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domingo, 18 de março de 2018

De 'Revista Bula' - 
EULER DE FRANÇA BELÉM, em IDEIAS


Professor de Stanford, Niall Ferguson afirma que a polarização nas redes sociais está levando a sociedade a um estado de declínio que só pode ser qualificado de ‘incivilidade’

Umberto Eco (1932-2016) disse que as redes sociais possibilitaram o surgimento — e quiçá uma hegemonia — de uma “legião de imbecis”. Antes, concentrados em bares, tomando vinho ou cerveja, “falavam sem prejudicar a coletividade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. O escritor e filósofo italiano sugere que os jornais filtrem de maneira rigorosa as informações divulgadas nas redes sociais, porque, no geral, não são confiáveis.

O historiador escocês Niall Ferguson — autor de livros seminais sobre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, além de obras sobre a decadência do Ocidente (é autor de um livro heterodoxo no qual apresenta a tese de que o colonialismo não foi lucrativo para a Inglaterra. Trata-se de “Império — Como os Britânicos Fizeram o Mundo Moderno”, Crítica, 448 páginas, tradução de Marcelo Musa Cavallari) — segue o mesmo caminho de Umberto Eco, acrescentando sua própria interpretação. O professor de Stanford afirma que a polarização excessiva nas redes sociais está levando a sociedade “a um estado de declínio que só pode ser qualificado de “incivilidade”.

Suas interpretações foram colhidas pelos repórteres Ana Paula Ribeiro e Gustavo Schimitt, de “O Globo”. “A minha preocupação hoje é que a sociedade civil foi tão erodida pelo advento das redes sociais que não podemos mais falar em sociedade civil. Os Estados Unidos se tornaram uma sociedade não civilizada. A polarização se tornou um veneno. Eu me pergunto se a civilização não está se tornando algo diferente, em uma não-civilização ocidental”, critica Niall Ferguson. No livro “A Grande Degeneração — A Decadência do Mundo Ocidental” (Planeta do Brasil, 128 páginas, tradução de Janaina Marcantonio), o autor não arrola as redes sociais como um dos fundamentos da ruína do Ocidente.


Umberto Eco, escritor e filósofo: “Os imbecis agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”

Dirigentes do Facebook e do Twitter não estão, sugere Niall Ferguson, minimamente preocupados com a extensão do dano que está acontecendo no tecido social. Quanto mais barbárie, produzida ou não pela tensão ideológica, mais pessoas circulam pelas redes, aumentando seus ganhos financeiros. “Uma das consequências das redes sociais gigantes é a polarização. As pessoas se agrupam em grupos de esquerda ou de direita. O que notamos é um maior engajamento em tuítes de linguagem moral, emocional e até obscena. As redes estão polarizando a sociedade, produzindo visões extremistas e fake news”, frisa o historiador.

Há quem compare Donald Trump a Ronald Reagan, a Bush pai e a Bush filho. Apesar das limitações dos três, notadamente dos dois Bush — Reagan revelou-se um estadista muito superior ao que esperava a intelligentsia internacional —, Trump é muito mais despreparado. Sua visão de política global é unicamente americana, não incorpora nem parte das ideias de seus “aliados”. Império que se comporta tão-somente como nação isolada, como Estado fechado, não tem futuro, às vezes nem presente. Por que um político com escassa visão mundial se tornou presidente dos Estados Unidos? É provável que as redes tenham contribuído para a vitória de Trump. Pode-se não gostar de Hillary Clinton, mas não há dúvida de que é mais qualificada do que o presidente republicano. A vitória de Trump resulta da hegemonia do provincianismo dos Estados Unidos — país que é, a um só tempo, cosmopolita e caipira.

A rigor, Niall Ferguson não discute isto, mas sublinha que a exposição de Trump era muito maior do que a de Hillary Clinton — inclusive em Estados considerados democratas. Tudo indica, portanto, que as redes sociais funcionaram, sobretudo para o candidato republicano. Niall Ferguson afirma que os analistas de campanhas eleitorais devem ficar atentos às redes sociais. Porque o comportamento dos candidatos, atraindo (ou não) seguidores e engajamento, pode ser decisivo no resultado do pleito.

Insensatez
Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apresenta uma tese ligeiramente diversa da de Niall Ferguson. O professor diz que, mais do que incivilidade, a polarização está gerando insensatez nas redes sociais. “A tendência é que discursos exacerbados sejam favorecidos nas redes. E isso vai produzindo o efeito bolha: as pessoas que fazem parte delas dentro das redes são governadas por algoritmos e não pelo discernimento racional. O que é um paradoxo, porque tudo o que o Brasil precisa neste momento é de sensatez. Mas parece que os ventos favorecem a insensatez”, afirma o mestre. Não é uma visão apocalíptica, mas também não é integrada. É moderada.


Eugênio Bucci: contrariando Ferguson, o professor da USP aposta mais em insensatez do que em incivilidade
Ao contrário do que diz Niall Ferguson, mais apocalíptico, Eugênio Bucci sugere cautela, pois não aposta que as redes sociais vão corromper a democracia no Ocidente. “As redes não podem ser definidas como mal absoluto. É bom lembrar que também representam um arejamento das democracias. E foram responsáveis por imprimir nova dinâmica nas relações entre a sociedade e o Estado”, pontua.

O professor Fabio Malini, coordenador do Laboratório de estudos sobre Internet e Cultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), corrobora a tese de Niall Fergunson. A incivilidade já predomina no Brasil, sobretudo no comportamento político (o que vai além do comportamento dos políticos). “A polarização é corriqueira na política. Mas, nas redes sociais, tem um modelo específico de atenção das pessoas que influi nisso. A proximidade tem sido a tônica de como algoritmos são construídos fortalecendo bolhas ideológicas, onde há atitudes impulsivas, que redundam em decisões emocionais.”

As redes sociais são incontornáveis, quer dizer, vão continuar (goste-se ou não, são positivas). O mais provável é que, após uma primeira fase como terreno da barbárie, retome o caminho civilizatório, abrindo oportunidade ao debate entre indivíduos que pensam de maneiras diferentes a respeito de política, economia, cultura e comportamento. Isto, claro, numa perspectiva otimista. No momento, tornaram-se frigoríficos de ideias, de comportamentos e de pessoas. Talvez não seja possível piorar.

*            *            *

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A deliciosa sensação de estar sozinho e sentir-se verdadeiramente feliz
Lara Brenner , na página 'Revista Bula - Crônicas'

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Solidão: estado de quem se encontra ou vive só, isolamento (Aurélio).

Enquanto enchia minha farta taça de vinho pela segunda vez, já com os dentes e lábios roxos, dei-me conta de que a mesa a que me sentava estava vazia, exceto por mim. Na cozinha também havia ninguém, assim como em todo o apartamento. Sequer música se podia ouvir. Eu estava só e engolida pelo silêncio.

Por um segundo, incomodou-me um pouco que a ideia de que alguém, vendo aquilo, pudesse concluir ser um momento de solidão abandonada. O ato de beber sozinho carrega a história de escritores decadentes e amores de insucesso, conferindo ao álcool um comportamento ambíguo: consumido em grupo, serve para brindar a vida; já em isolamento, serve para afogar as mágoas.

