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domingo, 13 de abril de 2014

GRAÇA TAGUTI - Ninguém consegue viver de janelas fechadas


Ninguém consegue viver 
de janelas fechadas
Graça Taguti - "Revista Bula"

Imagine abrir sua janela ao acordar e, do mesmo modo que as lagartas magicamente se borboleteiam pelas paisagens da vida, encontrar uma fruta que se oferece a você.
Clama por seu gesto de sorvê-la inteira. Entregando assim sua gratidão a um dos tantos presentes que a natureza diariamente lhe dá, sem exigir nada em troca.

Saber receber é uma arte. Abrir os braços, o sorriso, o corpo e o coração e dispor-se aceitar quem estende o afeto a você.
Receber exige coragem. Integridade. Desejo. Iniciativa. Transparências do querer genuíno.
Quantas vezes ansiamos por algo ou por alguém, mas amortecemos as vontades, anulando-as até, enquanto trancamos nossas demandas nas gavetas da privação.

Por absurdo que pareça é mais fácil morrermos de fome. Agarrarmo-nos a uma soberba imbecil, estruturada na deplorável e ilusória onipotência de sermos autossuficientes. Autotróficos como as plantas, que extraem do solo a nutrição de que necessitam.

Mais fácil esbofetearmos os ventos da amorosidade que nos acariciam os sentimentos. Cuspirmos na possibilidade de promovermos sinergias junto a alguém.
Seja no trabalho, nos relacionamentos sociais, ou nos pares que pretendem abrir-se para os aconchegos da intimidade.

O medo de perder anuncia-se sob várias roupagens e disfarces – e é, além de costumeiro, renitente visitante da nossa existência. Enraizado nas couraças do espírito e aparentemente irrevogável.

Por que provarmos do mel, acendermos nossa gula se poderemos perdê-lo repentinamente? Melhor equivaler seu gosto ao do fel — recusando, então, o favo que nos provoca.

Você pode apossar-se da faca que reina afiadíssima em sua cozinha. Enterrá-la de vez no cérebro, sem qualquer anestesia. Expulsar do crânio sangrento e agonizante os neurônios que julga imprestáveis. Soldados do exílio voluntário. Apologistas das vantagens da solidão. Guardiões de silêncios nefastos, porque avessos às manifestações de carinho. Como, por exemplo, a dedicação às causas sociais deste mundo apodrecido que tanto nos constrange.

Coma a fruta, vai. Aceite a flor. Namore a borboleta que baila suas cores, bem diante dos seus olhos surpresos. Ela apresenta seu espetáculo, ondulando no ar da poesia, toda feliz e de graça.
Coma a fruta, vai. Aceite a ajuda de um parceiro de caminhada para chegar àquela cachoeira tão bela quanto escondida dos visitantes nas matas.
Prefere pêssegos, caquis, mangas — uma goiaba madura e vermelha?

Jogue o orgulho no lixo. Você mora só, jura ser independente por todos os poros, mas não consegue dar o nó na gravata. Subir o zíper do vestido. Matar a barata enorme e cascuda que o encara feroz no teto da sala.

A vergonha de pedir ajuda é tão estúpida quanto a sua recusa em declarar amor a quem o rodeia. Fraqueza solicitar auxílio. Disso você não duvida.
Outro gesto impensável é pedir perdão. Esta humilhação inadmissível não pode manchar seu currículo atitudinal.

E assim vamos sobrevivendo — ou melhor levitando, como autômatos neste planeta. Roubando romances jamais experimentados de páginas literárias já gastas. Angariando sonhados momentos, valendo-nos das muletas da imaginação que tingem de cores atraentes algumas cenas do filme a que resolveu assistir.

Quanta covardia. Esconder a premência do amor atrás das portas do cotidiano. Esmagar a linda borboleta com suas mãos cegas e insanas. Arrancar do galho a fruta mais desejada e atirá-la ao chão, triunfante, num arremedo de falido desdém.

