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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A João Guimarães Rosa - Maureen Bisilliat

Da página "Prosa, Verso e Arte"

Fotógrafa inglesa MAUREEN BISILLIAT homenageia Guimarães Rosa

A JOÃO GUIMARÃES ROSA
– Maureen Bisilliat (IMS – Séries | 24.9.2013)


Voltas no tempo ‘A João Guimarães Rosa’

Tudo começou em 1963, quando ganhei de um amigo um exemplar de 'Grande sertão: Veredas', de Guimarães Rosa – não sem a observação de que talvez não conseguisse compreender a linguagem especialíssima do autor. 
Não só compreendi como mergulhei nas águas daquele mar de palavras – o sertão não viraria mar? -, inspirada e instigada a investigar a relação direta de Rosa com os gerais de Minas Gerais. 
Assim, durante os anos 60 viajei por essas terras seguindo um roteiro sugerido pelo autor, iniciando pelas raízes – Curvelo, Cordisburgo, Andrequicé -, subindo pelo tronco da árvore, expandindo pelos galhos, até chegar em Januária, no norte de Minas. Desloquei-me para lá e, ao voltar de cada viagem, ia visitar o escritor, então chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty. Levava, a cada encontro, um calhamaço de fotografias captadas nas terras do autor de Sagarana e, atrás de cada uma, ele anotava detalhes – nome, idade, solteiro, casado ou viúvo, lugar de encontro, como e quando etc. -, recebendo através das imagens mensagens dos gerais. 
No final de nossas reuniões, ele sempre me acompanhava até o elevador e me desejava uma boa próxima viagem, dizendo estar certo de que eu, como irlandesa, iria compreender os eflúvios poéticos dos gerais, devido à semelhança entre aquela região e a Irlanda (“Irlandesa Cigana” foi, aliás, como ele me apelidou, teria ele entrevisto alguma ancestralidade cigana nos meus cabelos longos, roupas amplas, sandálias no pé?).

Anos depois desses nossos encontros, fui visitar sua viúva, Dona Aracy, no prédio onde eles tinham morado em Copacabana, Posto 6. 
Lá, ela me levou até uma pequena sala, entre os rochedos e o mar, e contou que fora ali que Rosa escrevera seu Grande sertão. “Noite após noite”, confidenciou-me, “eu levava para ele duas ou três trocas de pijama, pois enquanto escrevia transpirava muito, banhando-se em suor. Ele me dizia que recebia a obra assoprada, sendo ele apenas receptor”.
**

Andrequicé, 1966
Porta de entrada para os gerais de Guimarães, companheiro de viagem de Manuelzão – Manuel Nardi, vaqueiro-mor, personagem central de uma das novelas de 'Corpo de Baile': 

Comecei a conhecer os sertões por suas veredas. Iniciei minha busca seguindo de ônibus para Minas, parando primeiro em Cordisburgo, lugar de nascimento do autor, prosseguindo rumo ao norte e chegando em Andrequicé, povoado pequeno, pouso na rota das boiadas pelos sertões. 
Ao chegar, o sol se escondendo no horizonte, acerquei-me de um pequeno boteco e, após me apresentar como alguém em busca dos rastros de Guimarães, fui acolhida com uma boa notícia: “A moça está com sorte, pois não é que chegou agorinha mesmo o Manuelzão do Rosa, vindo direto da fazenda para uma celebração de crisma em Andrequicé!” Sim, o próprio Manuel Nardi, inspirador do conto “Manuelzão e Miguilim”, publicado em 1956, como parte do livro 'Corpo de baile': um bom augúrio para a busca planejada!

Indaguei acerca de um lugar para pernoitar e o moço do boteco me levou à casa de uma velha senhora que me recebeu com a acolhida espontânea e ampla dos que pouco têm, mas muito oferecem: ovo frito, saborosa farofa e um café mineiro, doce, perfumado e ralo, daqueles que descem como água benta apaziguando a sede!

Dormi com a candeia acesa, a esteira no chão. Acordei cedo, o sol despontando no horizonte, no friozinho da madrugada. E lá estava ele, Manuelzão, sombra esguia na parede caiada, chapéu de abas firmes, capa de feltro azul, rosto de couro curtido, olhar de águia me aguardando sem prosa, pronto para o retrato que viria a ser – para mim e para muitos – emblemático da estirpe rija dos gerais de Guimarães. 
De repente, me olhando a esmo, deparei com a figura de um homem – um vaqueiro, talvez? Pedi licença para tirar o seu retrato. Sisudo e cismado, ele não quis me atender. Satisfeita com a sorte, feliz da vida, com Manuelzão na máquina, passei o dia fotografando boiadas na poeira do campo. No fim do dia, de volta para Andrequicé, avistei a figura do homem, lá me esperando, calmo e quieto, no aguardo de seu retrato: era isso que ele queria ter. 
Acontece que de manhã, quando me viu pela primeira vez, ficou com medo. Por ser cigano achou que eu era da polícia e estava lá para prendê-lo. Era isso, então. Como os romas da França de Sarkozy, os ciganos dos gerais também são malvistos, estigmatizados como gatunos e ladrões de cavalos, vítimas de velhos preconceitos encravados na contramão da história, levando a guerras e desentendimentos entre nações.

*            *            *


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Guimarães Rosa poeta -livro 'Magma'

Lunático
Guimarães Rosa - em 'Magma'

Resultado de imagem para janela estrelada

Vou abrir minha janela sobre a noite.
E já bem noite, a lua,
alta a um terço do seu arco,
terá de deslizar pelo meu quarto adentro,
e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,
quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,
sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,
que levam à região dos desabrigos…
Sonharei com mares muito brancos,
de águas finas, como um ar dos cimos,
onde o meu corpo sobrenada solto,
por entre nelumbos que passam boiando…
Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,
cantando no alto sempre o mesmo canto,
como a sereia do sempre mais alto…
E a janela se fecha, prendendo aqui dentro
o raio suave que prendia a lua…
Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,
onde remoinham as formas inacabadas,
onde vêm morrer as almas, afogadas,
e onde os deuses se olham como num espelho.

