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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Branca de Neve - Adélia Prado


Branca de Neve
Adélia Prado


Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
'Nem todo alemão conhece Mozart.'
Um óbvio, pois nem é preciso, 
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.

Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma da sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.

"Geração perversa, raça de víboras"
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?

Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.

Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro 'tino escolhitivo'.
Pra quem me pede dou lista de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.

*            *            *
 Do livro "Miserere".

terça-feira, 9 de setembro de 2014

ADÉLIA PRADO - em 'Manuscritos de Felipa'

Manuscritos de Felipa (trecho)
Adélia Prado

" (...) Envelheço para trás, ideia consoladora, porque envelhecer para trás é voltar ao começo, ao lugar ageográfico onde se iria casar, ter filhos, uma casa com coisas minhas, quinquilharias de que poderia dispor como bem entendesse.

Tudo se cumpriu, não apenas meus seios.

Ninguém tira do lugar, por inadequado que seja, o quadro, o jarro, o relógio, sou a dona, governo a combinação dos legumes, decido entre carne e peixe, desembarco na plataforma onde uma mulher, sem se preocupar se a alça do sutiã está aparecendo, anuncia ao mundo: sei como se aquece uma casa.

Contudo me ronda, com desassossegado apetite, o demônio da tristeza, ronda à minha cata, à cata do mundo, certamente aliciando mulheres como eu, nos confundindo quanto a hormônios, palpites na criação dos netos, minando com maestria os muros do castelo. (...)"

*            *            *

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ADÉLIA PRADO - Clareira


Clareira
Adélia Prado

Seria tão bom, como já foi,
as comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
pitando e rapando a goela. Os meninos
farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida, ou inventei?

Eu gosto de metafísica, só pra depois
pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
falar as falas certas: a de Lurdes casou,
a das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
as santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve.

Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
pra eu sobreviver.


In: "Bagagem", p.35

*        *        *

terça-feira, 8 de julho de 2014

ADÉLIA PRADO - Ensinamento

Ensinamento 
Adélia Prado

Minha mãe achava estudo 
a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 

Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.

*        *        *


In "Bagagem", p.118

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Alma e Voz de ADÉLIA PRADO - Para o Zé



Para o Zé
Adélia Prado

Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia
eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha
o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe 
— os lábios carnudos como os de uma negra.

Divago, quando o que quero é só dizer te amo.
Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha
alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito pra escutar o que bate.

Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer,
as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba.
Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo,
falo em latim pra requintar meu gosto.

"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado?
Onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros?"

Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor.
Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.

Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé.
Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo,
estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, e o que não queria dizer amo também:  piolho.
Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.

Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,a luz na cabeceira,
o abajur de prata; como criada ama, vou te amar o delicioso amor: com água tépida
toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.

*        *        *

Notinha desnecessária:  José Assunção de Freitas é o nome do seu marido.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ADÉLIA PRADO - Bendito


Bendito 
Adélia Prado

Louvado sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.

Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
violar as tumbas com o arranhão das unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.

Louvado sejas porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,
– velho ao fim da guerra como uma cabra –
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.
Louvado sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.

Uma vez, quando eu era menina, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!

*        *        *

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ADÉLIA PRADO - Dona Doida

Dona Doida
Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 
com sombrinha infantil e coxas à mostra. 

Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

*            *            *

In: "Poesia Reunida",  p. 108.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

ADÉLIA PRADO - Exausto



Exausto
Adélia Prado

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

*            *            *

In: 'Bagagem'  (Record)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ADÉLIA PRADO - Setembro


Setembro
Adélia Prado


Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.

...Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.

Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.

Maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.

Só porque é setembro

*       *       *

sábado, 11 de agosto de 2012

ADÉLIA PRADO - Na terra como no céu

Na terra como no céu
Adélia Prado

Nesta hora da tarde
quando a casa repousa
a obra de minhas mãos
é esta cozinha limpa.

...Tão fácil
um dia depois do outro
e logo estaremos juntos
nas "colinas eternas".

Recupera meu corpo
um modo de bondade
a que me torna capaz
de produzir um verso.

Compreendes-me, Altíssimo?
Ele não responde.
dorme também a sesta.



*        *        *

quarta-feira, 14 de março de 2012

ADÉLIA PRADO - A bela adormecida

A bela adormecida
Adélia Prado

Estou alegre e o motivo
beira secretamente a humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.



No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa daquele que volta
e põe tudo arcaico como matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.



O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom !
Namorar quem ?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.

*        *        *

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ADÉLIA PRADO - fragmentos de 'Filandras'

Filandras *
Adélia Prado

  • Menopausa - doença de mil sintomas de total gravidade e gravidade nenhuma.
          Mulher na menopausa é doente sem doença.

