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quinta-feira, 22 de março de 2012

ERICO VERÍSSIMO - 'Olhai os lírios do campo'

"Olhai os Lírios do Campo"
Érico Veríssimo
Escrito em 1938, 'Olhai os Lírios do Campo' conta a história do dr. Eugênio Fontes, que, menino pobre, estuda medicina, apaixona-se por uma idealista colega, Olivia – mas opta por uma vida de conforto, casando com Eunice, filha de um rico empresário.
Desgostoso com a existência fútil, volta a exercer a medicina, mas agora encarando a profissão por seu lado social e humano.

“Ele principiava a ser um médico de verdade, estava diante da vida, atendia os seus clientes com toda a solicitude e às vezes tinha de esforçar-se para ser delicado e não se encolher diante de criaturas que, pelo aspecto físico ou pela natureza de seus males, lhe inspiravam repugnância ou mal-estar. Fazia-lhes perguntas, interessava-se pela vida deles. Aos poucos ia perdendo os velhos temores de fracasso e aquela sensação de que os outros não tinham confiança nele. Atirava-se à clínica cheio de coragem e isso já era a metade da vitória.”
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"A vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitava-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam".
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"Não fomos consultados para vir para este mundo e não seremos consultados quando tivermos que partir. Isto dá bem a medida da nossa importância material na terra, mas deve ser elemento de consolo e não de desespero."
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"Precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu."

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"Olívia se aproximou de Eugênio e com um lenço enxugou-lhe o suor da testa. Estava terminada a traqueotomia. A enfermeira juntava os ferros. Ruído de metais tinindo, de mesas se arrastando. Eugênio tirou as luvas e foi tomar o pulso do pequenopaciente. A criança como que ressuscitava. A respiração voltava lentamente, a princípio superficial, depois mais funda e visível. O rosto perdia aos poucos a rigidez cianótica.
Eugênio examinava-lhe as mudanças do rosto com comovida atenção. Vencera! Salvara a vida de uma criança!
A vida é boa! - pensava Eugênio. Ele tinha salvo uma criança.
Começou a cantarolar baixinho uma canção antiga que julgava esquecida.
Sorvia com delícia o refresco impregnado do cheiro da gasolina
queimada. Sentia-se leve e aéreo. Era como se dentro dele as nuvens de tempestade se tivessem despejado em chuva e sua alma agora estivesse límpida, fresca e estrelada como a noite.
- Por que será - perguntou ele a Olívia - por que será que às vezes de repente a gente tem a impressão de que acabou de nascer... ou de que o mundo ainda está fresquinho, recém-saído das mãos de quem o fez?"
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"Se naquele instante - refletiu Eugênio - caísse na Terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas... E se perguntasse a qualquer um deles 'Homem, por que trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?' - ouviria esta resposta singular: 'Para ganhar a vida'. E no entanto a vida estava ali a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa".

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"Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ÉRICO VERÍSSIMO - trecho de 'O tempo e o vento'

 
Ana Terra (fragmento)
Érico Veríssimo

(...)
D. Henriqueta começou a servir o chimarrão ao marido e aos filhos.  A cuia passou de mão em mão, a bomba andou de boca em boca.  Mas ninguém falava.

Maneco apagou a lamparina, e a luz alaranjada ali dentro da cabana de repente se fez cinzenta e como que mais fria.  As sombras desapareceram do pano onde Ana tinha fito o olhar.  Ela então ficou vendo apenas o que havia nos seus pensamentos.  Seus irmãos tinham levado Pedro para bem longe;  três cavalos e três cavaleiros andando na noite.

Pedro não dizia nada, não fazia nenhum gesto, não procurava fugir, sabia que era seu destino ser morto e enterrado ao pé de uma árvore.

Ana imaginou Horácio e Antônio cavando uma sepultura, e o corpo de Pedro estendido no chão ao pé deles, coberto de sangue e sereno.  Depois os dois vivos atiraram o morto na cova e o cobriram com terra.  Bateram a terra e puseram uma pedra em cima.  E Pedro lá ficou no chão frio, sem mortalha, sem cruz, sem oração, como um cachorro pesteado.

