Mostrando postagens com marcador Machado de Assis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Machado de Assis. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sobre 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'


BRÁS CUBAS: O ETERNO HERÓI BRASILEIRO 
NUNCA FOI TÃO ATUAL
Julian Barg -  em  'Obvious - literatura'


Brás Cubas, motivo de orgulho na literatura, de vergonha no caráter do brasileiro


Machado de Assis

Seria o personagem mais emblemático da literatura brasileira mais um caso daqueles em que amamos um herói cheio de defeitos, dentre eles o de ser consciente de todas as suas falhas de caráter, fraquezas humanas e ainda por cima, que faz chacota delas para que possamos conhecê-lo melhor? 

Brás Cubas, narrador morto de um romance póstumo, só por isso já seria um inovador no campo literário do fim do século XIX. 
A questão se torna ainda mais complexa se formos analisar e verificar que o tempo “presente” da narrativa é a pós-vida do narrador, que de forma inexplicável escreve um romance mesmo morto e transforma o nosso agora no seu depois.

Vejamos: a narrativa está no tempo presente, mas esse presente já passou, pois o livro (que Brás Cubas deixa claro ser uma obra escrita por ele para nós) já terminou de ser escrito, então é, ao mesmo tempo, passado. E é passado pela segunda vez ao ser o romance sobre a vida que ele viveu antes de morrer (óbvio? Não, afinal ele também vive (ou viveu) uma vida depois de morto, que foi quando nos escreveu o romance).

O prefácio já nos prepara para o que vem pela frente ao revelar, em uma página, a personalidade do personagem que nos conta sua vida. E a pergunta que se pode fazer (e seria uma pergunta muito comum muito tempo depois na literatura) é se de fato podemos acreditar nesse narrador. 
Sim, porque suas intenções ao revelar detalhes de sua vida e pensamento não são claras. 
Ao mesmo tempo em que ficamos sabendo de seus amores, percebemos que as bases de seus sentimentos são questionáveis e muito rapidamente a direção de sua vida se modifica. 
Mesmo quando Brás Cubas nos confessa um profundo pesar por algo, não tarda mais de algumas linhas para que, com uma boa dose de sarcasmo, a vida real seja reconsiderada, colocando em dúvida sua sinceridade.

Seu modo de lidar com o pai, com Marcela, com os amigos, com tudo que o cerca é sempre duvidoso. Ao mesmo tempo, sua sinceridade é gritante, como, por exemplo, quando deixa claro que não tem um mínimo de pesar por Quincas Borba, e inclusive lhe tem nojo e desdém.

Essa sinceridade sobre sua falsidade é o que pode confundir o leitor. Afinal, se Brás Cubas não tem vergonha de sua falta de caráter, por que mentiria sobre seus bons sentimentos? Qual é a verdade? Se o personagem é mentiroso, podemos partir do princípio que tudo pode ser mentira, e, lembrando que o romance foi escrito para o leitor, e que a narrativa não passa de um livro (o que Cubas sempre nos relembra, colocando-nos no papel de leitores e não de testemunhas de sua vida), bem... 
Então toda a arquitetura do livro de Machado de Assis se torna uma construção da qual não podemos nos esquecer.

O que estamos lendo não é apenas a vida de Brás Cubas, é um livro escrito por Brás Cubas sobre sua vida. É a sua autobiografia, é só o que ele quer que saibamos. E toda a chacota e o sarcasmo empregados por ele são parte de seu plano para escrever um livro (quantas vezes ele se dirige ao leitor, e só por chamá-lo assim já se isenta da responsabilidade de ser “real”?). 
Inúmeros capítulos são dedicados exclusivamente a falar sobre o próprio livro. E se temos um livro que fala sobre si mesmo, então temos metaliteratura. 
A tendência que o leitor normalmente tem é a de prestar atenção na história, querer saber o que houve, como, quando por quê. 
Aqui, a verdadeira história está escondida: é um morto escrevendo um livro.

