domingo, 28 de setembro de 2014

MIA COUTO - O bairro da minha infância


O bairro da minha infância
Mia Couto

Não são as criaturas que morrem.
É o inverso:
só morrem as coisas.

As criaturas não morrem
porque a si mesmas se fazem.

E quem de si nasce
à eternidade se condena.

Uma poeira de túmulo
me sufoca o passado
sempre que visito o meu velho bairro.

A casa morreu
no lugar onde nasci:
a minha infância
não tem mais onde dormir.

Mas eis que,
de um qualquer pátio,
me chegam silvestres risos
de meninos brincando.

Riem e soletram
as mesmas folias
com que já fui soberano
de castelos e quimeras.

Volto a tocar a parede fria
e sinto em mim o pulso
de quem para sempre vive.

A morte
é o impossível abraço da água.

*        *        *

No livro "Tradutor de Chuvas"

sábado, 27 de setembro de 2014

RUBEM BRAGA - São Cosme e São Damião

São Cosme e São Damião
Rubem Braga

Escrevo no dia dos meninos. 
Se eu fosse escolher santos, escolheria sem dúvida nenhuma São Cosme e São Damião, que morreram decapitados já homem feitos, mas sempre são representados como dois meninos, dois gêmeos de ar bobinho, na cerâmica ingênua dos santeiros do povo.

São Cosme e São Damião passaram o dia de hoje visitando os meninos que estão com febre e dor de cabeça por causa da asiática, e deram muitos doces e balas aos meninos sãos. 
E diante deles sentimos vontade de ser bons meninos e também de ser meninos bons. E rezar uma oração:

"São Cosme e São Damião, protegei os meninos de Brasil, todos os meninos e meninas do Brasil.

Protegei os meninos ricos, pois toda a riqueza não impede que eles possam ficar doentes ou tristes, ou viver coisas tristes, ou ouvir ou ver coisas ruins.
Protegei os meninos dos casais que não se separam e se dizem coisas amargas e fazem coisas que os meninos vêem, ouvem, sentem.
Protegei os filhos dos homens bêbados e estúpidos, e também os meninos das mães histéricas ou ruins.
Protegei o menino mimado a quem os mimos podem fazer mal e protegei os órfãos, os filhos sem pai, e os enjeitados.
Protegei o menino que estuda e o menino que trabalha, e protegei o menino que é apenas moleque de rua e só sabe pedir esmola e furtar.
Protegei ó São Cosme e São Damião! - protegei os meninos protegidos pelos asilos e orfanatos, e que aprendem a rezar e obedecer e andar na fila e ser humildes, e os meninos protegidos pelo SAM (*) , ah! São Cosme e São Damião, protegei muito os pobres meninos protegidos!

E protegei sobretudo os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos, e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobra e seus olhos que podem pegar tracoma - e afastai de todo perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil, ó Glorioso São Cosme, Glorioso São Damião!"

Setembro, 1957.
*        *        *

(*)  Sigla do antigo "Serviço de Assistência aos Menores"

Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas, Record, 2002, p. 328-329.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

LEONARDO SAKAMOTO - lirismo



Quando ela tirou os óculos, ele - que contava histórias vazias sobre o céu e a terra - perdeu o equilíbrio e mergulhou fundo naqueles olhos. 

Uns dizem que conseguiu sair com cordas lançadas pelo tempo. 
Outros, que ela teve que resgatá-lo com as boias da razão.

Eu prefiro acreditar que ele está lá até hoje, afogando-se feliz e diariamente em alma alheia.

**




Caiu na estrada para fugir da solidão. E ela o seguia aonde quer que fosse.

Certo dia, cansado de correr, virou-se para trás e abraçou a solidão feito uma velha amiga.

Isso não o fez mais feliz. Mas, agora, ao menos, ele tem companhia.