Agora estava tudo perdido. Seus irmãos eram assassinos.  Nunca mais poderia haver paz naquela casa.  Nunca mais eles poderiam olhar direito uns para os outros.  O segredo horroroso havia de roer para sempre a alma daquela gente.  E a lembrança de Pedro ficaria ali no rancho, na estância e nos pensamentos de todos, como uma assombração.

Ana pensou então em matar-se.  Chegou a pegar o punhal que o índio lhe dera, mas compreendeu logo que não teria coragem de meter aquela lâmina no peito e muito menos na barriga, onde estava a criança.
Imaginou a faca trespassando o corpo do filho e teve um estremecimento, levou ambas as mãos espalmadas ao ventre, como para o proteger. 
Sentiu de súbito uma inesperada, esquisita alegria ao pensar que dentro de suas entranhas havia um ser vivo, e que esse ser era seu filho e filho de Pedro, e que esse pequeno ente havia de um dia crescer...

Mas uma nova sensação de desalento gelado a invadiu quando ela imaginou o filho vivendo naquele descampado, ouvindo o vento, tomando chimarrão com os outros num silêncio de pedra, a cara, as mãos, os pés encardidos de terra, a camisa cheirando a sangue de boi (ou sangue de gente?).

O filho ia ser como o avô, como os tios.  E um dia talvez se voltasse também contra ela.  Porque era "filho das macegas", porque não tinha pai.

Tremendo de frio Ana Terra puxou as cobertas até o queixo e fechou os olhos.

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sábado, 7 de janeiro de 2012

ÉRICO VERÍSSIMO - Solo de clarineta


Érico Lopes Veríssimo (Cruz Alta - RS, 17 de dezembro de 1905 — Porto Alegre - RS, 28 de novembro de 1975)


"Carrego sempre comigo uma boa provisão do sal da malícia e da dúvida para temperar muitas das coisas que digo, escrevo, penso ou faço."
(Solo de Clarineta)

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"O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica e displicente em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, em uma linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes – alheias ou nossas, antigas ou recentes –, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado — e às vezes, inexplicavelmente, do futuro —; enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite anterior, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz e pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas… uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito.
 
Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem", murmuro-lhe às vezes, "Tuas carnes se tornam flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". "E como imaginas que estás?", replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso será verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.
 
No Homem do Espelho reconheço os olhos escuros e melancólicos de minha mãe. Essa cabeçorra, quase desproporcional ao resto do corpo, herdei-a de meu pai. Quanto à pele morena, talvez me tenha vindo de algum remoto antepassado índio ou mouro. As sobrancelhas negras e espessas — que passaram a vida no vão esforço de dar a essa cara um ar façanhudo, decerto com o propósito de atenuar a mansuetude quase humilde dos olhos — foram suavizadas pela prata com que o tempo as retocou.
 
Eu gostaria de simplificar o problema de meu temperamento apresentando-me como a manifestação de uma dicotomia, segundo a qual tendências que herdei de minha mãe — sobriedade, senso de responsabilidade, devoção ao trabalho, à ordem e à normalidade — podem ser comparadas com os muros de uma cidadela sitiada e repetidamente atacada por insidiosos e alegres bandos de guerrilheiros constituídos por certos componentes do caráter de meu pai: sensualidade, auto-indulgência, inclinação para o ócio e para uma espécie de hedonismo irresponsável.
 
"Mas a coisa não é tão simples e nítida assim", observa o Outro.
 
"Eu sei, eu sei", respondo em pensamentos, "mas vamos adiante, companheiro. É pelos sendeiros do erro e da dúvida que havemos de chegar um dia ao reino da verdade."
 
O Fantasma foca em mim os seus olhos secretamente céticos e murmura: "Será que esse reino existe mesmo fora da mitologia?"
 
Ambos encolhemos os ombros. Nem eu sei sobre a verdade, nem ele sabe, e nem ninguém mais: esta é a verdade." 
 
