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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Da página 'Obvious'

MONTAIGNE E O TEMPO DESPERDIÇADO
Fellipe Torres

Escritor e filósofo do século 16 foi um mestre dos assuntos realmente pequenos (e, por isso mesmo, muito grandes). Analisou a ociosidade, as cócegas, a bebedeira, o sono, o sexo, a flatulência.

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Há quem considere perda de tempo acompanhar os comezinhos alheios nas redes sociais. Estão certos. Mas tempo foi feito para se perder, mesmo, oh gente! 
Com moderação, até bula de remédio vale a pena ser lida (há reações adversas para quase tudo na vida). 
Bem antes da internet, lembrem-se, já éramos seres sociais, comentaristas do cotidiano, prosadores. Já “curtíamos" e “compartilhávamos" belos pratos de comida, nascimento de filho, papo com taxista, coração partido, tombo na calçada, missa de sétimo dia, o ponto de vista e a experiência de vida alheia.

Um mestre dos assuntos realmente pequenos (e, por isso mesmo, muito grandes) foi Michel de Montaigne, escritor e filósofo do século 16, considerado o inventor do gênero ensaio. 
Nada era desimportante para a pena do francês. A sua vasta obra analisou a ociosidade, as cócegas, a bebedeira, o sono, o sexo, a flatulência. A beleza das prostitutas de Florença. O cheiro do gibão, a coceira na orelha, o gosto do vinho. Tudo era digno de investigação. 
Assuntos tratados com tanta seriedade quanto a guerra, a tristeza, a morte. 
Fez perguntas como: será que os elefantes têm religião?

O mais famoso de seus ensaios trata do forte laço de amizade com Etienne de La Boétie, relacionamento que durou apenas cinco anos, antes de ser interrompido pela morte do colega conselheiro, autor de um tratado contra a tirania. 
Montaigne escreveu pela primeira vez sobre o amigo na mesma época em que começou a produzir seus ensaios, em 1572. 
Como possuía o hábito de revisar e alterar seus escritos, acrescentou novas ideias ao texto pelos próximos 20 anos. Na primeira versão, lia-se: “Se pressionado a dizer por que eu o amava, sinto que isso não pode ser expresso”. Depois, e aos poucos, incluiu a frase: “Exceto dizendo: porque era ele; porque era eu”.

Fantástica introdução aos ensaios e à biografia de Montaigne é a obra Quando brinco com minha gata, como sei que ela não está brincando comigo? (Difel, 2013), de Saul Frampton. 
Por meio dela, acompanhamos o pensador em sua investigação sobre a experiência de si próprio. 
O trabalho de valorização do comum e ordinário, a importância do aqui e agora. 
No livro, Frampton classifica os escritos de Montaigne como a "primeira representação sustentada da consciência humana na literatura ocidental”. Ou seja, ele foi pioneiro em dar atenção à experiência real de viver. Buscar lições morais nas pequenas coisas.
O questionamento que dá nome à publicação de fato foi considerado por Michel de Montaigne. 
A frase sobre brincar com a gata ficou famosa como uma expressão do ceticismo do autor (será que ela é mesmo o animal de estimação dele, ou seria o contrário?). 
A escrita de Montaigne, aliás, é repleta de animais, baseada no extenso conhecimento do escritor sobre pecuária, agricultura e caçadas. Ele pondera sobre o canto dos galos, a imponência dos cavalos, o hábito de “conversarmos” com cachorros, a alimentação das andorinhas, a organização das abelhas e das aranhas, a automedicação das tartarugas e das cegonhas. Nessas observações, misturam-se fatos, histórias absurdas e fábulas.

Entre as características mais importantes dos ensaios de Montaigne, está o fato de serem extremamente humanos, preocupados com o autoconhecimento, com as semelhanças e diferenças entre as pessoas. 
Ao lado de 'Dom Quixote' e das peças de Shakespeare, compõem aquela que é considerada uma das mais importantes obras literárias da Renascença. São mais de cem textos, ora específicos, ora genéricos.

Embora alguns sejam datados, outros soam extremamente atuais, e inspiram a sociedade até hoje. 
É o caso de seus pensamentos sobre educação, em que critica o apego demasiado aos livros e à “decoreba”. 
Para o filósofo, esse modelo exige muito tempo e esforço, o que “afastaria os jovens dos assuntos mais urgentes da vida”. 
Afinal, a educação deveria formar indivíduos aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à vida prática. Essa perspectiva humanista, defensora de uma educação voltada para a ação e para a experiência, é resumida em uma frase: “Entre os estudos, comecemos por aqueles que nos façam livres”.

No seu volumoso trabalho, Montaigne desvia de razões definitivas, de questões centrais levantadas pela filosofia moderna (surgida 30 anos depois dele, com Descartes). 
Está mais interessado no conhecimento empírico, nas pequeníssimas coisas da vida. Fica a meio caminho entre o individualismo e a descoberta do outro. 
Não busca verdades indubitáveis, mas se faz perguntas simples e eficazes, como: “Terei desperdiçado o meu tempo?”. 
Uma possível resposta está nas primeiras páginas dos Ensaios: “Portanto, leitor; sou eu o próprio assunto do meu livro. Não há razão para você gastar seu tempo livre com um assunto tão frívolo e fútil. Então, adeus. Montaigne, nesse primeiro dia de março de mil quinhentos e oitenta”.

*            *             *

Publicado originalmente no suplemento literário 'A Palavra', da Academia Pernambucana de Letras.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Mais Dostoiévski, por favor

Mais Dostoiévski, por favor
Thiago Ribeiro – em ‘Obvious’

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(...)
A crítica mais comum a Dostoiévski normalmente se inicia na dificuldade da leitura e quase sempre se encerra naquilo que seria uma tendência depressiva de seus romances, sempre entremeados por crises de consciência, culpas cristãs e um sem número de questões meio fora de moda no mundo atual. 
Sim, porque diante da felicidade incessante e inabalável de Facebooks e Instagrams, ser crítico, olhar para o mundo e ver mazelas que perpassam toda a sociedade, perceber a face negativa da natureza humana seja no rico ou no pobre – sim, os pobres não são todos bonzinhos sempre explorados pelos ricos maldosos -, e se entristecer por isso se torna praticamente um atestado de não pertencimento ao universo.
Dostoiévski não teria segundo esses críticos, portanto, nada de bom, leia-se aproveitável, a nos oferecer. 
De fato, nenhum manual prático de como ser um líder carismático adorado por seus empregados, como conquistar todas as mulheres do mundo em 10 lições, como ser um gordinho feliz e desavergonhado em público ou como viver o amor livre com todos os seus parceiros sem desrespeitar a nenhum deles poderá ser jamais encontrado em Memórias do Subsolo, Crime e Castigo, O Idiota, O Eterno Marido ou em qualquer outra obra do russo. Dostoiévski que“apenas” nos oferece a chance de olhar e mergulhar em profundidade na alma humana, em todas as suas crises de consciência, contradições e complexidades que, como diria uma amiga, fazem do viver uma arte apenas permitida aos profissionais.