Nem sempre percebemos o inverno que nos invade. Tiritamos de frio, porém permanecemos inconscientes.
Expomo-nos a pneumonias na alma.
Vestidos de acintosa nudez, trocamos nossos braços de abraçar pelo repúdio dos galhos secos e mortos.

Felizmente a vida se revela em ondas, ciclos, luzes distintas. Nada permanece igual. Nem mesmo a maldade, a tristeza ou a insensibilidade. Nem mesmo o medo agarrado a você como uma criança pequena e indefesa.

Pode ser que as janelas agora estejam fechadas. Mas estamos sujeitos a descuidos, distrações ou aos ímpetos de ventanias.
É neste instante que as frutas se oferecem novamente. E mais uma vez você tem a chance de colhê-las.



*            *            *


domingo, 22 de dezembro de 2013

GRAÇA TAGUTI - Se falta luz no fim do túnel...

Se falta luz no fim do túnel, acenda uma lanterna
Graça Taguti - "Revista Bula"

Era mulher, homem, alguém em trânsito, metamorfose ambulante. Era nuvem passageira, melodia guardada na garganta, oxigênio asfixiado em garrafa vazia e esquecida na dispensa das saudades, arco-íris de carne e osso. É certo que perambulava, às vezes deslizando feito garça, por um túnel escuro e comprido.

Conhecia o velho ditado que sorridente afirmava, passando entre bocas anônimas “sempre há luz no fim do túnel”. Por isso, mesmo sem se dar conta, nos seus entremeios pela vida, sabia que não havia noite que durasse madrugadas adentro.

As alvoradas todos os dias se anunciavam em sua janela. Ainda que na ausência do sol. Ou na presença da chuva. Mas eram as manhãs que invariavelmente nasciam, cinzentas ou douradas, espreguiçando-se como bebezinhos um tanto atordoados.

Muitas vezes a tal mulher, ou o tal homem, ou simplesmente alguém em trânsito se questionava sobre como agir em meio à escuridão. Aludia aos  séculos passados nos quais não havia luz elétrica e as pessoas se contentavam com candeeiros, candelabros, bengalas e olhe lá.

De repente, uma metamorfose ambulante pensou. E se eu engolir um par de vagalumes. Talvez pérolas negras. Ônix, aquela pedra preciosa negra, quase sisuda, mas linda e poderosa.

Sim porque, dentre tantos transeuntes entorno, simbolizados inúmeras vezes pelas figuras de linguagem que nos cercam; arremedos, por exemplo de nuvens passageiras, sabiam que, em determinados momentos, e até em encruzilhadas assustadoras, era possível enxergar coisas e situações com outros olhos. Os olhos de dentro.

Certa vez, uma melodia guardada na garganta, ao enfrentar impiedosa nevasca em território americano, notou que as pessoas dirigiam seus carros, guiadas por outros faróis. Faróis de neblina com alguns acessórios acoplados.

Um arco íris em carne e osso recordou também de uma época em que,  ao exercer a função de repórter, como jornalista de uma grande editora, entrevistara gente com deficiência visual grave, inclusive um casal de cegos de nascença, casados já há muitos anos.

“E como vocês fazem para encontrar o que necessitam em casa…para fazer amor…manter as esperanças de pé, quando parece que o mundo virou do avesso ou resolveu deixar vocês para trás?!”

“Como é possível enxergar luz ao final dos túneis da existência, pelos quais invariavelmente todos passamos?” Outra metáfora foi lançada pelo irisado repórter aos gentis entrevistados.

“Damos as mãos, caminhamos pelas beiradas do concreto longo e frio. Às vezes minha mulher segue à minha frente, desvendando oportunidades no trajeto. Em outras ocasiões, eu assumo a dianteira durante este percurso” — explicou o marido.

Ambos cegos de nascença, mas sedentos por cultura, cultivaram desde cedo o hábito de escutar audiolivros. Aprenderam muito. Ressaltaram o  fato, quase ao final da entrevista, citando grandes criadores em áreas diversas das artes, ciência, literatura, portadores de enormes desagravos físicos, terem enfrentado com audácia e tenacidade transtornos do destino.
Como Beethoven, o magistral compositor, cujas algumas de suas mais portentosas obras surgiram durante o processo de surdez irrevogável. Ou o escritor argentino, Borges, portador de cegueira hereditária, que começou a ficar cego na infância, devido a uma degeneração genética da retina, herdada do pai. Os espelhos, aliás, refletindo a procura da identidade, eram um tema recorrente em sua obra.