Entre um gole e outro de vinho, a verdade me caiu como um estalo: entre mim e aquele líquido, havia nada além de glória. Não existia ânsia por companhia, tampouco sofrimento por sua ausência. Pareceu-me injusto que não houvesse na Língua uma palavra que expressasse a glória de estar só, mas felizmente o sociólogo Paul Tillich teve a cortesia de me apresentá-la. Solitude. As quatro sílabas dançavam em minha língua já meio dormente. “O idioma criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” A Língua quase nunca desaponta.

Jobim inventou que é impossível ser feliz sozinho. Terceirizando a responsabilidade pela plenitude do espírito, criou-se o estigma do hedonismo acompanhado, de que a felicidade só é boa quando dividida. As redes sociais estão aí para perpetuar o sentimento: haja sorrisos, brindes, porres e bossa. Haja viagens, selfies em grupo, bares lotados e músicas entoadas em coro. Ficar sozinho parece coisa de gente humilhada e infeliz, mas talvez não suportar a própria companhia por um instante seja o autêntico sinal de infelicidade. Pessoas que têm hábitos como ir a cinema, beber, dançar e fazer compras sem companhia causam grande furor às demais, ainda que ninguém tenha a curiosidade de indagar se aquilo é ato intencional. Só que a balbúrdia costuma causar ilusão de felicidade e a verdadeira fuga pode residir aí.

É bem provável que uma vida inteira de solitude se transforme em solidão, mas é curioso como viver apenas em grupo cansa e chega uma hora em que tudo o que se quer fazer é correr dali para a calmaria do mar, que só é alcançada quando se nada para dentro. Solitude é uma opção, um deleite, uma vontade. Talvez sua graça seja saber que é facultativa e que, quando a alma pedir por compartilhamento, haverá pessoas queridas que ficarão felizes em oferecê-lo.

Necessário, portanto, ser forte e seguro para curtir a solitude, sendo a recompensa tanto simbólica quanto aproveitável. Basta perceber que grandes decisões e guinadas na vida costumam ser precedidas por momentos de recolhimento. Bastar-se não se restringe à negação das pessoas e do mundo, e, sim, saber que existir não depende necessariamente de alguém além de si.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Entrevistas do Além - 'Revista Bula'

Marcel Proust entrevista Clarice Lispector
ENTREVISTAS DO ALÉM - 'REVISTA BULA'

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O escritor francês Marcel Proust gostava de jogar uma brincadeira de salão chamada “Confissões”, onde os participantes respondiam perguntas pessoais. Em sua homenagem, hoje o jogo ficou conhecido como “Questionário Proust”.

A Revista Bula, depois de ter adquirido em um concorrido leilão no eBay a Tábua Ouija original do filme “O Exorcista”, entrou em contato sobrenatural com o próprio Marcel Proust, em carne, osso e ectoplasma, que, relembrando seus tempos de jornalista, assinou contrato exclusivo como nosso correspondente do outro lado da vida.

Sempre nas altas rodas aristocráticas e altas esferas celestiais, Marcel Proust entrevista a escritora nascida na Ucrânia naturalizada brasileira Clarice Lispector. Eis o encontro de dois judeus de gênio, que deram novo significado para a expressão “o povo do livro”.
Com vocês, na série Entrevistas do Além, o legitimo Questionário Proust com Clarice Lispector, psicografado em javanês pelo meio médium ligeiro Ademir Luiz.


Marcel Proust — Mademoiselle Lispector, fala francês?
Clarice Lispector — Falo, leio e traduzo francês, embora tenha vivido primeiro em iídiche e depois em português. Você tem um cigarro?

Marcel Proust — Estou tentando parar de fumar.
Clarice Lispector — Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.

Marcel Proust — Mademoiselle tem, eu. Compromete-se a falar tudo nesta entrevista?
Clarice Lispector — Não se conta tudo, porque o tudo é um oco nada.

Marcel Proust — Clarice Lispector é bela ou é fera?
Clarice Lispector — Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente, nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que elogios literários. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.
Marcel Proust — Encontrou-se com Deus?

Clarice Lispector — Não tenho religião, por enquanto. Mas sei que quando eu inventar um Deus, ele não existe. Na verdade, acho que Deus não sabe que existe.

Marcel Proust — E Lúcifer?
Clarice Lispector — Ainda não, mas não tenho medo. Ele que se resguarde de mim. Como eu dizia para a Lygia Fagundes Telles, mulher é que é o diabo.

Marcel Proust — Brasileira ou ucraniana?
Clarice Lispector — Sou pernambucana.

Marcel Proust — Fui muito ligado à minha mãe. O que são para mademoiselle os laços de família? O que é ser mãe?
Clarice Lispector — À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.

Marcel Proust — Muitos consideram sua literatura difícil de ser compreendida. Como responderia a essa crítica?
Clarice Lispector — Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. E não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Marcel Proust — O argentino Jorge Luis Borges afirmou que sua visão de paraíso é uma biblioteca. E a sua?
Clarice Lispector — Prefiro não responder. Minha felicidade é clandestina.

Marcel Proust — E sua visão de inferno?
Clarice Lispector — Somos livres, e este é o inferno.

Marcel Proust — Qual livro levaria para uma ilha deserta?
Clarice Lispector — “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce. Um livro que está sempre perto de meu coração selvagem.

Marcel Proust — Uma obra inesquecível?
Clarice Lispector — “Felicidade”, de Katherine Mansfield. Esse livro sou eu.

Marcel Proust — Mademoiselle, como refugiada e depois esposa de diplomata, passou por várias cidades, como Maceió, Rio de Janeiro, Lisboa, Marrocos, Nápoles entre outras. Viu algumas delas como uma cidade sitiada?
Clarice Lispector — Todas e nenhuma. Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase e por um triz escapo.

Marcel Proust — O que é imoral?
Clarice Lispector — Verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

Marcel Proust — O que é mais importante para um escritor, vocação ou talento?
Clarice Lispector — Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Marcel Proust — O português é mesmo a língua da solidão?
Clarice Lispector — Solidão? O que acontece é que a gente procura o outro para se livrar de si mesmo. Se isso ocorre com gente, talvez ocorra com idiomas.

Marcel Proust — E do que sente saudades?
Clarice Lispector — Sinto saudades de quem não me despedi direito, das coisas que deixei passar, de quem não tive, mas quis muito ter.

Marcel Proust — Por falar nisto, mademoiselle reencontrou-se com Lúcio Cardoso?
Clarice Lispector — Na vida éramos parecidos demais. Não fui em seu velório, nem em seu enterro ou na missa. Havia dentro de mim silêncio demais. Agora, aqui, só digo que conseguimos ser suficientemente diferentes.

Marcel Proust — O que é só para mulheres?
Clarice Lispector — O destino de uma mulher é ser mulher. Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração.

Marcel Proust — Quais seus defeitos?
Clarice Lispector — Tenho tantos defeitos! Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor, às vezes parecem farpas.

Marcel Proust — O que acha de sua estátua, representada ao lado de seu querido cão Ulisses, colocada na praia do Leme na cidade do Rio de Janeiro?
Clarice Lispector — Acho que me colocaram muito longe de Drummond, fixado em Copacabana.

Marcel Proust — O que escrever significa para mademoiselle?
Clarice Lispector — Quanto não escrevo estou morta. Minha liberdade é escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo.

