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terça-feira, 22 de março de 2016

Rubem - Ana Luísa Escorel

Rubem Braga (1913-1990)

RUBEM
Ana Luisa Escorel - Blog 'de tudo um pouco' - 18 de janeiro de 2016

Para quem o conheceu na beira dos sessenta fica a imagem do homem de rosto e corpo largos, estatura mediana, cabelos fartos, bigodes bastos: um ursão grisalho. 
Olhar quase sempre mirando de baixo para cima, ariscos como os dos matutos. 
Na progressão da conversa passavam a espantados, diferentes das fotografias, em moço. Aí era magro, mais moreno – queimado de sol, talvez –, olhos tendendo a inquisidores. Devem ter ido se espantando com o correr da vida.

A fala – travada, pouco audível, entre fanha e ciciosa – não era a melhor forma de contato:  Rubem parecia estar sempre pedindo desculpas por não poder se passar do aparelho fonador. O som lhe escapava aos solavancos, pedaços de frases que se ligavam uns aos outros pela atenção de quem ouvia, não por mérito seu. 
Franco, muito franco, frequentemente ranzinza, dava a impressão de estar mais à vontade na escrita que na lida com a inelutável sucessão dos dias. 
E era de forma brusca que sabia ser gentil, quase empurrando para cima do objeto de seus afetos um presente ou um agrado escondidos dos quais, num dado momento, precisava como que imperiosamente se livrar.

Por bom tempo gostou da convivência em bares onde a conversa solta, o cigarro e a zonzeira da bebida ajudam a atiçar a curiosidade sobre o comportamento alheio. 
Mas isso ele não punha nas crônicas, limitava à vida. Razão pela qual seu texto continua soberbo oferecendo uma textura transparente como só as manhãs de maio no leste do Brasil. 
Nele reinam as lembranças de Cachoeiro – Cachoeiro do Itapemirim – onde ficaram avós e tios em suas fazendas; pais e irmãos no casarão protegido pelo cajueiro monumental; vizinhos de maus e bons bofes; a escola; os primeiros escritos e os alumbramentos fundamentais.

Cachoeiro. Diagrama que dá nexo sustentando, até o fim, a visão fresca do cronista. 
Vem provavelmente de lá o cuidado de frear o comentário mais direto sobre esse ou aquele personagem, dos inúmeros que povoaram as impressões cotidianas com as quais, por volta de seis décadas, registrou as ansiedades de um país sempre crisálida. 
Deve vir também de Cachoeiro – e da ética estrita da classe média provinciana – a discrição com que dosava as reações sem atingir ninguém, a não ser a si mesmo, com o travo ácido de uma lucidez cortante. 
No texto de Rubem a observação se inclina para o abstrato. 
O compromisso não parece repousar no enredo, mas no esforço de compreender a dinâmica na qual se debatem homens e mulheres na massa física de que é feito o mundo.

Mar. Infância. Namoradas. Temas recorrentes repetidos à exaustão. Quase pretextos para justificar o exer­cício de uma escrita impecável onde, com domínio da forma e profundo senso da língua Rubem Braga induz, quem o lê, a achar que escrever  é  fácil.

*            *            *

Lembranças da Farmácia Piauí

 DE TUDO UM POUCO BLOG por Ana Luisa Escorel 

 Capa_Farmacia

UMA FARMÁCIA EM 3 TEMPOS
21 de março de 2016

O Leblon é um bairro empenhado em oferecer ilhas de sofisticação em meio à feiura crescente do espaço construído do Rio de Janeiro, onde a exploração do solo urbano tem se imposto da pior forma possível. 
O efeito disso está impresso nas calçadas imundas, cheias de falhas, frestas, lixo, buracos, desníveis; nos muros pichados – do subúrbio à mais cara das vizinhanças –; nos prédios de péssima arquitetura excessivamente próximos uns dos outros, paredões de concreto vencendo a altura das montanhas e aviltando a extraordinária topografia do Rio. Nas pistas de velocidade que destroem bairros inteiros; em postes de tudo quanto é jeito e tamanho entrelaçados a cipoais de fios conduzindo serviços de utilidade pública pouco eficientes; nas centenas de coletivos rodando ao mesmo tempo em perfeita sintonia com nuvens de gás carbônico que entopem vias de acesso indispensáveis, com alto risco para a segurança de quem ousa resistir a eles. 
Sem falar nas aceleradas em coro contínuo, código com que tornam clara a disposição permanentemente agressiva. 
E tudo isso coroado pelas favelas, encarapitadas em todos os morros disponíveis, solapando encostas e pondo abaixo extensões e mais extensões de florestas.

