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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Sem título - Adriano Dias

Venho falando demais,
Estúpido
Ao que deveria ouvir,
Sufocado em meus ouvidos
Por minha própria voz,
Verbanalizando sempre o mesmo:
.
- o eu! ; o mundo!; as coisas!
[tudo em terceira pessoa]
.
Deveria calar um pouco
E saber da brisa e seu frio substantivo,
Do mundo e seus ruídos,
Do tudo aí, sensível,
E do vazio
Aqui
Comigo.
.
Daí entenderia:
Talvez a fração que me falta
[esse vácuo que tanto cavo],
Talvez nada demais,
Só o vento, o som, os olhos
Com seu não significar nada,

Só menos alheio a mim mesmo.
**

Adriano Dias - Página 'Semema'


Mural do árabe Shahul Kollengode @shahulart

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Da página"Semema"- Quem sou eu - Adriano Dias

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Tela do catalão Guim Tió Zarraluki
Adriano Dias - na página "Semema"


Quem eu sou, 
Neste espectro político, ou social, tão binário?
Sou o Otário.
Sou o que ganha pouco e paga muito imposto 
E se ganho mais, mais imposto pago,
E quando sonego, 
Sou pego
E pago em dobro.
Sou o otário que vota
Com argumentos vagos
E nem bem lembro em quem votei para cada cargo.
Ou não voto
E pago o pato em dobro,
Acusado de omisso por ambos os lados.
Eu sou aquele que não entende direito a situação,
Nem tampouco a realidade,
E escuta atento à defesa da tese dos convictos,
E todos me convencem de suas verdades tão bem articuladas,
Mas, no fundo,
Acabo achando esse povo mesmo é meio maluco.
Eu sou quem dá a segunda chance,
Quando é traído,
E acaba sofrendo de novo
E ainda acho que a culpa foi minha.
Eu sou o que compra mais caro
E quando vende não vale mais nada;
Eu sou quem rói o osso e carrega o piano,
Quem empresta o dinheiro que nunca volta e não esquento, juro!
Eu sou aquele que o radar flagra,
E só roubam meu carro quando não tem seguro!
Eu sou o atingido pela bala perdida,
Eu sou o que fica para apanhar, quando todo mundo corre
E
Quando acontecer a Revolução,
Não importa de que lado eu esteja, na briga,
Eu sou quem morre.

*           *          *

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Livros - Adriano Dias

Adriano Dias - página 'Semema'


Os livros todos que leio
E rio e choro e mergulho,
Enquanto sou infinito, inteiro,
São só um pedaço, eu ao meio.
O outro que também sou eu
Não abre mão de existir,
Dando conta da realidade concreta.

Assim, 
na mesma medida que sou poeta,
Não vejo motivo para frescura:
Lavo louça, limpo caixa de gordura,
Leio Freud e discuto literatura.
Quero a vida completa,
E a presente,
Não a futura.

*            *            *

Adriano Dias

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Ontem eu me distraí...- Adriano Dias


Ilustração da inglesa Cathrine Blan 

Adriano Dias - página Semema


Ontem eu me distraí
e te deixei cair
do meu coração.
Foi uma loucura, desde então,
um fuzuê danado dentro de mim:
primeiro foste parar no meu rim,
encharcado, borrachudo.
Passei a beber de tudo,
para vencê-lo pelo inchaço,
mas tu me escorregaste para o baço,
aquartelada com as hemáceas que ali faço,
bem quentinha.
Soquei ali com toda força que tinha, 
como um lutador a se autoflagelar
e joguei-te para a vesícula biliar.
Arranhando-te em inoportunas pedras,
fugiste logo para as pernas
e corri muito a exauri-las de repentino,
fustigando-te ao meu intestino,
ambiente demais de latrino
para alguém como tu és,
e logo escapaste para meus pés.
Mirei numa parede ao dispor,
fechei os olhos à dor
e enfiei-lhe um baita chutão,
catapultando-te ao meu pulmão
(o direito).
Acendi um cigarro atrás do outro
e, tossindo feito louco,
senti teu deslizar sorrateiro,
fazendo-se de santa,
ao espaço derradeiro de minha garganta.
Estavas perto de fugir permanentemente,
isso eu não suportaria, não,
e preparei, rapidamente,
um gargarejo de suco de limão
com alho (apenas um dente) e salitre.
Gorgolejei para repelir-te
pela acidez tamanha,
devolvendo-te atordoada às minhas entranhas.
Daí, escalaste-me feito montanha,
ao único órgão onde pudeste repousar,´
única morada, único lugar
onde todas minhas maravilhas estão,
onde vivo sempre, 
mais visito e tão quente,
vasto, infinito e permanente,
quanto o coração.
Vives vasta comigo em minha mente, desde então.

