quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DOIS DE ADÉLIA - A invenção... / Neurolinguística

A Invenção de um modo
Adélia Prado

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque que tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
**


Neurolinguística
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.

*        *        *
(in "Oráculos de Maio", Editora Siciliano)

DA LUZ À TINTA



“Nos dicionários, encontramos as seguintes definições para a palavra pintura : ato ou efeito de pintar; revestimento de uma superfície com matéria corante; arte e técnica de representar o mundo visível ou imaginário.
Cor é a sensação que a luz provoca no órgão de visão humana, e que depende, primordialmente, do comprimento de onda das radiações. Portanto, pintar é dar luz à tinta; é radiar imagens concretas repletas de significados.
Arte é a capacidade que o homem tem de, dominando a matéria, pôr em prática uma idéia.”
É a revelação do silêncio, da silenciosa voz de Deus que é cor em nós.
Nossos olhos solares são o presente de Íris, o mais etéreo dos arcos, traço de união entre o céu e a terra. As cores que contemplamos são os múltiplos tons das epifanias celestes. A cor é uma abstração, intocável, sacra e fugaz.
Por isso, terá sido tão difícil estudá-la, calculá-la. A alma é quem melhor a apreende. Ao longo de mais de dois milênios, nenhuma ciência foi capaz de fixá-la, nenhuma teoria jamais obteve unanimidade, nenhuma cerca a deteve. A cor é o hino do ilimitado.”


“Para pintar precisamos iluminar nossas idéias, isto é, conhecê-las. O conhecimento está diretamente relacionado à “clareza” dos fatos e das coisas; portanto, o pintor é aquele que através de sua pintura se ilumina e esclarece um assunto.
Pintar um objeto, a natureza, os seres e os sentimentos significa conhecê-los em profundidade. O que são, de onde vieram, qual a sua identidade ou história, como se apresentam, para que servem, que sensações nos causam, e por que nos chamaram a atenção.”


“É importante ressaltar que antes de qualquer coisa a pintura é uma forma de comunicação, sendo um poderoso instrumento para formação de opinião. Primeiro o artista se emociona, depois pinta, ou seja, expressa sua emoção, e com isto faz com que os outros se emocionem para depois se expressarem também.
O ato de pintar representa um exercício do pensamento sobre o mundo que o cerca e o conduz à reflexão.”


“ A cor é o teclado,
os olhos são os martelos,
a alma é o piano
com suas várias cordas.
O artista é a mão que toca
uma tecla após outra
para fazer vibrar a alma.”


               Wassily Kandinsky


Impressionista


Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.


                                Adélia Prado





quarta-feira, 17 de novembro de 2010

HAI KAIs do MILLÔR FERNANDES


Olho alarmado:
   e se a vida for
       do outro lado?


                        No aeroporto cheio
                               eu aproveito
                                  o adeus alheio.


Morto de ciúme
   sob a luz da lua
      vaga-lume lume.


                                  CELEBRIDADE...
                                        Nem me contem !
                                             Eu era tão famoso
                                                 antes de ontem...



Pensa o outro lado:
     só quem tem fama
        é difamado.

*        *        *

PEQUENOS TOQUES



"Na vida é preciso
tanto seriedade quanto delírio.
Se tiveres mais de um pão,
vende um e compra um lírio."  (da Sabedoria Oriental)

* *  *

"Cumpriu-se o mar,
e o Império se desfez.
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
se a alma não é pequena."  (Fernando Pessoa)

* * *

"Os grandes amigos
são como árvores
de grande porte:
quando elas partem
as raízes ficam
aquém da morte."  ( Luís Veiga Leitão, in: Rosto por dentro)

* * *

"Há pensamentos que são orações.
Há momentos nos quais
seja qual for a posição do corpo,
a alma está de joelhos."  (Victor Hugo)

* * *

"Entre a cigarra e a formiga
nenhuma está com a razão;
a vida não é só cantiga
nem só fazer provisão."  (Nei Damasceno)

