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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

GRACILIANO RAMOS - Prefeito de Palmeira dos Índios (2)

Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1930

O prefeito Graciliano Ramos presta contas do exercício de 1929 ao Governador de Alagoas


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Sr. Governador.

Esta exposição é talvez desnecessária. O balanço que remeto a V. Ex.a mostra bem de que modo foi gasto em 1929 o dinheiro da Prefeitura Municipal de Palmeira do Índios. E nas contas regularmente publicadas há pormenores abundantes, minudências que excitaram o espanto benévolo da imprensa.

Isto é, pois, uma reprodução de fatos que já narrei, com algarismo e prova de guarda-livros, em numerosos balancetes e nas relações que os acompanharam.

RECEITA – 96:924$985

No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985.

E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoa que não precisavam deles e pus termo a extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores.

Não me resolveria, é claro, a pôr em prática no segundo ano de administração a eqüidade que torna o imposto suportável. Adotei-a logo no começo. A receita em 1928 cresceu bastante. E se não chegou à soma agora alcançada, é que me foram indispensáveis alguns meses para corrigir irregularidades muito sérias, prejudiciais à arrecadação.

DESPESA – 105:465$613

Utilizei parte das sobras existentes no primeiro balanço.

ADMINISTRAÇÃO – 22:667$748

Figuram 7:034$558 despendidos com a cobrança das rendas, 3:518$000 com a fiscalização e 2:400$000 pagos a um funcionário aposentado. Tenho seis cobradores, dois fiscais e um secretário. Todos são mal remunerados.

GRATIFICAÇÕES – 1:560$000

Estão reduzidas.

CEMITÉRIO – 243$000

Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamavam.

ILUMINAÇÃO – 7:800$000

A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.

HIGIENE – 8:454$190

O estado sanitário é bom. O posto de higiene, instalado em 1928, presta serviços consideráveis à população. Cães, porcos e outros bichos incômodos não tornaram a aparecer nas ruas. A cidade está limpa.

INSTRUÇÃO – 2:886$180

Instituíram-se escolas em três aldeias. Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos. 

Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.

Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros.

UMA DÍVIDA ANTIGA – 5:210$000

Entregaram-me, quando entrei em exercício, 105$858 para saldar várias contas, entre elas uma de 5:210$000, relativa a mais de um semestre que deixaram de pagar à empresa fornecedora de luz.

VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – 56:644$495

Os gastos com viação e obras públicas foram excessivos. Lamento, entretanto, não me haver sido possível gastar mais. Infelizmente a nossa pobreza é grande. E ainda que elevemos a receita ao dobro da importância que ela ordinariamente alcançava, e economizemos com avareza, muito nos falta realizar. Está visto que me não preocupei com todas as obras exigidas. Escolhi as mais urgentes.

Fiz reparos nas propriedades do Município, remendei as ruas e cuidei especialmente de viação.
Possuímos uma teia de aranha de veredas muito pitorescas, que se torcem em curvas caprichosas, sobem montes e descem vales de maneira incrível. O caminho que vai a Quebrangulo, por exemplo, original produto de engenharia tupi, tem lugares que só podem ser transitados por automóvel Ford e lagartixa. Sempre me pareceu lamentável desperdício consertar semelhante porcaria.

ESTRADA PALMEIRA A SANTANA

Abandonei as trilhas dos caetés e procurei saber o preço duma estrada que fosse ter a Sant’Ana do Ipanema. Os peritos responderam que ela custaria aí uns seiscentos mil-réis ou sessenta contos. Decidi optar pela despesa avultada.

Os seiscentos mil-réis ficariam perdidos entre os barrancos que enfeitam um caminho atribuído ao defunto Delmiro Gouveia e que o Estado pagou com liberalidade: os sessenta contos, caso eu os pudesse arrancar ao povo, não serviriam talvez ao contribuinte, que, apertado pelos cobradores, diz sempre não ter encomendado obras públicas, mas a alguém haveriam de servir. Conheci os trabalhos em janeiro. Estão prontos vinte e cinco quilômetros. Gastei 26:871$930.

TERRAPLENO DA LAGOA

Este absurdo, este sonho de louco, na opinião de três ou quatro sujeitos que sabem tudo, foi concluído há meses.

Aquilo, que era uma furna lôbrega, tem agora, terminado o aterro, um declive suave. Fiz uma galeria para o escoamento das águas. O pântano que ali havia, cheio de lixo, excelente para a cultura de mosquitos, desapareceu. Deitei sobre as muralhas duas balaustradas de cimento armado. Não há perigo de se despenhar um automóvel lá de cima.

O plano que os técnicos indígenas consideravam impraticável era muito mais modesto.

Os gastos em 1929 montaram a 24:391$925.

SALDO – 2:504$319

Adicionando-se à receita o saldo existente no balanço passado e subtraindo-se a despesa, temos 2:504$319.

2:365$969 estão em caixa e 138$350 depositados no Banco Popular e Agrícola de Palmeira.

PRODUÇÃO

Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada.

Nenhum, creio eu, chegou a trabalhar nos subúrbios.

Encontrei em decadência regiões outrora prósperas; terras aráveis entregues a animais, que nelas viviam quase em estado selvagem. A população minguada, ou emigrava para o Sul do País ou se fixava nos municípios vizinhos, nos povoados que nasciam perto das fronteiras e que eram para nós umas sanguessugas. Vegetavam em lastimável abandono alguns agregados humanos.

E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavada.

Favoreci a agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor.

Estabeleci feiras em cinco aldeias: 1:156$750 foram-se em reparos nas ruas de Palmeira de Fora.

Canafístula era um chiqueiro. Encontrei lá o ano passado mais de cem porcos misturados com gente. Nunca vi tanto porco.
Desapareceram. E a povoação está quase limpa. Tem mercado semanal, estrada de rodagem e uma escola.

MIUDEZAS

Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.

Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo Município.

Agora mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem. Ou as obras públicas de Palmeira dos Índios são pagas pelo Estado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei.

BONS COMPANHEIROS

Já estou convencido. Não fui eu, primeiramente porque o dinheiro despendido era do povo, em segundo lugar porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis.

Quase tudo foi feito por eles. Eu apenas teria tido o mérito de escolhê-los e vigiá-los, se nisto houvesse mérito.

