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domingo, 20 de março de 2016

Outonal - Florbela Espanca

Outonal
Florblea Espanca

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…

 *            *            *

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)


terça-feira, 18 de novembro de 2014

FLORBELA ESPANCA - ?


?
Florbela Espanca

Quem fez ao sapo o leito carmesim 
De rosas desfolhadas à noitinha? 
E quem vestiu de monja a andorinha, 
E perfumou as sombras do jardim? 

Quem cinzelou estrelas no jasmim? 
Quem deu esses cabelos de rainha 
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha 
Alma a sangrar? Quem me criou a mim? 

Quem fez os homens e deu vida aos lobos? 
Santa Teresa em místicos arroubos? 
Os monstros? E os profetas? E o luar? 

Quem nos deu asas para andar de rastros? 
Quem nos deu olhos para ver os astros 
— Sem nos dar braços para os alcançar?

*        *        *

In: " Charneca em flor", 1931 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

FLORBELA ESPANCA - Nocturno

Foto: Testamento
_____________Alda Lara
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
______________________
Biografia de Alda Lara

Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque, nasceu em Benguela (Angola), em 9 de Junho de 1930 e ali passou grande parte da sua infância, por certo a coligir sentimentos que, mais tarde, exalaria pela poesia que escreveu.

Nascida numa família abastada, foi criada no característico meio crioulo da urbe das Acácias Rubras da década de 30, onde apesar da circunstância colonial não faltavam cultores da velha escola republicana portuguesa anterior ao Estado Novo, a par de remanescentes dos tempos da tipoia e do comércio sertanejo.

Teve, como era próprio do seu tempo, uma educação profundamente cristã, o que lhe conferiu "um vincado espírito de liberalismo".

Depois de ter concluído o sexto ano num colégio de madres em Sá da Bandeira (actual Lubango), partiu para Lisboa, onde terminaria os estudos liceais e frequentou a Faculdade de Medicina.

Durante este período manteve uma estreita ligação com a Casa dos Estudantes do Império - CEI, tendo sido igualmente colaboradora em jornais e revistas de relevância na época, tais como Revista Mensagem- CEI, o Jornal de Benguela, o Jornal de Angola, o ABC e Ciência. 

Nessas publicações, surgiram os seus primeiros escritos poéticos, também publicados em várias antologias, até surgir o seu primeiro livro, intitulado Poesias, em 1960.

Poeta da Geração Mensagem, A sua poesia transpira exílio, saudade obsessiva da terra e suas gentes, os lugares da infância, os amigos e as expectativas de um futuro em que pretendia participar logo que possível faz de Alda Lara, uma mensageira da sociedade civil, lutando com as armas de que dispunha a sua poesia, onde a política, estando implícita, é sobretudo do foro dos sentimentos.

Alda Lara, irmã do também notável poeta Ernesto Lara Filho, a poetisa de Benguela que faleceu prematuramente em 1962, anda algo esquecida em Angola por uma certa intelectualidade que, não obstante, não desconhece a importância da sua obra literária e o lugar de excelência que lhe cabe na literatura angolana, mas que persistem em fazer vista grossa à importância do seu testamento de (também ela) precursora de uma pré-poesia angolana que à época despontava, e que foi e é até hoje a voz feminina de maior sensibilidade, aliando ao acervo poético significativo que deixou, uma oficina de escrita passível de ser classificada já na década de 60 do século findo como de modernidade.

Após a sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira, atual Lubango, decidiu instituir o Prêmio Alda Lara de Poesia.

NOCTURNO
Florbela Espanca

Amor! Anda o luar, todo bondade,
Beijando a Terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que anda pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traças em mim os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma que eu te dei, cheia de mágoas,
É nesta noite o nenúfar de um lago
Estendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...

*            *            *

sábado, 28 de setembro de 2013

FLORBELA ESPANCA - DESEJOS VÃOS - Marcos Assunção - Programa Sr. Brasil



Desejos Vãos
Florbela Espanca
Musicado por Marcos Assunção



Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

*            *            *

In:  "Livro de Mágoas"

terça-feira, 11 de junho de 2013

FLORBELA ESPANCA - Vaidade / Os teus olhos

florbela.jpg

Dos olhos de Florbela, a poetisa eleita
Andreza Spinelli Ballan - in "Obvious"

Desvendar Florbela Espanca: atitude impossível e impensável. Divagar sobre a vida da mais intensa poeta portuguesa de todos os tempos – ouso nomeá-la como a mais intensa sem nenhum receio – não é algo que seja fácil de ser expresso. 
Florbela foi uma figura que soube retratar sua existência através de fortes marcas encontradas na sua escrita. Escreveu em prosa, mas foram seus sonetos que fizeram dela o grande nome que é hoje. Marcas tão delineadas que remetem o leitor a sentir o desamparo de uma grandiosa mulher na própria epiderme.

Falou do amor e das aparentes escaras deixadas por ele com uma lucidez quase paradoxal ao seu estilo sofredor de ser. 
Obteve a arte da lucidez agregada ao sofrimento, mostrando o quão reluzente foi a sua passagem pelo hall dos grandes poetas mundiais. Reconhecida? Sim, mas somente após sua morte (que ainda é um mistério tanto para os biógrafos da escritora quanto para os admiradores de sua obra). 
Alcançou postumamente a glória e o reconhecimento de sua inegável genialidade, deixando clara a ideia de que Florbela foi, antes de tudo, uma sofredora. Sofrimento visível em seus auto-retratos que emanam basicamente um olhar pesado, olhar que busca algo quase impossível de ser encontrado.

Não quis aparentar ser uma pessoa forte, só desejou mostrar, despida e desprotegida, as dores que sentia e o que observava (com olhos de lince) ao seu redor – dos hábitos da sociedade portuguesa da época, até a atmosfera vivida embaixo de seu próprio telhado.
Estudou em colégio masculino e conviveu com os impropérios do “sexo forte” de uma forma muito próxima, moldando com sabedoria suas opiniões.
Viveu para mostrar aos leitores o peso que a vida pode acarretar às costas de uma mulher que dispôs de uma fé majestosa e homens que moldassem seu pensamento de uma forma praticamente proposital e esculpida.
Tela de Brent Heighton
Vaidade, um dos poemas mais famosos da escritora:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...
E não sou nada!
*

Florbela como amante constante:
Os teus olhos

O Céu azul, não era
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.

Um dia, fez Deus uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.

Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura, que primor!”
Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!

*        *        *


segunda-feira, 30 de julho de 2012

FLORBELA ESPANCA - Fumo

Fumo
Florbela Espanca

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
... Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho

Os dias são outonos: choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredos

Invoco o nosso sonho, entendo os braços
e é ele oh meu amor, pelos espaços
fumo leve que foge entre os meus dedos.

*        *        *

terça-feira, 9 de agosto de 2011

FLORBELA ESPANCA - Voz que se cala


Voz que se cala
Florbela Espanca

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

*            *            *