O ritmo da escrita permanece semelhante e em um tom sem grandes reviravoltas até o fim. 
Mas podemos nos perguntar de que vale a vida de Brás Cubas, quando ele mesmo parece não dar valor a sua vida. 
A frase final da obra define o espírito do herói brasileiro. Um herói que nem ao menos a si mesmo admira e que confessa que sua vida é miserável, incluindo na afirmação uma miséria geral, coletiva e que faz parte de um povo e uma cultura que, mais de um século depois, continua a se reconhecer em seus defeitos e falta de caráter.

A atemporalidade, neste caso, nem sempre é benéfica.


*            *            *



quarta-feira, 18 de março de 2015

Machado e a loucura - Adlla Rijo em 'Obvious'


A genialidade de Machado de Assis na abordagem sobre a loucura
Adlla Rijo - 'Obvious Literatura'


Um dos contos de feitura mais admirável de Machado de Assis, O alienista é uma sátira magistral acerca da inviabilidade de se definir a esfera da loucura, sob pena de incorrer numa generalização abominável. 
Afinal, como diz o ditado popular: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”.

A estória se passa na vila de Itaguaí, onde um médico, o Dr. Simão Bacamarte, obcecado por detectar enfermidades psíquicas, passa a recolher os supostos enfermos num asilo por ele criado, a chamada “Casa Verde”, com o propósito de tratá-los, assim como de desenvolver suas teorias científicas. 
Já desde o início de sua obra-prima, Machado dá dicas da insolência da missão abraçada pelo personagem. 
Não é à toa que o apresenta, na primeira página, como o “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas". 
A ironia machadiana resplandece fosforescente nesse texto.

No decorrer da narrativa, é apresentado ao leitor um fato inusitado: “[…] quatro quintos da população da vila estavam aposentados naquele estabelecimento […]”, ou seja, na Casa Verde. E disso decorre o mais curioso, que é a conclusão do Dr. Bacamarte: “[…] que desse exame e do fato estatístico resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; […]”. 

Com isso, o protagonista resolve dar liberdade aos reclusos da Casa Verde, que já representavam a esmagadora maioria da população local, e agasalhar nela as pessoas que se achassem na condição acima exposta, qual seja: equilíbrio ininterrupto das faculdades mentais.

Tendo em vista que a anomalia é tida como exceção e não como regra, o excêntrico personagem de Machado deduz que a loucura seria, então, o oposto daquilo que a maioria vem manifestando, ainda que o comportamento dessa maioria tenha sido, outrora, para ele, o indicativo de desajuste.

Salta aos olhos, também no conto, o perigo de se atribuir a um único homem um poder dessa natureza: o de classificar indivíduos segundo o seu critério e tolher a liberdade das pessoas, mesmo que em nome da ciência.

Secionar a humanidade em categorias, seja qual for o objetivo, é algo no mínimo temerário e pode levar, em casos extremos, a situações dramáticas como o holocausto. Os seres humanos tem suas particularidades e cada indivíduo é um mundo.

Não há como deixar escapar a intenção do autor de criticar de maneira sarcástica a psicologia sanitarista que dominava a época, bem como a postura pretensiosa de alguns no sentido de considerar que encontraram a chave para as mazelas da humanidade; como se tal chave existisse!

Convém notar que Simão Bacamarte não era um homem desprezível. Ao contrário; desfrutava de intensa credibilidade junto aos cidadãos da vila e à própria Câmara de Vereadores, e suas intenções foram expostas como sendo as melhores. 
Tanto é assim que na narrativa ele enclausura na Casa Verde a mulher que ama, sua própria esposa, D. Evarista da Costa e Mascarenhas, ao constatar a sua suposta patologia.

Nenhum desvio se subtraía aos olhos daquele homem que, paradoxalmente, acaba se apresentando, na trama, como o mais anormal de todos. 
Afinal, como fica evidente no texto de Machado, a totalidade dos hóspedes da Casa Verde conseguira, senão obter a cura, retornar às suas vidas fora desse estabelecimento, exceto Simão Bacamarte. 
É que, achando em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral, decide fechar-se na Casa Verde, apesar dos apelos contrários da mulher e dos amigos, entregando-se ao estudo e à cura de si mesmo até sua morte, que não teria tardado, segundo se depreende da narrativa.