E viver hoje em dia não pode ser arte (tem de ser banal), não pode ser complexo (tem de ser fácil), não pode ter crises de consciência (tem de ser leve), não pode ter valores absolutos (tem de ser relativo), não pode ter compromissos (a não ser com o próprio eu) não pode ter sofrimento (temos Facebook e Instagram para encher de sorrisos). 
Dostoiévski não se casa com o nosso tempo porque fala de um tipo de vida não permitida, ou quase proibida, para os padrões atuais.

É na altura da superfície que se vive, que se conversa, que se discute, que se aplaude e que se vaia. 
É na altura da superfície que se ama e que se constrói todo um mundo de maniqueísmos rasos, fáceis e fanáticos. 
É da profundidade da superfície que sai um emaranhado de regras burocráticas que ensinam o ser humano a ser humano, que estabelecem o que é permitido ou não na vida em sociedade. E é desta mesma profundidade que os próprios tutelados aceitam todas essas regras que os cerceiam, regras que nada mais fazem do que atentar contra a capacidade individual de escolher entre o certo e o errado, entre o moral e o imoral, entre o bom e o mau.

Mas não estaria essa capacidade individual de fato cada vez mais reduzida?, é a pergunta que se coloca. E a resposta infelizmente pode ser um triste sim. Pois a cada livro “Faça isso que vai dar certo” que se vende numa livraria enquanto um Dostoiévski fica na prateleira, limita-se um pouco mais a potencialidade de discernimento individual da sociedade. 
Receber e se contentar com receitas pré-fabricadas significa não querer gastar tempo, ou indiretamente assumir a incapacidade pessoal, para se chegar aos melhores ingredientes para o próprio bolo.
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(...) coloquemos mais Doistoiévski em nossas vidas. Para que olhemos as dramáticas crises de consciência de Raskolnikovs, Ivans e Dimitris Karamázovs como um símbolo da mais profunda essência humana, chave fundamental para nos engrandecermos e evoluirmos como seres habitantes de um mundo cada vez mais necessitado de amor, lucidez e respeito ao próximo. Porque, por mais que sejam leves e reconfortantes textos fáceis com receitas de como ser feliz, nada mais profícuo para a verdadeira evolução humana do que um mergulho profundo e sincero sobre si mesmo, um mergulho de reconhecimento de erros, de definição de valores e caminhos, de busca por discernimento e autonomia reais. 
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Certamente será bem mais difícil do que com os manuais e possivelmente gere um tempo razoável de nariz torcido, semblante franzido e (por que não?) lágrimas no rosto. Mas o resultado será, pelo menos, mais sólido e resistente às intempéries cotidianas.
O protagonista das Memórias do Subsolo perguntava se por acaso um homem com consciência pode ter algum respeito próprio. 
A resposta talvez esteja mais para não do que para sim, mas só o desenvolvimento dela, a consciência, é capaz de nos levar a um nível razoável de lucidez sobre os nossos próprios atos – ainda que deles não nos orgulhemos – e os atos dos outros sobre nós.
Se um homem com consciência corre o risco de não ter respeito por si próprio, aquele sem consciência certamente não terá respeito algum pelo próximo e só merecerá respeito daqueles que, assim como ele, vivem no mundo da inconsciência.

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Carta de um novo mundo - Dani Fechine em 'Obvious'

CARTA DE UM NOVO MUNDO
Dani Fechine - em 'Obvious - recortes'


E se o mundo passasse por uma transformação? E se houvesse um explosão (ou implosão) e o nosso planeta simplesmente mudasse da água para o vinho? Como seria o mundo que merecemos ter?


“Venho, por meio desta, informar que uma mudança drástica aconteceu no nosso mundo. 
Logo após a implosão que sucedeu por aqui algo novo surgiu. Um novo planeta renasceu, com novas árvores, novas terras, novos mares, novo céu, novas pessoas. 
Esse é o ponto principal. Novas pessoas. 

Caro amigo, sei que não lerá esta carta, mas faço questão de relatar para as gerações futuras sobre o futuro grandioso que o nosso passado obteve e ninguém melhor do que você para ser o meu destinatário.
Pois é, você é uma das poucas coisas do mundo velho que ainda restam nesse paraíso, porque permanece por todos os lugares.

Hoje saí pra trabalhar a pé, para sentir um pouco a brisa fria da manhã de junho e algo incrível aconteceu: durante os 15 minutos de caminhada até o escritório, recebi cinco cumprimentos de bom dia. 
Agora todos se cumprimentam na rua, mesmo que não se conheçam. Acenam, sorriem e as vezes até desejam coisas boas pra gente, sem se importarem com quem estão falando. 
Chamaram essa prática de educação. Achei fantástico e estão até ensinando nas escolas.

Lembra-se dos noticiários sanguinários que você detestava? Faliram. 
Pouco se vê de violência por aqui. Todos me parecem humanos, diferentemente do mundo antigo, onde a briga diária por bens materiais, pela vida e pela paz alheia, era pauta principal de quase todos os jornais da cidade. 
Agora a gente sai pra beber um vinho durante a noite e não nos assusta mais deixar o carro em casa e caminhar um pouco até o bar. 
Voltamos alegres, pisando as poças d’água, sem disparar o coração ou sermos surpreendidos com algum assalto a mão armada. E quando raramente isso acontece, esses cidadãos um pouco desprovidos das coisas boas que a vida pode nos dar, são reabilitados em casas especializadas nesse tipo de problema. Recebem a chance de voltar ao mercado de trabalho e passam a viver novamente como nós. 
Quem diria, hein, que essa paz seria possível? 
O segredo foi investir na prevenção do mal. Remediar se tornou obsoleto.

Uma novidade digna de comemoração é que preconceito pouco se conhece por essas bandas de cá. Comemos bananas e ninguém nos chama de macaco, por exemplo. 
Não somos todos iguais, mas nos respeitamos igualmente. Não temos a mesma origem, mas somos um mesmo povo. Não fomos criados da mesma forma, mas lutamos para uma mesma causa. Não gostamos das mesmas coisas, mas compartilhamos nossos saberes. Não nos ensinaram como seguir, nós simplesmente seguimos. E fizemos o certo.

Por falar nisso, aqui sobra honestidade. Se esse mundo para o qual escrevo ainda houvesse salvação, mandaria um pouco dentro desse envelope. 
Quem não tem nada, o pouco já é suficiente. 
Políticos a gente também tem, sabe? Mas como diria Thomas Hobbes, esse governo é um mal necessário para conter o caos. Alguém tinha que pôr ordem nisso tudo e, por incrível que pareça, está dando certo. 
Educação não nos falta, meu amigo. As crianças estudam sustentadas pelo governo e estas são as melhores escolas do nosso país. Há briga para conseguir matrícula. Abastados ou não, todos frequentam o mesmo colégio. 
A saúde gratuita também virou acesso fácil e eficiente. Os médicos aqui gostam de trabalhar e o fazem por amor. Nenhum cidadão morre em cima de uma maca no corredor da emergência. Nenhum idoso perde sua vida por recusa de atendimento. 
Somos todos prestativos. E fazemos isso porque queremos o mesmo em troca.