*            *             *
– João Guimarães Rosa, do livro “Magma”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 64.

sábado, 19 de novembro de 2016

Rosa e Graciliano

Um gênio reprovado
Dois contos escritos por um jovem Guimarães Rosa – e criticados em concurso por Graciliano Ramos – serão finalmente oferecidos ao público
MARCELO BORTOLOTI - Revista 'Época'

ALVO DE CRÍTICA Guimarães Rosa  (à esq.) e Graciliano Ramos (acima). O primeiro modificou seu livro devido aos comentários do segundo (Foto: Eugênio Silva/O Cruzeiro/EM/D.A e arq. O Cruzeiro/EM/D.A Press. Brasil)
 Guimarães Rosa  (à esq.) e Graciliano Ramos (detalhe). 
O primeiro modificou seu livro devido aos comentários do segundo 
(Foto: Eugênio Silva - revista O Cruzeiro/

ALVO DE CRÍTICA

As obras do escritor alagoano Graciliano Ramos e do mineiro João Guimarães Rosa têm pouco em comum. Seus estilos são antagônicos. O primeiro é árido, contido, realista. O segundo, prolixo, místico, quase barroco. 
Os escritores também tiveram pouco contato. Isso não impediu que Graciliano, autor do clássico Vidas secas, alterasse os rumos da carreira de Guimarães Rosa.

Homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) , Graciliano (1892-1953) foi jurado de um concurso literário da editora José Olympio, em 1938. 
Um dos candidatos era o livro Contos, assinado por Viator. 
Por trás do pseudônimo, estava Guimarães Rosa (1908-1967), até ali um desconhecido médico mineiro. 
Graciliano achou seu conteúdo desigual, com alguns contos excelentes e outros “ordinários”. Convenceu o júri a não agraciar a obra com o prêmio. 
A vitória ficou nas mãos de Luís Jardim e seu livro Maria Perigosa, obra desconhecida e absolutamente apagada na história da literatura brasileira. 
Quando o livro de Rosa finalmente chegou ao público, oito anos depois, com o nome de Sagarana, estava mais enxuto, sem três contos da versão inicial. 
Eram justamente os contos que Graciliano criticara. 
Rosa chegou a reescrever um deles, publicado posteriormente. Os outros dois, até hoje inéditos, estão preservados no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP). 
ÉPOCA submeteu os dois contos a três críticos literários para avaliar a opinião de Graciliano. 
Os textos serão publicados neste ano, num portal que a editora Nova Fronteira prepara sobre Guimarães Rosa.

O júri de 1938 reunia cinco escritores. Na ocasião, Graciliano explicou sua posição: “Votei contra esse livro de Viator. Votei porque dois dos seus contos me pareceram bastante ordinários. (...) Esses dois contos e algumas páginas campanudas, entre elas uma que cheira a propaganda de soro antiofídico, me deram arrepio”. 
Rosa não era exatamente um novato. Anos antes, publicara na revista O Cruzeiro contos de suspense, se aventurara pela poesia e escrevera o livro Magma, que não publicou enquanto vivo. 
Somente com Sagarana, iniciado aos 29 anos, encontrou seu estilo. 
Eram contos passados no interior de Minas Gerais, que dialogavam com a literatura e a filosofia clássicas. 
Após o concurso, Viator desapareceu sem revelar sua identidade. 
Aos pais, falava do carinho que tinha por esse primeiro livro. “Era o favorito do meu pai, porque era o primeiro e porque foi um sobrevivente”, diz a filha de Rosa, Vilma Guimarães Rosa.

Como funcionário do Itamaraty, Rosa foi trabalhar no consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha. 
Os originais de Sagarana ficaram no Brasil com sua primeira mulher, Lygia. 
Ela tentou levá-los à Alemanha, mas, com a Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro proibiu que mulheres e filhos de diplomatas viajassem. 
Numa noite de 1941, Rosa estava em Hamburgo e acordou com vontade de fumar. Não tinha cigarros em casa. Foi até a loja da esquina, quando soou o alarme alertando para um ataque aéreo iminente. Rosa conseguiu correr para um abrigo, onde passou a madrugada. 
Ao amanhecer, viu que seu prédio fora bombardeado. Ele fora salvo por causa do cigarro, e Sagarana, caso estivesse no apartamento, teria sido destruído. “Meu pai adquiriu, a partir desse incidente, um sentimento místico que influenciou sua obra”, diz Vilma. 

No final de 1944, Rosa conheceu Graciliano Ramos. 
Revelou ser o autor derrotado no concurso e não demonstrou ressentimentos. 
Em 1946, lançou Sagarana. Acatou as sugestões de Graciliano e suprimiu os contos Bicho mau, Questões de família e Uma história de amor. 
O primeiro, que narra o caso de um fazendeiro picado por uma cobra venenosa, foi praticamente reescrito e entrou no livro póstumo Estas estórias. Os outros dois permaneceram inéditos.

Os críticos que leram os contos a pedido de ÉPOCA se dividem. 
“Gostei muito. Graciliano foi severo demais em sua avaliação”, diz Eduardo Coutinho, professor da UFRJ. “Você já encontra uma reflexão filosófica sobre o amor. E a maneira de trabalhar a linguagem é extraordinária.” 
João Adolfo Hansen, da USP, especialista na obra de Rosa, concorda parcialmente com Graciliano: “O conto do médico (Uma história de amor), acho ruim. Mas talvez Graciliano tenha exagerado em relação ao outro”. 
Neste, o namoro, que nunca progride, de um rapaz da capital com uma jovem do interior retrata o conservadorismo do Brasil rural do princípio do século XX. “Graciliano era sintético e direto, talvez achasse aquilo uma frescura. Mas é uma tradução de costumes típicos do interior.” Hansen reconhece em ambos os textos um excesso de termos técnicos de mineralogia e medicina. 
Outra especialista na obra de Rosa, Maria Célia Leonel, da Unesp, diz que os dois textos não têm a mesma elaboração da narrativa e profundidade das outras histórias de Sagarana. “Ele sempre diz alguma outra coisa por trás das histórias que conta. Aqui, parece que ficou tudo na superfície.”

Graciliano morreu em 1953 e não pôde ler outro livro de Rosa. Deixou uma profecia sobre o colega: “Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando meus ossos começarem a esfarelar-se”. 
Exatamente em 1956, Rosa lançou seu único romance, Grande Sertão: veredas. 
Com ele, foi alçado ao primeiro escalão da literatura mundial, de onde nunca mais saiu.

