quarta-feira, 27 de agosto de 2014

TEL MONT - Amor e perdas

Homenagem da minha amiga Tel Mont ao seu cãozinho Tobias.




O amor que não basta. Ele, tão poderoso, às vezes é tão impotente diante de coisas mínimas. Nunca vou me conformar quando ele se mostra tão frágil nas horas em que mais preciso crer e sentir a sua força. Ou talvez eu não saiba amar, ame pouco, fragilmente ame, aprendendo ainda...

Seres que perdi para 'a terceira margem do rio' (ave,Guimarães Rosa!), será que perceberam o quanto quis mantê-los deste lado e não consegui? Pessoas e animais de estimação... Minhas mãos sentimentais estendiam-se para segurá-los aqui ao meu lado, junto, aquecendo-os e deixando-me aquecer. Em vão.

Nessas horas, a dor que ressurge me leva a perguntar: não amei o bastante para ao menos ser capaz de produzir um pequeno milagre?

Pode parecer bobagem (ah, que importa?), mas este texto é para o meu anjinho de quatro patas Tobias, que agora estaria a voar pela casa, subitamente possuído por uma energia noturna. Depois, o cansaço, a procura por colo, o sono... Que onde ele esteja, outro colo o acolha até eu chegar.




*            *            *

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Um dia estaremos... -

Porque um dia estaremos mais perto
 uns dos outros
André J. Gomes - "Revista Bula", agosto 2014

Um dia estaremos mais perto uns dos outros. Não importa quando e nem como. Mas nós seremos mais próximos do que somos hoje.

Nesse dia, estaremos para além de qualquer classificação superficial. 
Seremos mais que certos ou errados, pobres ou ricos, brancos ou pretos ou vermelhos e amarelos, homens ou mulheres, novos ou velhos. 
Mais que tudo isso, seremos simples pessoas mais próximas.

Ainda que distantes na geografia, guardaremos em nós a lembrança ou o desejo do encontro. E o encontro nada mais será que um pedido assentido e sincero de compreensão. 
Encontrar será a prática simples de pensar em alguém e querer nada senão compreendê-lo e aceitá-lo.

Viveremos perto o suficiente para nos vermos, nos ouvirmos e nos sentirmos ali. 
Próximos o bastante para dividir nossas alegrias e nossas dores, para seguir os caminhos de cada um sem nos perder de vista. Íntimos a ponto até de nos afastarmos quando preciso, em respeito à nossa necessidade humana da solidão que de quando em vez nos empurra para o claustro.

Entre tantas respostas e ponderações absolutas e julgamentos e certezas tão comuns desse mundo, estaremos juntos para nos fazer perguntas sem esperar respostas. 
Apenas nos perguntaremos coisas à toa, pelo puro e simples exercício de falar e ouvir. Mais ouvir do que falar.

Em longas conversas de manhã, sentados no sol de um banco de praça, nossos livros sobre o colo esperando atenção, relembraremos sem saudade os tempos frios em que nos tornamos duros estranhos. 
Riremos juntos de nossos ódios superados, nossas pendengas ridículas e desconfianças daninhas. 
E de tão boas, nossas conversas se estenderão sem pressa e sem culpa pela tarde e pela noite, até o mundo amanhecer de novo em cada dia seguinte.
Até lá, as histórias de uma gente que aprendeu a viver separada demais, uns contra os outros, fazendo do conjunto da vida uma imensa guerra campal, gritalhona e infértil serão nada além de velhas narrativas de barbárie e estupidez. 
Peças de um museu inexistente. Sombras de uma guerra em que os vencedores celebravam sua superioridade sem se dar conta de que, no fim do jogo, todas as peças sempre voltam para a caixa.

Então, façamos um trato. De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. 
Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta. 
Alguém está a nos advertir que devíamos passar mais tempo juntos, ficar mais perto uns dos outros, tomar sol, apanhar vento, esperar a lua que se esconde por trás das nuvens.

Em todos os sentidos, de todas as formas, você e eu e todos nós seremos uma só vizinhança afetiva, moradores de um só quarteirão amoroso. 
Perto ou longe, não importa, seremos simples pessoas mais próximas, afeitas e dispostas a fazer da vida um longo e sincero gesto de amor ao outro.

