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domingo, 1 de fevereiro de 2015

MANUEL BANDEIRA - Mundo de Chagall

Tela de Marc Chagall
Mundo de Chagall
Manuel Bandeira

Ao diabo a crônica que eu deveria escrever hoje!  Sinto o corpo cansado, o espírito deprimido, a vontade incerta.  Estou precisando de um banho de poesia.  Não de poesia participante ou de pesquisa, concreta ou neoconcreta ou eletrônica, mas de poesia levitativa, astronáutica, poesia que me leve a outros mundos longe deste, ao mundo de Chagall, por exemplo.
Chagall é de profissão pintor.  Sem embargo, de vez em quando desabafa em poemas tão lenitivos nas suas imagens quanto a sua pintura em cores inocentes e frescas.
Ao banho pois:

"Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta,
Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
à procura de um lar.
Instalam-se em minha alma.
Eis por que sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas faces
Se cobriam de um orvalho amoroso,
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O país que trago dentro da alma."

(20.IX.1961)
*            *            *

No livro "Andorinha, andorinha" - Seleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade. Círculo do Livro, por cortesia de José Olympio Editora S.A.

domingo, 23 de março de 2014

JOSÉ CASTELO - versos de Manuel Bandeira, fotos de Benoît

Retrato de Bandeira
José Castelo 
 "A literatura na poltrona"- Jornal "O Globo", 19 de março 2014 


Recebo um lindo livro, em edição de luxo, dedicado às relações do poeta Manuel Bandeira com a cidade do Rio de Janeiro. Chama-se "A cidade por Bandeira" (editora Batel). 
A edição e o projeto gráfico são de Gueko Hiller e as impressionantes fotografias assinadas pelo jovem fotógrafo francês Benoît Fournier (1981). 
O laço arbitrário, mas impactante, entre as fotos e os versos de Bandeira nos transmite a sensação de que o poeta usou o Rio de Janeiro como seu caderno de desenho. Que escreveu sua poesia diretamente nas paredes, ruas e calçadas da cidade, de tal modo elas se enlaçam e se completam. 

O que mais me impressiona no livro é a dissonância entre os versos e as fotografias, que ao fim nos oferecem um inesperado retrato do próprio Bandeira. 
Não há nenhuma intenção de "ilustração". As imagens não são um adorno, um complemento. 
Ao contrário, elas dialogam de igual para igual com o poeta, desviam suas palavras, retorcem-nas, lançando-as em outros caminhos. Com isso, é também a imagem do poeta que se redesenha.

Embora eu trabalhe apenas com palavras, sempre admirei a autonomia absoluta das imagens em relação a elas. Autonomia que não significa ausência de diálogo, ao contrário, significa possibilidade de diálogo verdadeiro. Soma, que nos leva a um terceiro lugar. 

"Não te doas de meu silêncio/ Estou cansado de todas as palavras", dizem versos do poeta, dialogando, por exemplo, com a fotografia de um surfista, de quem só se vê o dorso, em meio ao mar do Rio de Janeiro. 
Silêncio, solidão, autonomia, nomadismo foram coisas que o poeta prezou muito e com as quais trabalhou todo o tempo. 
Um poeta não trabalha só com palavras, mas com o silêncio. E o silêncio não é improdutivo. 
A vida de Bandeira nos mostra a importância do ócio _ de "perder tempo", em uma época em que todos querem "ganhar tempo" - na produção poética. 
Benoît consegue dialogar fortemente com essa ideia. 

Os lindos versos "Sonhei ter sonhado/ Que havia sonhado", outro exemplo, dialogam com uma estranha foto que flagra um grupo de pessoas - todas de costas - nas areias da cidade. O que fazem? Onde estão exatamente? O que observam? O que sonham? 
Grande poeta, Bandeira fez poesia para formular perguntas, para nos perturbar, para descerrar aspectos do mundo que não estamos acostumados a nele incluir. 
E, mais uma vez, Benoît soube segui-lo nesse caminho. Que não é um caminho fácil, ao contrário, é um caminho que exige uma alma livre e, mais ainda, um olhar liberto. De que? Dos clichês, dos padrões, das imagens viciadas que, infelizmente, poluem nossas paisagens urbanas e nosso tempo. 

Imagens fazem, também, perguntas às palavras. Deslocam seus significados. Arranham sua face. Interferem nas imagens (também imagens, embora "cegas") que as palavras produzem. 
A foto de um menino, no calçadão de Ipanema, olhando a ressaca marinha confere novos sentidos e novos caminhos para os célebres versos de Bandeira: "Andei onde deu o vento./ Onde foi meu pensamento". 
A imagem do garoto, hipnotizado pelo mar imenso, não só responde, de alguma forma, às palavras do poeta, como interfere nas dúvidas que ela carrega, emprestando-lhe um terceiro sentido. Imagem e palavra se complementam, mas também se desafiam e se fertilizam. 