Nesse quadro, alguns pontos da zona sul do Rio, como o Leblon, justamente, tentam construir um mundo à parte voltado para as camadas privilegiadas, com bons restaurantes, ótimas livrarias, ­muitas delas contando com cafés agradabilíssimos e patisserie de primeira; lojas que vendem produtos finos de qualquer natureza – nacionais e importados –; bancas de jornais e revistas onde se pode comprar notícias de todos os cantos do mundo.

Pois numa esquina do Leblon ficava a farmácia Piauí, aberta de sol a sol, sempre atenta ao bairro e a todos aqueles que, mesmo vindos de longe, precisassem de socorro em horários improváveis. 
Durante anos seguidos a Piauí acudiu em seus balcões os achacados por dor física ou moral oferecendo, de quebra, a possibilidade do encontro entre amigos e conhecidos que se esbarravam neles de manhã, de tarde, de noite ou de madrugada.

Um dia a Piauí fechou para tristeza de todos os horários, dando lugar a mais um elo da portentosa cadeia Raia, que há alguns anos vem cravando pelo Brasil afora suas incontáveis franquias: não houve choradeira que segurasse a marcha dos negócios.

Nesse novo cenário, uma paulista perdida no Rio há tempos, na habitual visita de fins de semana ao Leblon, deu com a novidade afixada do lado de fora da Droga Raia – antiga Piauí – na face que dá para a rua lateral, a Rita Ludolf. 
Ao lançar pela undécima vez o olhar sobre a esquina da velha farmácia, buscando pretexto para alimentar a saudade, deu com motivo mais consistente de nostalgia: a ampliação em preto e branco de uma foto mostrando certo espaço comercial, cortado pela frase “Há mais de cinquenta anos servindo com qualidade”. 
No registro da fotografia, armários escuros, caixilhos de madeira lavrada, portas de vidro, frascos transparentes misturados a embalagens de papel enfileirados com ordem nas prateleiras, mais um cheiro acre-doce de cânfora que varava os limites da memória. 
O farmaceutico, avental branco muito limpo atrás do balcão, óculos de aros fortes, cabelos rentes, bigodes escuros cuidadosamente aparados acusava, como todo o resto, as maneiras, os arranjos, o espírito, enfim, do atendimento comercial do final dos anos 1940, meados dos anos 1950.

O coração da moça começou a bater depressa. Não!… Seria possível?…Afinal, a disposição interna das farmácias daquele tempo era muito parecida… 
Então fincou bem o olho na imagem e, examinando os detalhes, teve a confirmação na figura elegante de um rapaz de olhos gateados, entrevisto na portinhola atrás de um dos balcões, em frente ao quartinho em que se aplicavam as injeções. Era ele! Era ele, sim! O moço da farmácia Internacional! 
Filho do dono ou do gerente, talvez, com quem, anos a fio, nossa paulista, ainda criança, cruzava pela cidade nas férias passadas em Araraquara! No clube, jogando tênis, impecável, roupa toda branca; nas matinês de carnaval, vendo o baile em pé, muito composto na beira do salão; e, claro, todos os dias dentro da farmácia, ajudando. 
Sempre comedido, impressionando a menina com quem jamais trocou palavra e que, mesmo assim, não apagou da lembrança a expresão doce, a figura sempre de claro que, por conta dos olhos azuis, da pele rosada, do cabelo louro, ela associava às representações dos arcanjos renascentistas, folheando os livros de arte da mãe. 
O que terá sido feito do moço? Terá alguma coisa a ver com o formidável crescimento da rede de drogarias Raia? O negócio ainda estará com a família? Seria ele da família? Estará vivo? 
Dúvidas sem volta nem resposta.