GOSTO DE PÁSSAROS

Num ramo
da minha acácia
bem te vi primeiro
bem te vi inteiro
cheio de graça..
                  Itatiaia, abril de 2006

COISAS GUARDADAS





Maio/2008
O ADEUS À "SENHORA DONA DO BAILE"

Até mais ver, Zélia


É isso mesmo. Até mais ver. Porque você – e vai me perdoar o tratamento, pois que o meu tempo-convivência com seus livros talvez me confira esse direito – me levou a conhecer com “Anarquistas, Graças a Deus” a saga de muitos imigrantes, a vinda deles para o Brasil no início do século XX. A fuga da Itália, o caminho percorrido, as dificuldades em chegar a um país estranho e ser um estrangeiro em outro país saído recentemente da escravidão.

É uma história familiar, um álbum de memórias, de lembranças, de recordações de uma família italiana como qualquer outra, mas que, também como toda família, tem uma história especial, cercada de alegrias e preocupações, com questões ideológicas e valores particulares.

Uma história simples mas comovente, e que me levou a pensar nas tantas situações que fazem muitas famílias saírem de sua terra e tentarem sobreviver em outro país, e mais que sobreviver, viver com dignidade.

Quando o li – eu também filha de imigrante – senti mais fortemente como as histórias de família estrangeira nos acompanham para sempre e dão maior ênfase à nossa cidadania brasileira. A identificação com a personagem – no caso você mesma – foi tanta que várias vezes voltava às páginas desse livro, e a sensação era de proximidade, de familiaridade mesmo, nos vários episódios que você relatava.

A partir desse livro, confesso que ficava ansiosa pelos outros que viriam. E eles vieram. “Um chapéu para viagem”, seu segundo livro, me fez rir, me fez chorar, me encantou e me ensinou outras tantas coisas necessárias à boa convivência em família. Depois, com “Jardim de Inverno” e “Senhora Dona do Baile”, “viajei” com vocês pela Europa, entendi como as viagens nos fazem crescer e nos enriquecem espiritualmente, e como, apesar de diferentes, todas as culturas se tocam ao tratar da essência do ser humano, que é, afinal o que todos somos: iguais em nossas diferenças culturais.

E – maravilha das maravilhas – muito cedo, minhas filhas puderam conhecer o seu talento de escritora e seu amor de mãe e avó. Elas tiveram o privilégio de ler “Pipistrelo das mil cores” , o “dragãozão”, diziam, e com ele iniciar a fascinante aventura da ficção. Hoje, meus netos também seguem essa viagem e se emocionam, se divertem, aprendem. Por isso, Zélia, sou-lhe muito grata.

Lembro-me agora de ter lido um trecho de seu discurso por ocasião de sua entrada na Academia Brasileira de Letras, dirigindo-se ao seu Jorge Amado, em que você disse: ... "não sabia que eu tinha uma estrela que me guiaria para nosso encontro" . Penso que todos nós temos, em algum momento de nossa vida, uma estrela que nos leva ao encontro, ainda que por meio dos livros, de pessoas que nos tornam melhores porque nos deixam o melhor de si mesmas.
Até mais ver, ZÉLIA GATTAI.

Sueli Madeira.
Itatiaia, 17 de maio de 2008

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O ano se inicia em 2007, e nada melhor do que os versos de Thiago de Mello em uma linda peça publicitária.  Depois, fragmentos, recortes, textos que resolvi guardar.