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sábado, 10 de setembro de 2016

Por que ler Guimarães Rosa? - Miquéias Sartorelli

Por que ler Guimarães Rosa?
Miquéias Sartorelli -  Ensaio em 'Homo Literatus'

Sobre como a leitura das obras de Guimarães Rosa auxilia a reconhecer as diferenças do outro

“O que mais vou escrever além do Veredas? Já sei.”


A educação básica e, sobretudo, os cursinhos pré-vestibulares têm uma categoria curiosa para enquadrar Guimarães Rosa na história da literatura. Para eles, o escritor mineiro pertence à terceira geração do nosso modernismo. No entanto, esse rótulo não diz quase nada relevante sobre seus traços norteadores ou suas contribuições para a ficção brasileira. 
Aliás, quanto mais avançamos no sentido temporal das escolas literárias, mais as nomenclaturas dão sinal de clara insuficiência.

O que interessa aqui, contudo, não é debater os limites e malefícios desse modo particular – infelizmente soberano – de apresentar a literatura nas escolas, mas sim fazer um sobrevoo mais rente a dois aspectos desse autor imprescindível para a cultura brasileira: o aspecto fabulista e o aspecto regionalista.

Quem procurar pela bibliografia de Guimarães Rosa talvez possa se enganar no que diz respeito ao volume de sua produção. 
São apenas cinco livros publicados em vida e três póstumos. Estreia com Sagarana, em 1946, reaparece dez anos depois com Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas e termina, na década de 1960, com Primeiras Estórias e Tutaméia. 
Após a morte, são editados Estas Estórias, Ave, Palavra e Magma, sendo os dois últimos procurados, em larga medida, mais por pesquisadores que por leitores não especializados.

Essa aproximada meia dúzia de obras, entretanto, enfeixa um extraordinário número de narrativas, causos, estórias, contos e enredos. 
Assim, tudo se sagaranamultiplica, prolifera-se. Ao contrário de muitos escritores e escritoras que parecem, a cada livro lançado, gravitar sempre em torno de semelhante entrecho, 
Rosa é prolífico em criar renovadas situações e personagens.

Sua espantosa capacidade de fabulação nos leva ao primeiro ponto de interrogação que consideraremos, pois crucial no campo da estética e incontornável para cada pessoa que se proponha a escrever: é possível ainda contar histórias?

O filósofo alemão Theodor Adorno, em ensaio fundamental sobre a posição do narrador no romance, afirma que não, em especial se a intenção for continuar sob as mesmas roupagens do século XIX. Ressalta a impossibilidade de narrar depois do abalo que as grandes guerras provocaram na sensibilidade humana. 
Decorreria desse impacto terrível um deslizamento da antiga figura do contador de aventuras para a fragmentação e dispersão do modo de expor os dados da experiência, incapaz agora de ordenar os acontecimentos e coisas do mundo.

Nesse sentido, não é estranho que ele defenderá as vanguardas, expressões dessa ruptura com o modelo narrativo tradicional que remonta, em última instância, à oralidade. 
A posição do frankfurtiano, no limite, cristaliza ideias que estão no cerne das grandes questões da modernidade.

Ora, Grande Sertão: Veredas, por exemplo, é uma resposta formidável a esse impasse. 
Sem apostar em realismos, algo também combatido veementemente por Adorno, o livro é um rico painel de histórias. Vale registrar que Riobaldo, protagonista do romance, não deixa de sublinhar a arbitrariedade que conduz sua fala, o distorcimento dos fatos pela memória, ao longo do envolvente relato de sua vida; no entanto e igualmente, não se furta ao ato de narrar. 
Em resumo, a perspectiva desfigurada se faz sentir também na obra, mas com outros propósitos. 
No lugar de plasmar cruamente um mundo desencantado, investe na tentativa de reencantá-lo com histórias e momentos poéticos. Não que tal resposta seja a solução, o único caminho possível, mas representa uma alternativa.

A título de comparação, tomemos o caso da poesia concreta, movimento cosmopolita sintonizado com o que havia de mais moderno e radical no panorama literário contemporâneo a Rosa. Arquitetada sobre princípios de veredasdesintegração de linguagem/comunicabilidade, autorreferência e autonomia da obra de arte e capitaneada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e pelo não menos importante Décio Pignatari, a poesia concreta pouco se interessava em contar algo ou investir em conteúdo, a preocupação era entusiasticamente formal.

Guimarães Rosa percorre, como observamos, vias diferentes. 
Além disso, inscreve-se numa tendência regionalista que, embora dominante nos anos 1930, já sinalizava certo esgotamento naquela conjuntura marcada pelo desenvolvimentismo.

Fator decisivo para nosso segundo ponto de interrogação: é possível ainda ser regionalista?

Nome destacado nos estudos rosianos, Walnice Nogueira Galvão, compreende o lugar de Rosa na literatura brasileira como uma síntese de duas vertentes literárias: o já citado filão regionalista e a linha espiritualista. 
Em razão disso, conciliaria descrição da vida sertaneja e especulação metafísica. 
O autor mostraria que o mais papudo dos catrumanos dos rincões do Brasil pode aspirar à transcendência, mesmo sendo iletrado. Visão bem distinta de uma abordagem que representa o pobre como tipo social, sem qualquer densidade psicológica.

Um dado importante de frisar é que a ficção introspectiva, herdeira do romance católico francês, é algo relativamente novo, enquanto a prosa ao rés-do-chão, comprometida com a pesquisa geográfica e social, é velha companheira das letras nacionais. Esteve presente desde os cronistas coloniais, passando pelos subprodutos indianistas e sertanistas do romantismo. 
Mais adiante, ganha novo sopro com autores naturalistas e chega ao limiar do modernismo paulista. Nos anos 1930, dá um grande salto de qualidade nas mãos de um Graciliano Ramos ou uma Rachel de Queiroz, em especial porque coincide com a formação de um mercado editorial e com a ampliação de um público leitor. 
Nesse contexto, o papel do livreiro José Olympio é decisivo.

Isso tudo faz com que a vertente regionalista seja um programa estético dominante entre nós, mas que em fins da década 1940 sofra, por outro lado, sua contrapartida mais incisiva: o processo de urbanização.

