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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS - Brincadeiras

Que coisa... ontem, publiquei um texto de Mia Couto homenageando Manoel de Barros. 
Eu não poderia imaginar  que hoje o poeta das coisas simples voaria de volta pra casa...

Fica registrada também a marca da milésima postagem no blog, que eu desejara mais alegre...



A Infância - Brincadeiras
Manoel de Barros (1916-2014)

No quintal a gente gostava de brincar com as palavras
mais do que de bicicleta.
Principalmente porque ninguém possuía bicicleta.
A gente brincava de palavras descomparadas. Tipo assim:
O céu tem três letras
O sol tem três letras
O inseto é maior.
O que parecia um despropósito
para nós não era despropósito.
Porque o inseto tem seis letras e o sol só tem três
logo o inseto é maior. (Aqui entrava a lógica?)
Meu irmão que era estudado falou quê lógica quê nada
Isso é um sofisma. A gente boiou no sofisma.
Ele disse que sofisma é risco n'água. Entendemos tudo.

Depois Cipriano falou:
Mais alto do que eu só Deus e os passarinhos.
A dúvida era saber se Deus também avoava
Ou se Ele está em toda parte como a mãe ensinava.
Cipriano era um indiozinho guató que aparecia no
quintal, nosso amigo. Ele obedecia a desordem.

Nisso apareceu meu avô.
Ele estava diferente e até jovial.
Contou-nos que tinha trocado o Ocaso dele por duas andorinhas.
A gente ficou admirado daquela troca.
Mas não chegamos a ver as andorinhas.

Outro dia a gente destampamos a cabeça do Cipriano.
Lá dentro só tinha árvore árvore árvore
Nenhuma idéia sequer.
Falaram que ele tinha predominâncias vegetais do que platônicas.

Isso era.


*            *            *

segunda-feira, 18 de março de 2013

MANOEL DE BARROS - Soberania


Soberania
Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que 
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito 
e eu não consegui pegar. 
Eu teria sete anos. 
A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. 
Meus irmãos deram gaitadas me gozando. 
O pai ficou preocupado 
e disse que eu tivera um vareio da imaginação. 
Mas que esses vareios acabariam com os estudos. 
E me mandou estudar em livros. Eu vim. 
E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio. 
E dei de estudar pra frente. 
Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. 
Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. 
Aos homens de grande saber. 
Achei que os eruditos 
nas suas altas abstrações 
se esqueciam das coisas simples da terra. 
Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo— o Alberto Einstein). 
Que me ensinou esta frase: 
A imaginação é mais importante do que o saber. 
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. 
Botei um pouco de inocência na erudição. 
Deu certo. 
Meu olho começou a ver de novo 
as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. 
E vi as borboletas. 
E meditei sobre as borboletas. 
Vi que elas dominam o mais leve 
sem precisar de ter motor nenhum no corpo. 
(Essa engenharia de Deus!) 
E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras 
sem magoar as próprias asas. 
E vi que o homem não tem soberania 
nem pra ser um bentevi.

*            *            *

- in "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MANOEL DE BARROS - O casaco

O casaco
Manoel de Barros

Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo.

Tentou sair da angústia.
Isto ser:
... Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.

Ele queria amanhecer.


*        *        *

quinta-feira, 29 de março de 2012

MANOEL DE BARROS - Mundo pequeno

Tela de Almeida Jr

Mundo Pequeno
Manoel de Barros


VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.

Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.

- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.

Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma

Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

*        *        *

In:  “O Livro das Ignorãças”


quarta-feira, 21 de março de 2012

MANOEL DE BARROS - Um vidro mole

Um vidro mole
Manoel de Barros

O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole...

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz...
se chama enseada...

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

*        *        *