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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"1984", de George Orwel

A questão da liberdade em "1984", 
de George Orwell
Luiz Antonio Ribeiro - na página 'Notaterapia'


Em qualquer lugar, quando o termo “distópico” é mencionado, é praticamente impossível não suscitar o nome do autor e jornalista britânico George Orwell. 
Não à toa, o termo orwelliano se tornou uma palavra com significado além da referência ao autor, mas um termo valioso quando a liberdade é, de alguma forma, ameaçada ou prejudicada pelo uso da supervisão incessante, constante alteração de fatos ou negação da verdade. 
Em sua obra prima, “1984”, George Orwell conseguiu, de forma magistral, colocar a discussão sobre liberdade em voga por gerações e gerações de leitores.

Em “1984”, seguimos o dia-a-dia de Winston Smith, um operário do governo responsável por retroativamente alterar as notícias de forma que o Estado, representado pela figura do Grande Irmão, sempre esteja como provedora absoluta de todas as boas coisas na sociedade. Sociedade esta da Pista de Aterrissagem Número 1, que para nós, leitores, nada mais é do que a ilha da Grã-Bretanha e a Irlanda. 
O mundo está mergulhado em guerras perenes entre três superpotências – Oceania, Eurásia e Lestásia, com inimigos e aliados mudando constantemente de posicionamento de acordo com a conveniência. E, a cada mudança, os fatos são modificados (de maneira irônica, até) pelo Ministério da Verdade.
Após a leitura da obra de George Orwell, a sensação de desespero e impotência é avassaladora. A construção da distopia é feita de uma forma que faz o leitor questionar todas as pequenas liberdades das quais ele desfruta diariamente – e que nunca considerou o real valor até encontrar uma alternativa tão cruel. Sabe quando falta luz na sua casa e aí você dá o valor à energia elétrica? É tipo isso. 
Em toda virada de página, encontramos uma nova tinta para essa realidade distópica. A esmagadora vida a serviço do Partido, as sutilezas da novilíngua, a língua desenvolvida pelo governo de forma a diminuir palavras já existentes, reduzindo seus significados e, lentamente, restringindo a capacidade de pensamento da população. Se não conseguem pensar em algo, é porque este algo não existe.

Inevitavelmente, “1984” faz com que o debate sobre liberdade surja naturalmente na cabeça do leitor. Mais assustador do que a ideia de um Partido único que observa tudo e todos vinte e quatro horas por dia, é de fato enxergar essa opressão nos pequenos atos cotidianos. 
A teletela, uma televisão cujo observador é também observado, priva o morador de quaisquer liberalidades domésticas. 
O prazer carnal não existe – o único intuito do ato é a procriação; qualquer prazer é inibido e tudo, absolutamente tudo que é feito é em nome do Grande Irmão.
Caminhar pelas ruas de Londres, que, para nós, afastados da realidade distópica de George Orwell, pode ser uma das atividades mais prazerosas em uma das cidades turísticas mais visitadas do mundo, se torna uma marcha para a agonia; a incapacidade de pensamento e a castração intelectual da população da Oceania estão presentes com peso em cada parágrafo.

Poderíamos tratar com mais carinho do enredo, da aventura do protagonista Winston Smith – que, no início da obra, se vê questionando as mesmas coisas que nós, leitores, questionamos. Entretanto, a leitura de “1984” é tão rica na sua ambientação que o mero comentário sobre o universo criado por Orwell é suficiente para sufocar – e instigar os que nunca leram – os curiosos. 

O Estado totalitário descrito em “1984”, uma vez lida a obra, se torna quase uma personagem. Quaisquer decisões de aumento de vigilância no mundo real suscitam o debate interno entre liberdade, privacidade e até que ponto nós estamos dispostos a aceitar que tenhamos a vida privada de alguma forma vigiada. 
Ao descrever um Estado sem quaisquer liberdades de absoluta opressão, George Orwell fez com que todos dessem valor à liberdade e à privacidade.

*            *            *


domingo, 13 de novembro de 2016

Um conto de fadas - análise Junguiana

Rumpelstiltskin 
Hellen Reis Mourão -  agosto de 2016



Rumpelstiltskin ou Rumpelstilsequim é o personagem homônimo e principal antagonista de um conto de fadas original na Alemanha. 
Este conto foi coletado pelos Irmãos Grimm, em 1812, sendo revisado em edições posteriores.

Um pobre moleiro, para impressionar o rei, com o objetivo fazê-lo casar com a sua filha, mente e diz a ele que ela é capaz de fiar palha e transformá-la em ouro.

O Rei chama a moça, fecha-a em uma torre com palha e uma roda de fiar, e exige-lhe que transforme a palha em ouro até a manhã, durante três noites, ou será executada.

A moça já tinha perdido toda a esperança, quando aparece um anão (em algumas versões um duende) no quarto e transforma toda a palha em ouro em troca do seu colar; na noite seguinte, pede-lhe o seu anel. Na terceira noite, quando ela não tinha nada para lhe dar, o duende cumpre a sua função em troca do primeiro filho que a moça tivesse.

O Rei fica tão impressionado que decide se casar com ela, mas quando nasce o primeiro filho do casal, o anão regressa para reclamar o seu pagamento.

A Rainha, que havia esquecido-se dele, ficou assustada e ofereceu-lhe toda a sua riqueza, se este a deixasse ficar com a criança. O anão recusa, mas por fim aceita desistir da sua exigência, mas cria outra: se a Rainha conseguisse adivinhar o seu nome em três dias.

No primeiro dia, ela falhou, mas antes da segunda noite, o seu mensageiro ouve o duende a saltar à volta de uma fogueira e a cantar. E na musica ele diz seu nome Rumpelstilsequim. 
Quando o anão foi ter com a Rainha no terceiro dia, ela revela o nome dele, e ele perde o seu negócio, e cego de raiva, se divide em dois.

A heroína do conto é uma jovem bonita, mas pobre. E, como heroína, sabemos que ela irá resgatar e salvar algo.
No conto sua mãe é ausente, o que nos faz supor que ela pode ter morrido. 
Além disso, não havia uma rainha. Com isso podemos supor que a sua missão é resgatar o feminino que está desvalorizado. 
Seu pai, ao mentir e dizer que ela transforma palha em ouro lhe dá um valor que mesmo não reconhecido existe nela.

O ato de fiar, tecer é essencialmente feminino. Um trabalho que exercita a paciência e que auxilia a natureza feminina a se desvencilhar do seu lado masculino.

O ouro é algo de grande valor e incorruptível;  nos mitos africanos está ligado à deusa do amor.

Podemos concluir, então, que ela está fiando e tecendo seu valor enquanto mulher e resgatando o feminino na consciência coletiva. 
Mas com isso ela terá de lidar com uma figura zombeteira, um anão ou duende. 
O anão simboliza pequenos impulsos de caráter engraçado ou vulgar.
Muitas histórias dizem que eles fazem o trabalho por nós, o que é o caso aqui. 
Entretanto, ele pede por três vezes algo de valor em troca, mostrando que ela também deve dar algo dela mesma nesse esforço de resgate do feminino e que deve aprender a negociar, ao invés de competir como é típico do masculino.

A questão das três provas é comum nos contos de fadas. 

Ao terminar pela terceira vez de fiar, o rei resolve se casar com ela. Mas ela se esquece do anão, ou seja, ela se esquece desse impulso brincalhão, mas que pode ser muito criativo. E esquecer um impulso faz com que ele retorne com mais força.

E ele retorna querendo o seu bebê.  Ela precisa resgatar seus impulsos maternos.
Para o feminino o amor é mais valioso que ouro.  
Como prova ela precisa conhecer o nome do anão. Isso significa que ela precisa nomear seu conflito.