Vidas Secas (1938) e O Quinze (1930), para citar os títulos consagrados dos nomes acima elencados, tratam da diáspora nordestina. Mas o que vem depois? E quando parte significativa da população das zonas rurais já se deslocou para as cidades, como São Paulo ou Brasília?

Talvez possamos nos valer de uma equação entre os mundos rural e urbano: quanto mais incorporada e diluída a cultura dos interiores do país pela modernização, mais o projeto literário regionalista arrefece. Daí a sensação de enfraquecimento desse modelo.

No entanto, contrariando todas as expectativas, Guimarães Rosa aparece com suas obras na esteira regionalista e prova que ainda é possível retirar desse universo uma ficção de inconteste qualidade.

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fecho”, define Riobaldo já nas primeiras páginas de Grande Sertão. 
Não são apenas os seres que têm profundidade psicológica, mas o próprio lugar. 
O sertão é vasto como os meandros da alma humana, é onde começa e termina, grosso modo, toda a obra de Rosa. Sertão de Minas, dos Gerais, menos árido e de rios gigantescos como o São Francisco.

É nesse espaço geográfico e simbólico, sertanejo e místico, que o autor situa também suas estórias (para usar o termo com que ele insistia em designar os próprios contos), narrativas estas do calibre de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, “Desenredo”, “Sorôco, sua Mãe, sua Filha” e “A Terceira Margem do Rio”.

Diferentemente da síntese algo horizontal de tendências sugerida por Walnice, o que se observa é um movimento vertical. 
O autor supera o filão regionalista menos pela fusão de tradições opostas do que por uma investida por dentro da vertente. 
Sua observação crava-se tão agudamente na realidade que atinge o âmago de questões primordiais (a morte, o amor, a existência ou não do diabo, a ambiguidade dos seres, o sentido da vida, etc.), e não tópicos estritamente regionais. 
Paradoxalmente, quando a literatura cola no real, ela se libera como ficção de alto nível. O que indica que Guimarães Rosa não abandona propriamente o regionalismo, mas sim dá a ele dignidade, mostrando-nos que é de rumos improváveis que surgem grandes obras.

Nesses termos, as regiões afastadas dos grandes centros e as pessoas pobres não são, por isso, menos encantadoras ou cruéis. 
São, na verdade, tão complexas e inconstantes quanto os homens e mulheres letradas – leitores e leitoras de literatura.

É justamente em função desse olhar respeitoso e livre de um ranço de superioridade que Rosa rompe o pitoresco, fazendo-nos enxergar e reconhecer, pela leitura, as diferenças do outro. Identificando, ainda assim, o lastro comum de humanidade entre um jagunço e um doutor da cidade, como em Grande Sertão, numa conversa que tem muito a nos revelar e emocionar.

Para concluir, convém notar que esses dois aspectos são, por um lado, exemplares de que talvez, em última análise, “nunca” seja uma das palavras que não rima com arte, território no qual é sempre possível ir além. 
Por outro, são instigantes convites para ler Guimarães Rosa e se deliciar com as histórias sempre cativantes de seus sertanejos.


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quinta-feira, 23 de junho de 2016

60 anos de "Grande Sertão: Veredas"


Em comemoração aos 60 anos de “Grande Sertão: Veredas”
Elenízia Bernardes -  junho 19, 2016 - Revista Pazes


Grande Sertão: Veredas
Origem: Brasil
Safra: 1956

Características: Denso, intenso. Arrebatador! Sua força – ora brutal ora suave – vulnerabiliza-nos, quase lírica. Encorpada. Frutada. Harmônica. Plena. Rubra… Nua! 
Não por acaso, alguns críticos consideram-na uma das mais belas obras já produzidas pela literatura lusófona. 
Rosa destila-nos nas veias a fantástica saga de Riobaldo, jagunço que, em meio às pelejas do sertão, apaixona-se por um dos cangaceiros de seu bando. 
Diadorim tem “a cintura fina, as pestanas compridas, os olhos moços, a boca melhor bem feita”.

Neste cenário de lutas e amores, quer pela habilidade do autor em descrever minúcias quer por sua impressionante capacidade de síntese, o livro nos traga de um só gole. Transporta-nos para os sertões que nos habitam, a despeito da memória, em áridos rastros da vida que ali se insinua. Trôpega de violenta espera. Vítima de amor e poesia.

Recomendações: Como todo bom vinho, “Grande Sertão: Veredas” foi feito para ser sorvido lentamente, em locais calmos, sob luz suave e afetuosa.

Abaixo delicadas doses. Evoé!



Sobre Deus e o Diabo:
“Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.”

“(…) o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro. Ah, uma beleza de traiçoeiro– dá gosto! A força dele, quando quer –moço! –me dá o medo pavor. Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho –assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

“Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja.”

“Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele.”

“O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem.”

“Olhe, o que devia de haver era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições grandes, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!”

Sobre o Sertão:
“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”
“O sertão é do tamanho do mundo”.

“Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo”.
“O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa…”

Sobre o Amor:
“Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d’água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr.”

“O amor só mente para dizer maior verdade.”

“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou…”

“E amor é isso: o que bem-quer e mal faz?”

“(…) mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.”

“Eu sei: quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade…”

“(…)o ódio – é a gente querendo lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente.”
“Acho que, às vezes, é até com a ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. (…) Coração mistura amores. Tudo cabe.”

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“Amor vem de amor.”

“E digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhum eu nunca tive vontade de rir dele.”

Sobre a Vida:
“Vivendo, se aprende: mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”

“A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes…”

“Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente.”

“Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente. Esta vida é grande.”

“’Vida’ é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia.”

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação –porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.”

“Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.”

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e daí desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

“Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…”

Sobre o Destino: 
“Quem muito se evita, muito se convive.”

“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais –a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!”

“O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!”




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terça-feira, 24 de maio de 2016

60 anos de "Grande Sertão: Veredas"

2016: 60 anos de Grande Sertão: Veredas, 
de João Guimarães Rosa



1956-2016: 60 anos da obra Grande Sertão:Veredas, lançado em maio de 1956, é o único romance escrito por João Guimarães Rosa, publicado no mesmo ano da obra "Corpo de Baile".