Aliás, cabem aqui parênteses para reforçar o quanto uma obra está intrincada com as vivências de seu autor. 
Em seu livro Machado de Assis - Um gênio brasileiro, Daniel Piza destaca: “[….] Ele enfrentou muitos preconceitos de sua época: o preconceito racial, como um mulato escuro que viveu 49 dos 69 anos num Brasil escravocrata; o preconceito social, como um epiléptico de origem muito pobre que tinha grandes ambições literárias; e o preconceito intelectual, como escritor que adotou linguagem concisa e cristalina, rejeitou o otimismo e a religião e jamais aderiu a modas estéticas.”
E acrescenta, referindo-se à epilepsia de que era portador o nosso gênio: “[…] 
Depois da morte da amada, ressurgiu sem dó o mal que, para muitos, naqueles tempos, era sinal de insanidade.”

Com sua genialidade, Machado nos apresenta uma forma brilhante de fazer o grande público enxergar o risco na atitude indesejada de rotular pessoas, de secionar populações, de superestimar indivíduos e teorias, sejam elas filosóficas, religiosas ou científicas; e por fim, de “nunca sair dos trilhos”.

O ser humano é um misto de alegria e tristeza, de amor e ódio, de inquietude e paz, de loucura e sanidade. Carregamos o bom e o mau dentro de nós. 
Temos, cada qual, um pouco de Deus e do diabo em nossas entranhas. 
Negar isso significa negar a nossa própria essência, o que resulta não só em tolice, mas na maior e mais destrutiva loucura; que o diga Simão Bacamarte!


*            *            *

sábado, 21 de junho de 2014

MACHADO DE ASSIS - Manhã de Inverno

Manhã de Inverno
Machado de Assis

Coroada de névoas, surge a aurora 
Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trêmulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena.

*        *        * 

Do livro:  'Falenas'

sexta-feira, 9 de maio de 2014

MACHADO DE ASSIS - Carta a Carolina


"Diz a Madame de Stael que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. 
Assim é comigo; mas, além dessa, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como o teu são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa, razão tão recta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias (…). Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir, e pensar. 
Como te não amaria eu? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É minha ambição dizer à tua grande alma desanimada: «levanta-te, crê e ama: aqui está uma alma que te compreende e te ama também».

A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, e estou certo que saberei desempenhar este agradável encargo. 
Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz?

Obrigado pela flor que mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. 
Sábado é o dia da minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco. 

(…) Depois… depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. 
Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti."

Machado de Assis, em  Carta a Carolina de Novais (1869).

 *            *            *

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

EDUARDO GALEANO e Machado de Assis

Galeano, a respeito de Machado de Assis

"1897 / Rio de Janeiro:
Ele é o grande romancista latino-americano desse século. Seus livros tiram as máscaras, com amor e humor, da alta sociedade de desocupados que ele, filho de pai mulato, conquistou e conhece como ninguém. Machado de Assis arranca a decoração de papel, falsas molduras de falsas janelas com paisagens da Europa, e pisca o olho para o leitor enquanto despe a parede de barro."

De Eduardo Galeano em "Memória do Fogo", trilogia que acaba de ser publicada na Série Ouro L&PM: http://bit.ly/17JXO1E

"1897 / Rio de Janeiro:

Ele  é o grande romancista latino-americano desse século. 
Seus livros tiram as máscaras, com amor e humor, da alta sociedade de desocupados que ele, filho de pai mulato, conquistou e conhece como ninguém. 
Machado de Assis arranca a decoração de papel, falsas molduras de falsas janelas com paisagens da Europa, e pisca o olho para o leitor enquanto despe a parede de barro."

Eduardo Galeano em "Memória do Fogo".