Marcel Proust — O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?
Clarice Lispector — O ovo é a alma da galinha.

Marcel Proust — GH ou K?
Clarice Lispector — Não sei, mas há quem diga que GH esmagou Gregor Samsa.

Marcel Proust — Qual é a hora da estrela?
Clarice Lispector — Durante a noite e na madrugada elas brilham mais forte.

Marcel Proust — Soube que o músico Bob Dylan ganhou o Nobel?
Clarice Lispector — Manuel Bandeira dizia que eu era poeta. O que posso eu dizer de Bob Dylan?

Marcel Proust— Mademoiselle faleceu antes da popularização da internet. Olhando de cima e por cima, o que acha da rede?
Clarice Lispector — Acho que quem me cita precisa ler meus livros inteiros.

Marcel Proust — Leu “Em Busca do Tempo Perdido”?
Clarice Lispector — Sim, para mim foi uma aprendizagem, um livro dos prazeres.


*            *            *

domingo, 17 de setembro de 2017

Pequenos atos de amor... - Eberth Vêncio

Pequenos atos de amor são fundamentais para tornar o mundo um lugar melhor para se viver

Eberth Vêncio -  em 'Revista Bula'


Qualquer coisa serve. Qualquer coisa de mais simples já serve. 
Qualquer pequeno ato impagável, de alguém por outro alguém, como pagar um almoço para quem tem fome, já servirá. 
Qualquer mínima atitude que releve a tradicional má fama do ser humano terá valia. 
Recaídas de ternura; como eu, por exemplo, aqui e agora. 
Apagar um foco de incêndio. 
Acender o brilho no olhar de um ser desencantado. 
Fazer palhaçada numa enfermaria. 
Demover um suicida. 
Ouvir. Ouvir. Ouvir e mais ouvir. 
Transmutar-se em árvore, ser todo ouvidos, ter a devida paciência para florescer e escutar a dramática história de vida de quem fazia planos para se matar em breve. 
Abreviar o sofrimento de um ser vivo em estado terminal. Concorrer com Deus mesmo querendo não ser Deus. Aliviar o sofrimento de alguém com o simples toque das mãos. 
Reduzir a velocidade nos atos cotidianos. 
Ir e vir. Sim. A garantia constitucional de ir e vir, porém, com mais calma, em ritmo baiano, se é que me entendem. 
Doar xícaras de sangue. 
Gastar o próprio tempo em prol do crescimento interior de terceiros. 
Tratar bem um desconhecido, como se vocês já se conhecessem de vidas pregressas. 
Rezar com a avó, no seu leito de morte, mesmo sendo um ateu. 
Ajudar um animal a parir. 
Ajudar uma mulher a parir. 
Trocar as roupas de um defunto, deixá-lo com a aparência impecável para o último adeus. 
Consolar um desafeto que perdeu a mãe. 
Adotar uma criança. 
Adotar um cachorro. 
Adotar um padrão de vida mais simples. 
Questionar as premissas existenciais desse mundo-cão. 
Servir na Cruz Vermelha. Atuar pelo Green Peace. 
Vestir azul e declamar poemas de Paulo Leminski na ala dos loucos varridos. 
Visitar os velhos de um asilo. 
Resgatar refugiados no mar do exílio. Pescar homens. 
Derribar muros. Cancelar cancelas. 
Abarcar, abarcar, abarcar. Arreganhar os braços e mais abarcar, abarcar, abarcar. 
Oferecer um emprego. 
Ceder um dos quartos. 
Vender um dos carros. 
Ir a pé ao trabalho. 
Barbear mendigos. Drenar furúnculos. 
Ensinar uma orquídea a brotar. 
Botar o bloco na rua. Organizar passeata. 
Desarrumar o quarto, partir. 
Ensandecer com flores o paladar dos colibris. 
Ler para crianças. Alfabetizar homens crescidos, de graça. 
Engrossar o coro dos descontentes que defendem a todo custo a preservação do meio ambiente. 
Ser meio diferente, circular por aí, completamente na sua, livre e fora do quadrado. 
Gastar todo amor que ainda resta em prol de quem está do seu lado.


*            *            *

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Temos vagas... - Eberth Vêncio

TEMOS VAGAS PARA SONHADORES
Eberth Vêncio - in 'Revista Bula'


A taxa de desemprego no país andava um escândalo. Minha falta de inspiração também. Ambas batiam os 15%. “Tempos bicudos”, diziam o meu editor, o IBGE, as Marias e os Josés, por onde quer que eu fosse. 
Com um pouco de sorte, eu ainda estaria empregado até que redigisse este texto. 
Estava atoa na vida, o meu amor me chamou pra ver a banda passar tocando coisas de amor e também para visitar uma agência de empregos do SINE a fim de conhecer quais eram as demandas do mercado de trabalho no Brasil.

Durante a nossa caminhada, fomos atacados por uma chusma de candidatos a vereador (cada um mais eloquente que outro), vimos bad boys hostilizando um antigo compositor brasileiro chamado Francisco, pisamos em titica de cachorro, cruzamos por um motorista aloprado que gritou “Saiam da frente, pedestres de merda!” (no vidro de trás, um adesivo alertava “Este foi Jesus que me deu”) e ainda assim tivemos o disparate, o bom humor para sonharmos acordados com empregos muito mais que perfeitos. 
Eu dizia de um lado. Ela retrucava de outro. 
Divertíamo-nos numa espécie de desafio repentista. 
Afinal, o mundo ainda tinha vagas para sonhadores.

— Apanhador no campo de centeio! — eu comecei.
— Coreógrafa de flores! — ela disse.
— Rasgador de verbos.
— Poetisa profissional, mas, sem carteira assinada.
— Caçador de mim.
— Pintora de arco-íris.
— Vagamundo.
— Eletricista de vagalumes.
— Cheirador de axilas das Indústrias Avon.
— Domadora de demônios da Assembleia de Deus.
— Dormidor de conchinha, confiável.
— Enxugadora de gelo, obstinada.
— Ghost writer de Zíbia Gasparetto.
— Pajem de tartaruga.
— Afiador de flechas para cupidos.
— Acendedora de relâmpagos.
— Novo messias com experiência comprovada em milagres.
— Animadora de velórios.
— Abanador de moscas.
— Estrategista de orgasmos.
— Dançarino de chuva.
— Chaveira de corações.
— Fonoaudiólogo de árvores.
— Ventríloqua de loucos.
— Arquiteto de planos de fuga.
— Veia bailarina.
— Adestrador de sonhos impossíveis.
— Bela, recatada e do lar.
— Goleiro milagreiro.
— Incendiária de sóis.
— Leiteiro da Via Láctea.
— Confeiteira do pão que o diabo amassou.
— Maestro de passarinhos.
— Boba alegre.
— Cuidador de velhas esperanças.