MULTAS

Arrecadei mais de dois contos de réis de multas. Isto prova que as coisas não vão bem.

E não se esmerilharam contravenções. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infrações que produziram soma considerável para um orçamento exíguo referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habituada a sofrer a opressão dos que vão trepando.

Esforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. Com inabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me.

Sei bem que antigamente os agentes municipais eram zarolhos. Quando um infeliz se cansava de mendigar o que lhe pertencia, tomava uma resolução heróica; encomendava-se a Deus e ia à capital. E os Prefeitos  achavam razoável que os contraventores fossem punidos pelo Sr. Secretário do Interior, por intermédio da polícia.

REFORMADORES

O esforço empregado para dar ao Município o necessário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de métodos administrativos originais. Em conformidade com eles, deveríamos proceder sempre com a máxima condescendência, não onerar os camaradas, ser rigorosos apenas com os pobre-diabos sem proteção, diminuir a receita, reduzir a despesa aos vencimentos dos funcionários, que ninguém vive sem comer, deixar esse luxo de obras públicas à Federação, ao Estado ou, em falta destes, à Divina Providência.

Belo programa. Não se faria nada, para não descontentar os amigos: os amigos que pagam, os que administram, o que hão de administrar. Seria ótimo. E existiria por preço baixo uma Prefeitura bode expiatório, magnífico assunto para commérage de lugar pequeno.

POBRE POVO SOFREDOR

É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu.

Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão.
 Como ninguém ignora que se não obtém de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros.

PROJETOS

Tenho vários, de execução duvidosa. Poderei concorrer para o aumento da produção e, conseqüentemente, da arrecadação. Mas umas semanas de chuva ou de estiagem arruínam as searas, desmantelam tudo – e os projetos morrem.

Iniciarei, se houver recursos, trabalhos urbanos.

Há pouco tempo, com a iluminação que temos, pérfida, dissimulavam-se nas ruas sérias ameaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro.
Já uma rapariga aqui morreu afogada no enxurro. Uma senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios que se formavam no centro da cidade, andaram rolando de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem braços, pernas, costelas e outros órgãos apreciáveis.

Julgo que, por enquanto, semelhantes perigos estão conjurados, mas dois meses de preguiça durante o inverno bastarão para que eles se renovem.

Empedrarei, se puder, algumas ruas.

Tenho também a idéia de iniciar a construção de açudes na zona sertaneja. Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me referia quando eles estiverem executados, se isto acontecer.

Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande.

O Município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.

Paz e prosperidade.

Palmeira dos Índios, 11 de janeiro de 1930.

GRACILIANO RAMOS

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GRACILIANO RAMOS - Prefeito de Palmeira dos Índios

Nestes tempos de tanta corrupção e desmandos em nosso país,  uma sugestão aos políticos atuais, evidentemente compreendendo a distância temporal. São épocas diferentes, é claro, e algumas atitudes seriam hoje consideradas politicamente incorretas.  
Mas estou aqui falando é de HONESTIDADE, HOMBRIDADE, DIGNIDADE, adjetivos esses que parecem ter desparecido por completo do cenário político nacional.

Isso sem falar do fino senso de humor irônico permeando os dois relatórios.

Sueli


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Relatório da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, 1929
O prefeito Graciliano Ramos presta contas do exercício de 1928 ao Governador de Alagoas


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RELATÓRIO ao Governo do Estado de Alagoas

Exmo Sr. Governador:

Trago a V. Ex.a um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.


Não foram muitos, que os nossos recursos são exíguos. Assim minguados, entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram.


COMEÇOS


O PRINCIPAL, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração.

Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante de Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que tal anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. 
Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior.

RECEITA E DESPESA


A receita, orçada em 50:000$000, subiu, apesar de o ano ter sido péssimo, a 71:649$290, que não foram sempre bem aplicados por dois motivos: porque não me gabo de empregar dinheiro com inteligência e porque fiz despesas que não faria se elas não estivessem determinadas no orçamento.


PODER LEGISLATIVO


Dispendi com o poder legislativo 1:616$484 – pagamento a dois secretários, um que trabalha, outro aposentado, telegrama, papel, selos.


ILUMINAÇÃO


A iluminação da cidade custou 8:921$800. Se é muito, a culpa não é minha: é de quem fez o contrato com a empresa fornecedora de luz.


OBRAS PÚBLICAS


Gastei com obras públicas 2:908$350, que serviram para construir um muro no edifício da Prefeitura, aumentar e pintar o açougue público, arranjar outro açougue para gado miúdo, reparar as ruas esburacadas, desviar as águas que, em épocas de trovoadas, inundavam a cidade, melhorar o curral do matadouro e comprar ferramentas. Adquiri picaretas, pás, enxadas, martelos, marrões, marretas, carros para aterro, aço para brocas, alavancas, etc. Montei uma pequena oficina para consertar os utensílios estragados.


EVENTUAIS


Houve 1:069$700 de despesas eventuais: feitio e conserto de medidas, materiais para aferição, placas.


 724$000 foram-se para uniformizar as medidas pertencentes ao Município. Os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas. Em algumas aldeias subiam, em outras desciam. Os negociantes de cal usavam caixões de querosene e caixões de sabão, a que arrancavam tábuas, para enganar o comprador. Fui descaradamente roubado em compras de cal para os trabalhos públicos.


CEMITÉRIO


No cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação.


ESCOLA DE MÚSICA


A Filarmônica 16 de Setembro consumiu 1:990$660 – ordenado de um mestre, aluguel de casa, material, luz.


FUNCIONÁRIOS DA JUSTIÇA E DA POLÍCIA


Os escrivães do júri, do cível e da polícia, o delegado e os oficiais de justiça levaram 1:843$314.


ADMINISTRAÇÃO


A administração municipal absorveu 11:457$497 – vencimentos do Prefeito, de dois secretários (um efetivo, outro aposentado), de dois fiscais, de um servente; impressão de recibos, publicações, assinatura de jornais, livros, objetos necessários à secretaria, telegramas.

Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.

ARRECADAÇÃO


As despesas com a cobrança dos impostos montaram a 5:602$244. Foram altas porque os devedores são cabeçudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os contribuintes pagam ao Município se querem, quando querem e como querem.


Chamei um advogado e tenho seis agentes encarregados da arrecadação, muito penosa. O município é pobre e demasiado grande para a população que tem, reduzida por causa das secas continuadas.