*            *            *



Início do romance "Ressurreição" 
Machado de Assis

“Naquele dia, — já lá vão dez anos! — o Dr. Félix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol.

O dia estava esplêndido; uma fresca bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se destacavam no azul do céu. Chilreavam na chácara vizinha à casa do doutor algumas aves afeitas à vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer uma chácara nas Laranjeiras.

Parecia que toda a natureza colaborava na inauguração do ano.

Aqueles para quem a idade já desfez o viço dos primeiros tempos, não se terão esquecido do fervor com que esse dia é saudado na meninice e na adolescência. Tudo nos parece melhor e mais belo, — fruto da nossa ilusão, — e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte”.

*           *            *

"Ressurreição"- primeiro romance de Machado de Assis, publicado em 1872.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DALTON TREVISAN e MACHADO

Carta de Dalton Trevisan à Academia Brasileira de Letras


Curitiba, 15 de junho de 2012
À Academia Brasileira de Letras,
Rio de Janeiro


Prezado Senhor Geraldo Holanda Cavalcanti, Presidente em exercício:

As honrarias é de bom uso que se agradeçam. Entre as maiores essa da nossa Academia de Letras – guarda zelosa da língua e das tradições literárias –, o dileto Prêmio Machado de Assis.

Ele nos iniciou, o grande bruxo, no prazer secreto da leitura – uma jornada não a virgens terras ou mares, ainda mais longe, aos confins do coração humano. E nos introduziu a que doces criaturas, desde então da nossa particular estima.

Primeiro – grande lascivo! – as mulheres. Capitu, enganosa, calculista, perversa (os braços… nus no baile… os mais belos… Os braços merecem um período), que traiu o ingênuo Bentinho e afogou nos seus lindos olhos de ressaca o incauto Escobar.

Sofia, essa (os braços… oh! os braços! Que benfeitos!), do busto emergindo das cadeiras amplas como uma grande braçada de folhas sai de dentro de um vaso, endoidou de vez o pobre Rubião com suas barbas e bigodes longos, perdido no vago o olhar cismático – a viver do que podia ter sido.

Virgília, a florida Virgília dos opulentos e magníficos braços nus… Eia, essa forte obsessão de braços – a oportunidade única de fartar os olhos quando as musas desciam o vestido para cobrir os sapatos!

Mais as figuras inesquecíveis dos contos. Na Missa do Galo, a boa Conceição de roupão branco, grandes olhos espertos, metade dos braços à vista e bastou ao moço entrever-lhe, a furto, o bico das chinelinhas para que a sua imagem durante a missa pairasse entre ele e o padre.

O Pestana, de Um Homem Célebre, o autor insatisfeito de polcas da moda, tocadas nos bailes e assobiadas nas ruas, mas que ansiava por sinfonias clássicas e expirou bem com os homens e mal consigo mesmo. Uma sábia lição para nós outros: se não compomos sonatas, bem nos contentemos com polcas ligeiras.

Uns Braços, esse famoso par de braços nus, belos e cheios de d. Severina, cuja visão faz o jovem escrevente esquecer de si e de tudo. E, dorminhoco, ai dele, perdeu de vê-la quando, inclinando-se, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.

Tais e tantos personagens, Capitu, Bentinho, Sofia, Rubião, Virgília, Braz Cubas, além dos vários comparsas: o agregado José Dias que, nas horas graves, era gravíssimo; as boas e patuscas viúvas dos saraus; esse homem grave o dr. Vilaça, medido e lento; sem esquecer d. Plácida, que brotou da conjunção de luxúrias vadias e o impávido major, o terrível major Siqueira, que falando chovia a cântaros – todos eles gente viva, vivíssima que, pelo resto da vida, continuamos a frequentar e conversar. Graças ao gênio Machado de Assis.

E mais não escrevo, por não me alongar. Perdoe, caro Senhor, o tremido da letra e o desgrenhado do estilo.

Entrado em anos, ai de mim, os muitos achaques me proíbem de agradecer pessoalmente esse prêmio tão caro ao coração. O que busquei, embora desjeitoso, fazer nestas sentidas palavras.