Outra moça, como se tivesse deixado por longo tempo sua capacidade de respirar, o oxigênio asfixiado em uma garrafa vazia e órfã, nos contou que sofrera, aos 37 anos, sério acidente de carro, exatamente quando atravessava após mais um dia de trabalho, um túnel pouco iluminado. Linda, feliz, generosa, sempre amada, a moça, professora de educação física, ficou paraplégica.

Sim, trágico. O mais fácil, lamber feridas, se auto vitimizar, passar a cozinhar em fogo lento rancores no espírito revoltado. Mas não. Ela nascera para encarar a vida sem dó nem piedade. Ainda que frequentemente surgissem em seu caminho percalços como esse, irrevogavelmente danosos.

A moça começou a ajudar cadeirantes, preparando-os para torneios de basquete paraolímpico. Em meio aos treinos, conheceu alguém, técnico de outra equipe. “Quando a luz dos olhos meus encontra os olhos teus” a música soou baixinho, quase sem querer se anunciar, no peito de ambos.

A paixão esticou os braços para o alto, à espera do amor, que aos poucos aterrissava entre os dois. Seu namorado não possuía qualquer problema físico. Mas também não tinha encontrado uma companheira bacana de verdade, até se deparar com a alegria, energia e graça desta brava criatura.

Atravessar túneis longos e escuros, reais ou imaginários, acreditando haver luz ao término do percurso é no mínimo algo ingênuo.  A não ser quando se trata de vencer enormes desafios íntimos. Pois a morte, em aparente desgoverno, dissimulada como o véu preto e soturno que a recobre, pode cruzar conosco. Assim é preciso estar atento e forte. Não acreditar em milagres a torto e a direito já é um passo e tanto. Porque muitas vezes eles precisam das nossas mãos do nosso cérebro e do nosso coração para se manifestarem.

Então, que tal andar por aí, pelo menos, sempre com uma lanterna?


*            *            *

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Graça Taguti - crônica sobre a Felicidade



"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe"
Graça Taguti
Felicidade não tem segredo. Mas  só sente  quem está vivo. E não quem finge, como grande parte dos indivíduos. 
Oscar Wilde profetizava que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Algumas felicidades são tão compridas que não cabem na boca. Nem nos sonhos.

Sabe aquele bombom recheado com mousse e licor, foi abocanhado pela gula. O sorvete de cerejas com nata, escorrendo sem vergonha casquinha afora, evaporou. O por do sol multicor todo oferecido, esticando os últimos raios, pra seduzir quem o observava pasmo, foi dormir no meio de alguma nuvem vestida de edredom.

Já repararam nas músicas sobre felicidade? “Tristeza não tem fim; felicidade sim.” “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar.” “Felicidade foi embora e a saudade no meu peito ainda mora.” É felicidade que não acaba mais, se multiplicando nas letras da MPB.
A publicidade de um refrigerante todo esfuziante bota pra cantar em seu slogan e música. “Abra a felicidade, vem curtir comigo o dia já vem.” Marcas em profusão alardeiam a propriedade com firma reconhecida deste sentimento que, junto com a paz, é um dos mais cobiçados nesta vida.

Felicidade é êxtase. Paraíso. Levitação. Ir embora para Pasárgada e se esquecer de voltar. Mergulhar os pés depois de andar pela areia quente num abraço de mar, fresco e generoso. 
Ver o bebê arrotando, finalmente, depois de tomar com gosto a mamadeira dos deuses.

Reflexão espinhosa: dá pra ser feliz assim, com a alma nua e crua, andando sem pressa pelas estradas do acaso, apenas de mãos dadas com tão acalentador sentimento. Você consegue?