É que um dia, se Deus quiser, estaremos mais perto uns dos outros.

*            *            *

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dois poemas de ANA CECÍLIA - Vestígios / Jugo


Vestígios
Ana Cecília de Sousa Bastos -  Salvador, Bahia 

Estranha pulsão, esta:
derramar no caderno porções de alma.
A mão, captando sinais invisíveis.
Lenta, no formigueiro em marcha.
Absolutamente só,
enquanto todos perseguem a sagrada hora do
                                              [ trabalho
e dos compromissos bancários.

E depois, palavras escondidas em oculto caderno,
papel rasgado, para que delas não sobrem
vestígios.

**

Jugo
Ana Cecília de Sousa Bastos - Salvador , Bahia


Obedecer à doce tirania da palavra.

Anular censura, momento, lugar.
Deixar no papel o verso líquido,
esse pálido espelho da alma.

Enquanto deixo-me estar,
impressionada pela cor da palavra
"pálida". 

*             *            *

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ADÉLIA PRADO - Clareira


Clareira
Adélia Prado

Seria tão bom, como já foi,
as comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
pitando e rapando a goela. Os meninos
farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida, ou inventei?

Eu gosto de metafísica, só pra depois
pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
falar as falas certas: a de Lurdes casou,
a das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
as santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve.

Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
pra eu sobreviver.


In: "Bagagem", p.35

*        *        *

domingo, 17 de agosto de 2014

JOSÉ SARAMAGO - "Carta para Josefa, minha avó"

Da página "Homo literatus"
Carta para Josefa, minha avó
José Saramago

"Tens noventa anos. És velha, dolorida. 
Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. 
Não sabes ler. 
Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. 
Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. 
De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. 
Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte.
Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. 
Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. 
Com  isto viveste e vais vivendo. 
És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. 
Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. 
Vives. 
Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. 
Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. 
E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. 
O teu riso é como um foguete de cores. 
Como tu, não vi rir ninguém. 
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. 
Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. 
Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. 

Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender.

Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas palavras as que tu pudesses compreender. 
Já não vale a pena. 

O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? 
Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. 
Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. 

Mas por que, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua. "


*            *            *

sábado, 16 de agosto de 2014

'POR QUE ESCREVO?' - José Domingos de Brito

Da página "Homo literatus'


Todos os depoimentos a seguir transcritos pertencem à coletânea “Por que escrevo?”, organizada por José Domingos de Brito (editora Novera), com suas respectivas fontes individuais. 


writer

"Por  que escrevo?"

01. Allen Ginsberg:  Estados Unidos,  1926 – 1997

“(…) Eu escrevo poesia porque gosto de cantar quando estou só (…) Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém uma multidão de pensamentos, 10 mil para ser preciso (…) Eu escrevo poesia porque não há razão, não há porquê. Eu escrevo poesia porque é a melhor forma de dizer tudo que me vem à cabeça no intervalo de um quarto de hora ou de toda uma vida.”
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02. Augusto dos Anjos:  Brasil,  1884 1914

“A princípio escrevia simplesmente
Para entreter o espírito… Escrevia
Mais por impulso de idiossincrasia
Do que por uma propulsão consciente.

Entendi, depois disso, que devia,
Como Vulcano, sobre a forja ardente
Da ilha de Lemnos, trabalhar contente,
Durante as 24 horas do dia!

Riam de mim, os monstros zombeteiros.
Trabalharei assim dias inteiros,
Sem ter uma alma só que me idolatre…

Tenha a sorte de Cícero proscrito
Ou morra embora, trágico e maldito,
Como Camões morrendo sobre um catre!”
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03. Carlos Drummond de Andrade: Brasil, 1902 - 1987

“Posso dizer sem exagero, sem fazer fita, que não sou propriamente um escritor. Sou uma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu talvez exprimir algumas de suas inquietações, seus problemas íntimos, que os projetou no papel, fazendo uma espécie de psicanálise dos pobres, sem divã, sem nada. Mesmo porque não havia analista no meu tempo, em Minas.”
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04. Clarice Lispector:  Brasil, (naturalizada)  1920 1977

“Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.”
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05. Fernando Pessoa:  Portugal,  1888 - 1935