E por fim, meu caro, aqui o respeito é mútuo. Das crianças aos idosos, todos fazem parte de uma mesma massa regida pela educação. 
Alguns ainda não descobriram seus destinos, mas todos sabem que a base para construí-los está no que plantamos por aqui: respeito. 
A dignidade, a coragem de seguir em frente e o sucesso da realização nós cultivamos pouco a pouco e acreditamos que no fim seremos cada vez melhores. 

É com uma saudade imensa de você que me despeço de uma vez por todas. 
O mundo que ficou não mais nos pertence e dele não queremos nem uma folha para plantar por aqui. O mal se dissemina com uma frequência maior que o bem e é isso o que menos queremos no nosso planeta que não mais se chama Terra. 

Um abraço saudoso e repleto de boas energias. Quem sabe não nos encontremos em outro mundo.”


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sobre 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'


BRÁS CUBAS: O ETERNO HERÓI BRASILEIRO 
NUNCA FOI TÃO ATUAL
Julian Barg -  em  'Obvious - literatura'


Brás Cubas, motivo de orgulho na literatura, de vergonha no caráter do brasileiro


Machado de Assis

Seria o personagem mais emblemático da literatura brasileira mais um caso daqueles em que amamos um herói cheio de defeitos, dentre eles o de ser consciente de todas as suas falhas de caráter, fraquezas humanas e ainda por cima, que faz chacota delas para que possamos conhecê-lo melhor? 

Brás Cubas, narrador morto de um romance póstumo, só por isso já seria um inovador no campo literário do fim do século XIX. 
A questão se torna ainda mais complexa se formos analisar e verificar que o tempo “presente” da narrativa é a pós-vida do narrador, que de forma inexplicável escreve um romance mesmo morto e transforma o nosso agora no seu depois.

Vejamos: a narrativa está no tempo presente, mas esse presente já passou, pois o livro (que Brás Cubas deixa claro ser uma obra escrita por ele para nós) já terminou de ser escrito, então é, ao mesmo tempo, passado. E é passado pela segunda vez ao ser o romance sobre a vida que ele viveu antes de morrer (óbvio? Não, afinal ele também vive (ou viveu) uma vida depois de morto, que foi quando nos escreveu o romance).

O prefácio já nos prepara para o que vem pela frente ao revelar, em uma página, a personalidade do personagem que nos conta sua vida. E a pergunta que se pode fazer (e seria uma pergunta muito comum muito tempo depois na literatura) é se de fato podemos acreditar nesse narrador. 
Sim, porque suas intenções ao revelar detalhes de sua vida e pensamento não são claras. 
Ao mesmo tempo em que ficamos sabendo de seus amores, percebemos que as bases de seus sentimentos são questionáveis e muito rapidamente a direção de sua vida se modifica. 
Mesmo quando Brás Cubas nos confessa um profundo pesar por algo, não tarda mais de algumas linhas para que, com uma boa dose de sarcasmo, a vida real seja reconsiderada, colocando em dúvida sua sinceridade.

Seu modo de lidar com o pai, com Marcela, com os amigos, com tudo que o cerca é sempre duvidoso. Ao mesmo tempo, sua sinceridade é gritante, como, por exemplo, quando deixa claro que não tem um mínimo de pesar por Quincas Borba, e inclusive lhe tem nojo e desdém.

Essa sinceridade sobre sua falsidade é o que pode confundir o leitor. Afinal, se Brás Cubas não tem vergonha de sua falta de caráter, por que mentiria sobre seus bons sentimentos? Qual é a verdade? Se o personagem é mentiroso, podemos partir do princípio que tudo pode ser mentira, e, lembrando que o romance foi escrito para o leitor, e que a narrativa não passa de um livro (o que Cubas sempre nos relembra, colocando-nos no papel de leitores e não de testemunhas de sua vida), bem... 
Então toda a arquitetura do livro de Machado de Assis se torna uma construção da qual não podemos nos esquecer.

O que estamos lendo não é apenas a vida de Brás Cubas, é um livro escrito por Brás Cubas sobre sua vida. É a sua autobiografia, é só o que ele quer que saibamos. E toda a chacota e o sarcasmo empregados por ele são parte de seu plano para escrever um livro (quantas vezes ele se dirige ao leitor, e só por chamá-lo assim já se isenta da responsabilidade de ser “real”?). 
Inúmeros capítulos são dedicados exclusivamente a falar sobre o próprio livro. E se temos um livro que fala sobre si mesmo, então temos metaliteratura. 
A tendência que o leitor normalmente tem é a de prestar atenção na história, querer saber o que houve, como, quando por quê. 
Aqui, a verdadeira história está escondida: é um morto escrevendo um livro.

O ritmo da escrita permanece semelhante e em um tom sem grandes reviravoltas até o fim. 
Mas podemos nos perguntar de que vale a vida de Brás Cubas, quando ele mesmo parece não dar valor a sua vida. 
A frase final da obra define o espírito do herói brasileiro. Um herói que nem ao menos a si mesmo admira e que confessa que sua vida é miserável, incluindo na afirmação uma miséria geral, coletiva e que faz parte de um povo e uma cultura que, mais de um século depois, continua a se reconhecer em seus defeitos e falta de caráter.

A atemporalidade, neste caso, nem sempre é benéfica.


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terça-feira, 7 de junho de 2016

Foucault - Saber e Poder

FOUCAULT E AS RELAÇÕES ENTRE SABER E PODER
Eduardo Silva Ruano - em 'Obvious -literatura'

No livro "Vigiar e Punir", o filósofo francês Foucault faz apontamentos sobre como conhecimento e poder estão intimamente ligados, e apresenta o conceito de panóptico como exemplo para sua dissertação.


Paul-Michel Foucault nasceu em 15 de outubro de 1926 em Poitiers, cidade localizada 300 quilômetros ao sul de Paris. Sua família era de burgueses ricos. O pai foi um cirurgião bem-sucedido; a mãe, uma dona de casa determinada a administrar as finanças do marido.
Durante a infância, Foucault morou com a irmã mais velha e o irmão caçula em uma casa luxuosa e espaçosa, a qual oferecia plena capacidade para muito mais do que cinco pessoas morassem ali.

Na escola, diziam que Foucault era frágil e míope. Seus amigos zombavam de sua constituição corcunda e de seu jeito "estranho" de ser.
Embora Foucault fosse notavelmente brilhante, ele nunca se destacou nos estudos. Sabe-se que sua matéria predileta era História, a única pela qual ele se interessava e dedicava.
Foucault costumava dizer que o passado estava vivo no presente. Na realidade, a História não estava registrando a verdade do passado, mas revelando a verdade do presente. Assim era a orientação do pensamento de Foucault.