*        *        *

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

MÁRIO QUINTANA - Canção da primavera

Canção da Primavera
Mário Quintana

(Para Érico Veríssimo)

Primavera cruza o rio 
Cruza o sonho que tu sonhas. 
Na cidade adormecida 
Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu, 
Ficou girando, girando. 
Em torno do catavento 
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos, 
Amadas, Mortos, Amigos, 
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo… 
Até que as paineiras tenham 
Por sobre os muros florido!

*            *            *

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

NICANOR PARRA - Atenção

Tela de Leonid Afremov

Atenção
Nicanor Parra

Aos jovens apaixonados
Que cortejam belas donzelas 
Nos jardins dos mosteiros
Faço saber com toda a franqueza
Que no amor
                   por mais casto
Ou inocente que pareça no começo
costumam surgir complicações.

Concorda-se plenamente
Que o amor é mais doce que o mel.

Mas é bom advertir
Que no jardim há luzes e sombras
Além de sorrisos
No jardim há desgostos e lágrimas
No jardim não há só verdade
Mas também um pouco de mentira.

**
Atención

A los jóvenes aficionados
A cortejar muchachas buenas-mozas
En los jardines de los monasterios
Hago saber con toda franqueza
Que en el amor
                      por casto
Por inocente que parezca al comienzo
Sueien presentarse sus complicaciones.

Totalmente de acuerdo
Que el amor es más dulce que la miel.

Pero se les advierte
Que en el jardín hay luces y sombras
Además de sonrisas
En el jardín hay disgustos y lágrimas
En el jardín hay no sólo verdad
Sino también su poco de mentira.

*        *        *

domingo, 14 de setembro de 2014

REVISTA BULA - Eberth Vêncio

Penso que 'eu' é que sou uma bipolar literária...
Gosto muito do estilo deste Eberth Vêncio na "Revista Bula". Ele tem um extraordinário senso de humor para os horrores com que nos brinda o mundo a todo momento.


Adeus, leitores. Este é meu último texto fofinho

ADEUS, LEITORES. ESTE É MEU ÚLTIMO TEXTO FOFINHO
Eberth Vêncio - "Revista Bula", setembro 2014

Eu também gosto da poesia de Mario Quintana, mas tenho jogado minhas bigornas aos afogados. 90% do que escrevo sou eu ali, escarrado e triste; 10% é só pausa pra descanso. 
Não sou santo, mas confesso não me sentir muito à vontade mentindo na pauta, na cama, no confessionário, numa batida policial, numa entrevista, nas redes sociais. 
Pediram-me encarecidamente que eu escrevesse uns textos mais leves, altruístas, daqueles que falam de crianças brincando no playground, de virgens passeando sem malícia com seus esvoaçantes vestidos de cambraia num campo de centeio, de homens apaixonados escrevendo poemas de amor para as amadas.

Ora, mesmo ciente que a molecada de hoje migrou para os tabletes; que as virgens, os ornitorrincos, o mico-leões dourados e a honestidade estão em acelerada extinção; e que homem nenhum do planeta trocaria sexo, internet e dinheiro pela poesia, não sou de atirar luas na pedra, de desprezar os conselhos e as ameaças. 
A fim de não comprometer digestões, vou partir para textos bem mais otimistas, vou investir naqueles famigerados 10% que sobraram e que tanto contribuem para a paz de espírito dos porcos. Vocês vão ver só.

Pelo que me disseram num pesadelo, ninguém mais suporta a minha bipolaridade literária, aquele estilo vacilatório, um vai-e-vem estético que mais parece sacanagem, o fetiche esdrúxulo de bater e assoprar depois, um escritor indeciso que passeia instável pela comicidade (que nem sempre faz rir; aliás, há legiões de indignados se manifestando, pleiteando critérios mais apurados dos editores responsáveis por essa joça) e uma crueza tão honesta que assusta, incomoda, desanima.

Exceto eu mesmo, ninguém gosta de se sentir desanimado, e eu até entendo. 
Nem todos são viciados em melancolia. Mas não ando tão criativo assim quanto vocês imaginam. 
De tal forma que hoje não vai rolar aquela catarse, aquele transporte pelas raias da imaginação até um cenário estupendo que fará surgir dentro de mim — senão um sono do cacete — uma inspiração farsante que fará as mulheres suspirarem fundo e os seus companheiros me condenarem à cova rasa.