“Eu escrevo para salvar a alma.”
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06. Fernando Sabino: Brasil,  1923 - 2004

“Tenho a impressão de que se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Não haveria condição. Não saberia dizer, não. Está além da minha compreensão. Esta pergunta é tão grave como se perguntassem: ‘Por que vive? Por que ama? Por que morre? ’. Talvez eu escreva para atender a essas três presenças que são as únicas que existem na vida de um homem. No verso de Eliot: ‘Birth, copulation and death’; eu diria ‘nascimento, amor e morte’. Não sei por que escrevo. Eu nasci, virei homem e vou morrer.”
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07. Gabriel García Márquez:  Colômbia, 1927 - 2014

“Para que meus amigos me amem mais.”
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08. George Orwell:  Inglaterra, 1903 - 1950

“Meu ponto de partida é sempre um sentimento de proselitismo, uma sensação de injustiça. Quando sento para escrever um livro, não digo a mim mesmo: ‘Vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe uma mentira que pretendo expor, um fato para o qual pretendo chamar a atenção, e minha preocupação inicial é atingir um público. Mas não conseguiria escrever um livro, nem um longo artigo para uma revista, se não fosse também uma experiência estética. Quem se dispuser a examinar meu trabalho perceberá que, mesmo quando é uma clara propaganda, contém muito do que um político de tempo integral consideraria irrelevante. Não sou capaz de abandonar por completo a visão de mundo que adquiri na infância, nem quero. Enquanto viver e estiver com saúde, continuarei a ter um forte apego ao estilo da prosa, a amar a superfície da Terra, a sentir prazer com objetos sólidos e fragmentos de informações inúteis. De nada adianta tentar reprimir esse meu lado. O trabalho é conciliar os gostos e os desgostos arraigados com as atividades essencialmente públicas, não individuais, que esta época impõe a todos nós.”
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09. Jean-Paul Sartre:  França, 1905 - 1980

“Porque a criação só pode encontrar seu acabamento na leitura; porque o artista deve confiar a outro a tarefa de concluir o que ele começou; porque somente através da consciência é que ele pode se ter como essencial a sua obra e toda obra literária é um apelo. Escrever é apelar ao leitor para que ele faça passar à existência objetiva o descobrimento que empreendi por meio da linguagem.”
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10. João Cabral de Melo Neto:  Brasil,  1920 - 1999

“Por que escrevo é um negócio complicado… Eu tenho a impressão de que a gente escreve por dois motivos. Ou por excesso de ser — é o tipo do escritor transbordante, como a maioria dos escritores brasileiros; é uma atitude completamente romântica — ou por falta de ser. Eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche um vazio existencial. Às vezes, eu escrevo porque quero dizer determinada coisa que eu acho que não foi dita; às vezes, porque me interessa que conheçam meu ponto de vista. Às vezes, escrevo também por prazer.”
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11. José Saramago:  Portugal, 1922 - Espanha, 2010

“Antes eu dizia: ‘Escrevo porque não quero morrer. ’ Mas agora eu mudei. Escrevo para compreender. O que é um ser humano?”
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12. Julio Cortázar:  Bélgica, 1914 - França, 1984

“(…) O fascínio que uma palavra produzia em mim. Eu gostava de algumas palavras, não gostava de outras, algumas tinham certo desenho, uma certa cor. Uma de minhas lembranças de quando estava doente (fui um menino muito doente, passava longas temporadas de cama com asma e pleurisia, coisas desse tipo) é a de me ver escrevendo palavras com o dedo, contra uma parede. Eu esticava o dedo e escrevia palavras, e via as palavras se formando no ar. Palavras que eram, muitas vezes, fetiches, palavras mágicas. Isso é algo que depois me perseguiu ao longo da vida. Havia certos nomes próprios — e sei lá por quê — que para mim tinham uma carga mágica. Naquela época havia uma atriz espanhola que se chamava Lola Membrives, muito famosa na Argentina. Bom, eu me vejo doente — aos sete anos provavelmente — escrevendo com o dedo no ar Lo-la-Mem-bri-ves, Lo-la-Mem-bri-ves. A palavra ficava desenhada no ar e eu me sentia profundamente identificado com ela. De Lola Membrives, a pessoa, eu não sabia muita coisa, nunca a tinha visto e nunca a vi. Na realidade, eram meus pais que iam ver as peças onde ela trabalhava. E foi nesse mesmo momento que comecei a brincar com as palavras, a desvinculá-las cada vez mais de sua utilidade pragmática e comecei a descobrir os palíndromos, que depois apareceram nos meus livros… Desde muito pequeno, minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia da minha relação com o mundo em geral. Eu não acho que nasci para aceitar as coisas tal como estão, tal como me são oferecidas.”
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13. Manuel Bandeira:  Brasil, 1886 - 1968

