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sábado, 8 de setembro de 2018

'DIES IRAE' - Clarice Lispector


'DIES IRAE'
Clarice Lispector - no livro "A Descoberta do Mundo'

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. 
E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos semiparalíticos. 
E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. 
E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? 
E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? 
Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.

E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. 
E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. 
E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. 
E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.

Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. 
– Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Teresa que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro-me: era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. 
Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. 
E agora me telefonou para ser franca: que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos têm acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. 
Eu disse que sim, em parte porque também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Teresa, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.

Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim. No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. 
E outro telefonema veio: de uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. É a ira de Deus. 
E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. 
Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. 
Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera.

Teresa, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada. Hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.

*            *            * 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O Ato Gratuito - Clarice Lispector

O Ato Gratuito
Clarice Lispector

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Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquí­ssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar ideias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

Então minha própria sede guiou-me.  Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.” Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.
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O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escuro, tão largo que me seria impossí­vel abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raí­zes pesadas e duras como garras – como é que corria a seiva, essa coisa quase intangí­vel que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raí­zes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom – como um estremecimento apenas perceptí­vel de alma – um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saí­da.

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de aroeira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom. Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva – só para ver o gotejante jardim submerso.

Nota da autora: peço licença para pedir à pessoa que tão bondosamente traduz meus textos em braile para os cegos que não traduza este. Não quero ferir os olhos que não vêem.

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domingo, 28 de janeiro de 2018

Entrevistas do Além - 'Revista Bula'

Marcel Proust entrevista Clarice Lispector
ENTREVISTAS DO ALÉM - 'REVISTA BULA'

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O escritor francês Marcel Proust gostava de jogar uma brincadeira de salão chamada “Confissões”, onde os participantes respondiam perguntas pessoais. Em sua homenagem, hoje o jogo ficou conhecido como “Questionário Proust”.

A Revista Bula, depois de ter adquirido em um concorrido leilão no eBay a Tábua Ouija original do filme “O Exorcista”, entrou em contato sobrenatural com o próprio Marcel Proust, em carne, osso e ectoplasma, que, relembrando seus tempos de jornalista, assinou contrato exclusivo como nosso correspondente do outro lado da vida.

Sempre nas altas rodas aristocráticas e altas esferas celestiais, Marcel Proust entrevista a escritora nascida na Ucrânia naturalizada brasileira Clarice Lispector. Eis o encontro de dois judeus de gênio, que deram novo significado para a expressão “o povo do livro”.
Com vocês, na série Entrevistas do Além, o legitimo Questionário Proust com Clarice Lispector, psicografado em javanês pelo meio médium ligeiro Ademir Luiz.


Marcel Proust — Mademoiselle Lispector, fala francês?
Clarice Lispector — Falo, leio e traduzo francês, embora tenha vivido primeiro em iídiche e depois em português. Você tem um cigarro?

Marcel Proust — Estou tentando parar de fumar.
Clarice Lispector — Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.

Marcel Proust — Mademoiselle tem, eu. Compromete-se a falar tudo nesta entrevista?
Clarice Lispector — Não se conta tudo, porque o tudo é um oco nada.

Marcel Proust — Clarice Lispector é bela ou é fera?
Clarice Lispector — Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente, nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que elogios literários. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.
Marcel Proust — Encontrou-se com Deus?

Clarice Lispector — Não tenho religião, por enquanto. Mas sei que quando eu inventar um Deus, ele não existe. Na verdade, acho que Deus não sabe que existe.

Marcel Proust — E Lúcifer?
Clarice Lispector — Ainda não, mas não tenho medo. Ele que se resguarde de mim. Como eu dizia para a Lygia Fagundes Telles, mulher é que é o diabo.

Marcel Proust — Brasileira ou ucraniana?
Clarice Lispector — Sou pernambucana.

Marcel Proust — Fui muito ligado à minha mãe. O que são para mademoiselle os laços de família? O que é ser mãe?
Clarice Lispector — À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.

Marcel Proust — Muitos consideram sua literatura difícil de ser compreendida. Como responderia a essa crítica?
Clarice Lispector — Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. E não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Marcel Proust — O argentino Jorge Luis Borges afirmou que sua visão de paraíso é uma biblioteca. E a sua?
Clarice Lispector — Prefiro não responder. Minha felicidade é clandestina.

Marcel Proust — E sua visão de inferno?
Clarice Lispector — Somos livres, e este é o inferno.

Marcel Proust — Qual livro levaria para uma ilha deserta?
Clarice Lispector — “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce. Um livro que está sempre perto de meu coração selvagem.

Marcel Proust — Uma obra inesquecível?
Clarice Lispector — “Felicidade”, de Katherine Mansfield. Esse livro sou eu.