Janeiro/2007
Fragmentos de "O Estatuto do homem"
"Artigo II
Fica decretado que,
a partir deste instante,
as janelas devem
permanecer o dia inteiro
abertas para o verde."
(...)
"Artigo III
A palavra liberdade
será suprimida
dos dicionários.
A partir deste instante
será algo vivo,
como o fogo e o mar."
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Resumo de artigo sobre Chico Buarque
Depois de 8 anos sem lançar um disco com músicas inéditas, Chico Buarque saudou o público com o CD "Carioca" e um novo DVD, "Desconstrução" - gravação do mesmo show "Carioca."
É bom tê-lo de volta. Ele fala pouco, mas é sempre polêmico. Desglamourizou o rótulo de "símbolo sexual" a ele atribuído e mostrou a uma sociedade movida pela busca dos 15 minutos de fama que há coisas mais importantes na vida.  Sem vaidade, disse que era ridículo chamar de sexy um sexagenário como ele.
O retorno desse ícone da MPB é um bom augúrio para 2007.
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 Recortes de publicidade:
1."Bem estar é olhar para dentro em busca de respostas."

2."O NOVO
O novo incomoda.
Por quê?
porque desafia.
Mas, queiram ou não, o novo sempre vem.
E, para nossa felicidade,
o novo geralmente vence.
E, quando o novo vence,
a máquina do mundo gira melhor.
Novos projetos deixam as tristezas
numa agenda que não se abre mais.
Novas crianças surgem para nos dar as mãos.
Novos passos exigem de nós coragem.
O novo é belo porque nos muda,
nos leva a novas estações.
O novo nos torna melhores.
O novo é lindo."
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Fevereiro/2007 
Poesia para regar o dia - Elisa Lucinda (in: A fúria da beleza)
A ESTRADA
A porta parece com a dona:
só abre por dentro,
não é preciso bater,
só batucar com sentimento.

Uma mulher, meu amigo...
o que é uma mulher, meu amigo?
Senão uma casa, um lar,
senão uma estrada a raiar?
Então a mulher é mais que uma porta de entrar,
e é você quem a abrirá.
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Julho/2007

Penso que sou como as árvores:
às vezes, floresço,
às vezes, me desfolho -
tudo a seu tempo.
E assim,
vou me submetendo às minhas
estações interiores.
No céu navego,
olhar aberto
de sol e nuvens.
Me banho à luz do poente.
Às vezes não sei
se sou ar, terra ou mar.
Enfim, sou todo o universo:
um verso no ar,
na terra e no mar.
Então, quem sou eu?
                               Itatiaia, 05/7/2007


Outubro/2003

Ao 1º ano de Letras
Resende, 03 de outubro de 2003

Caros Alunos :
Vocês não imaginam com que prazer assisti à apresentação do trabalho “Cartas para Maria”, que tão bem souberam divulgar e valorizar.

A leitura das mensagens, o belo texto da colega poetisa, o poema de Fernando Pessoa, maravilhosamente dito, sem os exageros declamatórios tão comuns e que costumam destruir o conteúdo poético, tudo, tudo mesmo, foi uma demonstração de bom-gosto .

Posso lhes garantir que me emocionei várias vezes durante a apresentação, tanto pela revelação de um extraordinário ser humano como Dona Maria, mas também e principalmente pelo respeito e admiração que vocês têm por ela.

É raro, raríssimo, em dias tão turbulentos e imediatistas, realizar-se uma reunião como a da quinta-feira passada, em que estudantes envolvidos e compromissados com a carreira que escolheram, demonstram a mais alta sensibilidade ao trazer-nos a poesia e a delicadeza das cartas, forma de comunicação quase abolida em nossa sociedade atual, pela ansiedade da sobrevivência e pressa em obter resultados.

Nosso enorme poeta – Manuel Bandeira – que insistia em se intitular “poeta menor”, em um discurso proferido quando foi paraninfo de uma turma dizia sentir-se mais próximo dos alunos porque se tornara um “estudante vitalício”.

Faço esta alusão para que sintam que os caminhos da vida são muitos e às vezes imprevisíveis : não se trata apenas de ir em busca do diploma, mas no esforço de se aprimorar sempre dividindo a experiência e o conhecimento adquiridos.

Vocês caminham no sentido da responsabilidade com a profissão: os resultados, para nós, não aparecem de imediato – antes, pedem paciência, labor e crença numa geração que poderá acrescentar muito à cultura e ao ensino em nosso país.