Quase ninguém sabe: eu moro numa metrópole com mais de dois milhões de habitantes e algumas centenas de assaltantes em franca atividade, de tal forma que não está nada fácil encontrar uma locação segura para sublimar, tamanho o caos urbano em que vivemos. 
Tem neguinho latindo no quintal pra economizar demônio. 
Pensei, portanto, em me sentar à margem de um riozinho pedregoso e chorar — como se fosse um mago rico — entrar em alfa, curtir a mata ciliar, o barulhinho gostoso da água lavando as pedras vinte e quatro horas por dia, mas não foi nada fácil.

Nas últimas décadas, os prefeitos deste inferno que muitos chamam cidade mandaram encanar os cursos d’água para que pudéssemos despejar ali dentro toneladas de merda, lixo industrial e carniça humana produzida por exímios grupos de extermínio. 
Mesmo sendo um descrente sem fronteiras, escolhi um local que tinha o peculiar nome de Rio das Almas, e pirei com um sofá vermelho meia-vida encravado no banco de areia (com a estiagem, os rios andam tão rasos como o sangue que rasteja em minhas veias), e que ficaria perfeito na minha sala de estar.

Era um domingo nervoso, ensolarado, e eu nutria a sincera esperança de me deparar com marmanjos molhando minhocas n’água, crianças serelepes nadando, brincando de troca-troca nos barrancos sombreados, esposas animadas a reclamarem dos seus maridos. 
Mesmo imbuído em escrever um texto meigo, ao estilo franciscano, que fosse minimamente tolerado por todos, confesso que encontrei sérios empecilhos íntimos e exteriores, como os carrapatos daquele lugar que, de bucólico, só mesmo a trinca de garças deprimidas, esquálidas, cancerosas, a se empanturrarem com tilápias suicidas que pelejavam no lodaçal pestilento.

Fui sentar na relva, mas tive que me contentar com um toco de uma feiosa, tortuosa árvore do cerrado que alguém meteu a motosserra pra virar carvão. Eu esperava, ingenuamente, ficar extasiado com os passarinhos a pipiuarem de galho em galho. Galhos não havia, e os únicos passarinhos disponíveis no pedaço, além de não cantarem patavina nenhuma, eram uma esforçada equipe de urubus malandros a cutucarem as tripas de um cavalo terminal.

Sorriam: estou quase terminando. 
As coisas não corriam bem. Aquele rio não corria bem. Este texto — pra ser sincero — não corre nada, nada bem. Desconfio até que aquele curso d’água jamais chegue ao mar, e que esta crônica jamais encontre um fim. Mais que correr, que escorrer, ele, o rio, prosseguia do jeito que dava, resignado, fedorento, pois não passava de um caudaloso esgoto a céu aberto a desfilar modorrento, falido, como um coágulo na sarjeta. Ainda que as minhocas fizessem questão de saltarem n’água para cumprirem o seu digníssimo papel social de iscas, eu não seria cruel o bastante para atirá-las naquele escandaloso lamaçal.

Embora a violência singrasse frouxa por aquelas bandas, a incrementar o pujante mercado de balas e defuntos, saquei da mochila o notebook, respirei fundo (aliás, quase desmaiei intoxicado com uma fumaça preta que brotava de uma montanha de pneus com cachorro morto, providenciada por algum de energúmeno), busquei inspiração num esforçado, bicudo e desavisado joão-de-barro que catava partículas de esgoto no barranco pensando que fosse argila. 
Fui interrompido no meu lastimável retiro literário pelo ribombar de foguetes. Seria aniversário da cidade, a inauguração de uma praça, um candidato a Governador atrapalhando o trânsito, pedindo votos, beijando crianças catarrentas, fazendo “selfie” até com o cramunhão?