LIMPEZA PÚBLICA – ESTRADAS


No orçamento limpeza pública e estradas incluíram-se numa só rubrica. Consumiram 25:111$152.


Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão varridas; retirei da cidade o lixo acumulado pelas gerações que por aqui passaram; incinerei monturos imensos, que a Prefeitura não tinha suficientes recursos para remover.


Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado em fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças.


POSTO DE HIGIENE


Em falta de verba especial, inseri entre os dispêndios realizados com a limpeza pública os relativos à profilaxia do Município.


Contratei com o Dr. Leorne Menescal, chefe do Serviço de Saneamento Rural, a instalação de um posto de higiene, que, sob a direção do Dr. Hebreliano Wanderley, tem sido de grande utilidade à nossa gente.


VIAÇÃO


Consertei as estradas de Quebrangulo, da Porcina, de Olhos d’Água aos limites de Limoeiro, na direção de Cana Brava.


Foram reparos sem grande importância e que apenas menciono para que esta exposição não fique incompleta. Faltam-nos recursos para longos tratos de rodovias, e, quaisquer modificações em caminhos estreitos, íngremes, percorridos por animais e veículos de tração animal, depressa desaparecerem. É necessário que se esteja sempre a renová-las, pois as enxurradas levam num dia o trabalho de meses e os carros de bois escangalham o que as chuvas deixam.


Os empreendimentos mais sérios a que me aventurei foram a estrada de Palmeira de Fora e o terrapleno da Lagoa.


ESTRADA DE PALMEIRA DE FORA


Tem oito metros de largura e, para que não ficasse estreita em uns pontos, larga em outros, uma parte dela foi aberta em pedra.


Fiz cortes profundos, aterros consideráveis, valetas e passagens transversais para as águas que descem dos montes.


Cêrca de vinte homens trabalharam nela quase cinco meses. Parece-me que é uma estrada razoável. Custou 5:049$400. Tenciono prolongá-la à fronteira de Sant’Ana do Ipanema, não nas condições e que está, que as rendas do Município me não permitiriam obra de tal vulto.


OUTRA ESTRADA


Como, a fim de não inutilizar-se em pouco tempo, a estrada de Palmeira de Fora se destina exclusivamente a pedestres e a automóveis, abri outra paralela ao trânsito de animais.


TERRAPLENO DA LAGOA


O espaço que separa a cidade do bairro da Lagoa era uma coelheira imensa, um vasto acampamento de tatus, qualquer coisa deste gênero.


Buraco por toda parte. O aterro que lá existiu, feito na administração do Prefeito Francisco Cavalcante, quase que havia desaparecido.


Em um dos lados do caminho abria-se uma larga fenda com profundidade que variava de três para cinco metros. A água das chuvas, impetuosa em virtude da inclinação do terreno, transformava-se ali em verdadeira torrente, o que aumentava a cavidade e ocasionava sério perigo aos transeuntes. Além disso outras aberturas se iam formando, os invernos cavavam galerias subterrâneas, e aquilo era inacessível a veículo de qualquer espécie.


Empreendi aterrar e empedrar o caminho, mas reconheci que o solo não fendido era inconsistente: debaixo de uma tênue camada de terra de aluvião, que uma estacada sustentava, encontrei lixo. Retirei o lixo, para preparar o terreno e para evitar fosse um monturo banhado por água que logo entrava em um riacho de serventia pública. Quase todos os trabalhadores adoeceram.


Estou fazendo dois muros de alvenaria, extensos, espessos e altos, para suportar o aterro. Dei à estrada nove metros de largura. Os trabalhos vão adiantados.


Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações de toda a ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá pedreiros – outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de réis, dizem.


Custarão alguns, provavelmente. Não tanto quanto as pirâmides do Egito, contudo. O que a Prefeitura arrecada basta para que nos não resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros.


Até agora as despesas com os serviços da lagoa sobem a 14:418$627.

Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.

(Os gastos com a estrada de Palmeira de Fora e com o terrapleno estão, naturalmente, incluídos nos 25:111$152 já mencionados).


DINHEIRO EXISTENTE


Deduzindo-se da receita a despesa e acrescentando-se 105$858 que a administração passada me deixou, verifica-se um saldo de 11:044$947.


40$897 então em caixa e 11:004$050 depositados no Banco Popular e Agrícola de Palmeira. O Conselho autorizou-me a fazer o depósito.


Devo dizer que não pertenço ao banco nem tenho lá interesse de nenhuma espécie. A Prefeitura ganhou: livrou-se de um tesoureiro, que apenas serviria para assinar as folhas e embolsar o ordenado, pois no interior os tesoureiros não fazem outra coisa, e teve um lucro de 615$050 de juros.


Os 40$897 estão em poder do secretário, que guarda o dinheiro até que ele seja colocado naquele estabelecimento de crédito.


LEIS MUNICIPAIS


Em janeiro do ano passado, não achei no Município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite


Constava a existência de um código municipal, coisa intangível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem. 


Afinal, em fevereiro, o secretário descobriu-o entre papéis do Império. Era um delgado volume impresso em 1865, encardido e dilacerado, de folhas soltas, com aparência de primeiro livro de leitura de Abílio Borges. Um furo. Encontrei no folheto algumas leis, aliás bem redigidas, e muito sebo. 

Com elas e com outras que nos dá a Divina Providência consegui agüentar-me, até que o Conselho, em agosto, votou o código atual.

CONCLUSÃO

Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.

Evitei emaranhar-me em teias de aranha.


Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.


Não me entendi com esses.


Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamentre, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisas tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.


Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.


Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta.


Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.


Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.