Ao longo de suas experiências na escola, Foucault foi percebendo que, de fato, era gay. Isso não apenas era ilegal naquela época, mas impensável. Por esses e outros motivos, ele começou a ter sérias desavenças com seu pai.
Naquela época, com 15 anos de idade, o jovem Foucault passava por diversas crises de identidade. Como relata Paul Strathern no livro Foucault em 90 Minutos (2003):
"Por temperamento, Foucault era avesso a ficar muito tempo na sombra de alguém. Não só tinha ambição, mas também obstinação por se tornar independente, embora seu impulso reativo muitas vezes deixasse suas ideias para trás."

O francês passou pela fase de puberdade com alguma dificuldade.
Na adolescência, Foucault vivia perturbado. Sofria de delírios persecutórios e, em mais de uma oportunidade, tentou o suicídio.
Em certas ocasiões, desaparecia por noites a fio, entrando em colapso, pálido e com olheiras profundas, para depois retornar de manhã, deprimido, ao seu quarto.
É sabido que, em suas jornadas noturnas, Foucault procurava por aventuras sexuais, inclusive, ele passou a se envolver em práticas sadomasoquistas com frequência.

Na época de escola, Foucault ainda era incapaz de se aceitar e viver consigo mesmo, e nenhum dos estudantes em seu dormitório queria conviver com ele. Viam-no como louco e instável.
Deveras agressivo na forma de falar, Foucault argumentava e defendia suas ideias sempre na base da violência, talvez motivado por uma necessidade de reafirmar a validez de seus próprios pensamentos.
Logo ele passou a desenvolver doenças psicossomáticas e distúrbios psiquiátricos. Chegou a ficar dois anos internado em um manicômio e, solitário naquele lugar, passava o tempo imerso em introspecções filosóficas.


Ao retornar à sociedade, ele começou a ler Hegel, filósofo alemão do século XIX, e depois progrediu para Heidegger, pensador que exerceu a maior influência sobre ele. Segundo o próprio Foucault:
"Todo o meu desenvolvimento filosófico foi determinado por minhas leituras de Heidegger."

Em agosto de 1955, Foucault ingressou em uma faculdade na Suécia, e lá encontrou uma certa paz, já com seus 30 e poucos anos de idade.
Nos anos seguintes, ele estudou filosofia e psicologia, tendo se especializado nesta última, tornando-se professor, profissão que exerceu por um considerado período.
Munido financeiramente de pequenos salários conquistados e principalmente da gorda herança do pai (que morrera mais ou menos nesta época), Foucault foi morar, sozinho, num apartamento grande e ricamente mobiliado.
Comprou um Jaguar. Saia com seu carro à procura de homens. Continuou a beber de forma compulsiva. No entanto, essa rotina começou a perder a graça. Foucault logo percebeu que a liberdade pode ser tão repressora quanto a repressão direta.

Aos 33 anos de idade, Foucault retornou a Paris, e foi daí em diante que começou a escrever seus livros mais famosos, como, por exemplo, A História da Loucura, As Palavras e as Coisas: Uma Arqueologia das Ciências Humanas, e Vigiar e Punir. Esta última obra será o tema da discussão a seguir, sobre as relações entre saber e poder, e o conceito de "panóptico".

Foucault e as relações entre saber e poder
Foucault interessava-se, acima de tudo, pelo sujeito, suas verdades e relações entre o saber e o poder. No livro Vigiar e Punir, Foucault argumenta que conhecimento e poder estão tão intrinsecamente ligados que, no final, acabam sendo a mesma coisa.
Suas investigações levaram a abordagens inovadoras sobre o tema. Foucault analisou, em especial, os processos disciplinares adotados em instituições sociais, como escolas, prisões, fábricas, quartéis e hospícios, por exemplo, e identificou como elas controlavam aqueles que eram levados a estes lugares por meio de imposições de padrões ditos normais de conduta.

Foucault tinha uma noção de homem não como sujeito (que transforma o ambiente em que vive), mas como objeto (que é controlado pelas instituições de poder).
Por mais que escolas, hospitais, prisões, fábricas, quartéis e hospícios visassem proteger os cidadãos, de certa forma, também os controlavam através de um mecanismo de vigilância e punição. Foucault chamou esses mecanismos de "tecnologias políticas", as quais administravam o tempo e espaço das pessoas, e que tinham como elemento unificador a hierarquia.
Nesse sentido, Foucault abordou que, numa sociedade, existem certas "instituições de sequestro", onde os indivíduos são retirados de seu meio social e internados durante um longo período para moldar sua conduta e disciplinar suas ações.
Segundo o filósofo, a disciplina seria um instrumento de dominação e controle dedicado a excluir ou domesticar comportamentos divergentes.

O poder não é uma capacidade natural dos indivíduos, acreditava Foucault, mas algo que recebemos em determinado momento. Para ele, o poder era "enigmático, ao mesmo tempo visível e invisível, investido por toda a parte".

Para melhor entender as relações entre saber e poder, é preciso considerar o conceito de Foucault sobre liberdade.
Para ele, a liberdade é como uma arma de proteção. Arma porque constitui um instrumento natural de luta, e proteção, porque ninguém pode manipular a liberdade de ninguém. É estranha a liberdade como arma de proteção, já que a mentalidade do senso comum é de que o poder mina o potencial de liberdade.
Bem, Foucault acreditava que as pessoas não têm total consciência do potencial de sua liberdade e, por isso, elas se "desviam" de seu curso natural e, assim, acabam facilmente manipuladas pelo poder.

Para o francês, é possível lutar contra a dominação representada por certos padrões de pensamento e comportamento, só não se pode, enfim, ser imune e escapar completamente das relações de poder.
"O fato é que toda relação humana é, a um certo grau, uma relação de poder. Nós evoluímos em um mundo de relações estratégicas perpétuas."

Panóptico
Em Vigiar e Punir, Foucault cita o conceito de "panóptico", uma expressão originalmente criada pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Benthan.
A ideia de panóptico é representada visualmente por um modelo de prisão com estrutura circular, e uma plataforma de observação erguida no meio. Isso possibilita que um observador central, no papel de autoridade, espione as celas situadas abaixo, ao redor do prédio. Os prisioneiros contidos nas celas são "vistos sem ver".
Dessa forma, os prisioneiros assumem um sentimento constante de incerteza, que acarreta, cedo ou tarde, em paranoia e auto-vigilância. Segundo Foucault:
"O panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha."

No panóptico, um poder onipresente e onisciente é capaz de subjugar cada pessoa de acordo com o que lhe é apropriado. É como se fosse um processo de adestramento.
"O panóptico é um zoológico real, com o animal sendo substituído pelo homem."