Marcel Proust — Mademoiselle, como refugiada e depois esposa de diplomata, passou por várias cidades, como Maceió, Rio de Janeiro, Lisboa, Marrocos, Nápoles entre outras. Viu algumas delas como uma cidade sitiada?
Clarice Lispector — Todas e nenhuma. Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase e por um triz escapo.

Marcel Proust — O que é imoral?
Clarice Lispector — Verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

Marcel Proust — O que é mais importante para um escritor, vocação ou talento?
Clarice Lispector — Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Marcel Proust — O português é mesmo a língua da solidão?
Clarice Lispector — Solidão? O que acontece é que a gente procura o outro para se livrar de si mesmo. Se isso ocorre com gente, talvez ocorra com idiomas.

Marcel Proust — E do que sente saudades?
Clarice Lispector — Sinto saudades de quem não me despedi direito, das coisas que deixei passar, de quem não tive, mas quis muito ter.

Marcel Proust — Por falar nisto, mademoiselle reencontrou-se com Lúcio Cardoso?
Clarice Lispector — Na vida éramos parecidos demais. Não fui em seu velório, nem em seu enterro ou na missa. Havia dentro de mim silêncio demais. Agora, aqui, só digo que conseguimos ser suficientemente diferentes.

Marcel Proust — O que é só para mulheres?
Clarice Lispector — O destino de uma mulher é ser mulher. Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração.

Marcel Proust — Quais seus defeitos?
Clarice Lispector — Tenho tantos defeitos! Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor, às vezes parecem farpas.

Marcel Proust — O que acha de sua estátua, representada ao lado de seu querido cão Ulisses, colocada na praia do Leme na cidade do Rio de Janeiro?
Clarice Lispector — Acho que me colocaram muito longe de Drummond, fixado em Copacabana.

Marcel Proust — O que escrever significa para mademoiselle?
Clarice Lispector — Quanto não escrevo estou morta. Minha liberdade é escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo.

Marcel Proust — O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?
Clarice Lispector — O ovo é a alma da galinha.

Marcel Proust — GH ou K?
Clarice Lispector — Não sei, mas há quem diga que GH esmagou Gregor Samsa.

Marcel Proust — Qual é a hora da estrela?
Clarice Lispector — Durante a noite e na madrugada elas brilham mais forte.

Marcel Proust — Soube que o músico Bob Dylan ganhou o Nobel?
Clarice Lispector — Manuel Bandeira dizia que eu era poeta. O que posso eu dizer de Bob Dylan?

Marcel Proust— Mademoiselle faleceu antes da popularização da internet. Olhando de cima e por cima, o que acha da rede?
Clarice Lispector — Acho que quem me cita precisa ler meus livros inteiros.

Marcel Proust — Leu “Em Busca do Tempo Perdido”?
Clarice Lispector — Sim, para mim foi uma aprendizagem, um livro dos prazeres.


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Quando chorar - Clarice Lispector

Quando chorar
Clarice Lispector

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Há um tipo de choro bom e há outro ruim. 
O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. 
Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. 
É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. 
É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. 
Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. 
Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil.

Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.


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No livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

É preciso estranhar Clarice

Clarice escreve como que em espanto, como se cada palavra surgisse de repente no papel e precisasse ser dita. Mas é precisamente nos não ditos dos seus textos que se insinua a possibilidade de nos fazermos sentir naquilo que realmente nos interessa. É como se uma batalha (ou quem sabe uma dança) fosse travada com a palavra para que dela, através dela, pudesse surgir o que de fato se pretendia anunciar. E o que se pretendia anunciar?



É PRECISO ESTRANHAR CLARICE
Danielle Mezzari -  em "Obvious - magazine"

Quando entrei em contato com a literatura de Clarice entrei em choque. 
Era ainda menina e me perguntava o que era aquilo que lia, tão profundo e suave. Tão direto e indeciso. 
Acho necessário fazer um esforço no sentido contrário da pretensão da pergunta formulada acima. 
Ao invés de nos perguntarmos o que pretendia anunciar Clarice Lispector com seus textos, o que ela queria dizer, deveríamos começar a nos indagar sobre o que nós pretendemos com eles. O que somos capazes de criar a partir do contato com suas obras?
Alguma coisa fica por ser dita. Alguma coisa dita ficou por dizer. 
Clarice não nos dá respostas, não traça caminhos a serem percorridos e não há nenhum sentido já dado em seus textos. Pelo contrário, é quando nos deixamos tocar, ou quando alguma coisa no texto encontra algo em nós que um sentido, ou qualquer outra coisa, é produzido. 
Quero dizer que não há nada pronto em sua obra, apenas para ser contemplado ou encontrado. 
O que há é o vislumbre de uma dor, de uma potência de dor. 
O que há é a possibilidade de produção de sentidos. 
A autora sozinha, seus textos, não transmitem nada. É só no contato com um outro que as palavras ganham corpo, ganham vida. É só através de um outro que um texto pode ter um direcionamento e uma aplicação. Cabe a nós, enquanto leitoras e leitores, a partir do que temos, de nossas experiências, produzir novos caminhos e interpretações.

