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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

TEL MONT - Filme breve



FILME BREVE

Do norte a outra vem, lenta e feérica. Uma fada loura salpicando sensualidade. Via-a todos os dias ir e vir do trabalho, ambas anônimas porém cada vez menos indiferentes. Bebia-lhe o perfume, prendia-se ao seu andar, aprendia-lhe as cores das roupas, horários, jeito e gestos. À noite, voava até sua janela e sonhava-lhe a intimidade.

Certa vez, num misto de cálculo, estratégia e destino, conseguiu sentar exatamente atrás dela no ônibus pela manhã. O vento entrando pela janela fez os leves cachos de sol roçarem em seus dedos emocionados. Descobriu mínimas sardas espalhadas por seus ombros (ela usava um vestido de decote largo).

Gostava de ser secreta, íntima espera ansiosa por trás de vidraças ou grades trabalhadas ou falsas distrações. Às vezes, a fada passava rasante pela sua porta e o olhar dela sempre a flechava de soslaio. Agora, no entanto, o imprevisível acontecia e a cercava sem saída.
O corpo branco veio vindo, os olhos dourados flamejantes e doces, e o mundo todo foi morrendo devagarzinho para não assustar as crianças e os enternecidos. Sob a chuva com sol seu corpo foi invadido por ondas de ternura ardente, delicadeza e frisson.
O olhar dela a tocou num golpe profundo.
"Teu desejo me irrita e me atrai. Me seduz essa contradição." - disse a fada, sem falar.
O olhar dela próximo, tão próximo, cruzou os céus do seu segredo. Ela passou e levou o sol, a chuva, encantou as palavras quase ditas e deixou um quê de infinito tremeluzindo pelo resto da tarde cinza. 

(TEL MONT)

*        *        *

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Pai Nosso (traduzido do aramaico)

Recebido da amiga Tel Mont, em 10 de dezembro 2014



O PAI NOSSO 
(traduzido do aramaico - língua que, supostamente, teria sido falada por Jesus)

Pai-Mãe, Respiração da Vida, Fonte do Som, Ação sem Palavras, Criador do Cosmos. 
Faça Vossa luz brilhar entre nós, fora de nós e que possamos nos tornar úteis.
Ajude-nos a seguir nossos caminhos, respirando apenas o sentimento que emana de Vós.

Una nosso "eu posso" com o Vosso, para que nós possamos caminhar como reis e rainhas com todas as criaturas.
Que o Vosso e o nosso desejo sejam um só, em toda luz assim como em todas as formas, em toda existência individual assim como em todas as comunidades.
Faça-nos sentir a alma da Terra dentro de nós, pois assim sentiremos a Sabedoria que existe em tudo.
Não permita que a superficialidade e a aparência das coisas do mundo possa iludir-nos e nos liberte de tudo aquilo que impede nosso conhecimento.
Não nos deixe sermos tomados pelo esquecimento de que Vós sois o poder e a força viva do mundo, a canção que se renova de tempos em tempos e a tudo embeleza.
Possa o Vosso amor ser o solo onde cresçam nossas ações.
Amém. 
*        *        *
Do livro "Prayers of the Cosmos", de Neil Douglas-Klotz)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

TEL MONT - 'Tabacaria' ainda aberta...

Da página "A louca da biblioteca" - facebook


Imagem: Arte de Quint Bucholz.
Pervaga um sentimento de arrasamento total dentro de mim. 
Destroços boiam por sobre minhas águas, e eu me sinto medíocre, numa noite igualmente medíocre,
porque não me oferece as respostas que não faço, mas penso, e procuro. 
Instalou-se, sem minha permissão expressa, uma Tabacaria dentro aqui desde há dias. 
Já são outras manhãs, e ela não fechou ainda. 
Não há mais ninguém e ela continua aberta. 
Estou só, à espera... Do quê? De simples verdades, 
tão simples quanto essas flores silvestres que brotam delicadamente à beira da estrada 
e só o vento ao passar brinca com elas. 
Ninguém mais as percebe.
Clarice, Clarice, o que faço com o meu personagem? 
Não quero fantasmas camaradas. 
Quero que eles arrastem correntes e soltem labaredas pelos olhos 
e não sintam remorsos bobos por seus desejos de vingança. 
Quero-nos poderosos e indestrutíveis. 
E quando ninguém estiver vendo, 
que eles sentem a um canto e chorem melancolicamente
sob a luz do luar. 
E faz lua agora, uma lua imensa e prateada. Clariceana.
(Há lua aí também?)

