livro para colorir de adultos. 
O fato é que E.V.A., disco de vinil ou toy art: nada chega perto da elegância tradicional da embalagem do sabonete Phebo.


Talvez seja a classe média impregnada no meu sangue, mas Ph com som de F é a coisa mais chic que existe, ainda mais com essa fonte. 
E a ilustração botânica? O obsoleto ofício que uniu a ciência e arte repousa agora lindo e melancólico em uma caixa de sabonete. (...)

*            *            *

sábado, 29 de julho de 2017

Amor à primeira vista - Wislawa Szymborska

Amor à primeira vista
Wislawa Szymborska (Polônia 1923-2012)

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Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram –
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?
- mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.

*            *            *


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Mais Dostoiévski, por favor

Mais Dostoiévski, por favor
Thiago Ribeiro – em ‘Obvious’

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(...)
A crítica mais comum a Dostoiévski normalmente se inicia na dificuldade da leitura e quase sempre se encerra naquilo que seria uma tendência depressiva de seus romances, sempre entremeados por crises de consciência, culpas cristãs e um sem número de questões meio fora de moda no mundo atual. 
Sim, porque diante da felicidade incessante e inabalável de Facebooks e Instagrams, ser crítico, olhar para o mundo e ver mazelas que perpassam toda a sociedade, perceber a face negativa da natureza humana seja no rico ou no pobre – sim, os pobres não são todos bonzinhos sempre explorados pelos ricos maldosos -, e se entristecer por isso se torna praticamente um atestado de não pertencimento ao universo.
Dostoiévski não teria segundo esses críticos, portanto, nada de bom, leia-se aproveitável, a nos oferecer. 
De fato, nenhum manual prático de como ser um líder carismático adorado por seus empregados, como conquistar todas as mulheres do mundo em 10 lições, como ser um gordinho feliz e desavergonhado em público ou como viver o amor livre com todos os seus parceiros sem desrespeitar a nenhum deles poderá ser jamais encontrado em Memórias do Subsolo, Crime e Castigo, O Idiota, O Eterno Marido ou em qualquer outra obra do russo. Dostoiévski que“apenas” nos oferece a chance de olhar e mergulhar em profundidade na alma humana, em todas as suas crises de consciência, contradições e complexidades que, como diria uma amiga, fazem do viver uma arte apenas permitida aos profissionais.

E viver hoje em dia não pode ser arte (tem de ser banal), não pode ser complexo (tem de ser fácil), não pode ter crises de consciência (tem de ser leve), não pode ter valores absolutos (tem de ser relativo), não pode ter compromissos (a não ser com o próprio eu) não pode ter sofrimento (temos Facebook e Instagram para encher de sorrisos). 
Dostoiévski não se casa com o nosso tempo porque fala de um tipo de vida não permitida, ou quase proibida, para os padrões atuais.

É na altura da superfície que se vive, que se conversa, que se discute, que se aplaude e que se vaia. 
É na altura da superfície que se ama e que se constrói todo um mundo de maniqueísmos rasos, fáceis e fanáticos. 
É da profundidade da superfície que sai um emaranhado de regras burocráticas que ensinam o ser humano a ser humano, que estabelecem o que é permitido ou não na vida em sociedade. E é desta mesma profundidade que os próprios tutelados aceitam todas essas regras que os cerceiam, regras que nada mais fazem do que atentar contra a capacidade individual de escolher entre o certo e o errado, entre o moral e o imoral, entre o bom e o mau.