Em psicoterapia, quando damos um nome ao conflito alcançamos mais consciência.
É um insight que nos diz: “agora sei o que eu tenho!”, o que facilita a assimilação. 

Ao nomear Rumpelstilsequim ela o traz à consciência e ele deixa de ser uma força destrutiva e passa a ser uma força criativa que a ajudará a negociar com as demandas do mundo externo e interno sem perder sua feminilidade.


*            *            *

Hellen Reis Mourão é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas.
Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ.
É colunista do site Fãs da Psicanálise.

sábado, 1 de outubro de 2016

...as páginas que se vão - Luiz Schwarcz

Acariciando as páginas que se vão — ou qual é o papel do papel
Luiz Schwarcz - 28 setembro 2016


Vocês já sabem o que penso sobre o aspecto tátil do livro. Num dos primeiros posts desta série, falei sobre o momento em que um editor recebe o livro da gráfica e o cheira. 
Comentando sobre o carisma que os livros carregam, que deve ser respeitado quando se elabora uma capa, também destaquei o componente material da edição como parte fundamental do trabalho do editor. 
Na minha opinião, ao pensar no formato e no aspecto de um livro, estamos sempre tentando unir espírito e forma, de certa maneira por entender que o produto com o qual trabalhamos não é um objeto qualquer — ele permanece vivo e mutante mesmo depois de impresso.

Chego agora à questão que me foi colocada por Wellington Machado. Tentarei escrever algumas linhas sobre o papel do papel nas edições dos livros físicos, já que hoje convivemos também com o livro digital, aquele que liga no “on” do nosso tablet e some da tela sozinho quando vamos dormir. Aliás, é curioso pensar — e sem qualquer demérito para com as edições eletrônicas — que livro digital, imagino, cai menos da nossa mão quando adormecemos lendo. 
Suponho que por termos o costume de desligar o tablet ao finalizar a leitura — eu pelo menos desligo — a ocorrência de cair no sono com o livro digital na cama deve ser bem menor. Talvez terminamos a leitura do dia, quando utilizamos aparatos eletrônicos, mais despertos do que com o livro físico, com quem já nos acostumamos a passar a noite juntos.

Vários componentes do papel usado em um livro passam desapercebidos a muitos leitores, mas não são desimportantes. 
Creio que, dado o seu aspecto corpóreo, o livro físico valoriza mais essa relação carismática sobre a qual falei em outro post. Essa pode ser uma das razões de o hábito de ler edições no formato convencional ser tão duradouro, e o apocalipse do livro, como ouvimos dizer desde o advento do rádio, não ter acontecido como previam os mais chegados aos constantes temores com o final dos tempos.

Seguindo essa linha de pensamento, é interessante pensar em alguns aspectos materiais, por exemplo: por que será que, no contato com o livro físico, é tão melhor ler em páginas não tão brancas? 
Por que será que o toque com os dedos em um papel mais poroso cria uma sensação diferente para a leitura?

Recentemente lançamos o livro Viva a língua brasileira!, de Sérgio Rodrigues, e usamos um papel totalmente alvo, com a intenção de manter mais identificadas as cores das ilustrações em preto e laranja, que acompanham a edição. 
Ao receber o primeiro exemplar, confesso que tive um choque.
Desde o segundo ano da editora passamos a usar, de maneira crescente, o papel de cor creme, desenvolvido pela Suzano, em parte talvez devido a um pedido ou incentivo da Companhia das Letras. 
Naquela época eu já me incomodava com as edições brasileiras, todas impressas em papel offset convencional, onde as palavras vibram mais, devido ao contraste entre a tinta escura e a página tão branca. Nos outros países isso não ocorria. 
As edições em capa dura já há muito tempo eram impressas em papel de tonalidade creme, e os pockets usavam um papel-jornal mais caprichado, acinzentado. 
Sabe-se que o papel mais escuro, ou melhor, a diminuição do contraste entre papel e tinta que se dá com essa tonalidade, permite maior descanso para os olhos. Mas, para mim, não é só isso que ocorre. Ao marcar as páginas brancas com a tinta durante a impressão, aparentemente realizamos um ato definitivo. O que está impresso assim permanecerá para sempre, o que está dito não pode ser corrigido, apenas em uma futura edição, ou em um livro que contenha uma revisão das ideias expostas.

Nesse sentido, o preto no branco potencializa esse sentido peremptório inerente às edições físicas; o contraste exacerbado entre papel e tinta tem quase um toque de declaração, transforma o livro em statement, o que, no meu entender, está longe do ideal. 
Acreditar que algo escrito não passará por elaborações pessoais diversas ou imaginar que a página marcada pela tinta não será remarcada com a imaginação dos leitores é um erro típico de escritores donos da verdade, que querem permanecer senhores da sua própria criação. 
Embora a escolha do papel seja um atributo do editor, ele, o papel, de certa forma, representa os olhos ou a mente dos leitores, abertos para conhecer uma história ainda não contada. De alguma maneira, somos nós leitores os papéis em branco, é esta a posição na qual devemos tentar nos colocar previamente, antes de nos encontrarmos com a imaginação do escritor. 
Assim, um papel mais próximo da tinta, que diminua o contraste entre o que é dito e o que se espera ouvir, manifesta maior igualdade entre escritor e leitor, garantindo a harmonia necessária para que um livro solte também a imaginação de quem lê.

Seguindo a mesma linha, acredito que um papel poroso, menos liso e menos uniforme, tem também uma função importante. Ao tocarmos uma página antes de virá-la, sentindo na pele suas irregularidades, inconscientemente nos colocamos em contato com algo que pode mudar durante e após a leitura e lembramos que o livro traz imperfeições que o tornam mais humano.

Antigamente um livro tinha que ser aberto pelo próprio leitor com um cortador de páginas. Era necessário separar as páginas, uma a uma, já que estas vinham agrupadas, demarcando um trabalho final que cabia ao leitor, e não ao autor nem mesmo ao editor ou ao gráfico. 
Cada página trazia, assim, uma dimensão diferente, todas elas marcadas pela imperfeição do corte feito à mão. 
O livro visto de lado não era uniforme, cada folha tinha um tamanho, como que simbolizando as viradas de uma história e o percurso imprevisto da imaginação de quem lê. 
O livro apresentava-se como fisicamente mutante, nos intervalos assinalados pela mudança de página, se não a cada linha ou palavra.

Por vezes demoramos dias para voltar a um livro, e tudo que parecia imutável no papel mudou devido a uma nova condição do leitor ou da leitora. 
O desenrolar de um romance acompanha acontecimentos por vezes dramáticos em nossas vidas. Podemos começar uma história casados e terminá-la solitários, ou tendo nos despedido de alguém importante em nossa vida. 
Será que a página virada é diferente apenas pelo novo sentido agregado pelo autor, pela continuidade da história? 
Ainda hoje, algumas editoras americanas como a Knopf mantêm seus livros com acabamento irregular nas bordas das páginas, fazendo com que eles se assemelhem às edições que exigiam a abertura individual pelo leitor. 
Acho maravilhosos os livros que nos lembram desse tempo, que marcam fisicamente as diferenças que virão com a leitura, aos poucos.

Não quero dizer que o livro era irregular de propósito, para marcar o que imagino ser inerente ao ato da leitura, mas sim que esses sentidos poderiam ou podem ser atribuídos ao formato material de um livro, já que os símbolos não ganham existência por vontade ou intenção de alguém, mas pela riqueza espontânea de nossa vida interior e social.