Afastei uma telha no teto do meu quarto, que não tem forro, 
e um facho de luar desce. 
Fosse uma ponte, eu nem estaria mais aqui agora. 
Talvez já estivesse em casa outra vez... 
Meu coração está tão pequenino hoje, assim uma joaninha parada sobre uma folha, 
ou um desses besourinhos que surgem do nada, 
parece que brotam do ar para uma realidade exaustivamente cotidiana. 
E isso é um momento que sempre me deixa perplexa - "como se soubesse a verdade". 
Meu coração hoje está frágil como uma gota de orvalho pendurada num galho pequeno e solitário, 
num jardim pequeno e solitário e que também ninguém repara. 
Se essa gota ao menos caísse, 
para que se espatifasse em minúsculas transparências. 
A beleza efêmera de um instante que nunca será igual a outro instante. Isso é liberdade. 

(TEL MONT)

*            *            *

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

TEL MONT - 'finesse...'

Imagem: Douglas Hofman


EU SAÍRA DE MAIS UMA HORA sem cor e sem gosto
por isso disse que não sabia por que ainda a ti retornava
menti!
meu coração me arrasta
ainda que o céu desabe, ainda que o asfalto queime
ele me arrasta
e nada dentro de mim me detém
porque tu o capturaste
e agora ele é teu servo
teu olhar, nossa cela

e quando um deus solitário me contempla
entre enternecido e complacente
eu sei que estás vindo
quanta finesse, meu amor, durante a tarde
noite adentro, uma lua em fogo
(madrugada adentro, lembrarás meu nome?) 

(TELMONT)

*        *        *


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

TEL MONT - Starfix

Foto: STARFIX

espalho estrelas de papel no céu
do meu quarto
e elas brilham, é só apagar a luz
cerrar o sol, encerrar o dia

esse é o meu mundo, e pronto
nem se atreva a me interromper quando sonho  (TEL MONT)

STARFIX

espalho estrelas de papel no céu
do meu quarto
e elas brilham, é só apagar a luz
cerrar o sol, encerrar o dia

esse é o meu mundo, e pronto
nem se atreva a me interromper quando sonho 

(TEL MONT)

*        *        *

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

TEL MONT - Amor e perdas

Homenagem da minha amiga Tel Mont ao seu cãozinho Tobias.




O amor que não basta. Ele, tão poderoso, às vezes é tão impotente diante de coisas mínimas. Nunca vou me conformar quando ele se mostra tão frágil nas horas em que mais preciso crer e sentir a sua força. Ou talvez eu não saiba amar, ame pouco, fragilmente ame, aprendendo ainda...

Seres que perdi para 'a terceira margem do rio' (ave,Guimarães Rosa!), será que perceberam o quanto quis mantê-los deste lado e não consegui? Pessoas e animais de estimação... Minhas mãos sentimentais estendiam-se para segurá-los aqui ao meu lado, junto, aquecendo-os e deixando-me aquecer. Em vão.

Nessas horas, a dor que ressurge me leva a perguntar: não amei o bastante para ao menos ser capaz de produzir um pequeno milagre?

Pode parecer bobagem (ah, que importa?), mas este texto é para o meu anjinho de quatro patas Tobias, que agora estaria a voar pela casa, subitamente possuído por uma energia noturna. Depois, o cansaço, a procura por colo, o sono... Que onde ele esteja, outro colo o acolha até eu chegar.