Mas não estaria essa capacidade individual de fato cada vez mais reduzida?, é a pergunta que se coloca. E a resposta infelizmente pode ser um triste sim. Pois a cada livro “Faça isso que vai dar certo” que se vende numa livraria enquanto um Dostoiévski fica na prateleira, limita-se um pouco mais a potencialidade de discernimento individual da sociedade. 
Receber e se contentar com receitas pré-fabricadas significa não querer gastar tempo, ou indiretamente assumir a incapacidade pessoal, para se chegar aos melhores ingredientes para o próprio bolo.
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(...) coloquemos mais Doistoiévski em nossas vidas. Para que olhemos as dramáticas crises de consciência de Raskolnikovs, Ivans e Dimitris Karamázovs como um símbolo da mais profunda essência humana, chave fundamental para nos engrandecermos e evoluirmos como seres habitantes de um mundo cada vez mais necessitado de amor, lucidez e respeito ao próximo. Porque, por mais que sejam leves e reconfortantes textos fáceis com receitas de como ser feliz, nada mais profícuo para a verdadeira evolução humana do que um mergulho profundo e sincero sobre si mesmo, um mergulho de reconhecimento de erros, de definição de valores e caminhos, de busca por discernimento e autonomia reais. 
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Certamente será bem mais difícil do que com os manuais e possivelmente gere um tempo razoável de nariz torcido, semblante franzido e (por que não?) lágrimas no rosto. Mas o resultado será, pelo menos, mais sólido e resistente às intempéries cotidianas.
O protagonista das Memórias do Subsolo perguntava se por acaso um homem com consciência pode ter algum respeito próprio. 
A resposta talvez esteja mais para não do que para sim, mas só o desenvolvimento dela, a consciência, é capaz de nos levar a um nível razoável de lucidez sobre os nossos próprios atos – ainda que deles não nos orgulhemos – e os atos dos outros sobre nós.
Se um homem com consciência corre o risco de não ter respeito por si próprio, aquele sem consciência certamente não terá respeito algum pelo próximo e só merecerá respeito daqueles que, assim como ele, vivem no mundo da inconsciência.

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domingo, 23 de julho de 2017

PARA ESTARMOS MAIS PERTO UNS DOS OUTROS
André J. Gomes - em 'Revista Letra'

Tela de Edward Hopper

De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta.


Um dia estaremos mais perto uns dos outros. Não importa quando e nem como. Mas nós seremos mais próximos do que somos hoje.

Nesse dia, estaremos para além de qualquer classificação superficial. Seremos mais que certos ou errados, pobres ou ricos, brancos ou pretos ou vermelhos e amarelos, homens ou mulheres, novos ou velhos. Mais que tudo isso, seremos simples pessoas mais próximas.

Ainda que distantes na geografia, guardaremos em nós a lembrança ou o desejo do encontro. E o encontro nada mais será que um pedido assentido e sincero de compreensão. Encontrar será a prática simples de pensar em alguém e querer nada senão compreendê-lo e aceitá-lo.

Viveremos perto o suficiente para nos vermos, nos ouvirmos e nos sentirmos ali. Próximos o bastante para dividir nossas alegrias e nossas dores, para seguir os caminhos de cada um sem nos perder de vista. Íntimos a ponto até de nos afastarmos quando preciso, em respeito à nossa necessidade humana da solidão que de quando em vez nos empurra para o claustro.

Entre tantas respostas e ponderações absolutas e julgamentos e certezas tão comuns desse mundo, estaremos juntos para nos fazer perguntas sem esperar respostas. Apenas nos perguntaremos coisas à toa, pelo puro e simples exercício de falar e ouvir. Mais ouvir do que falar.

Em longas conversas de manhã, sentados no sol de um banco de praça, nossos livros sobre o colo esperando atenção, relembraremos sem saudade os tempos frios em que nos tornamos duros estranhos. Riremos juntos de nossos ódios superados, nossas pendengas ridículas e desconfianças daninhas. E de tão boas, nossas conversas se estenderão sem pressa e sem culpa pela tarde e pela noite, até o mundo amanhecer de novo em cada dia seguinte.

Até lá, as histórias de uma gente que aprendeu a viver separada demais, uns contra os outros, fazendo do conjunto da vida uma imensa guerra campal, gritalhona e infértil serão nada além de velhas narrativas de barbárie e estupidez. Peças de um museu inexistente. Sombras de uma guerra em que os vencedores celebravam sua superioridade sem se dar conta de que, no fim do jogo, todas as peças sempre voltam para a caixa.

Então, façamos um trato. De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta. Alguém está a nos advertir que devíamos passar mais tempo juntos, ficar mais perto uns dos outros, tomar sol, apanhar vento, esperar a lua que se esconde por trás das nuvens.

