quinta-feira, 25 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

MARINA COLASANTI - Preciso para



PRECISO PARA
Marina Colasanti
Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.

*        *        *

terça-feira, 23 de novembro de 2010

MUDAMOS NÓS OU MUDARAM AS CRIANÇAS?


MUDAMOS NÓS OU MUDARAM AS CRIANÇAS?

(Nairzinha/ pesquisadora da Cultura da Brincadeira Brasileira)


Ser criança no terceiro milênio é fácil e prazeroso, ou um desafio aos nossos pequeninos?
O que acontece com eles quando a sociedade investe num amadurecimento precoce e exigente, impondo um modelo de pequeno adulto a ser seguido?
O que tem de diferente a criança do terceiro milênio? O acesso à internet, a velocidade das comunicações, o conhecimento precoce sobre temas como clonagem, violência, transplantes e seqüestros, balas perdidas, terrorismo, está mudando a natureza infantil?
Até que ponto o amigo virtual, a forma de brincar interagindo com a máquina, o vídeo game e sua ética de adquirir novas vidas todas as vezes que vence ou mata o adversário, o hábito de comprar brinquedos e não construí-los e usar muito mais os dedos que as pernas, a brincadeira sedentária e solitária, a presença da realidade substituindo a fantasia, roupas de adulto, salto alto, batom e o namoro precoce, sobretudo a sobrecarga de responsabilidade, horários e compromissos está mudando a identidade infantil?

Mudaram as crianças ou mudamos nós?
No contato com milhares de crianças, que a minha experiência profissional me permite, percebo que elas não mudaram. Têm um olhar encantador de manhãs douradas, têm mãos inquietas como as do criador, têm sorrisos abertos e doces como a brisa da tarde. Ganham tempo olhando formigas, sentindo a terra e provando o orvalho sempre que incentivadas.

Mudamos nós, que deixamos de falar de estrelas, sacis e cucas. Que esquecemos de olhar o céu, de ver o manto estrelado da noite, de pensar nas cores dos peixinhos do mar, nos brilhos dos raios do sol, nas cores do arco íris. De cantar e contar histórias.
Ficamos estáticos, deixamos de voar nas asas das borboletas e dos pirilampos. Trocamos a leveza dos sonhos e da fantasia pelo peso de uma realidade que cai sobre nossos ombros e nos paralisa de tanto cansaço. A nossa verdade ficou dura e a nossa realidade cinzenta.

Mudamos nós que apressamos a vida, que contabilizamos sorrisos, olhares, palavras e dinheiro, que fazemos das crianças seres como nós, que impomos etapas queimadas, que lhes impingimos agendas cheias de horários estressados, roubando deles o tempo e o espaço de ser criança, a ternura e a descomplicação de um ser que tem que ter seu tempo de crescer normal, para existir completo.

Mudamos nós, quando nos conformamos com o que foi feito das nossas crianças. Pequenos adultos com gastrite e colesterol, presos em apartamentos, longe do sol, expostos à solidão do brinquedo eletrônico. Aprendendo a vencer para não ser vencido, a matar para não ser morto, a confundir a vida real com a realidade virtual.

Mudamos nós quando esquecemos a simplicidade de uma brincadeira que favorece a intimidade e o toque, que aproxima mãos, olhares e corações, trocamos o pirulito-que-bate-bate, a lagarta pintada a pintalaínha, a brincadeira que investe na descoberta do outro na parceria na troca de informação e cooperação, pela passividade de telespectadores e cinéfilos.

Brinco com crianças toda a minha vida, aprendi com elas que benéfico é sempre o equilíbrio. Que elas tenham acesso a toda modernidade, mas também sejam garantidas horas livres, companheiros, espaços de vida ao ar livre, a oportunidade de inventar e criar seus próprios brinquedos, de conviverem entre si e interclasses, para aprenderem a respeitar o conhecimento alheio, valorizar a troca de saberes e desenvolverem uma convivência democrática e participativa na sociedade que tem na sua cultura da brincadeira, a identidade da infância brasileira.

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RUI BARBOSA ATUALÍSSIMO


SINTO VERGONHA DE MIM
Rui Barbosa - (1849-1923)

Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a
honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado
varonil enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter que entregar
aos meus filhos, simples e abominavelmente, a derrota das virtudes
pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade,
a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada
preocupação com o "eu" feliz a qualquer custo, buscando a tal
"felicidade" em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar
meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar atos criminosos, a tanta relutância
em esquecer a antiga posição de sempre "contestar", voltar atrás e
mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo
que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra,
das minhas desilusões e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir
meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da
honra, a ter vergonha de ser honesto.

*           *           *
                                                     

HOMENAGEM A ANITA C.GLEE

GLEE - Season Finale Performance - "Over the Rainbow"

domingo, 21 de novembro de 2010

TRÊS POEMAS DE MÁRIO QUINTANA

Jardim Interior
Mário Quintana

Todos os jardins
deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.

O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim
é esse olhar vazio
de quem por eles passa
indiferente.
**


Indivisíveis
Mário Quintana

O meu primeiro amor
sentávamos numa pedra
que havia num terreno baldio
entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas
como qualquer troca de confidências
entre crianças de cinco anos.

Crianças...
Parecia que entre um e outro
nem havia ainda
a separação de sexos
a não ser o azul imenso
dos olhos dela
olhos que eu não encontrava
em ninguém mais,
nem no cachorro e no gato da casa,
apenas tinham
a mesma fidelidade
sem compromisso
e a mesma animal - ou celestial
inocência,
porque porque o azul dos olhos dela
tornava mais azul o céu:
não, não importava as coisas bobas que disséssemos.