*        *         *

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Adriano Dias e os Mestres

Ilustração do polonês Pawel Kuczynski Adicionar legenda


Às vezes almejo 
um raro privilégio: 
poder ter vivido 
na mente de um poeta querido, 
como visitando um vilarejo...

Em Drummond, sob seu prisma, 
poderia saber completo o que ele sabia 
quando disse o que disse em seus enigmas,
imerso em sua alma férrea,
mesmo achando que não sobreviveria
na aridez de sua atmosfera;

Em Pessoa me perderia,
disfarçado na balbúrdia que fôssemos,
atropelado, confundido, então,
alheado em suas vias,
a tal ponto de me tornar mais um heterônimo,
correndo o risco de perder-me em sua multidão;

Já Quintana é tão transparente
que já o habito sempre,
de tanto que sua poesia aceita.
É nela onde posso
aquecer meus ossos 
da ternura feita de sua sabedoria meiga,
descansando em encantamento de letra;

Queria de Manuel borboletar-me fora da asa, 
reaprender-me criança em sua roça-palavra, 
seus musgos, vestígios;

Queria ainda acender minha chama 
na fúria efêmera do como ama Vinícius;

Buscar em Oswald de Andrade
os fragmentos de brasilidade 
com que se me construa, por inteiro,
uma verdadeira identidade,
o que sou brasileiro;

E abastecido dessa rica matéria-prima, 
pilhada em reinos de tamanha poesia,
deliciosamente me readrianava,
a brincar de me fazer maior do que sozinho eu jamais seria...
*

Adriano Dias - página 'Semema'


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Adriano Dias - Ela escreve...

Ilustração de Jennifer Dionisio
(http://jenniferdionisio-illustrations.tumblr.com/)


Ela escreve como quem vive.
Tece seu chão, paredes, ar que respira,
os seres de companhia feitos nas letras,
às madrugadas lentas, nunca dormidas, 
certa das palavras serem sua vida,
como se a vida mesma,
árdua, cotidiana, difícil,
essa que acorda de relance
e exige nosso diário sacrifício,
fosse a página do divertido romance 
que lê nas horas vagas,
pois que lhe acaba,
fecha o volume e volta às formas abstratas:
catedrais, florestas, deidades,
sua mais profunda realidade,
sempre a conceber, riscar, rabiscar,
até que escapam dos papéis,
rolam pela sala, espalham-se pelo ar,
invadem-lhe os mundos todos.
Acham-na louca, os tolos,
acham fuga, o viver assim, introspectiva,
o que para o resto é fantasia.
Ela, alheia, escolhe o sonho - 
não o que frustra, sonhado morto 
pela massa faminta
(os ricos dinheiros, luxos, conforto),
mas o que constrói com tinta:
os poemas que habita.
Será seu legado
nessa existência torta, bamba,
deixar, quando deixar as vidas (ambas),
como rastro, alternativa, como 'ou',
o reino das letras que a vida toda inventou...