*            *            *

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Eu odeio Pokémons... - Revista Bula

EU ODEIO POKÉMONS E QUANDO DESCOBRIR PARA QUE ELES SERVEM, VOU ODIAR MAIS AINDA

Paulo Lima - 'Revista Bula'


Pior que se sentir um analfabeto digital é, de fato, ser um.
Eu descobri isso da pior maneira: sendo.
O bê-á-bá é o seguinte… Duas da madruga, meu vizinho que deveria estar dormindo faz tempo acorda meio mundo aos gritos: “Peguei mais um! Peguei mais um!”.
Pra complicar, o filho dele se revelou ainda mais escandaloso: “Eu também! Um Pikachu!”.
Era um sábado e eu só queria chegar até as oito da manhã babando no travesseiro. Mas a gritaria continuou lá fora, agora acrescida de novas vozes desenfreadas. Sim, era isso: o mundo que eu conhecia tinha virado de cabeça pra baixo.

Olhos vermelhos e roxo de raiva, no café da manhã ouvi uma explicação da patroa sobre do que se tratava: um fenômeno em forma de jogo virtual que acabara de chegar no Brasil. Não entendi nada, claro.
Hora então de pedir ajuda aos universitários, ou melhor, a uma criança do ensino fundamental: minha filha de dez anos, uma nerdinha cujo smartphone já parecia ser uma extensão das próprias mãos.
A contragosto, me deu aquela aulinha básica e bem humilhante para um sujeito nascido nos anos 1960, cansado de guerra, mal dormido e mal-humorado.
“Pokémon Go é um game em forma de aplicativo, para celulares com sistemas Android e iOS, baseado numa tecnologia chamada realidade aumentada. Por meio de geolocalização, usando o GPS, usuários mobile saem capturando monstrinhos pela cidade, em todo o tipo de lugar: calçadas, restaurantes, praças, lojas, pontos de ônibus, repartições públicas, etc.”
Saquei que aquela sequência de orações foram decoradas só pra me sacanear. A abusada ainda falou coisas do tipo Niantic, Pokémon Company, Nintendo. E o sabichão só repetindo: Ã-hã…

Muito pra minha cabeça… Senti minha realidade diminuída com tantas definições boiando naquela sopa de letrinhas, e embaralhei tudo. Imaginei um androide — quer dizer, um robô — passando gel no meu calção enquanto eu ia de ônibus tentar capturar meu FGTS numa repartição pública onde um monstrinho desinteressado me atendia ao mesmo tempo em que usava o celular; aí eu saí pelas ruas e calçadas pedindo SOS pra pagar a conta do restaurante, etc.
Eu precisava retornar o quanto antes ao planeta Terra…

Pedi um tempo para ir ao banheiro.
Estratégia! Para não parecer tão perdido, fui pesquisar na internet.
Fiquei besta, mais do que aquele substantivo que minha esposa vivia me jogando na cara — sempre acompanhando de um “sua” antes e um “quadrada” depois.
As notícias pipocavam. Antes de me dar tamanha dor de cabeça, o game já tinha virado febre. Sintomas que, somados ao transtorno de personalidade coletivo, levariam uma cidade inteira ao postinho mais próximo do SUS, meu próximo destino.
Olha só: na Nova Zelândia, um homem decidiu largar o emprego para realizar seu sonho de capturar todos os pokémons disponíveis, acho que uns 150, e uma professora britânica foi pelo mesmo caminho e se tornou uma jogadora em tempo integral.
Um adolescente com autismo, que passou os últimos cinco anos em casa, comendo e respirando Minecraft (argh! outro jogo), não conseguia ficar muito tempo na rua. Tremia e passava mal com dores de estômago, apenas por estar entre pessoas e todo o barulho que elas fazem. Me identifiquei! O jogo estimulou o garoto a botar os pés pra fora do portão e a interagir com pessoas desconhecidas, inclusive com os familiares.
Calma lá…

O game começou a influenciar até na escolha de nomes de bebês.
Dá um frio na barriga só de pensar no próximo membro da família sendo batizado de Rattata, Zubat, Snorlax, Bulbasaur, Charmander ou Squirtle. O horror!
Zés, Joões e Paulos, assim como as Marias, Anas e Isabelas, pelo visto serão raridade nas futuras certidões de nascimento.
Em tempo: esses nomes estranhos, coisa de japonês, tinham origem nos episódios do desenho animado veiculado nos anos 1990. É, acho que perdi também essa parte…

E havia mais: meliantes atraindo ingênuos caçadores para roubar seus celulares, pessoas caindo de penhascos, atropelamentos por desatenção, gente exposta ao sol escaldante por horas seguidas. Ei!, não contaram para esse povo que tanta exposição causa câncer de pele? Ah, e um homem capturou um pokémon durante o parto da esposa: apareceu um Pidgey (nome de um monstrinho, não confundir com um Ricardinho) na cama da patroa. Ele prendeu o bicho enquanto seu filho nascia, e antes que sua paternidade fosse questionada.

Neuras à solta. Teorias da conspiração também já devidamente publicadas: “o sistema rastreia o usuário e controla todos os seus passos, como um Big Brother planetário”, “rouba seus dados para usá-los contra você num futuro não tão distante”, “o governo mundial (hã?) está preparando o espírito humano para uma invasão alienígena”.
A besta, o anticristo, o Apocalipse!

Voltei do banheiro pra retomar a conversa com a mocinha.
“Então, como se joga isso mesmo?” Ela respondeu de pronto: “Temos que sair de casa!”
Entendi. O desafio estava lançado. E bem ao estilo manifestante-coxinha-batedor-de-panela, ou mesmo militante-antigolpe-de-camiseta-vermelha, fiz a única coisa que um cidadão-de-bem-revoltado-contra-vizinhos-escandalosos-e-fulaninhos-virtuais poderia fazer: fui pra rua!

Foi assustador o que vi. Ninguém escapava.
Todas as idades estavam ali representadas: crianças, adolescentes, adultos e velhinhos da terceira à ultima idade (não existe quarta, certo?), suficientemente ocupados.
Gente andando em círculos, tirando fotos do nada em qualquer lugar.
Fiquei sabendo que um mendigo foi desalojado do seu banquinho na praça, só porque dois pokémons lhe faziam companhia e o coitado virou alvo da mira de excitados celulares, numa patente invasão de privacidade.
Pior: vi uma senhora de saia curta com a bunda pra cima e metade do corpo dentro de um bueiro. Achei surreal, mas fiquei calado, pois ainda que eu não estivesse na posição em que Napoleão perdeu a dignidade, eu estava à procura das mesmas coisas que ela: monstrengos em miniatura.
Como explicar isso?

Minha “Ponyta” (escolhi esse nome de uma lista que vi num site, porque tinha um pônei amarelo estampado na camiseta da minha guria, mas ela não gostou) explicou que as coisinhas aparecem aleatoriamente pelo mapa. E descobri que todo estabelecimento queria virar “PokéStop”, um ponto turístico que aparece em destaque no mapa, na telinha do aparelhinho, para ali encontrarmos itens essenciais ao jogo.
Ela me ensinou a usar a pokébola, um compartimento em forma esférica criado para armazenar pokémons. Encontrou um novo pokémon? Pressione, segure e arraste a pokébola até que ela comece a girar e brilhar, lance-a sobre o bichinho e… Crau! Bola curva com faíscas eram as melhores, segundo ela.
Interessante… Aquelas bolinhas me lembravam de coisas de uma infância distante.

