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domingo, 30 de novembro de 2014

OLAVO BILAC - Defesa


Defesa
Olavo Bilac

Cada alma é um mundo à parte em cada peito...
Nem se conhecem, no auge do transporte,
os jungidos do vínculo mais forte,
almas e corpos num casal perfeito:

Dormindo no calor do mesmo leito,
votando os corações à mesma sorte,
consigo levam à velhice e à morte
um recato de orgulho e de respeito...

Ficam, por toda a vida, as duas vidas
na mais profunda comunhão estranhas,
no mais completo amor desconhecidas.

E os dois seres, sentindo-se tão perto,
até num beijo, são duas montanhas
separadas por léguas de deserto.

*        *        *

sábado, 10 de novembro de 2012

BILAC - O lobo e o cão



O Lobo e o Cão
Olavo Bilac

Encontraram-se na estrada
Um cão e um lobo. E este disse:
“Que sorte amaldiçoada!
Feliz seria, se um dia
Como te vejo me visse.
Andas gordo e bem tratado,
Vendes saúde e alegria:
Ando triste e arrepiado,
Sem ter onde cair morto!
Gozas de todo o conforto,
E estás cada vez mais moço;
E eu, para matar a fome,
Nem acho às vezes um osso!
Esta vida me consome...
Dize-me tu, companheiro:
Onde achas tanto dinheiro?”

Disse-lhe o cão:

“Lobo amigo!
Serás feliz, se quiseres
Deixar tudo e vir comigo;
Vives assim porque queres...
Terás comida à vontade,
Terás afeto e carinho,
Mimos e felicidade,
Na boa casa em que vivo!”
Foram-se os dois. em caminho,
Disse o lobo, interessado:
“Que é isto? Por que motivo
Tens o pescoço esfolado”
— “É que, às vezes, amarrado
Me deixam durante o dia...”
“Amarrado? Adeus amigo!
(Disse o lobo) Não te sigo!
Muito bem me parecia
Que era demais a riqueza...
Adeus! inveja não sinto:
Quero viver como vivo!
Deixa-me, com a pobreza!
— Antes livre, mas faminto,
Do que gordo, mas cativo!”

*          *          *

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

OLAVO BILAC - (parnasiano?!)



Ao coração que sofre, separado
do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
não basta o afeto simples e sagrado
com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
nem só desejo o teu amor: desejo
ter nos braços teu corpo delicado,
ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
não me envergonham: pois maior baixeza
não há que a terra pelo céu trocar;

e mais eleva o coração de um homem
ser de homem sempre e, na maior pureza,
ficar na terra e humanamente amar.

*        *        *

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

OLAVO BILAC - Remorso

Tela - Salvador Dalí
Remorso ou Esfinge incorporados na Areia

Remorso
Olavo Bilac

 
Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

*            *            *

Fonte: comunidade facebook 'Lua de provérbia'

quinta-feira, 3 de maio de 2012

OLAVO BILAC - Via Láctea

Via Láctea
Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
que, para ouvi-las, muita vez desperto
e abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
a Via Láctea, como um pálio aberto,
cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e entender estrelas"

*            *            *

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

OLAVO BILAC - Pássaro cativo

Pássaro Cativo
Olavo Bilac

Armas, num galho de árvore, o alçapão
e, em breve, uma avezinha descuidada,
batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
gaiola dourada;
dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.

Por que é que, tendo tudo, há de ficar
o passarinho mudo,
arrepiado e triste sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
só gorjeando a sua dor exalam,
sem que os homens os possam entender;

Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos escutassem
este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
na mata livre em que voar me viste;
tenho água fresca num recanto escuro
da selva em que nasci;
da mata entre os verdores,
tenho frutos e flores
sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
de haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído
de folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a Imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!"

Estas cousas o pássaro diria,
se pudesse falar,
e a tua alma, criança, tremeria,
vendo tanta aflição,
e a tua mão tremendo lhe abriria
a porta da prisão...

*        *        *
In: Antologia poética

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

LÍNGUA PORTUGUESA - OLAVO BILAC


LÍNGUA PORTUGUESA
Olavo Bilac (1865 – 1918)


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

*            *            *