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quinta-feira, 19 de junho de 2014

PARABÉNS, CHICO BUARQUE!

Retrato em Branco e Preto
Chico Buarque - Tom Jobim

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração


*            *            *


Todo o Sentimento
Chico Buarque - Cristóvão Bastos

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

*            *            *

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

sábado, 7 de dezembro de 2013

Sobre CHICO BUARQUE - Luciana Chardelli

Foto

EU NÃO SOU SUA MENINA, VIU? MAS ADORO QUANDO ME ROÇAM A NUCA.
Luciana Chardelli - "Obvious", 07 de dezembro 2013

Adoro os olhos de Chico Buarque, mas não dou gritinhos quando os vejo, não vou a seus shows, nem compro seus CDs. 
Na verdade não sei se gosto de Chico Buarque, entretanto, não posso negar que Chico com suas letras pariu todas as mulheres em canto e em verso, inclusive a mim que já invejei Beatriz.

As mulheres dos versos de Chico pulsam, derramam leite. 
São mulheres que, amam, choram, gozam, têm um tufão nos quadris e cortam cebolas. 
Mulheres de Atenas, de Ipanema, do trem lotado, do asfalto, do morro carioca.

Já descobriram que Chico não é mulher, mas seu olhar, definitivamente, está inteiro sobre as mulheres, contrário fosse não conseguiria cantar em tons tão seus, dimensões absolutamente femininas.

De Beatriz a Yolanda, todas são um pouco Rosa. 
Atire o primeiro CD, Vinil ou Ipod aquela que nunca desejou, depois de noites mal dormidas, dizer ao pé do ouvido de quem um dia lhe disse adeus, a frase cortante: “Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você”. Aliás, esta é aquela frase que uma mulher não esquece e espera o tempo que for pra dizer, ainda que só possa ser dita para as amigas no lanche da tarde.

Chico sabe, e quem um dia amou sabe também que por vezes amamos devagar e urgentemente, como em uma despedida moto contínuo. Sabe que é preciso não dormir até se consumar o tempo. 
No embalo de tamanha delicadeza até quem não é sua menina cede a seus encantos.

Há algo de misterioso em Chico Buarque, essa condição de falar pelas mulheres e também pelos homens chama mais a atenção do que seus olhos. 
Com seu paletó, Chico, enlaça vestidos e despe delicadamente todas as mulheres. 
Com frases nascidas com a vocação de declarar, confessa como uma mulher arrebatada.

Chico me confunde. Eu realmente não sei se gosto de Chico Buarque. 
Sei que não preciso saber, mas fico um pouco afobada com esses descompassos, com esses despropósitos, digo para mim mesma: “Não se afobe não que nada é pra já”, mas acho bastante confuso não gostar gostando ou gostar não gostando. 
Não tenho nenhuma de suas músicas em meu carro, Ipod, Vitrola ou CD. Não vou a seus shows, não frequento o bloco Mulheres de Chico, mas sei cantar todas as suas músicas, as músicas de Chico todas as mulheres sabem cantar. 
A propósito sei que Chico nunca cantou meu nome. 
Pode ser que eu goste de Chico, não sei. Talvez eu goste muito de Chico. Gosto dos olhos de Chico, “na soma do seu olhar” gosto de Chico inteiro. 
Talvez eu até assuma no último momento “feito uma gema me desmilinguindo toda” que realmente gosto muito de Chico.

“Tantas palavras que ela gostava e repetia só por gostar”.

*            *            *
Foto
Agora, eu:
Eu gosto muuuuito do Chico compositor, do Chico letrista, do Chico intérprete;  não gosto muito do Chico cantor, do Chico escritor (embora tenha lido dois dos seus livros: "Estorvo" e "Leite derramado").
Não me interessam suas convicções políticas nem sua vida pessoal.
Gosto de ouvi-lo falar, sendo entrevistado, mesmo com aquela fala entrecortada, mesmo gaguejando, se enrolando todo, gosto de ouvi-lo.
Sim, eu gosto MUITO do Chico Buarque.

*            *            *

terça-feira, 6 de agosto de 2013

CHICO BUARQUE - "Gota D'Água"

Da página 'Obvious - Facebook
"Pode ser a Gota D'Água"


  Gota 5.jpg
“Eu transfiro pra vocês a nossa agonia porque, meu Pai, eu compreendi que o sofrimento de conviver com a tragédia todo dia é pior que a morte por envenenamento”

A tragédia está anunciada.

