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terça-feira, 17 de março de 2015

Não podemos ter a certeza de nada - José Luís Peixoto

Da página "Conti outra Artes e Afins"


Não podemos ter a certeza de nada
José Luís Peixoto - escritor português

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. 
As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. 
Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. 
Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. 
Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida.

— Por quê, pai?

— Não sei. Mas creio que é assim.

Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. 
Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. 
Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. 
Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. 
E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. 
Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.

— Por quê, pai?

— Porque o amor, filho.
*            *            *

No livro ‘Abraço’

domingo, 17 de agosto de 2014

JOSÉ SARAMAGO - "Carta para Josefa, minha avó"

Da página "Homo literatus"
Carta para Josefa, minha avó
José Saramago

"Tens noventa anos. És velha, dolorida. 
Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. 
Não sabes ler. 
Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. 
Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. 
De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. 
Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte.
Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. 
Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. 
Com  isto viveste e vais vivendo. 
És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. 
Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. 
Vives. 
Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. 
Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. 
E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. 
O teu riso é como um foguete de cores. 
Como tu, não vi rir ninguém. 
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. 
Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. 
Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. 

Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender.

Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas palavras as que tu pudesses compreender. 
Já não vale a pena. 

O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? 
Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. 
Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. 

Mas por que, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua. "


*            *            *

quinta-feira, 31 de julho de 2014

CARLOS QUEIRÓS - Canção Grata

Canção Grata
 José Carlos Queirós Nunes Ribeiro 
 Lisboa, 5 de abril de 1907 -  Paris, 27 de outubro de 1949



Por tudo o que me deste: 
— Inquietação, cuidado, 
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!) 
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco... 
— Obrigado, obrigado! 

Por aquela tão doce e tão breve ilusão. 
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita, 
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita 
A minha gratidão! 

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste! 
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado... 
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado 
Por tudo o que me deste! 

*        *        *
In 'Obra Poética'

quinta-feira, 3 de julho de 2014

JOSÉ LUIZ PEIXOTO - Cada dia é sempre...

Cada Dia é Sempre Diferente dos Outros
José Luiz Peixoto - escritor português

Cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltamos atrás. 
Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. 
Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes. Mas, ainda assim, quando percebemos que esquecemos, lembramo-nos e, por isso, nunca é exatamente igual.

— Por que, pai?

— Porque a memória não deixa que seja igual, mesmo que seja uma memória muito vaga, mesmo que seja só assim uma espécie de sensação muito vaga. 
É que a memória não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse. 
Grande parte dos nossos problemas estão na memória volúvel que possuímos. 
Aquilo que é hoje uma verdade absoluta, amanhã pode não ter nenhum valor. 
Porque nos esquecemos, filho. Esquecemos muito daquilo que aprendemos. E cansamo-nos. 
E quando estamos cansados, deixamos de aprender. 
Queremos não aprender por vontade. Essa é a nossa maneira de resistir, mais ou menos, àquilo que nos custa entender. 
E aquilo que nos custa entender pode ter muitas formas, pode chegar de muitos lugares.

— Por que, pai?

— Porque nos parece que é assim. Mas talvez não seja assim. 
Aquilo que nos custa entender é sempre uma surpresa que nos contradiz. 
Então, procuramos convencer-nos das mais diversas maneiras, encontramos as respostas mais elaboradas e incríveis para as perguntas mais simples. 
E acreditamos mesmo nelas, queremos mesmo acreditar nelas e somos capazes. Somos mesmo capazes. 
Não imaginas aquilo em que somos capazes de acreditar.

— Por que, pai?

— Porque temos de sobreviver. 
Porque, à noite, a esta hora, temos de encontrar força para conseguirmos dormir, descansar, e temos de acreditar que no dia seguinte poderemos acordar na vida que quisemos, que desejamos.
Temos de acreditar que poderemos acordar na vida que conseguimos construir e que essa vida tem valor, vale a pena. 
Muito mais difícil do que esse esforço é considerarmos que fomos incapazes, que não conseguimos melhor, que a culpa foi nossa, toda e exclusiva.