Esta ideia de panóptico propagada primeiro por Bentham, e depois por Foucault, é, na verdade, uma imagem arquetípica de nossa sociedade. O ser humano moderno é criado, sem dúvida, para seguir regras, normas e regulamentos. Muitas vezes, é criado em reação a tudo isso. Como diz Foucault, "toda forma de saber produz poder".

Aplicando a ideia do panóptico à sociedade moderna, vemos que indivíduos são selecionados e categorizados rigorosamente por instituições sociais - sejam prisões, escolas, quartéis ou hospícios -, não no sentido de valorizar particularidades que caracterizam cada um, mas sim para melhor controlá-los. O saber/poder conduz tanto a um maior entendimento quanto a um controle maior. É o que quis dizer Foucault em Vigiar e Punir.

Embora Foucault apresente uma concepção negativa de poder, algumas pessoas interpretam que ele quis, na verdade, mostrar o outro lado da moeda.
Assim sendo, poder não é apenas uma forma de coerção, mas também constitui uma força necessária, produtiva e positiva na sociedade.
A disciplina pode muitas vezes ser coercitiva, mas, sem ela, não haveria como conviver harmonicamente em sociedade, visto que cada um agiria individualmente conforme a própria verdade, logo, o caos e a desorganização se instaurariam.

"Qualquer relação de poder não é má em si mesma, mas isto é um fato que sempre comporta perigos."
**

Referências bibliográficas:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Vozes (2009).
STRATHERN, Paul. Foucault em 90 Minutos. Jorge Zahar (2003).

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Nem sempre o silêncio... Marcel Camargo


NEM SEMPRE O SILÊNCIO É ESQUECIMENTO
Marcel Camargo - em  'Obvious - recortes!

Ao contrário do que possa aparentar, muitas vezes o silêncio tem muito a dizer, carregando em seu aparente vazio uma intensidade tamanha de sentimentos e de carga emocional muito mais significativa do que enxurradas de palavras ou gestos exacerbados. O silêncio pode acalmar, ferir, amparar ou até mesmo violentar, às vezes trazendo paz, outras vezes incitando tempestades - nem sempre o silêncio é pacífico.

O silêncio pode ser revolta, rebeldia, contrariedade contida. Nem sempre estamos prontos para expressar nossos pontos de vista, no sentido de verbalizar o que queremos, o que temos aqui dentro. Assim, mesmo que estejamos discordando de algo, silenciamos, pois nos falta a coragem necessária para que nos libertemos dessa prisão que nós próprios criamos, ou mesmo porque sabemos que qualquer tentativa de diálogo será inútil e cansativa naquele momento.

O silêncio também pode corresponder à reflexão, a um turbilhão de pensamentos pulsando dentro de nós. O pensamento e a fala devem conviver harmonicamente, de forma que um não atropele o outro, colocando-nos em situações constrangedoras. Palavras, após proferidas, não voltam mais, deixando suas marcas, muitas vezes negativas, nas nossas vidas e nas dos ouvintes. Pensar sobre o que se diz é necessário, pois, caso possamos machucar alguém ou a nós mesmos, sem razão, é preferível emudecer.

Às vezes, o silêncio é solidão, é vazio, solitude doída e emudecida. Mesmo acompanhados, ainda que em meio a muitas pessoas, podemos estar solitários, sentindo-nos sem acolhida, sem partilha, sem pertencimento. Como se não fizéssemos parte da vida do outro, como se fôssemos desimportantes, dispensáveis. Perdidos nessa irrelevância emocional, ruímos por dentro, minando nossa autoestima e nossa capacidade de ser feliz.

Outras vezes, o silêncio é desistência. Há momentos em que o mais prudente a se fazer é desistir de algo, de alguém, de tentar convencer, de querer amar, de clamar por atenção e reciprocidade. Certas situações nos pedem que partamos para outra, que canalizemos nossas forças e energias em direção ao que nos trará contrapartida, retirando-nos dos apelos vazios, da mendicância afetiva, pelo bem de nossa saúde física e de nosso equilíbrio emocional.

Silêncio, da mesma forma, pode significar desapego, libertação, livramento de amarras que nos impedem o caminhar tranquilo de nossa jornada. Precisamos nos despedir de tudo aquilo que pesa em nossos ombros, emperrando a visualização serena das possibilidades que nos aguarda o futuro. Temos que serenar a celeridade que intranquiliza os nossos corações, jogando fora bagagens sem as quais conseguiremos viver melhor.

O silêncio muitas vezes é mágoa, ressentimento, lamentação acumulada. Na impossibilidade de encontrarmos coragem de vivermos nossas verdades por inteiro, de refutarmos o que não nos completa, tampouco nos define, de impormos aquilo em que acreditamos, sufocamos nossos sentimentos mais íntimos sob a infelicidade de aparências condizentes com o que todo mundo espera - exceto nós próprios. Nesses casos, o calar-se equivale ao crepúsculo moroso de nossa existência.

Felizmente, no entanto, o silêncio também pode - e sempre o deveria - implicar felicidade, certezas, convicção e força. Sabermos os momentos certos para calarmos e guardarmos para nós aquilo que pensamos nos salva de problemas dispensáveis com gente que não significa nada na nossa vida. Quando estamos seguros quanto ao que somos, quanto aos nossos sonhos e planos de vida, nenhum barulho é capaz de abalar as nossas verdades, minimamente que seja. 

Quando o silêncio guarda o que temos de mais precioso, estamos então caminhando rumo ao alcance de nossos sonhos, para que possamos dividi-los com quem compartilhamos amor de verdade, e com ninguém mais.

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Das coisas que se vão... - Marcel Camargo

DAS COISAS QUE SE VÃO
 ENQUANTO A GENTE FICA
 Marcel Camargo - em 'Obvious - recortes'


O tempo corre, a vida passa e tudo vai tomando seu rumo, às vezes perto, outras vezes bem longe de nós. Às vezes com duração longa, outras vezes rápido demais.
 E então o próximo vai se tornando distante, o certo fica duvidoso, o que foi intenso se transforma em raridade e o hoje se perde em meio à saudade do ontem e às expectativas do amanhã.

A infância, a adolescência e a juventude vão embora, levando os amigos imaginários, a inocência e a ingenuidade, os sonhos impossíveis, o cheiro de grama molhada.
 Vão-se as paixões, o primeiro beijo, as espinhas, os cabelos nos ombros.
 Os ideais, o espírito rebelde da liberdade a qualquer preço, as contestações frente ao mundo em que não nos encaixamos.
As pessoas vão embora, enquanto amargamos as decepções amorosas, as traições de quem colocamos na frente de todos, o fim de várias certezas que achávamos inabaláveis.
 E se vão os empregos, a estabilidade, o equilíbrio emocional, a paciência, a vontade de mudar o mundo, o desejo das coisas para ontem, o desfrute descompromissado do aqui e agora.

