segunda-feira, 7 de maio de 2018

Carta a Ofélia- Fernando Pessoa

Carta a Ofélia  (trechos)

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, criança, noite, atividades ao ar livre e água

“ Se a vida, que é tudo, passa por fim, 
como não hão-de passar o amor e a dor, 
e todas as mais coisas, 
que não são mais que partes da vida?
(...)
Quanto a mim o amor passou
mas conservo-lhe uma afeição inalterável, 
e não esquecerei nunca (...)

Peço que não faça como gente vulgar,
que é sempre reles,
e não me volte a cara quando passe por si
nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor.
Fiquemos um perante o outro
como dois conhecidos desde a infância
que se amaram um pouco quando meninos
embora na vida adulta sigam outras afeições.
Conserva nos escaninhos da alma, 
a memória desse amor antigo e inútil.”
**
Trechos de carta de FERNANDO PESSOA à sua amada Ofélia, em 29 de novembro de 1920.
*            *            *

domingo, 6 de maio de 2018

Sugestão Leitura - "O apanhador no campo de centeio"

O Apanhador no Campo de Centeio
por que ler a obra prima de J.D. Salinger?
Amanda Leonardi - em 'Matérias Literárias', página 'Prosa, Verso e Arte'

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Publicado em 1951, o romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, tornou-se um clássico da literatura americana. 
O livro conta sobre a vida de um jovem de dezessete anos chamado Holden Caulfield, que vive em Nova York, já foi expulso de várias escolas, não consegue ter interesse em nenhuma das matérias da escola e é de certa forma bem rebelde e um pouco inocente ao mesmo tempo. Alguns podem julgá-lo imaturo por suas atitudes inocentes, ou talvez pela aparente ausência de praticidade em seus ideais, mas Holden Caulfield é, na verdade, apenas um jovem que não consegue encontrar seu lugar no mundo principalmente por discordar da forma superficial como todos lhe parecem.

O livro é narrado em primeira pessoa, portanto, pode-se praticamente ouvir os pensamentos de Holden Caulfield ao passo em que se avança a leitura do romance. 
O jovem conta não sua vida toda, mas um período desde que foi expulso de sua última escola e passou por uma série de acontecimentos que o fizeram crescer e compreender melhor o mundo e a si mesmo. 
O romance começa com Holden já dizendo que tudo que será narrado foram fatos que ocorreram há um ano – ele tinha dezesseis quando os vivenciou e nos conta já com dezessete, depois de ter sido internado em uma instituição de reabilitação.

Resumindo, é um romance que trata de crescimento, sim, mas não é para adolescentes, como alguns poderiam julgar pelo fato de o protagonista ser um adolescente. É um livro que trata de questões existenciais como encontrar sua identidade no mundo, de autoconhecimento, de uma busca por algum significado na vida. Ou seja, é um livro para todos.

O estilo do romance de Salinger é altamente inovador: nele não temos um narrador em terceira pessoa ou um simples narrador em primeira pessoa nos contando as coisas como elas ocorreram de forma cronológica e objetiva – temos um narrador em primeira pessoa realmente de dezessete anos, que realmente representa o protagonista, nos contando sobre sua vida de forma pessoal e muitas vezes subjetiva, com uma linguagem que um adolescente usaria de fato. 
O texto é marcado pela constante presença de gírias típicas da época em que o livro foi escrito – entre as décadas de 40 e 50. Porém, não é somente a presença das gírias que torna o vocabulário jovial e vívido: o texto flui de uma forma natural, soa como os pensamentos de um jovem, sem nenhuma construção forçada, nenhuma frase de efeito mais rebuscada. O que não significa que o romance não tenha frases marcantes e um estilo literário único – praticamente lírico em algumas partes, pois Holden é sensível, inocente (apesar de rebelde e desregrado), vê o mundo de uma forma muito única, o que o torna extremamente carismático.

Salinger conseguiu construir o personagem de forma tão detalhada que quase parece que Holden é real: o jovem tem um estilo próprio de pensar e falar, tem manias próprias, tem uma história de vida que, apesar de não contada de forma cronológica, nos é mostrada com um recorte sabiamente construído, nos revelando importantes partes do passado do personagem através de suas memórias. E principalmente: o psicológico de Holden Caulfield é muito bem desenvolvido.