GRACILIANO RAMOS


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sábado, 19 de novembro de 2016

Rosa e Graciliano

Um gênio reprovado
Dois contos escritos por um jovem Guimarães Rosa – e criticados em concurso por Graciliano Ramos – serão finalmente oferecidos ao público
MARCELO BORTOLOTI - Revista 'Época'

ALVO DE CRÍTICA Guimarães Rosa  (à esq.) e Graciliano Ramos (acima). O primeiro modificou seu livro devido aos comentários do segundo (Foto: Eugênio Silva/O Cruzeiro/EM/D.A e arq. O Cruzeiro/EM/D.A Press. Brasil)
 Guimarães Rosa  (à esq.) e Graciliano Ramos (detalhe). 
O primeiro modificou seu livro devido aos comentários do segundo 
(Foto: Eugênio Silva - revista O Cruzeiro/

ALVO DE CRÍTICA

As obras do escritor alagoano Graciliano Ramos e do mineiro João Guimarães Rosa têm pouco em comum. Seus estilos são antagônicos. O primeiro é árido, contido, realista. O segundo, prolixo, místico, quase barroco. 
Os escritores também tiveram pouco contato. Isso não impediu que Graciliano, autor do clássico Vidas secas, alterasse os rumos da carreira de Guimarães Rosa.

Homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) , Graciliano (1892-1953) foi jurado de um concurso literário da editora José Olympio, em 1938. 
Um dos candidatos era o livro Contos, assinado por Viator. 
Por trás do pseudônimo, estava Guimarães Rosa (1908-1967), até ali um desconhecido médico mineiro. 
Graciliano achou seu conteúdo desigual, com alguns contos excelentes e outros “ordinários”. Convenceu o júri a não agraciar a obra com o prêmio. 
A vitória ficou nas mãos de Luís Jardim e seu livro Maria Perigosa, obra desconhecida e absolutamente apagada na história da literatura brasileira. 
Quando o livro de Rosa finalmente chegou ao público, oito anos depois, com o nome de Sagarana, estava mais enxuto, sem três contos da versão inicial. 
Eram justamente os contos que Graciliano criticara. 
Rosa chegou a reescrever um deles, publicado posteriormente. Os outros dois, até hoje inéditos, estão preservados no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP). 
ÉPOCA submeteu os dois contos a três críticos literários para avaliar a opinião de Graciliano. 
Os textos serão publicados neste ano, num portal que a editora Nova Fronteira prepara sobre Guimarães Rosa.

O júri de 1938 reunia cinco escritores. Na ocasião, Graciliano explicou sua posição: “Votei contra esse livro de Viator. Votei porque dois dos seus contos me pareceram bastante ordinários. (...) Esses dois contos e algumas páginas campanudas, entre elas uma que cheira a propaganda de soro antiofídico, me deram arrepio”. 
Rosa não era exatamente um novato. Anos antes, publicara na revista O Cruzeiro contos de suspense, se aventurara pela poesia e escrevera o livro Magma, que não publicou enquanto vivo. 
Somente com Sagarana, iniciado aos 29 anos, encontrou seu estilo. 
Eram contos passados no interior de Minas Gerais, que dialogavam com a literatura e a filosofia clássicas. 
Após o concurso, Viator desapareceu sem revelar sua identidade. 
Aos pais, falava do carinho que tinha por esse primeiro livro. “Era o favorito do meu pai, porque era o primeiro e porque foi um sobrevivente”, diz a filha de Rosa, Vilma Guimarães Rosa.

Como funcionário do Itamaraty, Rosa foi trabalhar no consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha. 
Os originais de Sagarana ficaram no Brasil com sua primeira mulher, Lygia. 
Ela tentou levá-los à Alemanha, mas, com a Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro proibiu que mulheres e filhos de diplomatas viajassem. 
Numa noite de 1941, Rosa estava em Hamburgo e acordou com vontade de fumar. Não tinha cigarros em casa. Foi até a loja da esquina, quando soou o alarme alertando para um ataque aéreo iminente. Rosa conseguiu correr para um abrigo, onde passou a madrugada. 
Ao amanhecer, viu que seu prédio fora bombardeado. Ele fora salvo por causa do cigarro, e Sagarana, caso estivesse no apartamento, teria sido destruído. “Meu pai adquiriu, a partir desse incidente, um sentimento místico que influenciou sua obra”, diz Vilma. 

No final de 1944, Rosa conheceu Graciliano Ramos. 
Revelou ser o autor derrotado no concurso e não demonstrou ressentimentos. 
Em 1946, lançou Sagarana. Acatou as sugestões de Graciliano e suprimiu os contos Bicho mau, Questões de família e Uma história de amor. 
O primeiro, que narra o caso de um fazendeiro picado por uma cobra venenosa, foi praticamente reescrito e entrou no livro póstumo Estas estórias. Os outros dois permaneceram inéditos.

Os críticos que leram os contos a pedido de ÉPOCA se dividem. 
“Gostei muito. Graciliano foi severo demais em sua avaliação”, diz Eduardo Coutinho, professor da UFRJ. “Você já encontra uma reflexão filosófica sobre o amor. E a maneira de trabalhar a linguagem é extraordinária.” 
João Adolfo Hansen, da USP, especialista na obra de Rosa, concorda parcialmente com Graciliano: “O conto do médico (Uma história de amor), acho ruim. Mas talvez Graciliano tenha exagerado em relação ao outro”. 
Neste, o namoro, que nunca progride, de um rapaz da capital com uma jovem do interior retrata o conservadorismo do Brasil rural do princípio do século XX. “Graciliano era sintético e direto, talvez achasse aquilo uma frescura. Mas é uma tradução de costumes típicos do interior.” Hansen reconhece em ambos os textos um excesso de termos técnicos de mineralogia e medicina. 
Outra especialista na obra de Rosa, Maria Célia Leonel, da Unesp, diz que os dois textos não têm a mesma elaboração da narrativa e profundidade das outras histórias de Sagarana. “Ele sempre diz alguma outra coisa por trás das histórias que conta. Aqui, parece que ficou tudo na superfície.”

Graciliano morreu em 1953 e não pôde ler outro livro de Rosa. Deixou uma profecia sobre o colega: “Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando meus ossos começarem a esfarelar-se”. 
Exatamente em 1956, Rosa lançou seu único romance, Grande Sertão: veredas. 
Com ele, foi alçado ao primeiro escalão da literatura mundial, de onde nunca mais saiu.

