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domingo, 3 de novembro de 2013

HILDA HILST - Cantares do sem-nome...

Cantares do Sem-nome e de Partidas 
Hilda Hilst


I
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
e do tormento
de só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
de um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
e farta de fadigas. E de fragilidades tantas
eu me faça pequena. E diminuta e tenra
como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

*            *            *

Do livro "Cantares do Sem-nome e de Partidas"  , prêmio Jabuti em 1983.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

HILDA HILST - Sendo quem sou...

Sendo quem sou, em nada me pareço 
Hilda Hilst - (1930 - 2004)

Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
e tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
não seria melhor ser diferente
e ter olhos a mais, visíveis, úmidos
ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.

As paisagens em ti se multiplicam
e o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
e o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
e exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

*            *            *

In: "Exercícios" - Organização Alcir Pécora

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

HILDA HILST - Aquele fino traço de colina...


Aquele fino traço de colina
quero trancar na cancela
da alma. Alimento e medida
para as muitas vidas do depois.

Curva de um devaneio inantigido,
um todo estendido adolescente.
Aquele fino traço da colina
há de viver na paisagem da mente
como a distância habita em certos pássaros
como o poeta habita nas ardências.

*            *            *

Hilda Hilst em 'Poesia reunida', p.37

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

HILDA HILST - A fome do primeiro grito

A fome do primeiro grito
Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

*            *            *
In:  "Júbilo, memória, noviciado da paixão". São Paulo: Globo. 2003, P.17 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

HILDA HILST - Pássaro-Poesia


PÁSSARO-POESIA
Hilda Hilst

Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.

*            *            *