Ele não é um personagem plano, somente bom ou somente mau, certo ou errado, não é um estereótipo; ele é um adolescente ao mesmo tempo inocente, sensível e rebelde, sem rumo, sem um lugar na sociedade. Holden não é apenas um retrato fixo, pintado com palavras imóveis, ele é um ser humano construído com as palavras de Salinger, com uma grande profundidade psicológica que vai além da superfície limitada de muitos personagens. Ele é praticamente uma pessoa que nasceu na literatura, um personagem altamente vívido, cujos pensamentos e ações são justificados por sua personalidade.

Portanto, utilizando  uma linguagem leve, praticamente coloquial, para construir a mente de um jovem, Salinger inovou, escrevendo uma obra única que definitivamente marcou época e influenciou gerações. 
A importância da obra é tanta que não se limita à literatura: chega à cultura popular em geral, sendo muito comentada em filmes, músicas, e até teorias conspiratórias, como foi o caso do assassino de John Lennon. O homem disse ter lido O Apanhador no Campo de Centeio e isso o influenciou a assassinar um ser humano. Obviamente, o homem não compreendeu bem a significado dessa profunda obra de Salinger.

O que nos leva a pensar o que pode haver de tão significativo nesse romance, para chegar ao ponto de que, se mal compreendido, pode chegar a causar um impacto tão forte no raciocínio de uma pessoa – não que possa transformar alguém em um assassino, mas pode causar diferentes impactos em diferentes pessoas. Entretanto, se bem compreendido, pode mudar a forma de pensar de quem o lê, libertando o leitor e não o levando à prisão.

O Apanhador no Campo de Centeio é um clássico da literatura americana, leitura exigida em muitos colégios americanos, estudado em cursos de literatura por todo o mundo. 
Por que tantos estudos sobre um livro que narra os pensamentos de um adolescente perdido? Porque muitos se identificam com o protagonista, seja por também estarem perdidos, sem lugar na sociedade, sem nenhum rumo planejado, seja por serem contra a superficialidade que Holden tanto odeia ou porque em algum lugar dentro de cada um ainda haja algo da inocência que Holden tanto sonha em preservar, salvando as crianças de caírem do campo e centeio.

Dito isso, ainda há mil motivos por que um ser humano precisa ler O Apanhador no Campo de Centeio. E talvez ler não seja, ainda, a palavra certa: o correto seria dizer que todo bom leitor – ou ser humano com qualquer questionamento sobre si mesmo ou o mundo onde vive – precisa saborear a obra prima de Salinger, prender-se a cada palavra, compreendendo todo o significado deste clássico. Ou os significados, pois todo bom clássico há de ter diferentes possibilidades de interpretação e este não é uma exceção neste ponto.
(...)
O Apanhador no Campo de Centeio é um romance altamente subjetivo, cujo significado acaba sendo muito pessoal para cada leitor, talvez isso tenha ocasionado o fato de um assassino dizer que se identificou com Holden Caulfield e por isso cometeu um crime. 
O fato é que as buscas de Holden por si mesmo pela cidade de Nova York representam a busca dele em si mesmo, o que todos conseguem  identificar se não se sentem confortáveis no mundo onde vivem. 
Esse é um livro capaz de fazer o leitor sentir que pertence a este mundo, que existem mais pessoas tão perdidas quanto ele, como Holden.

O romance é capaz de despertar no leitor um pouco de apanhador no campo de centeio realmente, algo desse sentimento do protagonista que é inerente a todo ser humano, porém muitos ficam cegos com a superficialidade do mundo “adulto” – o mundo cheio de ordem e ambições imposto aos adultos – e acabam achando Holden inocente demais, alguns até chegam a julgá-lo imaturo. Porém, conceitos de maturidade ou imaturidade não são realmente o ponto mais importante do livro.

É, sim, uma trajetória de crescimento, mas não em direção à idade adulta apenas mas em direção a si mesmo, em direção a se conhecer e aceitar-se como indivíduo, como ser humano, e não se contentar a ser só mais um adulto vazio em uma sociedade superficial. 
Mas Holden Caulfield também não é perfeito, não é um jovem sonhador, inocente, uma espécie de Peter Pan adolescente, embora o seu desejo de salvar as crianças do mundo adulto de certa forma o assemelhe ao personagem da literatura infantil.  Holden é um jovem que está crescendo, está se tornando adulto, portanto, apesar de odiar o mundo superficial destes, ele não é um menino inocente: Holden mente, adora mentir até sobre o próprio nome, ele mata aulas, briga com colegas, é expulso de escolas, mente para os pais.