“Na verdade, faço versos porque não sei fazer música… Jamais senti que meu destino fosse a Poesia, sobretudo assim com esse P maiúsculo que pressinto na sua garganta. Creio que se fui poeta em alguns momentos, só o fui por incidente patológico ou passional.”
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14. Moacyr Scliar:  Brasil,  1937 - 2011

“Quando criança, eu era adicto à literatura, não podia ficar sem ler. A minha conexão com a vida acontecia via literatura. Eu lia para aprender a viver, para saber o que fazer. É claro que isso provoca muitas desilusões, muitos choques, porque a vida não é a literatura. Assim, quando comecei a escrever, foi porque lia. Outra razão é que meus pais foram grandes contadores de história. Numa noite quente como essa, as pessoas do meu bairro se reuniam para contar histórias, o que, desde muito cedo se incorporou em mim, passou a ser uma coisa que eu também queria fazer, só que à minha maneira, escrevendo.”
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15. Paulo Francis:  Brasil, 1930 - Estados Unidos, 1997

“Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas da vida.”
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16. Rachel de Queiroz:  Brasil,  1910 - 2003

“Acho que para cada escritor há uma razão diferente. No meu caso, num certo sentido, é o desejo interior de dar um testemunho do meu tempo, da minha gente e principalmente de mim mesma: eu existi, eu sou, eu pensei, eu senti, e eu queria que você soubesse. No fundo, é esse o grito do escritor, de todo artista. Creio que o impulso de todo artista é esse. É se fazer ver. Eu existo, olha pra mim, escuta o que eu quero dizer: tenho uma coisa pra te contar. Creio que é por isso que a gente escreve.”
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17. Sérgio Milliet: Brasil, 1998 - 1966

“Quer saber de uma coisa? Não acredito na predestinação literária. São circunstâncias acidentais que fazem o escritor e é o acaso de um primeiro êxito que o leva a perseverar. Um homem de inteligência média faz qualquer coisa; basta que a vida o exija. Qualquer camarada de algumas letras escreveu versos na mocidade; se não continuou, foi porque outra coisa lhe interessou.”
**

18. Truman Capote:  Estados Unidos, 1924 - 1984

“Sou um escritor essencialmente horizontal. Não posso pensar mais do que quando estou encostado, com um cigarro nos lábios e uma xícara de café ao alcance da mão. A xícara de café pode ser trocada por um copo de vodka, não há por que ser maníaco. Não uso máquina de escrever, redijo à mão, com lápis. Trabalho quatro horas por dia durante quatro meses por ano. Sou um estilista: me preocupa mais onde colocar uma vírgula que ganhar o prêmio Nobel.”
**

19. William Faulkner:  Estados Unidos, 1897 - 1962

“Para ganhar a vida.”
**

E você, por que escreve?


*        *        *

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Do musical "Notre-Dame de Paris"

Duas músicas do maravilhoso musical "Notre-Dame de Paris", baseado em romance de Victor Hugo ("O Corcunda de Notre-Dame")

Criadores:
Compositor: RICHARD COCCIANTE
Autor: LUC PLAMONDON
Produtor: CHARLES TALAR
Coreografia: MARTINO MÜLLER
Decoração: CHRISTIAN RATZ
Figurino: FRED SATHAL
Produtor de palco: GUILE MAHEU
Direção de luzes: ALAIN LORTIE




[Esmeralda]
Les oiseaux qu'on met en cage
Peuvent-ils encore voler ?
Les enfants que l'on outrage
Peuvent-ils encore aimer ?