Quisera fosse só a algazarra de um político populista. 
Alheios a minha inexplicável presença naquele cenário tão devastado e pútrido, uns carinhas com olhar noiado fuzilaram um sujeito que tombou rutilante no ressequido capinzal ribeirinho. 
Confesso que senti medo pra cacete. 
Mas, o sangue que jorrava do peito do sujeito criava um matiz curioso à luz do dia — resplandecentemente rubro — que fazia lembrar uma fonte luminosa ejaculando numa noite de natal. 

A carnificina domingueira não foi nada calculada, nada tão alvissareira, nada tão altruísta, nada tão positiva, nada tão cabível e tão poética que eu pudesse descrever nessa história sem que os seus estômagos revirassem. Eu juro que tentei, leitores. Já basta?

*            *            *

RUBEM ALVES - A festa de Babette


A festa de Babette
Rubem Alves

Um dos meus prazeres é passear pela feira. Vou para comprar. 
Olhos compradores são olhos caçadores: vão em busca de caça, coisas específicas para o almoço e a janta. Procuram. O que deve ser comprado está na listinha. Olhos caçadores não param sobre o que não está escrito nela. 
Mas não vou só para comprar. 
Alterno o olhar caçador com o olhar vagabundo. O olhar vagabundo não procura nada. Ele vai passeando sobre as coisas. 
O olhar vagabundo tem prazer nas coisas que não vão ser compradas e não vão ser comidas. O olhar caçador está a serviço da boca. Olham para a boca comer. 
Mas o olhar vagabundo, é ele que come. 
A gente fala: comer com os olhos, é verdade. Os olhos vagabundos são aqueles que comem o que veem. E sentem prazer. 
A Adélia diz que Deus a castiga de vez em quando, tirando-lhe a poesia. Ela explica dizendo que fica sem poesia quando seus olhos, olhando para uma pedra, veem uma pedra. 
Na feira é possível ir com olhos poéticos e com olhos não poéticos. 
Os olhos não poéticos veem as coisas que serão comidas. Olham para as cebolas e pensam em molhos. 
Os olhos poéticos olham para as cebolas e pensam em outras coisas. Como o caso daquela paciente minha que, numa tarde igual a todas as outras, ao cortar uma cebola viu na cebola cortada coisas que nunca tinha visto. A cebola cortada lhe apareceu, repentinamente, como o vitral redondo de catedral. Pediu o meu auxílio. Pensou que estava ficando louca. Eu a tranquilizei dizendo que o que ela pensava ser loucura nada mais era que um surto de poesia. Para confirmar o meu diagnóstico lembrei-lhe o poema de Pablo Neruda "A Cebola", em que ele fala dela como "rosa d'água com escamas de cristal". 
Depois de ler o poema do Neruda uma cebola nunca será a mesma coisa. 

Ando assim pela feira poetizando, vendo nas coisas que estão expostas nas bancas realidades assombrosas, incompreensíveis, maravilhosas. 
Pessoas há que, para terem experiências místicas, fazem longas peregrinações para lugares onde, segundo relatos de outros, algum anjo ou ser do outro mundo apareceu. 
Quando quero ter experiências místicas eu vou à feira. Cebolas, tomates, pimentões, uvas, caquis e bananas me assombram mais que anjos azuis e espíritos luminosos. Entidades encantadas. Seres de um outro mundo. Interrompem a mesmice do meu cotidiano.

Pimentões, brilhantes, lisos, vermelhos, amarelos e verdes.  Ainda hei de decorar uma árvore de Natal com pimentões. 
Nabos brancos, redondos, outros obscenamente compridos. Lembro-me de uma crônica da querida e inspirada Hilda Hilst que escandalizou os delicados: ela ia pela feira poetizando eroticamente sobre nabos e pepinos. Escandalizou porque ela disse o que todo mundo pensa mas não tem coragem de dizer. 
Roxas berinjelas, cenouras amarelas, tomates redondos e vermelhos, morangas gomosas, salsinhas repicadas a tesourinha, cebolinhas, canudos ocos, bananas compridas e amarelas, caquis redondos e carnudos (sobre eles o Heládio Brito escreveu um poema tão gostoso quanto eles mesmos), mamões, úteros grávidos por dentro, laranjas alaranjadas (um gomo de laranja é um assombro, o suco guardado em milhares de garrafinhas transparentes), cocos duros e sisudos, pêssegos, perfume de jasmim do imperador, cachos de uvas, delicadas obras de arte, morangos vermelhos, frutinhas que se comem à beira do abismo...

