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sábado, 29 de julho de 2017

Amor à primeira vista - Wislawa Szymborska

Amor à primeira vista
Wislawa Szymborska (Polônia 1923-2012)

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Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram –
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?
- mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.

*            *            *


terça-feira, 4 de abril de 2017

Possibilidades - Wislawa Szymborska

POSSIBILIDADES
Wislawa Szymborska

Arte: ANJANA ILYER

Prefiro cinema. 
Prefiro os gatos. 
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta. 
Prefiro Dickens a Dostoievski. 
Prefiro-me gostando dos homens em vez de estar amando a humanidade. 
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha. 
Prefiro a cor verde. 
Prefiro não afirmar que a razão é culpada de tudo. 
Prefiro as exceções. 
Prefiro sair mais cedo. 
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa. 
Prefiro as velhas ilustrações listradas. 
Prefiro o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não os escrever. 
No amor prefiro os aniversários não redondos para serem comemorados cada dia. 
Prefiro os moralistas, que não me prometem nada. 
Prefiro a bondade esperta à bondade ingênua demais. 
Prefiro a terra à paisana. 
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores. 
Prefiro ter objeções. 
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem. 
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais. 
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas. 
Prefiro os cães com o rabo não cortado. 
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros. 
Prefiro as gavetas. 
Prefiro muitas coisas que aqui não disse, a outras tantas não mencionadas aqui. 
Prefiro os zeros à solta a tê-los numa fila junto ao algarismo. 
Prefiro o tempo dos insetos ao tempo das estrelas. 
Prefiro isolar. 
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando. 
Prefiro levar em consideração até a possibilidade do ser ter a sua razão.

*            *            *

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Preferências - Wislawa Szymborska

(Preferências)
Wislawa Szymborska - Poetisa polonesa, Prêmio Nobel Literatura 1996

Arte: Andre.Kohn

Prefiro cinema.
Prefiro gatos.
Prefiro-me a gostar dos homens
em vez de amar a humanidade.

Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.

Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados a cada dia.

Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países consquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro os contos de fada dos Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.

Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do Ser Ter a sua razão.

*            *            *

quarta-feira, 4 de junho de 2014

WISLAWA SZYMBORSKA - Monica Mortone

De "Obvious Magazine"

Szymborska: a prova de que as mulheres 
não escrevem somente sobre o amor
Monica Mortone

Um livro sem páginas dobradas e passagens grifadas é o mesmo que uma casa sem janelas. 
Quando grifo um parágrafo tenho a sensação de que estou me debruçando sobre uma paisagem na qual devo retornar para que meus olhos possam tragar o que escapou. E no final das contas o que fica é sempre o que escapa.
Da poesia de Wislawa Szymborska muitas coisas me escaparam, inclusive a resposta para a pergunta: por que demorei tanto tempo para ler um livro seu?
A primeira vez que ouvi falar da escritora polonesa foi num recital de poesias no Rio de Janeiro.

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Wislawa Szymborska
Lembro-me que fiquei encantada com a precisão de Szymborska para dizer as coisas e que cheguei a anotar seu nome para procurar o livro depois. Não procurei.

Mas a literatura, especialmente a poesia, tem dessas coisas: sempre nos acha. 
Costumo dizer que não escolhemos os autores que lemos, eles é que por algum milagre chegam às nossas mãos e nos escolhem. 

Quem nunca comprou um livro pelo título, pela capa, ou por conta do que leu na quarta capa e acabou se apaixonando pelo autor - até então desconhecido - a ponto de buscar ler toda a sua obra depois?
Assim como acontece na vida, as paixões literárias geralmente acontecem quando estamos distraídos.

Um poema, dois poemas, três poemas, dezenove poemas com as páginas dobradas. Inúmeros versos grifados. Foi assim, me debruçando sobre as paisagens de Wislawa Szymborska que entendi que estava completamente apaixonada por sua poesia e dicção.

Há quem diga que as poetisas são demasiado passionais e por isso privilegiam o amor, o desamparo e o desejo carnal na hora de escrever versos. 
Pois a polonesa Szymborska está aí para desfazer esse mito. 
Ela escreve sobre a assombrosa experiência de existir sem saber como o fazer e sobre a estranha condição humana.

Alguns de seus poemas são pequenos tratados filosóficos:
“Non omnis moriar – uma aflição prematura. Mas será que vivo por inteiro e será que isso me basta? Nunca bastou e muito menos agora. Escolho excluindo porque não há outro jeito, mas o que rejeito é mais numeroso, mais denso, mais insistente do que nunca. À custa de incontáveis perdas - um poeminha”...

No livro "A anatomia da influência, literatura como modo de vida", o crítico literário Harold Bloom diz que a poesia, entre outras coisas, é aquilo que “comunica o que não pode ser transmitido discursivamente” e que “o-poeta-em-um-poeta seculariza o sagrado”.
Pois bem, a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 1996 parece alinhada com o pensamento de Bloom. 
Em seu poema Utopia, por exemplo, escreveu:
"Não há estradas senão as de chegada. Os arbustos até pesam sob o peso das respostas"... Szymborska fala sobre a estranheza, sobretudo a estranheza de não saber.
Lembrando que  "a estranheza, na verdade, desperta deslumbramento quando não entendemos: imaginação estética quando entendemos" (Harold Bloom).
Assim, também, chegam seus poemas ao leitor: com um misto de deslumbramento e imaginação estética.