No nosso mundo saturado por imagens tão banais, por luzes tão asfixiantes, por uma claridade que, em vez de nos fazer ver, nos ajuda a cegar, neste mundo as fotografias de Benoît Fournier se mostram ainda mais agudas e mais produtivas. 
Casadas aos versos esplêndidos de Manuel Bandeira, elas ajudam a traçar imagens divergentes, 
inesperadas, incomuns de um Rio de Janeiro que, na época do turismo de massa, todos acreditamos conhecer na palma da mão. Mas não conhecemos. 

Releia Bandeira e esse sentimento se tornará ainda mais perturbador. 


*            *            *

quarta-feira, 5 de março de 2014

M.BANDEIRA - Poema de uma quarta feira...

Poema de uma quarta feira de cinzas 
Manuel Bandeira

Entre a turba grosseira e fútil
um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…

 O seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,

nublada a vista em pranto inútil,
dolorosamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
feita de sonho e de desgraça…

*            *            *

terça-feira, 4 de março de 2014

MANUEL BANDEIRA - Mascarada

Mascarada
Manuel Bandeira

Você me conhece?
(Frase dos mascarados de antigamente)

- Não conheço não.

- Ah como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
fazia maiores,
fazia infinitos...

Diz: não me conheces?
- Não conheço não.

- Se eu falava, um mundo
irreal se abria
à tua visão!

Tu não me escutavas:
perdido ficavas
na noite sem fundo
do que eu te dizia...
Era a minha fala
canto e persuasão...

Pois não me conheces?
- Não conheço não.

- Choraste em meus braços...
- Não me lembro não.

- Por mim quantas vezes
o sono perdeste
e ciúmes atrozes
te despedaçaram!
Por mim quantas vezes
quase tu mataste,
quase te mataste,
quase te mataram!
Agora me fitas
e não me conheces?...

- Não conheço não.

Conheço é que a vida
é sonho, ilusão.
Conheço é que a vida,
a vida é traição.

*            *            *
In: "Carnaval"


sábado, 2 de novembro de 2013

MANUEL BANDEIRA - Poema de Finados


Poema de Finados
Manuel Bandeira (1886 – 1968)

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
e procura entre as sepulturas
a sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
o filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
é a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
em verdade estou morto ali.

*        *        *

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

VINÍCIUS DE MORAES - Lapa de Bandeira


LAPA DE BANDEIRA
Vinícius de Moraes - Rio de Janeiro , 1952

(Quinta rima) 
A Manuel Bandeira 

Existia, e ainda existe 
Um certo beco na Lapa 
Onde assistia, não assiste 
Um poeta no fundo triste 
No alto de um apartamento 
Como no alto de uma escarpa. 

Em dias de minha vida 
Em que me levava o vento 
Como uma nave ferida 
No cimo da escarpa erguida 
Eu via uma luz discreta 
Acender serenamente. 

Era a ilha da amizade 
Era o espírito do poeta 
A buscar pela cidade 
Minha louca mocidade. 
Como uma nave ferida 
Perambulando patética. 

E eu ia e ascensionava 
A grande espiral erguida 
Onde o poeta me aguardava 
E onde tudo me guardava 
Contra a angústia do vazio 
Que embaixo me consumia. 

Um simples apartamento 
Num pobre beco sombrio 
Na Lapa, junto ao convento... 
Porém, no meu pensamento 
Era o farol da poesia 
Brilhando serenamente.

*        *        *

quarta-feira, 26 de junho de 2013

CHAGALL - Tradução de Manuel Bandeira

“Pintei meu mundo, minha vida
aquilo que vi e aquilo que sonhei:
pintei minha Rússia querida,
a Vitesbsk onde nasci,
o bairro dos judeus pobres onde cresci,
assim como os via quando era criança,
quando meu nome era Moshe Segall”.


Tela de Marc Chagall
Um poema de Chagall
Marc Chagall 
(Vitebsk, Bielorrússia7 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985)


Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.

Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio
Quando mal brilha meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.

Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.

Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.