Acredito na potência do silêncio. Silêncio enquanto condição para a produção de sentidos. 
Eni Orlandi em seu livro “as formas do silêncio” nos diz que este não se refere ao vazio, mas que ele é o indício de uma totalidade significativa. 
O silêncio diz da produção de possibilidades, de conexões, de relações que muitas vezes transgridem, subvertem o efeito esperado por quem escreveu. 
O silêncio faz alusão a uma totalidade que a palavra mobiliza na tentativa de fazer referência e atribuir significado a uma parte desse todo. É, portanto, só na palavra que o silêncio se manifesta, se esconde e cria espaços que a palavra não consegue dizer.

Uma das questões que passaram a me incomodar após o contato com Clarice diz respeito justamente à palavra. 
A palavra é paradoxal desde o seu nascimento. No momento em que designo algo estou ao mesmo tempo a potencializar e a limitar o objeto designado. Potencializo ao lhe atribuir um significado e limito ao negar-lhe o movimento, o deslizamento por entre outros sentidos. 
Parece-me que Clarice enfrenta esse dilema, paradoxo intransponível, e busca criar a não palavra dentro da própria palavra. A palavra que nega a si própria enquanto capacitada de designação, do conhecimento necessário. 
Clarice subverte a própria língua para nela criar uma oscilação, uma linguagem que, se não é outra coisa, também não é mais a mesma.

Deleuze fala sobre a capacidade que a literatura possui de produzir uma minoração na língua, de criar um devir-outro da língua, “uma linha de feiticeira que se escapa do sistema dominante”.
Para fazer isso é preciso um pouco de estranheza. É preciso estranhar o mundo, estranhar a si mesma.

A escritora e professora Noemi Jaffe nos fala um pouco sobre isso. Ela nos explica que o estranho ou o estrangeiro é aquele que é de fora, que não pertence a um determinado lugar e que, por este motivo, olha as coisas com um olhar de espanto, como quem vê algo pela primeira vez. 
Essa “estrangereidade” é marcante na obra de Clarice. No entanto, ela relativiza essa relação fora-dentro. 
É possível ser estrangeira no seu próprio país, na sua própria cidade. É possível ser um estrangeiro de si, em si. 
Clarice estranha o que é dado como óbvio, o que é naturalizado e, portanto, tornado invisível no nosso cotidiano. Esse estranhamento faz com que ela possa olhar a si mesma e ao mundo a partir de perspectivas outras e criar a partir de outros lugares.

É preciso que também nós, enquanto leitoras e leitores, estranhemos Clarice. 
Pode ser que o impacto seja tanto que nos afastemos de imediato frente ao desconhecido de sua obra. No entanto, talvez desse encontro prolifere caminhos e se crie outros sentidos para coisas que já estávamos tão habituadas/os a ver.

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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

INCÓGNITA INSTIGANTE - sobre Clarice Lispector




Incógnita Instigante
Thaís Folgosi- "Obvious - Lounge"

Pelo direito de não se definir: como o conto "O ovo e a galinha" traduz sua autora, Clarice Lispector


Quem é Clarice Lispector? E quem vem primeiro? A Clarice mulher? A Clarice escritora? A estrangeira? A mãe? Ou, porque não uma faceta desconhecida do público? 
Este enigma que é uma das maiores autoras do Brasil (apesar de ter nascido na Ucrânia) defendeu o direito de não se definir ou nomear cada sentimento, objeto, ou qualquer outra coisa de que se trata. Esta carência de sentido encontrada em suas histórias fisga o leitor, que ao ler não compreende, e fica instigado.
Suas obras compreendem as pessoas de modo geral, sendo a escritora que melhor explorou o âmago de suas personagens, que ao viver devaneios e epifanias vivenciam momentos extremos de lucidez. Sem contar que as personagens de Clarice são humanas, isto é, são ambíguas, ao mesmo tempo são uma coisa e o seu oposto. Assim como qualquer indivíduo que é complexo, e não raso e maniqueísta.

Entre tantas histórias que causam estranheza e incômodo, nenhum conto melhor do que "O ovo e a galinha", que parece inassimilável, para ilustrar essa característica de não definir exatamente sobre aquilo que fala. 
A própria Clarice, durante a última entrevista de sua vida, concedida a TV Cultura, em 1977, disse gostar deste conto em especial, por ser um trabalho que continua a ser um mistério para ela.

