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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Neste mundo pesado... - André J.Gomes

Neste mundo pesado, benditas sejam as pessoas leves
André J. Gomes - 9 de dezembro de 2017

Resultado de imagem para o pequeno príncipe

Ah, quem me dera ser um tipo engraçado mesmo. Não "engraçadinho", que por aí tem tantos. Queria ser um pândego autêntico. Teria sempre, de cabeça, um relato cheio de graça, jamais de "gracinha", para sacar no instante preciso, desarmando interlocutores cheios de ódio, desconhecidos travados de fúria, rivais tomados de ira partindo um contra o outro.

Eu queria ser um sujeito engraçado. Desses que na hora certa dizem coisas tão divertidas, mas tão incrivelmente alegres que fazem quem estiver perto parar e sorrir.

A cada palavra minha, uns iam gargalhar de doer o ventre, outros ririam rasgado de esquecer as dores. E outros sentiriam um fiozinho de leveza em seu lá dentro capaz de provocar um riso tímido, um alívio de contentamento, um refresco humilde no peso da vida. Mas ninguém, ninguém seria indiferente à minha graça. Eu queria ser um sujeito assim.

Quando eu contasse uma lembrança brincalhona, um caso curioso da minha avó, um chiste à toa, por exemplo, no ponto de ônibus, toda pessoa aborrecida com o atraso do transporte, o cansaço do trabalho ou o preço do feijão desabaria na risada. Esse riso haveria de afetar o cidadão ao lado, e o outro, o outro e os outros mais. E todos nós ali, contagiados, juntos, riríamos tanto e tão refeitos, restabelecidos, que quase nem notaríamos o ônibus demorando.

Quem tomasse parte desse instante chegaria em casa comentando com a mulher, o marido, os filhos, os irmãos: “você não sabe! Hoje um sujeito divertido fez todo mundo dar risada no ponto!”

Ah, quem me dera ser um tipo engraçado mesmo. Não “engraçadinho”, que por aí tem tantos. Queria ser um pândego autêntico. Teria sempre, de cabeça, um relato cheio de graça, jamais de “gracinha”, para sacar no instante preciso, desarmando interlocutores cheios de ódio, desconhecidos travados de fúria, rivais tomados de ira partindo um contra o outro.

No segundo que antecede uma briga de bar, lá estaria eu, enfiado entre os valentões irascíveis. Implacável, eu gritaria um chiste saboroso, simples, e confusão nenhuma iria para a frente, porque todos cairiam numa gargalhada irresistível, profunda, demorada. E ao fim todos desabaríamos em descabido estado de festa, unidos, leves, reconciliados com a graça da vida. Essa vida espantosa, sublime, que tanta gente tenta fazer ordinária e vil.

Fosse eu um sujeito engraçado de fato, minha graça seria requisitada pelas Nações Unidas em missões de paz ao redor do mundo. Sairia por aí, diplomata sem formação, orientado a contar passagens pitorescas para carrancudos chefes de estado, conspirando por melhorar seus humores, em minha pequena contribuição para a paz, a compreensão e a ajuda generosa entre os povos. Eu queria ser um sujeito poderosamente engraçado.

E ainda que um dia, por qualquer sorte, a vida me levasse tudo, família, amor, trabalho, dinheiro, saúde, esperança, amigos, eu manteria aqui dentro um punhado de lembranças inventadas, memórias recreativas, recordações contentes queimando numa fogueirinha humilde que me aqueceria o coração e me conservaria, para sempre, um sujeito nem rico e nem pobre, nem louco e nem são, nem certo e nem errado. Nada senão alguém confusa e inexplicavelmente cheio de graça.

Quem sabe assim eu me sentisse menos triste à tardinha, quando o sol apronta as malas e me faz sentir saudade e esperança. Tristeza que dói mansinha compensando o fato de que vai doer para sempre.

Se eu fosse um brincalhão espirituoso eu teria tudo isso. Teria só para dividir aqui e ali, alastrando por todo canto uma chama de sonho, de riso e de festa.

E aquela moça amiga, alegre de nascença e juventude que agora vai doente, tristonha e sozinha, ao me receber numa visita breve, cheia de graça e de lembranças infantis, abriria um sorriso franco e a fé na vida lhe voltaria a brilhar na fronte. Eu queria, ah, como eu queria ser um sujeito engraçado.

*           *            *

domingo, 23 de julho de 2017

PARA ESTARMOS MAIS PERTO UNS DOS OUTROS
André J. Gomes - em 'Revista Letra'

Tela de Edward Hopper

De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta.


Um dia estaremos mais perto uns dos outros. Não importa quando e nem como. Mas nós seremos mais próximos do que somos hoje.

Nesse dia, estaremos para além de qualquer classificação superficial. Seremos mais que certos ou errados, pobres ou ricos, brancos ou pretos ou vermelhos e amarelos, homens ou mulheres, novos ou velhos. Mais que tudo isso, seremos simples pessoas mais próximas.

Ainda que distantes na geografia, guardaremos em nós a lembrança ou o desejo do encontro. E o encontro nada mais será que um pedido assentido e sincero de compreensão. Encontrar será a prática simples de pensar em alguém e querer nada senão compreendê-lo e aceitá-lo.