E nele há de tudo como afirma o professor e crítico literário Antônio Cândido: "Grande sertão: veredas é desses livros inesgotáveis, que podem ser lidos como se fossem uma porção de coisas: romance de aventuras, análise da paixão amorosa, retrato original do sertão brasileiro, invenção de um espaço quase mítico, chamada à realidade, fuga da realidade, reflexão sobre o destino do homem, expressão de angústia metafísica, movimento imponderável de carretilha entre real e fantástico e assim por diante."

Grande Sertão: Veredas obra-prima, traduzida para muitas línguas, é uma narrativa em que a experiência de vida e de texto fundem-se numa obra fascinante, permanentemente desafiadora. 
O romance constrói-se como uma longa narrativa oral. 

Riobaldo, um velho fazendeiro, ex-jagunço, conta sua experiência de vida a um interlocutor, que jamais tem a palavra e cuja fala é apenas sugerida. 
Conta histórias de vingança, seus amores, perseguições, lutas pelos sertão de Minas, Goiás, e sul da Bahia, tudo isso entremeado de reflexões. 

 “Conhecê-lo assim como ler e reler suas obras, foi um dos grandes privilégios de minha vida. Quem tem hábito de leitura e ainda não leu Guimarães Rosa não sabe o que está perdendo.”
- José Mindlin – Bibliófilo, in: Revista da Cultura nº 12 - julho 2008.
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ALGUNS AFORISMOS EM "GRANDE SERTÃO: VEREDAS"

"O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo." 


"De qualquer pano de mato, de de-entre quase cada encostar de duas folhas, saíam em giro as todas as cores de borboletas. Como não se viu, aqui se vê. Porque, nos gerais, a mesma raça de borboletas, que em outras partes é trivial regular – cá cresce, vira muito maior, e com mais brilho, se sabe; acho que é do seco do ar, do limpo, desta luz enorme. Beiras nascentes do Urucuia, ali o povi canta altinho."


"Calados. Me alembro, ah. Os sapos. Sapo tirava saco de sua voz, vozes de osga, idosas. Eu olhava para a beira do rego. A ramagem toda do agrião – o senhor conhece – às horas dá de si uma luz, nessas escuridões: folha a folha, um fosforém – agrião acende de si, feito eletricidade. E eu tinha medo. Medo em alma."


"E nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do mundo. Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?" 


“Noite é p’ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no usável...”


“Vender sua própria alma... Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal."


“Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.”


João Guimarães Rosa entre os Vaqueiros em Expedição pelo
Sertão das Gerais - foto Eugênio Silva - Revista 'O Cruzeiro'  1952.

RELEMBRANDO ALGUMAS CRÍTICAS A OBRA

"A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e o nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico - tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional, para fazê-lo exprimir os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório, e na verdade, o Sertão é o Mundo.”
- Antônio Cândido

"A raridade com que se entremostra nas seiscentas páginas de Grande Sertão: Veredas valoriza a presença do mar como símbolo cujo sentido não se revela claramente, mas que roça com um largo sopro de poesia trechos de grande intensidade emocional.Romance de rios, romance de afluentes espraiados no sertão, sem saída para o oceano, o mar nele aparece como o grande desconhecido, mistério que se associa à morte, à eternidade, ao fim de tudo, quando a vida deságua no infinito."
- Manoel Cavalcante Proença

"Tenho medo de tentar comparações. Não direi, por isso, que a obra de Guimarães Rosa é a maior da literatura brasileira de todos os tempos. Direi porém que nenhuma outra, de nenhum escritor, me deu até hoje, entre brasileiros, a mesma ideia de tratar-se de criação absolutamente genial."
- Sérgio Buarque de Hollanda

"Guimarães Rosa é épico, em tom maior, caudaloso rio como o São Francisco, amplo painel que trata de temas míticos, místicos e metafísicos que atravessam a literatura desde sempre."
- Affonso Romano de Sant’Anna em entrevista ao IHU On-Line/Unisinos.

"A aliteração é um dos recursos poéticos mais importantes empregados por Guimarães Rosa [...] Ela se estende desde a simples reduplicação de um fonema ou uma sílaba até a repetição de vocábulos ou expressões inteiros (qual e qual) e serve geralmente ao propósito de reforçar o conteúdo expressional através da criação de uma atmosfera sugestiva."
- Eduardo Faria Coutinho, 1968.
Guimarães Rosa, por Felipe Stetani 
(desenho de 2016)
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sagarana - 70 anos

Carta de G.Rosa conta segredos de Sagarana

A obra 'Sagarana', de João Guimarães Rosa completa,  em 2016, 70 anos.

Carta enviada por Guimarães Rosa ao amigo e também autor João Condé, onde faz relatos inéditos sobre a obra.
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"Prezado João Condé,

Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível — o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.

Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé.

Assim, pois, em 1937 — um dia, outro dia, outro dia... — quando chegou a hora de o Sagarana ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nele poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo.

Tinha de pensar, igualmente, na palavra “arte”, em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente.

Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E — sendo meu — uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto.

Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições — no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe. 

Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Éluard: ...“o peixe avança nágua, como um dedo numa luva”... Um ideal: precisão, micromilimétrica.

E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma.

Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!

Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores.

Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.

Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir.

Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, “revendo” paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã.

O livro foi escrito — quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas — em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento.

(Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945, foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).

Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos” (título provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.



Como já disse, as histórias eram doze: 

I) — O burrinho pedrês — Peça não profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.

II) — A volta do marido pródigo — A menos “pensada” das novelas do Sagarana, a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945.

III) — Duelo — Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a história foi meditada e “vivida”, durante um mês, para ser escrita em uma semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.

IV) — Sarapalha — Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.

V) — Questões de família — História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, malrealizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída.

VI) — (Uma história de amor — Um belo tema, que não consegui desenvolver razoavelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior).

VII) — Minha gente — Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.

VIII) — Conversa de bois — Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, neste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enredo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) — também com carro, bois, carreiro e guia — totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esqueci da outra, da anterior. Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão pré-histórica, que fora definitivamente sacrificada.

IX) — Bicho mau — Deixou de figurar no Sagarana, porque não tem parentesco profundo com as nove histórias deste, com as quais se amadrinhara, apenas, por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.

X) — Corpo fechado — Talvez seja a minha predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais conviveu “Humanamente” comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existência. Assim, viveu ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que não aproveitei no papel, porque não tinham valor de parábolas, não “transcendiam”.