O joguinho é complexo. Às vezes a gente ganha ovos em pokéstops e esse ovo deve ser colocado para chocar, e com isso podemos dobrar os pontos obtidos.
Outra dica: o incenso. Não, não é aquele pauzinho colorido que a gente coloca pra queimar, mas um recurso do game que serve para atrair os personagens para perto de você. E crau!, de novo.
Naquele ritmo frenético, logo, logo eu me tornaria um “Mestre Pokémon”.
Dê um Google que ele te explica.

E assim fomos jogando… E fomos longe: de carro próprio e depois a pé, correndo de vez em quando. Andamos uns dez quilômetros colecionando bichinhos. Afinal, quanto maior a caminhada, mais raro o personagem.
A garota se divertiu como nunca e eu mais ainda. Paramos aqui e ali para almoçar, tomar sorvete, fazer selfies.
Ao longo das conversas, descobri coisas interessantíssimas: os nomes dos melhores amigos dela, seus planos de um dia tornar-se veterinária (cuidando de bichos reais, claro), sua dificuldade de se concentrar nas aulinhas chatas de inglês, sua comida preferida (pizza) e muito mais.
E ela ficou sabendo pela primeira vez e ao vivo que, quando menino, eu brincava de bolinha de gude e pique-esconde, e sonhava ser astronauta. “Tá explicado por que você vive no mundo da lua, né pai?” Rimos muito com isso também.
Voltamos ao final do dia com disposição para contar tudo para minha digníssima e passar uma noite sossegada, sem aquela vontade de brigar com a vizinhança barulhenta, não mais me sentindo a besta da vez.
O domingo prometia.

Com tantas lembranças, demorei pra pegar no sono.
Me lembrei que um dia perguntei a um nerdinho pra que servia a tal da internet.
Um absurdo, eu sei, mas esse foi apenas um da minha coleção de absurdos, muito maior do que a de criaturas disponíveis para captura no smartphone.
E agora posso dizer, sem medo: Eu amo pokémons e quando descobrir pra que eles servem, vou amar mais ainda.
Minto. Eu já sei pra que servem: passei um dia inteiro com minha filha, coisa que não fazia há anos, e conheci uma outra filha que, por eu viver no mundo da lua, não conseguia ver.
Paixão à primeira vista.

Então, pensando bem, embora tenha seu lado ruim, essa nova febre pode ser uma coisa boa. Depende do uso que se faz da tecnologia e — por que não? — de com qual monstro queremos interagir.
O que eu descobri é que não mais consigo viver sem ela. Estou falando da minha Ponyta, cujo coração de pokébola capturou minha atenção com aquele brilho que só o olhar e o sorriso de uma menina conseguem.
Finalmente eu aterrissei na Terra, me sentindo o pai mais feliz do mundo.

*            *            *

Notinha:
Tá bom , a crônica é bonitinha, o texto é engraçadinho. 
Claro que apenas para aqueles que estão muito envolvidos com o 'admirável mundo novo'. Tão envolvidos a ponto de se esquecerem das coisas comuns e simples da vida como sair com a própria filha e conversar.
Não é o meu caso.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Sozinho e feliz - Revista Bula

A DELICIOSA SENSAÇÃO DE ESTAR SOZINHO E SENTIR-SE
 VERDADEIRAMENTE FELIZ
Laura Brenner - em "Revista Bula"



Solidão: estado de quem se encontra ou vive só, isolamento (Aurélio).

Enquanto enchia minha farta taça de vinho pela segunda vez, já com os dentes e lábios roxos, dei-me conta de que a mesa a que me sentava estava vazia, exceto por mim. Na cozinha também havia ninguém, assim como em todo o apartamento. Sequer música se podia ouvir. Eu estava só e engolida pelo silêncio.

Por um segundo, incomodou-me um pouco que a ideia de que alguém, vendo aquilo, pudesse concluir ser um momento de solidão abandonada. 
O ato de beber sozinho carrega a história de escritores decadentes e amores de insucesso, conferindo ao álcool um comportamento ambíguo: consumido em grupo, serve para brindar a vida; já em isolamento, serve para afogar as mágoas.

Entre um gole e outro de vinho, a verdade me caiu como um estalo: entre mim e aquele líquido, havia nada além de glória. 
Não existia ânsia por companhia, tampouco sofrimento por sua ausência. 
Pareceu-me injusto que não houvesse na Língua uma palavra que expressasse a glória de estar só, mas felizmente o sociólogo Paul Tillich teve a cortesia de me apresentá-la. Solitude. As quatro sílabas dançavam em minha língua já meio dormente. “O idioma criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” A Língua quase nunca desaponta.

Jobim inventou que é impossível ser feliz sozinho. Terceirizando a responsabilidade pela plenitude do espírito, criou-se o estigma do hedonismo acompanhado, de que a felicidade só é boa quando dividida. 
As redes sociais estão aí para perpetuar o sentimento: haja sorrisos, brindes, porres e bossa. Haja viagens, selfies em grupo, bares lotados e músicas entoadas em coro. 
Ficar sozinho parece coisa de gente humilhada e infeliz, mas talvez não suportar a própria companhia por um instante seja o autêntico sinal de infelicidade. 
Pessoas que têm hábitos como ir a cinema, beber, dançar e fazer compras sem companhia causam grande furor às demais, ainda que ninguém tenha a curiosidade de indagar se aquilo é ato intencional. Só que a balbúrdia costuma causar ilusão de felicidade e a verdadeira fuga pode residir aí.

É bem provável que uma vida inteira de solitude se transforme em solidão, mas é curioso como viver apenas em grupo cansa e chega uma hora em que tudo o que se quer fazer é correr dali para a calmaria do mar, que só é alcançada quando se nada para dentro. 
Solitude é uma opção, um deleite, uma vontade. Talvez sua graça seja saber que é facultativa e que, quando a alma pedir por compartilhamento, haverá pessoas queridas que ficarão felizes em oferecê-lo.

Necessário, portanto, ser forte e seguro para curtir a solitude, sendo a recompensa tanto simbólica quanto aproveitável. Basta perceber que grandes decisões e guinadas na vida costumam ser precedidas por momentos de recolhimento. 

Bastar-se não se restringe à negação das pessoas e do mundo, e, sim, saber que existir não depende necessariamente de alguém além de si.

*            *            *

quinta-feira, 17 de março de 2016

Eu não gosto... - Eberth Vêncio em "Revista Bula"


EU NÃO GOSTO DE NADA QUE O MUNDO GOSTA
Eberth Vêncio - colunista de "Revista Bula"