Minha caminhada me leva dos vegetais às carnes: linguiças, costelas defumadas, carne de sol, galinhas, codornizes, bacalhau, peixes de todos os tipos, camarões, lagostas. Os vegetarianos estremecem. Compreendo, porque na alma eu também sou vegetariano. Fosse eu rei decretaria que no meu reino nenhum bicho seria morto para nosso prazer gastronômico. Mas rei não sou. Os bichos já foram mortos contra a minha vontade. Nada posso fazer para trazê-los de volta à vida. Assim, dou-lhes minha maior prova de amor: transformo-os em deleite culinário para que continuem a viver no meu corpo. De alguma maneira vivem em mim todas as coisas que comi.

Sobre isso sabia muito bem o genial pintor Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), que pintava os rostos das pessoas com os legumes, frutas e animais que se encontram nas bancas da feira. (Dê-se o prazer de ver as telas de Arcimboldo).


Meus pensamentos começam a teologar. 
Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. 
Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.


Comer é uma felicidade, se se tem fome. Todo mundo sabe disto. Até os ignorantes nenezinhos. 
Mas poucos são os que se dão conta de que felicidade maior que comer é cozinhar. 
Faz uns anos comecei a convidar alguns amigos para cozinharmos juntos, uma vez por semana. 
Eles chegavam lá pelas seis horas (acontecia na casa antiga onde hoje está o restaurante Dali). Cada noite um era o mestre cuca, escolhia o prato e dava as ordens. 
Os outros obedeciam alegremente. E aí começávamos a fazer as coisas comuns preliminares a cozinhar e comer: lavar, descascar, cortar — enquanto íamos ouvindo música, conversando, rindo, beliscando e bebericando. A comida ficava pronta lá pelas 11 da noite.
Ninguém tinha pressa. 
Não é por acaso que a palavra comer tenha sentido duplo. O prazer de comer, mesmo, não é muito demorado. Pode até ser muito rápido, como no McDonald's. 
O que é demorado são os prazeres preliminares, arrastados — quanto mais demora maior é a fome, maior a alegria no gozo final. Bom seria se cozinha e sala de comer  fossem integradas — os arquitetos que cuidem disso — para que os que vão comer pudessem participar também dos prazeres do cozinhar. 

Sábios são os japoneses que descobriram um jeito de por a cozinha em cima da mesa onde se come, de modo que cozinhar e comer  ficam sendo uma mesma coisa. 
Pois é precisamente isto que é o sukiyaki, que fica mais gostoso se se usa kimono de samurai.


Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. 
Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. 
Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. 
Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. 
E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. 
Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. 
De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas..
Está tudo no filme ‘A Festa de Babette’.

Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças... Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. 
Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida...


*            *            *

Publicado no jornal "Correio Popular", Campinas(SP)

sábado, 13 de setembro de 2014

CLARICE LISPECTOR - Pertencer

Arte: Hallice
Pertencer
Clarice Lispector 

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. 
Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. 
Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. 
Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pele menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. 
E uma espécie toda nova de ‘solidão de não pertencer’ começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. 
O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. 
Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos ― e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. 
E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade ― sou individualista demais para que eu pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima ―, eu, que não quero a popularidade, sinto-me no entanto feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que não têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por ‘fazer parte’.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. 
Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. 
Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. 
Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. 
Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.


*            *            *
Em 'A descoberta do mundo', p.110-111

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

TEL MONT - 'finesse...'