Por tudo o que tenho dito neste espaço, é fácil verificar o quanto defendo o aspecto simbólico das edições, o quanto penso no livro como algo vivo, objeto de uma criação coletiva, que adiciona os leitores aos criadores originais, na posição mais igualitária possível. 
Se talvez os tenha cansado, caros leitores, com a repetição dessas ideias, com meu apego a detalhes aparentemente tão pequenos, peço que me desculpem. 
Não sei se as ideias começam a escassear, se esse espaço já começa a anunciar o seu próprio final. Quem sabe? 
Como editor, estou muito mais acostumado a ler do que a escrever. Por isso, por vezes me parece difícil ser sempre original ao tentar expressar o que penso. 
Sei, no entanto, que leio os livros como todos os leitores, de forma pessoal e única, assim como viro uma página tentando tirar dela o máximo que posso, acariciando o papel antes de me despedir dele, mesmo que por um brevíssimo instante, e assim partir para o que me espera logo a seguir.

* ** 

domingo, 11 de setembro de 2016

Um livro deve ser... - Adriel Dutra

Um livro deve ser… – Kafka
Adriel Dutra -  na página 'Fãs da Psicanálise' - 1 de fevereiro de 2016

Ilustração: Teresa Wiles

Nunca duvidemos da potência de um livro, um livro pode mudar rumos – me lembro como perdi o rumo no primeiro parágrafo de “O Anti-Édipo” de Deleuze & Guattari e nunca mais fui o mesmo, primeiro parágrafo!

Um livro pode nos fazer acontecer de modos radicalmente diferentes daqueles que querem que sejamos… um livro que provoque pensamentos, pois o pensamento é uma grande potência. 
Nós quase não nos damos conta de que o pensamento é uma grande potência porque, afinal, “pensar é tão natural” – pensamos.

Talvez demos pouco valor ao pensamento porque estamos desacostumados a pensar, desacostumados a pensar e muito acostumados a pensar o já pensado – reproduzir. 
Não que precisemos inventar a roda a todo instante, mas perceber as afetações e as relações que estabelecemos com o pensamento, o corpo e nossos modos de existir junto aos acontecimentos do mundo. 
Fora disso estamos apenas reproduzindo o que já está pensado.

Precisamos provocar o pensamento ou a gente vai se entupir de lixo despejado diariamente pela mídia, pela religião, pelo estado, pela economia, pelos especialistas… por todo tipo de gente que quer fazer da vida um grande negócio, e isso envenena a vida, é tóxico. 
Livro não é a única coisa que nos provoca, mas é uma das fundamentais. E não o livro pelo livro, não a quantidade, a lista de leitura do mês, a lista dos 5 maiores maiores escritores de literatura, a lista dos mais vendidos, a lista dos indicados … não! precisamos de um livro desses que Kafka chama de um machado para o mar congelado que há dentro de nós.   

Um machado para nos arrancar do círculo pessoal a que estamos habituados, das conversações edipianas do almoço familiar de domingo, da nossa falsidade diária com que nos cumprimentamos no trabalho e nos elevadores – um machado… para descobrir a grande potência do pensamento! 
A pergunta espinozana para o corpo, nas devidas proporções, também caberia aqui: o que pode um livro?

"É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. 
Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. 
Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? 
Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. 
Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. 

Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. 


Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós. " F. KAFKA


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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Ficando incrível - Pamela Camocardi

Não envelhecemos, ficamos incríveis!  
Pamela Camocardi -  em "Entrelinhas literárias - crônicas"



E ficamos mesmo! 
Pense bem: quanta sabedoria adquiriu nos últimos anos? De quantas quedas foi necessário se levantar? Quantos cortes na alma foram cicatrizados? Quanta saudade você engoliu a seco, sem direito a gelo? Só você sabe! Foi só você quem sentiu! 
Então não venha me dizer que essas marcas de expressão no seu rosto são incômodas. Elas são a representação de que os momentos, bons ou ruins, valeram a pena. 
Que as preocupações, as lágrimas que ninguém viu e o sorriso que você deu sangrando por dentro, fizeram de você uma pessoa melhor. Um ser humano como deve ser: simples e descomplicado!

Ninguém aprende nada na alegria. Então um brinde a todas as nossas quedas e a todos que foram motivos delas. 
Nossos traumas, nossas neuras e nossos medos já entenderam que não são donos da nossa mente. Provamos a eles quem manda em quem. Se existem, ficarão em estado de inércia, porque daqui para frente, a história será outra e os protagonistas seremos nós! 

Quer saber quando você começa a envelhecer? Quando não consegue mais rir! Rir mesmo, gargalhar! Alto! 
Quando não vê mais alegria na vida. 
Quando não ri de si mesmo e abre mão do que lhe faz bem. 
Quando renuncia às gentilezas, aos pequenos gestos de carinho das pessoas que lhe trazem paz. 
O restante é balela...

Deixe  o tempo mostrar a aparência que ele quiser, porque a sua alma, só envelhecerá no dia em que você permitir. 
Corpo é casca. Aparência não molda caráter, não mostra quem você é! 
Abra mão do que sai com água e sabão e cuide do espírito. 

Ah.... e as rugas.... que venham muitas. Sinal de que você pegou muito sol e tem muita história para contar!


*            *            *

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O que há de gente em Nós? - Erik Morais

O que há de Gente em Nós?
Erik Morais (*) - segunda-feira, 8 de agosto de 2016



A vida contemporânea parece estar imbricada com um certo estado de desumanização, no qual perdemos a capacidade de observar aquilo que acontece ao nosso redor. É como se tivéssemos perdido a sensibilidade e, assim, tornamo-nos ocos e frios. 
Transformados em homens de olhos secos que não possuem rios de lágrimas, deixamos a triste condição Severina se instalar e criar morada. Deixamo-la tornar-se habitat natural dessa desumanização. 
Diante disso, uma pergunta tem me incomodado: o que há de gente em nós?

Somos seres precários e finitos, de tal maneira que a vida nunca se apresentará em condições normais de temperatura e pressão. 
No entanto, dada as condições, através do modo como nos comportamos, conseguimos piorar a situação exposta, inclusive, levando a ideia de Aldous Huxley de que este mundo seja o inferno de outro planeta.

Em larga medida o inferno que habitamos está alicerçado no nosso egoísmo e individualidade, os quais nos tornam personagens de Saramago, indivíduos com a cegueira branca, isto é, cegos que nunca cegaram, mas cegos que podendo ver, não enxergam, já que estão envoltos por uma segunda pele bem mais forte que a outra, que por qualquer coisa sangra, chamada egoísmo.

Uma segunda pele que nos aliena das labaredas em cada esquina e dos espinhos que ferem a cabeça de outro ser que poderia ser chamado de humano. Uma segunda pele que banaliza o mal e nos torna apáticos diante do horror que fingimos não ver todos os dias.


Em que ponto nos perdemos? Como podemos achar o mundo exterior tão desinteressante, tão insosso, a ponto de não nos indignarmos quando uma pessoa morre em uma fila de hospital por falta de atendimento? Ou pior, quando centenas de pessoas morrem porque existe um hospital pronto, mas o aparelho burocrático não o deixa funcionar? 
Será que as regras são mais importantes que os jogadores? Qual o valor de um ser humano? O que há de gente em nós?

Parece que estamos tão saturados com o mal, que sequer percebemos ao andar na rua que existem crianças pedindo dinheiro no sinal, enquanto outras passeiam na Disney; que, enquanto milhares de pessoas morrem de fome, outras tantas fazem dieta. 
Como aceitamos tamanha paradoxalidade, tamanho absurdo?

Mundo do absurdo, da intolerância, da falta de empatia, do egoísmo, em que nada nos incomoda, nada nos comunica, nada nos incita, no qual o horror se torna show e é espetacularizado diariamente, como no mundo distópico de Laranja Mecânica de Anthony Burgess. 
Mundo em que pessoas morrem tentando sair de um país à procura de um novo lugar para chamar de lar, enquanto outras escolhem onde querem morar. 
E nós passando por esse mundo, como se estivéssemos em uma Timeline, apenas “curtindo” ou não situações, sem de fato refletir, se indignar e, sobretudo, se incomodar.