Os avós, os pais, familiares, muitas pessoas especiais se vão, aos poucos ou repentinamente, colocando-nos frente a frente com a inevitabilidade da morte, trazendo a dor diante da conscientização acerca da finitude das coisas e das pessoas. E acabam levando junto o porto-seguro, nosso lar, para onde podíamos voltar, mesmo que em pensamento, para que nos sentíssemos mais seguros quando dos tombos que a vida dá.

Os filhos partem, criam asas, viram gente e saem de casa, às vezes de uma maneira nada amigável, outras vezes com relutância e medo, mas têm de ir; não existe outro jeito.
 Junto com eles, vão-se as presenças constantes, o controle que já nem se tinha de verdade, o bom dia mal-humorado, as esperas ansiosas da maçaneta da porta se abrindo, ao final das madrugadas no fim de semana.

Cabe-nos, portanto, reter em nós o melhor de tudo o que já fez parte de nossas vidas, usando as lembranças em nosso favor, como bálsamo e combustível motivador de nosso seguir em frente.
 Muito se vai enquanto a gente fica.
 Sim, a gente fica menos acompanhado, a gente fica doído, porém bem mais forte, mais vivido, mais experiente, mais humano. Fica à mercê o curso do tempo, das idas e vindas do que fez, faz e sempre fará parte de nós.

É dessa forma, afinal, que nossa vida se torna mais rica, mais mágica, mais digna de ter sido vivida, sofrida e aproveitada em toda dor e alegria que é tão humana, tão nossa, tão doída, tão bela.

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quarta-feira, 30 de março de 2016

A solidão nas telas de Edward Hopper

EDWARD HOPPER E A SOLIDÃO (adaptado)
Victor Oliveira - em 'Obvious - Do Ser'

Um dos marcos do modernismo, Edward Hopper foi um pintor paisagista que conseguiu captar de forma singular espaços urbanos contrastados com a individualidade de seus personagens, passando para o observador uma sensação melodramática.

Edward Hopper foi um pintor e artista gráfico norte-americano, nascido na capital financeira do mundo – Nova York – em 1882.
Ficou mundialmente conhecido por retratar a solidão contemporânea em suas obras, principalmente em ambientes urbanos, evidenciando assim que a individualidade do capitalismo nos traz a solidão.

As obras de Hopper retratam a vida moderna americana, focalizando a subjetividade e a solidão urbana, causando no observador um impacto psicológico.
Suas obras sofreram influência de psicólogos, como Freud e Bergson.

O ambiente nas obras do pintor americano, são paisagens urbanas, porém desertas, com um certo ar melancólico e iluminadas por uma luz “dramática”.
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Automat (1927)
Evidenciando a solidão urbana, em “Automat” é retratada a cena de uma mulher sozinha em uma cafeteria, tarde da noite olhando para uma xícara de café.
As feições da moça revelam uma mistura de melancolia e exaustão, como quem retorna de um dia exaustivo em um trabalho  realizado sem gosto, algo comum nas grandes cidades.

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Hotel room (1931)
Em “Hotel room”, uma mulher senta-se na cama fingindo ler um livro.
O quarto possui  mobiliário básico.
As malas estão fechadas, seus ombros curvados sugerem renúncia ou desespero.
Segundo Hopper, ela foi abandonada por um amante e esse  é o momento em que ela navega dentro de si mesma,

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Room in New York (1932)
A inspiração dessa tela, segundo Hopper, foi um conjunto de impressões que o artista tivera dos vislumbres iluminados das casas e prédios que ele reparava durante suas caminhadas.
Essa obra retrata bem o individualismo dos casais que ao invés de estarem fazendo algo juntos estão cada um realizando suas próprias atividades, ele lendo um jornal e ela tentando se distrair com um piano, mas claramente sem qualquer resultado.

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Nighthawks (1942)
Mais famosa obra de Edward Hopper que serviu de inspiração para outras linguagens artísticas  - o cinema, outros trabalhos em artes plásticas  etc.
A tela retrata pessoas em um restaurante no fim da noite.
Esta tela não retrata  a solidão dessas pessoas,  todas no mesmo ambiente.  O foco é a ausência de movimento na rua que não reflete a efervescência de uma cidade grande.

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Excursion in filosofia (1959)

Obra impactante do artista norte-americano, “Excursion in filosofia” mostra um homem de meia idade tendo um conflito existencial :  aparentemente insatisfeito com o trabalho, está sentado na cama, pronto para sair, mas com uma postura desanimada.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015

A dor e a beleza da escrita -sobre Drummond


A dor e a beleza da escrita
Hilane Tawil - em "OBVIOUS Magazine


Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas cartas para sua filha, Maria Julieta, a aconselha:
“Escreva minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada, neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas. Experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos. Descreva, como exercício, o degrau da escada do seu edifício (saiu um verso sem querer). Escreva sempre, mesmo para não publicar. E principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas; que de há muito já perdi, se é que um dia a tive. Mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontre em si próprio sua justificação…”

Belo conselho, que de um carinho ofertado a Maria acalentou tantos corações inquietos. 
Na ânsia de significado pela vida, muitos afundam, outros tomam um pouco de fôlego na bordinha da piscina, pegando ar, papel e lápis. 
O ato da escrita, por si só, já é um exorcismo. Quando não, uma tentativa de realocar e elaborar dores, perdas e alegrias. 
A dúvida surge e lá está o escritor, com um comichão no coração e uma caneta na ponta dos dedos.

"E se eu não souber escrever?" Mesmo assim rabisque. Linhas, frases, palavras desconexas. Que mal tem? Ver os sentimentos exteriorizados, seja na tela ou no papel, no mínimo alivia. 
Se mesmo assim não houver descanso, vai lá e faça de novo. E de novo. Até acalentar a alma e adoçar os sentidos. 
Por mais que sangre, remexa lá no fundo o que nem os seus ouvidos conseguem ouvir. 
Apesar do medo da entrega, é isso que salva muitos da loucura ou de assustadores demônios que insistem em rondar os dias.

O trabalho de criação é um mergulho no inconsciente, a junção dos caminhos percorridos e dos atalhos que ainda sonhamos em trilhar. É a entrega de uma pessoa despida de pudores, manchada pelos dias e remexida por delírios. 
Se você vasculhar nas tensões, tragédias, rancores, esperanças e nas fantasias incontáveis até mesmo para o analista, está um (ou muitos) texto (s). 
Angustiado por não conseguir expurgar tudo isso para a folha? Se acalme. Ler é o alimento para a escrita. Já já as linhas chegam até você. Até lá, pratique. Diariamente. Nem que seja um vômito qualquer. A peneira vem depois, assim como o processo de modelagem. 
Tome notas e transborde literatura. Um livro ou uma crônica são, por vezes, o momento de tomada de consciência do autor. Ali ele se apropria do que antes somente pulsava em si mesmo. 
Por mais respeitado, renomado e brilhante que seja um escritor, o próximo verso é sempre uma incógnita. E que lindo é ser aprendiz da própria história. E das entrelinhas em que moram personagens e vidas.