*           *            *
In 'Abraço' 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

ARY DOS SANTOS - Quando um homem quiser

Quando um Homem Quiser
Ary dos Santos
Portugal, 1937 - 1984

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

*            *            *

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

MIGUEL TORGA - Abre a janela

Abre a janela
Miguel Torga

Abre a janela, e olha!
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.

Abre a janela, e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede…
Abre a janela, quanto mais não seja
Para que haja um sorriso na parede!

*            *            *

sábado, 30 de março de 2013

MIGUEL TORGA - Confiança


Confiança
Miguel Torga

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…
*            *            *

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MIGUEL TORGA - Um poema


Um poema
Miguel Torga



Não tenhas medo, ouve:
é um poema.
Um misto de oração e de feitiço...
sem qualquer compromisso.
Ouve-o atentamente,
de coração lavado.

Poderás decorá-lo
e rezá-lo
ao deitar,
ao levantar,
ou nas restantes horas de tristeza
na segura certeza
de que mal não te faz.



E pode acontecer que te dê paz...



*            *            *

terça-feira, 4 de setembro de 2012

JOSÉ SARAMAGO, POETA - Poema à boca fechada

Poema à boca fechada
José Saramago



Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

*            *            *

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Porque os outros se mascaram mas tu não
Sophia de Mello Breyner Andresen


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.

...Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

*            *            *

sábado, 18 de agosto de 2012

OLINDA RIBEIRO - Dois poemas

Dissonância

Toda a poesia que se perde
Por preguiça, incomodo, ou desleixo,
São poemas da alma onde fecho
O “sentir” embrionário e verde.

Tantas coisas tenho para dizer
Porquês de vida querendo resposta
Calamidades internas onde a aposta
É o ego soltar a opressão que me faz sofrer.

Não deixar os tumultos internos prevalecer
É controlar a revolta interna do meu existir.
Mas tudo é errado e incongruente.

E sem que a vontade mande, todo o meu ser
Explodiu em obesidade física e mental, fazendo colidir
A liberdade e o direito ao que a alma sente.

2012 Olinda Ribeiro

* * * * * * * * * * * *

 
Que rico dia

Hoje vivi intensamente!
Apanhei uma forte chuvada
Senti o vento no rosto
E por intrépidos momentos
Não pensei em nada

Isto sim é que é Vida!


2012 Olinda Ribeiro



*            *            *

segunda-feira, 30 de julho de 2012

FLORBELA ESPANCA - Fumo

Fumo
Florbela Espanca

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
... Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho

Os dias são outonos: choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredos

Invoco o nosso sonho, entendo os braços
e é ele oh meu amor, pelos espaços
fumo leve que foge entre os meus dedos.

*        *        *

domingo, 8 de julho de 2012

MIGUEL TORGA - Quase um poema de amor

Quase um poema de amor
Miguel Torga

Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
lusitana
tem essa humana
graça
feiticeira
de tornar de cristal
a mais sentimental
e baça
bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
e ninguém me deseje apaixonado,
ou que a antiga paixão
me mantenha calado
o coração
num íntimo pudor,
há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.´


*        *        *

domingo, 20 de maio de 2012

OLINDA RIBEIRO

Caros amigos e admiradores da poesia de Olinda Ribeiro:

Um mimo para todos vocês - e para mim também, claro - do já conhecido perfume de Olinda.

Um post com três poemas, uma vez que estou com certas dificuldades no acesso à Internet.

*          *          *

Poesia Coquete
Olinda Ribeiro

As afeições marmoreadas embotam os sentidos. Poesias,
Passeiam copiosas entre avenidas, veredas, e arvoredos frondosos,
Almas amantes surripiando carinhos e olhares famintos,
São poemas sobre rolas, fénix, unicórnios e sereias rubescentes,
As delicadas poesias são só sonhos almejados por poetas,
Todos os poetas tecem magnânimos mantras à poesia…
(Os poemas)