*            *            *

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Da Telma


Da página "A louca da biblioteca"

Foto: A TARDE PRINCIPIA e a chuva cai
um manto pesado e branco
o vento atravessa para onde estou
todavia, também há frio dentro aqui
paredes úmidas, portas seladas.
Alguém com olhos cor de rio cortando a mata
pediu-me: abra a porta.
Mas não há motivo, não percebe?
Não há ninguém a ser visitado
não há ninguém à espera de visita
só fantasmas adormecidos e cada vez mais vagos
e pequenos demônios recolhidos nas sombras
(silêncio, não reacenda seus olhos
não lhes desperte a voz 
não lhes reabra as asas).
Gotye canta “Let me in
Where only your thoughts have been
Let me occupy your mind
As you do mine...”. 
E eu sonho, sem querer
enquanto espero, sem querer
alguém chegar - mas se alguém, por ventura, chegar
talvez minha cena já terá chegado ao fim.   (TELMONT)

Imagem: "The kiss of death", escultura de Jaume Barba.
 "The kiss of death", escultura de Jaume Barba.

A TARDE PRINCIPIA e a chuva cai
um manto pesado e branco
o vento atravessa para onde estou
todavia, também há frio dentro aqui
paredes úmidas, portas seladas.
Alguém com olhos cor de rio cortando a mata
pediu-me: abra a porta.
Mas não há motivo, não percebe?
Não há ninguém a ser visitado
não há ninguém à espera de visita
só fantasmas adormecidos e cada vez mais vagos
e pequenos demônios recolhidos nas sombras
(silêncio, não reacenda seus olhos
não lhes desperte a voz 
não lhes reabra as asas).
Gotye canta “Let me in
Where only your thoughts have been
Let me occupy your mind
As you do mine...”. 
E eu sonho, sem querer
enquanto espero, sem querer
alguém chegar - mas se alguém, por ventura, chegar
talvez minha cena já terá chegado ao fim. 

(TELMONT)

*            *            *

sábado, 26 de abril de 2014

DA TELMA

"Psyché ranimée par le baiser de l'amour", escultura de Antonio Canova

(Imagem via TelMont)

a tarde ensombreou quente e triste
só o rastro do teu perfume ainda me esperava
lancei-me de volta à acidez da cidade
menina perdida, sem qualquer saída
que me levasse ao teu olhar
preciso respirar-te para renascer a cada dia
mesmo que não estejas
mesmo que ainda mal sejas
arrisco-me à esperança, olhos cerrados, desejo: ouça-me 
e veja-me logo, a vida urge (cada vez mais difícil 
deixar-me proteger-te daquilo que eu quero). 

(TELMONT)

sábado, 5 de abril de 2014

TEL MONT - A flor secreta

Foto: A FLOR SECRETA floresce
a despeito da palavra abandono
rompem-se os dias e as memórias
assumirão novas plumagens
mas a flor, frágil e solitária
tacitamente persiste, em puro verde
tessitura leve - asa de borboleta
alimenta-se da minha estupefação e do meu medo
minhas mãos 
nem as tuas 
jamais conseguirão
sufocá-la  (TELMONT)

A FLOR SECRETA floresce
a despeito da palavra abandono
rompem-se os dias e as memórias
assumirão novas plumagens
mas a flor, frágil e solitária
tacitamente persiste, em puro verde
tessitura leve - asa de borboleta
alimenta-se da minha estupefação e do meu medo
minhas mãos 
nem as tuas 
jamais conseguirão
sufocá-la 

*            *            *

(TEL MONT)

domingo, 23 de março de 2014

TEL MONT - Lua nova

Foto: LUA NOVA, lua clara 
no meio de tudo 
não me deixa mais em paz 
mal me deixa adormecer 
(absolutamente inocente, será?) 
flutua incessante enquanto vago 
à deriva por uma realidade imprecisa 
ora abrasa, ora enternece 
lua tão clara e inusitada 
sejamos audazes, raptemo-nos 
no meio de uma tarde alegre qualquer 
leve-me para o seu segredo 
enleve-me ao cair da noite
doce inquietação, ardente enleio. 
Só não me deixe mais em paz. (TELMONT)

Imagem: Óleo sobre tela de Michael Cheval.
Óleo sobre tela de Michael Cheval
(Tel Mont)

LUA NOVA, lua clara 
no meio de tudo 
não me deixa mais em paz 
mal me deixa adormecer 
(absolutamente inocente, será?) 
flutua incessante enquanto vago 
à deriva por uma realidade imprecisa 
ora abrasa, ora enternece 
lua tão clara e inusitada 
sejamos audazes, raptemo-nos 
no meio de uma tarde alegre qualquer 
leve-me para o seu segredo 
enleve-me ao cair da noite
doce inquietação, ardente enleio. 
Só não me deixe mais em paz. 