A inspirada escritora Adriana Falcão jura que “felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma”. Então, para com o reboliço, fica quieto, sente as vibrações em torno, apenas curtindo esse estado de nirvana explícito. Será que a ansiedade aguenta? — há controvérsias.

O filósofo Nietzsche atira seus dardos: “A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez”. 
Fernando Pessoa revela “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. 
Por sua vez, Drummond rasga o verbo e arremata: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.

Pronto, ferrou. Precisava o Drummond nos colocar contra a parede das nossas aflições, fixar bem nos nossos olhos e dizer de um novo modo, conforme a paródia a seguir. 
Será que você consegue ser feliz à toa? Dono e proprietário exclusivo daquela felicidade virgem de carências, satisfeita só por constar nos experientes e folheados dicionários de lexicógrafos. Tem resposta pra isso, ou não?

Antônio Houaiss, mestre Aurélio, dentre outros dicionaristas sagazes nunca desistiram de correr atrás, como crianças caçando borboletas, da semântica dos vocábulos.

O que é mesmo ser feliz, hein? Ir a festas, bares, baladas, tomar todas, ficar com todas e todos, mexer o corpo até o sol raiar e o sono apertar. 
(...)
Felicidade é uma calça jeans azul e desbotada, berra um jovem idealista lá dos anos 1980. Banho de cachoeira mineira. Caminhada ecológica sobre feno dourado. Namoro esparramado de frente pra lua, mais redonda impossível. O primeiro beijo, o primeiro sutiã a gente nunca esquece. A primeira surra também. 
Aí costuramos uma infindável fileira de momentos virginais, feito rosário de novena, em ocasiões distintas do nosso dia a dia.

Passar no vestibular. Oh yeah.  Formar-se na faculdade, ostentando a beca e o canudo na maior moral. 
Conhecer paisagens exóticas, horizontes intocados, aconchegar uma panda contra o peito, imitar passarinhos pra eles comerem alpiste direto na concha da nossa mão.

Uma criança outro dia contou bem baixinho pra sua mãe que gostava de ajudar  pessoas sem nome, os meninos e meninas, atulhados de balas e doces, oferecidos na beira  dos sinais vermelhos. Guloseimas que juram tornar mais leve a vida dos motoristas. 
A mãe ouviu e ficou preocupada, com o inesperado despojamento do garoto, que fugiu à cartilha dos ensinamentos paternos e resolveu abrir os afetos para perigosos estranhos. Todos do lado de fora da sua casa.

Walter D.Ehlers, herói de guerra americano, avisava sem alardear: “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”. 
Acontece que a gente não aguenta, né. 
Não basta admirar a rosa que se expõe irresistível na roseira. É preciso arrancá-la de lá. 
O passarinho, verde que nem uma folha será um periquito? Direto pra gaiola, já. Condenado a enfeitar na varanda nossas pequenas e esgarçadas alegrias.

Aristóteles sentenciava que “a felicidade é para quem se basta a si próprio”.

No filme “A Felicidade Não se Compra” de 1946, Frank Capra, James Stewart, Dona Reed, se imiscuem nas mensagens que permeiam a obra — cada um de nós é importante sobre a terra. 
Em “As Duas Faces da Felicidade” (Le Bonheur, 1965) de Agnès Varda, o enredo passeia entre imagens belíssimas e as contradições inerentes ao próprio sentimento, tantas vezes dúbio.

Um campo de girassóis explode em nossos olhos, uma ofuscante sensação se exibe sem culpas nem pudor. 
Então, dá pra ser feliz escancaradamente, sem achar que está, nos escuros cantos do coração, roubando de alguém uma farta porção de felicidade? 
Se deliciar longamente, em festas de aniversário, devorando pedaços de bolo com creme, esquecendo-se dos outros convivas.
Egoísmo incomoda como um calo no sapato. 
O bem-estar e as decorrentes fruições atiçam raiva e inveja em muita gente. Porque riqueza de espírito é algo que não se amealha, nem acumula, como gordas poupanças e investimentos  bancários.  
A felicidade  cresce e se anuncia  dentro do peito, sem pressa e sem ruído.