A escritora inicia o conto divagando livremente sobre um ovo para finalmente adentrar na vida de sua narradora, num diálogo interior profundo e reflexivo.
Ao falar da superfície do ovo, pode-se perceber que o que se conhece de Clarice é mais seu exterior, na figura de escritora, do que seu interior. 
E mesmo das pessoas que estão ao nosso redor diariamente, se formos pensar sabemos pouco, de nós mesmos, e de nosso colega de trabalho também. E nos limitamos a ser apenas uma "casca" que pode esconder muitas facetas.

Assim como o mal que da galinha é desconhecido, pelo qual a narradora se lamenta, tantas vezes passamos por tal situação. 
Sofremos sem saber o porquê, mas desconfiados de que ele se encontra dentro de nós. 
Além disso, assim como a galinha, contradizemo-nos e constantemente nos remodelamos. E é com tantas indagações, banais e filosóficas, que vivemos.

Após um longo devaneio sobre o ovo que se direciona a uma epifania sobre o significado do amor. 
É então, após o momento de conscientização, que a narradora coloca em dúvida a própria clareza. Será que tal epifania de fato ocorreu? Será que sou mais lúcida a ponto de perceber que tudo não passa de um disfarce?

Quando Clarice escreve "Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando", a autora permite essa incógnita. Pois nem tudo tem uma explicação, por mais incabível que isto seja num mundo cartesiano que exige afirmativas a todo momento.
Mas lembremos que, por ser um mistério, tudo que foi dito não passa de especulação. 
A verdade é que nem todos os mistérios são desvendados.

O conto "O ovo e a galinha", tanto quanto sua autora, continuará nas mentes especulativas de cada leitor que, instigado, vai acreditar ter finalmente encontrado o real significado da história.
Essa eterna especulação é positiva, porque, ao se definir tudo, perde-se a essência e tudo aquilo que poderia ser, mas por ter sido definido, delimitado e enquadrado, já não se pode ser mais. 
As palavras e o pensamento nos afasta do objeto. 
A busca incessante por definirmos as coisas limita-nos.

Assim como sua escrita, Clarice também é um mistério. Pode-se constatar isso na última entrevista, de 1977. 
A sisudez presente nas respostas curtas, a seriedade presente no tempo que leva para responder às perguntas, a introspecção notada no silêncio quando nada tem a declarar, a rispidez que pode ser interpretada como uma falta de interesse, ou, como prefiro, o cansaço causado por uma doença que se descobriria depois daquela entrevista, fazem dela tímida e ousada, assim como sua obra.

*        *        *

sábado, 13 de setembro de 2014

CLARICE LISPECTOR - Pertencer

Arte: Hallice
Pertencer
Clarice Lispector 

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. 
Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. 
Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. 
Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pele menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. 
E uma espécie toda nova de ‘solidão de não pertencer’ começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. 
O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. 
Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos ― e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. 
E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade ― sou individualista demais para que eu pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima ―, eu, que não quero a popularidade, sinto-me no entanto feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que não têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por ‘fazer parte’.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. 
Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. 
Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. 
Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. 
Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.


*            *            *
Em 'A descoberta do mundo', p.110-111

terça-feira, 1 de abril de 2014

Clarice e Caetano



Clarice
Caetano Veloso

Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouca me ficou
Igrejas brancas
Luas claras nas varandas
Jardins de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração?

Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito
De não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos
De frutas e passarinhos
Mas jamais quis se despir
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio, do rio

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração?

Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhações
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão

Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração?

Soldado fez continência
O coronel reverência
O padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice
Era a inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram as avós

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração?

Tem que um dia
Amanhecia e Clarice
Assistiu minha partida
Chorando pediu lembranças
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda, 
soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
E entre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo o tempo que existisse

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração?

*        *        *


sábado, 28 de dezembro de 2013

CLARICE - em carta às irmãs

Trecho de carta de Clarice Lispector a suas irmãs

"1947, Berna - Suíça

(...)
Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. 
Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.
Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu... 
Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver.

Juro por Deus que, se houvesse céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.  Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.

Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber.  Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.

Clarice"
*            *            *

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Aniversário Nascimento de CLARICE - 93 anos


Clarice Lispector
Tchetchelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977

Uma Aprendizagem: Amar é...Ser
Carol Lobo -  in "Obvious"

, abraços partidos, beijos emprestados, mãos espalmadas tornam-se espanto, e o riso de ontem é a lágrima trágica de hoje. 
Assim os relacionamentos modernos acabam, líquidos escorrendo entre os dedos. 
Mas não, isso não é um texto de análise sobre o amor contemporâneo, nem uma crítica aos relacionamentos da pós-modernidade. 
Esse é um relato apaixonado sobre aprendizagem, ou melhor, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector.

