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sábado, 19 de novembro de 2011

CASSIANO RICARDO - (Depois de tudo)

Tela de Salvador Dali
Depois de tudo
Cassiano Ricardo


Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

*            *            *

sábado, 23 de julho de 2011

CASSIANO RICARDO - (discurso)


(Trecho do discurso de posse na Academia Brasileira de Letras)

Quando estou triste, leio Musset. Se a minha tristeza tem um sabor português (há uma tristeza para cada terra) recorro ao Antônio Nobre que é mais chegado à intimidade de minha raça.

Quando estou áspero, exaltado no meu apego à terra, leio Euclides de Os Sertões.

Quando necessito de mocidade para meu espírito, leio o velho João Ribeiro nacional ou o velho Bernard Shaw estrangeiro.

Quando fico meio céptico, que fazer? Sirvo-me do Anatole dissolvente para dissolver em água-de-rosas o meu cepticismo.

Quando me ponho a brincar com realidades mais sérias, leio o incrível Wells.

Quando quero escarnecer dos homens, leio Voltaire.

Quando estou farto de artifício literário e procuro maior soma de verdade humana e profunda, leio Cervantes.

Quando me enfastiam as verdades correntes ou os conceitos usuais da vida, agarro-me a Chesterton. Poderia fazer o contrário: ler Voltaire ou Juvenal quando me sentisse triste e Musset ou Antônio Nobre (ou o nosso Rodrigues de Abreu, tão humilde na sua desesperança) quando me sentisse alegre. Mas não. O mal cura-se com o próprio mal. O bem paga-se com o próprio bem.

A estante de minha sensibilidade é feita de momentos. E cada escritor tem, aí, o seu momento próprio e inevitável.

Também, quando quero ser simples ou ser eu mesmo, expulso essa gente toda do meu convívio. Abro a janela que dá para a vida e restabeleço, como disse alguém, as minhas relações líricas com a Natureza.

E faço de cada dia uma página branca.

E faço de cada noite uma reticência de estrelas..."


*                        *                       *

segunda-feira, 11 de julho de 2011

CASSIANO RICARDO - (Ninguém mais)


NINGUÉM MAIS
Cassiano Ricardo

Quando pergunto alguma coisa
ao silêncio da hora triste,
não sei de onde uma voz me responde.

Quando olho no espelho do rio,
no azul sem mágoa da planície de água,
vejo alguém que me espia longamente...

Quando vou pela estrada
que serpeia no oceano de areia
sob a lua que me ilumina o passo incerto,
noto que um vulto, alguma sombra estranha,
pelo caminho me acompanha...

Tenho três amigos:
meu eco,
minha imagem,
minha sombra.

*        *        *