Viveremos perto o suficiente para nos vermos, nos ouvirmos e nos sentirmos ali. Próximos o bastante para dividir nossas alegrias e nossas dores, para seguir os caminhos de cada um sem nos perder de vista. Íntimos a ponto até de nos afastarmos quando preciso, em respeito à nossa necessidade humana da solidão que de quando em vez nos empurra para o claustro.

Entre tantas respostas e ponderações absolutas e julgamentos e certezas tão comuns desse mundo, estaremos juntos para nos fazer perguntas sem esperar respostas. Apenas nos perguntaremos coisas à toa, pelo puro e simples exercício de falar e ouvir. Mais ouvir do que falar.

Em longas conversas de manhã, sentados no sol de um banco de praça, nossos livros sobre o colo esperando atenção, relembraremos sem saudade os tempos frios em que nos tornamos duros estranhos. Riremos juntos de nossos ódios superados, nossas pendengas ridículas e desconfianças daninhas. E de tão boas, nossas conversas se estenderão sem pressa e sem culpa pela tarde e pela noite, até o mundo amanhecer de novo em cada dia seguinte.

Até lá, as histórias de uma gente que aprendeu a viver separada demais, uns contra os outros, fazendo do conjunto da vida uma imensa guerra campal, gritalhona e infértil serão nada além de velhas narrativas de barbárie e estupidez. Peças de um museu inexistente. Sombras de uma guerra em que os vencedores celebravam sua superioridade sem se dar conta de que, no fim do jogo, todas as peças sempre voltam para a caixa.

Então, façamos um trato. De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta. Alguém está a nos advertir que devíamos passar mais tempo juntos, ficar mais perto uns dos outros, tomar sol, apanhar vento, esperar a lua que se esconde por trás das nuvens.

Em todos os sentidos, de todas as formas, você e eu e todos nós seremos uma só vizinhança afetiva, moradores de um só quarteirão amoroso. Perto ou longe, não importa, seremos simples pessoas mais próximas, afeitas e dispostas a fazer da vida um longo e sincero gesto de amor ao outro.

É que um dia, se Deus quiser, estaremos mais perto uns dos outros.

*            *            *

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aceita que a vida ajeita - André J.Gomes

Aceita que a vida ajeita
André J. Gomes -  Página 'Conti outra' 16 de abril 2017


Que venha. Seja lá o que for, venha. A gente aceita. Encara, luta, cai, levanta, vai em frente. Aceita o que foi, o que é e o que vem. Não, nós não somos conformistas, permissivos, acomodados, medrosos, trouxas. Nós somos gente. E a gente aceita.

Aceita até mesmo quando rejeita, recusa, esperneia, grita. A gente aceita o inaceitável em conclusão íntima. O teto desaba, o assoalho rompe, as paredes apertam. E a gente aceita.

Aceita pagar por serviços odiosos, aceita esperar de pé em filas enormes por um atendimento de cara feia. Aceita circular de bandeja em mãos por praças de alimentação lotadas até encontrar uma mesa vazia, engordurada, ao lado da lixeira entupida, transbordando sujeira dos outros. A gente aceita o que tem.

Amores capengas e amantes ausentes a gente também aceita. Aceita pela mera ilusão de não estarmos sós.

A gente aceita passar a semana inteira esperando a “sexta-feira, sua linda”, analgésico e antídoto para os venenos de todo dia. A gente aceita. Aceita tudo que não traz nada. Aceita as críticas e pouco reflete sobre elas, senão para nos convencer de que “errado” é quem as fez e não nós mesmos, nós e nossa perfeição religiosa e autoenganada, fundamentada em versículos bíblicos descaradamente adulterados.

Para amansar antigas feras, a gente aceita raciocínios impostos por terapeutas e analistas desinteressados, iludidos de que chegaremos à nossa subjetividade por discernimento próprio.

A gente aceita pagar mais caro por aquilo a que naturalmente tem direito pela simples lógica da civilidade e do princípio da vida em sociedade. Um espaço dois centímetros maior na poltrona do avião, médicos que nos examinem com o mínimo de cuidado, um bairro calmo para dormir à noite sem esperar que alguém invada nossa casa na madrugada, um atendimento decente em qualquer canto.

Que nos culpem pelo que não cometemos, só para fugir de discussões cansativas, a gente aceita de bom grado. E daí? Que mal há em não querer gastar tempo discutindo balela? A gente aceita, aceita que é mais fácil.

Aceita porque, afinal, por mais que nos defendamos, aqueles que nos culpam de qualquer coisa não vão mesmo acreditar. Se o fizessem, assinariam para si mesmos um vergonhoso atestado de covardia. Então aceitam o cargo autoimposto de suprassumos das ciências, reis da cocada preta, generais da banda.

A gente aceita e se acostuma a viver com medo, aceita a morte lenta e o tempo breve, aceita sentimentos burocráticos e cobranças descabidas. Aceita meia hora de amor e duas paçoquinhas.

A gente aceita tudo. Aceita o que deu pra fazer, aceita o mínimo e acha o máximo. Aceita o mais provável e o menos pior. A gente aceita. A gente aceita que a vida ajeita.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

O silêncio é uma prece... - André J. Gomes

Da página 'Conti outra'

O silêncio é uma prece e faz bem 
rezar um pouquinho.
André J. Gomes -  14 fev, 2016


Pois em meio a esse barulho todo, esse debate infinito, esse falatório, esse tanto que dizer e essas coisas todas por ouvir, acontece da gente calar um instante.