Sintetizando tudo isso: Holden Caulfield é um adolescente de carne e osso, que tem princípios e defeitos. O mais interessante nesta obra é exatamente isso – como o protagonista consegue ter uma personalidade ao mesmo tempo tão puxada para dois extremos, o lado inocente e o lado rebelde, e isso ter uma verossimilhança tão grande. 
Porém, vendo por outro ponto de vista, tal fusão de extremos faz muito sentido de fato: a sociedade que o cerca é fria, cega, presa a correntes que os mantém no nível aceitável socialmente, para aparentar que são felizes, apesar de, por trás das máscaras, serem todos insatisfeitos, presos a eles mesmos, acomodados em sua queda. Todos que seguem as regras da sociedade superficial têm um lugar nesta, mesmo que seja em uma queda, eles têm um mapa de suas mentes, por isso parecem – talvez realmente sejam – tão vazios como Holden os vê.

Já Holden é o contrário de tudo isso, o que não quer dizer que ele também não se sinta em queda, preso também de alguma forma. Tanto é que o jovem realmente reclama de tudo e de todos, e são poucas coisas, geralmente coisas simples, pouco notadas pela maioria, que o agradam. 
Mas Holden deseja a liberdade, e a encontra em coisas bem simples como ser capaz de observar o lago congelado e divagar a respeito do destino dos patos, para onde eles vão quando o lago congela? – imagina Holden. Tal divagação do protagonista pode ser um símbolo para o seu temor de para onde vai a inocência, a essência do ser humano quando sua alma congela. 
O jovem Holden é um símbolo da quebra do adolescente com o mundo adulto, da tentativa de construir um mundo novo com a nova geração, de uma tentativa de salvar o futuro, de impedir que as crianças caiam do campo de centeio e se tornem também adultos frios, vazios, consumistas e superficiais.

Por isso todos precisam ler e reler O Apanhador no Campo de Centeio, para lembrar de Phoebe no carrossel, aos dez anos de idade, dizendo que está muito velha para isso mas se divertindo como se tivesse seis anos. 
Para lembrar que não precisamos deixar de ser nós mesmos depois dos vinte, dos trinta, dos quarenta, ou até dos oitenta anos. 
Para lembrar que não é preciso, na verdade, se preocupar tanto com a queda do campo de centeio, pois o próprio protagonista acaba por compreender como é possível sobreviver a tal queda. 
Esse é um livro que pode ajudar o leitor a se encontrar, caso esteja perdido, que pode fazer refletir sobre como se caiu do campo de centeio e por quê – e o mais importante: como sobreviveu a tal queda.

E se nenhum dos motivos já citados neste artigo fizerem sentido para algum leitor, ainda assim a leitura do livro é tão acolhedora que os pensamentos do jovem Holden é praticamente uma forma de se sentir em casa. O personagem de Salinger é tão vívido e carismático que muitas vezes parece que suas palavras não estão somente escritas no papel, mas gravadas na alma de quem o lê. 

Ler esse livro é como conversar com Holden, é como conversar com Salinger. Porque Salinger é um daqueles autores que dá vontade de, depois de terminar de ler um livro seu, tê-lo como um grande amigo para poder ligar e conversar a hora que quiser, como Holden diz que ocorre, raramente, com alguns autores.
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domingo, 25 de março de 2018

O Outono -Flora Figueiredo


O Outono
Flora Figueiredo

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Meio-tom. 
Bom termo entre os excessos, 
equilibrado confesso, 
pondero entre extremos. 
Outono, 
coleciono trechos de poesia 
tirados de cores e de brisas, 
do peito da tarde que se descamisa 
em seu desfecho. 
Da maturidade deixo a fruta 
que se queda pronta sobre a terra 
quando minha temporada já se encerra 
e cede vez à estação substituta.
 **
- Em  "Estações". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995


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segunda-feira, 19 de março de 2018

'Meditações', JOHN DONNE

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“Talvez aquele para quem estes sinos dobram esteja tão mal que ele sequer sabe que dobram por ele. E talvez eu possa me achar muito melhor do que sou, como fazem aqueles que me rodeiam, e ao ver o meu estado podem tê-lo feito dobrar por mim, e eu nem saiba disso. (...)”

