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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Confidência do Itabirano



Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;]*
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

*            *            *

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Maneira deAmar - Drummond

Maneira de Amar
Carlos Drummond de Andrade



Resultado de imagem para regando um girassol

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. 
Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. 
O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.

Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. 
Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.

O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. 

- 'Você o tratava mal, agora está arrependido?'
- 'Não,' respondeu, 'estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava'. "


*            *            *

Em ' Contos plausíveis'.  Rio de Janeiro: J. Olympio Editora, 1985.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Drummond/Vinícius -

A música popular entra no paraíso
Carlos Drummond de Andrade
10 de julho de 1980


Deus — Quem é este baixinho que vem aí, ao som do violão, de copo cheio na mão?

São Pedro — Senhor, pelos indícios, só pode ser o Vosso servo Vinicius, Menestrel da Gávea e dos amores inumeráveis.

Deus — Será que ele vem fazer alaúza no céu, perturbando o coro dos meus anjos-cantores, diplomados pela Schola Cantorum do mestre São Jorge, o Grande?

São Pedro (hesitante) — Bem… Eu acho, com a devida licença, que ele traz um som novo, mais terrestre, menos beatífico, é certo, mas com uma suavidade brasileira inspirada nos seresteiros seus avós, os quais já têm assentos cativos junto ao Vosso trono, Senhor. Coisa mui digna de Vossa especial atenção.

Deus — Hum, hum…

São Pedro — Posso continuar, Senhor?

Deus — Vá dizendo, Pedro. É sabido que você tem um fraco por essa gente que canta de noite, esteja ou não pescando, principalmente não estando.

São Pedro — Pois eu digo, Senhor, que esse baixinho aí, todo simpatia e delicadeza, é um de Vossos bons servidores na Terra, pois combateu a maldade pela ternura, a injustiça pela fraternidade, e compôs os cânticos profanos que, elevando o coração dos ouvintes, fazem o mesmo que os cânticos sagrados.

Deus (surpreso) — O mesmo?

São Pedro — O mesmo, Senhor, porque Vós permitistes ao homem trilhar a vida direta ou a vida indireta, conforme o gosto dele. Este poetinha escolheu a segunda, por inclinação natural, e manifestou à sua maneira própria o amor à humanidade, distribuindo-o de preferência, na medida do possível, a umas quantas eleitas.

Deus — Não terá sido antes dispersão do que concentração?

São Pedro — As duas coisas, mas unidas tão sutilmente! E essa unidade paradoxal, mas espontânea, produziu os hinos do amor carnal, nos quais foi glorificado o corpo que concedestes às criaturas, e por essa forma glorificou-se a Vossa divina Criação.

Deus — Menos mal, se assim foi. Então esse… como lhe chamas?

São Pedro — Vinicius, não o patrício romano, que o amor conduziu do paganismo à fé cristã, mas o de Melo Moraes, filho de pais que curtiam o “Quo Vadis”. Este nasceu diretamente para o amor, e não precisou meter-se nas embrulhadas do paganismo de Nero para achar o rumo de sua alma. Ele já estava traçado pelas estrelas de outubro, Vossas mensageiras. Vinicius nasceu com a célula poética, e esta desabrochou em cânticos variados, na voz de seus lábios e na dos instrumentos. Com estes cânticos ele encantou o seu povo. E era um povo necessitado de canto, um canto tão necessitado mesmo!

Deus — Ele deu alegria ao Meu povo?

São Pedro (exultante) — Se deu, Senhor! E para isso não precisava sempre compor canções alegres. Ia até o fundo das canções tristes, mas dava-lhes uma tal doçura e meiguice que as pessoas, ouvindo-as, não sabiam se choravam ou se viam consoladas velhas mágoas. Era um coração se desfazendo em música, Senhor. Deu tanta alegria ao povo, que até a última hora de sua vida (esta não chegou a ser longa, mas se alongou em canção) trabalhou com seu fiel parceiro Toquinho para levar às crianças um tipo musical de felicidade. Morreu, pois, a Vosso serviço, Senhor.