Com as melhores saudações.

Dalton Trevisan


*                        *                        *

sábado, 30 de junho de 2012

MACHADO POETA


Livros e flores
Machado de Assis

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
em que melhor se leia
a página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
em que melhor se beba
o bálsamo do amor?

*        *        *

Encontrado em: Comunidade "O que você anda lendo" - Facebook


quarta-feira, 27 de junho de 2012

MACHADO DE ASSIS - 173º aniversário de nascimento


Algumas de suas frases lapidares

"A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas, capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo..."

"Não precisa correr tanto, o que é seu às mãos lhe há de vir..."

"A mentira é muita vez tão involuntária como a respiração."

"Mas o tempo, o tempo caleja a sensibilidade."

"Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz."

"(...) Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (...)"

"Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!"

"A gratidão de quem recebe um benefício é bem menor que o prazer daquele de quem o faz."

"As coisas valem pelas idéias que nos sugerem."

"As pessoas valem o que valem para a afeição da gente."

"Lágrimas não são argumentos."

"O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele."

"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar."

"Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar."

"É melhor, muito melhor, contentar-se com a realidade; se ela não é tão brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."

"O acaso... é um Deus e um diabo ao mesmo tempo."

"Eu sinto a nostalgia da imoralidade."

"A moral é uma, os pecados são diferentes."

"A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão."

"A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal."

"Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno."

*            *           *


quarta-feira, 4 de abril de 2012

MACHADO, em "Quincas Borba"


Trechos do romance 'QUINCAS BORBA'


A doutrina de Humanitas:
(...)
"- Não há morte.  O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida porque a supressão de uma é a condição de sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum.
Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.  Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas.  As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundâncias;  mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficentemente e morrem de inanição.  A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação." (...)
"...o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói.  Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."
p. 11
**

Fragmento da Carta de Quincas Borba enviada a Rubião:

"Sou Santo Agostinho; descobri isto anteontem: ouça e cale-se. Tudo coincide em nossas vidas. O santo e eu passamos uma parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos furtamos, ele, em pequeno, umas peras de Cartago, eu, já rapaz, um relógio do meu amigo Brás Cubas.  Nossas mães eram religiosas e castas.  Enfim, ele pensava como eu, que tudo que existe é bom, e assim o demonstra no capítulo XVI, livro VII, das 'Confissões', com a diferença que, para ele, o mal é um desvio da vontade, ilusão própria de um século atrasado, concessão ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira afirmação é verdadeira; todas as coisas são boas, omnia bona, e adeus."
p. 15
**
A personagem 'Sofia":

"Dali foi encostar-se à janela, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as duas rosas vulgares.  Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as cóleras dos outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana.  Quero crer que este costume nasce da brevidade da vida. 'Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno.'  E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar de suas iras?  Eu passo, tu ficas;  mas eu não fiz mais que florir e aromar, servi a donas e donzelas, fui letra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no próprio arbusto, e todas as mãos, e todos os olhos me trataram e me viram com admiração e afeto.  Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu afliges-te! a tua eternidade não vale um só dos meus minutos." (...)
p. 156-157
**

"Quem conhece o solo e o subsolo da vida sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda chuva, são ricos de ideias ou de sentimentos quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra.  A expressão: 'Conversar com os seus botões', parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto.  Os botões operam sincronicamente conosco." (...)
p.157
*          *          *

sábado, 24 de março de 2012

MACHADO DE ASSIS - A importância dos olhos...

Trechos de "Dom Casmurro" em que se evidencia a importância dos olhos na escritura de Machado:

Capítulo XXXII – Olhos de ressaca

"(...)
Tinha me lembrado a definição que José Dias dera deles, 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada'. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim.  Capitu deixou-se fitar e examinar.  Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. (...)"
* *

“ (...)
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca, É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me, tragar-me. “ (...)
* *

Capítulo CXVIII – A mão de Sancha


“(...)
Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra coisa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar pensativo. A noite era clara.


Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. (...) E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto.”
* *
Capítulo CXXIII – Olhos de ressaca

“Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...

As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a tinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.”
* *

Capítulo CXXXI – Anterior ao anterior

“ (...)
Capitu, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa, mas, dizendo-lhe eu que, na beleza, os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe, Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afeição da gente (...)”
* *


Capítulo CXLVIII – E bem, e o resto?


“Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. (...)

*            *            *

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

MACHADO DE ASSIS - Memórias póstumas de Brás Cubas

Tela de Renoir
Virgília...
Machado de Assis in: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois?... A mesma; era justamente a senhora que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações.  Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa.  Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance em que o autor  sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não.  Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação.  Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos;  muita preguiça e alguma devoção - devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida;  era aquilo com dezesseis anos.  Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas páginas vierem à luz - tu que me lês, Virgília amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi?  Crê que era tão sincero então como agora;  a morte não me tornou rabugento, nem injusto.
- Mas - dirás tu -, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimí-la, depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona!  Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos.  Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante.  Não;  é uma errata pensante, isso sim.  Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

*               *               *

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

MACHADO DE ASSIS


Verme
Machado de Assis

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.

*        *        *

domingo, 22 de maio de 2011

DESCOBERTAS...

Agradavelmente surpresa, assim fiquei ao me deparar com "Gazeta de Holanda", parte da obra de Machado de Assis que eu desconhecia. São Crônicas em Versos, retratando, evidentemente, os acontecimentos interessantes ou engraçados de seu tempo.
É de conhecimento público - e põe conhecimento nisso - que adoro um "xiste", como diria Machado. Aliás, esse temperamento me tem causado algum desconforto. Muitos pensam que sou "debochada" - 'que que é isso, companheiro?' - ou "irreverente", para ser mais suave. Que nada! Tento é levar menos a sério algumas coisas que a vida nos apresenta; frequentemente essas coisas tem o seu quê de ridículo, ou risível -  aliás, como quase todas as coisas (que construção péssima! O "como" aí não é verbo, não, faz favor!).
Mas, voltando ao 'achado de Machado', não resisti e transcrevo uma de suas crônicas.

N.° 32 -  18 DE OUTUBRO DE 1887
                     Voilà ce que l'on dit de moi
                     Dans la “Gazette de Hollande”.


Tudo foge; fogem autos,
Fogem onças, foge tudo.
Ó guardas moles e incautos!
Ó corações de veludo!

Uma onça, que vivia
Em casa de uma senhora,
Viu aberta a porta um dia
Da gaiola, e foi-se embora.

Na roça? Não; na cidade.
Que cidade? É boa! a tua.
Dou mais esta claridade:
Era na rua... na rua...

Rua da América... Pronto!
Mas, se não leste a notícia,
Cuidarás que é isto um conto,
É talvez conto e malícia.

Não, amigo. Era uma onça,
Tinha aos três anos chegado;
Vivia discreta e sonsa
Em casa, num gradeado.

Vai senão quando, — um descuido —
Deixaram-lhe aberta a porta,
E a onça sentiu um fluido
Que não sente onça já morta.

Sentiu passar-lhe no lombo
O fluido da liberdade,
E, ligeira como um pombo,
Deixou a casa da grade.

Nenhum liberal, que o seja
Como deve, achará livro
De tantos da sua igreja
Que condene este carniv’ro.

Pois se foge o papagaio,
O macaco, a patativa,
Seja outubro, seja maio,
Tenha ou não tenha mãe viva,

Que muito é lá que uma nobre
Onça das brasílias matas,
Logo que possa, recobre
O uso das sua patas?

Lá por viver entre gente
E canapés delicados,
Não acho suficiente
Para condená-la a brados.

Certo é que fugiu. Bem perto,
Duas casas logo abaixo,
Achou como que um deserto,
E resolveu:”Lá me encaixo”.

Era casa em obras. Passa
Todo o sábado e domingo,
Sem comer sombra de caça,
Sem beber de sangue um pingo.