XI) — São Marcos — Demorada para escrever, pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.

XII) — A hora e vez de Augusto Matraga — História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, não falarei sobre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.

Por ora, Condé, aqui está o que eu pude relembrar, acerca do Sagarana. Se você quiser, eu poderei contar, mais tarde —, num exemplar da 2ª edição — algumas passagens históricas, ocorridas entre o dia 31 de dezembro de 1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora Universal. Serve?

Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa"
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Fonte: 'Caderno Prosa, Poesia e Arte' -  Portal vermelho

domingo, 22 de novembro de 2015

Sobre a escrita - Guimarães Rosa



Em entrevista ao escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. 

Guimarães Rosa — Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Por­tugal. 
Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. 
Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. 

Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. 

E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber­nardo Gomes de Brito e publicados em 1735). 
Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” es­tão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me se­para dos portugueses.
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Guimarães Rosa — Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva.

Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo.

Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. 
Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. 
Escrever, para mim, é como um ato religioso.

Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. 
Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. 
Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. 
A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.
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sábado, 26 de setembro de 2015

Guimarães Rosa e o pai


Correspondência inédita de Guimarães Rosa mostra a influência do pai em sua obra

Obra recebeu influência de seu pai, Florduardo, matuto e contador de casos

MARCELO BORTOLOTI - Revista "Época", 25/09/2015 - 08h00 

No princípio do século passado, Florduardo Pinto Rosa era o dono de um armazém em Cordisburgo, interior de Minas Gerais. Vendia de arroz e feijão a aguardente e querosene. 
O comércio abastecia os tropeiros que passavam pela região. 
Atrás do balcão, Seu Fulô, como era conhecido, colecionava as histórias dos viajantes. 
Além de comerciante, foi vereador e juiz de paz, celebrou casamentos e mediou conflitos. 
Dono de uma coleção de espingardas, regularmente saía para caçadas. 
Conhecia muito bem a região e seus tipos humanos. 
Teve seis filhos e pretendia que o armazém ficasse sob os cuidados do primogênito, João Guimarães Rosa.

Logo cedo, no entanto, o garoto mostrou aptidão para o estudo. 
Aos 9 anos mudou-se para Belo Horizonte, onde foi estudar e morar com o avô, Luis Guimarães, médico e escritor. Abandonou de vez Cordisburgo e o sonho do pai em torná-lo comerciante. 
O jovem João passou a mirar a figura erudita do avô e se afastou da trajetória do pai, matuto e contador de histórias. 
Formou-se em medicina, aprendeu línguas e tornou-se diplomata. 
Morou no Rio de Janeiro, depois na Alemanha e na França. 
Tornou-se extremamente culto. Falava francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, esperanto e russo. 


 Guimarães Rosa,  escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

Aos 38 anos, João publicou seu primeiro livro de contos, Sagarana. 
A obra era uma reaproximação com o universo do pai, o interior que o diplomata deixara para trás. 
A partir daí, consagrou-se produzindo uma literatura intimamente conectada ao ambiente que o velho Florduardo conhecia tão bem. E passou a se corresponder intensamente com o pai. 

Guimarães Rosa escrevia de longe e tinha pouca intimidade com o sertão que aparece o tempo todo em sua obra. Fez apenas duas viagens pela região e precisava de informantes como Seu Fulô. 
A correspondência dos dois, arquivada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), mostra a bonita relação de um escritor erudito com o pai comerciante que ajudou a construir uma das mais importantes obras da literatura brasileira.

As cartas do escritor para o pai foram publicadas no livro Relembramentos, de Vilma Guimarães Rosa, filha do autor. 
Os textos de Florduardo permanecem inéditos no arquivo do instituto. É um interessante passeio por histórias do interior mineiro. 

Apesar dos problemas de pontuação e erros de português, Florduardo tinha um estilo muito próprio, engraçado e atraente de escrever. 
Encaixava uma história dentro da outra, numa técnica que foi recuperada por seu filho. 
Em 1962, Guimarães Rosa escreveu para a mãe: “Gosto muito do jeito dele escrever, de dar notícia de todos. Fico pensando que a minha ‘bossa’ de escritor eu herdei dele, que maneja a pena com tanta facilidade, personalidade, vivacidade e graça”.

Florduardo enviava com receio os textos para o filho já consagrado. 
Em 1947, um ano após a publicação de Sagarana, escreveu: “Fico com vergonha de te mandar estas tolices que eu escrevo sempre à noite quando me falta o sono, e que talvez você nem compreenda a minha letra e o mal escrito”. 
Mas, diante da insistência do filho, mandava regularmente novas histórias. “Tenho que escrever, não conferir o que escrevi e te mandar logo, pois do contrário eu desanimo e rasgo tudo como já tenho feito muitas vezes”, disse, em 1954.

Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

Guimarães Rosa lhe pedia histórias de crimes, de personagens curiosos de Cordisburgo, detalhes do trabalho na roça, da fala do povo, do comércio na cidade, das caçadas, dos hábitos dos animais e dos tipos de planta. 
Embora sua obra fosse ficcional, os informes ajudavam a compor o cenário. 
Os pedidos se intensificaram no começo dos anos 1950, quando Guimarães Rosa escrevia simultaneamente seus dois livros mais importantes: Corpo de baile e o romance Grande sertão: veredas. “Preciso de explorar mais o senhor, que a mina é ótima”, afirmou para o pai.

Para seus livros, Guimarães Rosa trabalhava como um escritor-pesquisador. 
Reuniu milhares de páginas com anotações das duas viagens que fez pelo sertão, trechos de livros de filósofos e escritores clássicos, recortes de jornal, guias de botânica e agricultura. 
Num caderno específico, transcreveu trechos inteiros das cartas de Florduardo. 
“Ele reunia tudo e fazia uma reelaboração da realidade em sua ficção, a marca de todo grande artista”, diz a professora Sandra Vasconcelos, curadora do acervo do escritor na USP. 

Todas as cartas enviadas por Florduardo têm anotações e grifos do filho. “Aos poucos, serão, todas elas, aproveitadas nos meus livros”, escreveu o escritor ao pai. 
Em julho de 1956, ele enviou a Florduardo um volume do recém-lançado Corpo de baile, com uma carta. Nela, refere-se às contribuições do velho: “Como o senhor não deixará de ter notado, ele está cheio de coisas que o senhor me forneceu naquelas cartas e notas, extremamente valiosas para mim”.