Deus (disfarçando a emoção) — Mande entrar, mande entrar logo esse rapaz. Vinicius entra rodeado de anjos, crianças, virgens e matronas que entoam mansamente:

Se todos fossem iguais a você,
que maravilha viver!
Uma canção pelo ar,
uma mulher a cantar,
uma cidade a cantar,
a sorrir, a cantar, a pedir
a beleza de amar,
como o sol, como a flor, como a luz,
amar sem mentir nem sofrer.
Existiria a verdade,
verdade que ninguém vê,
se todos fossem no mundo
iguais a você!

De vários pontos, vêm-se aproximando Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Ciro Monteiro, Noel Rosa, Dolores Duran, Orfeu, Eurídice, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Portinari, Murilo Mendes, Maysa, Lúcio Rangel, Tia Ciata, Santa Cecília, Antônio Maria, Bach, Ernesto Nazaré, Jaime Ovalle, Chiquinha Gonzaga e outros e outros e outros que não caberiam neste relato, mas cabem na imensidão do céu e som, e unem-se ao coral:

Teu caminho é de paz e de amor.
Abre os teus braços e canta
a última esperança,
a esperança divina
de amar em paz!

*            *            *


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Passagem da Noite - Drummond

PASSAGEM DA NOITE
Carlos Drummond de Andrade



É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.


Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
**

Carlos Drummond de Andrade em "A Rosa do Povo"

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Drummond e o 'VelhoChico'

Águas e Mágoas do Rio São Francisco
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Está secando o velho Chico.
Está mirrando, está morrendo.
Já não quer saber de lanchas-ônibus
nem de chatas e seus empurradores.
Cansou-se de gaiolas e literatura encomiástica e mostra o leito pobre,
as pedras, as areias desoladas
onde nenhum minhocão
ou cachorrinha-d’água,
cativados a nacos de fumo forte,
restam para semente
de contos fabulosos e assustados.

Ei, velho Chico, deixas teus barqueiros
e barranqueiros na pior?
Recusas frete em Pirapora
e ir levando pro Norte as alegrias?
Negas teus surubins,
teus mitos e dourados,
teus postais alucinantes de crepúsculo
à gula dos turistas?
Ou é apenas seca de junho-julho
para descanso
e volta mais barrenta na explosão
da chuva gorda?


Já te estranham, meu Chico. Desta vez,
encolheste demais. O cemitério
de barcos encalhados se desdobra
na lama que deixaste. O fio d’água
(ou lágrimas?) escorre
entre carcaças novas: é brinquedo
de curumins, os únicos navios
que aceitas transportar com desenfado.
Mulheres quebram pedra
no pátio ressequido
que foi teu leito e esboça teu fantasma.

Não escutas, ó Chico, as rezas músicas
dos fiéis que em procissão
imploram chuva?
São amigos que te querem,
companheiros que carecem
de teu deslizar sem pressa
(tão suave que corrias, embora tão artioso
que muitas vezes tiravas
a terra de um lado e a punhas
mais adiante, de moleque).
É gente que vai murchando
em frente à lavoura morta
e ao esqueleto do gado,
por entre portos de lenha
e comercinhos decrépitos;
a dura gente sofrida
que carregas (carregavas)
no teu lombo de água turva
mas afinal água santa,
meu rio, amigo roteiro
de Pirapora a Juazeiro.
Responde, Chico, responde!


Não vem resposta de Chico,
e vai sumindo seu rastro
como rastro da viola
se esgarça no vão do vento.
E na secura da terra
e no barro que ele deixa
onde Martius viu seu reino,
na carranca dos remeiros
(memória de outras carrancas,
há muito peças de living),
nas tortas margens que o homem
não soube retificar
(não soube ou não quis? paciência),
de pontes sobre o vazio,
na negra ausência de verde,
no sacrifício das árvores
cortadas, carbonizadas,
no azul, que virou fumaça,
nas araras capturadas
que não mandam mais seus guinchos
à paisagem de seca
(onde o tapete de finas gramíneas,
dos viajantes antigos?),
no chão deserto, na fome
dos subnutridos nus,
não colho qualquer resposta,
nada fala, nada conta
das tristuras e renúncias,
dos desencantos, dos males,
das ofensas, das rapinas
que no giro de três séculos
fazem secar e morrer
a flor de água de um rio.