J'étais comme une hirondelle
J'arrivais avec le printemps
Je courrais par les ruelles
En chantant des chants gitans

Où es-tu sonneur de cloches
Où es-tu mon Quasimodo ?
Viens me sauver de la corde
Viens écarter mes barreaux

[Quasimodo]
Où es-tu mon Esmeralda
Où te caches-tu de moi ?
Voilà au moins trois jours déjà
Qu'on ne te voit plus par là

Es-tu partie en voyage
Avec ton beau capitaine
Sans fiançailles, sans mariage
Comme à la mode païenne ?

Serais-tu morte peut-être
Sans prière et sans couronne ?
Ne laisse jamais un prêtre
S'approcher de ta personne

[Esmeralda]
Souviens-toi d'un jour de foire

[Quasimodo]
Où l'on m'avait mis à la roue

[Esmeralda]
Quand je t'ai donné à boire

[Quasimodo]
Je suis tombé à genoux

[Les deux]
On est devenus ce jour-là
Amis à la vie à la mort
Il se passe entre toi et moi
Quelque chose de tell'ment fort

Les oiseaux qu'on met en cage
Peuvent-ils encore voler ?
Les enfants que l'on outrage
Peuvent-ils encore aimer ?
**


Belle

( Quasimodo )

C'est un mot qu'on dirait inventé pour elle 
Quand elle danse et qu'elle met son corps à jour, tel 
Un oiseau qui étend ses ailes pour s'envoler 
Alors je sens l'enfer s'ouvrir sous mes pieds
J'ai posé mes yeux sous sa robe de gitane 
A quoi me sert encore de prier en Notre-Dame 
Quel 
Est celui qui lui jettera la première pierre 
Celui-là ne mérite pas d'être sur terre
O Lucifer ! 
Oh ! Laisse-moi rien qu'une fois 
Glisser mes doigts dans les cheveux d'Esméralda

( Frollo )

Belle 
Est-ce le diable qui s'est incarné en elle 
Pour détourner mes yeux du Dieu éternel 
Qui a mis dans mon être ce désir charnel 
Pour m'empêcher de regarder vers le Ciel
Elle porte en elle le péché originel 
La désirer fait-il de moi un criminel 
Celle 
Qu'on prenait pour une fille de joie une fille de rien 
Semble soudain porter la croix du genre humain
O Notre-Dame ! 
Oh ! laisse-moi rien qu'une fois 
Pousser la porte du jardin d'Esméralda

( Phoebus )

Belle 
Malgré ses grands yeux noirs qui vous ensorcellent 
La demoiselle serait-elle encore pucelle ? 
Quand ses mouvements me font voir monts et merveilles 
Sous son jupon aux couleurs de l'arc-en-ciel
Ma dulcinée laissez-moi vous être infidèle 
Avant de vous avoir mené jusqu'à l'autel 
Quel 
Est l'homme qui détournerait son regard d'elle 
Sous peine d'être changé en statue de sel
O Fleur-de-Lys, 
Je ne suis pas homme de foi 
J'irai cueillir la fleur d'amour d'Esméralda

( Quasimodo, Frollo et Phoebus )

J'ai posé mes yeux sous sa robe de gitane 
A quoi me sert encore de prier  en Notre-Dame 
Quel 
Est celui qui lui jettera la première pierre 
Celui-là ne mérite pas d'être sur terre
O Lucifer ! 
Oh ! laisse-moi rien qu'une fois 
Glisser mes doigts dans les cheveux d'Esméralda
Esméralda

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ROBIN WILLIAMS - O mundo menos alegre

Cena emblemática de "Sociedade dos Poetas Mortos"

Oh Captain, my Captain 
Walt Whitman
Estados Unidos, 31 de maio de 1819 – 26 de março de 1892

Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, 
o prêmio que buscávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos,
toda a gente está exultante,
Enquanto segue com os olhos a firme quilha, 
o ameaçador e temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
onde no convés o meu capitão jaz,
tombado, frio e morto.

Ó capitão! meu capitão! 
Ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, 
os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, 
os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, 
não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, 
a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem 
com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto.