*            *            *

Tradução: Manuel Bandeira

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

BANDEIRA e DRUMMOND para LISPECTOR


  
De:     Manuel Bandeira 
Para: Clarice Lispector

Rio, 13 de agosto de 1946 

Clarice querida,

Muito obrigado pelo seu cartão-postal de Berna. 
Espero que vocês se tenham dado bem aí: que não lhes aconteça o mesmo que ao Ribeiro Couto, de quem acabo de receber uma carta melancólica – tão melancólica e desanimada que me espantou. 
Parece que o poeta anda abafado com as sombras do Jura. Até voltou a poetar no estilo adolescente do Jardim das confidências.
Não me venha denegrir aquela viagem de ônibus para Copacabana. Você falou de si mesma e de literatura, mas fui eu que provoquei, porque me interessava conhecer o mecanismo de suas criações. 
Seu nome aparece freqüentemente nas críticas e crônicas literárias, citado a propósito de outros autores.
O mês passado tive que funcionar na Academia para fazer o discurso de saudação ao Peregrino Júnior. O imprudente falou durante uma hora e quarenta minutos, entregando-me um auditório sovado e sonolento. 
Mas o meu discurso foi uma brincadeira do princípio ao fim. 
A propósito dos trabalhos de biotipologia do Peregrino lancei em plena Academia a Nova – Gnomonia com seus parás, mozarlescos, quernianos, onésimos e dantas. 
Zombei do fardão e do lema “Ad immortalitatem”, com tanto jeito que fui depois sorridentemente felicitado até pelos acadêmicos mais enfatuados da glória acadêmica.
Escreva-me Clarice. Escreva carta. Um cartãozinho seu já é uma delícia. 
Mas eu quero a delícia maior das cartas. E fale de você. Fale muito de você. Nunca tenha medo de falar de você para mim.
Receba um abraço e as saudades de

Manuel


***

Clarice Lispector
Óleo de Giorgio de Chirico - Roma


Visão de Clarice Lispector
Carlos Drummond de Andrade


Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

*            *           *



terça-feira, 20 de novembro de 2012

MANUEL BANDEIRA para GUIMARÃES ROSA



G. Rosa - Preparando  viagem pelo sertão



AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!


Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá... Você sabe: a vida é um Itamarati - viver é muito dificultoso.

Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra "vereda" com o significado que você mesmo define à página 74: "Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda." Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: "ciriri dos grilos", "gugo da juriti" etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é "arga", "suscenso", "lugugem" e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?

Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.

Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada.

Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?

O sertão é uma espera enorme.
E o silêncio?

O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.

Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa'uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades.

Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:

O diabo não há! Existe é o homem humano.

Soscrevo.

13/03/1957

*            *            *

domingo, 21 de outubro de 2012

MANUEL BANDEIRA - 'Pernambucano, sim, senhor'


Pernambucano, sim, senhor
Manuel Bandeira

Acordei, tomei o meu café, puxei para a cama a minha Hermes Baby e disse muito decidido:: vou bater uma crônica sobre o Natal.
Mas aconteceu-me a mim o mesmo que ao poeta no famoso soneto (*): a folha branca pedia inspiração e ela não vinha.  Não fiquei perplexo, porém.  Sei que mudei, que o Natal mudou, que todos mudaram, que tudo mudou, e isto é sem cura... No meu tempo de menino não havia Papi Noel, esse grande palerma francês de barbaças brancas, havia era "a fada", assim, sem nome, o que lhe aumentava ainda mais o encanto.

Mudei. Mudei muito. Menos numa coisa: continuo me sentindo profundamente, de raiz, de primeira raiz, pernambucano (com  e  bem aberto - pérnambucano).  No Itinerário de Pasárgada escrevi ter nascido para a vida consciente em Petrópolis, frase que alguns interpretam erradamente como atestado de verdadeiro nascimento fora do Recife.  No entanto, a oração seguinte explicava cabalmente: "pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências".

Dizer-se que nasci no Recife por acidente quando sou filho de pais recifenses, neto de avós recifenses e por aí acima, é inverter as coisas: digam antes que por acidente deixei o Recife duas vezes, aos dois anos para voltar aos seis, e aos dez para só o rever de passagem.  Mas esses quatro anos, entre os seis e os dez, formaram a medula do meu ser intelectual e moral, e disso só eu mesmo posso ser o juiz.  Me sinto tão autenticamente pernambucano quanto, por exemplo, Joaquim Cardozo, Mauro Mota e João Cabral de Melo.  Se não fosse assim, não poderia jamais ter escrito a "Evocação do Recife", poema do qual disse Gilberto Freyre (e que maior autoridade na matéria?) que cada uma de suas palavras representa "um corte fundo no passado do poeta, no passado da cidade".  Alegam que é sermão de encomenda.  Mas a encomenda veio por causa de uma carta escrita a Ascenso Ferreira, carta essa que foi a matriz do poema.  O poema já se gestava no meu subconsciente.  E, aqui chego ao cerne da minha verdade: sou pernambucano na maior densidade do meu subconsciente.