Escreva todo dia (sim, eu me repeti). 
Começando agora você estará mais perto do que estava no exercício de lapidar a matéria bruta. Esta que sai de ti, alcança a folha e precisa ser esculpida. 
Se tomou forma, é que foi purificado. E sortudos são os que das feridas alcançam a catarse.

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domingo, 6 de setembro de 2015

Poucos merecem ver nossas lágrimas - Obvious Magazine

"Ninguém merece as tuas lágrimas, mas quem quer que as mereça não te vai fazer chorar". 
(Gabriel Garcia Márquez)


Poucos merecem ver nossas lágrimas
Marcel Camargo - em 'Obvious Magazine - Recortes'


Um dos melhores conselhos que nossos pais nos transmitem, quando somos pequenos, e que deveríamos carregar pelo resto de nossas vidas é: “engole esse choro!”. 
Embora, na época, eles pudessem visar a outros objetivos, em contextos específicos, ao nos mandar parar de chorar, mesmo assim já estavam nos preparando para que nos tornássemos pessoas mais fortes, seguras, capazes de enfrentar as rasteiras que a vida não cansaria de nos dar desde então, sem sucumbirmos às frustrações e perdas, sem nos tornarmos vulneráveis diante de quem está à espreita, esperando para usar nossas fraquezas contra nós e em proveito próprio.

Somos humanos, sim, e sensíveis, suscetíveis a momentos de fraqueza emocional e tristeza, melancolia. 
Chorar é preciso, pois as lágrimas recobram as energias, minimizam o mal estar, aliviam o sufoco, limpam as impurezas da alma, desafogam o coração. 
Mas, ao mesmo tempo, as lágrimas expõem nosso lado mais vulnerável, nossa tão característica carência humana, e por isso mesmo podem ser vistas como fraqueza por quem, naquele momento, não quer - nem nunca será capaz de - ajudar ou, pior ainda, por quem usará aquilo contra nós mesmos, oportunamente. 
Então, dependendo de onde e com quem estiver, engole esse choro!

Ao ouvir “eu não te amo mais”, "estou partindo", enquanto o outro arruma as malas para sair de casa. Nesse momento, ele já decidiu viver a própria vida longe de nós, já decidiu que tudo o que oferecíamos não bastava, não foi suficiente. Provavelmente já encontrou quem aparentemente ofereça o que ele esteja querendo e está forte o suficiente, visto ter tomado uma decisão. 
Assim, nossa fraqueza, se exposta, somente irá aumentar, enquanto o outro se fortalece ainda mais, bem ali na nossa frente. Engole esse choro!

Quando o chefe, um colega de trabalho ou um cliente elevam a voz, são deseducados, ríspidos e aparentemente injustos. 
Às vezes explodimos mesmo, justamente com quem não merece, além de existirem pessoas que não sabem agir de outra forma que não esbravejando indelicadamente, pois parecem desconhecer mínimas regras de convivência. Por serem incapazes de se colocar no lugar do outro, não entenderão nossos sentimentos, tampouco mudarão seu jeito de ser. 
Poderemos nos colocar no momento certo e deixar claro que aquela atitude nos desagrada, demonstrando firmeza - sempre com ar seguro, nunca com voz trêmula, jamais diminuídos em nossa dignidade. Engole esse choro!

Se for surpreendido por uma atitude que nunca esperaria do amigo em quem tanto confiava, sentindo-se traído, exposto, aquebrantado, humilhado. 
Você foi iludido e usado, mas não foi ingenuidade sua e sim antiética alheia. 
Distancie-se, o mais longe possível; por mais que doa ter que tirar de nossas vidas alguém de quem tanto gostávamos, é necessário fazê-lo, sem hesitação, sem titubear - sofrer, só se bem longe dele. Engole esse choro!

Escutando o que jamais esperava dos filhos, decepcionando-se com as atitudes e comportamento deles, percebendo que não parecem se sentir bem perto de você. 
No calor das emoções, eles dizem que nos odeiam, que somos os piores pais do mundo. Irão, em certo momento, se envergonhar de nós na frente dos amigos, irão querer que não apareçamos em seus quartos e não compartilharão nada de suas vidas conosco. 
Tudo isso passará e retornarão ao nosso abraço que tanto os conforta, desde pequeninos. Porque já fomos e sempre seremos seu porto-seguro, o alento revigorante quando precisarem - não esmoreçamos. Engole esse choro!

Enquanto segura as mãos de quem ama e está doente, sofrendo dores, passando por tempestades da alma, enfrentando algum revés aparentemente sem solução. 
Quem sofre quer nada mais do que alguém que o entenda e mantenha-se forte, porque as próprias forças esvaíram-se e a segurança alheia então é tudo a que se pode agarrar, para não ruir definitivamente por dentro. 
Mantenhamos as mãos firmes, as palavras serenas e os olhos secos, mas cheios de esperança. Engole esse choro!

No momento em que se despede do filho que vai procurar o seu próprio lugar no mundo. É preciso deixá-los ir, aconselhando-os a não olhar para trás, a não titubear. 
Todo mundo merece se encontrar a seu jeito, experimentando novos lugares, novas companhias, novos amores. É preciso ajudar a fazer as as malas e a abrir as perspectivas de vida dos filhos, incentivando-os ao descobrimento de si mesmos, não importa se do outro lado do globo. 
Temos que acenar firmes e altivos durante a despedida, pois é disso que eles precisarão enquanto se desprendem da zona de conforto tão nociva ao aprimorar-se contínuo a que todos temos direito. Engole esse choro!


Ao contrário do que possa parecer, não se trata, aqui, de se tornar insensível, de endurecer o coração, tampouco de abafar ou enganar os próprios sentimentos. 
Somos sujeitos a momentos de tristeza e escuridão, em que as lágrimas são sempre bem vindas. 
No entanto, poucos merecem partilhá-las e nos verem perdidos em nossas fraquezas, pois em nada ajudarão, nem ao menos tentarão nos estender as mãos. 
Ninguém merece desnudar-se física e emocionalmente em frente a quem não se entregará de volta verdadeiramente. 
Ninguém haverá de ser menosprezado enquanto junta seus cacos emocionais. 
Da mesma forma, ninguém haverá de receber lágrimas quando estiver pedindo força e motivação. Portanto, tranque as portas e feche as janelas antes de chorar.

Sempre será necessário cair ao chão de nossas tristezas e fracassos, gritar a revolta da incompreensão e maldade alheias, encarar as colheitas de nossas escolhas equivocadas, atravessar a escuridão da saudade por quem não mais voltará. 
Mas é preciso que quem esteja ao nosso lado, nesses momentos, mostre-se sinceramente disposto a nos resgatar de volta com vida e fortalecidos. 
Alguém que conhece e tem certeza de que somos muito mais do que pensamos ser, que venha correndo quando precisarmos e não saia de nosso lado enquanto não secarem nossas lágrimas. 
São poucos os que merecem assistir ao nosso pranto, sem fazer mau uso disso tudo.