* *

O Captain! My Captain!
Walt Whitman

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

*        *        *

Fonte: Leaves of Grass (David McKay, 1891)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

NEY MATOGROSSO - Noite torta (Itamar Assumpção)



Noite torta
Itamar Assumpção

na sala numa fruteira
a natureza está morta
laranjas, maçãs e peras
bananas, figos de cera
decoram a noite torta
sob a janela do quarto
a cama dorme vazia
encaro nosso retrato
sorrindo sobre o criado
no meio da noite fria
está pingando o chuveiro
que banho mais apressado
molhado caíste fora
no espelho minh'alma chora
lá fora está tão gelado
sozinha nesta cozinha
em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é

*        *        *


domingo, 10 de agosto de 2014

DRUMMOND - Infância


Infância
Carlos Drummond de Andrade


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

*        *        *
                                                                                                                   

In: 'Poesia e prosa'. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1988.

sábado, 9 de agosto de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Lá vem a vida...


Em memória do meu pai.

Lá vem a vida. Vem seguindo no passo manso das moças
André J. Gomes - 'Revista Bula". agosto 2014

E então meu pai, que andava sumido no tempo, deu as caras numa lembrança. 

Disseram lá e cá que ele andava com saudade de mim. 
Saiu voando por cima das casas, feliz e triste, apertando os olhos para ver se me via lá de cima. 

Ah… meu pai. Aí me deu saudade de você. Mas foi saudade alegre. 

Saudade da graça das suas piadas sem graça, do perfume barato da sua loção pós-barba, do seu jeito de ver a vida seguindo no passo manso das moças. Aquelas moças da cidade nossa. 
Deu saudade.

Ainda hoje, agorinha, olhei meu filho e vi você, meu pai. 

Ele não sabe, mas é igual ao avô no jeito de ler gibi, na forma de segurar o garfo, de calçar as meias, de descascar mexerica virando a cara para proteger os olhos.

A vida segue como quis você, no caminho atento da nossa gente. 

Passa o tempo e meu filho também envelhece. Vai se tornando um pequenino você, como eu mesmo levo no rumo dos dias a face endurecida de sol e sonho dos meus avós.

Seu neto cresce ligeiro, meu pai. Você precisa ver. Daqui a pouco será gente grande. 
É que a vida vai no passo manso das moças, mas até as moças de passo manso andam correndo de quando em vez, aqui e ali. 
Meu garoto cresce. É já um homenzinho. E mesmo quando a vida fizer dele um bruto de um homem, ele há de seguir menino em algum lugar.

Porque as crianças que sobrevivem em nós, aqui bem dentro, escondidas em nossos escombros internos, aproveitam quando estamos dormindo e se encontram por aí, em algum lugar. 

Passam juntas o tempo que dura os nossos sonhos, fazem brinquedo de nossos medos, pisam dançando nossos rancores como poças d´água na chuva. 
E assistem, sentadas na grama molhada, à vida seguindo no passo manso das moças.

Risonhas, as crianças que um dia fomos giram as tramelas das portas que escondem nossos choros presos, rompem os diques. 

Fazem sua arte e saem pulando alegria, caminhando vitoriosas na contramão da enxurrada de lágrimas libertas. 
Os meninos que fomos nós ainda fazem festa com os cachorros roliços de rabo cortado, se espantam com os trovões e os relâmpagos, os estalos espontâneos na madeira do telhado, os rojões da quermesse. 
Ainda têm medo de cara feia, cobra cega, escada alta, inseto que voa.

Aos poucos, nos tornamos velhos cheios de saudade e cabelos brancos. 

Mas as nossas crianças de dentro, meu pai, essas não envelhecem, não morrem, não vão. Elas vivem para sempre nos pequenos que virão, enquanto a vida continua em frente. Seguindo no passo manso das moças.

É, meu pai. Você e eu e todo mundo estamos condenados à graça da existência eterna. 

No riso franco e inocente do seu neto, voltam à vida os primeiros rebentos que habitaram o mundo, descobrindo a maldade e a beleza. 
Nos sonhos que já tem, meu menino encontra os pequenos que nós e todos os nossos antepassados um dia fomos. As crianças que ainda somos.

Assim seguimos em frente, descobrindo que a esperança é uma prática diária. 