Paraísos em debandada entre rimas e amor explícito e implícito,
E sabemos nada! Temos sede do atingível verso perfeito.
Entre papos de anjo e teias de aranha arquitetamos laudes,
O musculo coração bate acelerado/serenizado ante a criação,
Se uma só palavra basta para arrebatar a mente e o ser e o existir.
Asperge-se todas as coisas como um acto de viver merecidamente,
Vive-se cada letra abreviada unida a outra e nasce a palavra respirada,
Depois… Depois a frase, descritiva, revela por quem bate o coração,
O olhar crepitante pinta sentimentos, muitos risos e flores marron…
Debalde o que se passa em redor ouve-se música celestial
Entre as pedras da rua o ébrio zigazeante e a perfuradora.
E se por um feliz acaso estamos arrebatadamente apaixonados
Então a poesia nasce até dum caracol pastando pelos caminhos de Santiago!
Somos capazes de nos considerar destramente sábios,
O ego fica do tamanho do universo e os deuses que se acautelem…
O vento borrascoso dá um safanão … como imagens cópticas… pó,
As palavras cépticas desfazem-se como espuma na areia,
E a lição a reter é que a vida é para viver tal como o amor,
E se por um ocaso a poesia que sinto a for transmitindo,
Não é por mérito próprio mas por vontade da própria poesia.
Os poetas nada sabem de poesia.
A poesia sabe tudo dos poetas.
Brinca com os poetas,
como se os poetas fossem grãos de areia escorrendo entre os dedos…
Mas é caprichosa!
Não permite que outrem desdenhe dos seus poetas….
Isso é que não!
Os poetas são seus!
Ama-os fogosamente …
no ardor da paixão inspira-os,
No amago da tristeza consola-os,
e nos dias de chuva fazem amor!

2012 Olinda Ribeiro
**

Tenho a alma virada pro mar
Olinda Ribeiro


Tenho a alma virada pró mar
aquela imensidão
aquarelas brilhantes
baloiçando
ora sim ora não
piscares cadentes
bailar bailar bailar
em espuma e sal
e o mar
a minha alma a espelhar!

 
2009 Olinda Ribeiro 18 de Maio
**
 
 
 
O tempo voou
Olinda Ribeiro

como é que já anoiteceu
se ainda agora amanheceu
chamaste por mim
e
o tempo voou

posso sem receio afirmar
que
o tempo se distraiu
e deixou passar as horas
pois
entre o toque da tua pele
o cheiro a talco
a canção de ninar
amamentar
ser seduzida por ti
passaram
apenas uns breves instantes!

1994 Lili (Olinda Ribeiro)10 de Outubro

***

domingo, 29 de abril de 2012

JOSÉ GOMES FERREIRA - Chove

Chove
José Gomes Ferreira
Portugal, Porto, 9 de Junho de 1900 - Lisboa, 8 de Fevereiro de 1985

Chove…
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

*    *    *

segunda-feira, 23 de abril de 2012

OLINDA RIBEIRO - A vida é mesmo assim...

A Vida é Mesmo Assim
Olinda Ribeiro


Somos o sonho que vamos realizando,
e as experiências que vamos vivendo,
as memórias que temos, vão revelando,
quadros de vida que fomos retendo.

Bons ventos nos levam à descoberta,
das sábias conquistas do nosso interior,
com energia positiva, e mente aberta,
abrimos caminho ao Eu superior.

Percas e ganhos tudo faz parte,
sorrisos, dores, emoções e folguedos,
tudo pertence à excelência infinita.

Os sentimentos são telas, são arte,
partículas minúsculas do mesmo segredo…
Que tornam a vida muito mais bonita.

*        *        *
2011 Olinda Ribeiro

segunda-feira, 16 de abril de 2012

OLINDA RIBEIRO - Felicidade


Em atenção aos muitos amigos que solicitaram, nos Comentários, mais este poema delicioso de Olinda Ribeiro.

Agradeço a todos vocês que se reconheceram nas palavras simples e delicadas dessa poetisa.



Felicidade
Olinda Ribeiro

Se cantares para mim eu gosto

Se me beijares eu deixo

Se me abraçares suspiro

Se me amares Eu canto!

