Mostrando postagens com marcador Marina Colasanti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marina Colasanti. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de setembro de 2017

Marina Colasanti - 'Lá fora, a noite'

Lá fora, a noite
Marina Colasanti

Arte:  P. Mitkov

É quando a família dorme
– inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha –
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.

*        *        *

No livro “Rota de colisão”. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

MARINA COLASANTI - Amor de longo alcance

Amor de longo alcance
Marina Colasanti

Durante sete anos , separados pelo destino, amaram-se a distância.

Sem que um soubesse o paradeiro do outro, procuravam-se através dos continentes, cruzavam pontes e oceanos, vasculhavam vielas, indagavam.

Bússola de longa busca, levavam a lembrança de um rosto sempre mutante, em que o desejo, incessantemente, redesenhava os traços apagados pelo tempo.

Já quase nada havia em comum entre aqueles rostos e a realidade, quando enfim, num praça se encontraram. 
Juntos, podiam agora viver a vida com que sempre haviam sonhado.

Porém cedo descobriram que a força do seu passado amor era insuperável. 

Depois de tantos anos de afastamento, não podiam viver senão separados, apaixonadamente desejando-se. 
E, entre risos e lágrimas, despediram-se, indo morar em cidades distantes.

*            *            *
Em: 'Todo o sentimento'

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

MARINA COLASANTI - De cabeça pensada

De Cabeça Pensada
Marina Colasanti


Tinha 30 anos quando decidiu: a partir de hoje, nunca mais lavarei a cabeça. Passou o pente devagar nos cabelos, pela última vez molhados. E começou a construir sua maturidade.

Tinha 50, e o marido já não pedia, os filhos haviam deixado de suplicar. Asseada, limpa, perfumada, só a cabeça preservada, intacta com seus humores, seus humanos óleos. Nem jamais se deixou tentar por penteados novos ou anúncios de xampu. Preso na nuca, o cabelo crescia quase intocado, sem que nada além do volume do coque acusasse o constante brotar.

Aos 80, a velhice a deixou entregue a uma enfermeira. A qual, a bem da higiene, levou-a um dia para debaixo do chuveiro, abrindo o jato sobre a cabeça branca.

E tudo o que ela mais havia temido aconteceu.

Levadas pela água, escorrendo liquefeitas ao longo dos fios para perderem-se no ralo sem que nada pudesse retê-las, lá se foram, uma a uma, as suas lembranças.

*            *            *
In: 'Contos de amor rasgados'. Rio de Janeiro, Rocco, 1987

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

MARINA COLASANTI - Preciso para



PRECISO PARA
Marina Colasanti
Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.

*        *        *