*      *      *

Em “Discurso de Primavera e Algumas Sombras” – 1978





sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Frases de Drummond - Revista Bula



50 FRASES DE DRUMMOND PARA CARREGAR NO BOLSO
Ademir Luiz - 'Revista Bula- colunistas'

A vida do poeta interplanetário Carlos Drummond de Andrade, nascido sob a proteção de um anjo torto na cidadezinha mineira de Itabira, de besta não teve nada. 
Além de ter colocado uma pedra no caminho (e no sapato) de muitos poetas municipais (e de bairro) Brasil afora, Drummond foi contista, cronista e um frasista de abalar a máquina do mundo. 
A Revista Bula selecionou 50 das mais belas, instigantes e provocadoras frases do mestre. Frases que podem ser levadas no bolso, na bolsa, na carteira, tatuadas ou escritas com esferográficas na mão, para serem lidas e relidas. 
E agora, José, qual frase você escolhe?

Tudo é possível, só eu impossível.
Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.
Precisamos educar o Brasil.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Podemos beber honradamente nossa cerveja.
Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante.
O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé.
A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras.
A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca.
Crimes suaves, que ajudam a viver…
O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho.
Tristeza de ver a tarde cair como cai uma folha.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Há muitas razões para duvidar e uma só para crer.
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.
Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada.
As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do caráter.
Os que amam sem amor não terão o reino dos céus.
Depressa, que o amor não pode esperar!
O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza.
Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência.
Meu verso é minha consolação.
Stop. A vida parou ou foi o automóvel?
A terra não sofreu para dar essas flores.
Ora afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber.
Deus me abandonou no meio de uma orgia, entre uma baiana e uma egípcia.
E o amor sempre nessa toada: briga perdoa briga perdoa.
Não se deve xingar a vida, a gente vive, depois esquece.
Os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho.
Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição.
A educação para o sofrimento, evitaria senti-lo, em relação a casos que não o merecem.
Sexo, esse minúsculo ponto feminino, em torno do qual gira a máquina do mundo.
O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho.
O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia.
Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la.
Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo, que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música, visitemos no escuro as imagens — e te descobriram e salvaram-se.
A poesia é incomunicável.
Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força jamais o resgata…
Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer.
Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.
Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.
Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo.
Que o poeta nos encaminhe e nos proteja.
Em vão assassinaram a poesia nos livros.
A soma da vida é nula.
E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.

*          *          *

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A dor e a beleza da escrita -sobre Drummond


A dor e a beleza da escrita
Hilane Tawil - em "OBVIOUS Magazine


Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas cartas para sua filha, Maria Julieta, a aconselha:
“Escreva minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada, neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas. Experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos. Descreva, como exercício, o degrau da escada do seu edifício (saiu um verso sem querer). Escreva sempre, mesmo para não publicar. E principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas; que de há muito já perdi, se é que um dia a tive. Mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontre em si próprio sua justificação…”

Belo conselho, que de um carinho ofertado a Maria acalentou tantos corações inquietos. 
Na ânsia de significado pela vida, muitos afundam, outros tomam um pouco de fôlego na bordinha da piscina, pegando ar, papel e lápis. 
O ato da escrita, por si só, já é um exorcismo. Quando não, uma tentativa de realocar e elaborar dores, perdas e alegrias. 
A dúvida surge e lá está o escritor, com um comichão no coração e uma caneta na ponta dos dedos.

"E se eu não souber escrever?" Mesmo assim rabisque. Linhas, frases, palavras desconexas. Que mal tem? Ver os sentimentos exteriorizados, seja na tela ou no papel, no mínimo alivia. 
Se mesmo assim não houver descanso, vai lá e faça de novo. E de novo. Até acalentar a alma e adoçar os sentidos. 
Por mais que sangre, remexa lá no fundo o que nem os seus ouvidos conseguem ouvir. 
Apesar do medo da entrega, é isso que salva muitos da loucura ou de assustadores demônios que insistem em rondar os dias.

O trabalho de criação é um mergulho no inconsciente, a junção dos caminhos percorridos e dos atalhos que ainda sonhamos em trilhar. É a entrega de uma pessoa despida de pudores, manchada pelos dias e remexida por delírios. 
Se você vasculhar nas tensões, tragédias, rancores, esperanças e nas fantasias incontáveis até mesmo para o analista, está um (ou muitos) texto (s). 
Angustiado por não conseguir expurgar tudo isso para a folha? Se acalme. Ler é o alimento para a escrita. Já já as linhas chegam até você. Até lá, pratique. Diariamente. Nem que seja um vômito qualquer. A peneira vem depois, assim como o processo de modelagem. 
Tome notas e transborde literatura. Um livro ou uma crônica são, por vezes, o momento de tomada de consciência do autor. Ali ele se apropria do que antes somente pulsava em si mesmo. 
Por mais respeitado, renomado e brilhante que seja um escritor, o próximo verso é sempre uma incógnita. E que lindo é ser aprendiz da própria história. E das entrelinhas em que moram personagens e vidas.

