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terça-feira, 4 de novembro de 2014

MURILO MENDES - Poema dialético

"Presságios favoráveis", de René Magritte

Poema Dialético
Murilo Mendes

I
Todas as coisas ainda se encontram em esboço
Tudo vive em transformação
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga.
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.

II
Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em plenos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.

III
A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma?
Nunca ouviram a música nascer do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.
Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos.
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre...

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve realiza-la na sua carne e no seu espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.

IV
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir incessantemente o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída um dia à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita.
A aurora é coletiva.

*        *        *

sexta-feira, 4 de abril de 2014

MURILO MENDES - Picasso

'Paisagem Mediterrânea' - Pablo Picasso
Picasso
Murilo Mendes

Quem pega a vida à unha como tu?
Só mesmo Espanha, tua mãe e mestra.
Paris formou o espaço da tua técnica,
Mas Espanha te deu o estilo de contrastes,
O gosto de regressar ao centro do problema,
De investigar a matéria da vida
E atingir o osso:
Construindo e destruindo ao mesmo tempo.
*
Situas o objeto inimigo,
Súbito assimilado.
As cores são de inventor, não de colorista.
A natureza morta
Retoma a lição espanhola:
Os elementos do quadro são "dramatis personae"
Que se cruzam no silêncio fértil.
Roma, Grécia ou África
Te servem de pretexto plástico:
O corpo extrai da vida
Sua força pessoal e polêmica.
*
Feito à imagem da Espanha, tu, Picasso,
Soubeste fundir a força e a contenção.

*        *        *

In:  Tempo espanhol / Murilo Mendes [prefácio Júlio Castañon Guimarães], Ed. Record, Rio de Janeiro, 2001, p.141

domingo, 26 de janeiro de 2014

MURILO MENDES - "Murilogramas"


Murilograma a Cecília Meireles
Murilo Mendes

Dorme no saltério; na magnólia ,
Dorme no cristal; em Cassiopéia .
Dorme em Cassiopéia; no saltério ,
Dorme no cristal ; na magnólia .

O século é violento demais para teus dedos
Dúcteis afeiçoados ao toque dos duendes :
O século, ácido demais para uma pastora
De nuvens , aponta o revólver aos mansos
Inermes no guaiar; columbrando a paz .
Armamentos em excesso, parquesombras de menos
Se antojam agora ao homem , antes criado
Para dança , alegria; ritmos de paz .
A faixa do céu glauco indica-te serena ,
Acolhe a ode trabalhada , nãogemente
Que ainda quer manter linguagem paralém .
Altas nuvens sacodem as crinas espiando
Teu sono incoativo . A noite vai inoltrada ,
Prepara úsnea de seda à ságoma da tua lira
Que subjaz no corpo interrompido , diamante
Ahimè ! mortal que os deuses reclamaram .
Dorme em Cassiopéia; no saltério ,
Dorme no cristal; na magnólia .

Roma, 1964
**


Murilograma a Graciliano Ramos 
Murilo Mendes

1
Brabo. Olhofaca. Difícil. 
Cacto já se humanizando, 

Deriva de um solo sáfaro 
Que não junta, antes retira,

Desacontece, desquer.

2
Funda o estilo à sua imagem: 
Na tábua seca do livro

Nenhuma voluta inútil. 
Rejeita qualquer lirismo.

Tachando a flor de feroz.

3
Tem desejos amarelos. 
uer amar, o sol ulula,

Leva o homem do deserto 
(Graciliano-Fabiano)

Ao limite irrespirável.

4
Em dimensão de grandeza 
Onde o conforto é vacante,

Seu passo trágico escreve 
A épica real do BR

Que desintegrado explode

Roma, 1965
**
Murilograma a Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho da poesia
selva selvaggia
Território adrede
Desarrumado
Onde palavras-feras nos agridem
Encontrei Carlos Drummond de Andrade
esquipático fino
flexível
ácido
lúcido
até o osso .
Armado
De lente compasso
Gramática não-euclidiana
& humour nuclear
Na oficina-laboratório
Itabiromem claroenigmático
Extrai do léxico
Uma lição de coisas .
Enxuto abre o manúbrio
À brisa sarcástica de Minas .
Dorme acordado .

Glossógrafo declancha
Com seus olhos de termômetro
A máquina do mundo da linguagem
Em contacto contraste atrito & rotação
Diurna .

Deflagrando história & semântica
Radiografia o
Desgaste do mundo coisificado .
Destrói o córtex do verbo
Dispara o contexto insólito
Descobre a “obsolescence”
os “rifiuti”
os restos do zero .
Contrapõe às galáxias poetizadas
O inframundo
Antigaláxias da náusea
das fezes
da poeira
do mêdo
Os labirintos íntimos
A paisagem delével do sexo
A paisagem de smog
Os pontapés do amor
A insuportável dor-de-corno
A esquírola de osso do homem .

“Balançando
entre o real e o irreal”,
Investido
Do “solene
sentimento de morte”
O poeta no seu trabalho ácido
Confessando-se
confessa-nos .

E agora, Josés?
Além de Cummings & Pound
Além de Sousândrade
Além de “Noigandres”
Além de “Terceira Feira”
Além de Poesia-Praxis
Além do texto “Isso é aquilo”
Sereis teleguiados ?
Resta a ságoma de Orfeu
Com discurso ou sem .

Sôbre a página aberta
Único campo branco
Drummond fazendeiro da cidade
(Esperamos)
Lançará de novo
a semente .

 Roma 1965
*            *            *

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

MURILO MENDES - Poema dialético


Tela de Enrico Santos

Poema dialético
Murilo Mendes

É necessário conhecer seu próprio abismo
e polir sempre o candelabro que o esclarece

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar;
nossa existência é uma vasta expectação
onde se tocam o princípio e o fim.

A terra terá que ser retalhada entre todos
e restituída em tempo à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita:
a aurora é coletiva.

*        *        *

Murilo Mendes - 1943