*            *            *

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Graciliano por ele mesmo

Conversas com Joel Silveira (II)


Aqui vai o texto de Graciliano Ramos, tal e qual me foi entregue e tal e qual foi publicado na “Vamos Ler”:

“Nasci em 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, Alagoas, donde saí aos dois anos. Meu pai, Sebastião Ramos, negociante miúdo, casado com a filha de um criador de gado, ouviu os conselhos de minha avó, comprou uma fazenda em Buíque, Pernambuco, e levou para lá os filhos, a mulher e os cacarecos. Ali a seca matou o gado – e seu Sebastião abriu uma loja na vila, talvez em 95 ou 96. Da fazenda conservo a lembrança de Amaro Vaqueiro e de José Baía. Na vila conheci André Laerte, cabo José da Luz, Rosenda lavadeira, padre José Inácio, Felipe Benício, Teotônio Sabiá e família, seu Batista, dona Marocas, minha professora e mulher de seu Antônio Justino, personagem que utilizei muitos anos depois.

“Aprendi a carta de ABC em casa, agüentando pancada. O primeiro livro, na escola, foi lido em uma semana, mas no segundo encrenquei: diversas viagens à fazenda de um avô interromperam o trabalho, e logo no começo do volume antipático, a história besta dum Miguelzinho que recebia lições com os passarinhos fechou-me, por algum tempo, o caminho das letras. 

Meu avô dormia numa cama de couro cru, e em redor da trempe de pedras, na cozinha, a preta Vitória mexia-se, preparando comida, acocorada. Dois currais, o chiqueiro das cabras, meninos e cachorros numerosos, soltos no pátio, cobras em quantidade. 
Nesse meio e na vila passei os meus primeiros anos. 
Depois seu Sebastião aprumou-se e em 99 foi vier em Viçosa, Alagoas, onde tinha parentes. 
Aí entrei no terceiro livro e percorri várias escolas, sem proveito. 

Como levava uma vida bastante chata, habituei-me a ler romances. 
Os indivíduos que me conduziram a esse vício foram o tabelião Jerônimo Barreto e o agente do correio Mário Venâncio, grande admirador de Coelho Neto e também literato, autor dum conto que principiava assim: “Jerusalém, a deicida, dormia sossegada à luz pálida das estrelas. Sobre as colinas pairava uma tênue neblina, que era como o hálito da grande cidade adormecida”. 
Um conto bonito, que elogiei demais, embora intimamente preferisse o de Paulo de Kock e o de Júlio Verne. 
Desembestei para a literatura. 
No colégio de Maceió, onde estive pouco tempo, fui um aluno medíocre. 
Voltei para Viçosa, fiz sonetos e conheci Paulo Honório que em um dos meus livros aparece com outro nome. 
Aos dezoito anos fui com a minha gente morar em Palmeira dos Índios. Fiz algumas viagens a Buíque, revi parentes do lado materno, todos em decadência. 
Em começo de 14, enjoado da loja de fazendas de meu pai, vim para o Rio, onde me empreguei como foca de revisão. Nunca passei disso.

“Em fins de 1915, embrenhei-me de novo em Palmeira dos Índios. 
Fiz-me negociante, casei-me, ganhei algum dinheiro, que depois perdi, enviuvei, tornei a casar, enchi-me de filhos, fui eleito Prefeito e enviei dois relatórios ao Governador. Lendo um desses relatórios, Schmidt (Nota: Augusto Frederico Schmidt, o poeta e editor) imaginou que eu tinha algum romance inédito e quis lançá-lo. 
Realmente, o romance existia, um desastre. Foi arranjado em 1926 e apareceu em 1933. 

Em princípio de 1929 larguei a Prefeitura e dias depois fui convidado pra diretor da Imprensa Oficial. Demiti-me em 1931. 
No começo de 1932 escrevi os primeiros capítulos de “São Bernardo”, que terminei quando saí do hospital. 
As recordações do hospital estão em dois contos publicados ultimamente, um em Buenos Aires, outro aqui. 
Em janeiro de 1933 nomearam-me diretor da Instrução Pública de Alagoas – disparate administrativo que nenhuma revolução poderia justificar. 
Em março de 1936, no dia em que me afastava desse cargo, entreguei à datilógrafa as últimas páginas de “Angústia”, que saiu em agosto do mesmo ano, se não estou enganado, e foi bem recebido, não pelo que vale, mas porque de algum modo me tornei conhecido, infelizmente.

“Mudei-me para o Rio, ou antes, mudaram-me para o Rio, onde existo agora. 
Aqui fiz o meu último livro, história mesquinha – um casal vagabundo, uma cachorra e dois meninos.

Certamente não ficarei na cidade grande. Projetos não tenho. 
Estou no fim da vida, se é que a isto se pode dar o nome de vida. Instrução quase nenhuma. 

José Lins do Rêgo tem razão quando afirma que a minha cultura, moderada, foi obtida em almanaque”.



*            *            *

IN: SILVEIRA, Joel. Na fogueira: memórias. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p.278-279.
Publicada originalmente na Revista 'Vamos Ler', início de 1939


domingo, 26 de janeiro de 2014

MURILO MENDES - "Murilogramas"


Murilograma a Cecília Meireles
Murilo Mendes

Dorme no saltério; na magnólia ,
Dorme no cristal; em Cassiopéia .
Dorme em Cassiopéia; no saltério ,
Dorme no cristal ; na magnólia .

O século é violento demais para teus dedos
Dúcteis afeiçoados ao toque dos duendes :
O século, ácido demais para uma pastora
De nuvens , aponta o revólver aos mansos
Inermes no guaiar; columbrando a paz .
Armamentos em excesso, parquesombras de menos
Se antojam agora ao homem , antes criado
Para dança , alegria; ritmos de paz .
A faixa do céu glauco indica-te serena ,
Acolhe a ode trabalhada , nãogemente
Que ainda quer manter linguagem paralém .
Altas nuvens sacodem as crinas espiando
Teu sono incoativo . A noite vai inoltrada ,
Prepara úsnea de seda à ságoma da tua lira
Que subjaz no corpo interrompido , diamante
Ahimè ! mortal que os deuses reclamaram .
Dorme em Cassiopéia; no saltério ,
Dorme no cristal; na magnólia .

Roma, 1964
**


Murilograma a Graciliano Ramos 
Murilo Mendes

1
Brabo. Olhofaca. Difícil. 
Cacto já se humanizando, 

Deriva de um solo sáfaro 
Que não junta, antes retira,

Desacontece, desquer.

2
Funda o estilo à sua imagem: 
Na tábua seca do livro

Nenhuma voluta inútil. 
Rejeita qualquer lirismo.

Tachando a flor de feroz.