Incomodar, verbo repetido intencionalmente até aqui, para que percebamos o quanto ele está em extinção, já que não queremos nos incomodar. 
Queremos sentir prazer, sorrir o tempo inteiro, sem qualquer tipo de dor ou “incômodo”, acima de tudo, se ele vier de outra pessoa que queira romper a nossa segunda pele, que nos “protege” e nos faz mais “fortes”.

Tudo o que queremos, como diz Clarice em “O Mineirinho”, é manter as nossas casas presas ao terreno, a fim de que elas não estremeçam. 
É continuar fabricando deuses à imagem do que precisarmos para continuar dormindo tranquilamente, os quais sempre tratam de nos acalmar com o sentimento de que não há nada a fazer.

Tudo o que queremos é continuar sendo os sonsos essenciais, os baluartes de alguma coisa e os cegos que podendo ver não enxergam, para que não corramos o risco de nos entendermos. “Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende”. E essa coisa que desorganiza tudo é aquilo que há de gente em nós, é aquilo que rasga a segunda pele chamada de egoísmo e faz com que a nossa primeira pele se incomode, é aquilo que faz com que os leitos dos olhos voltem a ter lágrimas, para que possamos dar de beber a quem sofre, porque mesmo quando a água é pouca, continuamos sabendo o que é sede e mesmo quando não nos perdemos, também experimentamos a perdição.

Talvez Huxley esteja certo e este mundo seja mesmo o inferno de outro. Acho que ele não tinha certeza, mas estava incomodado com a ordem posta e procurava, como Clarice, a coisa que desorganiza tudo, a coisa que entende, o que há de gente em nós. 
Ele deve ter encontrado a humanidade no Selvagem do seu Admirável Mundo Novo; ela encontrou no Mineirinho, mas foram necessários treze tiros até que ela se tornasse o outro, para que ela quisesse ser o outro, para que fosse o próprio Mineirinho. 
Resta saber, quantos tiros são necessários para que sejamos o outro e, então, saibamos, o que há de gente em nós.


*            *            *
(*) Erik Morais escreve na página 'Conti outra e afins'

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Apelo interessante - Gabriel Camões

Não troque sua avó por um iPhone
Gabriel Camões - na página 'Ornitorrinco'



Não troque. Não troque. Não troque. Desculpe o tom repetitivo. E aqui me dirijo especialmente, mas não exclusivamente, aos que estão abaixo dos 30. 
Por gentileza, eu peço encarecidamente que você não troque. Aconteça o que acontecer, não cometa esse erro. Não troque sua vó por um iPhone. Tampouco por um smartphone, tablet ou algo parecido. Não faça isso com você. Não faça isso com ela. Simplesmente não faça. 

Sei que é muito tentador enfiar a mão no bolso ao sentir aquela tremedeira na perna ou no peito provocada por seu aparelho. Para muitos tornou-se um chamado irresistível escutar aquele assobio feio que nem de longe pode ser comparado ao canto de um sabiá. Mas, quando isso acontecer, e você estiver ao lado de sua avó, ignore. Esqueça. Resista. Atire longe o aparelho, se preciso for.

Vi esses dias uma imagem circulando na internet com uma família reunida na sala e que todos, com exceção de uma velha senhora, estavam mergulhados e absorvidos pelas telas dos seus respectivos celulares. 
Os olhos daquela senhora, buscando encontrar o olhar cúmplice de um filho, uma nora, uma filha, um neto, um genro, se tornaram uma ilha de solidão, mesmo que apenas alguns centímetros a separassem de alguém da família dela. 
Mesmo que seja só uma montagem. Uma encenação. Uma brincadeira. Há uma verdade dolorosa naquela cena.
Em princípio, ao ver aquela imagem, achei até engraçado. Ri. Pensei nessa questão do choque de gerações, da dificuldade dos mais velhos com a tecnologia, enfim. Mas pensando melhor, eu acho que os mais velhos não tem qualquer dificuldade com a tecnologia. Quem tem dificuldade com tecnologia são os que a usam e os que se tornam escravos e dependentes dela. 

Tenho uma avó que não enxerga bem as coisas, mas enxerga muito bem a vida. E mesmo com esta limitação, ela é uma das leitoras mais ávidas e uma das maiores amantes da poesia que eu conheço. Não acredito que ela tenha dificuldades com a tecnologia. Ela simplesmente decidiu envolver-se com a tecnologia até certo ponto e isso para ela basta.

Portanto, volto a insistir, não troque sua avó por um iPhone. Nem o seu avô. 
Num jantar em família, numa festa de aniversário, na noite de natal, numa quarta-feira qualquer, num almoço de domingo, escolha o olhar de sua avó e as novidades que ela tem para você. 
Se você não tiver uma avó ou avô, dê um jeito. Torne-se neta do avô do seu namorado ou neto da avó de sua esposa. Serve também uma tia-avó ou ainda um tio-avô. Serve um vizinho velhinho que costuma sorrir ao te encontrar e que faz sempre questão de tratar você com educação. Conheça uma senhora ou um senhor e descubra o que ele ou ela tem a lhe ensinar. Se vire. Encontre alguém. Viva essa experiência.

Não existem aplicativos, recursos ou ferramentas que se comparem aos poemas que minha Vó Márcia já me apresentou. 
Nenhum design de celular que chegue perto da sua elegância ou da beleza dos seus olhos. Tampouco que se aproximem do sabor do beijú, do chimango ou do bolo de carimã de minha Vó Zezé. Nada que ganhe mais a minha atenção do que o seu bom humor e suas tiradas. 
Não troco iPhone nenhum pelas histórias e aventuras de meu Vô Dinho, suas invenções, seus cucurutes e tamboretes. 
Também não troco pelas anedotas de meu Vô Camões, por seu amor por Caymmi, sua voz de cantador e o violão mais macio da Bahia. Nem me atrevo a trocar. Não sou bobo. Não a este ponto.

Dito isto, me atenho agora à realidade em que me encontro. É preciso primeiro reconhecer que eu sou um ser privilegiado por ter 31 anos e ainda ter minhas duas avós e meus dois avôs vivos e lúcidos. Isso, meus caros, como diria Sílvio Santos, “vale mais do que dinheiro”. Vale mais do que ganhar quatro vezes na loteria. Uma mega-sena em cada um. Camões. Marcinha. Zezé. Dinho. Nomes e amores.

Hoje, portanto, deixo a bateria do meu celular descarregar e esqueço onde deixei o carregador. 
A energia que me interessa é movida apenas pelo amor e pela admiração que tenho por esses quatro. Aconteça o que acontecer, não os trocarei por iPhone, smartphone ou nada parecido. 
Cada almoço e cada encontro, um bilhete premiado. 
Portanto, aqui repito e insisto, transformando conselho em ordem: não troque sua avó por um iPhone.


*            *            *

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Subterrâneos - Leticia Wierzchowski

Subterraneos
"No fundo, somos todos uma Roma"

Subterrâneos
Leticia Wierzchowski  
11 de fevereiro 2016 ,  blog Editora Intrínseca

No fundo, somos todos uma Roma. (fonte)

Somos nossa própria alvenaria.

Horas e dias e anos amontoam-se dentro da gente como peças e recantos de uma casa na qual o único desenho é o destino. 
Alguns de nós conseguem delimitar um espaço aqui ou ali por vontade própria, afinal sempre existem os estoicos.

Mas a planta geral da nossa existência é aleatória.