De resto, por aqui tudo vai bem. 
É que hoje eu olhei meu filho e pensei em você, meu pai. E na sua lembrança revi minha cria com olhos novos de amor e saudade. 
Mirei mais adiante e vi uma moça em seu passo de quem vai tranquila, os olhos grandes, um sorriso de sol. 
Ela caminhava sozinha, trazendo o mundo a tiracolo numa pequenina bolsa de crochê. 
É a vida. 
A vida seguindo no passo manso das moças, chegando com a alegria divina das crianças que seremos para sempre.




*        *        *

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

JORGE LUÍS BORGES e MILLÔR FERNANDES

Limites 
Jorge Luis Borges 
tradução de Millôr Fernandes

De todas as ruas que escurecem ao por-do-sol,
deve haver uma (eu não sei dizer qual),
em que já passei pela última vez
sem perceber, refém daquele Alguém 

que, com antecedência, fixa leis onipotentes, 
ajusta uma balança secreta e inflexível,
para todas as sombras, formas e sonhos
tecidos na textura desta vida. 

Se há um limite para todas as coisas, e uma medida, 
e uma última vez, e nada mais, e esquecimento,
quem nos dirá a quem, nesta casa,
nós, sem saber, já dissemos adeus? 

Pela janela que amanhece a noite se retira
e entre os livros empilhados que lançam sombras irregulares na mesa difusa,
deve haver um que eu jamais lerei. 

Há uma porta que você fechou pra sempre
e algum espelho o esperará em vão;
Há uma, entre todas tuas memórias,
que agora está perdida além da evocação.

Você nunca recapturará o que o Persa
disse em seu idioma tecido com pássaros e rosas, 
quando, ao pôr-do-sol, antes que a luz disperse,
você quer por em palavras tantos inesquecíveis. 

Ao amanhecer pareço ouvir o turbulento 
murmúrio de multidões crescendo e dissolvendo;
tudo por que fui amado, esquecido, 
espaço, tempo, e Borges, vão me deixar agora.

*            *            *

Límites
Jorge Luís Borges

De estas calles que ahondan el poniente,
una habrá (no sé cuál) que he recorrido
ya por última vez, indiferente
y sin adivinarlo, sometido

a Quién prefija omnipotentes normas
y una secreta y rígida medida
a las sombras, los sueños y las formas
que destejen y tejen esta vida.

Si para todo hay término y hay tasa
y última vez y nunca más y olvido
¿quién nos dirá de quién, en esta casa,
sin saberlo, nos hemos despedido?

Tras el cristal ya gris la noche cesa
y del alto de libros que una trunca
sombra dilata por la vaga mesa,
alguno habrá que no leeremos nunca.

Hay en el Sur más de un portón gastado
con sus jarrones de mampostería
y tunas, que a mi paso está vedado
como si fuera una litografía.

Para siempre cerraste alguna puerta
y hay un espejo que te aguarda en vano;
la encrucijada te parece abierta
y la vigila, cuadrifronte, Jano.

Hay, entre todas tus memorias, una
que se ha perdido irreparablemente;
no te verán bajar a aquella fuente
ni el blanco sol ni la amarilla luna.

No volverá tu voz a lo que el persa
dijo en su lengua de aves y de rosas,
cuando al ocaso, ante la luz dispersa,
quieras decir inolvidables cosas.

¿Y el incesante Ródano y el lago,
todo ese ayer sobre el cual hoy me inclino?
Tan perdido estará como Cartago
que con fuego y con sal borró el latino.

Creo en el alba oír un atareado
rumor de multitudes que se alejan;
son lo que me ha querido y olvidado;
espacio y tiempo y Borges ya me dejan.

*        *        *

En Borges, J.L. (1964) El otro, el mismo, en Jorges Luis Borges (1974) Obras Completas, Buenos Aires: Emecé.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Nathan Mattos - Sobre MÁRIO QUINTANA

"Eu amo o mundo", disse Quintana
Nathan Mattos


Constatei, com a leitura deste livro, que realmente sou um apaixonado pelos poemas do velho alegretense (que até na origem traz uma sinonímia de alegria). 
Poderia usar as mesmas palavras que o poeta utiliza no poema Simultaneidade, tamanha a minha alegria ao ler o livro:


– Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!
  Eu creio em Deus! Deus é um absurdo!
 Eu vou me matar! Eu quero viver!
– Você é louco?
– Não, sou poeta. (p.169)

O poeta em A vaca e o hipogrifo se faz presente em vários dos textos (crônicas, poemas, aforismos, e até mesmo tudo isso misturado em um texto só), digamos, quintanescos.