A tragédia é uma morte anunciada pelo vento.

A fome e a miséria, tragédias infelizes do cotidiano. As trocas desiguais e a ausência de renda, uma anunciação do fim. 
É assim que a vida de Joana e de seus dois filhos têm fim na peça do paraibano Paulo Ponte em parceria com Chico Buarque, escrita e encenada em 1975, pela grande Bibi Ferreira.

Entre a dureza da vida, que como um rolo compressor vai desfazendo os sonhos da sociedade e as tentativas de viver um mundo melhor, Joana nos avisa: “qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’ água”, e assim ela traça, com arame, sangue e veneno, um destino cruel, mas que só não é mais dilacerante do que a triste sina de viver as microtragédias diárias dessa terra de ninguém chamada Brasil.

Os atos de desencantamento pelo mundo e o entristecimento de perceber que nem o amor, por mais puro que seja, sobrevive quando a desgraça bate à sua porta, fazem Joana repensar a sua estadia no mundo. 
É assim que, com delicadeza de quem parece ser uma mulher, Chico Buarque nos expõe a fragilidade da troca e da traição perpetradas por Jasão, esposo de Joana na dolorosa “Gota d’água”.

Não há do que se refazer quando se nasce com o compromisso de morrer. A frase pode ser dura, mas é nesse cenário, real e fatídico que muitas senhoras, mães de família, “sobre vivem” em nosso país. Joana é um exemplo teatral de uma realidade que convence pelo nível de sinceridade e aproximação. Que mulher é essa que tem que se perder para se encontrar? Que tem que se descobrir para se desencobrir?

Quando pensamos em Joana, também pensamos em “Angélica”, mãe do Stuart, que “mora na escuridão do mar”. 
Preso e torturado pela ditadura, teve seu corpo lançado ao mar, como em desova. Pensamos no pedaço de cada uma de nós, quando ela nos fala “que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Ser mulher nessa sociedade é saber “perder” o tempo inteiro. 
Perde-se um filho, perde-se a dignidade na violência, perde-se o respeito na passada de mão dentro do ônibus. É sempre perder. Perder a jovialidade. Perder o próprio nome, quando nos tornamos “mãe de alguém”. Perder sangue todo mês. As vezes, perder de gozar. Perde-se o encanto pela vida quando a vida não mais encanta.

Mais do que ninguém, Chico, enquanto poeta e, por isso, mulher, nos fala tão alto sobre nossa natureza e nossos caminhos de pedra. 
Ele sabe e entende o trajeto da perda: ser mulher o tempo inteiro, na multidão, nos compromissos, nas torturas do dia a dia, na ausência e na saudade é delirar de dor intermitentemente.


*            *            *

quarta-feira, 10 de julho de 2013

CHICO E VINÍCIUS

Uma preciosidade, um 'achado' da página "A louca da biblioteca", no Facebook.


DE VINÍCIUS DE MORAES PARA CHICO BUARQUE

Chiquérrimo,

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Holanda] morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11.

Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.

Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes, o cara de fora vê melhor essas coisas.
Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar…
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar…
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.





DE CHICO BUARQUE PARA VINÍCIUS DE MORAES

Caro poeta,

Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o “Apesar de você”. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

“Valsa hippie” é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. “Valsa hippie” ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. 
Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. 
A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie”. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.

“Convidou-a pra rodar” eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens.

Vamos lá:

Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo) (*), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. 
Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. 
E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

Ainda baseado no argumento acima, prefiro o “abraçar” ao “bailar”. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. 
Agora, estou pensando em retomar uma ideia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o “em-e” numa sílaba só. Que é o mesmo problema do “começaram-a”. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos. 
Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente.

Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando.

Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que deu bolo com o “Apesar de você”, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a “Tonga”, mas a “Banda” vendeu mais que o disco do Toquinho solando “Primavera”. 
Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. 
Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.




(*) Referência aos versos de Orestes Barbosa em "minha vida era um palco iluminado / eu vivia vestido de dourado..."
*               *               *

terça-feira, 25 de junho de 2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

ROSISKA E CHICO - Rosiska Darcy de Oliveira


Um tempo sem nome
Rosiska Darcy de Oliveira, em O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade.  Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.
**
Essa Pequena
Chico Buarque

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

*            *            *

sexta-feira, 15 de março de 2013

CHICO BUARQUE - Retrato em branco e preto

Retrato em branco e preto
Chico Buarque - Tom Jobim

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DRUMMOND e A Banda


Notas sobre A banda
Carlos Drummond de Andrade
 
O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. 
Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. 