De qualquer forma, agora, no Leblon, mais precisamente na esquina de Ataulfo de Paiva com Rita Ludolf, a moça passará a ter, a cada fim de semana, um diálogo mudo com a fotografia, deixando a memória levar o coração para um tempo bom, até o dia em que a farmácia mudar outra vez de mãos, ou os donos resolverem tirar a fotografia da parede por achar que já terá cumprido a função.

A partir daí, para a moça, a esquina voltará a ser apenas o entroncamento de ruas barulhentas, sujas e malcuidadas, num bairro comprometido em escamotear as próprias limitações com expedientes frágeis, repetindo, em menor grau, a dinâmica que se amplia dele para toda a cidade e da cidade para o país, levando o Brasil a ser um repositório inexcedível no campo da contrafação, da injustiça social, da violência e da falta de planejamento urbano.

*            *            *

segunda-feira, 17 de março de 2014

ANA VALESKA - (Caminhada)



"Fui caminhar na praia e a areia que o mar lambia estava toda rendada
Em meu quarto branco desenho com inédita disciplina
Das linhas úmidas do que vi, crio retratos
Uma ocupação diária que aos poucos revela minha cartografia íntima
Fio por fio, fio de ovos, fios de couro, cordões entretecidos de almas, 
fios de filhos, filhos cor de rosa, vestidos de casa da abelha, 
picolé de creme-holandês
Ponto de cruz, labirinto
Sou bordadeira de memórias."

*        *        *

ANA VALESKA - artista plástica cearense

sábado, 15 de março de 2014

Poetas

Da página "Onde nasce a poesia" - facebook




O mundo só precisa dos poetas
Maria Eduarda Novaes

Algo mais que se precise, 
Em qualquer aspecto, 
Além da divina Clarice Lispector?

De que serviria o calendário
E todos os dias da semana
Se no mundo não houvesse 
Mário Quintana?

Eu só hablo, 
Ele nem sequer me saluda
Quem mais lo haría todo 
Además de Pablo Neruda?

Se algum mal te acomete
Não encha a cara de chopp
Sente e vá ler um livro 
De Elizabeth Bishop

Ou dance feliz de sapatilha
Ou só rodopie até 
Que te desmanteles
Ou troque isso ou aquilo 
Por tão somente Cecília Meireles

Não te salves
Rasgue a carta de alforria
E vá curtir um longo exílio
Ao lado de Gonçalves Dias

E não será preciso um centavo
Nem um segundo de um tic-tac
Assim que voltares a viver
Na Pátria de Olavo Bilac

Acorde sem demora
Saia ao sol que te ilumina
E agradeça muito a Deus por
Cora Coralina

Ao meio dia, siga cantando
Para que mais longe se soa
A alegria em dose tripla
Do fingidor Fernando Pessoa

Quando a Aquarela
Atravessar a nuvem branca
Ali haverá de brotar
A grande Florbela Espanca

Assim, sobreviva ao susto
Do soar de tantos banjos
Na que fora a última quimera
Do hipocondríaco Augusto dos Anjos

Embarque no primeiro bonde
Para longe de toda Saudade
Desfrutando da ilustre companhia
De Carlos Drummond de Andrade 

Ponha nos fins, meios e inícios
Samba, Beleza, Amor a mais
Pois fundamental mesmo
É Vinicius de Moraes

E viva a metamorfose!
Entre no casulo, e brinque
Que só assim é que se pode
Ter o bigode
De Paulo Leminski 

*        *        *

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

HAIKAIS - Leo Carrion

por Leo Carrion

Escritor premiado no FC do B (Ficção Científica Brasileira), concurso literário criado  em 2005 para incentivar, difundir e renovar a literatura de ficção científica no Brasil



Deitado sob o ipê
passei o dia inteiro
a receber flores

**


Que desconfiança?
a primavera é maravilhosa
desde criança

*        *        *

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

MARLA DE QUEIROZ - Quando há feto

Quando há feto
Marla de Queiroz

Uma ventania no meu corpo ventre, 
afeto se exacerba se há feto após semente. 
Mudo o meu semblante, pele, poros, valores, planos. 
Será, talvez, o único amor onde não caibam desenganos.