  • Envelhecer -  a gente vai se mineralizando.
          Caminhamos no inverso sentido de uma fênix.

  • Tenho a sensação de usar sempre um volume abaixo da potência da minha caixa de som.

  • Corpo, este hóspede estranho da alma.
*        *        *

* Segundo os dicionários, filandras são fios brancos que flutuam no ar e cobrem as plantas.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ADÉLIA PRADO - Tão bom aqui


Tão bom aqui
Adélia Prado

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.
*        *        *

In: 'A duração do dia'. Adélia Prado. Rio de Janeiro. Record. 2010

terça-feira, 1 de novembro de 2011

ADÉLIA PRADO - COM LICENÇA POÉTICA

Com licença poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

*            *            *

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ADÉLIA PRADO - Manuscritos de Felipa


Em Manuscritos de Felipa
Adélia Prado

(...) " O texto que se escreve para ocultar um subtexto que só os muito inteligentes vão sacar, faça-me o favor. 
Só há subtexto em textos diretíssimos como - vou arriscar - os loguia de Jesus: 'Ama teu próximo como a ti mesmo'.  
Mais direto impossível, mas vai viver o mandamento, experimenta e adentrarás à cidade submersa plantada em teu peito.  
Põe lá o teu pezinho e mais rápido que São Pedro desistindo de andar sobre as águas darás braçadas patéticas suplicando ar.  
Dói tanto que a gente vai pro médico se queixar e volta com a mão cheia de pílulas e passa a viver com susto e a queixar-se até virar uma pessoa muito chata e desagradável, cheia de textos, falsazinha."  p.20

**
(...) " Que bom escrever assim, meio errado, uma palavra aqui, outra ali, próclises, elipses, até que vire um dialeto desconhecido, um orar em línguas.  
Trabalho pela elisão, palavra que nunca usei, estou arriscando.  
A julgar por elipse, só pode ser exclusão, supressão, uma limpada.  
Me incomoda um pouco não conhecer todo o português, tenho sempre a ideia de que engano as pessoas que me julgam letrada. 
Pois sim, ou pois não, que dá na mesma confusão.  
Não disse?  Pego as palavras no palpite, nunca deu errado, porque só falo do que dói e grito todo mundo entende.  
Quando caio em tentação, sempre acho que peco quando escrevo."  p.46

**
"Envelheço para trás, ideia consoladora, porque envelhecer para trás é voltar ao começo, ao lugar ageográfico onde se iria casar, ter filhos, uma casa com coisas minhas, quinquilharias de que poderia dispor como bem entendesse.  
Tudo se cumpriu, não apenas meus seios.  
Ninguém tira do lugar, por inadequado que seja, o quadro, o jarro, o relógio, sou a dona, governo a combinação dos legumes, decido entre carne e peixe, desembarco na plataforma onde uma mulher, sem se preocupar se a alça do sutiã está aparecendo, anuncia ao mundo: sei como se aquece uma casa.  
Contudo me ronda, com desassossegado apetite, o demônio da tristeza, ronda à minha cata, à cata do mundo, certamente aliciando mulheres como eu, nos confundindo quanto a hormônios, palpites na criação dos netos, minando com maestria os muros do castelo."  p.83

*            *            *

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ADÉLIA PRADO - A serenata


A Serenata
Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

*            *            *

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ADÉLIA PRADO - Corridinho


Corridinho
Adélia Prado

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.


O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

*            *            *
Do livro “Adélia Prado – Poesia reunida”

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

ADÉLIA PRADO - O ESPÍRITO DAS LÍNGUAS


O ESPÍRITO DAS LÍNGUAS
Adélia Prado


A propósito de músicos, ginastas, coreógrafos

digo na minha língua:

PUXA VIDA VAI SER ARTISTA ASSIM NO INFERNO!

É português como se fora russo.

Descuidada de que me entendam ou não,

falo as palavras,

para mim também e primeiro

incompreensíveis.

As artes falam humanês,

também as caras dos homens

escrevem o mesmo código.

O que é PUXA VIDA

VAI SER ARTISTA ASSIM NO INFERNO?

Só expressam as línguas nas clareiras

que o choque de uma palavra abre na outra.

Na Bulgária, certamente traduz-se PUXA VIDA

por BERIMBAU! FILIGRANAS DE RENDA!

Compreender o que se fala

é esbarrar na sem-caráter,

inominável, corisca poesia.

*           *            *               

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

VEROSSÍMIL - ADÉLIA PRADO



VEROSSÍMIL
Adélia Prado

"Antigamente, em maio, eu virava anjo.

A mãe me punha o vestido, as asas,

me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:

'Canta alto, espevita as palavras bem'.

Eu levantava vôo rua acima."



*        *        *