Só tenho a agradecer pelos lindos momentos que me proporcionaram e, acredito, a todos os que estiveram presentes, esperando que tenhamos muitos outros eventos como esse.

Contem com a minha inteira dedicação no que lhes puder ser de alguma valia.

Sua professora
Sueli Madeira.
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Outubro/2001

“PRIMAVERA ENTRE OS DENTES” - Sueli Madeira

A noite de quinta-feira, 26 de outubro, aqui na AEDB, nos trouxe não apenas o espetáculo teatral, mas a demonstração concreta do espírito de equipe, da força de um grupo coeso, com o mesmo objetivo – a divulgação do conhecimento e da cultura.

 Numa colagem de textos de autores consagrados em língua portuguesa, alunos do 1º ano do Curso de Letras deixaram extravasar toda a perplexidade do jovem diante do mundo. Essa perplexidade não é patrimônio do nosso tempo, comprovaram-na os textos dos escritores de várias gerações e de estilos diversos; são vozes que se misturam ao nosso cotidiano e nos fazem atentar para a nossa condição humana.

A idéia surgiu da vontade de ver o ensino da língua ativado, valorizado nos textos que muitas vezes depois de lidos e apreciados ficam somente na lembrança e no currículo dos que tiveram oportunidade de conhecê-los mais aprofundadamente – no caso, os estudantes do Curso de Letras.

 A compilação dos textos partiu como sugestão aos alunos; depois, cada aluno que se identificava com esse ou aquele autor, escolheu, dentro de uma linha para o roteiro da apresentação, o texto que mais o tocara. Começaram, então, a surgir mais e mais idéias – uma avalanche – desencadeadas pela possibilidade de se levar às pessoas a alegria da descoberta, do conhecimento de um mundo até então considerado apenas de sonho, fantasia que não cabe em nossa realidade tão pragmaticamente assustadora.

 Passou-se, então, ao estudo, à pesquisa, à leitura de obras variadas – mesmo que dentro do conteúdo do 1º ano ainda não tivessem sido abordadas – mas que certamente representam o melhor do pensamento de poetas e escritores em nossa língua. Foi, como já disse, um trabalho de participação efetiva, de coesão, de grupo.

 O empenho da turma se revelou nas formas mais variadas: pesquisas sobre a época em que viveram os autores, contexto social, político, econômico, sua visão de mundo, seu estilo pessoal, enfim, a busca de uma informação do passado que nos orienta e influencia mesmo nos dias atuais.
 Confiamos que esse trabalho não se esgote com essa apresentação, mas que se desenvolva como parte da preparação dos futuros profissionais do ensino da Língua Portuguesa, pela compreensão de que toda teoria precisa do reforço da prática contínua, da aplicação das habilidades adquiridas em um Curso tão enriquecedor.

 Agradecemos a todos os que nos ajudaram a concretizar nossa idéia e particularmente à disponibilidade e boa vontade dos alunos – pessoas que, como todos nós, precisam, muitas vezes, de abrir mão de seus compromissos, seu lazer, seus cuidados com a família, para se dedicar a um projeto como esse.

 Mais do que entretenimento, foi uma oportunidade de reflexão, uma pausa na correria, uma “parada estratégica”.
Obrigada a todos e até mais.
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DA VOVÓ, COM MUITO CARINHO


Presenteei meu primeiro neto, no seu 11º aniversário, com este livro em 3 de setembro de 2001.
O texto me emociona até hoje, e gosto de fazer esta leitura para cada um dos outros netos lindos.


Com a chegada de cada neto, nós, as vovós, sentimo-nos como se tivéssemos recebido uma medalha.
A maior, a mais dourada. Não existe honra maior do que ver que nosso bebê teve seu próprio bebê.

No dia em que nasceste, todos nós da família te contemplávamos extasiados. Nos emocionava perceber quanto eras frágil. Frágil? Bastou tua mãozinha agarrar meu dedo para que meu mundo desse uma volta completa.
Desde então, nada mais foi o mesmo em meu mundo: és o melhor presente que a vida me deu.