Eu não gosto de sonhar dormindo mais do que eu sonho ao permanecer acordado.
Eu não gosto do altruísmo narcisista das redes sociais.
Eu não gosto de carinho quando estou nervoso. Eu não sou um cãozinho faminto que rola e late.
Ainda que seja amargo como eu, eu não gosto de chocolate.
Eu não gosto de esconder os ovos de Páscoa das crianças nos arbustos do jardim.
Eu não gosto de brincar com os sentimentos dos outros.
Eu não gosto de ficar bêbado até dizer a verdade.
Eu não gosto de revelar os meus deslizes sexuais a um padre.
Eu não gosto das farras animais.
Eu não gosto de rodeio, de meter as esporas.
(...)
Eu não gosto de puteiros, de igrejas e da maçonaria.
Eu não gosto de tanto mistério acerca da vida e da morte.
Eu não gosto da incompreensível euforia do carnaval.
Eu não gosto do réveillon.
Por mais estranho que possa parecer, eu não gosto de me confraternizar com estranhos.
Eu não gosto de feriados prolongados.
Eu não gosto de enforcar sextas-feiras.
Eu não gosto de mendigar atestado médico para salvar um dia.
Eu não gosto de entrar num elevador sem dizer “bom dia”.
Eu não gosto de seguir a onda.
Eu não gosto de fazer a ola no estádio.
Eu não gosto de estagiárias burras e desinibidas.
Eu não gosto de jogar na loteria.
Eu não gosto de sonhar em ficar rico.
Eu não quero uma Ferrari, uma ilha só pra mim ou um novo par de tetas.
Eu não gosto das mutretas.
Eu não gosto de operar milagres no SUS.
Eu não gosto de assistir a uma sessão de espancamento do MMA.
Eu não gosto de sangue no tatame.
Eu não gosto de ketchup no salame.
Eu não gosto dos filmes do Cobra e do Jean-Claude Van Damme.
Eu não gosto da ditadura do silicone.
Eu não gosto das cicatrizes que, de tão perfeitas, nem parecem cicatrizes.
Eu não gosto das caras recauchutadas das atrizes e das madames.
Eu não gosto da farsa de uma toxina botulínica sobre o sorriso.
Eu não gosto de dizer “eu te amo”, da boca pra fora, como se fosse “me passa a margarina”.
Eu não gosto de rissoles frios e de festa infantil.
(...)
Eu não gosto do bife bem passado.
Eu não gosto daquele tempo em que eu era feliz e não sabia.
Eu não gosto de enaltecer o futebol como se ele fosse arte.
Eu não gosto do tira-teima da TV.
Eu não gosto de enaltecer o erro, esmiuçá-lo: o beiço de pulga, a pontinha da chuteira, o passinho-a-mais-à-frente… Eu acho deplorável massacrar um trio de arbitragem.
Eu não gosto de ler as bulas dos remédios.
Mesmo me sentindo — às vezes — um vendido, eu não gosto de ler os livros mais vendidos.
Eu não gosto das dinâmicas em grupo, do esforço concentrado, de rezar o terço, de fazer suruba.
Eu não gosto de novena, de novela e da dança da manivela.
Eu não gosto de assistir às retrospectivas de final de ano.
Eu não gosto da santa hipocrisia que reina em dezembro.
Eu não gosto de fazer planos em janeiro.
Eu não gosto do show da virada do Roberto Carlos.
Neste quesito, em particular, eu sou, sim, um cão que abomina foguetório.
Eu não gosto de negociar partilhas durante um velório.
Eu não gosto de dar esmolas no semáforo.
Eu não gosto de me sentir só no meio da multidão animada.
Por fim, de tudo o que o mundo gosta, eu gosto de quase nada.

*            *            *

sexta-feira, 11 de março de 2016

Se você engolir tudo o que sente... - Ruth Borges


‘SE VOCÊ ENGOLIR TUDO QUE SENTE, NO FINAL VOCÊ SE AFOGA’
Ruth Borges - em "Revista Bula"

Engole o choro. Engole sapo. Não diga, não quero saber. Cala a boca, cala o peito, cale-se!
Mas o corpo fala, e como fala.
Fala a ponta dos dedos batendo na mesa, fala o dente acirrado, rangendo estridente.
Falam os pés inquietos na cama. Falam os olhos caindo tristonhos.
Fala dor de cabeça, dor na alma. Fala gastrite, psoríase, fala ansiedade, fala memória perdida.
Fala o corpo curvado, fala o nó na garganta atravessado.
Fala angústia, fala ruga. Fala insônia, fala sono demasiado.
Falador.

É impossível entrar no tatame da vida sem levar uns tapas dela.
Mágoa, tristeza, dor, raiva, são sentimentos que nos atravessam sem pedir licença.
A verdade é que enquanto estamos sentados na pedra fitando o abismo em dor, mastigamos as emoções, mas nem sempre as digerimos bem.
Emoções engolidas e não digeridas corroem feito ácido. É bicho morando no estômago, mordente, cáustico. É soda!
Emoções indigestas são como bruxas trancafiadas no corpo. Medonhas, a carregar sensações malditas e mal ditas.
Ninguém quer saber de falar de sentimentos mal cheirosos. Então a gente engole, e esse mal entendido vira coisa que entra no estômago, percorre a garganta, o peito, e se deixarmos, calará nossa boca e nossa paz por uma vida inteira.

E aí, cedo ou tarde, todas as dores do mundo hão de querer vomitar, regurgitar o mal resolvido, e nos contorcer novamente as entranhas.
É preciso um pouco de coragem para se fazer falar. Emoção amordaçada nos faz refém dela.
Dor tapada, cala necessidade. Mágoa não entendida, enfarta a fé nas pessoas. Raiva carregada, pesada, transita ardente pelas costas.
Não dá pra engolir tudo e dizer amém! Eu sei.
Também não dá pra cometer sincericídios por aí.
Mas dá para expressar. O que se sente cabe tradução.

Freud disse certa vez: “a ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como são umas poucas palavras boas”.
É isso, tem hora que o sentimento pede pra ser dito, entendido, descodificado, traduzido. Tudo que ele quer é ser exorcizado pela palavra ou pela via que lhe cabe melhor. Expressar tranquiliza-a-dor. Dor não é pra sentir pra sempre. Dor é vírgula.

Então diz! Diz logo o que quer dizer sua bruxa.
Coloca a dor no caldeirão e faz sopa de letrinhas.
Faz uma carta, um poema, um livro. Faz uma orquestra tocar. Pega as sapatilhas, sapateia.
Faz uma aquarela. Faz uma vida. Faz lá, sol, manda a dó se catar.
Faz piada, faz texto, faz quadro, faz encontro com amigo.
Faz corrida no parque. Fala pro seu analista, discute com Deus, se pinta de artista.
Conversa sozinho, papeia com seu gato, berra aos céus, mas não te cales.
Fala, vai. Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se afoga”.
É que emoções indigestas e encarceradas mergulham no coração mais tarde para explodi-lo.

E aí, me diz, quem será capaz de nos juntar?
Jamais a mágoa e toda a lama que ela carrega será melhor do que a nossa paz.

*            *            *

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Frases de Drummond - Revista Bula



50 FRASES DE DRUMMOND PARA CARREGAR NO BOLSO
Ademir Luiz - 'Revista Bula- colunistas'

A vida do poeta interplanetário Carlos Drummond de Andrade, nascido sob a proteção de um anjo torto na cidadezinha mineira de Itabira, de besta não teve nada. 
Além de ter colocado uma pedra no caminho (e no sapato) de muitos poetas municipais (e de bairro) Brasil afora, Drummond foi contista, cronista e um frasista de abalar a máquina do mundo. 
A Revista Bula selecionou 50 das mais belas, instigantes e provocadoras frases do mestre. Frases que podem ser levadas no bolso, na bolsa, na carteira, tatuadas ou escritas com esferográficas na mão, para serem lidas e relidas. 
E agora, José, qual frase você escolhe?