Mais do que um romance sobre o encontro com a cara-metade, a alma gêmea ou qualquer propaganda enganosa dessas, é uma narrativa sobre a espera, o autoconhecimento, a iniciação naquilo que talvez seja a procura de toda uma vida: o amor. 
Não importa tanto o “encontrar” e sim a “aprendizagem” experimentada vertiginosamente durante a busca. 
Engraçado porque eu percebo um desespero das pessoas em encontrar o amor, como se isso fosse resolver todas as faltas e buracos existenciais, quando o mais prazeroso, para Clarice e para Lóri (a personagem em formação), é a aventura da busca, para encontrar-se consigo mesmo em face do outro.

E é para realizar esse encontro que Clarice inverte a história da Odisseia clássica e coloca Ulisses (o personagem mitológico transformado em simples homem) à espera de Lóri. 
Sim, é ela quem faz uma viagem ao mais profundo de si mesma, para se conhecer, se amar, ter consciência de Ser para ser ao lado de outra pessoa. 
Essa aprendizagem é que a coloca em contato consigo, compreendendo-se e amando-se intensamente para, então, olhar e enxergar o amor no outro.

O amor, portanto, começa em cada um para depois encontrar-se no e com o outro. 
Difícil empreitada para aqueles que acreditam que amar é apenas gostar do outro, com força, pra sempre e blábláblá, que a vida só faz sentido com a presença do ser amado, que essa pessoa é a inspiração de toda uma existência… Não. 
Repito: O coração tem que se apresentar Sozinho diante do nada. 
É amando-se sozinho, flertando com a solidão, que podemos então dá-la de presente a alguém. Temos que aprender a ficar sozinhos e a ouvir o silêncio, afinal “o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.”

Ainda perguntam para que serve Literatura? Para aprender a ser. E aqui aprender a aprender.

Lóri sabe que sua busca não é fácil. 
Como ser o que se é? Ela não quer cair nos braços de Ulisses antes de conhecer os seus limites como mulher e como ser humano. E, quando se encontra consigo mesma e com o amor, ainda assim, sua história não termina com ponto final. 
Ela já começou com vírgulas – pois cada um viveu seu antes, seus pedaços de pequenas histórias -, e termina com dois pontos, ou seja, os caminhos de Lóri e Ulisses encontraram-se e chegaram ao fim, o que, para Clarice, é a porta de um começo.

Amor é isso:
*            *            *

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

CLARICE LISPECTOR - O mundo das águas


O mundo das águas 
Clarice Lispector

Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que se pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.

A mulher hesita porque vai entrar. Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação a vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem.

Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no amor em simples jogo leviano de viver. 
Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. 
Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de , não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. 
Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorrera sorrir. Pelo contrário, está muito séria. 
O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta, mesmo sem pensar.

A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda- e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

O caminho lento aumenta a coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo- espantada de pé, fertilizada.

Agora o frio se transformou em frígido. Avançando, ela sobre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão endurecendo de sal.

Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons.
E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.

Agora está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. 
Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo.

O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica pois. 
Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate.

A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas- ah, nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas- mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. 
Às vezes o mar lhe impõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. 
Sabe que está brilhando de água , e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. 
E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. 
Um perigo tão antigo quanto o ser humano.

*            *            *

In: "Felicidade Clandestina"

 Felicidade Clandestina.jpg

sábado, 21 de setembro de 2013

CLARICE e A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

Saiba tudo sobre o livro de Clarice Lispector em que se mastiga uma barata, clicando aqui: http://ads.tt/C8X1
Clarice Lispector e a experiência subjetiva em A paixão segundo G.H

Márwio Câmara (*) - em "Homo Literatus", 21/09/2013

A experiência fora do sistema

Publicado em 1964, e não diferente de seu romance inaugural, intitulado Perto do coração selvagem, de 1942, a escritora ucraniana naturalizada brasileira, Clarice Lispector, causou barulho entre os críticos e leitores com a publicação de A paixão segundo G.H., considerado, para muitos, um dos pontos altos de sua literatura e um de seus livros mais difíceis; à flor de sua maturidade literária, já evidenciada em seu romance anterior, A maçã no escuro, de 1961, não apenas pela temática psicológica e introspectiva — que cerne a sua literatura —, mas pela escritora inovar mais uma vez: quebrando as estruturas tradicionais do gênero romanesco para compor um livro essencialmente experimentalista, adornado de signos e metáforas — nos introduzindo a uma viagem intrínseca aos labirintos psíquicos de sua personagem, que busca respostas sobre a essência do mundo e da vida —, transmutando a narrativa em níveis inigualáveis de significação.

Cada passagem de A paixão segundo G.H. é possível que nela seja evidenciada novos entendimentos e formas de enxergar o romance quando tomado a novas releituras, dando o caráter grandioso do não esgotamento da obra — e que para alguns críticos é a verve da obra-prima —, esta escrita em primeira pessoa, e que se nivela entre a loucura (o desconserto da personagem) e o renascimento (a descoberta do novo olhar para as coisas), a hermeticidade (a ocultação da experiência metaforizada pela linguagem) e o autoconhecimento (a busca por respostas às indagações íntimas da personagem).