*           *            *

Adriano Dias - página Semema

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Adriano Dias - Crianças de porcelana

Crianças de porcelana: a geração criada sem anticorpos
Adriano Dias -  página 'Semema'


Seja por conta do crescente distanciamento da vida rural, dos processos de produção de tudo que nos cerca e consumimos para sobrevivermos, seja pelo ciclo paranoico de proteção à vida via espetacularização da violência, seja pela onda pornográfica da publicidade das empresas ávidas em lucrar com mais um nicho de mercado (e a lista de forças a essas que se somam é bem mais vasta), estamos vendo brotar uma geração de crianças bajuladas como príncipes indefesos, que guardam a centelha da preciosidade em cada gesto, troféus de seus pais, muito amados em selfies dos aniversários mês a mês de suas vidas, book completo e meias sempre limpas. 
E ai de quem ousar agredi-los, insultá-los, incapazes de reconhecer neles o milagre que carregam. Pobres crianças de porcelana…

Nos condomínios da vida urbana
cultivam-se crianças de porcelana
com chips subcutâneos
que quase brincam suas infâncias…
quase crianças
cujos pais correm aos seus encalços
antepondo aos passos
nuvens esterilizadas
e escondem as quinas, os rasgos,
as pontas mais finas,
num mundo de almofadas.
Gerenciada via satélite,
a geração de príncipes-cristais
cresce a sós,
ameaçada pela horda
do resto do mundo,
seus desiguais,
todos nós…
Fiz o poema acima após uma vivência social em que presenciei o desesperado zelo de algumas elegantes mães, com condição econômica para bancar o berço de ouro ao filho (raramente passa-se do primeiro) e o chão e as roupas e ouro salpicado ao seu redor, impedindo cada gesto que saísse o mínimo de sua zona de controle (cerca de 10 centímetros), e cujo pavor dos riscos que os pequenos corriam era legítimo, nada disfarçado. 
Cada toque na louça dos pequenos parece que produziria uma onda de calafrios na respectiva mãe.

A cena me escandalizou e soube por uma amiga que era comum, era a regra, é a forma como vêm sendo criadas muitas das crianças ricas que ela conhecia: príncipes.
Contudo, o poema já me incomodou enquanto escrevia, percebendo uma distinção evidente que não é verdadeira, como se o endeusamento perigoso das atuais crianças por seus respectivos pais fosse circunscrito às camadas de mais alta renda, um clichê ridículo, mas encontrei as fotos incríveis da russa Ksenia Usacheva (usadas para ilustrar o presente artigo) e não resisti ao jogo poético que compunham com o texto. 
Até porque houve o flagrante: ali estavam crianças crescendo com tapetes sendo colocados aos seus pés, espaguetes de espuma colados às quinas das mesas, assepsia extrema em um mundo alvíssimo. Senti pavor.

Mas vivencio o cotidiano de outras camadas sociais, inclusive da mais baixa (escola pública), onde presencio e ouço relatos de tantas mães que vêm à escola reivindicar a expulsão de um professor por ter cobrado seu filho, dado uma lição de moral por uma conduta indesejada, indisciplinada, por exemplo. 
Há poucos dias flagrei o caso de um grupo de mães que se articulavam para tentar exonerar uma professora que chamou seus filhos de “orelhudos”, termo usado sem a intenção de designar “burros” com raiva, mas uma bronca “faceira” para uma turma pela qual a docente tem muito carinho.

Pode-se até questionar a bronca, mas a inversão é grotesca, comprova o paradoxo educacional que estamos vivendo (sem encontrar saída): os pais não têm tempo para educar, ou força moral, tamanho medo em traumatizar os pequenos, pois trabalham e amam demais, portanto, precisam e cobram da escola uma ação formadora que capacite seus bebês, contanto que seus bebês não reclamem maus tratos em casa, o que passou (eles aprendem rápido) a ser qualquer ação do professor, diretor, instituição, que desagrade o pequeno acostumado ao principado. 

Quem é que cuida da criança?
Não posso deixar de lado meus conclassistas médios, com nossas contas sempre apertadas que agora ganharam o incremento das necessárias parcelas do estúdio de fotografia e do buffet para a festa infantil, para não ficar de fora do bonde da história, sem falar da obrigatoriedade de seguirmos o crescimento, passo a passo, de cada príncipe pelas mídias sociais.
Parece mesmo que a sociedade está avançando no sentido de aperfeiçoar a forma como os indivíduos crescem em seu seio, como são capacitados, estimulados. 
Questionar os modelos estabelecidos e identificar os abusos que vêm ocorrendo ao longo da história é a única forma de progredir na formação humana, que é o fim último da sociedade e suas instituições, mas ainda estamos testando os limites que podem ser mantidos, as balizas que serão usadas para determinar a mais sólida e eficiente educação e formação das crianças.