Encontrar a mão de Florduardo nos livros do filho não é um trabalho simples. 
Como João reelaborava os textos e unia mais de uma referência na mesma passagem, a relação não é óbvia. 
Vilma Guimarães Rosa diz que partiu de uma história do avô, de uma pessoa real que viveu perto de Cordisburgo, a inspiração para a personagem Diadorim, de Grande sertão: veredas. 
Mas nos estudos de Guimarães Rosa também aparecem anotações sobre o mito da donzela guerreira, a mulher que se veste de homem para guerrear, recorrente em várias culturas. 
O “causo” de Florduardo pode ter se somado à referência clássica. “Meu avô era um grande contador de história. Quando meu pai recebia uma carta dele em Paris era uma festa. Líamos em voz alta e comentávamos”, diz Vilma.

O uso mais direto das informações de Florduardo aparece nas descrições de lugares, plantas e tipos humanos. 
O pai forneceu o nome da folha-miúda, planta cujo galho é usado em Grande sertão: veredas para os jagunços assarem carne no espeto. 
Da correspondência surgiram nomes de personagens como Sia Cota, do conto “Buriti”, e Juca Saturnino, do conto “O recado do morro” – que inclui também um frade chamado Florduardo. 
Tipos reais de Cordisburgo ajudaram na composição dos personagens fictícios de Guimarães Rosa. 
A contadora de histórias Dona Geromina, que o pai descreve numa das cartas, parece muito Joana Xaviel, de Uma estória de amor, também de Corpo de baile. 
A professora da PUC-Rio Marília Rothier, especialista no autor, identifica ainda a relação entre a descrição do Tio Inocêncio e o comportamento do personagem Catraz, do conto “O recado do morro”.

A maioria dos causos que Florduardo contou nas cartas, no entanto, permaneceu inédita. 
Num deles, o pai descreve um costume de famílias pobres da zona rural de Cordisburgo, ao transportar seus mortos para o cemitério. 
Os corpos eram colocados em redes suspensas por uma vara que duas pessoas carregavam. O cortejo até a cidade era regado a cachaça. Mas, se o fardo parecesse pesado demais, dizia-se que o morto estava com “pesar de caminhar para a sepultura”. 
Colocava-se o cadáver no chão e todos davam nele uma surra de vara. Depois da catarse, a família prosseguia, acreditando ter deixado o cadáver mais leve. 
Por vezes, Florduardo era incumbido de organizar um enterro para alguma família que morava longe. Providenciava velas, caixão, padre e atestado de óbito. Como, na época, muitos passavam a vida descalços, Seu Fulô também arrumava sapatos. Buscava em seus estoques calçados encalhados ou fora de moda. Cunhou-se um jargão na região para designar os sapatos fora de uso, o “sapato de defunto”.

Apesar do desejo de aproveitar as anotações do pai em livros futuros, Guimarães Rosa morreu de forma súbita aos 59 anos. 
Florduardo vinha lutando contra um câncer na laringe. Morreu três meses depois de perder o filho.



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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Conto "O Duelo" - Guimarães Rosa

Do site "Arte Médica" , de Renata Calheiros Viana - espetacular!

Cardiopatia Reumática em Conto de Guimarães Rosa



Uma apetitosa aula de insuficiência cardíaca congestiva conseguinte a cardiopatia adquirida da febre reumática é encontrada no conto O Duelo (Sagarana), de Guimarães Rosa. 


A cardiopatia reumática crônica (CRC) é uma complicação da faringoamigdalite causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A e decorre de resposta imune tardia a esta infecção em populações geneticamente predispostas. A febre reumática afeta especialmente crianças e adultos jovens. O acometimento cardíaco é caracterizado pela pancardite, entretanto são as lesões valvares as responsáveis pela síndrome e prognóstico.

[...] porque o Cassiano Gomes não dera baixa da polícia à toa, e sim excluído pela junta médica; e, apesar do seu garboso aspecto, não lhe prestava para muito o coração.

Não é à toa, porém, que um cavaleiro, excluído das armas por causa de más válvulas e maus orifícios cardíacos, se extenua em raids tão penosos, na trilha da guerra sem perdão.

O personagem roseano Cassiano Gomes, dispensado do exército devido às "más válvulas e maus orifícios cardíacos", teria o coração acometido pela cardiopatia reumática, evoluindo mais tarde para um quadro de insuficiência cardíaca congestiva: 

Pois foi lá que Cassiano Gomes teve o seu desarranjo, com a insuficiência mitral em franca descompensação. Desceram-no do cavalo e deram-lhe hospitalidade.

A lesão mitral descrita por Rosa corrobora com o diagnóstico de febre reumática, sendo esta valva a mais frequentemente acometida na doença. 

Cassiano, perseguindo por vingança Turíbio Todo durante longas cavalgadas, manifesta o edema em membros inferiores e a dispneia aos esforços característica da insuficiência cardíaca congestiva:

Cassiano sentiu que, agora, ao menor esforço, nele montava a canseira. E, do meio dia para a tarde, não podia mais ficar calçado, porque os tornozelos começavam a inchar.
Foi ao boticário e pediu franqueza. – Franqueza mesmo, mesmo, seu Cassiano? O senhor... Bem, se isso incha de tarde e não incha nos olhos, mas só nas pernas, é mau sinal... - Pra morrer logo? - Assim sem ser ligeiro... Lá pra o São-João do ano que vem...Mas já indo empiorando um pouco, aí por volta do Natal.

Mas não pode dar mais de três passos: cambaleou e teve de sentar-se à porta do cafua; e foi ali sentado que passou a passar todo o tempo, dia pós dia, com o peito encostado nos joelhos e, por via dos hábitos, com a winchester transversalmente no colo e a parabellum ao alcance da mão.

A posição “tronco elevado” assumida pelo personagem, evitando a horizontalização do corpo, aliviaria a dispneia pela melhora da capacidade respiratória. O edema, devido a gravidade, fica mais pronunciado nos pés, acometendo menos a face. 