“...toda a humanidade provém de um autor, e forma um único livro; quando alguém morre, um capítulo não é arrancado do livro mas traduzido para uma linguagem melhor, e cada capítulo deve ser assim traduzido (...)”

“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
**
JOHN DONNE – poeta inglês (1572-1631) in ‘Meditações’

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domingo, 18 de março de 2018

De 'Revista Bula'
EULER DE FRANÇA BELÉM, em IDEIAS


Professor de Stanford, Niall Ferguson afirma que a polarização nas redes sociais está levando a sociedade a um estado de declínio que só pode ser qualificado de ‘incivilidade’

Umberto Eco (1932-2016) disse que as redes sociais possibilitaram o surgimento — e quiçá uma hegemonia — de uma “legião de imbecis”. Antes, concentrados em bares, tomando vinho ou cerveja, “falavam sem prejudicar a coletividade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. O escritor e filósofo italiano sugere que os jornais filtrem de maneira rigorosa as informações divulgadas nas redes sociais, porque, no geral, não são confiáveis.

O historiador escocês Niall Ferguson — autor de livros seminais sobre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, além de obras sobre a decadência do Ocidente (é autor de um livro heterodoxo no qual apresenta a tese de que o colonialismo não foi lucrativo para a Inglaterra. Trata-se de “Império — Como os Britânicos Fizeram o Mundo Moderno”, Crítica, 448 páginas, tradução de Marcelo Musa Cavallari) — segue o mesmo caminho de Umberto Eco, acrescentando sua própria interpretação. O professor de Stanford afirma que a polarização excessiva nas redes sociais está levando a sociedade “a um estado de declínio que só pode ser qualificado de “incivilidade”.

Suas interpretações foram colhidas pelos repórteres Ana Paula Ribeiro e Gustavo Schimitt, de “O Globo”. “A minha preocupação hoje é que a sociedade civil foi tão erodida pelo advento das redes sociais que não podemos mais falar em sociedade civil. Os Estados Unidos se tornaram uma sociedade não civilizada. A polarização se tornou um veneno. Eu me pergunto se a civilização não está se tornando algo diferente, em uma não-civilização ocidental”, critica Niall Ferguson. No livro “A Grande Degeneração — A Decadência do Mundo Ocidental” (Planeta do Brasil, 128 páginas, tradução de Janaina Marcantonio), o autor não arrola as redes sociais como um dos fundamentos da ruína do Ocidente.


Umberto Eco, escritor e filósofo: “Os imbecis agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”

Dirigentes do Facebook e do Twitter não estão, sugere Niall Ferguson, minimamente preocupados com a extensão do dano que está acontecendo no tecido social. Quanto mais barbárie, produzida ou não pela tensão ideológica, mais pessoas circulam pelas redes, aumentando seus ganhos financeiros. “Uma das consequências das redes sociais gigantes é a polarização. As pessoas se agrupam em grupos de esquerda ou de direita. O que notamos é um maior engajamento em tuítes de linguagem moral, emocional e até obscena. As redes estão polarizando a sociedade, produzindo visões extremistas e fake news”, frisa o historiador.

Há quem compare Donald Trump a Ronald Reagan, a Bush pai e a Bush filho. Apesar das limitações dos três, notadamente dos dois Bush — Reagan revelou-se um estadista muito superior ao que esperava a intelligentsia internacional —, Trump é muito mais despreparado. Sua visão de política global é unicamente americana, não incorpora nem parte das ideias de seus “aliados”. Império que se comporta tão-somente como nação isolada, como Estado fechado, não tem futuro, às vezes nem presente. Por que um político com escassa visão mundial se tornou presidente dos Estados Unidos? É provável que as redes tenham contribuído para a vitória de Trump. Pode-se não gostar de Hillary Clinton, mas não há dúvida de que é mais qualificada do que o presidente republicano. A vitória de Trump resulta da hegemonia do provincianismo dos Estados Unidos — país que é, a um só tempo, cosmopolita e caipira.

A rigor, Niall Ferguson não discute isto, mas sublinha que a exposição de Trump era muito maior do que a de Hillary Clinton — inclusive em Estados considerados democratas. Tudo indica, portanto, que as redes sociais funcionaram, sobretudo para o candidato republicano. Niall Ferguson afirma que os analistas de campanhas eleitorais devem ficar atentos às redes sociais. Porque o comportamento dos candidatos, atraindo (ou não) seguidores e engajamento, pode ser decisivo no resultado do pleito.