Estas linhas vão como amical protesto à entrevista dada a José Condé pelo poeta Carlos Moreira dos belos sonetos e das encantadoras poesias.  Compreendi que ele me quis honrar mais do que mereço dando à homenagem do meu busto no Recife um sentido mais largo, ainda que para mim menos amorável.  Carlos amigo, pode acreditar que nestes meus quase setenta e três anos de vida virei e mexi, andei certo, andei errado, corri, parei, prossegui, quis voltar, não pude não, que os caminhos percorridos prenderam meus pés no chão carioca.  Chão de asfalto - este terrível asfalto carioca onde tudo pode acontecer, até morrer-se afogado, como nas enchentes do Capibaribe!

(24.XII.1958)

Do livro "Manuel Bandeira - Andorinha, andorinha", seleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade, edição integral, Círculo do Livro por cortesia da Livraria José Olympio Editora S.A. - 1978
***


(*) "Soneto de Natal". Ver, neste blog, marcador Machado de Assis.

O sublinhado significa, para mim, um poema pronto, em ritmo e rima:

"Nesta vida virei e mexi.
Andei certo, andei errado,
corri, parei, prossegui.
Quis voltar, não pude não
que os caminhos percorridos
prenderam meus pés no chão."

*            *            *

segunda-feira, 16 de abril de 2012

MANUEL BANDEIRA - Enquanto a chuva cai

 
Enquanto a Chuva Cai
Manuel Bandeira

A chuva cai. O ar fica mole...
indistinto... ambarino... gris...
e no monótono matiz
da névoa enovelada bole
a folhagem como o bailar.
Torvelinhai, torrentes do ar!

Cantai, ó bátega chorosa,
as velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
à cantilena dos beirais.

Meu coração está sedento
de tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
à canção do meu desencanto.

Volúpia dos abandonados...
dos sós... - ouvir a água escorrer,
lavando o tédio dos telhados
que se sentem envelhecer...

Ó caro ruído embalador,
terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
para embalar a minha dor!

A chuva cai. A chuva aumenta.
cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
as sementes que vão abrir!

Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
que na mudez das terras fundas
às vezes são tão infelizes!

E eu te amo! Quer quando fustigas
ao sopro mau dos vendavais
as grandes árvores antigas,
quer quando mansamente cais.

É que na tua voz selvagem,
voz de cortante, álgida mágoa,
aprendi na cidade a ouvir
como um eco que vem na aragem
a estrugir, rugir e mugir,
o lamento das quedas-d'água!

*        *        *

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

MANUEL BANDEIRA - Consoada

Consoada
Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

*            *            *

sábado, 20 de agosto de 2011

BANDEIRA E DRUMMOND

Retrato
Manuel Bandeira

O sorriso escasso
o riso-sorriso,
a risada nunca.
(Como quem consigo
traz o sentimento
do madrasto-mundo.)

Com os braços colados
ao longo do corpo,
vai pela cidade
grande e cafajeste,
com o mesmo ar esquivo
que escolheu nascendo
na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
os olhos metálicos
com que vê as coisas:
sem ódio, sem ênfase,
às vezes com náusea.

Ferro de Itabira,
em cujos recessos
um vedor, um dia,
um vedor - o neto -
descobriu infante
as fundas nascentes,
o veio, o remanso
da escusa ternura.
**

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MANUEL BANDEIRA - Tempo será


TEMPO-SERÁ

Manuel Bandeira

A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
que existe entre o meu desejo,
e a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.

*          *          * 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

MANUEL BANDEIRA - Eclipse

Eclipse lunar em 14 de junho de 2011 (foto jornal UOL)
Eu vi !

É noite. A lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
A sua imensa, a sua eterna
Melancolia...
(...)


Manuel Bandeira

segunda-feira, 2 de maio de 2011

MANUEL BANDEIRA - Canção do vento...

Canção do vento e da minha vida
Manuel Bandeira

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos,
E varia as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia de afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

Manuel Bandeira(de Estrela da Manhã, em Antologia Poética, org. Emmanuel de Moraes, José Olympio Editora, Rio, 1986)
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sexta-feira, 11 de março de 2011

MANUEL BANDEIRA - TESTAMENTO

Testamento
Manuel Bandeira in "Estrela da Vida Inteira - Lira dos Cinquenta Anos"

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra,
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta que não lutei.
*        *        *

MANUEL BANDEIRA - Oração ...


Oração no Saco de Mangaratiba
Manuel Bandeira in: "Estrela da Vida Inteira - Libertinagem"

Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares, para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

*           *            *

MANUEL BANDEIRA - A ESTRADA


A Estrada
 Manuel Bandeira, in "Estrela da Vida Inteira - O ritmo dissoluto"

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. Todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada
por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.
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É minha primeira postagem aqui, em Itatiaia. Acredito que este meu retorno ficará bem marcado com as palavras de um dos meus poetas preferidos.
Manuel Bandeira tem um tom suavemente triste, delicadamente melancólico.