O que se faz, entretanto, quando o voraz capitalismo e a publicidade teimam em plantar entre nossos desejos, inimagináveis  e avassaladoras  necessidades? A grande conquista é ter. Tenho, logo sou. Possuo, logo existo — ecoa a máxima nas luxuosas sociedades.

Uma dúvida: felicidade será irmã gêmea da alegria. Cordão umbilical da satisfação plena. Coro residual de gargalhada altissonante? Vai ver que não. 
Ela pode ser bem quieta. Discreta, mesmo.  Deslocar-se pé ante pé no cotidiano. Deslumbrar-se em silêncio com o húmus das plantas amanhecidas. Os ovos do bem te vi, guardados com cautela, à espera de eclodir.

Felicidade pode ser assim também: uma felicidaaade larga toda a vida, que não cabe na boca, nas mãos. Não se acomoda nos seios, circunda as manhas do ventre, envolve as promessas delirantes das inquietas coxas. Sempre inquietas, essas coxas. Ahhh. Quem aguenta?
*            *            *

domingo, 21 de julho de 2013

GRAÇA TAGUTI - 'Revista Bula'

Tristeza é vírus. Tome uma vacina
Graça Taguti -  'Revista Bula', 20 de julho de 2013

Piolho pega, bocejo pega, conjuntivite idem e euforia às vezes nos contagia (sobretudo durante o carnaval). A tristeza também não foge à regra. Ela manda seu recado, em sussurros, dirigido aos desatentos indivíduos deste século. Mas pega mal ficar triste. “Maior caô”, “pagação de mico” entoa a galera lá do alto da exuberância dos seus vinte e poucos anos. Ficar xoxo, amuado, macambúzio, lamuriento não combina com a alegria prozac, nem com a metáfora da cocaína atitudinal, refletida nos tempos modernos.

Sai pra lá urubu, te esconjuro, coisa cinza. Engraçado, né, quando paramos para analisar certas regras e ditames contemporâneos, relativos às sugestões de bom comportamento.

Hoje é proibido ser criança demais. Chegou aos seis anos, foi promovida de garotinha à mocinha. Especialmente se a criança já tiver incorporado o hábito de fazer as unhas aos sábados na manicure. Mãozinhas afoitas, rechonchudas e vaidosas, pertencem à compenetrada mocinha no salão, que muitas vezes troca a boneca pelo tablet ganho recentemente de presente do pai.

Hoje também é proibido envelhecer. Dá a maior deprê, confirma a gíria. Então, se apresse e separe uma grana aí para tratamentos estéticos intermináveis e cirurgias plásticas pagas a perder de vista no crediário das ilusões teimosas.

Aliás, a gente tem que vestir uma espécie de verbo no gerúndio durante nossa existência, de modo a entrar de cabeça neste processo contínuo de “estar sendo” sempre. É exatamente deste jeito: com o passado, o presente e o futuro embutidos neste tempo verbal, no qual deslizamos nossa vida-móvel pelo cotidiano — e tentamos, desesperadamente, congelar as rugas. Condenar a flacidez ao exílio. Uma questão de higiene se manter jovem, vale esclarecer.

As pessoas acham que talvez assim enganem os relógios. Consigam empurrar os desalentos pra bem longe. Os homens também, na atualidade, não escapam a estas crenças, tão assentadas em clínicas de estética afinadas com as demandas viris. Mascaras para peles oleosas, secas, inseguras e até desacreditadas pela ala feminina.

A tristeza, se a gente não ficar de olho, pode virar epidemia (claro que camuflada, debaixo dos tapetes da cordialidade, sociabilidade e comedimentos — posturas sempre exigidas de nós).

Gustave Flaubert, escritor francês do século 19, já advertia sabiamente: “Cuidado com a tristeza. Ela é um vício”.  Jean-Jacques Rousseau, filósofo e escritor suíço do século 18 sublinhou certa vez: “A alma resiste muito mais facilmente às mais vivas dores do que à tristeza prolongada”.