E os desabamentos acontecem, grandes ou pequenos. Tragédias íntimas, quem não as tem?

Falências, mortes, divórcios, doenças, sonhos que morrem e afetam profundamente os alicerces da nossa vida, derrubam paredes, interditam caminhos, escondem a vista. 
Podemos colocar tábuas e construir pontes que nos ajudem a atravessar essas crateras emocionais no dia a dia. Mas o passado que ruiu seguirá em cada um de nós feito uma cicatriz, assim como — oxalá! — as boas surpresas da vida às vezes nos entregam uma inesperada varanda para o mar, um sótão iluminado ou uma escada para novos horizontes.

Com o passar dos anos, todos seremos como essas cidades antigas sobre as quais o tempo vai depositando teimosamente suas incontáveis camadas, uma coisa soterrando a outra, e assim por diante, de forma que chegamos a imaginar que conseguimos esquecer certas pessoas, algumas memórias e antigas dores. 

Mas aí, subitamente, nos vemos obrigados a cavar uma vala, abrir espaço para o futuro, construir o túnel dos nossos dias, e lá está tudo intacto no fundo da gente, como a bela cidade de Roma com suas eternas obras do metrô — seus teimosos túneis acabam sempre topando com um palácio, ou catacumbas, ou termas, ou um anfiteatro. 
E os engenheiros precisam driblar esses tesouros renascidos das entranhas do tempo, contornando judiciosamente o passado que brota do chão romano por todos os lados.

No fundo, somos todos uma Roma — o passado inexpugnável nos habitará para sempre, oculto no centro palpitante da nossa memória.

Basta cavar.

E, às vezes, nem muito.

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sanzaru - Mitologia japonesa

Os três macacos sábios
Mizaru, Kikazaru e Iwazaru
Silvia Kawanami - Mitologia Japonesa

 Os três macacos sábios 

Significado de Mizaru 見 ざる, Kikazaru 聞か ざる, Iwazaru 言わ ざる

Literalmente significa: miru=olhar, kiku=ouvir, iu=falar e zaru=negar, que pode ser traduzido como “Não olhe para o mal, não escute o mal, não pronuncie o mal”.

Embora tenha diversas interpretações, eu acredito que se refira ao fato que se não praticarmos o mal aos outros, manteremos o mal distantes de nós mesmos.

Neste provérbio antigo, vemos três macaquinhos associados a ele.
Cada um complementa o ditado popular com um gesto diferente: Um tampa os olhos, o do meio tampa os ouvidos e o outro tampa a boca.
Mas de onde surgiu essa frase? O que ela realmente quer dizer?
Bom, ao que parece, sua origem é chinesa, porém é quase certo que foi no Japão que ela ganhou o mundo e se tornou um ditado popular ou um provérbio japonês, que no Japão são chamados de Kotowaza.

A relação do ditado com os macaquinhos seria devido a um jogo de palavras.
É que “Zaru” se usa no final dos verbos no Japão e sua fonética soa parecido com “Saru”, que é macaco em japonês.
Existe uma estátua dos três macacos no Santuário Toshougu, na cidade de Nikko, na qual ilustram a porta do Estábulo Sagrado.

Sanzaru, os três macacos sábios
Sanzaru, os três macacos sábios

A origem dos três macacos sábios (Sanzaru / 三猿)

 A filosofia por trás do simbolismo dos macacos vem de uma lenda Tendai-budista, na qual os macacos são usados para representar o ciclo de vida do homem.
O provérbio “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal” é chamada no Japão de “regra de ouro”, onde se se encontra outros ensinamentos que ajudam a promover harmonia entre as pessoas: Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você.
Segundo a religião budista, os gestos dos três macacos representam a divindade de seis braços Vajrakilaya, cujo principal ensinamento é não ouvir, ver ou falar mal, pois dessa forma, nós mesmos seremos poupados do mal.
Em outras interpretações dizem que as estátuas dos Três Macacos Sábios simbolizam paz e harmonia, protegem o lar das energias ruins e ajuda a evitar que o mal se espalhe.

Eles também são chamados de “Os Três Macacos Místicos” (Sambiki Saru) e além do Budismo Tendai, o macaco tem forte ligação com o Xintoísmo HIE.
Há festivais importantes, como alguns que ocorrem  durante o ano do macaco (a cada 12 anos) e um festival especial é comemorado todos os anos, o Festival de Koshin.

Os três macacos sábios


Festival Koshin (Dia do Macaco)

O festival Koshin é conhecido como Dia do Macaco.
Fala sobre uma divindade chamada Koshin que tinha três macacos como mensageiros. Em algumas versões, os três macacos estão representados como três vermes que vivem dentro de nós mesmos, na qual registram tudo de bom e de mau que fazemos.

No 60° dia do calendário, enquanto as pessoas dormem, os três vermes saem e vão até o deus Koshin, que julgará e punirá a pessoa conforme o que foi relatado pelos três vermes.
Para evitar um possível castigo, portanto, é preciso ficar acordado para evitar que os vermes saiam de dentro das pessoas e relatem os maus feitos a Koshin.

Por causa dessa lenda de origem no taoismo chinês, antigamente famílias e amigos se reuniam para ficar em vigília durante a noite inteirinha, que durava desde o início da noite da véspera do Festival Koshin até o amanhecer no outro dia, onde passavam o tempo bebendo, comendo e conversando para se manterem acordados.

Esse provérbio “Mizaru, Kikazaru e Iwazaru”, “Não olhe para o mal, não escute o mal, não pronuncie o mal”, que em inglês é conhecido como “See no evil, Hear no evil, Speak no evil” serve como uma boa reflexão nesse início de ano, como uma forma de olharmos para dentro de nós mesmos, afastando tudo que nos faça mal e nos dando a chance de sermos cada dia melhores do ponto de vista espiritual.

Mizaru Kikazaru Iwazaru

sábado, 5 de dezembro de 2015

Cultura inútil

Cultura inútil
Leonardo von Mühlen - em seu blog 'vilmetáfora'



Recorrentemente, deparo-me com o termo “Cultura Inútil” nos mais diversos círculos que frequento. Proferem-no cabeças pensantes e não pensantes; mentes conservadoras e progressistas; indivíduos cultos e eruditos, personagens néscios e ignorantes. Enquanto eu os escuto discorrer sobre a inutilidade de tais e tais “culturas”, fico a me questionar:

Cultura tem mesmo de ser útil?
Qual seria a utilidade da cultura?
Teria a cultura um objetivo a ser alcançado, uma meta a ser atingida?

Nesse meu solitário devaneio, que ora me atrevo compartilhar, receio desconfiar que cultura e utilidade não guardam relação lá muito amigável entre si. Penso, até, em arriscar dizer que cultura, se for útil, sequer é cultura, mas minha pouca ousadia, de momento, não me autoriza tal decreto. Sigamos, então, na linha de que cultura, para ser cultura, dispensa o caráter de utilidade.

Ora, cultura não precisa ser uma ferramenta ou um instrumento, tampouco produzir resultados materiais, pois, para tanto, temos a figura do conhecimento, cujo objetivo é, aí sim, produzir algo, criar, modificar, promover evolução e aperfeiçoamento, gerar resultados corpóreos e visíveis – tais incumbências pertencem-lhe exclusivamente. Este sim, o conhecimento, pode ser qualificado como útil ou inútil; a cultura, jamais. Ela estará sempre léguas acima destas frivolidades.

A cultura, na acepção aqui proposta, sinto-a muito mais próxima da sabedoria do que do conhecimento. Numa ótica mais lírica, percebo a cultura como um valor interno, íntimo, algo como recitar um soneto para si mesmo, em suaves murmúrios; já o conhecimento, percebo-o como um livro de cabeceira do qual se lança mão em noites insones. É complexo de se entender – nem sei se, mesmo eu, entendo –, mas sinto essas duas grandezas abstratas assim, quase antagônicas, porém complementares.