Tudo é possível, só eu impossível.
Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.
Precisamos educar o Brasil.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Podemos beber honradamente nossa cerveja.
Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante.
O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé.
A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras.
A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca.
Crimes suaves, que ajudam a viver…
O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho.
Tristeza de ver a tarde cair como cai uma folha.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Há muitas razões para duvidar e uma só para crer.
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.
Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada.
As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do caráter.
Os que amam sem amor não terão o reino dos céus.
Depressa, que o amor não pode esperar!
O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza.
Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência.
Meu verso é minha consolação.
Stop. A vida parou ou foi o automóvel?
A terra não sofreu para dar essas flores.
Ora afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber.
Deus me abandonou no meio de uma orgia, entre uma baiana e uma egípcia.
E o amor sempre nessa toada: briga perdoa briga perdoa.
Não se deve xingar a vida, a gente vive, depois esquece.
Os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho.
Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição.
A educação para o sofrimento, evitaria senti-lo, em relação a casos que não o merecem.
Sexo, esse minúsculo ponto feminino, em torno do qual gira a máquina do mundo.
O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho.
O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia.
Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la.
Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo, que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música, visitemos no escuro as imagens — e te descobriram e salvaram-se.
A poesia é incomunicável.
Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força jamais o resgata…
Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer.
Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.
Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.
Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo.
Que o poeta nos encaminhe e nos proteja.
Em vão assassinaram a poesia nos livros.
A soma da vida é nula.
E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.

*          *          *

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ANDRÉ J. GOMES - Para as almas amorosas...


PARA AS ALMAS AMOROSAS, QUALQUER LUGAR LONGE DO SER AMADO É TERRA ESTRANGEIRA

André J. Gomes - em 'Revista Bula'


Não olhe agora. Mas nós estamos cercados de estrangeiros. O mundo, esse lugar tão grande quanto a sala da nossa casa, anda povoado de forasteiros. 
É gente nascida em todo canto, rumando para todo lado, mas que em algum instante, de alguma sorte, seguiu para longe de seu amor. Uns há horas, outros há dias, semanas, meses, anos, todos se encontram distantes do ser amado.

O jeito não engana. Essa gente enamorada de alguém que vai longe tem um jeito aplicado de trabalhar direito, como quem quer logo voltar para casa. 
Tem distância geográfica, lonjura do coração ou os dois. Não importa. Tudo é longe para quem não caminha junto de seu amor.

Alguns sequer o encontraram. Outros o acharam e o deixaram partir. 
Há os que têm saudade simplesmente porque não podem estar o tempo todo agarrados a seu bem. 
Todos são andarilhos em terra estrangeira, vagando em busca de amor. 
As almas enamoradas são assim. Longe a qualquer distância de quem amam, sentem no coração um banzo, uma saudade, um não-sei-quê de nostalgia.

Assim como os imigrantes que partem para um país distante, levando escondidos na bagagem um saquinho do feijão de sua terra, um punhado do café de sua cidade, uma muda do hortelã dos avós para o chá das noites de insônia e tristeza, há também os que só resistem à saudade porque carregam consigo lembranças de seus dias de amor e de paz.

Não há remédio que dê jeito na falta do amor distante. Nada senão rumar para onde o coração ficou cativo. Depois seguir de alma leve, remoçada. 
Almas enamoradas funcionam assim. Se vão, carecem de voltar. Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é terra estrangeira. Do outro lado do mundo ou ali na esquina.

Eu entendo as almas enamoradas de todo canto. Eu aqui, em minha solidão de bicho, compreendo sua disposição para a vida, sua lida convicta de honestos trabalhadores, seu jeito firme e manso que só têm as pessoas boas. Entendo, respeito, admiro e agradeço.

Porque as almas enamoradas, mesmo aquelas que caminham sós em busca do amor que talvez nunca venha, carregam e levam adiante nossa primeira e maior vocação: a de dar e receber amor por aí.

Em sua labuta, as almas enamoradas assumiram a tarefa de entregar, umas às outras e a quem mais estiver perto, palavras de tão profundo carinho, embrulhadas em gestos tão simples, que desarmariam as caras mais feias e desmontariam as intenções mais odiosas.

A cada novo encontro amoroso, conspiram os enamorados por um mundo de pessoas livres, ativas e gentis. Gente que acredita no trabalho e pratica seu ofício com honestidade e gratidão. Almas que valorizam o tempo e não o perdem com besteira. Que apontam o barco para a frente e não o dedo a ninguém. Que ouvem o que lhes dizem, guardam o que desejam e respondem o que precisam. 
Criaturas imperfeitas que vivem sua vida e deixam em paz a dos outros. Que preferem a crença no esforço próprio e dispensam a crítica ao empenho alheio.

Assim são as almas enamoradas. Boas quando longe de seu amor. Melhores ainda quando perto. 
Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é uma fria, distante e aborrecida terra estrangeira.


*             *           *

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fuja das almas mesquinhas - André J.Gomes


Fuja das almas mesquinhas.
Viver é um exercício de grandeza. 
André J. Gomes - in 'Revista Bula'

Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. 
Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. 
Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. 
Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.

Falta grandeza na gente, sim.
Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. 
Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. 
Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. 
Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. 
Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além do fardo de doze cervejas previamente combinadas. 
Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. 
Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.

Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. 
Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.

Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? 
Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. 
Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. 
Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. 
Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.

Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! 
Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? 
Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. 
Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para o perdermos com pequenezas.

Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. 
Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. 
Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. 
Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.


*            *            *

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sonhos que não envelhecem - Eberth Vêncio

Lista dos sonhos que nunca envelhecem
Eberth Vêncio - colunista 'Revista Bula'

Nem sei por onde começar.

Fazer um recall da Big Bang. 
Disputar o céu com os pássaros usando apenas as minhas asas de cobra.
Morrer pela boca num beijo bem velhinho dormindo num dia de domingo e despertar no paraíso com a cabeça repousada no colo da vovó com Deus uma mulher (que surpresa incrível!) a coar o café.
Enterrar pessoas só de brincadeirinha única e exclusivamente na areia. 
Construir castelos na praia sem ter medo da maré.

Voar na maionese: cantar “Blackbird” em dueto com Paul McCartney. Ser o quinto beatle. 
Caminhar pela zona do baixo meretrício com a autoestima em alta. 
Apaixonar-me pela prostituta tímida meiga bonita e tirá-la daquele lugar. 
Casar uma aposta com véu e grinalda.
Roubar flores no jardim da minha vizinha rabugenta onde hoje levantam duas torres monumentais com oito apartamentos por andar três vagas na garagem e nenhuma rosa para ser cobiçada. 
Ser reconhecido como um poeta.

Ficar famoso o suficiente para que todos prestem atenção quando eu disser em rede nacional “Eu preciso de um pouco mais de respeito”. Então pedir que me esqueçam. 
Me mandar do planeta num foguete para a lua. Flutuar com a consciência tranquila na gravidade zero. 
Engravidar um grande amor no banco de couro de um Maverick quatro cilindros ao som de “Born to be wild”. 
Rir de tudo que não tiver a menor graça. 
Plantar bananeira no meio da rua e semáforos no pomar.