É que tem hora em que falar e ouvir fazem mal. A gente sente que uma só palavra vai nos fazer explodir. Aí só o silêncio nos salva.

Ele vem voando como um anjo generoso e sutil nos acolher sob asas calmas. Então voltamos ao remanso que existia antes de nós. O silêncio da madrugada em que as crianças dormem, as plantas crescem, o pensamento repousa.

Tem dias em que toda gente só precisa ficar quieta em seu canto, dizer ao mundo: “não, hoje eu não quero sair. Vou ficar aqui dentro de mim mesmo”. Depois se deixar em franca quietude, esperando doer a dor, que doa, pode doer. E se alguém perguntar “por quê?”, a resposta será nenhuma.

É preciso fazer silêncio, respirar devagar, dormir e acordar tantas vezes quanto o corpo e a alma pedirem. Descansar os músculos na cama que nos abraça com nosso cheiro, como um carinho antigo em cada pedacinho de nós.

Que o silêncio venha nos varrer por dentro, tal qual a casa de móveis revirados em manhã de faxina, as vassouras arrastando de cantos escondidos a sujeira velha, cacos de vidro, pedaços de linha suja, botões perdidos de camisas desaparecidas, asas de inseto, unhas cortadas, emaranhados de cabelo vencidos por tanta chateação, lã de cobertor, pele morta e poeira velha arrancada de tanta sombra em nosso aqui dentro.

Ahh… silêncio, escancara essas janelas pesadas, inunda de sol nosso peito trancado de angústias gritadas em falatório inútil. Esfrega com escova grossa e sabão concentrado nossas paredes encardidas de tanta craca acumulada. Enxágua com esguicho a gordura das reclamações inúteis, o pó rasteiro das picuinhas. Limpa a imundície das falas inúteis, ofensas, injúrias, berros, misérias, invejas. Liberta as palavras de todo mau uso, mergulha suas sílabas em baldes de álcool, lava seus vãos e desvãos e reentrâncias. Deixa-as de novo frescas, livres do burburinho tacanho. Puras à espera de outros usos além do ataque, da intriga e da empáfia.

Como o corpo que jejua, toda alma precisa do silêncio que a liberte de vozes indigestas, desaforos gratuitos, elogios falsos, comentários mesquinhos.

Só o silêncio nos livra de tanto veneno. E quando estivermos restabelecidos, uma enfermeira de olhos risonhos nos encontrará silenciosa, o indicador sobre os lábios, e nos dirá palavra nenhuma, em seu aviso de que a saúde é franca, a paciência é um remédio e o silêncio a tudo refaz. Porque tem hora em que, depois de tanta falação, é preciso silêncio. Não há mais o que dizer. Tem hora em que só a mudez nos fala, nos cura e nos ensina de novo a estar em paz.

*            *            *

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ANDRÉ J. GOMES - Para as almas amorosas...


PARA AS ALMAS AMOROSAS, QUALQUER LUGAR LONGE DO SER AMADO É TERRA ESTRANGEIRA

André J. Gomes - em 'Revista Bula'


Não olhe agora. Mas nós estamos cercados de estrangeiros. O mundo, esse lugar tão grande quanto a sala da nossa casa, anda povoado de forasteiros. 
É gente nascida em todo canto, rumando para todo lado, mas que em algum instante, de alguma sorte, seguiu para longe de seu amor. Uns há horas, outros há dias, semanas, meses, anos, todos se encontram distantes do ser amado.

O jeito não engana. Essa gente enamorada de alguém que vai longe tem um jeito aplicado de trabalhar direito, como quem quer logo voltar para casa. 
Tem distância geográfica, lonjura do coração ou os dois. Não importa. Tudo é longe para quem não caminha junto de seu amor.

Alguns sequer o encontraram. Outros o acharam e o deixaram partir. 
Há os que têm saudade simplesmente porque não podem estar o tempo todo agarrados a seu bem. 
Todos são andarilhos em terra estrangeira, vagando em busca de amor. 
As almas enamoradas são assim. Longe a qualquer distância de quem amam, sentem no coração um banzo, uma saudade, um não-sei-quê de nostalgia.

Assim como os imigrantes que partem para um país distante, levando escondidos na bagagem um saquinho do feijão de sua terra, um punhado do café de sua cidade, uma muda do hortelã dos avós para o chá das noites de insônia e tristeza, há também os que só resistem à saudade porque carregam consigo lembranças de seus dias de amor e de paz.

Não há remédio que dê jeito na falta do amor distante. Nada senão rumar para onde o coração ficou cativo. Depois seguir de alma leve, remoçada. 
Almas enamoradas funcionam assim. Se vão, carecem de voltar. Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é terra estrangeira. Do outro lado do mundo ou ali na esquina.

Eu entendo as almas enamoradas de todo canto. Eu aqui, em minha solidão de bicho, compreendo sua disposição para a vida, sua lida convicta de honestos trabalhadores, seu jeito firme e manso que só têm as pessoas boas. Entendo, respeito, admiro e agradeço.

Porque as almas enamoradas, mesmo aquelas que caminham sós em busca do amor que talvez nunca venha, carregam e levam adiante nossa primeira e maior vocação: a de dar e receber amor por aí.

Em sua labuta, as almas enamoradas assumiram a tarefa de entregar, umas às outras e a quem mais estiver perto, palavras de tão profundo carinho, embrulhadas em gestos tão simples, que desarmariam as caras mais feias e desmontariam as intenções mais odiosas.