Alguns médicos acreditam na somatização. Afirmam que a tristeza, quando é muito grande, não cabe dentro do corpo e aí vira insônia, depressão, apatia e câncer.

Haverá algum antídoto contra este decadente sentimento? Dizem que o governo começará a distribuir em breve, assim como faz com a vacinação contra a gripe, vacinas contra os soturnos crepúsculos que às vezes atravessam nosso peito.

Os políticos, por sinal, já estão fartos de ver o povo rodeado de #mimimi, fazendo beiço diante das falcatruas em série (de antemão já absolvidas — importa esclarecer — na pia batismal do próprio congresso). Pau que nasce ruim fica torto. O antigo ditado prega mais ou menos isso. Aproveitamos, então, para acrescentar: roubalheira que nasce faceira só se enfeita mais, à custa, por exemplo, dos impostos que nos corroem como ratazanas frente a um gorduroso queijo amarelo.

Mas o povo nem se toca. Engrossa o coro atrás do pobre gigante que, dormindo há séculos em berço esplêndido, tem sido, ultimamente, acordado às sacudidelas. Tudo pelo social.  Deixa te depenar, o gigante resmunga. Entretanto, parece que o povo sozinho já decidiu se despedir da fantasia de palhaço e sair de cara limpa nas ruas. Ou, então, mascarado, quando quer competir com o visual robótico das tropas de choque. Sai pra lá Zé Mané, que os ladrões te pegam no pé.

Vinícius e Tom Jobim, saudosos poetas, também suplicavam em uma de suas canções: “Tristeza, por favor vá embora, minha alma que chora está vendo o meu fim” . A música virou até marchinha de carnaval, amuleto para a alegria e comemoração de novos amores, salpicados de confete e lança-perfume nas noites regadas a folia.

Em 1954, aos 19 anos, a jovem Françoise Sagan, lançava seu primeiro livro: “Bonjour Tristesse” (Bom Dia Tristeza), em Paris, percorrendo as vielas do romance psicológico francês. Inspirada no existencialismo de Sartre e em Simone de Beauvoir, a jovem escritora aderia ao modismo de cultivar uma prosa seca, quase austera, na qual os personagens se deixavam envolver pela solidão.

Mas, voltando à nossa rotina, imagine se, logo ao acordar, você decide oferecer seu abraço à tristeza, com um ensolarado bom dia. Receita quase infalível contra a angústia e outras perebas que ameacem se alojar na sua pele ou invadir seu coração. Uma recepção destas, garantimos, é tiro certeiro contra as sombras. E, melhor que tudo, deixam qualquer vacina no chinelo.


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BOM  DIA!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

"ESPELHO, ESPELHO MEU..." - Graça Taguti


Espelho, espelho meu: existe alguém tão sem rosto quanto eu?
Graça Taguti -  "Revista Bula"

Sinistro, definiria a gíria da galera jovem. Ou seria macabro? Talvez gótico expresse melhor a semântica dos espelhos, cuja polissemia perpassa campos distintos da cultura e das artes.
Aonde se esconderam meus camuflados caleidoscópios psíquicos, encarregados de iluminar até as sombras de todos os mosaicos que habitam meu corpo, gestor máximo de uma catedral-pagã?
O espelho traduz suas simbologias, participando de discursos poéticos, mitológicos, literários, religiosos e artísticos, entre outros.

Assume fartas conotações na metafórica agenda de possibilidades de que se constitui.
Espelho é interface — comunicação — passagem — janela — revelação — acesso — imersão — multiplicação — olho — retrato — fragmentação. Uma relação inegavelmente tensa entre o homem e sua própria imagem.

Na mitologia, podemos destacar “Metamorfoses”, do poeta romano Ovídio, que constitui o primeiro escrito a evocar o mito de Narciso — um jovem, excepcionalmente bonito e sedutor, que acaba se apaixonando, após mirar-se em uma fonte, pela própria imagem na água, supondo tratar-se de alguém, que não ele mesmo. De tanto contemplar-se, todavia, deixou-se morrer.