Todas as minhas formas vão se amoldando. 
Há além de um EU, um ser tão MEU, 
que sendo em si dentro de mim, é também Mundo. 

Uma ventania no meu corpo ventre mudou todos os meus rumos. 
Como te dizer, se ainda desconheço a tua face, deste amor que já é tão profundo? 

(Flor que desabrocha, pétala por pétala. Tantas no jardim, mas só me atento a esta).

Eu te gestei por meses, guardando como MEU. 
Mas quando vi teu rosto, quem nasceu fui EU.

*            *            *

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

LEANDRO ANDRADE - poemas rápidos

Da página 'Obvious'

− Eu chovendo… 
Você toda sol… 
Entre nós, o arco-íris!  



**

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: 
- Vai, guri, ser quase na vida... 
E eu achei bacana e fui... 
pois quasar é quase estrela ... 
o que pouca coisa não é! 

*            *            *
 (Leandro Andrade – ‘Obvious’)

domingo, 11 de agosto de 2013

PAIS ESCRITORES... filhos também

FELIZ DIA DOS PAIS!


Neste Dia dos Pais, homenagem singela. 
Alguns escritores brasileiros cujo filho - ou filha - seguiram seus passos e se tornaram também escritores.


Carlos Drummond de Andrade e sua filha Maria Julieta (escritora)

Érico Veríssimo e seus filhos Luís Fernando (escritor) e Clarissa

Graciliano Ramos e seus filhos Ricardo (escritor) e Maria Clara

João Guimarães Rosa e sua filha Vilma (escritora)


*            *            *

quinta-feira, 21 de março de 2013

CLEISE MENDES - Mágico Mirante

Mágico Mirante
Cleise Mendes

Daqui, deste posto avançado em que me encontro,
deste mágico mirante,
percebo que pela via do bem ou pela veia do mal
já consegui na Vida algumas aquisições importantes.

No final a gente sabe sempre muito pouco, mas
já aceito as minhas frustrações, por exemplo,
com a cabeça erguida
e com os olhos lá adiante.

Já aprendi que não importa quão boa seja uma pessoa
ela vai me ferir de vez em quando
e eu preciso perdoá-la por isso, sob pena
de ter o meu coração mergulhado no veneno do rancor.

Aprendo todos os dias que falar faz bem,
pode aliviar dores emocionais.
E que não importa o que eu tenho na vida
mas quem eu tenho na vida.
E aprendo que não importa onde já cheguei,
mas pra onde estou indo.

E se de repente eu fico sem saber pra onde estou indo...
qualquer lugar serve!
E descubro que só porque alguém não me ama
do jeito que eu quero que me ame,
não significa que esse alguém
não me ame com tudo que pode
porque existem pessoas que nos amam
mas simplesmente não sabem como demonstrar.

Aprendo que nem sempre é suficiente
ser perdoada por alguém.
Muitas vezes eu tenho que aprender
a perdoar a mim mesma.

E não importa em quantos pedaços
meu coração foi partido:
o mundo não para pra que eu o conserte.
O Tempo não é algo que possa “voltar atrás”.

Aprendo que a Vida, sem amor por mim mesma
não vale a pena.  Não vale a pena.
Assim, eu mesma planto o meu jardim
e decoro a minha alma,
ao invés de esperar que alguém me traga flores.

*            *            *

(Este poema faz parte do monólogo teatral “Coração Bazar”, dirigido por José Possi Neto com interpretação de Regina Duarte, em janeiro de 2005 – Teatro Sesi – Rio de Janeiro)

quinta-feira, 7 de março de 2013

RENATA FAGUNDES - Poema Daltônico

Poema Daltônico (trecho)
Renata Fagundes

Acorda dona moça,
a vida passa lá fora
 e você fica aí olhando pra dentro,
fechada no nada.