Em todos os sentidos, de todas as formas, você e eu e todos nós seremos uma só vizinhança afetiva, moradores de um só quarteirão amoroso. Perto ou longe, não importa, seremos simples pessoas mais próximas, afeitas e dispostas a fazer da vida um longo e sincero gesto de amor ao outro.

É que um dia, se Deus quiser, estaremos mais perto uns dos outros.

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terça-feira, 18 de julho de 2017

TURBILHÃO - Martha Medeiros

TURBILHÃO
Martha Medeiros
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Fico escutando as quantias (dois milhões, quatro, nove) e a cifra vai aumentando até que de milhões a bilhões muda apenas a consoante no início da palavra, pois parece que já não se trata de dinheiro – entramos num território mais subjetivo e intangível.

Que grana toda é essa que saía de uma conta corrente para entrar em outra, numa transferência que parecia uma simples jogada do Banco Imobiliário
O brinquedo da Estrela existe até hoje e é assim descrito nos sites de venda: “Você agora poderá ser um próspero proprietário de imóveis. Ter crédito em banco, títulos, terrenos, casas e hotéis nos melhores pontos da cidade. Onde o céu é o limite! Cabe a você investir tudo que possui para tornar-se um milionário e monopolizar o mercado imobiliário. Para isso, você terá que provar que tem faro para os negócios.” 
Dinheiro de papel. A gente se divertia com isso. Era fácil se sentir rico. Ter o céu como limite. 
Em que momento a pessoa se apega tanto a uma fantasia infantil que não consegue mais crescer? Troca dinheiro de papel por dinheiro de verdade sem perceber que está negociando outros valores.

Ouço, leio: sete milhões, 25 milhões, 300 milhões. E apenas uma palavra me vem à cabeça: pobreza. Que vida miserável. Não bastasse a total ausência de escrúpulos, a pessoa não consegue se contentar com o suficiente, nunca atinge um montante que sirva para apaziguar sua insignificância. 
A ganância é um sorvedouro, o muito é pouco, é nada para quem carrega dentro de si um buraco profundo no lugar onde deveria haver retidão.

Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu? Que saldo deveria aparecer em nosso extrato para nos sentirmos seguros, satisfeitos e dizer: ok, já tenho o que preciso, me basta.
Não é aos 30 nem aos 40 anos de idade que a gente começa a acumular bens. Nosso patrimônio é constituído bem mais cedo, antes até de aprendermos a brincar com o Banco Imobiliário. 
É o que investiram em nós, na infância, que vai determinar para que servirá, de verdade, o nosso faro, se para correr atrás de uma vida digna ou para enfiar o nariz numa lixeira. 
Se tiverem investido no nosso caráter, seremos tão ricos que não nos importaremos de parecer uma pessoa barata aos olhos dos outros - nos contentaremos com uma casa boa e não gigante, com um carro legal e não um tanque de guerra, e nos vestiremos com despojamento em vez de desfilar por aí feito uma árvore de natal. 
Alguém tem medo de parecer barato aos olhos dos outros? 
Melhor não perguntar a quem não vale nada.

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sábado, 17 de junho de 2017

Murar o medo - Mia Couto

Conferência do Estoril sobre Segurança, realizada em 2011
Mia Couto - escritor moçambicano


Bom, nada mais inseguro do que um escritor numa conferência sobre segurança, um escritor que se sente um pouco solitário porque foi o único convidado nesta e na anterior edição. Preciso de um abrigo, preciso de um refúgio. É um texto que vou ler... o presidente tinha dito que eu devia falar espontaneamente. Não sou capaz em sete minutos. 
Eu escrevi este texto que vou ler e chama-se Murar o Medo.


Murar o Medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.

Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. 
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.

Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. 
Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.

Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. 
O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. 
Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. 
Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. 
O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. 
Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? 
Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.

Essa arma chama-se fome.

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi -- ou será -- vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. 

A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.

Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. 
Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global, e dizer:
"Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras."

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.

Muito obrigado.

Mia Couto
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