Escreva todo dia (sim, eu me repeti). 
Começando agora você estará mais perto do que estava no exercício de lapidar a matéria bruta. Esta que sai de ti, alcança a folha e precisa ser esculpida. 
Se tomou forma, é que foi purificado. E sortudos são os que das feridas alcançam a catarse.

*            *            *

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Especulações... - DRUMMOND


Especulações em torno da palavra homem
Carlos Drummond de Andrade

Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?

Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?

Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?

Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?

Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?

Como morre o homem,
como começa a?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?

A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?

Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?

mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?

Mas existe o homem?

*      *      *

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

DRUMMOND - Passagem do Ano

Da página poesia.net




PASSAGEM DO ANO
Carlos Drummond de Andrade


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
 doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
 clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do
 acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
 séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
 espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão 
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar. 
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
***

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Drummond - Fala, amendoeira

Fala, amendoeira
Carlos Drummond de Andrade

Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. 
Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. 
Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. 
Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. 
Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. 
Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. 
Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho.
E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

-  Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

-  E vais outoneando sozinha?

-  Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

-  Somos todos assim.

-  Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. 
Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

-  Não me entristeças.

-  Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. 
Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. 
O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. 
As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... 
Outoniza-te com dignidade, meu velho.

*            *            *

Crônica publicada, originalmente, no antigo jornal Correio da Manhã (1957)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mais DRUMMOND - Anúncio classificado

Anúncio classificado  
Carlos Drummond de Andrade

Procura-se apartamento
pequeno, bem situado,
onde caibam dois amantes
de frente como de lado.

Quer-se bem perto do mar
e bem longe do barulho,
de modo que a única música
ouvida seja a de Bach,

de Corrette, de Bomporti,
com seus preciosos discos
arrumados de tal sorte
que inda caibam uns livros

de poesia, está claro,
e também( toda uma estante)
os tratados de Epicuro,
Descartes, Spinoza, Kant.

A mesa-de cabeceira
deve ficar a seu cômodo
para que nenhuma aresta
machuque o amor na testa.

E a cama, sem ser estreita,
nem larga como avenida,
tenha espaço suficiente
para as doçuras da vida.

Caibam na pequena copa
a bandeja, o biscoitinho,
hoje guardados no armário
dos alvos lençóis de linho,

bem como aquelas garrafas
do escocês nacional
que a gente, faute de mieux,
ingere e não nos faz mal.

Procura-se apartamento
de quarto-e-sala (tão pouco
e tão muito), sem barata, 
sem mosquito rezinguento,

sem vizinhos enervantes
que gritem palavras sujas,
sem terríveis, sem constantes
cortes d'água quando as nuas

formas já ensaboadas
se restauravam, cuidando
de logo após se enroscarem
nas formas  do amor, amando.

Quem souber de tal imóvel
não fique imóvel: na asa
do vento me informe onde,
onde é que fica essa casa!

*        *        *

domingo, 12 de outubro de 2014

DRUMMOND - Consolo na praia

Consolo na praia
Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

*        *        *

domingo, 10 de agosto de 2014

DRUMMOND - Infância


Infância
Carlos Drummond de Andrade


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

*        *        *
                                                                                                                   

In: 'Poesia e prosa'. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1988.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

DRUMMOND - Pão de Açúcar


PÃO DE AÇÚCAR
Carlos Drummond de Andrade

O grande pão de mel 
suspenso entre mar e céu
insinua os prazeres da cidade.
A boca, o paladar,
a trama dos sentidos
serpenteia lá embaixo. 
O sol nascente
 e o sol cadente 
vestem de púrpura a forma rígida. 
Nuvens ciganas
brincam de subtraí-la.
A cada hora, desintegra-se, 
recompõe-se,
assume formas inéditas de transparência.
Tem as cores da vida
 e o sigilo da sombra.
É montanha ou aparição crepuscular.

*        *        *

In: 'Poesia errante'