Insensatez
Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apresenta uma tese ligeiramente diversa da de Niall Ferguson. O professor diz que, mais do que incivilidade, a polarização está gerando insensatez nas redes sociais. “A tendência é que discursos exacerbados sejam favorecidos nas redes. E isso vai produzindo o efeito bolha: as pessoas que fazem parte delas dentro das redes são governadas por algoritmos e não pelo discernimento racional. O que é um paradoxo, porque tudo o que o Brasil precisa neste momento é de sensatez. Mas parece que os ventos favorecem a insensatez”, afirma o mestre. Não é uma visão apocalíptica, mas também não é integrada. É moderada.


Eugênio Bucci: contrariando Ferguson, o professor da USP aposta mais em insensatez do que em incivilidade
Ao contrário do que diz Niall Ferguson, mais apocalíptico, Eugênio Bucci sugere cautela, pois não aposta que as redes sociais vão corromper a democracia no Ocidente. “As redes não podem ser definidas como mal absoluto. É bom lembrar que também representam um arejamento das democracias. E foram responsáveis por imprimir nova dinâmica nas relações entre a sociedade e o Estado”, pontua.

O professor Fabio Malini, coordenador do Laboratório de estudos sobre Internet e Cultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), corrobora a tese de Niall Fergunson. A incivilidade já predomina no Brasil, sobretudo no comportamento político (o que vai além do comportamento dos políticos). “A polarização é corriqueira na política. Mas, nas redes sociais, tem um modelo específico de atenção das pessoas que influi nisso. A proximidade tem sido a tônica de como algoritmos são construídos fortalecendo bolhas ideológicas, onde há atitudes impulsivas, que redundam em decisões emocionais.”

As redes sociais são incontornáveis, quer dizer, vão continuar (goste-se ou não, são positivas). O mais provável é que, após uma primeira fase como terreno da barbárie, retome o caminho civilizatório, abrindo oportunidade ao debate entre indivíduos que pensam de maneiras diferentes a respeito de política, economia, cultura e comportamento. Isto, claro, numa perspectiva otimista. No momento, tornaram-se frigoríficos de ideias, de comportamentos e de pessoas. Talvez não seja possível piorar.

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segunda-feira, 5 de março de 2018

Drummond/Vinícius -

A música popular entra no paraíso
Carlos Drummond de Andrade
10 de julho de 1980


Deus — Quem é este baixinho que vem aí, ao som do violão, de copo cheio na mão?

São Pedro — Senhor, pelos indícios, só pode ser o Vosso servo Vinicius, Menestrel da Gávea e dos amores inumeráveis.

Deus — Será que ele vem fazer alaúza no céu, perturbando o coro dos meus anjos-cantores, diplomados pela Schola Cantorum do mestre São Jorge, o Grande?

São Pedro (hesitante) — Bem… Eu acho, com a devida licença, que ele traz um som novo, mais terrestre, menos beatífico, é certo, mas com uma suavidade brasileira inspirada nos seresteiros seus avós, os quais já têm assentos cativos junto ao Vosso trono, Senhor. Coisa mui digna de Vossa especial atenção.

Deus — Hum, hum…

São Pedro — Posso continuar, Senhor?

Deus — Vá dizendo, Pedro. É sabido que você tem um fraco por essa gente que canta de noite, esteja ou não pescando, principalmente não estando.

São Pedro — Pois eu digo, Senhor, que esse baixinho aí, todo simpatia e delicadeza, é um de Vossos bons servidores na Terra, pois combateu a maldade pela ternura, a injustiça pela fraternidade, e compôs os cânticos profanos que, elevando o coração dos ouvintes, fazem o mesmo que os cânticos sagrados.

Deus (surpreso) — O mesmo?

São Pedro — O mesmo, Senhor, porque Vós permitistes ao homem trilhar a vida direta ou a vida indireta, conforme o gosto dele. Este poetinha escolheu a segunda, por inclinação natural, e manifestou à sua maneira própria o amor à humanidade, distribuindo-o de preferência, na medida do possível, a umas quantas eleitas.

Deus — Não terá sido antes dispersão do que concentração?