3
Tem desejos amarelos. 
uer amar, o sol ulula,

Leva o homem do deserto 
(Graciliano-Fabiano)

Ao limite irrespirável.

4
Em dimensão de grandeza 
Onde o conforto é vacante,

Seu passo trágico escreve 
A épica real do BR

Que desintegrado explode

Roma, 1965
**
Murilograma a Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho da poesia
selva selvaggia
Território adrede
Desarrumado
Onde palavras-feras nos agridem
Encontrei Carlos Drummond de Andrade
esquipático fino
flexível
ácido
lúcido
até o osso .
Armado
De lente compasso
Gramática não-euclidiana
& humour nuclear
Na oficina-laboratório
Itabiromem claroenigmático
Extrai do léxico
Uma lição de coisas .
Enxuto abre o manúbrio
À brisa sarcástica de Minas .
Dorme acordado .

Glossógrafo declancha
Com seus olhos de termômetro
A máquina do mundo da linguagem
Em contacto contraste atrito & rotação
Diurna .

Deflagrando história & semântica
Radiografia o
Desgaste do mundo coisificado .
Destrói o córtex do verbo
Dispara o contexto insólito
Descobre a “obsolescence”
os “rifiuti”
os restos do zero .
Contrapõe às galáxias poetizadas
O inframundo
Antigaláxias da náusea
das fezes
da poeira
do mêdo
Os labirintos íntimos
A paisagem delével do sexo
A paisagem de smog
Os pontapés do amor
A insuportável dor-de-corno
A esquírola de osso do homem .

“Balançando
entre o real e o irreal”,
Investido
Do “solene
sentimento de morte”
O poeta no seu trabalho ácido
Confessando-se
confessa-nos .

E agora, Josés?
Além de Cummings & Pound
Além de Sousândrade
Além de “Noigandres”
Além de “Terceira Feira”
Além de Poesia-Praxis
Além do texto “Isso é aquilo”
Sereis teleguiados ?
Resta a ságoma de Orfeu
Com discurso ou sem .

Sôbre a página aberta
Único campo branco
Drummond fazendeiro da cidade
(Esperamos)
Lançará de novo
a semente .

 Roma 1965
*            *            *

domingo, 2 de junho de 2013

GRACILIANO RAMOS - excertos de matéria de O Globo, 01-6-2013



Outras vidas, a mesma seca

Jornal 'O Globo', 01 de junho de 2013
Texto: André Miranda
Fotos: Custódio Coimbra


Buíque -Pernambuco
Em meio à pior estiagem das últimas cinco décadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas à trajetória do autor de “Vidas secas”, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos Índios, onde ele foi prefeito, mostram a persistência de antigas mazelas e a resistência de seus habitantes.


Não há muitas sombras nas estradas do interior de Alagoas. Mal há vegetação. Com os espinhosos mandacarus, que resistem à seca, e as árvores sem folhas que estão por toda a parte, a paisagem é um grande deserto.

O estado do gado também torna a visão mais árida. Sem comida e sem água, bois e vacas emagrecem, muitos morrem. Os fazendeiros costumam amarrar os animais mais fracos a cercas ou caules de árvores para evitar que eles caiam. É uma tentativa de adiar a morte, de evitar que o clima imponha sua força. Aos poucos, os mugidos silenciam, as carcaças se acumulam, a vida se vai. Porém, entre os rios sem água, os animais mortos estirados no solo e as plantas cinzentas, ressecadas, a imagem que mais chama atenção é mesmo a da desolação humana. O homem não consegue viver sem os rios, sem os bois, sem a terra. Só que ele permanece de pé, continua a caminhar. O clima faz seu estrago, mas o tempo sertanejo parece não autorizar o homem a morrer.

Já era assim quando Graciliano Ramos de Oliveira nasceu, em 27 de outubro de 1892. Ele escreveu, décadas mais tarde, em “Angústia”, seu terceiro romance, publicado em 1936: “O que lhe interessa na minha terra é o sofrimento da multidão, a tragédia periódica das secas. Procuro recordar-me dos verões sertanejos, que duram anos. A lembrança chega misturada com episódios agarrados aqui e ali, em romances. Dificilmente poderia distinguir a realidade da ficção”.
(...)


“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.” 
(trecho de "Vidas secas", de 1938)

A grande obra da literatura brasileira a tratar do tema da seca foi publicada em 1938. O título era direto e resumiu bem o sentimento de milhões de nordestinos. “Vidas secas” foi o quarto livro lançado por Graciliano Ramos — depois de “Caetés” (1933), “São Bernardo” (1934) e “Angústia” (1936) — e, hoje, é seu romance mais representativo, com 120 edições no Brasil e traduções para mais de 20 idiomas.
Inspirada em muitas das histórias que Graciliano acompanhou desde a infância, a trama de “Vidas secas” mostra como uma família de retirantes — guiada pelo pai Fabiano e acompanhada pela cachorra Baleia, dois dos personagens mais famosos da literatura nacional — parte em busca de uma condição mais humana para a sobrevivência. Não há um trajeto definido no livro, mas as paisagens descritas pelo autor ainda estão presentes em vários cantos do interior do Nordeste, não somente em seu estado natal.

Em 1895, a família de Graciliano deixou Alagoas para viver em Buíque, cidade do sertão de Pernambuco, próxima a Garanhuns, hoje com 52 mil habitantes. Porém, apesar do número maior de pessoas, na memória coletiva de Buíque há ainda menos sobre o escritor do que em Quebrangulo. Apenas sua biblioteca municipal, inaugurada em maio de 2002, leva o nome de Graciliano Ramos. Em conversas com uma dezena de buiquenses, poucos sabem dizer quem exatamente foi o escritor. Mesmo um vaqueiro sentado numa calçada a menos de dez passos da biblioteca afirma que nunca ouviu falar nele.
(...)
O mesmo tempo que fez com que Graciliano passasse a ser praticamente ignorado em Buíque não privou a cidade das vidas secas que o autor descreveu no passado. Buíque teve que decretar estado de emergência para tentar combater os efeitos da estiagem. Sua situação é tão ruim ou talvez pior do que a dos municípios alagoanos: como a Barragem do Mulungu, a principal que abastece a cidade, secou quase completamente, seus moradores não recebem água nos encanamentos das casas desde janeiro. Até mesmo o hospital municipal vem dependendo de carros-pipa.
Para suprir a necessidade, uma nova categoria profissional proliferou em Buíque: o vendedor de água.
(...)
Mandacaru - planta nativa que acumula água
“Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, município de Viçosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade São Bernardo, onde trabalhei, no eito, com salário de cinco tostões”, escreveu Graciliano Ramos em “São Bernardo”, o seu segundo romance. 
O livro conta a história de Paulo Honório, homem de origem humilde, empreendedor, que vai acumulando riquezas, numa típica trama de ascensão social que, aos poucos, torna-se uma de derrocada pessoal.