A cada novo encontro amoroso, conspiram os enamorados por um mundo de pessoas livres, ativas e gentis. Gente que acredita no trabalho e pratica seu ofício com honestidade e gratidão. Almas que valorizam o tempo e não o perdem com besteira. Que apontam o barco para a frente e não o dedo a ninguém. Que ouvem o que lhes dizem, guardam o que desejam e respondem o que precisam. 
Criaturas imperfeitas que vivem sua vida e deixam em paz a dos outros. Que preferem a crença no esforço próprio e dispensam a crítica ao empenho alheio.

Assim são as almas enamoradas. Boas quando longe de seu amor. Melhores ainda quando perto. 
Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é uma fria, distante e aborrecida terra estrangeira.


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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fuja das almas mesquinhas - André J.Gomes


Fuja das almas mesquinhas.
Viver é um exercício de grandeza. 
André J. Gomes - in 'Revista Bula'

Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. 
Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. 
Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. 
Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.

Falta grandeza na gente, sim.
Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. 
Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. 
Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. 
Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. 
Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além do fardo de doze cervejas previamente combinadas. 
Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. 
Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.

Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. 
Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.

Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? 
Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. 
Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. 
Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. 
Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.

Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! 
Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? 
Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. 
Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para o perdermos com pequenezas.

Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. 
Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. 
Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. 
Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.


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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

André J. Gomes - Reflexão necessária...


Infelizmente, 2015 'promete' (no mau sentido)



Somos todos vítimas do massacre no Charlie Hebdo
André J. Gomes - 'Revista Bula'  


Estamos todos juntos. Profundamente ligados. A despeito daquilo em que nestas horas acreditam os assassinos e os canalhas, os indiferentes e os superficiais, os cegos voluntários e os simplesmente estúpidos, somos todos uma coisa só. E esta coisa tem sofrido faz tempo, padecido como agora, no choque de uma covardia impensável, na violência medonha de um novo ataque burro e cruel.

Somos semelhantes. Iguais. Seremos sempre. Apesar de todas as nossas diferenças, nós ainda somos seres idênticos. Bichos afoitos da natureza, descobrindo seu próprio jeito de viver e de morrer.

É claro que somos distintos, diversos de toda sorte. Nossos pés têm formas desiguais, pisam de modo e força e ritmo diferentes em terrenos variados. Rumam para cantos separados. Mas ainda somos tão parecidos!

A diferença sobe por nossas pernas e se esparrama. Nossas topografias corporais divergem, nossos joelhos nos cobram o peso do caminho em moedas singulares, nossos sexos se estranham em gênero, forma, tamanho, intenção, entusiasmo mas, se deixarmos, eles dão um jeito e se atraem e se completam.

Nossos intestinos, rins, bexigas, pulmões e outros órgãos internos exibem capacidades desiguais, mantêm ritmos divergentes de funcionamento, adotam padrões variados de tolerância. Entre nós, há os que se indispõem com uma mera sopa de mandioca e os que comem pedra e arrotam borboletas brancas de saúde. Somos tão diferentes em nosso por dentro e, no entanto, nossas semelhanças saltam corpo afora em jatos escandalosos de vida.

Os braços que temos enlaçam empreitadas sortidas, alcançam miradas díspares, exibem largura, extensão, força, cores e capacidades várias. Mas continuam os mesmos braços que aproximam e afastam, abraçam e atacam, com mãos que afagam e agridem. Os mesmos que tateiam agora o amanhã que a Deus pertence.

Somos tantos rostos se iluminando e se fechando por razões infinitas, ora similares, ora opostas. Nossas bocas sorriem ou vociferam a partir de impulsos tantos, porta-vozes de juízos que se criticam e se censuram porque no fundo padecem da mesma ânsia grandiosa de expressão.

Nós somos iguais. Levamos olhos que miram vistas únicas, horizontes maiores ou menores, objetivos vis ou edificantes. Mas que são as mesmas janelas da alma que resiste lá dentro, tocada pelos sons e cheiros descobertos por nossos ouvidos e narinas, alma servida pelas escolhas que fazemos com as pontas dos dedos.

Estes ombros são os mesmos que suportam o peso do choro alheio e carregam o piano do mundo. São os mesmos da indiferença demonstrada quando nos faltam sentimentos ou precisamos escondê-los.

Nossas cabeças deliram sonhos incomuns. E os nossos corações, ah… esses se abrem e se fecham a partir de estímulos insuspeitados e desiguais. Trabalham em velocidades variadas, amam em intensidades diversas. Mas são exatamente os mesmos operários capazes e insistentes, batendo no peito sua vocação incansável para a vida e seu movimento furioso.

Você e eu somos “o próximo” a quem se deve amar. Amemo-nos, pois. Nós estamos aqui para nada, senão para isso, rumando para o mesmo lugar.

O resto é desvio, intolerância, violência exasperada e estupidez praticada em todos os níveis — de insultos verbais na Internet até atentados bárbaros como o do jornal Charlie Hebdo. O impulso de atacar e lesar e calar o outro é o mesmo. E as vítimas são as mesmas de sempre: nós. Cada um de nós. Até quando? Para quê?


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Um passarinho novo...


Um passarinho novo no céu das pequenas coisas
André J. Gomes - "Revista Bula", 13 de novembro 2014

E lá estavam todos eles. As formigas e os sapos, as cobras e os grilos, os ciscos e os pequenos universos que pulsam dentro das gotas d´água. Todas as criaturas pequenas que vivem debaixo das pedras e as borboletas e os pássaros, todos os pássaros trabalhando acima das árvores e brincando de andar no chão.