São Pedro — As duas coisas, mas unidas tão sutilmente! E essa unidade paradoxal, mas espontânea, produziu os hinos do amor carnal, nos quais foi glorificado o corpo que concedestes às criaturas, e por essa forma glorificou-se a Vossa divina Criação.

Deus — Menos mal, se assim foi. Então esse… como lhe chamas?

São Pedro — Vinicius, não o patrício romano, que o amor conduziu do paganismo à fé cristã, mas o de Melo Moraes, filho de pais que curtiam o “Quo Vadis”. Este nasceu diretamente para o amor, e não precisou meter-se nas embrulhadas do paganismo de Nero para achar o rumo de sua alma. Ele já estava traçado pelas estrelas de outubro, Vossas mensageiras. Vinicius nasceu com a célula poética, e esta desabrochou em cânticos variados, na voz de seus lábios e na dos instrumentos. Com estes cânticos ele encantou o seu povo. E era um povo necessitado de canto, um canto tão necessitado mesmo!

Deus — Ele deu alegria ao Meu povo?

São Pedro (exultante) — Se deu, Senhor! E para isso não precisava sempre compor canções alegres. Ia até o fundo das canções tristes, mas dava-lhes uma tal doçura e meiguice que as pessoas, ouvindo-as, não sabiam se choravam ou se viam consoladas velhas mágoas. Era um coração se desfazendo em música, Senhor. Deu tanta alegria ao povo, que até a última hora de sua vida (esta não chegou a ser longa, mas se alongou em canção) trabalhou com seu fiel parceiro Toquinho para levar às crianças um tipo musical de felicidade. Morreu, pois, a Vosso serviço, Senhor.

Deus (disfarçando a emoção) — Mande entrar, mande entrar logo esse rapaz. Vinicius entra rodeado de anjos, crianças, virgens e matronas que entoam mansamente:

Se todos fossem iguais a você,
que maravilha viver!
Uma canção pelo ar,
uma mulher a cantar,
uma cidade a cantar,
a sorrir, a cantar, a pedir
a beleza de amar,
como o sol, como a flor, como a luz,
amar sem mentir nem sofrer.
Existiria a verdade,
verdade que ninguém vê,
se todos fossem no mundo
iguais a você!

De vários pontos, vêm-se aproximando Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Ciro Monteiro, Noel Rosa, Dolores Duran, Orfeu, Eurídice, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Portinari, Murilo Mendes, Maysa, Lúcio Rangel, Tia Ciata, Santa Cecília, Antônio Maria, Bach, Ernesto Nazaré, Jaime Ovalle, Chiquinha Gonzaga e outros e outros e outros que não caberiam neste relato, mas cabem na imensidão do céu e som, e unem-se ao coral:

Teu caminho é de paz e de amor.
Abre os teus braços e canta
a última esperança,
a esperança divina
de amar em paz!

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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Guimarães Rosa poeta -livro 'Magma'

Lunático
Guimarães Rosa - em 'Magma'

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Vou abrir minha janela sobre a noite.
E já bem noite, a lua,
alta a um terço do seu arco,
terá de deslizar pelo meu quarto adentro,
e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,
quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,
sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,
que levam à região dos desabrigos…
Sonharei com mares muito brancos,
de águas finas, como um ar dos cimos,
onde o meu corpo sobrenada solto,
por entre nelumbos que passam boiando…
Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,
cantando no alto sempre o mesmo canto,
como a sereia do sempre mais alto…
E a janela se fecha, prendendo aqui dentro
o raio suave que prendia a lua…
Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,
onde remoinham as formas inacabadas,
onde vêm morrer as almas, afogadas,
e onde os deuses se olham como num espelho.

*            *             *
– João Guimarães Rosa, do livro “Magma”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 64.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Os professores - Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe


Valter Hugo Mãe destaca-se no panorama da literatura portuguesa pelo carisma e o ecletismo. Escritor, editor e artista plástico, cursou pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Universidade do Porto. Possui livros publicados de poesia, contos e narrativa longa, romances. Em 2007, recebeu o Prêmio Literário José Saramago com o seu segundo romance, O remorso de baltazar serapião.

“Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.”


Os professores
(texto em português de Portugal)

Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.

A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.

Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.

Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesses crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.

Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.

Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.

Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.

Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.

As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.
***

'Autobiografia Imaginária' | Valter Hugo Mãe | JL Jornal de Letras, Artes e Ideias | Ano XXII | Nº 1095 | 19 de Setembro de 2012.