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. 

E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

In:  Correio da Manhã, 14/10/66


*            *            *

quinta-feira, 26 de julho de 2012

CHICO BUARQUE - Soneto

Soneto
Chico Buarque de Holanda

Por que me descobriste no abandono?
Com que tortura me arrancaste um beijo?
Por que me incendiaste de desejo
quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo?
De que romance antigo me roubaste?
Com que raio de luz me iluminaste
quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida
e me indicaste o mar, com que navio?
e me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio?
Com que direito me ensinaste a vida
quando eu estava bem, morta de frio?

*            *            *

CHICO BUARQUE/CRISTÓVÃO BASTOS - VERÔNICA SABINO - Todo sentimento

segunda-feira, 12 de março de 2012

UM TEMPO SEM NOME - Rosiska de Oliveira


 Essa Pequena
Chico Buarque

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
**

Um tempo sem nome
Rosiska Darcy de Oliveira, Jornal O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.
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sábado, 14 de janeiro de 2012

CARTA DE VINÍCIUS PARA CHICO BUARQUE

Detalhe do recorte de jornal, com a carta
Carta de Vinícius de Moraes para Chico Buarque, publicada na coluna Roda Viva de Nelson Motta, no jornal Última Hora.

Finalzinho de 1968. Nelson Motta, 24 anos, assinava coluna diária no Jornal Ultima Hora. Roda viva era o nome, o mesmo da música de Chico Buarque, que tinha a mesma idade de Nelson, compusera no ano anterior. Em dezembro, ele publicou uma carta de Vinicius de Moraes, 55 anos, que fazia shows em Lisboa com Baden Powell e a cantora Márcia, para Chico Buarque. Vinicius, que se diz em lua-de-mel com Cristina Gurjão, sua sexta mulher, se delicia com o “falar” dos lusos, dá conselhos ao futuro papai Chico e conta um papo com Tom Jobim de Las Vegas e fala sobre a curva descendente dos festivais de música no Brasil: “estão se transformando em verdadeiras partidas de futebol – eu por exemplo, enquanto eles estiverem assim, não mais participarei, pois detesto todo gênero de competição”.

Antes de publicar a carta, Nelson Motta faz uma introdução sobre o sucesso dos "shows recitais" de Vinicius em Lisboa, no Teatro Villaret e na boate Ad Lib e diz que “Vinicius iniciou esse seu show com uma carta a Chico Buarque de Holanda seu amigo de todas as horas”. Logo abaixo vem a carta com data de 13 de dezembro. Atenção na data: é a da decretação do AI-5. A temporada, conta José Castelo na bio O Poeta da Paixão, começou dia 11 e no show do tal dia 13, antes de encerrar com Canto de Ossanha, Vinicius fez um discurso inflamado, e leu seu poema Pátria Minha, o que lhe causou problemas com a ditadura salarazista que reinava no País.

Abaixo, a carta de Vinicius para Chico.

Lisboa, sexta-feira, 13 dezembro

Chico querido:

Pois, pois. Aqui estamos nós, Márcia, Baden e eu, num dos teatros mais prestigiosos de Lisboa, o Villaret, para fazer um showzinho de música e poesia também, como gostamos de apresentar – bem informal, em comunicação bem íntima com as pessoas. As pessoas, pelo que pude notar, são lindas de morrer. Mas não há perigo. Cristina está presente, e nossa lua-de-mel corre mais doce que ovos moles d’Aveiro. Você já provou ovos moles d´Aveiro, Chico? É de comer em prantos. Melhor que isso só mulher, isto é, Cristina. Pena eu estar em dieta de emagrecimento. Mas felizmente não estou em dieta de Cristina.