As rãs e os rios, as folhas pesadas de orvalho caindo dos galhos. Ficaram todos ali, à espera: um anjo simples, sem tempo nem jeito anunciara a chegada de passarinho novo ao céu das pequenas coisas.

Fez-se então no céu que é um imenso e eterno chão a maior expectativa de simplicidades. Todas as coisas e os seres desimportantes da vida estavam ali. As tartarugas caminhando no avesso dos mísseis, os insetos voando alheios aos aviões, os atrasos e os silêncios, as insignificâncias do tempo costurando suas esperanças em linhas invisíveis de quando.

O passarinho chegou ali em sua manhã quase tardinha, quase de noite. Olhou a todos com olhos de infância. Reencontrou o amigo Bernardo como na primeira vez que o reconhecera, quase árvore. Reviu os filhos João e Pedro de novo crianças, brincando de fazer nada na sombra com palavras de sol. Chegou agora e sempre.

Foi ser feliz de novo, transbordar as peneiras de água, afanar o vento e mostrar correndo aos irmãos, escrever a Gramática Expositiva do Céu. Vivo como a vida inventada por ele.

Porque no céu das pequenas coisas, morrer é só um despropósito como tantos mais, e o voo do passarinho não morre. Finda seu corpo físico, parte seu canto infinito. Ele foi adiante.

Foi-se tornar inútil e belo como sempre. Para sempre. Com os seus, vai viver de apanhar desperdícios em um quintal maior que o mundo. E o mundo, esse nosso cá aquém, fica para antes e depois. Fica para quando.

Para Manoel de Barros.


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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ANDRÉ J. GOMES - A gratidão...

A gratidão é uma flor sentida, 
delicada e bela
André J. Gomes - "Revista Bula", outubro 2014

Numa cidade do interior, dessas que existem para além do tempo, para dentro de uma lembrança, uma cidadela entre o nada e o lugar nenhum, recanto de meia dúzia de vidas onde a beleza mora nas coisas minúsculas e nos gestos simples, uma vila onde a vida se passa no chão, sob as árvores, junto aos bichos e às plantas, ali vive um homem agradecido.

É bom você não esperar muito dele. Não é pessoa de tantas habilidades, não foi capaz de grandes feitos, não realizou amplas obras agrícolas, não construiu famílias centenárias nem inventou mecanismos revolucionários de aproveitamento da água da chuva. É só um homem comum, mas guarda no peito uma rara gratidão.

Todos os dias, de manhã, mas de manhã mesmo, antes do sol chegar, quando as aves cochilam no escuro e o amor se forma em silêncio no sono dos amantes, esse homem pula da cama e caminha até um canteiro simples. Ali, reza uma prece curta e bela, os pés descalços no chão chuviscado de orvalho, e toma emprestadas da terra as rosas de tantas cores que lá esperam cumprir seu destino de flor.

Ele nunca saiu de sua aldeia. Tratou dos pais até o último dia de suas vidas e agora cuida da casa de sua infância e da roseira de sua mãe. Concluiu os estudos primários ali mesmo, em sua cidade que é o mundo, no grupo escolar plantado ao centro da praça, entre árvores e pipoqueiros e bancos de pedra. Aprendeu português, matemática, ciências. Nunca estudou outra língua, não conhece as teorias modernas da administração, não fez carreira em nenhuma empresa importante.

Mas no armazém que tem o nome de sua família, o mesmo em que começou a vida ao lado do pai, entre secos e molhados, trata seus clientes pelo nome e agradece honestamente ao final de cada compra. Sabe os gostos de seus vizinhos, a quem agrada com as alfaces e os almeirões que brotam de sua horta em escandalosa fartura. E com as rosas que nascem insistentes no pequeno jardim de sua mãe, faz um afago às moças que passam na rua. Estranho como só ele, o homem sempre agradece a quem aceita seus regalos.

Todos os dias depois da lida, ele volta para casa caminhando entre o trânsito de velhas bicicletas e carroças à tardinha. Assiste à noite de sua janela, alimenta seus cachorros e, antes de dormir, reza por todas as almas do mundo que ele só sabe de longe, mas a quem sente de perto.

E então, no coração de cada ser humano brota um inalcançável sentimento de gratidão. E é como se cada um de nós, do mais pobre ao mais rico, do mais doente ao mais saudável, do mais humilde ao mais pedante sentisse nascer em seu lá dentro uma flor modesta, de pétalas frágeis e cores simples, esperando ser cuidada. É o nosso sentimento de gratidão à procura do que agradecer, rebelando-se, nos fazendo dizer “obrigado”. É pena, mas estamos desaprendendo a lidar com ele. E lançamos a flor pela janela.

O homem simples da cidade perdida e distante toma em suas mãos as flores que jogamos fora. E em sua bondade simples, cuida de cada uma delas como quem adota uma criança, lhes dá água, limpa-lhes as pequeninas folhas, sopra-lhes o pó. E guarda em seu peito um sentimento que floresce em calma e paz.

