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domingo, 25 de março de 2018

O Outono -Flora Figueiredo


O Outono
Flora Figueiredo

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Meio-tom. 
Bom termo entre os excessos, 
equilibrado confesso, 
pondero entre extremos. 
Outono, 
coleciono trechos de poesia 
tirados de cores e de brisas, 
do peito da tarde que se descamisa 
em seu desfecho. 
Da maturidade deixo a fruta 
que se queda pronta sobre a terra 
quando minha temporada já se encerra 
e cede vez à estação substituta.
 **
- Em  "Estações". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995


*            *            *

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Alma -Flora Figueiredo

Alma
Flora Figueiredo



Acho que os sentimentos têm células, 
pois as sinto remexer, 
intensas libélulas 
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos, 
sempre crescem. 
A cada instante que vivo, 
mais então se expandem, 
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações 
e quando me perco pelas emoções, 
ele se avoluma e me maltrata. 
Chega a ser tão grande seu efeito, 
que rompe o peito,sangra 
e se dilata.

Ah minhas células emotivas! 
Quero-as em mim 
coladas e cativas 
fazendo-me viver intensamente. 
Eu as batizo com o nome de "alma" 
e as responsabilizo a viver eternamente 
ainda quando o coração se acalma 
e põe-se a dormir 
irreversivelmente.
*        *        *

Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987

sexta-feira, 6 de junho de 2014

FLORA FIGUEIREDO - Vento Novo

Vento novo
Flora Figueiredo

Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.

Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.

*        *        *

domingo, 25 de julho de 2010

FLORA FIGUEIREDO - Se tiveres que ir



Se tiveres que ir, vai.
O que fica para trás,
não sendo mentira,
não racha, nem rompe,
não cai. Ninguém tira.
Já que vai, segue
te depurando pelo trajeto,
para desembarcar passado a limpo,
sem máscaras, sem nada,
sem nenhum desafeto.
Quando chegares, sobe ao ponto
mais alto do lugar,
onde a encosta do mundo
faz a curva mais pendente.
E então acena.
De onde eu estiver,
quero enxergar esse momento
em que vais constatar
que a vida
vale grandemente a pena

Flora Figueiredo - poeta, cronista e tradutora paulista.