*        *        *

sábado, 14 de abril de 2012

OLINDA RIBEIRO - Pomba Branca

Por sugestão - em comentário no blog -  de Catarina Ribeiro, também admiradora da poesia de Olinda Ribeiro, esta que tem, em Ana Catarina, sua pomba branca.

Tantas coincidências de nomes...muito interessantes.


Pomba Branca
Olinda Ribeiro

Pomba branca mágica pomba branca
sempre o símbolo da paz
sobrevoando sonhos e montanhas
e outros céus iluminados e estereotipados
a pomba poética e profética cai bem
nas frases feitas dos discursos
prontos para consumir por
povos sedentos de esperança,
mas uma criança com fome
quer pão, um copo de leite,
uma cama quente e colo de mãe,
essa é a sua pomba branca,
a sua paz, o seu símbolo, e a sua esperança.

Perguntava-me qual era minha contribuição
Para a paz de uma criança?
A pomba branca poisou no meu colo
Aninhou-se no meu peito
 Deu-me um beijo e adormeceu.
E hoje ainda que só por hoje
Acreditei que o símbolo da paz
Era uma pomba branca voando
Pelos céus e pelas montanhas
E que os homens eram homens
E as crianças somente crianças
Sonhando com pombas brancas.

*        *        *
2012 Olinda Ribeiro 21 de Março, dia mundial da poesia

quinta-feira, 5 de abril de 2012

UMA CANÇÃO PORTUGUESA

Pedra Filosofal
Poema de António Gedeão, musicado por Manuel Freire

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida,
tão concreta e definida,
como outra coisa qualquer.
Como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos.
Como estes pinheiros altos,
que em verde e oiro se agitam,
como essas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre, sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é flor, é pincel,
base, fuste ou capitel,
arco e ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
Rosa dos Ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança.
Colombina, Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
alto forno, geradora,
barco de proa festiva,
cisão de átomo, radar,
ultrassom, televisão
desembarque e foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida
e que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

*        *        *
In: 'Movimento Perpétuo', 1956

sábado, 17 de março de 2012

JOSÉ SARAMAGO - excertos


“Leio numa reportagem sobre o terramoto nos Abbruzzos que os sobreviventes, desesperados, impotentes, se perguntam por que foi que o destino os escolheu a eles e à sua terra para campo da tremenda catástrofe. É uma pergunta que nunca terá resposta, mas que invariavelmente fazemos quando a infelicidade nos veio bater à porta, como se em qualquer parte do universo existisse um responsável a quem pedir contas pelos males que nos sucedam. Muitas vezes não há tempo para mais que ver a morte diante, ou nem sequer para isso, quando uma bomba rebenta a dez passos ou o caiuco se desfaz em pedaços com a costa ali mesmo, ao alcance, quando a inundação arrasta casas e pontes como se de obstáculos insignificantes se tratasse, quando o alude ou o deslizamento de terras sepultam povoações inteiras. Perguntamos porquê a nós, porquê a mim, e não há resposta. Jacques Brel também tinha perguntado: “Pourquoi moi? Pourquoi maintenant?” – e morreu. É o destino, dizemos, e nele não está escrita a palavra ressurreição. É bom sabê-lo porque, em verdade, o mundo não está para ressurreições. Já basta o que basta.”
In: O caderno de Saramago

**
"Depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade."
In: Ensaio sobre a cegueira

**
"De deus, que por obrigações de cargo está ao mesmo tempo no universo todo, porque de outro modo não teria qualquer sentido havê-lo criado, seria uma ridícula pretensão esperar que mostrasse um interesse especial pelo que acontece no pequeno planeta terra, o qual, aliás, e isto talvez a ninguém tenha ocorrido, é por ele conhecido sob um nome completamente diferente, mas a morte, esta morte que, como já havíamos dito páginas atrás, está adstrita à espécie humana com carácter de exclusividade, não nos tira os olhos de cima nem por um minuto, a tal ponto que até mesmo aqueles que por enquanto ainda não vão morrer sentem que constantemente o seu olhar os persegue."
In: As intermitências da morte

*            *            *