Ademais, no fim da vida, muito provavelmente estaremos contando somente com nós mesmos e então saberemos lidar com nossas dores sem precisar de ninguém mais. 
Enfim, lembremos sempre aquele conselho ouvido em nossa infância, porque, em certos lugares e diante de certas pessoas, ou engolimos o choro, ou o mundo nos engole.

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sábado, 1 de agosto de 2015

Pensamento e solidão... - Bruna Cosenza em OBVIOUS

Por que pensar te torna um ser mais solitário
Bruna Cosenza - em "Obvious - literatura"

“Quando Nietzsche Chorou”, obra de Irvin D. Yalom, traz grandes nomes da história como Josef Breuer, Sigmund Freud e o meu preferido: Friedrich Nietzsche. 
O autor mescla fatos reais e ficção com o intuito de explorar o nascimento da psicanálise por meio de encontros entre Breuer e Nietzsche que nunca aconteceram realmente.

O filósofo alemão sofre de uma crise existencial e depressão suicida que o atormentam profundamente, enquanto Breuer, que tem a missão de ajudá-lo, também está passando por algumas angústias pessoais. 
Dentre todos os temas discutidos ao longo do romance, o que mais me chamou a atenção foram as características de Nietzsche, que o tornam um homem completamente distante e solitário. 
Uma das falas do filósofo ilustra bem como ele se sente: “Às vezes, enxergo tão profundamente a vida que, de repente, olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo.”

Por ser tão fechado, Nietzsche não podia saber que estava sendo tratado por Breuer, pois a ideia de ter alguém invadindo sua intimidade o assusta completamente. 
A transformação ao longo das sessões é que Breuer lentamente se torna o paciente quando Nietzsche começa a ajudá-lo em relação aos seus tormentos e fantasias sexuais com uma mulher que não é a sua esposa. 
Posteriormente, o filósofo começa a confiar no psicanalista a ponto de se abrir como nunca havia feito antes.

O interessante é a forma como Nietzsche lida com a vida. 
Completamente fechado e sem conseguir estabelecer fortes laços devido a um trauma com uma mulher no passado, é um homem totalmente sozinho. 
E um questionamento que logo me veio foi: por que pessoas pensantes e reflexivas como ele costumam ser tão solitárias?

Normalmente, quem vive numa espécie de superfície tem mais facilidade de interagir com o mundo, pois seus dramas não tem a mesma magnitude daqueles vivenciados por um Nietzsche. 
E não entenda viver na superfície como uma crítica, pois é apenas uma das milhares de formas que o homem encontra para enfrentar sua jornada. 
Existem diferentes graus de se encarar a vida. Alguns mascaram as obscuridades justamente pelo medo que tem de enfrentar a dor. Outros, no entanto, transitam pela vida sem se darem conta da sua enorme teia de complexidades.

Entender e aceitar todas as dores da existência dá muito trabalho. 
Pensar resulta em incertezas, falta de respostas e, consequentemente, em angústias. 
Quem sofre com tudo isso é a psique, que de tão atormentada, pode posteriormente afetar o comportamento e a personalidade. 
Nietzsche diz enxergar a vida de forma tão profunda que se sente completamente sozinho. 
Com quem ele discutiria suas questões provenientes de uma visão tão reflexiva sobre a vida? 
Quem não tem esse mesmo nível de profundidade também não tem capacidade de viver com pessoas como Nietzsche.

Josef Breuer é contaminado por tantas reflexões de Nietzsche que em determinado ponto do romance não identifica mais nenhum sentido para sua vida. 
“Aquele rapaz agora envelhecido atingiu o ponto da vida em que não consegue mais ver seu sentido. Sua razão de viver – minha razão, minhas metas, as recompensas que me impeliram pela vida - se afigura absurda agora, quando medito em como busquei besteiras, em como desperdicei a única vida que possuo, um sentimento terrível de desespero me domina”, relata o psicanalista. 

Chegar nesse extremo é realmente desesperador, podendo resultar em crises e depressões profundas como as vivenciadas por Nietzsche.

Tendo em vista pessoas pensantes como Nietzsche, é possível fazer uma relação com a sociedade pós-moderna, permeada por indivíduos que têm extrema dificuldade de ficarem completamente sozinhos. 
Hoje, com o avanço tecnológico, as pessoas têm o costume de estarem 24 horas por dia conectadas e em momentos em que seria essencial a solidão para reflexão, rapidamente recorrem a um aparato tecnológico, uma mensagem a um amigo ou uma foto que consiga likes o suficiente com o objetivo de suprir essa carência e mal-estar. 
Estar realmente sozinho chega a ser uma raridade de poucos atualmente.

Essas pessoas que dificilmente possuem um momento de reflexão solitário, diferente dos Nietzsches, parecem ser mais leves, despreocupadas e até mais felizes - talvez por mascararem suas angústias ou simplesmente por nunca terem se deparado com elas. 
Refletir sempre vai resultar em dor e descontentamento. 
Quem pensa, se dá conta de que muita coisa na vida não tem sentido nenhum e pensar mais e mais pode só aumentar a agonia. 
É por esse motivo que os Nietzsches que andam por aí muitas vezes são vistos como pessoas amarguradas e estranhas. 
Na verdade, encarar as verdades da vida torna esses indivíduos mais críticos, pois continuam numa busca incessante por respostas que podem nunca alcançar. 
Dessa forma, se isolam da maioria por se sentirem completamente incompreendidos e desencaixados num mundo onde parece que ninguém os acompanha.

O equilíbrio é essencial. Ser um Nietzsche constantemente pode gerar muito sofrimento – como pode ser percebido no romance –, mas ser incapaz de ter um momento solo é um erro muito comum hoje em dia e que passa despercebido.

Você que está lendo isso, quando foi a última vez que se sentiu um Nietzsche? Um peixe fora d’água? 
Quando foi a última vez que passou um dia inteiro realmente sozinho? Sem recorrer a ninguém além de si mesmo quando bateu uma agonia, uma dificuldade ou simplesmente uma tristeza...

O mundo pós-moderno está carente de verdadeiras pessoas pensantes, que saem da caixa sem medo de explorarem as profundezas mais escuras desse oceano que é a vida.

Sofrer dignifica, faz crescer... Mas sofrer em excesso leva ao desespero, à dor incontrolável. 
Portanto, pensar é preciso, mas ponderar os pensamentos é obrigatório.

Quem pensa de mais, vive de menos. E por mais que eu admire os Nietzsches que ainda existem por aí - solitários e reflexivos -, tenho certeza de que quem trilha este caminho tem uma árdua tarefa que pode resultar na mesma conclusão de Nietzsche: “Penso que sou o homem mais solitário do mundo.”


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