Flores precisam ser coloridas,
sorrisos precisam ser enfeitados,
estrelas estão amontoadas num canto
esperando para iluminar
os beirais das janelas.

Hoje, uma borboleta comentou
que você esqueceu sua aquarela
na esquina da praça
e crianças travessas andaram brincando
de pintar vidraças,
achando que eram cores sem dono,
sem casa.

O que foi que você perdeu,
que de tão distante seus olhos não veem mais nada?
O que encontrou pelo caminho
que a fez descolorir e cansar de sorrir?

Quero pintar um coração vermelho em sua boca,
para que você se recorde de falar de amor,
quero vagalumes fazendo morada nas suas pestanas
para iluminar seu olhar de flor.

Vem, dona moça, o tempo é agora,
a vida é lá fora
e tudo fica sem graça
sem sua risada gostosa,
sem sua mistura de cor.

*            *            *

sábado, 2 de março de 2013

Poema de JULIS CALDERÓN



Julis Calderón

Eu sempre empreendi grandes viagens
para não muito mais além do meu jardim...
Jamais pretendi chegar ao final de qualquer rua,
se o final das ruas sempre chegaram até mim.

Então eu nunca precisei tomar um trem
com uma mala velha abarrotada de saudade.
Até hoje convivo com a paz de minhas rosas,
companheiras de viagem para a liberdade.

Andar pelo jardim é como dar a volta ao mundo
onde vivo replantando beijos nos canteiros
dos parques das cidades que há no fundo
do lago da memória de minha infância...
E eu não posso correr o risco de deixar
de ser criança, como um velho travesseiro
que se rasga com o tempo e o vento
espalhando pela vida tantas penas
e sonhos e segredos e lembranças
adormecidos neste quarto antigo
onde jazem as minhas esperanças...

*          *          *

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

FAL AZEVEDO - escritora paulistana


Richard Gere e Hatchi - 'Sempre a seu lado'

"Seu cachorro ama você.
Seu cachorro foi programado biologicamente 
pra amar você.
Ele ama você, 
mesmo quando você se atrasa 
ou esquece de botar água pra ele.
Mesmo que você tenha fraquejado.
Mesmo que você fraqueje todos os dias.
Mesmo que você ceda e se perca, 
mesmo que você minta.
Mesmo que você tenha tanto ódio dentro de você, 
que doa.
Mesmo que você tenha tanta dor dentro de você, 
que você odeie.
Mesmo que você tenha estragado tudo.
(...)

Mesmo que você chegue em casa sujo, pobre, humilhado, mal humorado.
Mesmo que os outros riam de você.
Mesmo que você esteja de ressaca.
Mesmo que você tenha gatos, muitos gatos.
Seu cachorro ama você, 
mesmo quando você não está com saco pra ele
e tranca o bichinho na área de serviço.
(...)

Seu cachorro ama você mesmo quando você se odeia.
Mesmo quando você é mesquinha, 
seu cachorro vai amar você.
(...)

Mesmo quando você chora debaixo do chuveiro, 
pra sua cara não ficar inchada, 
seu cachorro vai te amar.
Seu cachorro ama você para sempre, 
mesmo que nada, nada, nada tenha salvação 
e que, em parte, a culpa seja sua."

*            *            *

Do Livro "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite"




sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Miniconto "JOÃO DAS ÁGUAS' - Tânia Gazito


João das águas
Tânia de Souza Gazito - escritora paulista

Naquele pedaço do mundo, ninguém estranhava que o menino de três anos ainda não tivesse nome - a terra rachada em secura, o peito magro das mães, melhor mesmo era esperar e ver se a criança vingava.

Vingou.
Então, o pai levou-o até o notário mais próximo, e já era tão longe.
Deu-lhe o nome de João das Águas.
O 'João' foi escolha da Maria, para que o santo protegesse a cria; o 'das Águas' o homem inventou no caminho - debaixo do sol ardido, vendo verde nenhum, se deu conta do lume nos olhos do menino, pareciam até refletir um rio de fecundas águas.
Pois foi matutando que já era tempo da esperança voltar.

*            *            *