A cultura me completa, alimenta-me a alma, transforma-me e, permitam-me um clichê, torna-me mais feliz. Então, novamente pergunto: qual a utilidade de tudo isso? O que pode haver de útil, de proveitoso, de lucrativo em ser feliz, em sentir-se completo e de alma transformada? Absolutamente nada! A cultura, sob as mais variadas formas – literatura, música, teatro... – não produz nada de concreto, é formidavelmente inútil. É algo belo – por vezes, nem tanto – com o que nos comprazemos, deleitamo-nos; é algo que diz precisamente quem somos, porque e como; aponta caminhos e também os constrói; oxigena existências. O conhecimento, por sua vez, apenas facilita.

Em tempo, lembrei-me de outra questão relevante: a cultura nunca será útil ou inútil, contudo, pode-se, eventualmente, qualificá-la de fútil, não por antonímia à utilidade, mas por ter valor cultural questionável, pueril, superficial. Observem que a erroneamente difundida “cultura útil” (quando se fala em “cultura inútil”, pressupomos a existência de uma “cultura útil”, o que produz essa falsa dicotomia) é tão inerentemente contraditória quanto o “conhecimento inútil”. A cultura é um ente de natureza maravilhosamente inútil, enquanto o conhecimento traz a utilidade, a proficuidade, na sua essência. O conhecimento confere poder; a cultura faz transcender.

Tomei coragem: cultura, se for útil, não é cultura; conhecimento, se for inútil, não é conhecimento. Decreto: toda cultura é inútil, todo conhecimento é útil, sob pena de, em não assim os sendo, não existirem como tais.

Fica o dito pelo não dito. Encontro-me, a partir de já, receptivo às pedras.

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domingo, 27 de setembro de 2015

Elegância - Clara Baccarin


Elegância
Clara Baccarin - na página 'CONTI outra'

Algumas pessoas têm um tipo de elegância que as fazem chamar atenção por onde passam independente do que estejam vestindo, com quem estão andando ou de que assunto estejam falando.

É um tipo de elegância que Paul Valery descreveu como “a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir” .

São pessoas que brilham sem fazer esforço, que não precisam alterar o tom de voz, carregar nos gestos, caprichar na produção ou no corte do terno, pois elas conquistam e atraem atenções simplesmente por se sentirem confortáveis na própria pele.

Sabem que a melhor aparência e a mais altiva postura são o brilho nos olhos e a genuinidade no sorriso. Elas iluminam onde passam, pois sua paixão pela vida e seu jeito de encarar o mundo transbordam de dentro para fora. E quando se aprende a brilhar de dentro para fora, qualquer roupa ou acessório que se vista cai bem.

São pessoas que têm uma fineza de alma e se diferenciam por terem aprendido a difícil e corajosa missão de se conservarem sensíveis num mundo que valoriza posturas rígidas e atitudes mecânicas. E como disse Adélia Prado, “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”.

De nada vale poder sem humildade, dedicação sem entrega, beleza sem essência, intelecto sem sensibilidade.  
De nada vale gerenciar todas as questões aparentes, práticas e ‘importantes’ da vida, se não sofisticarmos o modo de enxergar e de sentir o mundo.

Pessoas que sofisticam o sentir nunca saem de moda, desenvolvem um magnetismo natural, se tornam referências, modelos atemporais. Inspiram simplesmente pelo o que são. Têm personalidades próprias e não precisam seguir um grupo, ou uma tendência, pois seus estilos vêm da abertura e da liberdade de se deixar guiar pela intuição e pelas vontades intrínsecas.

Gosto de ver a beleza que se estampa nas pessoas que sabem se despir das armaduras e se vestir de si mesmas. 
Gosto de admirar as pessoas que se tornaram atraentes não pela busca da perfeição, mas pela aceitação amorosa de suas vulnerabilidades humanas.

Gosto das pessoas que perceberam que a maior fineza na vida é a transparência. Que sabem que o verdadeiro luxo é a falta de necessidade de ostentação, pessoas que estão em busca de ‘ser’ mais e não de ‘ter’ mais. E que assim, sem querer, alcançaram o que Coco Chanel chamou de ‘a chave para a verdadeira elegância’, que nada mais é do que a simplicidade.


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domingo, 13 de setembro de 2015

Hora da despedida - JOSÉ CASTELLO - Jornal O Globo

Ainda consigo me surpreender desagradavelmente com o que estamos presenciando em termos de leitura, cultura e 'informação'.
Há algum tempo venho me sentindo sempre mais isolada, apartada mesmo, desse mundo que se transforma com tamanha rapidez - não sei se para melhor, em que pese o desenvolvimento tecnológico. 
Esta notícia realmente representa o fim de uma tentativa para não sucumbir aos ataques gratuitos da ignorância coletiva avassaladora.
Poucos são os que se empenham em melhorar esses tempos de mediocridade e imediatismo.
José Castello é um deles. Seu texto, sempre atual, moderno no que tem de melhor essa palavra, nos direciona para longe do lugar comum, da estupidez e grosseria agora vigentes.

Resta-nos desejar-lhe mais sucesso ainda e pedir-lhe que nos informe onde poderemos encontrá-lo.
Sueli
**
Hora da despedida
por  José Castello - Jornal O Globo - Segundo Caderno - 12/09/2015 12:00


Chegou a hora de me despedir de meus leitores. 
Não é um momento fácil - nunca é. 
Mas ele se agrava porque, com o fechamento do "Prosa", incorporado ao "Segundo Caderno", desaparece um último posto de resistência na imprensa do sudeste brasileiro. 
Os suplementos de literatura e pensamento já não existem mais. Um a um, foram condenados e derrotados pela cegueira e pela insensatez dos novos tempos. 
Comandado pela vigorosa Manya Millen, o "Prosa" resistia como um último lugar de luta contra a repetição e a dificuldade de pensar com independência. Isso, agora, também acabou.

Nosso mundo se define pelo achatamento e pela degola. 
No lugar do diálogo, predominam o ódio e o desejo de destruição. 
No lugar da tolerância, a intolerância e a rispidez, quando não a agressão gratuita. 
É o mundo do Um - em que todos dizem as mesmas coisas, usando quase sempre as mesmas palavras.  Um mundo em que a verdade, que todos ostentam, de fato agoniza.

Nesse universo, a literatura se impõe como um reduto de resistência. 
A literatura é o lugar do diálogo, do múltiplo, da diferença. 
Não é porque gosto de Clarice que devo odiar Rosa. Não é porque amo Pessoa que devo desprezar Drummond. Ao contrário: na literatura (na arte) há lugar para todos.

Uma pena que o "Prosa" se acabe justamente em um momento em que nos sentimos espremidos por vozes que repetem, sempre, os mesmos ataques e as mesmas agressões. 
Nesse mundo de consensos nefastos e de clichês que encobertam a arrogância, nesse mundo de doloroso silêncio que se apresenta como gritaria, a literatura se torna um lugar cada vez mais precioso. Nela ainda é possível divergir. Nela ainda é possível trocar ideias com lealdade e dialogar com franqueza.

Sabendo que o diálogo, em vez de sinal de fraqueza, é prova de força. Lá se vai o "Prosa" com tudo o que ele significou de luta e de aposta na criação.

A meus leitores, que me acompanharam lealmente durante mais de oito anos, só posso dizer obrigado. 
E dizer, ainda, que conservem a coragem porque a pluralidade e a liberdade vencerão o escândalo e a cegueira. 