E você, Chiquinho, como vai essa gravidez? O “miúdo” já está a se revelar um novo Pelé no ventre paterno, aos pontapés, ou tem tendências abstratas, como os poetas novos, aos quais ninguém ouve? Diga a Marietinha que não se preocupe não, porque tudo vai correr muito bem para você. Faça respiração de cachorrinho durante as contrações, como manda o método Lamase, e você não vai sentir dor alguma – ouviu, papai inchado? E por falar nisso, “miúdo” aqui é o equivalente de menino. E trem é comboio. E alô é tá. É engraçado e bonito. E quando uma pessoa é muito bacana, caindo de bossa, diz-se que tem piada, que é giro. Você aqui teria muita piada, seria “girérrimo”.

Ontem, consegui falar com o nosso querido maestro Antônio Carlos Jobim em Las Vegas, onde ele está com o Frank Sinatra, trabalhando num novo disco. Pois imagina que disse só assim à telefonista internacional – “olha aqui, minha filha, eu preciso muito falar com o maestro Tom Jobim nos Estados Unidos, sei que ele está gravando com o Frank Sinatra. Me podia fazer o favor de caçá-lo para mim?” E dez minutos depois ouvi a voz de Tom que me perguntava: “Onde está você?” E eu respondi: “Em Lisboa”. E ele disse: “Que coisa boa!” E eu lhe perguntei: – E eu lhe pergunto: – E você onde está?” E ele retrucou: “Estou em Las Vegas” E eu: “Ai não me pegas”.
E ele falou: “Que estás fazendo?” E eu respondi: “Um show com o Baden e a Marcinha”. E ele, com um profundo suspiro intercontinental: “Ah, que coisinha!” E meu parceiro sabe o que diz!
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Fiquei contente em saber que você tirou o primeiro lugar no júri popular do IV Festival da Record. Eu acho que os festivais brasileiros estão se transformando em verdadeiras partidas de futebol – eu por exemplo, enquanto eles estiverem assim, não mais participarei, pois detesto todo gênero de competição. Mas gostei de conhecer o Eusébio, com quem bati um papo ameno, depois do jogo entre o Benfica e o CUF. Você sabe, Chico, que Cristina é torcedora do Flamengo tão violenta que embora nós tivessemos sido convidados para o jogo pelo CUF, em recinto privado, ela teve o topete de agitar uma flâmula do Benfica, que é o correspondente português do Flamengo, e torcer por sua vitória? Eu confesso que tive medo que os dirigentes do CUF nos chutassem para “córner”.

Estou contente porque vamos passar o Natal juntos em Roma e tomar um porre firme e cantar juntos e dar muitos “manguitos” (que é o correspondente de banana) para as estátuas dos imperadores romanos. Foi em Roma que eu conheci você menino, e você, seu safadinho, enquanto eu bebia com seu pai, ficava no alto da escada, no meio da madrugada, só para nos ouvir cantar.
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Marcinha chegou hoje. Agora nós vamos começar nosso “show” naquela base simples de amor e comunicação como você, Baden e eu gostamos de fazer – e Marcinha de interpretar. O que nos motiva é o amor. Não é o amor que move o Sol e outras estréias, como disse Dante Aligheri?

Outro dia minha mulher riu-se muito quando eu lhe disse que o amor cura o câncer. E cura mesmo! E não é outra a razão porque Márcia veio de São Paulo, Baden de Paris e eu do Rio, para esta comunicação linda e indispensável à nossa vida de artistas. E ao levar a vocês nossa poesia e nossas canções, nós o fazemos – insisto mais uma vez em dizê-lo – só por amor. Só amor.


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In: "Coisas  de Ledesma".

sexta-feira, 15 de julho de 2011

THAÍS GULIN e CHICO BUARQUE - Se eu soubesse

CHICO:BASTIDORES - Imagens da gravação do novo CD de Chico Buarque

SINCRONICIDADE

de volta...

Pois é... este blog tem pouquíssimo tempo, se pensarmos em quanto representam um ano ou dois em relação ao que se cria em termos de tecnologia e tudo o mais. Lembro-me de que postei alguns trechos de canções de Chico Buarque - de quem continuo fã - lamentando sua ausência da música por tão longo período (arquivo Língua de Trapo - 06/04/11). Depois, recebi por e-mail aquela 'carta do vizinho' (arquivo Língua Afiada - 30/06/11) criticando-o pelo envolvimento com o PT, e, mais recentemente, o episódio em que algumas pessoas - ah, o anonimato na Internet...- ofendiam o compositor chamando-o 'velho bêbado' e ele aparece comentando, com um riso nervoso, em como se iludira pensando que o artista fosse sempre amado. Assisti ao vídeo e fiquei pensando na pequenez de certas pessoas que têm como diversão achincalhar os outros e tentar diminuir o valor de talentos consagrados. Verdade que a Internet facilita o abuso das agressões verbais, mas mesmo antes de tanta tecnologia, sempre houve, sim, gente que gosta de confrontar as preferências musicais e artísticas destilando um desprezo e um ódio incabíveis em qualquer debate inteligente sobre essas escolhas. Acho tudo isso uma pobreza de espírito.