(TELMONT)

*        *        *

terça-feira, 4 de março de 2014

TEL MONT - O tempo e o olhar

Foto: O TEMPO E O OLHAR

Ah, vermelho é covardia... E essa luz no olhar também. E dessas horas que significam nada além, mas tão secretamente inebriantes são, ninguém precisa saber, só esse encanto clandestino. A chuva depois da vidraça, eu quero que ela persista, cúmplice, e pese sobre os ponteiros do seu relógio para que eles mal tenham forças para girar e engolir o tempo.

Chove depois da vidraça e seus olhos clareiam o meu bosque e me reacendem a vontade de me enroscar com a vida e mordê-la e abraçá-la e encarar seus jogos e desafios e atrações.

Não pare, chuva, não pare, porque está tão amorosamente cálido aqui dentro enfim. Mar e céu seu olhar, nem ansiava, mas quando vi já submergia, coração deu sinal que não antessenti, não almejava, mas quando vi, raposa esperando le petit prince. 

Agora as horas são outras, não mais chove, um silêncio absurdo, ou quase, não fosse o ventilador sobre a mesa... No meu bosque da canção de roda tremeluzem vagalumes azuis - seus olhos multiplicados, no meu peito sua figura ainda um esboço tênue, mas saboreio já uma suavidade de brisa, e assim vou deslizando sobre a superfície da noite adentro.  (TEL MONT)

Imagem: Foto de Yume Cyan.
Imagem: Foto de Yume Cyan.

O TEMPO E O OLHAR

Ah, vermelho é covardia... E essa luz no olhar também. E dessas horas que significam nada além, mas tão secretamente inebriantes são, ninguém precisa saber, só esse encanto clandestino. A chuva depois da vidraça, eu quero que ela persista, cúmplice, e pese sobre os ponteiros do seu relógio para que eles mal tenham forças para girar e engolir o tempo.

Chove depois da vidraça e seus olhos clareiam o meu bosque e me reacendem a vontade de me enroscar com a vida e mordê-la e abraçá-la e encarar seus jogos e desafios e atrações.

Não pare, chuva, não pare, porque está tão amorosamente cálido aqui dentro enfim. Mar e céu seu olhar, nem ansiava, mas quando vi já submergia, coração deu sinal que não antessenti, não almejava, mas quando vi, raposa esperando le petit prince. 

Agora as horas são outras, não mais chove, um silêncio absurdo, ou quase, não fosse o ventilador sobre a mesa... No meu bosque da canção de roda tremeluzem vagalumes azuis - seus olhos multiplicados, no meu peito sua figura ainda um esboço tênue, mas saboreio já uma suavidade de brisa, e assim vou deslizando sobre a superfície da noite adentro. 

(TEL MONT)  - in"A louca da biblioteca", 2014


*            *            *

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Da Telma

Da página "A louca da biblioteca" - facebook


Em quantas promessas você acreditou antes de acordar? 
Quantas vezes você foi uma tola criança demais? 
Uma hora que alguém esqueceu
e que seria a eternidade pra você. 
Tome um café enquanto chove.
Tome um café enquanto outras palavras soam mais importantes que as suas,
por isso aquele tempo não lhe foi dado.
Sim, deixe gotejar uma lágrima, isso você sabe fazer muito bem. 
Dispense o abraço na hora da partida, já não importa. 
O que você queria saber jogue no esquecimento, 
já não importa. Você não importa.
Aprenda você também a não mais se importar.(TELMONT)

Em quantas promessas você acreditou antes de acordar? 
Quantas vezes você foi uma tola criança demais? 
Uma hora que alguém esqueceu
e que seria a eternidade pra você. 
Tome um café enquanto chove.
Tome um café enquanto outras palavras soam mais importantes que as suas,
por isso aquele tempo não lhe foi dado.
Sim, deixe gotejar uma lágrima, isso você sabe fazer muito bem. 
Dispense o abraço na hora da partida, já não importa. 
O que você queria saber jogue no esquecimento, 
já não importa. Você não importa.
Aprenda você também a não mais se importar.