Apesar de tudo o que se diz e de tudo o que se destrói, ainda acredito muito no Brasil. É com essa aposta não apenas no futuro, mas sobretudo no presente, que quero me despedir de minha coluna e encerrar esse blog. 

Aos leitores, fica a certeza de que certamente nos encontraremos em outros lugares. 
Nem a loucura do nazismo, com suas fogueiras de livros, conseguiu destruir a literatura. 
Não tenho dúvidas também: nesse mundo de estupidez e insolência, ela não só sobreviverá, como se tornará cada vez mais forte.


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José Castello é escritor e jornalista. 
Autor, entre outros, de “Ribamar”, Prêmio Jabuti de “romance do ano” em 2011, “Vinicius: o poeta da paixão” (Jabuti de “ensaio do ano” em 1995) e “A literatura na poltrona. 
É Mestre em Comunicação pela UFRJ

segunda-feira, 29 de junho de 2015

...a dor dos noticiários - Nara Rúbia Ribeiro

Da página 'Conti outra'

Por que as pessoas buscam a dor dos noticiários?  
Nara Rúbia Ribeiro


Arte naif: Eliete Tordin

Liguei a TV. Algo de medonho havia ocorrido. Dados alarmantes, números bizarros e depoimentos diversos davam notícia de que o futuro havia chegado de mãos dadas com o fim. Tudo pareceu-me desolado. A economia desconsolada, o Judiciário vendido, a democracia vilipendiada. E mortes e insegurança e indignação e desespero… Deus! Quem foi que violentou a alma do mundo para que tudo sangrasse assim,  com tanta força?


Mas eu tive a ousadia de desligar a TV. Eu tive a audácia de não ler jornais. Eu tive o despreparo de andar pela rua e de observar pessoas, coisas e tentar enxergar abstratos.


Uma mãe segurava a mão do filho pequenino e dizia:  – Não, Artur. Depois do “3” não vem já o “5”. Vem o “4”.


Uma senhora sorriu, escorada no umbral da entrada de uma casa, ao perceber a confusão numérica da criança. E prosseguiu observando mãe e filho a sumirem de vista, enquanto acariciava um gato vira-latas que parecia também observar a cena.


Havia flores nos canteiros das casas e crianças uniformizadas, ainda sonolentas, seguiam para a escola. 

Passarinhos povoavam os fios de alta tensão como se a delicadeza desafiasse a força, como se as penas blindassem as suas almas da violência do mundo.
Em meio ao barulho dos automóveis, quem tivesse o ouvido inclinado à beleza poderia ouvir o canto indecifrável desses pássaros.

Um jovem me viu parada a observar essas coisas e perguntou-me: – Você está bem?  A custo compreendi a pergunta, e respondi: – É um bom dia, não é? Ele acenou com a cabeça positivamente, e seguiu caminho.


E vi muitas pessoas sorrindo e contando anedotas. 

Vi um beija-flor meio perdido entre flores de vida e rosas de plástico, mas ele sobreviveu. 
Vi pedrinhas coloridas numa calçada. 
Ouvi o porteiro do prédio a relatar, a um amigo, o desfecho triunfal de sua noite de amor.

E percebi que a ausência da vida é resultante do distanciamento da sua essência. 

Percebi que as verdades poéticas e cotidianas não são notícia. 
Quem quer saber de beija-flores confusos ou de pequenos aprendizes matemáticos? 
Quem quer noticiar a glória de pássaros que desafiam a insensibilidade das almas? 
Quem quer saber de tudo isso se nem sabe que isso existe?

As pessoas necessitam da dor dos noticiários. Necessitam de ver o sangue, a violência, a podridão do mundo porque querem urgente e desesperadamente compreender o que lhes dói. 

Elas precisam saber o que fez do seu peito um oco, um vazio, um vão imensurável e doído. 
Elas precisam saber da origem do nada que as incomoda, o nascedouro do apego ao concreto, a gênese de sua indiferença, a origem do medo generalizado que arrebata o sentido. 
E é isso que o noticiário vende!

Estou farta de ver holofotes plenos à mediocridade dos homens. 

É preciso entender que o Homem é maior do que é. 
É preciso compreender e amar a beleza que germina  em todas as coisas e antever a árvore frondosa e a doçura do fruto. 
É preciso valorar as pequenas delicadezas, as imperceptíveis gentilezas. 
É preciso ver a beleza que existe, talvez ainda embrionária, em cada um. 
É preciso que a alma não se renda à morte vendida nos noticiários, e ainda se mostre rendilhada e rebordada na afeição de pequenos e reiterados gestos.

Por isso eu o convido, hoje, a ter a ousadia de desligar a TV, de desconectar-se das redes sociais que tantas vezes destilam ódio, de não ler jornais. 

Convido a fazer uso do seu wi-fi interior. Da sua antena superior. E conectar-se às belezas que o circundam. Sintonizar-se com o encantamento que paira sobre o inusitado das existências anônimas, das pessoas anônimas, dos objetos e seres desimportantes. Afinal, se essa beleza nos preenche, porque haveríamos de justificar os vazios?

Goiânia, 13 de março de 2015.



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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Nicole Ayres Luz - sobre Contos de Fadas

Por trás dos Contos de Fadas
Nicole Ayres Luz - em 'Homo Literatus


Em sua origem, os contos de fadas eram bem sombrios, nada muito semelhante aos contos de fadas atuais, como vemos nas adaptações cinematográficas


Se pensamos em contos de fadas hoje em dia, lembramos basicamente das adaptações da Disney, mas as origens do gênero são bem mais sombrias. 
Se passar fome ou ser atacado por animais na floresta parecem ameaças distantes para nós, antigamente eram situações que faziam parte da realidade cotidiana. 

Na verdade, as histórias não eram voltadas para o público infantil. 
Apenas no século XVII, com a coletânea de Charles Perrault, estabeleceu-se o gênero literário, baseado em lendas da tradição europeia. 
No século XIX, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen fizeram novas versões. Essas são as fontes mais conhecidas. 
Já havia então o conceito de família burguesa, em que as crianças seriam mais protegidas, teriam seu espaço na sociedade.

O contexto social muda gradativamente, e com isso certas versões prevalecem ou se modificam. 
Cada vez mais houve uma amenização da crueldade dominante nas lendas originais. 
Na atualidade, também é muito comum que se trabalhem sátiras, como Shrek, que desmistificam o próprio gênero.

Normalmente, o primeiro contato com a ficção se faz através dos contos de fadas. 
Numa fase da vida em que a imaginação é guia para a compreensão da realidade, eles ajudam, por metáforas, a lidar com os conflitos latentes. 
Vários estudos psicológicos foram desenvolvidos nesse sentido. 
O mais famoso é Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelhein. 
Uma versão mais atualizada é Fadas no Divã, do casal de brasileiros Mário e Diana Corso, em que são comentadas desde narrativas clássicas, como Cinderela, Rapunzel, João e Maria, até tramas contemporâneas, como Ursinho Pooh, A Turma da Mônica e Harry Potter.

É muito comum que, nos contos de fadas, haja um protagonista criança e vilões encantados, como bruxas e ogros. 
Essas criaturas representariam outra faceta dos próprios pais, seu lado controlador e punitivo. 
A situação do abandono é bastante comum, como em João e Maria e O Pequeno Polegar. 
Isso acaba trabalhando a questão da autonomia da criança, que deve saber como agir sozinha em determinadas situações. 
Já quando são adolescentes ou jovens adultos, o desenlace passa a ser amoroso. 
Príncipes e princesas devem vencer obstáculos para alcançar seu final feliz, como em Branca de Neve, A Bela e a Fera, Rapunzel. 
Esse é o momento em que o jovem deixa a casa dos pais para se casar e formar sua própria família, não sem passar por conflitos diversos.