Imagem: Douglas Hofman


EU SAÍRA DE MAIS UMA HORA sem cor e sem gosto
por isso disse que não sabia por que ainda a ti retornava
menti!
meu coração me arrasta
ainda que o céu desabe, ainda que o asfalto queime
ele me arrasta
e nada dentro de mim me detém
porque tu o capturaste
e agora ele é teu servo
teu olhar, nossa cela

e quando um deus solitário me contempla
entre enternecido e complacente
eu sei que estás vindo
quanta finesse, meu amor, durante a tarde
noite adentro, uma lua em fogo
(madrugada adentro, lembrarás meu nome?) 

(TELMONT)

*        *        *


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

RACHEL DE QUEIROZ - Talvez o último desejo


Talvez o último desejo
Rachel de Queiroz

Ilha, dezembro de 1949.

Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?

Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!

Sim, te dana, mundo velho. 
Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! 
Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.

Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!

Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. 
Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. 
Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!

Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. 
Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. 
Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? 
Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.

Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. 
Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.

Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. 
Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.
*
Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. 
O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? 
O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. 
O que ele deseja é mesmo servidão e intranquilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. 
Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.

Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. 
Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.

E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.

E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.

E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.

E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.

E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. 
E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. 
E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição.

Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.

E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. 
E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.

Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?

O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!

*            *            *

Do livro ‘Um alpendre, uma rede, um açude’ 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

MARINA COLASANTI - Amor de longo alcance

Amor de longo alcance
Marina Colasanti

Durante sete anos , separados pelo destino, amaram-se a distância.

Sem que um soubesse o paradeiro do outro, procuravam-se através dos continentes, cruzavam pontes e oceanos, vasculhavam vielas, indagavam.

Bússola de longa busca, levavam a lembrança de um rosto sempre mutante, em que o desejo, incessantemente, redesenhava os traços apagados pelo tempo.

Já quase nada havia em comum entre aqueles rostos e a realidade, quando enfim, num praça se encontraram. 
Juntos, podiam agora viver a vida com que sempre haviam sonhado.

Porém cedo descobriram que a força do seu passado amor era insuperável. 

Depois de tantos anos de afastamento, não podiam viver senão separados, apaixonadamente desejando-se. 
E, entre risos e lágrimas, despediram-se, indo morar em cidades distantes.

*            *            *
Em: 'Todo o sentimento'

terça-feira, 9 de setembro de 2014

ADÉLIA PRADO - em 'Manuscritos de Felipa'

Manuscritos de Felipa (trecho)
Adélia Prado

" (...) Envelheço para trás, ideia consoladora, porque envelhecer para trás é voltar ao começo, ao lugar ageográfico onde se iria casar, ter filhos, uma casa com coisas minhas, quinquilharias de que poderia dispor como bem entendesse.

Tudo se cumpriu, não apenas meus seios.

Ninguém tira do lugar, por inadequado que seja, o quadro, o jarro, o relógio, sou a dona, governo a combinação dos legumes, decido entre carne e peixe, desembarco na plataforma onde uma mulher, sem se preocupar se a alça do sutiã está aparecendo, anuncia ao mundo: sei como se aquece uma casa.

Contudo me ronda, com desassossegado apetite, o demônio da tristeza, ronda à minha cata, à cata do mundo, certamente aliciando mulheres como eu, nos confundindo quanto a hormônios, palpites na criação dos netos, minando com maestria os muros do castelo. (...)"

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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

TEL MONT - Starfix

Foto: STARFIX

espalho estrelas de papel no céu
do meu quarto
e elas brilham, é só apagar a luz
cerrar o sol, encerrar o dia

esse é o meu mundo, e pronto
nem se atreva a me interromper quando sonho  (TEL MONT)

STARFIX

espalho estrelas de papel no céu
do meu quarto
e elas brilham, é só apagar a luz
cerrar o sol, encerrar o dia

esse é o meu mundo, e pronto
nem se atreva a me interromper quando sonho 

(TEL MONT)

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Recado a quem já se sentiu só

Arte: Edward Hopper
Recado a quem já se sentiu só
André. J. Gomes - "Revista Bula", setembro 2014

Uma hora, lá pelas tantas do dia, da noite, da vida, você vai sentir solidão. 
Acontece com toda gente. Do bebê mais intocado, chorando um instante de falta da mãe, ao velho mais rescaldado remoendo seus mortos, contando suas saudades em fila indiana, todos haveremos de nos sentir sós.