(TELMONT)

*            *            *

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

GARCIA LORCA - facebook


Recebido de TelMont - facebook, 16 de janeiro 2014

Foto: “E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua”

Federico García Lorca



art"helena georgiou"


“E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua”

Federico García Lorca

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da Telma

Post da página facebook -  A louca da biblioteca

Foto: ANTEONTEM PELA MANHÃ, céu acinzentando-se para receber a chuva da tarde, aconteceu um fato poético que - Ave! - fui capaz de ver a tempo. Uma pequena pétala que voa*, asas marrons e brancas, pousou no meu braço, quase à altura do ombro. Pousou e ficou o tal instante exato para cristalizar o presente.
E senti-me, súbito, um ser eleito, digno de experiências além do limite da realidade - conversar com anjos, sobrevoar o tempo nas costas de um dragão,...
Tá bom, sei, grande coisa, não foi nada demais. Mas permita-me, Deus, experimentar uma gota de envaidecimento. Perdoe-me pelo meu orgulho ao olhar minhas mãos limpas de sangue e por ainda me descobrir capaz de encantar-me com essa alegria boba que estremeceu meu coração jurássico. Uma borboletinha silvestre fez-me um carinho inesperado e pincelou meu dia de sonho. (TEL MONT)

* referência a Clarice Lispector

ANTEONTEM PELA MANHÃ, céu acinzentando-se para receber a chuva da tarde, aconteceu um fato poético que - Ave! - fui capaz de ver a tempo.

Uma pequena pétala que voa*, asas marrons e brancas, pousou no meu braço, quase à altura do ombro. Pousou e ficou o tal instante exato para cristalizar o presente.

E senti-me, súbito, um ser eleito, digno de experiências além do limite da realidade - conversar com anjos, sobrevoar o tempo nas costas de um dragão,...

Tá bom, sei, grande coisa, não foi nada demais. Mas permita-me, Deus, experimentar uma gota de envaidecimento. Perdoe-me pelo meu orgulho ao olhar minhas mãos limpas de sangue e por ainda me descobrir capaz de encantar-me com essa alegria boba que estremeceu meu coração jurássico. 
Uma borboletinha silvestre fez-me um carinho inesperado e pincelou meu dia de sonho. 
(TEL MONT)

* referência a Clarice Lispector


*            *            *

terça-feira, 30 de julho de 2013

TEL MONT -

De "A louca da biblioteca" - facebook





"Onde está o meu sinônimo na vida?" (CLARICE LISPECTOR) - ouço alguém bradar da cobertura de um prédio da cidade. Uma dúvida me vem à tona: serei eu? serei eu? Mas
meu coração, melindroso, logo me põe no meu devido lugar: serás sempre um atônito antônimo.
Ah, indelicado coração que sempre se esquece de colocar um pouco de mel na ponta de suas flechas...

(Tel Mont)


*            *            *

segunda-feira, 15 de julho de 2013

"A louca da biblioteca" - linda página no Facebook



SEGUINDO CLARICE, A LISPECTOR

"Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então." 

Deixo-te estilhaçar o encanto com um sorriso amoroso para a taça de vinho; e tu, deixa-me vadiar pelo teu ser, noturna e fugidia mas em ebulição. 
Deixo-te cobiçar outras peles e perfumes, anonimamente; e tu, deixa-me seguir pelas horas, consciente do perigo mas enfeitiçada, não só pela lua cobrindo o jardim de um prateado suavemente azulado. 
Deixo-te despir-se, mostrar-se, alma tântrica e insuspeita leviandade; e tu, deixa-me apenas saber-te figura clássica sob uma árvore, saboreando felicidades clandestinas, cantata em latim sob a chuva, enquanto eu, desajeitado miosótis, indecifrável sentimento aquecendo-me, alimentando-me e morrendo-me viscontinianamente numa praia italiana, ao pôr-do-sol. 
Eu te deixo ser realidade pura e imperfeita e imprevista e desejada. 
Deixa-me apenas com a flor pagã do meu segredo. 
"O silêncio perfeito de uma flor. Macio como quando se fecha a luz para dormir. E faz o botão da luz um barulhinho que quer dizer: boa noite, meu amor." 
Perdoe-me pelo caos no meu planeta. 

(TEL MONT)


*            *            *