Atualmente com cerca de 26 mil habitantes, Viçosa tem metade do tamanho de Buíque, mas é claramente mais bem preservada e desenvolvida. Lembra Quebrangulo pelos prédios históricos e ambiente acolhedor, porém é maior, com um comércio mais robusto. Além disso, a cidade tem uma movimentação turística regular, muito por conta de suas belezas naturais. É nas redondezas de Viçosa que fica a Serra Dois Irmãos, com cachoeiras, trilhas e o local onde o líder negro alagoano Zumbi dos Palmares foi morto em 20 de novembro de 1695.
Só que, com a seca, o volume de água no início do ano não foi suficiente para dar vazão às cachoeiras de Viçosa. O município teve que decretar, em meados de abril, estado de emergência. O panorama se tornou crítico quando o Rio Caçamba secou, e a prefeitura precisou reativar uma pequena barragem, não utilizada havia 12 anos, para tentar acumular água.
(...)

Foi em Viçosa que Graciliano estreou no universo literário, com a publicação do conto “O pequeno pedinte” no jornal “O Dilúculo”, um periódico feito por alunos do Internato Alagoano, onde estudava. A data foi 24 de junho de 1904. Graciliano tinha 11 anos e escolheu para tema de seu conto um menino que passava os dias pedindo esmola pelas ruas.

“Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto. Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo”, escreveu Graciliano.

Parece ingênuo imaginar que, aos 11 anos, aquele menino já se preocupava com os problemas sociais do país. Mas também seria injusto ignorar que, em praticamente toda a obra de Graciliano, questões como exclusão foram exploradas. Tanto na obra literária, quanto na política. E foi em ambas que sua trajetória se encontrou com Palmeira dos Índios, cidade em que escreveu a maioria de seus livros, casou-se duas vezes, teve seis de seus oito filhos e foi eleito prefeito.
(...)


Minador do Negrão - Sertão de Alagoas

*            *            *


Notinha do Ouriço: 
O que me causa muita tristeza, é confirmar como está a Educação em nosso país, segundo o seguinte trecho:

..."na memória coletiva de Buíque há ainda menos sobre o escritor do que em Quebrangulo. Apenas sua biblioteca municipal, inaugurada em maio de 2002, leva o nome de Graciliano Ramos. Em conversas com uma dezena de buiquenses, poucos sabem dizer quem exatamente foi o escritor. Mesmo um vaqueiro sentado numa calçada a menos de dez passos da biblioteca afirma que nunca ouviu falar nele."

Ainda assim, vale muito a pena ler toda a matéria. Encontra-se na seção PROSA, blogs,  em O Globo on line, de 01 de junho de 2013.

terça-feira, 16 de abril de 2013

GRACILIANO - por Nei Duclós

Cadeia, o grande sertão de Graciliano
Trechos do Ensaio de Nei Duclós em 18/02/2013, Revista Bula


Descoberto pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, graças aos seus relatórios quando foi prefeito em Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos foi traduzido em 32 línguas e seus livros venderam, até 1992, cinco milhões de exemplares, só no Brasil. 
Alguns deles, como “Vidas Secas”, “Insônia”, “São Bernardo” e “Memórias do Cárcere”, viraram filmes. 
Ele se destacou também por virtudes que por um tempo foram esquecidas no Brasil. 
Hoje elas ressurgem como um exemplo para um país que precisa desesperadamente reencontrar seu rumo.
**
Cigarros ordinários acesos um no outro para economizar fós­foros, um restinho de iodo para desinfetar um ferimento no dedo, papel e caneta embrulhados em pijamas e outros trapos numa valise que carrega por todo lado, por mais de cinco prisões para onde foi jogado junto com milhares de outros presos políticos, misturados a vigaristas, ladrões e malandros, acompanham o escritor na sua faina: o de escrever notas que mais tarde vão continuar a literatura iniciada nos confins do Brasil seco e violento. Os livros que esmerilha na sua rotina brutal são narrados como personagens ocultos, um amontoado de letra miúda, mal alinhavadas e passíveis de todas as correções.

O protagonista é o livro — pode ser “Angústia”, publicado em 1938, ou as anotações que geraram mais tarde “Memórias do Cárcere”. Ele está sendo esmiuçado nos apertos sem conta, em meio ao pavor, o horror, a miséria, a sujeita e o escândalo. O que lemos em “Me­mórias do Cárcere” é uma obra sobre literatura, que começa a ser esboçada na cadeia. 
As notas se transmutam mais tarde, reescritas e editadas (dez anos depois de sua soltura, em 1938) para a posteridade — foi publicado em 1953 pelo seu filho Ricardo, que mudou o título original, “Cadeia”.
**
Para tornar explícita a miséria social e política, afunda-se na baixa autoestima, como se o personagem que cria — ele mesmo, a vítima de uma injustiça — seja o fruto da escassez que domina o país. 

A família que descreve — a esposa mesquinha e histérica, os filhos agitadores — tem perfil fictício, o que o deixa à vontade para reforçar o papel de uma situação doméstica opressiva, contra a qual a prisão acaba se oferecendo como uma bizarra solução. O drama se desenrola no varejo, com vingancinhas pessoais, pequenas traições nos gestos e palavras, ruas mal iluminadas, prédios sinistros, funções inúteis, cidadania zerada.