O casal na manhã de seu amor havia pouco sonhava uma cerimônia de casamento, escolhia convidados, mobiliava a casa imaginária, batizava seus filhos que ainda virão. 
Agora, ainda no caminho de suas primeiras esquinas de mãos juntas, um e outro também se sentem ridiculamente sós, cada um em seu canto de sofá, repassando em silêncio suas dúvidas e angústias irreveláveis.

Na família povoada de crianças, o cachorro de estimação é adorado por todos, tem a saúde cuidada por veterinários com doutorado, é banhado e penteado às terças por equipes especializadas e acolhido no coração de seus donos com alegria diária. 
Ainda assim, ele também se encolhe em seu canto nas horas quietas e envelhece no escuro sua existência de bicho só.

Depois das vozes e da música, dos risos e das juras de amor verbalizadas nas ondas de satisfação e ternura honesta de um dia alegre, quando restar mais nada além do som da geladeira na noite silenciosa, você há de se sentir só.

Olhando a pessoa amada que dorme ao seu lado, assistindo ao seu virar para lá e cá, as mãos aquecidas entre os travesseiros, os olhos sonhando sob a fidelidade muda das pálpebras, você também vai sentir solidão.

Na visão do campo de futebol de várzea deserto, que há pouco exalava na vizinhança um perfume de grama pisoteada pela alegria dos atletas de ocasião, um vizinho curioso e contemplativo, assistindo à vida pela janela, vai notar a si mesmo em profundo instante de solidão patética.

No cuidado com que a esposa limpa, lixa e pinta as próprias unhas, o marido calado também vai se sentir sozinho. E ela, cuidando de si mesma, amadurecendo sua inseguranças, amenizando seus medos no exercício de se fazer mais bela, também vai se saber criatura solitária.

É que solidão também se sente em casal, grupo, multidão. 
Quem é só também se percebe assim em família, time de futebol, casa cheia. 
Solidão é sentimento que repousa dentro da gente e acorda quando quer, pisando de salto duro pela casa, batendo as portas, arrastando a cômoda de madrugada, fazendo barulho.

Você está lá, cercado de gente, tomado de amor, envolvido em conversa animada e pronto. Um vazio estala num canto escondido aí dentro, um medo congela no peito, uma tristeza aparece do nada, como visita que não se espera. 
E você se torna triste como o terreno baldio entre dois prédios construídos há pouco, habitados por famílias novas, solteiros, estudantes famintos e suas festas. 
Você é agora nada senão um espaço vazio, esquecido, povoado de pedras e ilhas de mato crescendo lento, em que os incautos e insensíveis vêm despejar velhos sofás à noite e os bem resolvidos descartam seus entulhos e dão as costas.

Sentir solidão é escutar a chuva durante a noite, remoer a cólica que piora em momento insuspeitado. 
É precisar de um telefone sem sinal, encontrar fotografias revelando saudades, ouvir o silêncio que estoura os tímpanos e aperta o peito. 
O silêncio da espera dos próximos sons, dos risos vindouros, da conversa seguinte, das visitas novas.

Mas deixe estar. O instante de ser só é condição de quem está vivo. A toda gente da terra e do céu, o vento sopra de manhã, no topo das árvores que acordam com o dia, seu recado firme e urgente: todo mundo há de se sentir só.

E assim, solitários, cada um de nós e todos os nossos seremos como a pedra num sapato vazio: uma pura, honesta e simples manifestação de espera. 
A esperança da companhia que sempre volta. Aquela que assiste ao seu sono, que lhe dói e cura, que lhe falta e completa.

Porque há sempre um olhar carinhoso à sua busca, mirando ansioso a sua chegada com a alegria dos que acreditam, o frescor das histórias que começam e a ternura poderosa dos gestos simples de amor. 
O amor que nos acolhe, nos desperta e nos leva adiante, no movimento pleno e grandioso da vida.


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