No ritmo quieto do crescimento silencioso das plantas, o homem cultiva em sua horta de ternuras a gratidão pela vida e o privilégio de ser dela uma pequena parte, um canto simples de beleza e alegria.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Recado a quem já se sentiu só

Arte: Edward Hopper
Recado a quem já se sentiu só
André. J. Gomes - "Revista Bula", setembro 2014

Uma hora, lá pelas tantas do dia, da noite, da vida, você vai sentir solidão. 
Acontece com toda gente. Do bebê mais intocado, chorando um instante de falta da mãe, ao velho mais rescaldado remoendo seus mortos, contando suas saudades em fila indiana, todos haveremos de nos sentir sós.

O casal na manhã de seu amor havia pouco sonhava uma cerimônia de casamento, escolhia convidados, mobiliava a casa imaginária, batizava seus filhos que ainda virão. 
Agora, ainda no caminho de suas primeiras esquinas de mãos juntas, um e outro também se sentem ridiculamente sós, cada um em seu canto de sofá, repassando em silêncio suas dúvidas e angústias irreveláveis.

Na família povoada de crianças, o cachorro de estimação é adorado por todos, tem a saúde cuidada por veterinários com doutorado, é banhado e penteado às terças por equipes especializadas e acolhido no coração de seus donos com alegria diária. 
Ainda assim, ele também se encolhe em seu canto nas horas quietas e envelhece no escuro sua existência de bicho só.

Depois das vozes e da música, dos risos e das juras de amor verbalizadas nas ondas de satisfação e ternura honesta de um dia alegre, quando restar mais nada além do som da geladeira na noite silenciosa, você há de se sentir só.

Olhando a pessoa amada que dorme ao seu lado, assistindo ao seu virar para lá e cá, as mãos aquecidas entre os travesseiros, os olhos sonhando sob a fidelidade muda das pálpebras, você também vai sentir solidão.

Na visão do campo de futebol de várzea deserto, que há pouco exalava na vizinhança um perfume de grama pisoteada pela alegria dos atletas de ocasião, um vizinho curioso e contemplativo, assistindo à vida pela janela, vai notar a si mesmo em profundo instante de solidão patética.

No cuidado com que a esposa limpa, lixa e pinta as próprias unhas, o marido calado também vai se sentir sozinho. E ela, cuidando de si mesma, amadurecendo sua inseguranças, amenizando seus medos no exercício de se fazer mais bela, também vai se saber criatura solitária.

É que solidão também se sente em casal, grupo, multidão. 
Quem é só também se percebe assim em família, time de futebol, casa cheia. 
Solidão é sentimento que repousa dentro da gente e acorda quando quer, pisando de salto duro pela casa, batendo as portas, arrastando a cômoda de madrugada, fazendo barulho.

Você está lá, cercado de gente, tomado de amor, envolvido em conversa animada e pronto. Um vazio estala num canto escondido aí dentro, um medo congela no peito, uma tristeza aparece do nada, como visita que não se espera. 
E você se torna triste como o terreno baldio entre dois prédios construídos há pouco, habitados por famílias novas, solteiros, estudantes famintos e suas festas. 
Você é agora nada senão um espaço vazio, esquecido, povoado de pedras e ilhas de mato crescendo lento, em que os incautos e insensíveis vêm despejar velhos sofás à noite e os bem resolvidos descartam seus entulhos e dão as costas.

Sentir solidão é escutar a chuva durante a noite, remoer a cólica que piora em momento insuspeitado. 
É precisar de um telefone sem sinal, encontrar fotografias revelando saudades, ouvir o silêncio que estoura os tímpanos e aperta o peito. 
O silêncio da espera dos próximos sons, dos risos vindouros, da conversa seguinte, das visitas novas.

Mas deixe estar. O instante de ser só é condição de quem está vivo. A toda gente da terra e do céu, o vento sopra de manhã, no topo das árvores que acordam com o dia, seu recado firme e urgente: todo mundo há de se sentir só.

E assim, solitários, cada um de nós e todos os nossos seremos como a pedra num sapato vazio: uma pura, honesta e simples manifestação de espera. 
A esperança da companhia que sempre volta. Aquela que assiste ao seu sono, que lhe dói e cura, que lhe falta e completa.

Porque há sempre um olhar carinhoso à sua busca, mirando ansioso a sua chegada com a alegria dos que acreditam, o frescor das histórias que começam e a ternura poderosa dos gestos simples de amor. 
O amor que nos acolhe, nos desperta e nos leva adiante, no movimento pleno e grandioso da vida.


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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Um dia estaremos... -

Porque um dia estaremos mais perto
 uns dos outros
André J. Gomes - "Revista Bula", agosto 2014

Um dia estaremos mais perto uns dos outros. Não importa quando e nem como. Mas nós seremos mais próximos do que somos hoje.

Nesse dia, estaremos para além de qualquer classificação superficial. 
Seremos mais que certos ou errados, pobres ou ricos, brancos ou pretos ou vermelhos e amarelos, homens ou mulheres, novos ou velhos. 
Mais que tudo isso, seremos simples pessoas mais próximas.

Ainda que distantes na geografia, guardaremos em nós a lembrança ou o desejo do encontro. E o encontro nada mais será que um pedido assentido e sincero de compreensão. 
Encontrar será a prática simples de pensar em alguém e querer nada senão compreendê-lo e aceitá-lo.

Viveremos perto o suficiente para nos vermos, nos ouvirmos e nos sentirmos ali. 
Próximos o bastante para dividir nossas alegrias e nossas dores, para seguir os caminhos de cada um sem nos perder de vista. Íntimos a ponto até de nos afastarmos quando preciso, em respeito à nossa necessidade humana da solidão que de quando em vez nos empurra para o claustro.