O narrador está no miolo de um drama que se expõe das bordas às vísceras, em que a rotina doméstica é substituída pela falta absoluta de sentido do encarceramento. Graciliano Ramos conta sua história compondo um mural literário inspirado na memória. 
É o tempo todo literatura, pois os fatos se unem pelo fio narrativo de uma improbabilidade, o mundo sendo definido pela visão amarga e ríspida de alguém que sobrevive à revelia.
**
Sua autocrítica é arrasadora. Sentindo-se incompetente para viver em grupo, enxerga-se como um outsider permanente, a passar sua bateia entre os cascalhos das palavras tartamudeadas por ele e ouvidas nas várias cenas que se sucedem na prisão. 
Uma de suas magistrais lições de literatura neste livro é a composição de personagens. Temos um exemplo no parágrafo inicial do capítulo 9, da segunda parte, do volume 1. Ele ensina como um mestre formata um personagem, que neste trecho do livro tem a função de sintetizar as dissenções internas dos presidiários políticos. 
“O capitão de nariz comprido esteve conosco dois ou três dias. Nunca lhe ouvi uma palavra, mas vi-o falar em excesso a grupos pequenos, afirmativo, açodado, a examinar os arredores com jeito de conspirador. Sem revelar em público nenhuma opinião, estava sempre a sussurrar um cacarejo indistinto, passeava na assistência minguada os inexpressivos olhos de ave, erguia o bico longo, baixava-o, reproduzia movimentos sacudidos de galinha a colher grãos. Os cochichos permanentes aborreciam-me, os gestos ambíguos, o proceder furtivo, o conluio visível de meia dúzia de pessoas. Afinal o tipo se sumiu. Na verdade estivera a sumir-se constantemente, a esgueirar-se de um cubículo para outro. Findos esses manejos, bateu asas na fuga definitiva, nem nos deu tempo de gravar-lhe o nome: para mim ficou sendo o capitão de nariz furtivo.”
**

No seu livro “Infância”, ele conta como foi difícil aprender a ler no meio do sertão. O pai sem paciência e a escola, ameaçadora e punitiva, forjaram na dificuldade sua iniciação ao texto. É esta lição, de um mestre de ofício a iluminar, na pedra, suas origens e o futuro, que ele deixa para um país ainda pobre e perdido.

“Graciliano nos ensinou a provocar emoção discretamente, concisamente”, diz a escritora Edla Van Steen. “Ele nos apontou uma nova maneira de escrever, através do acabamento impecável do texto, num estilo sem adjetivos. É o pai dos modernistas brasileiros.” 
Esse é um dos paradoxos do mestre: de formação clássica, nunca tinha lido Proust e gostava mesmo era de Flaubert, Balzac, Dostoiévski. Seu poeta predileto era Manuel Bandeira, assim mesmo de “Cinza das Horas”. Não gostava da oralidade dos modernistas e chegou a falar mal de Oswald e Mário de Andrade. Segundo o crítico Fábio Lucas, ele dizia que precisava comprar uma gramática paulista para entendê-los.

Logo o “velho Graça” — ex­pressão lembrada, numa crônica, pela sua contemporânea Rachel de Queiroz —, tão cheio de regionalismos: “Graciliano é o mais representativo de uma região que se universaliza”, diz Fábio Lucas. “A partir de ‘Caetés’, seu primeiro romance, publicado em 1933, introduz um vocabulário exclusivo do Nordeste, usando com rigor a tradição da língua.” Fábio nota que em sua obra prima, “Vidas Secas” (1939), ele despoja as personagens com tal riqueza de traços que estes acabam se tornando o prolongamento dos animais e da paisagem.

*            *            *

sábado, 2 de fevereiro de 2013

GRACILIANO RAMOS e o futebol...


A rasteira de Graciliano Ramos no futebol

Plínio Fraga in 'Prosa on line' - Jornal O Globo, 02-02-2013

Em texto no jornal alagoano ‘O Índio’, escritor satirizou a adequação do esporte ao povo sertanejo 

(...)
Em 1921, Palmeira dos Índios, cidade no agreste alagoano, a 200 quilômetros de Maceió, sofria com a pobreza de sua gente. Um dos editoriais daquele período do jornal “O Índio”, intitulado “Nosso povo”, começava assim: 
“O estado em que se encontram as nossas populações sertanejas — não nos iludamos — é a mais profunda barbaria. (...) Parece incrível que é possível viver como vivem, pobre diabos, meio selvagens, quase bichos, sem nenhum conforto. As casas em que moram são as habitações do homem primitivo, não mais cômodas talvez que as cavernas dos trogloditas.” 

Graciliano seria prefeito de Palmeira dos Índios dez anos mais tarde, com os famosos e irônicos relatórios de sua administração, nos quais dizia, por exemplo, que se a cidade podia ser chamada de “princesa do sertão”, era “uma princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavada”. 
Estava ainda longe da carreira que o consagraria como escritor, era um crítico mordaz da sociedade em que vivia e usava o jornalismo como arma de combate. 

Graças à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, não é difícil ter acesso ao texto original do jornal “O Índio”, que circulava em Palmeira dos Índios (AL). Fazia cerca de 30 anos que o futebol acabara de ser importado para o Brasil. Era um esporte da elite. Com o pseudônimo J. Calisto, Graciliano assinava uma coluna intitulada “Traços a esmo”, em que fazia comentários ácidos em geral. 

No domingo de 10 de abril de 1921, começou assim: 
“Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.” 

Argumentava que a cultura física estava inteiramente descurada entre nós. 

“Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.” 

Afirmava claramente não ser contra o futebol só por ter sido importado. 

“Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não. No caso afirmativo, seja muito bem-vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos.” 

A grande dúvida é que Graciliano ora parece claro que se dirigia especificamente à sua gente do sertão, aos leitores do jornal de sua pequena Palmeira dos Índios, ora parece falar para o Brasil como um todo, sendo que neste caso o jornal “O Índio” decerto não era o melhor palanque, e talvez fosse audácia demais para um talento de então apenas 29 anos. 

A contraposição sertão/grandes cidades aparece no texto com frequência reforçando a ideia de que fala mais para sua gente do que para todo o país: 
“As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; nós somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego. Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. Nas cidades assiste-se, cochilando, à representação de peças que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre nós há criaturas que nunca viram um gringo”, comentava. 


Rasteira, “esporte nacional por excelência” 

Sugeria para a mocidade exercitar-se em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, como o murro, o cacete, a faca de ponta. 

“Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega. Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar. Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.” 

A conclusão de Graciliano, irônica e política, é tão brilhante que deveria ser suficiente para sepultar a polêmica sobre suas intenções a respeito da profecia futebolística. 

“A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro — e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa. 

Cultivem a rasteira, amigos! 

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique.” 


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