Logo no primeiro parágrafo do livro encontramos um discurso ousado e nada comum, construído pela escritora que inicia a narrativa com seis travessões, o que indica um possível desconserto existencial da personagem: a identidade de G.H. em ruptura com o mundo, o qual ela sempre estivera habituada, e consigo mesma.
Buscando dentro de si a sua remontagem humana; desvencilhando-se da máscara ou da persona que durante toda a sua vida, de fato, a personagem usou em seu mundo exterior e sistematizado, parte crucial de sua zona de conforto e alienação.

“— — — — — — estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior.”
(Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, Editora Rocco, p. 9)

Clarice Lispector

A epifania ante a hostilidade ou a separação de mundos dentro de um único
Desde que G.H. se desloca para o antigo quarto de sua empregada, despedida no dia anterior, um novo mundo de completa renúncia e estranhamento se rompe sobre a vida da personagem — uma artista, uma escultora de classe média alta que vive numa cobertura, é tudo que sabemos.
Ao entrar no cômodo, G.H. tem a sua primeira surpresa e/ou decepção: a de encontrar o quarto limpo. Diferente do que pensara há pouco, a personagem que se apresenta apenas com duas iniciais em maiúsculas encontra o antigo quarto da empregada limpo e com uma alvura que se diferenciava dos demais cômodos que compunham seu apartamento.
Porém, além do quarto limpo, ela se deflagra com três desenhos feitos a carvão na parede: três signos codificados nas figuras de um homem, uma mulher e um cachorro.
O que mais lhe causa estranhamento diante daqueles desenhos é  que cada um parecia isento do outro, como se ambos não pertencessem ao mesmo plano ilustrativo, e assim não dialogassem mesmo estando próximos ao outro.
O que a empregada queria dizer com aquilo? indaga a personagem.
E logo G.H se vê naquela mulher despida que fora desenhada a carvão na parede.

A incomunicabilidade dos desenhos era a metáfora do que  ocorria na vida cotidiana.
Dentro desse aspecto, a escritora frisa um ponto crítico nas relações vividas dentro da contemporaneidade — a segregação das classes e indivíduos.

G.H., por exemplo, mesmo tendo aquela mulher como a sua empregada, habituada dentro de sua casa, era como se a ela lhe fosse uma estrangeira, um ser invisível, ignorado e insignificante, onde apenas se estabelecia, entre elas, uma relação de ordem e cumprimento.

“Nenhuma figura tinha ligação com a outra, e as três não formavam um grupo: cada figura olhava para a frente, como se nunca tivesse olhado para o lado, como se nunca tivesse visto a outra e não soubesse que ao lado existia alguém.
Sorri constrangida, estava procurando sorrir: é que cada figura se achava ali na parede exatamente como eu mesma havia permanecido rígida de pé à porta do quarto. O desenho não era um ornamento: era uma escrita.
A lembrança da empregada ausente me coagia. Quis lembrar-me de seu rosto, e admirada não consegui — de tal modo ela acabara de me excluir de minha própria casa, como se me tivesse fechado a porta e me tivesse deixado remota em relação à minha moradia. A lembrança de sua cara fugia-me, devia ser um lapso temporário.” 
(Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, Editora Rocco, p. 39)

G.H. e a barata: o confronto de duas distintas naturezas
 E como falar sobre a relação entre G.H. e uma barata, a qual a personagem encontra dentro do armário do antigo quarto da empregada, e que termina sendo esmagada pela personagem entre o vão da porta?
A matéria branca que é expulsa de dentro do corpo da barata ritualiza a relação da personagem consigo mesma e com o mundo, enveredando-a entre os limites de sua própria existência, passando a caminhar entre o seio transgressor ao mais primário da vida; deixando sua subjetividade elevá-la a caminhos que transcendem a sua própria condição do “real”.

G.H se vê peregrinando entre desertos, portais, inferno e oratório, participando de rituais ocultos e orgias. Toda essa peregrinação faz parte, na verdade, de um ensaio interior e sabático que a personagem reporta em sua busca incessante pelo autoconhecimento e por respostas substanciais e reveladoras ante ao mistério da existência.
G.H está sentada na beira da cama frente à barata presa entre o vão da porta do armário em que a matara. Duas existências distintas, porém tão próximas em seus paradoxais distanciamentos (a nobreza e o anódino).
A barata, mesmo na sua condição fadada à mortalidade, guia G.H. a experiências que nunca antes encontradas em sua vida sistematizada.