Entre tantas respostas e ponderações absolutas e julgamentos e certezas tão comuns desse mundo, estaremos juntos para nos fazer perguntas sem esperar respostas. 
Apenas nos perguntaremos coisas à toa, pelo puro e simples exercício de falar e ouvir. Mais ouvir do que falar.

Em longas conversas de manhã, sentados no sol de um banco de praça, nossos livros sobre o colo esperando atenção, relembraremos sem saudade os tempos frios em que nos tornamos duros estranhos. 
Riremos juntos de nossos ódios superados, nossas pendengas ridículas e desconfianças daninhas. 
E de tão boas, nossas conversas se estenderão sem pressa e sem culpa pela tarde e pela noite, até o mundo amanhecer de novo em cada dia seguinte.
Até lá, as histórias de uma gente que aprendeu a viver separada demais, uns contra os outros, fazendo do conjunto da vida uma imensa guerra campal, gritalhona e infértil serão nada além de velhas narrativas de barbárie e estupidez. 
Peças de um museu inexistente. Sombras de uma guerra em que os vencedores celebravam sua superioridade sem se dar conta de que, no fim do jogo, todas as peças sempre voltam para a caixa.

Então, façamos um trato. De hoje em diante, teremos um longo caminho rumo ao encontro. 
Assim, passo a passo, pisaremos novas ruas, tomaremos rumos desconhecidos e aprenderemos a compreender o óbvio: tudo o que nos acontece hoje são sinais de alerta. 
Alguém está a nos advertir que devíamos passar mais tempo juntos, ficar mais perto uns dos outros, tomar sol, apanhar vento, esperar a lua que se esconde por trás das nuvens.

Em todos os sentidos, de todas as formas, você e eu e todos nós seremos uma só vizinhança afetiva, moradores de um só quarteirão amoroso. 
Perto ou longe, não importa, seremos simples pessoas mais próximas, afeitas e dispostas a fazer da vida um longo e sincero gesto de amor ao outro.

É que um dia, se Deus quiser, estaremos mais perto uns dos outros.

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sábado, 9 de agosto de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Lá vem a vida...


Em memória do meu pai.

Lá vem a vida. Vem seguindo no passo manso das moças
André J. Gomes - 'Revista Bula". agosto 2014

E então meu pai, que andava sumido no tempo, deu as caras numa lembrança. 

Disseram lá e cá que ele andava com saudade de mim. 
Saiu voando por cima das casas, feliz e triste, apertando os olhos para ver se me via lá de cima. 

Ah… meu pai. Aí me deu saudade de você. Mas foi saudade alegre. 

Saudade da graça das suas piadas sem graça, do perfume barato da sua loção pós-barba, do seu jeito de ver a vida seguindo no passo manso das moças. Aquelas moças da cidade nossa. 
Deu saudade.

Ainda hoje, agorinha, olhei meu filho e vi você, meu pai. 

Ele não sabe, mas é igual ao avô no jeito de ler gibi, na forma de segurar o garfo, de calçar as meias, de descascar mexerica virando a cara para proteger os olhos.

A vida segue como quis você, no caminho atento da nossa gente. 

Passa o tempo e meu filho também envelhece. Vai se tornando um pequenino você, como eu mesmo levo no rumo dos dias a face endurecida de sol e sonho dos meus avós.

Seu neto cresce ligeiro, meu pai. Você precisa ver. Daqui a pouco será gente grande. 
É que a vida vai no passo manso das moças, mas até as moças de passo manso andam correndo de quando em vez, aqui e ali. 
Meu garoto cresce. É já um homenzinho. E mesmo quando a vida fizer dele um bruto de um homem, ele há de seguir menino em algum lugar.

Porque as crianças que sobrevivem em nós, aqui bem dentro, escondidas em nossos escombros internos, aproveitam quando estamos dormindo e se encontram por aí, em algum lugar. 

Passam juntas o tempo que dura os nossos sonhos, fazem brinquedo de nossos medos, pisam dançando nossos rancores como poças d´água na chuva. 
E assistem, sentadas na grama molhada, à vida seguindo no passo manso das moças.

Risonhas, as crianças que um dia fomos giram as tramelas das portas que escondem nossos choros presos, rompem os diques. 

Fazem sua arte e saem pulando alegria, caminhando vitoriosas na contramão da enxurrada de lágrimas libertas. 
Os meninos que fomos nós ainda fazem festa com os cachorros roliços de rabo cortado, se espantam com os trovões e os relâmpagos, os estalos espontâneos na madeira do telhado, os rojões da quermesse. 
Ainda têm medo de cara feia, cobra cega, escada alta, inseto que voa.

Aos poucos, nos tornamos velhos cheios de saudade e cabelos brancos. 

Mas as nossas crianças de dentro, meu pai, essas não envelhecem, não morrem, não vão. Elas vivem para sempre nos pequenos que virão, enquanto a vida continua em frente. Seguindo no passo manso das moças.

É, meu pai. Você e eu e todo mundo estamos condenados à graça da existência eterna. 

No riso franco e inocente do seu neto, voltam à vida os primeiros rebentos que habitaram o mundo, descobrindo a maldade e a beleza. 
Nos sonhos que já tem, meu menino encontra os pequenos que nós e todos os nossos antepassados um dia fomos. As crianças que ainda somos.