Quando te ninava em meus braços para te fazer dormir, perguntava-me quem desfrutava mais esses doces momentos.
Respondendo às tuas perguntas inquietas e consolando-te quando estavas triste, encontrei respostas que busquei a vida toda e alegrias com que jamais sonhei.
Desejo que tenhas tempo para sonhar, tempo para recordar e tempo para alcançar as estrelas. Tempo para que sejas o melhor que houver em ti.

Eu te prometo
Que quando vieres me ver, minha casa será sempre redonda: não terá arestas, perigos ou discussões.
Comeremos chocolate na cama e não contaremos nada a ninguém...
Meu programa de televisão favorito será o teu, embora elejas um novo a cada dia.
Rirei de tuas piadas a cada vez que as contes, mesmo que as contes mil vezes...
E sempre,
Sempre terei tempo para te escutar ou para, simplesmente, ficar a teu lado.


Minha receita de Felicidade
Pega 200 gramas de amabilidade e despeja alguns pensamentos positivos. Junta uma pitada de tolerância e bastante alegria.
Não meças o amor, mas espalha-o generosamente. Mistura tudo com tuas próprias mãos e logo terás produzido um dia feliz.
Para ti e para todos.

Uma vez por mês participo da competição mais difícil : uma reunião de velhas amigas.
Cada uma exibe as últimas fotos de seus netos e conta orgulhosa tudo o que fazem ou dizem de extraordinário.
Receio que não voltarão a me convidar porque lhes ganho a todas.

Nós dois compartilhamos grandes segredos:
que, às vezes, teus pais podem ser um pouco difíceis,
que conseguimos colar os pedaços daquele vaso que quebraste “sem querer”
e que tens que me dar cada vez mais vantagens quando apostamos corridas.
Precisamos um do outro...


Eu te contarei coisas que aconteceram há muito tempo...
Tu me ensinarás a usar o DVD...o computador...
Eu te darei conselhos... e logo zombaremos deles, porque o melhor é que aprendas a viver com tuas próprias experiências.

Graças a ti lembrei que a diversão é algo muito sério e que a curiosidade nos leva a grandes descobrimentos.
Que mesmo as coisas mais pequenas (uma balinha de brinde, uma história antes de dormir ou uma visita que me faças) podem ser os maiores dos prazeres.

Imaginei que me tornaria avó no entardecer de minha vida . Entretanto, chegaste e ainda me sinto a mais jovem das mulheres : que alegria voltar a percorrer este caminho com a responsabilidade única de te amar muito...
Talvez eu não possa te acompanhar em todas as etapas de tua jornada, mas meu amor abençoará cada um de teus passos.


Não há nada mais cálido que uma tarde de sol. Em uma praça, no campo ou junto ao mar.
Não há nada mais refrescante que a água cristalina, no leito de um riacho, à sombra de uma árvore.
Não há nada mais misterioso e belo que o fogo e a dança das chamas.
Não há nada mais estimulante que o ar : enche nossos pulmões e faz o coração bater ainda mais forte.
Sol, água, fogo, ar : desfruta a natureza , sê livre e ajuda a conservá-la .


Hoje te trago muitos presentes aqui em meu bolso. Quase, quase não couberam porque são muito grandes.
Vou deixá-los sobre tua cama.

Trago-te de presente uma biblioteca cheia de livros : se aprenderes a amá-los como amigos, serão tão fiéis que nem a solidão nem o tédio virão te aborrecer.

Trago-te de presente a paciência. Sei que não gostas muito disso (queres tudo agora mesmo), mas precisarás dela para realizar todos os teus sonhos.
Eu mesma tive que esperar muito por esta maravilha de ser tua vovó.


Trago-te de presente o futuro.
É todo teu e tudo o que fizeres hoje te servirá para transformar o amanhã num mundo melhor. O teu mundo.