“O mundo havia reivindicado a sua própria realidade, e, como depois de uma catástrofe, a minha civilização acabara: eu era apenas um dado histórico. Tudo em mim fora reivindicado pelo começo dos tempos e pelo meu próprio começo. Eu passara a um primeiro plano primário, estava no silêncio dos ventos e na era de estanho e cobre — na era primeira da vida.” 
(Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, p. 68)

Mas o grande momento do livro ainda estaria por vir: onde a personagem decide degustar da própria barata.
G.H. pensa que provando daquilo que ela considerava demasiadamente asqueroso e repugnante chegaria a “redenção” de sua própria existência. Ou seja, ao próprio estado de libertação dos limites que a definiam como humana.

“Não contei que, ali sentada e imóvel, eu ainda não parara de olhar a barata com grande nojo, sim, ainda com nojo, a massa branca amarelecida por cima do pardacento da barata. E eu sabia que enquanto eu tivesse nojo, o mundo me escaparia e eu me escaparia. Eu sabia que o erro básico de viver era ter nojo de uma barata. Ter nojo de beijar o leproso era eu errando a primeira vida em mim — pois ter nojo me contradiz, contradiz em mim a minha matéria.”

Porém, a personagem novamente é surpreendida durante o feito. Já que ao provar a barata morta e, em seguida, cuspir os restos mortais do animal, G.H. não sente nada; apenas uma estranha insipidez, que a remetia a coisa alguma, senão a ela mesma.

“Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma.”

G.H., por fim, chega à conclusão:

“Eu que pensara que a maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa branca da barata. E que assim me aproximaria do… divino? do que é real? O divino para mim é o real.”
(Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, p. 167)

Conclusões finais:
 A paixão segundo G.H. é o livro que confirma toda a maestria inventiva e literária da escritora Clarice Lispector.
Uma obra que impressiona seja no seu modo narrativo quanto pelo poder da escritora em criar “novas atmosferas” através da linguagem.
Além do que, a escritora consegue a faceta de cativar o leitor à medida que ele se particulariza com a experiência subjetiva da personagem — embora a tensão da própria narrativa não deixe de causar, inicialmente ou constantemente, vertiginosos desconfortos aos leitores.

A obra mistura filosofia, existencialismo, experimentalismo estético e misticidade, já que dentro do subsolo da personagem, são levantados questionamentos entre a natureza do divino e do imoral, do céu e do inferno, que orbitam dentro da gente.
E situa a importância de se ter um alguém segurando em nossa mão, sobretudo, durante os náufragos de nós mesmos. Um alguém que esteja ali pronto para nos ouvir, para não nos sentirmos tão solitários e pequenos frente à inexorável complexidade e crueza da vida, do mundo — a mão de Deus.

E termino com um trecho de um parágrafo situado na página 158 do livro, onde a personagem, em seu enigmático monólogo interior, dissipa:

“(…) Não quero a meia-luz, não quero a cara benfeita, não quero o expressivo. Quero o inexpressivo. Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais.
Quero o material das coisas. A humanidade está ensopada de humanização, como se fosse preciso; e essa falsa humanização impede o homem e impede a sua humanidade. Existe uma coisa que é mais ampla, mais surda, mais funda, menos boa, menos ruim, menos bonita. Embora também essa coisa corra o perigo de, em nossas mãos grossas, vir a se transformar em “pureza”, nossas mãos que são grossas e cheias de palavras.”


*            *            *
(*) Márwio Câmara - Escritor, poeta e jornalista; pós-graduando em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Gama Filho. Já foi premiado em concursos literários, na categoria Poesia. Dirigiu e produziu o documentário A rua do artista.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SEMPRE CLARICE

Franz_Eybl,_Lesendes_Mädchen.jpg
"Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."
Clarice Lispector no conto 'Felicidade Clandestina'

A Impopularidade de Clarice Lispector
 Victor Silveira em 13 de jan de 2012 - página 'Obvious'


Talvez dissesse: Façam eles o que querem de minhas palavras, pouco me importa se as enfiam em suas mochilas ou bolsos rasgados, se as mastigam ou engolem.



Quanto mais popular tem se tornado Clarice Lispector, antagonicamente tem se feito impopular.

É com esta postura critica que tenho visto a proliferação desmedida de pequenos fragmentos de sua obra, partes amputadas de suas crônicas e romances e contos, disseminados por redes sociais e afins.

A autora tem recebido por seus pseudo-discípulos o titulo de “conselheira amorosa”. Existe até um aplicativo, desses de frases automáticas do faceboock com o nome “Conselhos de Clarice Lispector”. Não vejo essa crítica com uma ótica exclusivamente negativista, penso ser um meio de refletirmos até que ponto nos acomodamos com a superfície, nesta sociedade onde a tecnologia cada dia mais acessível a todos, com suas infinitas possibilidades de informação e cultura, que entretanto se apresenta em segmentos superficiais.