Enquanto Bruno Bettelhein defende a leitura dos contos originais, o casal Corso acredita que, além de ser difícil de recuperar as verdadeiras fontes, toda forma de ficção é válida como alimento para a imaginação infantil. 
As histórias se transformam conforme a época. 
Hoje, o maniqueísmo clássico está sendo quebrado com personagens dúbios, híbridos, humanos. 
No filme Malévola, o drama da vilã torna-se o mote central, mudando a perspectiva. 
Na série Once Upon a Time, os heróis também erram e certos vilões se redimem. 
Os caminhos são tortuosos, as escolhas difíceis, por isso os personagens hesitam em determinados momentos. Seu caráter pode ser íntegro, porém não é impecável.

Em um tempo dinâmico, ágil, de informação disponível por vários meios, a criança é estimulada cada vez mais cedo a lidar com as questões complexas da vida. 
O importante é que ela não perca sua capacidade criativa, seu jeito diferenciado, fantasioso, poético, de apreender a realidade. 
Com isso, os contos de fada continuam cumprindo seu papel.
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Referências:

CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mário. Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.

FRANCO, Maria Dorothea Barone. Malévola: um outro espaço, uma nova imagem. In: Revista Conhecimento Prático Literatura nº 60. São Paulo: Escala, 2015.


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domingo, 29 de março de 2015

Sobre a menina síria que confundiu... - Nara Rúbia Ribeiro

Há alguns dias um fotógrafo capturou, na Síria, a imagem de uma criança que se rendeu em frente sua câmera. Segundo informações do site Huffington Post, a pequena levantou os braços ao confundir a câmera com um rifle.
Sobre a menina síria...
Nara Rúbia Ribeiro - página 'CONTI outra arte e afins'

Quando ainda menina, lia muito Drummond. Achava um exagero ele dizer que chegaria um tempo de absoluta depuração, em que “(…) os olhos não choram./E as mãos tecem apenas o rude trabalho./E o coração está seco.” 
Mas hoje eu vi no noticiário uma cena muito peculiar, e a verdade do poema me veio à alma, imediatamente. 
Um fotógrafo, ao tentar retratar a vida das crianças sírias, conseguiu captar não a frieza deste mundo, mas já a sua consequência. 
Ele enquadra a criança em sua lente e essa levanta os braços, rendida, pensando ser uma arma.

Deus! Que mundo é este, onde a inocência caminha de mãos levantadas e a alma do mundo não sangra, e os olhos dos homens não choram, e a dor já não nos pode chocar? 
Que mundo é este cujos avanços tecnológicos não encontram eco na evolução moral dos indivíduos e onde só o que conta são os cifrões?

Um mundo cujo colorido já não é convidativo aos olhos. Onde a beleza é preterida. Onde a pureza dos pequeninos ainda é roubada e banhada do sangue de seus pares, de seus pais e, não raro, do seu próprio sangue. 
Um mundo cujas crianças já têm a esperança prematuramente envelhecida pela dor que transborda dos noticiários e que não raro floresce ao seu lado. 
Um mundo em que, a cada dia, o homem teme mais e mais o próprio homem.

Frequentei um curso, há um tempo, e algo me deixou sobremodo perplexa. 
O instrutor mostrava-nos diversos vídeos com acidentes causados por veículos. 
Em dada situação, um homem fora atropelado por não olhar para a sua direita quando um carro vinha na contra mão.  
Alguns dos colegas, a maioria jovens entre 18 e 25 anos, riram da cena. 
Noutro atropelamento, a maioria riu. 
Esboçaram alguma comoção, leve, quando uma criança foi atropelada. 
(...)
A dor do outro é estatística. “Quantas mortes, mesmo, na Síria? Quantos desabrigados no Acre? Quantas mulheres são agredidas por ano? Quantas crianças são estupradas por parentes próximos?” 
Não! Essa postura desmerece o infinito que somos, desautoriza a angelitude a que estamos destinados, desmente a centelha do Eterno que permeia a alma de cada um de nós!

Necessitamos ver o outro como parte desprendida, mas ainda ligada a nós por laços infindáveis de natureza espiritual. 
Ninguém pode ser plenamente feliz enquanto um só de nós estiver de braços levantados, rendida criança assustada pelos estrondos da guerra, cativa da dor e da morte. 
Esfomeada de uma Justiça que ela não pode compreender ou dizer, mas, humana que é, já a pode desejar e de sua falta se ressentir.

Que esta criança que hoje vi de mãos levantadas por confundir a câmera com uma arma possa ainda, é o que utopicamente desejo, levantar novamente as suas mãos, mas não por medo. 
Que ela ainda possa, na pontinha dos pés, elevar os seus braços para brincar com as estrelas.


*            *           *

E agora, o ABSURDO ainda maior.  De qualquer modo, o texto acima é impactante, movido pela sensibilidade que falta à maioria das pessoas. 
A mentira descarada não é mais 'privilégio' individual. A grande mídia aderiu.  A pergunta é : como saber quem está mentindo?
Tenho que concordar com a frase "A humanidade fracassou."
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Desvendado mistério de foto viral de criança síria que "se rende"


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  • Osman Sagirli
    Foto que viralizou foi tirada pelo fotógrafo turco Osman Sagirli
    Foto que viralizou foi tirada pelo fotógrafo turco Osman Sagirli
Milhares de pessoas compartilharam a imagem de uma criança síria com as mãos para cima, como se estivesse se entregando, ao confundir a câmera fotográfica com o cano de uma arma.

Mas quem fez este flagrante?

A imagem começou a viralizar no Twitter na terça-feira da semana passada, quando foi postada por Nadia Abu Shaban, uma fotógrafa baseada em Gaza.

A mensagem original foi retuitada mais de 11 mil vezes. "Estou chorando", "muito triste" e "a humanidade fracassou" foram alguns dos comentários.

Na sexta-feira, a imagem foi compartilhada no Reddit, onde recebeu mais de 5.000 votos positivos e 1.600 comentários.

Não demorou para que surgissem acusações de que a foto era falsa. Muitos no Twitter questionaram quem seria o autor da foto e por que a imagem havia sido postada sem crédito.

Nadia confirmou que não tinha tirado a foto, mas não sabia explicar quem havia feito a imagem.

No Imgur, um site de compartilhamento de imagens, um usuário pesquisou a origem da fotografia - um clipping de um jornal - e disse que ela era real, mas tirada "por volta de 2012". A mensagem também nomeou o fotógrafo: o turco Osman Sagirli.

A BBC conversou com Sagirl, que agora trabalha na Tanzânia, e desvendou o mistério.

A criança é uma menina, Hudea, de 4 anos. A imagem foi tirada no campo de refugiados de Atmeh na Síria, em dezembro do ano passado. Hudea viajou ao campo - a cerca de 10 km da fronteira turca - com a mãe e dois irmãos, a 150 km da cidade deles, Hama.

"Eu usei uma lente de telefoto e ela pensou que fosse uma arma", disse Sagirli.

"Depois que eu tirei, eu olhei [para a foto] e percebi que ela [a criança] estava assustada, porque ela mordeu os lábios e levantou as mãos. Normalmente, crianças correm, escondem os rostos ou sorriem quando veem uma câmera", disse.

Ele diz que fotos de crianças dos campos de refugiados são especialmente reveladoras.

"Você sabe que há pessoas que foram desalojadas nos campos. Faz mais sentido ver o que elas sofreram através das crianças e não dos adultos. São as crianças que refletem os sentimentos com a inocência que têm."

A imagem foi publicada inicialmente no jornal "Türkiye" em janeiro e foi amplamente compartilhada pelas redes sociais em turco, mas só na semana passada se tornou viral em mídias na língua inglesa.
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