No “Dicionário dos Símbolos”, Jean Chevalier nos apresenta algumas acepções recolhidas da sinonímia dos espelhos: “o que reflete o espelho? A verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência. Ele é, com efeito, símbolo da sabedoria e do conhecimento, sendo o espelho coberto de pó aquele do espírito obscurecido pela ignorância”.

Ainda na vertente da bruma metafórica, da confusão permanente em que os espelhos nos enredam, Cecília Meireles oferece seu poema “Retrato”: “Eu não tinha este rosto de hoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo./Eu não tinha estas mãos sem força,/ tão paradas e frias e mortas/ eu não tinha este coração/ que nem se mostra/ Eu não dei por esta mudança/tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

Sylvia Plath, exponencial e melancólica poeta americana — que se despediu da vida aos 30 anos em 1963 — divaga ferozmente, diante da reluzente interface: “Sou prateado e exato./ Não tenho preconceitos. / Tudo o que vejo engulo imediatamente./ Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão./ Não sou cruel, apenas verdadeiro — O olho de um pequeno deus, de quatro cantos. (…) Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,/ Buscando na minha superfície o que ela realmente é. Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua. (…) Sou importante para ela. Ela vem e vai./ A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão. Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha sobe em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível”.

Sempre anunciando os temores do incognoscível, como depreendemos nos versos aflitos de Plath, o espelho, interface-matriz, das inúmeras outras que dele se desdobram, alça novos voos e alcança a literatura, como no famoso conto Machadiano de mesmo nome. A certa altura, o escritor sentencia: “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”.
O singular conto retrata o pitoresco caso de um homem que reconhece a própria existência, na vida dita real, apenas quando veste uma farda de alferes e se contempla diante do espelho da casa aonde morava. De outro modo, trajando roupas comuns, a personagem não mais consegue se enxergar, quando desafiada pelo instigante objeto.

Ao se desdobrar nas artes, o espelho também imiscui no cinema. Em alguns filmes emblemáticos, nosso protagonista denuncia diversos aspectos sub-reptícios ou dissimulados da condição humana.

Na “Queda da Casa de Usher”, de Jean Epstein, longa-metragem baseado em um conto de Poe, assistimos a decadência de uma família aristocrática, culminando num incêndio devastador atestado finalmente por um espelho — que denominaríamos o espelho dos finais.

Temos “A Dama de Shangai”, de Orson Welles — obra noir, repleta de louras assassinas, detetives, jogos de luz e sombras, comparsas enroscados em toda ordem de permissividades — retratados num ilusório labirinto construído por inúmeros espelhos — cuja função, além de aturdir o espectador, consiste em conferir maior suspense à trama: classificaríamos estes como espelhos da ambiguidade, ou melhor, da amoralidade — que reputam como éticos qualquer gesto ou intenção espúria?

Apontamos ainda o memorável “Janela Indiscreta”, de Hitchcock .
Através dela um homem em uma cadeira de rodas, observa passivamente por meio de um binóculo, seu dispositivo de controle, uma série de acontecimentos.
Alguns inclusive graves, como um crime, se desenrolando no prédio à frente: eis o espelho da alienação.

Ou ainda descortinamos uma das geniais sequências de “Drácula”, de Bram Stoker, na qual o espelho recusa-se a refletir a imagem dos seres inumanos e proscritos, sequer revelando suas sombras: temos aí o espelho crepuscular da alma .

Agora, um clássico da literatura infantil que ganhou as telas: “Branca de Neve e os Sete Anões”. Nesta história assoma a inveja da rainha da personagem título, que nos traz, em toda a pompa, o espelho das vaidades.
“Mirror, Mirror, on the wall Who is the fairest of us all?/O Lady Queen, though fair ye be,/Snow-White is fairer, far to see.”

Revisitando a poesia, flagramos Borges e Mario Quintana rendidos à infinitude dos espelhos.
Por fim, Fernando Pessoa, sempre tão plural em sua contrita aparência, declara em breve poema, da lavra de Alberto Caeiro, um de seus heterônimos.
“O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa. Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.”

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