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Prólogo de "Solo de Clarineta", livro autobiográfico, publicado em 1973

sábado, 23 de julho de 2011

ÉRICO VERÍSSIMO - O resto é silêncio


Há um tom de verde, que encontramos às vezes nos céus de certos quadros – um verde aguado, duma pureza de cristal, transparente e frio como um lago nórdico -, um verde tão remoto, sereno, perfeito, que parece nada ter de comum com as coisas terrenas. Paramos, contemplamos a tela, atribuímos a cor impossível à fantasia do artista e passamos adiante.

Entretanto havia na realidade um verde exatamente assim no horizonte daquele anoitecer de Sexta feira da Paixão. O dia fora morno e sem vento. O outono andava a dar novas tintas à cidade. As folhas das trepadeiras que cobriam as paredes de algumas vivendas do Moinhos de Vento faziam-se dum vermelho de ferrugem. Os plátanos do Parque começavam a perder as primeiras folhas. A luz do sol tinha a cor e a doçura do mel. Os horizontes fugiam.

Por toda a parte as paineiras estavam rebentando em flores. Os contornos das coisas amaciavam-se à claridade de abril. Andava no ar uma calma adormentadora. A paisagem como que ia adquirindo aos poucos uma certa maturidade, e as criaturas humanas pareciam finalmente em paz com o céu e a terra. Havia entre elas e a natureza um acordo espontâneo, uma repousada harmonia, uma aceitação mútua e sem reservas. 

(ÉRICO VERÍSSIMO - Fragmento de "O resto é silêncio")




SOBRE O VERDE...


Há livros que leio, releio, torno a ler, e nunca deixo de encontrar, a cada nova leitura um novo aprendizado, uma nova questão.
Em "Antes do Baile Verde", de Lygia Fagundes Telles encontro no prefácio uma pergunta instigante:
..."E o verde não seria a imagem inconsciente da mocidade?"
É...nos vários contos do livro há muitas referências ao verde - a cor de que mais gosto. 
Curiosa, como sempre, sigo em busca de respostas - interna e externamente.
Isso significaria que estou "inconscientemente" ligada à fase da juventude.
Vamos corrigir : inconscientemente nada! Sou muito consciente de que tenho saudades de mim, sim. Gosto muito da jovem que eu fui.
Enfim, as cores existem desde que a luz se fez.
Para Jung, um dos mestres da Psicanálise, as cores exprimem as quatros funções mentais básicas: o pensamento, o sentimento, a percepção e a intuição.
Nosso poeta Olavo Bilac considerava o verde “um símbolo incontestável da esperança, da espiritualidade, uma cor repousante, que mesmo em grande extensão não causa fadiga”.
Machado de Assis relacionava as cores e o tempo, na variação de múltiplas interpretações. É dele a expressão: “O tempo é um tecido invisível sobre o qual se borda tudo: uma flor, uma dama, uma figura colorida”.
A própria graduação em Psicanálise tem como símbolo a pedra verde no anel que traz a Serpente de Esculápio  - o deus da Arte de curar, na Grécia Antiga.
Segundo a Cromoterapia, o verde tem propriedades calmantes, expressa a natureza e sensações agradáveis. A Medicina, porém,  não valida esse tipo de conhecimento.
Ah, lembrei-me agora de um trecho lindo do livro "O resto é silêncio", de Erico Veríssimo, que também fala sobre a cor verde.  Vou procurar e postar aqui no blog. 
Meu interesse tem razões pessoais neste tempo de aprofundamento da máxima de Sócrates, o "conhece-te a ti mesmo";  na minha opinião, a estrada mais difícil do conhecimento.
Verdade.
Por exemplo: esta palavra: verdade - podemos notar o radical com as mesmas letras de "verde".
Verdade.
Conhecer a si mesmo levaria à Verdade? Estaremos prontos para a verdade sobre nós mesmos?
Frequentemente somos gratos às mentiras que nos transformam em seres quase perfeitos, elogiados, incensados na fumaça da vaidade.
Verdade...vaidade...
Às vezes não sei se as palavras são para o gênero humano o seu ponto forte ou o ponto fraco, tanto me debruço sobre elas buscando a possibilidade de exatidão. Isso também não importa porque , exatas ou não, é o que temos para tentar nos entender.
Ih, paro por aqui porque hoje estou com a corda toda...
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