Assim seguimos em frente, descobrindo que a esperança é uma prática diária. 

De resto, por aqui tudo vai bem. 
É que hoje eu olhei meu filho e pensei em você, meu pai. E na sua lembrança revi minha cria com olhos novos de amor e saudade. 
Mirei mais adiante e vi uma moça em seu passo de quem vai tranquila, os olhos grandes, um sorriso de sol. 
Ela caminhava sozinha, trazendo o mundo a tiracolo numa pequenina bolsa de crochê. 
É a vida. 
A vida seguindo no passo manso das moças, chegando com a alegria divina das crianças que seremos para sempre.




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quinta-feira, 24 de julho de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Para Ariano Suassuna

Ariano Suassuna
Para Ariano Suassuna, um homem 
de ideias e sonhos
André J. Gomes - 'Revista Bula', 24 de julho 2014

Nesta terra da saúde que o cabra põe doente, onde morre tanta gente e a vileza nunca para, mulher apanha na cara e homem faz o que quer, um rei meio quixote, meio doutor, desceu da realeza pra ver de perto a pobreza, sentir toda a sua dor. E pra ajudar seu povo de um a um, tirou a coroa e saiu à toa, vestido de pessoa comum.

Andando pra todo lado, de jeito santo e letrado, o rei feito andarilho viu o mundo, desceu ao fundo, cada pai e cada filho e cada mãe, ouviu o velho, ouviu o novo com paciência, gente de toda idade, pra entender de verdade a querência de seu povo.

E de tudo o que ele via, dedicado em seu trajeto, o rei fez poesia de encantar o mais abjeto. Nessa vida da gente modesta, com o povo fez sua festa. Aprendeu de tudo que não imaginava, e no trono já nem pensava.

Os anos foram passando, e o rei foi aqui ficando. Trabalhava feito louco, fez de tudo um pouco. Fez livros, fez peças, fez gravuras, fez amigos e inimigos, fez afetos gentis e desafetos imbecis. Foi advogado de profissão, professor, acadêmico, usou fardão! Fez filhos? Não. Fez uma prole! Só não fez foi corpo mole, que a vida anda dureza e não assente mera esperteza.
Pra oferecer conhecimento, ele não tinha lugar e não tinha hora. E até Nossa Senhora, precisada de opinião, o rei daqui mandou chamar. Lá foi ele dessa feita, as mãos juntas em oração, perguntar à Mãe Perfeita, se lhe cabia colaboração.

Tenho cá umas pendências, coisa de todo dia, respondeu a Virgem Maria. E você, cheio de experiências, pode muito me ajudar.

Então o rei voltou à terra, dar adeus, até logo aos seus. Mas seguro, de olhar firme, garantiu: ninguém se avexe, viu? Isso não é partida. Vou ali com a Compadecida olhar de perto para os meus.

Juntou suas coisas, seus livros e lembranças num gibão, montou seu cavalo de olhar esverdeado e cavalgou enluarado, até depois da imensidão.

E você, boa gente, leve essa história à frente. Mas se alguém quiser saber, curioso, gritando “como foi? Conta pra mim!”, você responda simplesmente:

“Não sei. Só sei que foi assim”.

Para Ariano Vilar Suassuna, com a gratidão de sua gente.

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sexta-feira, 18 de julho de 2014

ANDRÉ J.GOMES - Viva João Ubaldo Ribeiro!

Viva João Ubaldo Ribeiro !
André J. Gomes - "Revista Bula", 18 de julho 2014

É que tem gente que deixa o mundo melhor, né? 
Tem gente que abre o riso e o tempo. No meio de tanta bobagem, tanto desgosto, tanto ranço, tanta empáfia, tem gente que faz a vida mais simples em toda a sua complexidade.

Tempos difíceis, os nossos. Já faz tempo que é assim. 
É que a gente aprendeu a levar o carro adiante no tranco. Aprendeu o ritmo louco das coisas, descobriu como faz pra seguir em frente quando sobe e quando desce.

É que tem gente que ajuda muito. Gente que ilumina, farol na praia selvagem, luz na picada estreita, fogo estalado no silêncio frio que vez ou outra toma a alma da gente.

Tem gente que inventa que a vida vai ser mais simples e mais bonita e interessante e ai dela se não for. 
Gente que transforma seu tempo em graça e inteligência só porque existe.

Gente que é força da natureza, que troveja quando fala, venta quando caminha e transforma quem o vê, quem o ouve e quem o sente.

Ah… mestre. Agora me dou conta de que dei seu nome ao meu filho. 
Não foi por sua causa, não. Mas é uma coincidência boa, dessas que você me ensinou a ver por aí. 
Agora percebo quantas vezes a sua risada me empurrou à frente, quanto do seu pensamento ora esclareceu o meu, ora bagunçou tudo, quantas brigas imaginárias contigo me fizeram mais safo. 
Quantas vezes eu senti vontade de ser você.

Obrigado, homem da ilha, baiano da gota. 
Viver é mais doce e mais bonito porque vira e mexe Deus manda gente como você fazer das suas aqui embaixo.

E, olha, tem tanta lembrança sua por aqui que a saudade que já existe quase não vai aporrinhar tanto. 
É que tem gente que nasce, vive e não morre nunca mais.

Viva o povo brasileiro. Viva João Ubaldo Ribeiro!


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