Na segunda-feira, cedo
Sobe ali um operário,
Despido de qualquer medo:
Vai ganhar o seu salário.

Casualmente (bendito
Seja Deus!) o desgraçado
Vê o olhar da onça fito
De dentro de um tabuado.

Foge; muita gente acode
Armada, e com laço e rede,
A ver se apanhá-la pode;
Ela, com fome e com sede,

Fere o pé a um bom valente,
Mas é já laçada, e morre
Á faca da demais gente,
Que ali bravamente corre.

E porque não era grave
A ferida recebida,
Fechou-se com dura chave
A história, e mais a ferida.

E disse alguém, que não erra
Ocasião de uma vasa:
— “Que há mais natural na terra
Que criar onças em casa?

“Quando muito, demos graças
Aos deuses, que esta podia
Matar duas ou três praças,
E toda uma inspetoria.

“Não há onças espanholas?
Não há onças desgraçadas
Estas não rugem nas solas
Das botas acalcanhadas?

“Virá tempo em que não ande
Pessoa que se respeite
Sem uma onça já grande,
Ou, pelo menos, de leite.

“Que toda a senhora fina,
De passeio ou de passagem,
Tenha uma onça menina
Ao lado, na carruagem.

“Que algumas fujam, que trinquem
O pé a qualquer pessoa,
Ou por mal, ou porque brinquem
Pode acontecer, é boa!

“Mas quem já viu neste mundo
Progresso sem sacrifício?
Sangue que corre é fecundo,
E há virtude que foi vício.

“Cavalo que anda direito
Já foi bravio e inquieto,
Onça que morde um sujeito,
Talvez não lhe morda o neto.

“Vamos, pois, encomendemos
Onças, muitas onçazinhas,
E nos quintais as criemos,
Como se criam galinhas”.

In: Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.
------------------------------------
Não é maravilhoso? Pois é... mas do jeito que as coisas caminham em termos de Educação, acredito que todo esse legado de boa escrita e humor fino deixará de ser compreendido pelas gerações futuras, o que é uma pena.

Atualmente, o humor tem que ser explícito - daí o sucesso dos cartoons; precisa ter desenho - pois ainda assim a maioria não entende e até faz cara de desprezo quando quem entende se diverte. Total inversão.
Bom, os tempos mudam, não é? Tá certo, "o novo sempre vem" mas que seja um novo melhor.
* * *

 Agora, vejam a notícia de um caso recente, ocorrido em Mato Grosso do Sul:
 

PROCURA-SE UMA ONÇA - Passados mais de 15 dias, nem mesmo os sofisticados equipamentos usados em operações noturnas foram capazes de localizar o FILHOTE DE ONÇA PINTADA que fugiu do Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres). O comandante da PMA (Polícia Militar Ambiental), major Carlos Sebastião Matoso Braga, revela que os trabalhos não foram paralisados e a busca pela fugitiva, continua. A  PMA conta com a ajuda de 2 binóculos e uma câmera filmadora com sensor de calor, para ajudar na ação noturna. Os técnicos acreditavam que, como o animal tem hábitos noturnos, talvez pudesse ser mais fácil a localização durante a noite, caso ele esteja ainda dentro da mata na área de conservação do Parque do Prosa, no Parque dos Poderes, em Campo Grande. Só para recordar, a oncinha pintada filhote escapou do Cras na manhã do dia 29 de outubro. O espaço é cercado e o fracasso nas buscas não tem explicação. É uma zona habitada e local de práticas desportivas pela população. A polícia afirma que está tudo sob controle mas se esquece que no CRAS estão vivendo mais de 12 onças (pardas e pintadas) adultas. Pergunta-se: E se uma adulta escapar? Resposta: É quase certo que alguém vai virar picadinho para matar a fome do felino. Como diz a propaganda: Rema capitão, rema…

Fonte: buchara.zip.net
----------------------------------------------------------

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

SONETO DE NATAL - M. DE ASSIS


Soneto de Natal

Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

        *            *            *