O custo, certamente, será de uma safra inteira de preciosidades frágeis, cujos corpos não estão podendo desenvolver as próprias defesas assim como suas personalidades. 

De um lado, os Pedros, Joões, Marias (nomes que esbanjam uma simplicidade não espelhada na conta dos cartões de crédito), de outro, os Greycyellys Tassianys, Victórias, Sharlennys (nomes que guardam a expectativa do brilho que certamente terão), todos sem anticorpos nem para as bactérias das comidas que caem no chão, nem, pior, para lidar com seus próprios erros, incapacidades e broncas da vida…


*            *            *

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

ADRIANO DIAS - Quero uma palavra...

Da página Semema -facebook



Quero uma palavra de fazer sonhar.
Dá-me, poeta, 
uma choupana discreta 
à beira do lago,
com névoa densa de alvorada
pairando, em sentinela,
convocações a melancolias escorridas
como as gotas suadas na janela,
ali onde habita a espera, 
mais nada...

Empresta-me um amor ardente, 
alcaloide palavra,
daqueles que se constroem 
por carnes delgadas
de uma musa incoerentemente bela,
fazendo que não sabe de nada
daquele jeito que reivindica o desejo
e foge
com suas curvas, rendas, seda e sorriso raro,
deixando o rastro da necessidade de lhe invadir
sem poder, claro...

Rapte-me à sala branca, poema, 
sem paredes, teto ou chão, 
o nada em construção
onde nascem as concepções,
pré e pós de todas as coisas,
que carrega, 
sem um símbolo sequer,
a significação interna mais pura, 
última, definitiva,
e, pela letra, 
eleva a vida...

Convence-me, artista, 
das verdades que tu crias
como entorpecente recreio,
essas milagrosas fantasias
que tanto existem quando leio...

*        *        *

Adriano Dias

Foto de Ian David Soar

sábado, 6 de junho de 2015

ADRIANO DIAS - "Enquanto chorou..."

Arte de Voider Sun
Enquanto chorou gotas iluminadas,
mínimas entre as lágrimas,
despertou apenas certa curiosidade,
nenhum cientista levou a sério,
relegando a pesquisa do mistério
para outro dia, quem sabe.
Mas a moça insistisse serem estrelas
vindas do céu que sonhava o tempo todo
causou um crescente alvoroço,
pois, embora fossem pequenas, 
conforme o volume da emoção que tivesse
seu rosto encharcava em pontos brilhantes
de um modo como não fora visto nunca antes,
exceto quem olhasse o manto celeste.
E como acontece à nossa raça,
quando perante tal tipo de fenômeno,
sedentos por milagres que somos,
aguardando ansiosos por quem os faça,
cresceu no entorno da moça, como fumaça,
um absorvente incômodo,
inebriante, conjurando em todos 
o impulso que nos produz a fé,
como também o delírio e o desespero até.
Houve quem arvorasse orientar os ritos
lembrasse profecias,
batucassem ritmos esquisitos,
convencesse ter visões dos próximos dias,
outros diziam ter visto, 
com aqueles olhos maníacos,
na face estelar da moça,
a organização dos signos do zodíaco,
ou quem decidisse rasgar-lhe os globos,
alegando ouvir vozes mais acres, sons tenebrosos,
exigindo sangue, sacrifício, as carnes suas...
Foi quando ela chorou as luas,
para encanto da plateia circundante!
Não só uma, como duas,
a cheia e a minguante.
E a luz serena que emanou no mesmo instante,
contínua, cálida, envolvente,
tornou todo desespero caos culto de antes
em uma plenitude jamais experimentada.
E porque nessas horas não cabe mais nada,
ninguém reparou o sumiço da moça,
desfez-se em noite e lágrimas escuras,
restando ao chão apenas uma enorme poça,
espelhando um impossível céu de duas luas.