Almoçar em casa todo santo dia. Ir a pé pro trabalho. 
Acordar no meio de um enorme problema e constatar que tudo não passava de um pesadelo. 
Ouvir na cama os segredos picantes que os seus grandes lábios têm pra me contar. 
Morar em casa própria tipo rancho à beira de um lago e ter um monte de filhos com uma pá mecânica. 
Lavar a minha égua no Poema Sujo. 
Cuspir com classe e estilo do alto da Torre Eiffel. 
Gritar na Wall Street que dinheiro não traz felicidade. 
Cavar um túnel até fugir da prisão chegar ao Japão ou fazer calos nas mãos o que acontecer primeiro. Matar a curiosidade: fazer sexo com uma japonesa.

Desvendar os segredos da maçonaria. 
Descobrir a cura para o câncer da corrupção. 
Decorar a última parte do Hino Nacional. 
Beber leite misturado com manga e não enlouquecer. 
Passar no vestibular da vida. 
Ter uma árvore. Plantar um livro. Escrever um filho. 
Investir num consórcio operar o períneo fazer uma lipo levantar os peitinhos e de quebra entender as mulheres. 
Juntar meu primeiro milhão de amigos. 
Ganhar na loteria dos pênaltis. 
Deitar e rolar com você para que os corpos não criem limo.

Acabar com a violência a miséria e as fronteiras entre os países para que o mundo seja finalmente um único quintal. 
Curar-me do sarcasmo e do cinismo. 
Sonhar sonhos mais factíveis. 
Amadurecer o suficiente mas sem cair de maduro. 
Crescer tornar-me um adulto resolvido e nunca mais querer ser alguém nessa vida além de eu mesmo.

*          *          *

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

André J. Gomes - Reflexão necessária...


Infelizmente, 2015 'promete' (no mau sentido)



Somos todos vítimas do massacre no Charlie Hebdo
André J. Gomes - 'Revista Bula'  


Estamos todos juntos. Profundamente ligados. A despeito daquilo em que nestas horas acreditam os assassinos e os canalhas, os indiferentes e os superficiais, os cegos voluntários e os simplesmente estúpidos, somos todos uma coisa só. E esta coisa tem sofrido faz tempo, padecido como agora, no choque de uma covardia impensável, na violência medonha de um novo ataque burro e cruel.

Somos semelhantes. Iguais. Seremos sempre. Apesar de todas as nossas diferenças, nós ainda somos seres idênticos. Bichos afoitos da natureza, descobrindo seu próprio jeito de viver e de morrer.

É claro que somos distintos, diversos de toda sorte. Nossos pés têm formas desiguais, pisam de modo e força e ritmo diferentes em terrenos variados. Rumam para cantos separados. Mas ainda somos tão parecidos!

A diferença sobe por nossas pernas e se esparrama. Nossas topografias corporais divergem, nossos joelhos nos cobram o peso do caminho em moedas singulares, nossos sexos se estranham em gênero, forma, tamanho, intenção, entusiasmo mas, se deixarmos, eles dão um jeito e se atraem e se completam.

Nossos intestinos, rins, bexigas, pulmões e outros órgãos internos exibem capacidades desiguais, mantêm ritmos divergentes de funcionamento, adotam padrões variados de tolerância. Entre nós, há os que se indispõem com uma mera sopa de mandioca e os que comem pedra e arrotam borboletas brancas de saúde. Somos tão diferentes em nosso por dentro e, no entanto, nossas semelhanças saltam corpo afora em jatos escandalosos de vida.

Os braços que temos enlaçam empreitadas sortidas, alcançam miradas díspares, exibem largura, extensão, força, cores e capacidades várias. Mas continuam os mesmos braços que aproximam e afastam, abraçam e atacam, com mãos que afagam e agridem. Os mesmos que tateiam agora o amanhã que a Deus pertence.

Somos tantos rostos se iluminando e se fechando por razões infinitas, ora similares, ora opostas. Nossas bocas sorriem ou vociferam a partir de impulsos tantos, porta-vozes de juízos que se criticam e se censuram porque no fundo padecem da mesma ânsia grandiosa de expressão.

Nós somos iguais. Levamos olhos que miram vistas únicas, horizontes maiores ou menores, objetivos vis ou edificantes. Mas que são as mesmas janelas da alma que resiste lá dentro, tocada pelos sons e cheiros descobertos por nossos ouvidos e narinas, alma servida pelas escolhas que fazemos com as pontas dos dedos.

Estes ombros são os mesmos que suportam o peso do choro alheio e carregam o piano do mundo. São os mesmos da indiferença demonstrada quando nos faltam sentimentos ou precisamos escondê-los.

Nossas cabeças deliram sonhos incomuns. E os nossos corações, ah… esses se abrem e se fecham a partir de estímulos insuspeitados e desiguais. Trabalham em velocidades variadas, amam em intensidades diversas. Mas são exatamente os mesmos operários capazes e insistentes, batendo no peito sua vocação incansável para a vida e seu movimento furioso.

Você e eu somos “o próximo” a quem se deve amar. Amemo-nos, pois. Nós estamos aqui para nada, senão para isso, rumando para o mesmo lugar.

O resto é desvio, intolerância, violência exasperada e estupidez praticada em todos os níveis — de insultos verbais na Internet até atentados bárbaros como o do jornal Charlie Hebdo. O impulso de atacar e lesar e calar o outro é o mesmo. E as vítimas são as mesmas de sempre: nós. Cada um de nós. Até quando? Para quê?


*            *            *

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ANDRÉ J. GOMES - Um passarinho novo...


Um passarinho novo no céu das pequenas coisas
André J. Gomes - "Revista Bula", 13 de novembro 2014

E lá estavam todos eles. As formigas e os sapos, as cobras e os grilos, os ciscos e os pequenos universos que pulsam dentro das gotas d´água. Todas as criaturas pequenas que vivem debaixo das pedras e as borboletas e os pássaros, todos os pássaros trabalhando acima das árvores e brincando de andar no chão.

As rãs e os rios, as folhas pesadas de orvalho caindo dos galhos. Ficaram todos ali, à espera: um anjo simples, sem tempo nem jeito anunciara a chegada de passarinho novo ao céu das pequenas coisas.

Fez-se então no céu que é um imenso e eterno chão a maior expectativa de simplicidades. Todas as coisas e os seres desimportantes da vida estavam ali. As tartarugas caminhando no avesso dos mísseis, os insetos voando alheios aos aviões, os atrasos e os silêncios, as insignificâncias do tempo costurando suas esperanças em linhas invisíveis de quando.

O passarinho chegou ali em sua manhã quase tardinha, quase de noite. Olhou a todos com olhos de infância. Reencontrou o amigo Bernardo como na primeira vez que o reconhecera, quase árvore. Reviu os filhos João e Pedro de novo crianças, brincando de fazer nada na sombra com palavras de sol. Chegou agora e sempre.

Foi ser feliz de novo, transbordar as peneiras de água, afanar o vento e mostrar correndo aos irmãos, escrever a Gramática Expositiva do Céu. Vivo como a vida inventada por ele.

Porque no céu das pequenas coisas, morrer é só um despropósito como tantos mais, e o voo do passarinho não morre. Finda seu corpo físico, parte seu canto infinito. Ele foi adiante.

Foi-se tornar inútil e belo como sempre. Para sempre. Com os seus, vai viver de apanhar desperdícios em um quintal maior que o mundo. E o mundo, esse nosso cá aquém, fica para antes e depois. Fica para quando.

Para Manoel de Barros.


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