Fonte: SPGL – Sindicato dos Professores da grande Lisboa (Portugal)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Arte Plástica - Ricardo Ferrari

Da página 'Revista Prosa, Verso & Arte



“O brincar é uma atividade humana criadora, na qual imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de novas possibilidades de interpretação, de expressão e de ação pelas crianças, assim como de novas formas de construir relações sociais com outros sujeitos, crianças e adultos.” 
Lev Vygotsky, no livro “A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

“No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.”
Manoel de Barros, em carta a José Castello, publicado no Jornal Valor Econômico, em 18 mar.2012.

É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou oadulto fruem sua liberdade de criação.”
– Winnicott, D. W., no livro “O Brincar & a Realidade”. [tradução José Octavio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre]. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1971.
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“O brincar está presente em diferentes tempos e lugares e de acordo com o contexto histórico e social que a criança está inserida. A brincadeira é recriada com seu poder de imaginação e criação.

As brincadeiras de outros tempos estão presentes nas vidas das crianças, com diferentes formas de brincar, porque hoje, nós temos diferentes espaços geográficos e culturais. Mas que relação podemos fazer do brincar com o desenvolvimento, a aprendizagem, a cultura e como incorporar a brincadeira em nossa prática?

O brincar é natural na vida das crianças. É algo que faz parte do seu cotidiano e se define como espontâneo, prazeroso e sem comprometimento.

As brincadeiras são universais, estão na história da humanidade ao longo dos tempos, fazem parte da cultura de um país, de um povo. Achados arqueológicos do século IV a.C., na Grécia, descobriram bonecos em túmulos de crianças. Há referências a brincadeiras e jogos em obras tão diferentes como a Odisséia de Ulisses e o quadro jogos infantis de Pieter Brughel, pintor do século XVI. Nessa tela, de 1560, são apresentadas cerca de 84 brincadeiras que ainda hoje estão presentes em diversas sociedades.”

O ato de brincar faz parte da vida do ser humano desde o ventre de sua mãe. Seu primeiro brinquedo é o cordão umbilical. […]
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Fonte: SILVA, Aline Fernandes Felix da; SANTOS, Ellen Costa Machado dos.. A importância do Brincar na educação infantil. UFRRJ, Mesquita/RJ, 2009.
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Ricardo Ferrari (acervo pessoal)
“O desenho, seguido da pintura desses meninos, me proporciona uma amplitude tão grande em termos de temas que partem dessa relação com a infância que é para mim bastante lúdica. O que mais me atrai talvez seja essa ideia da brincadeira. Eu morei em Belo Horizonte quando a cidade era conhecida por ser um imenso quintal, onde as crianças podiam brincar na rua. E em torno disso tem um sentimento de alegria e liberdade que move bastante”
“Eu gosto de pintar o que me deixa feliz e alegre. As minhas pinturas refletem isso”
Ricardo Ferrari , em “Telas inspiradas pela infância”. jornal O Tempo, 18.9.2013.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os flamboyants 
Rubem Alves

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A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzsche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.

Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol. Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir… Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acarinhando a pele — os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, “pensar é estar doente dos olhos”. Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: “Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela… Você não quer vir até a nossa casa para tomar um cafezinho?”

Fui. Mas ele me advertiu: “Não diga nada para ela. É surpresa…” Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.

As crianças da 3ª série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O Gambá Que Não Sabia Sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menininha, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica 'Se Eu Tiver Apenas Um Ano a Mais de Vida'
Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: “Recortei a crônica e trouxe para a professora…” Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.

As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma idéia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: “Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?” Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: “Não chore porque eu vou abraçar você…”
As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades — porque a vida é tão boa! Por isso, o que nos resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.
Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres… E, como disse Walt Whitmann, “quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha”.

O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.
Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.

Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. “Você sabe rodar piões?”, eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os “outros” definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.

Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.

Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)… Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: “Não gostaria de brincar com corrupio?” E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. “Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?” E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: “Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar…” São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar…

Pois a Julieta — aquela do Romeu — me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu. Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.

Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: “Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver… Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E concluí que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz…”
Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria…

As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando…
*            *           *

Rubem Alves, em 'Mansamente Pastam as Ovelhas'

Alma -Flora Figueiredo

Alma
Flora Figueiredo



Acho que os sentimentos têm células, 
pois as sinto remexer, 
intensas libélulas 
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos, 
sempre crescem. 
A cada instante que vivo, 
mais então se expandem, 
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações 
e quando me perco pelas emoções, 
ele se avoluma e me maltrata. 
Chega a ser tão grande seu efeito, 
que rompe o peito,sangra 
e se dilata.