Traduzida para o inglês e o italiano, os livros da escritora polonesa fazem muito sucesso em seu país de origem - em apenas uma semana, foram vendidos 10 mil exemplares de Wielka liczba (Grande Número); em 2005, o público devorou as 50 mil cópias da antologia Dwukropek (Dois Pontos).
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A poetisa só chegou ao Brasil em 2011, quando a Companhia das Letras publicou Poemas, reunindo 44 textos traduzidos por Regina Przybycien.
No ano seguinte, Szymborska, que fumava em demasia, faleceria de câncer no pulmão.

Em tom coloquial, escritos em primeira pessoa, seus poemas dizem muito mais respeito ao nosso “desentendimento humano” do que os poetas herméticos podem sonhar ( ou alcançar).

Sem mais, um poema de Wislawa Szymborska:

Sob uma estrela pequenina


Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.

Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.

Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

*            *            *

domingo, 16 de março de 2014

WISLAWA SZYMBORSKA - Cem Pessoas


(Em cada cem pessoas)

Aquelas que sempre sabem mais:
cinquenta e duas.

Inseguras de cada passo:
quase todo o resto.

Prontas a ajudar,
desde que não demore muito:
quarenta e nove.

Sempre boas,
porque não podem ser de outra maneira:
quatro — bem, talvez cinco.

Capazes de admirar sem invejar:
dezoito.

Levadas ao erro
pela juventude (que passa):
sessenta, mais ou menos.

Aquelas com quem é bom não se meter:
quarenta e quatro.

Vivem com medo constante
de alguma coisa ou alguém:
setenta e sete.

Capazes de felicidade:
vinte e alguns, no máximo.

Inofensivos sozinhos,
selvagens em multidões:
mais da metade, por certo.

Cruéis,
quando forçados pelas circunstâncias:
é melhor não saber
nem aproximadamente.

Peritos em prever:
não muitos mais
que os peritos em adivinhar.

Tiram da vida nada além de coisas:
trinta
(mas eu gostaria de estar errada).

Dobradas de dor,
sem uma lanterna na escuridão:
oitenta e três,
mais cedo ou mais tarde.

Aqueles que são justos:
uns trinta e cinco.

Mas se for difícil de entender:
três.

Dignos de simpatia:
noventa e nove.

Mortais:
cem em cem –
um número que não tem variado.

*            *            *

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

WISLAWA SZYMBORSKA - Sob uma estrela...

Sob uma estrela pequenina
Wislawa Szymborska - 
Poeta polonesa, Prêmio Nobel Literatura 1996


Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.

Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.

Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.

Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

*        *        *

quinta-feira, 30 de maio de 2013

WISLAWA SZYMBORSKA - dois poemas

Torturas
Wislawa Szimborska

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo sangue,
tem uma boa reserva de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo,
as torturas são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parece ser na porta ao lado.

Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo escala e registro sempiternos.

Nada mudou.
Exceto talvez os modos, as cerimônias, as danças.
O gesto da mão protegendo o rosto,
esse permaneceu o mesmo.
O corpo se enrosca, se debate, se contorce,
cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas,
fica roxo, incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Além do curso dos rios,
do contorno das costas, matas, desertos e geleiras.
Entre essas paisagens a pequena alma passeia,
estranha a si própria, inatingível,
ora certa, ora incerta da sua existência,
enquanto o corpo é, é, é
e não tem para onde ir.”
**

As três palavras mais estranhas
Wislawa Szimborska

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

*            *            *


Do livro Poemas, tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras.

terça-feira, 5 de março de 2013

WISLAWA SZYMBORSKA - Agradecimento


Agradecimento
Wislawa Szymborska Kórnik, escritora polonesa
Kórnik, 2 de Julho de 1923 — Cracóvia, 1 de fevereiro de 2012


Devo muito
aos que não amo.

O alívio de aceitar
que sejam mais próximos de outrem.

A alegria de não ser eu
o lobo de suas ovelhas.

A paz que tenho com eles
e a liberdade com eles,
isso o amor não pode dar
nem consegue tirar

Não espero por eles
andando da janela à porta

Paciente
quase como um relógio de sol,
entendo o que o amor não entende,
perdoo
o que o amor nunca perdoaria

Do encontro à carta
não se passa uma eternidade,
mas apenas alguns dias ou semanas.

 As viagens com eles são sempre um sucesso,
os concertos assistidos,
as catedrais visitadas,
as paisagens claras.

E quando nos separam
sete colinas e rios
são colinas e rios
bem conhecidos dos mapas.

 É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica,
comum horizonte real porque móvel.

Eles próprios não veem
quanto carregam nas mãos vazias.

 “Não lhes devo nada” –
diria o amor
sobre essa questão aberta.

*            *            * 

In: Poemas, ed. Companhia das Letras.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

WISLAWA SZYMBORSKA - Retornos


Retornos
Wislawa Szymborska
Poetisa polonesa, Nobel de Literatura em 1996


Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.

Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.

Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.

*          *          *