Bem, fiz esse pequeno comentário para trazer a boa notícia que li nos jornais de hoje. Aí está uma delas:

15/07/2011 - 07h35
Chico Buarque faz música de sua literatura em novo álbum
FERNANDO DE BARROS E SILVA - COLUNISTA DA FOLHA DE S.PAULO

O narrador de "Querido Diário", música de abertura do CD "Chico", pode ser visto como um desajustado social, um tipo que não se encaixa direito em lugar nenhum.
"Há algo de incômodo nesse personagem, talvez ele pertença mais ao mundo da literatura que ao da música popular, a exemplo do narrador de 'Estorvo'. De certa forma, me identifico com tipos assim", diz Chico Buarque.
Ao mesmo tempo, explica, "a melodia da canção é aparentemente bastante simples, ingênua quase, o que provoca uma estranheza que julgo interessante".
Nada disso é óbvio a quem ouve essa canção pela primeira vez. E a sensação de estranhamento vai acompanhar boa parte das dez canções que compõem o disco. Dificilmente uma delas vai estourar ou tocar no rádio.
Ao aproximar desse "Querido Diário" o personagem remoto e sem nome do romance que publicou em 1991, pela Companhia das Letras, Chico evidencia um dos traços de seu novo trabalho musical: ele está impregnado por sua obra literária.
Isso aparece de forma bem mais explícita em "Barafunda", a penúltima das músicas: "É, não é/ Era Zizinho era Pelé/ Aliás, Soraia era Anabela/ Era amarela a saia/ Foi quando a verde-e-rosa saiu campeã/ Cantando Cartola ao romper da manhã".
Essa voz que recorda e confunde tudo (amores, história, futebol) pode evocar "Pelas Tabelas", samba de 1984, mas é sobretudo irmã gêmea da fala de Eulálio, o centenário narrador de "Leite Derramado" (2009), perdido entre lembranças e delírios, realidade e imaginação.
Mas este não é um Eulálio que resmunga e lamenta, e sim que exulta e celebra a vida, o que reforça e reitera a tensão (ou o contraponto) na obra madura de Chico entre o mundo sem escapes da literatura e a promessa de felicidade (ou de reconciliação) inscrita na sua música.
A mesma tensão está presente em "Sinhá", afro-samba em parceria com João Bosco, momento alto do álbum. Amarrado ao tronco, o negro suplica (em tom menor) para não ter os olhos furados pelo senhor de engenho.
Ele jura não ter visto "sinhá" nua no açude. Na última estrofe, a voz muda e um outro narrador, agora em tom maior, revela ser o "cantor atormentado/ Herdeiro sarará/ Do nome e do renome/ De um feroz senhor de engenho/ E das mandingas de um escravo/ Que no engenho enfeitiçou sinhá".
O tema do descendente mestiço da classe dominante, que em "Leite Derramado" recebe tratamento humorístico, aqui aparece num longo gemido-lamento e eco da herança escravocrata.


VELHICE E AMOR
Mas Chico, 67, também é personagem de suas canções. O romance entre o homem mais velho e a mulher mais nova é o que inspira o blues "Essa Pequena". "Meu tempo é curto, o tempo dela sobra/ Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora."
Desde os primeiros versos, impossível não imaginar que a canção dramatiza, com leveza e ironia, o namoro entre o autor e a cantora Thais Gulin. Ambos dividem ainda a voz em "Se Eu Soubesse".
A mesma brincadeira com o amor tardio ou extemporâneo volta em "Tipo um Baião": "Não sei pra que/ Outra história de amor a essa hora/ Porém você/ Diz que está tipo a fim/ De se jogar de cara num romance assim".
"Chico" é um disco em que o herdeiro e continuador da tradição de Tom Jobim rende homenagem ao escritor que ele também é. E é o testemunho de um homem em estado de graça, apaixonado.
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