Éramos um desejo de estar perto
tão perto
que não havia ali apenas
duas encantadas criaturas
mas um único amor
sentado sobre uma tosca pedra
enquanto a gente grande passava,
caçoava, ria-se, não sabia
que eles levariam procurando
uma coisa assim
por toda a sua vida.
**

A carta
Mário Quintana

Hoje encontrei dentro de um livro
uma velha carta amarelecida.
Rasguei-a sem procurar
ao menos saber de quem seria.

Eu tenho um medo horrível
a essas marés montantes do passado,
com suas quilhas afundadas,
com meus sucessivos cadáveres
amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo
Eu venho sempre à tona
de todos os naufrágios.

*        *        *

BEETHOVEN SYMPHONY No. 6

UM FILME...

"GABY - UMA HISTÓRIA VERDADEIRA" - estréia do diretor Luiz Mandocki, em 1987.
(Gaby é portadora de grave deficiência física: não anda, não fala e movimenta apenas o pé esquerdo. Com enorme esforço e o incondicional amor de uma babá, consegue ir para a escola até o Ensino Médio. Está para entrar na Universidade, quando é acometida de desânimo e pensa em desistir.
Os trechos transcritos abaixo me impressionaram profundamente na época - há tantos anos...-  e marcaram, dali pra frente, um jeito de lidar comigo mesma.)

Um poema de Gaby:

"Como posso gritar
se não consigo falar?
Como posso deixar de amar,
com a semente
de uma mulher
dentro de mim?
Deus,
Se a vida é tantas coisas
que não sou e nunca serei,
dê-me forças
para ser o que sou."


O pai de Gaby conversa com ela...:

" (...) As coisas não são simples. Para ninguém. Nossas limitações podem ser menos aparentes, mas são reais como as suas. Talvez mais perigosas, por serem menos visíveis.
Você sabia que Beethoven era surdo quando compôs essa melodia? (o pai coloca no toca-discos um trecho de uma sinfonia do compositor alemão).
Como pôde compor uma música tão magnífica?  Ele ouviu de dentro, "aqui" dentro... (O pai aponta para a própria cabeça).  Um milagre. Mas um milagre que todos os homens compartilham. Fisicamente não somos diferentes dos macacos.  A verdadeira diferença está "aqui dentro" (aponta novamente para a própria cabeça) na música de Beethoven, nos textos de Kafka, nas cores de Van Gogh. Tudo é possível "aqui dentro" (mesmo gesto anterior).
Você não é incapaz. Você tem tudo o que é necessário para criar. Seu pé pode escrever as mesmas palavras que qualquer filósofo.
Nego-me a ter pena de você. Nós inventamos limitações que não existem.
A dificuldade é distinguir as limitações reais dos nossos próprios medos. "
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sábado, 20 de novembro de 2010

POIS É, PRA QUÊ?

MPB4 

DRUMMOND para CHARLES CHAPLIN

Canto ao homem do povo
Carlos Drummond de Andrade


Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama.

Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
políticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.
Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
força
do
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos.
*        *        *

O ÚLTIMO DISCURSO - CHARLES CHAPLIN

CHARLES CHAPLIN - no filme "O Grande Ditador"



Chaplin em "O Grande Ditador"

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

TERNURINHA

BILHETINHOS PARA DEUS, escritos por crianças    (traduzidas do original, em inglês).






Alguns são absolutamente inocentes; outros, já demonstram um pensamento filosófico.
São anjinhos pensantes, rsrsrs


Querido Deus,
Eu não pensava que laranja combinava com roxo até que eu vi o pôr-do-sol que Você fez terça-feira. Foi demais!  (Eugene)


Querido Deus,
Você queria mesmo que a girafa se parecesse assim ou foi um acidente? (Norma)


Querido Deus,
Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, porque você não mantém aquelas que você tem agora? (Jane)


Querido Deus,
Quem desenha as linhas em volta dos países?  (Nancy)


Querido Deus,
Eu fui a um casamento e eles se beijaram dentro da igreja. Tem algum problema com isso? (Neil)


Querido Deus,
Obrigado pelo meu irmãozinho, mas eu rezei por um cachorrinho. (Joyce)


Querido Deus,
Choveu o tempo todo durante as nossas férias e como meu pai ficou zangado! Ele disse algumas coisas sobre você que as pessoas não deveriam dizer, mas eu espero que você não vá machucá-lo. Seu amigo (mas eu não vou dizer quem eu sou)


Querido Deus,
Por favor, me mande um pônei. Eu nunca te pedi nada antes, você pode checar. (Bruce)


Querido Deus,
Eu quero ser igualzinho ao meu pai quando eu crescer, mas não com tanto cabelo no meu corpo. (Sam)


Querido Deus,
Eu aposto que é muito difícil para você amar a todas as pessoas no mundo. Na nossa família tem só quatro pessoas e eu nunca consigo... (Nan)


Querido Deus,
Meus irmãos me falaram sobre nascer de novo, mas parece muito estranho. Eles estão só brincando, não é?
(Marsha)


Querido Deus,
Se você olhar para mim na igreja domingo, eu vou te mostrar meus sapatos novos. (Mickey)


Querido Deus,
Nós lemos que Thomas Edison fez a luz. Mas na igreja  nós aprendemos que foi você. Eu acho mesmo que ele roubou sua idéia. Sinceramente, (Donna)


Querido Deus,
Eu não acho que alguém poderia ser um Deus melhor que você. (Charles)


TIMONEIRO

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PROJETO DE PREFÁCIO - MÁRIO QUINTANA


Projeto de Prefácio
Mário Quintana

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

*            *            *

FERNANDO PESSOA - Poema em Linha Reta (Álvaro de Campos)


Poema em linha reta
Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

*        *        *