Fico a imaginar qual seria a postura de Clarice se estivesse viva. Frente a tal fenômeno que pode ser considerado como social, o que diria? Talvez dissesse: Façam eles o que querem de minhas palavras, pouco me importa se as enfiam em suas mochilas ou bolsos rasgados, se as mastigam ou engolem.
E pensar nessa resposta fictícia da autora me fez refletir sobre o papel, que a mesma tem assumido na atual sociedade, que pode ser visto como de resignação, retrocesso, e dissimulação por parte de seus “leitores”.

A obra de arte é circuncidada por aquilo que se vê da própria obra, sempre e cada vez, como se fosse à primeira vez em que foi vista. Essa eterna ressignificação, de atravessamento da singularidade daquele que experimenta a arte, seja ela na literatura, fotografia, pintura, teatro, música, ou qual for a modalidade em foco, será sempre o retorno de demandas internas do espectador.

Tal fato, nos faz anuir que, a significação literária se coloca por uma ética do desejo, de quem a produz e experimenta. O tão profundo e o tão raso.
São escolhas, que se apresentam marcadas pelo pragmatismo do séc. XXI.

Clarice deixa uma obra que revolucionou a literatura brasileira, e que, ao eleger o Mal como um de seus temas recorrentes, expressa o caráter demoníaco da linguagem.

Ela amplia a produção literária de vanguarda, que era até então marcado por um ortodoxismo modernista.
E ao assumir o risco pessoal de sua escrita, a configura com um padrão fatalista, mas rompido com o trágico, que emerge com dois contrapontos: O tédio e a auto-agressividade.
Mas por outro lado esse campo de luta da escritora é também vivenciado por um terno sentimento de compaixão com a condição existencial, sempre culpada de si mesmo.

“ O pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa. Como descrevê-la? Aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? (...) A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela” 


A autora inaugura no Brasil um estilismo literário único, sendo aclamada e atacada pela crítica, por sua impulsividade corrosiva como peculiaridade central de sua escrita, tendo como campo de abordagem a alma humana e suas paixões.


Desse modo, como conclui Yudith, crítico literário da autora, “Torna-se inevitável pensarmos esse modelo de sedução e destruição como o protótipo da poética de Clarice, que envolve o leitor, qual marinheiro encantado pela sereia, para em seguida engolir suas convicções e afogá-lo nas águas de um escrita letal. A escrita Clariceana é ela mesma testemunho de um salto sobre fragmentos de uma intensa explosão psíquica criativa.“


Segundo Lucio Cardo, amigo de Clarice, em seu Diário Completo, em uma das poucas alusões que faz a autora, diz: “é um longo, exaustivo e minucioso arrolamento de sensações.” 

Sua escrita é a consumação de incêndio, cujas chamas são a constância de suspiros íntimos e derradeiros. Talvez seja essa uma boa metáfora para se construir uma moldura de seu retrato.

Tendo sua obra inteiramente influência por um traço biografia que é tingido por pessoalidade/personalidade ímpar, que não só estrutura como ainda a diferenciava das demais.

Esse engendramento de ficção e vida, é experimentado por ela em uma constante desconstrução literária cuja  fusão de papeis que trocam-se entre si sem regras, e se fundem a gerar cópias de si mesmo, sem se permitir uma distinção racional.
Assim se dá sua transmigração textual.

Para Rosenbaum outro crítico, “A ficção que se arma nesse jogo de vozes desmonta as incertezas factuais, imprimindo ao texto um caráter inacabado, aberto, questionando a verdade única da experiência narrada.”


Já para Sergio Millet, a relação de Clarice com as palavras se faz de não domínio, "não as domina mais, então; elas é que tomam conta dela."

O que nos faz entender sua intensa postura de desdobramento subversivo. Que possibilita pensarmos um efeito de embriaguez artística na autora.

Poderia continuar a pensar, e conectar informações que justificariam minha crítica do mal estar de uma popularidade leiga, que impossibilita o mergulho, o aprofundar, que na literatura assume um caráter incrível, de quem se dispõe por uma perspectiva crítica, ultrapassar um consumo pragmático literário.


E são tantas as histórias que um mesmo romance, conto, ou crônica pode contar de nós mesmos.

Por isso reconheçamos os infinitos potenciais da arte literária e não nos conformemos com menos do que o longo mergulho ao infinito.

Abaixo deixo um trecho de uma crônica de Clarice, A descoberta do mundo, onde a narrativa se desenrola nesse entrelaço de experiências reais e ficcionais da autora.


“(...) fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo.”





Sua última entrevista para a TV Cultura (youtube) me fez acordar para Clarice Lispector.
Sua depressão exalada no olhar, a fadiga das palavras, e pelos minutos que se seguem ao seu discurso, em alguns momentos, sádico, me levou a desejar o mergulho em sua vida e obra. Que tem me embriagado e feito avançar, e trazido a convicção de um infinito de águas a minha frente.


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