E ele foi para um Jirau, com a barriga de hidrópico e a respiração difícil de um cachorro veadeiro que volta da caça. [...] Em volta dos lábios laivos azulados, e a doença lhe esgarçava o coração.

A cianose (“lábios lavios azulados”, a dispneia em repouso (“respiração difícil de um cachorro veadeiro”) bem como a ascite ("barriga de um hidrópico") faz parte do quadro terminal da insuficiência cardíaca. 

A poética descrição clínica da doença exala a essência médica no escritor Guimarães Rosa que, mesmo após abandonar o exercício da medicina, conserva a sensibilidade diagnóstica tão viva quanto suas personagens.
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Postado por Renata Calheiros Viana às 16:03 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O SERTÃO VAI VIRAR MUNDO - Marco Antonio Cruz

Da página "Obvious"  em 08 de abril 2014

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O sertão vai virar mundo
Marco Antonio Cruz

Quando “Grande Sertão: Veredas” foi publicado em 1956, não demorou para que a crítica o aclamasse como a grande obra que é. 
Sua narrativa e estilo único fizeram do livro um dos romances mais importantes da literatura brasileira, talvez de toda a língua portuguesa. 

Seguindo a influência modernista, seu texto imprime uma marca inventiva tanto em forma como enredo. 
A personagem Riobaldo narra os fantásticos episódios de sua vida a um interlocutor sem nome, um doutor da cidade de passagem pelos “Gerais”.
As histórias de amor e guerra, deus e diabo, vão se derramando com a imprecisão e falta de linearidade típicas de quem rememora, num monólogo de 500 páginas que mantêm a fluidez e musicalidade a cada linha.

O texto escrito guarda muito da expressão oral do relato. 
Permeado por particularidades linguísticas da região sertaneja, o regionalismo da fala de Riobaldo colore a narrativa. 
Neologismos de toda sorte (conhecenças e duvidações desenormes!) e também arcaísmos que resgatam o que há de mais antigo no português medieval, fazem da obra um tesouro do idioma.

A sintaxe singular do livro, suas construções frasais entre poesia e prosa, quase filosóficas, levaram muitos críticos a dizer que Guimarães Rosa havia inventado uma nova língua. 
O choque do leitor, não deve ser muito diferente do que o doutor da cidade experimenta ao ouvir o relato de Riobaldo, e faz parte da atmosfera do livro. 
É um conflito de dialetos, suas influências geográficas e temporais. Tendo a compartilhar a opinião do poeta Manuel Bandeira, que em carta ao amigo escreve:

“Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. 
Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. 
Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! 
A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. (…) Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: ‘ciriri dos grilos’, ‘gugo da juriti’ etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é ‘arga’, ‘suscenso’, ‘lugugem’ e um desadôro de outras vozes dos gerais. 
Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será? 
Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta.”

Lemos Guimarães Rosa em português como quem aprende uma língua estrangeira, prestando atenção aos sons e ao que se diz no subtexto. 
É a redescoberta da língua-mãe. 
Guimarães Rosa era um alquimista da língua. 
Além de falar o português e as principais línguas europeias, como o alemão, inglês, francês, também lia italiano, o servo-croata, sueco e russo, além de estudar por prazer a gramática de diversas outras línguas como o persa, chinês, japonês, hindi, húngaro, malaio.

Em carta a João Condé, 1946, escreve que “cada língua guarda em si uma verdade interior que não pode ser traduzida.” 
Este esclarecimento possibilitou a Guimarães Rosa escrever o livro intraduzível. 
É verdade que Grande Sertão: Veredas possui inúmeras traduções, algumas delas acompanhadas de perto e aprovadas pelo autor, mas sempre incompletas e decididamente pobres perto do original.

A pior delas talvez seja a versão em língua inglesa “The devil pay in the backlands” de 1963. 
É difícil transportar os malabarismos sintáticos do livro para o inglês, idioma mais enxuto. Excessivamente acadêmica e literal o fracasso desta versão foi tão contundente que não houve outra tradução desde então. 
Sem novas edições, mesmo seus sofríveis exemplares são caros e raros. 
Guimarães Rosa permanece, até hoje, na penumbra para os leitores de língua inglesa. 

Porém, novas tentativas de tradução tem sido articuladas pelos herdeiros do escritor. 
Após muitos escritores anglófonos alegarem falta de tempo ou mesmo capacidade para transportar o romance para o idioma, desde 2013 uma nova tradução está em curso. Até ela ficar pronta, esforços anônimos como o do pesquisador Felipe Wood Martinez, geram iniciativas como a tradução do romance feita pelo Twitter, 140 caracteres por vez, acessível pelo perfil (@___VIATOR___).

Mas o que perdem os gringos ao deixar de ler uma história escrita em português intraduzível sobre o idiossincrático interior do Brasil?

A grande virada de Guimarães Rosa é que o escritor desvendou, entre os regionalismos intrincados de sua obra, algo de universal e cosmopolita no sertão brasileiro. 
Muito além de digressões literárias, os “desvarios” de Riobaldo no sertão são o centro da trama. Suas reflexões existencialistas sobre o sentido da vida e o fatalismo da morte, a existência ambivalente de deus e do diabo, as muitas faces do amor e as veredas do mundo, são as mesmas de todos os homens, de qualquer parte. 
O sertão, de cenário, torna-se aos poucos o personagem principal, o mundo. E o mundo é um só para todos. 

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena.”

“O sertão é do tamanho do mundo.” 

“Sertão é dentro da gente.” 

“O sertão é sem lugar.”

“O sertão está em toda parte.”

“O sertão é uma espera enorme.”  

“O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa.”

É por isto que este sertão mundo é acessível de qualquer lugar. 



Guimarães Rosa escreveu seu grande sertão na metrópole parisiense, rememorando, à maneira de Riobaldo. 
Dizia à filha: “O sertão, Vilminha, é metafísico. Eu galopo nele as minhas histórias.” 
E neste sentido escreveu que “Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac… porque o Sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde o interior e o exterior não podem mais estar separados.”

Com um romance regional, porém universal. Universal, porém intraduzível. Intraduzível, mas ainda cosmopolita — Guimarães Rosa revelou que o sertão vai virar mundo, basta que o mundo saiba traduzir-se e virar sertão. 
Mas para nós, seus companheiros de língua, deixou a porta aberta:

“…o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. (…) Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.”


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