Trago-te de presente a alegria de saber que Deus está sempre contigo. Lembra disso se estiveres triste ou muito feliz.


Trago-te de presente o amor e a confiança de toda a família.
Desfruta cada oportunidade de estarem juntos : não importa o que te aconteça ou o que faças, todos te apoiarão incondicionalmente.
Esta união será para ti, muitas vezes, o ninho em que buscarás abrigo e, outras, lugar onde encontrarás a força necessária para voar muito alto.


Jamais tenhas vergonha de expressar teus sentimentos. É verdade que eles brotam do coração, mas nunca os escondas.
As palavras formam um laço invisível e poderoso com aqueles que amamos.


Então, apesar de já tê-lo feito tantas vezes, abraço-te muito perto de meu coração e volto a dizer o quanto te amo.
E porque preenches com luz e alegria cada dia de minha vida...
desejo ser sempre a tua aliada, tua companheira, uma grande amiga.
Mas, acima de tudo, a mulher mais orgulhosa do mundo: tua vovó.

(Lidia María Riba. Da vovó, com muito carinho. Buenos Aires, Argentina. Vergara & Riba Editoras)







Anunciação


Você já sabe, Anjo, que é bem-vindo.
Você pode sentir, melhor que nós
esta ternura; no tom da nossa voz
não há promessas de um mundo lindo,
do modo a que você se acostumou.
Não, não é assim nosso lugar aqui.
Mas, sem temores, venha, sem receios.
À sua espera estão os nossos braços,
para, no melhor de todos os cansaços,
levá-lo ao colo e embalar seu sono.
Em seu caminho, todos os matizes
do Amor, que só os mais felizes
são capazes de dar e receber,
essa promessa, sim, você a tem.
Pois quando vem ao mundo uma criança,
renova-se na Terra a Esperança,
e essa Esperança é você, Nenen.
                              Sueli Madeira (maio de 1990)
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domingo, 14 de novembro de 2010

DUETO DE GATOS - ária de uma ópera de Rossini


Este vídeo me foi enviado por uma amiga e ex-aluna, a Irimar (Mazinha), e eu achei uma gracinha.
A expressão facial e a postura corporal dos meninos são incríveis! Transmitem respeito pela melodia, não importando se no momento se trata de uma brincadeira.  Estão concentrados, preocupados em não errar uma nota da ária linda de Rossini. Além do que, os garotos são mesmo uns gatinhos.

FRANCISCO OTAVIANO - Ilusões da vida


Quem passou pela vida em brancas nuvens
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida... não viveu.

*            *            *

sábado, 13 de novembro de 2010

CIÊNCIA POÉTICA


SERÁ A CIÊNCIA ASSASSINA DA POESIA?

Ciência e poesia pertencem à mesma busca imaginativa humana, embora ligadas a domínios diferentes de conhecimento e valor. A visão poética cresce da intuição criativa, da experiência humana singular e do conhecimento do poeta. A Ciência gira em torno do fazer concreto, da construção de imagens comuns, da experiência compartilhada e da edificação do conhecimento coletivo sobre o mundo circundante. Tem como vínculo restritivo, ao contrário da poesia, o representar adequadamente o comportamento material; tem, mais profundamente que a leitura poética do mundo, a capacidade de permitir a previsão e a transformação direta do entorno material. As aproximações entre Ciência e poesia revelam-se, no entanto, muito ricas, se olhadas dentro de um mesmo sentimento do mundo. A criatividade e a imaginação são o húmus comum de que se nutrem. Na origem desses dois movimentos, as incertezas de uma realidade complexa que demanda várias faces.
(excerto do Projeto Ciência para poetas, realização da Casa da Ciência)


Possíveis aproximações...


Budismo moderno - Augusto dos Anjos

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
**
 
A idéia - Augusto dos Anjos

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.
**
História de um Átomo (Eternidade da matéria)
Rodolfo Teófilo

Fui átomo de rocha, fui granito,
Fui lava de vulcão, fui flor mimosa,
Sutil perfume, nuvem borrascosa
Manchando a transparência do infinito.