Ah minhas células emotivas! 
Quero-as em mim 
coladas e cativas 
fazendo-me viver intensamente. 
Eu as batizo com o nome de "alma" 
e as responsabilizo a viver eternamente 
ainda quando o coração se acalma 
e põe-se a dormir 
irreversivelmente.
*        *        *

Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A deliciosa sensação de estar sozinho e sentir-se verdadeiramente feliz
Lara Brenner , na página 'Revista Bula - Crônicas'

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Solidão: estado de quem se encontra ou vive só, isolamento (Aurélio).

Enquanto enchia minha farta taça de vinho pela segunda vez, já com os dentes e lábios roxos, dei-me conta de que a mesa a que me sentava estava vazia, exceto por mim. Na cozinha também havia ninguém, assim como em todo o apartamento. Sequer música se podia ouvir. Eu estava só e engolida pelo silêncio.

Por um segundo, incomodou-me um pouco que a ideia de que alguém, vendo aquilo, pudesse concluir ser um momento de solidão abandonada. O ato de beber sozinho carrega a história de escritores decadentes e amores de insucesso, conferindo ao álcool um comportamento ambíguo: consumido em grupo, serve para brindar a vida; já em isolamento, serve para afogar as mágoas.

Entre um gole e outro de vinho, a verdade me caiu como um estalo: entre mim e aquele líquido, havia nada além de glória. Não existia ânsia por companhia, tampouco sofrimento por sua ausência. Pareceu-me injusto que não houvesse na Língua uma palavra que expressasse a glória de estar só, mas felizmente o sociólogo Paul Tillich teve a cortesia de me apresentá-la. Solitude. As quatro sílabas dançavam em minha língua já meio dormente. “O idioma criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” A Língua quase nunca desaponta.

Jobim inventou que é impossível ser feliz sozinho. Terceirizando a responsabilidade pela plenitude do espírito, criou-se o estigma do hedonismo acompanhado, de que a felicidade só é boa quando dividida. As redes sociais estão aí para perpetuar o sentimento: haja sorrisos, brindes, porres e bossa. Haja viagens, selfies em grupo, bares lotados e músicas entoadas em coro. Ficar sozinho parece coisa de gente humilhada e infeliz, mas talvez não suportar a própria companhia por um instante seja o autêntico sinal de infelicidade. Pessoas que têm hábitos como ir a cinema, beber, dançar e fazer compras sem companhia causam grande furor às demais, ainda que ninguém tenha a curiosidade de indagar se aquilo é ato intencional. Só que a balbúrdia costuma causar ilusão de felicidade e a verdadeira fuga pode residir aí.

É bem provável que uma vida inteira de solitude se transforme em solidão, mas é curioso como viver apenas em grupo cansa e chega uma hora em que tudo o que se quer fazer é correr dali para a calmaria do mar, que só é alcançada quando se nada para dentro. Solitude é uma opção, um deleite, uma vontade. Talvez sua graça seja saber que é facultativa e que, quando a alma pedir por compartilhamento, haverá pessoas queridas que ficarão felizes em oferecê-lo.

Necessário, portanto, ser forte e seguro para curtir a solitude, sendo a recompensa tanto simbólica quanto aproveitável. Basta perceber que grandes decisões e guinadas na vida costumam ser precedidas por momentos de recolhimento. Bastar-se não se restringe à negação das pessoas e do mundo, e, sim, saber que existir não depende necessariamente de alguém além de si.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ARIANO SUASSUNA - 'O sol de Deus'




O sol de Deus
[Com tema de Renato Carneiro Campos]

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque a teia do Destino
não houve quem cortasse ou desatasse.

Não serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao som do Sino.
Verei o Jaguapardo e a luz da Tarde,
Pedra do Sonho e cetro do Divino.

Ela virá-Mulher- aflando as asas,
com o mosto da Romã, o sono, a Casa,
e há de sagrar-me a vista o Gavião.

Mas sei, também, que só assim verei
a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sertão.

*            *            *
Ariano Suassuna, “Poemas”. [seleção e notas de Carlos Newton Júnior]. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1999.