*        *        *

Adriano Dias - na página 'Semema'

segunda-feira, 11 de maio de 2015

ADRIANO DIAS - No Dia das mães - 10/5/2015

Arte: Rahaf Dk Albab

Alguns dias atrás
abri o baú das eternas relíquias do que vivi,
agora como pai,
e encontrei recordações maternas que antes não estavam ali:
Carinhos que não senti
quando dormindo,
Broncas que não ouvi
quando saí de fininho, escondido,
Conselhos que perdi,
tapando meus ouvidos
e lágrimas que não vi,
quando seguia "meu caminho",
seguro dos bons modos que achava terem nascido comigo.
Ainda os milagres acumulados ao longo dos anos,
os pequenos, cotidianos:
de repente a roupa limpa,
a comida quente,
eu na cama, de repente,
coberto contra o frio
e nem desconfio ela ali, presente, 
sabendo-me de cor,
o tempo todo, toda hora.
Aí flagrei seu cheiro ao meu redor, 
ainda hoje, ainda agora
e soube, enfim, que não basta gratidão,
não há suficiente no mundo
que dê conta desse mar de amor tão fundo,
tão quente, tão sempre, tão tudo.
Ainda assim, embargado,
o termo escapa de meu choro mudo:
...obrigado...

*        *        *
Adriano Dias - página 'Semema'


sábado, 9 de maio de 2015

ADRIANO DIAS - "Escrevo aqui meus últimos..."

Arte: Erik Jones

Escrevo aqui meus últimos versos,
meio vagos, ansiosos, dispersos,
estou sendo seguido...
antes que me despedacem, despeço-me aqui,
preciso fugir,
estão atrás de mim, 
sequiosos de vasculhar a fonte de meus poemas,
roubar à carne de minhas entranhas o que sai da pena.
E arrombarão cada compartimento,
meu baú de metáforas,
as sacas de sinestesias orientais,
compotas de aliterações,
talvez que nem minha memória sobre.
Ainda planejam carregar a reboque,
puxado por um cabresto,
o complexo maquinário 
que agora uso para fazer este último texto.
Esses bárbaros analfabetos
rasgarão meu couro 
e, diferente da galinha dos ovos de ouro,
de mim verterão épicos completos,
dramas, rimas raras, heróis cristãos e mouros,
e se formará ao chão
uma poça de eus-líricos com seus rostos
boiando entre os mais complexos paradoxos.
Aí acometerão, esfomeados,
por todos os lados,
todo tipo de gente pilhar meus escombros literários,
a turba faminta de palavras, 
de um sentido para suas vidas,
sorvendo-me as letras como fossem comida,
incapazes de saber que as verdades poéticas têm seu tempo,
têm sua hora,
e que as guardava em mim até agora
não por usura,
os poemas nunca foram meus,
mas para uma plenitude gradativamente futura...
Portanto, 
Adeus...

*        *        *
Adriano Dias - página 'Semema'

terça-feira, 14 de abril de 2015

ADRIANO DIAS - "E eu, de novo, tentando fazer em versos..."


Tela de Tahis Dz

E eu, de novo, tentando fazer em versos
os pedaços dispersos
que apreendo de quem é você, 
cuja beleza, 
poesia viva, 
quero tornar letra, subjetiva,
mas a arapuca da palavra, sem escolha, 
sabota meu projeto
tão logo toco a tinta na folha
e tudo que era você por completo,
e me dominava ainda agorinha, 
acaba emoção de esteta, 
e mais,
enquanto o texto por si, caminha,
nada perto do que era antes,
eu, apaixonado pelos termos,
melodia das vogais,
pelo ritmo das consoantes,
mergulho no inebriante precipício que só vemos
no exercício da criação da arte.

E esse novo fracasso,
o presente poema que faço
e as delícias de compô-lo,
muito mais que consolo,
proporciona o mesmo nível epifânico de deleite
que tenho ao ver seu rosto, corpo inteiro,
ouvir o canto, sentir seu cheiro.

Nem espero que entenda, tampouco que aceite,
mas saiba que ainda mais lhe devo 
na contabilidade dos prazeres que me desperta!
Agora, além de sua realidade concreta,
o gozo de contemplar seu relevo,
soma-se a transcendência a que me elevo,
quando aqui me faço poeta!

*    *    *
Adriano Dias - página 'Semema'