Não muito diferente do Caderno H, o livro traz assuntos recorrentes da poesia de Quintana, como a morte, o silêncio, o cotidiano; porém, há novidades. 
Deus será um tema presente em várias das crônicas-poéticas do autor, e alguns textos em forma de diários surgem após alguns pequenos aforismos ou reflexões.

Quando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes, cede lugar à idade das reflexões – terá sido a sabedoria que chegou? Não! Foi apenas a velhice. (p.189)

A cada página virada, de A vaca e o hipogrifo, o poeta sorridente nos faz parar para pensar ou para deixar que os nossos lábios se estiquem para um canto da boca, deixando-nos mostrar um sorriso malicioso ou displicente com o conteúdo que encontramos.

Deus criou o mundo “e viu que era bom”. Desde então, nunca faltou um poeta que igualmente criou algo e também viu que era bom. Mas trata-se de poetas medíocres... (p.119)

Esses poetas medíocres, que Deus criou, são presentes nos textos encontrados em A vaca e o hipogrifo e chamados pelo poeta à ação. 
Notei que Mario possui uma grande preocupação entre o poeta-poema-leitor. 
Em vários poemas põe a culpa no leitor, em outros diz que a poesia não há de ser entendida, mas sentida. 
Tenta também dar algumas das características do poema e da poesia, sempre mostrando as qualidades, e que o erro está em quem lê, que sempre quer achar algum sentido interpretando o poema, ao invés de sentir o poema. Como no poema Intérpretes:

Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação. (p.71)

Questiona também a “arte da leitura”, colocando-nos como seres decadentes pelo não-entendimento da poesia:

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos... A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas. A poesia é irredutível. (p.79)

Mario, em 1977, traz como título desse poema '2005', a certeza do que vemos hoje no mercado editorial. 
Os grandes romances, como O Guarani e Dom Casmurro, de José de Alencar e Machado de Assis respectivamente, são exemplos do que é dito no poema. E a poesia, poderá ser ela transposta para os quadrinhos? A resposta de Mario é contundente: A poesia é irredutível (!).
           
São muitos os poemas e não podemos tratar de todos, devido, obviamente, à extensão do livro, mas podemos terminar sobre essa questão, poeta-poema-leitor, relatando o Pequeno esclarecimento que o poeta nos traz sobre isso:

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês. (p.140)

E esse silêncio era importante para o autor já que é ele “que torna tão impressionante – tão de outro mundo – uma rua numa tela”.
            
Os textos que incorporam A vaca e o hipogrifo foram retirados da coluna intitulada Caderno H, que possuía no jornal Correio do Povo de Porto Alegre e refletiam, por vezes, o que autor pensava ou com o que se preocupava diariamente.

A partir das suas crônicas-poemáticas, ficamos sabendo quais eram algumas de suas leituras, pois em seus textos ele trazia referências como Metamorfose de Kafka; os personagens Cecília e Peri de José de Alencar, assim como As Minas de Prata do autor cearense; os contos de Guy de Maupassant; os fantasmas de Hamlet e de Yorick.

Tudo isso sai de dentro da caixola do autor Mario Quintana, que sempre nos faz sorrir ou até mesmo temer a morte. 
A opinião ferrenha do autor em defesa do poema que encontramos não só nesse livro como em outros nos parece ter sido uma postura defendida por ele até os seus últimos dias.

A sua escrita não é como um martelo nas mãos de um ferreiro, mas como um machado nas mãos de um lenhador. Lapida de forma ágil e simples, numa velocidade inconstante, que com o tempo só tende a ficar mais certeira ainda, precisando de poucas palavras para exprimir o muito que, em alguns momentos, não compreendemos.
          
Assim se faz a escrita desse poeta alegre, desse poeta quisto pelos leitores que se iniciam na poesia, por ter nas palavras dele o “fácil”, enganador, sentimento de entendimento sobre o mundo e sobre o homem. 

Mario Quintana é feito um ser mitológico, mas, que ao invés de ser onívoro como o Hipogrifo, prefere a ruminação de prosas e poemas como a vaca. 


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