Vaguei no espaço... errante aerolito
Transpus mundos de essência vaporosa.
De santos fui artéria vigorosa,
O coração formei a ser maldito.

Nasci com a Terra; gaz eu fui com ela,
Estive de Princípio na procela,
Fui nebulosa, sol, planeta agora.

Há cem mil séculos vivo m’encarnando,
Águia n’altura, verme rastejando,
Pólen voando pelo espaço a fora.
**
Máquina Breve - Cecília Meireles

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva

— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,

jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.

Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

**

Quanta - Gilberto Gil / Arnaldo Antunes

Quanta do latim
Plural de quantum
Quando quase não há
Quantidade que se medir
Qualidade que se expressar

Fragmento infinitésimo
Quase que apenas mental
Quantum granulado no mel
Quantum ondulado do sal.
Mel de urânio, sal de rádio
Qualquer coisa quase ideal

Cântico dos cânticos
Quântico dos quânticos

Canto de louvor
De amor ao vento
Vento arte do ar
Balançando o corpo da flor
Levando o veleiro pro mar
De pensamento em chamas
Inspiração
Arte de criar o saber
Arte, descoberta, invenção
Teoria em grego quer dizer
O ser em contemplação

Cântico dos cânticos
Quântico dos quânticos

Sei que a arte é irmão da ciência
Ambas filhas de um Deus fugaz
Que faz num momento e no mesmo momento desfaz.
**
Grafito Para Maiakovski - Murilo Mendes

Um cosmonauta cantando dá volta ao cosmos
Enquanto eu desfaço a barba.

Constrói-se a décima musa
Economia dirigida Unatotal
Que deverá mover o homem novo

Planifica-se nos laboratórios
A futura direção dos ventos
Extrai-se a energia das algas
Opera-se o sol

Eletrifica-se a eternidade
Reversível
Entretanto
O PLANETA NÃO ESTÁ MADURO PARA A ALEGRIA.
 
*            *            *

MARCELO GLEISER - As marés

AS MARÉS
Marcelo Gleiser - físico e astrônomo


Quando pensamos em nossa conexão com o cosmo, ao menos com relação ao que nos afeta diretamente aqui na Terra, pensamos logo na luz e no calor vindos do Sol ou na luz da Lua e das estrelas.

Pensamos também na gravidade, que faz a Terra girar ao redor do Sol. 
A noção de gravidade como uma força que age entre dois ou mais corpos com massa só foi esclarecida por Newton em 1687, ano em que sua grande obra foi publicada, ‘Princípios Matemáticos da Filosofia Natural’.
Nela, Newton aplicou suas idéias a fenômenos até então inexplicáveis, como a existência das marés, as órbitas dos cometas ou o fato de a Terra ser ligeiramente achatada nos pólos. (Havia um debate entre ingleses e franceses sobre a forma da Terra; os franceses alegavam que a Terra era achatada no equador e os ingleses nos pólos.)

O fenômeno das marés é a conexão mais tangível que temos com o efeito da gravidade da Lua e do Sol aqui na Terra. Ele é, também, fonte de muita confusão.

Galileu, que viveu antes de Newton e desconhecia o conceito de força gravitacional, tentou usar as marés para provar que a Terra não só girava ao redor do Sol como em torno de si própria.
Imagine uma criança correndo numa pista circular e ao mesmo tempo girando em torno de si mesma.
Galileu argumentou que a maré é alta ou baixa dependendo de como esses movimentos se completam: na região em que ambos têm a mesma direção, a terra avança mais rapidamente do que as águas e a maré é baixa; quando os movimentos se opõem, a maré é alta. 
Mas a teoria de Galileu tinha problemas.

Na maioria das regiões costeiras, há diariamente duas marés altas e duas baixas. 
O nível das águas pode variar de centímetros a metros. 
Por exemplo, na região entre a costa leste americana e canadense existe uma baía onde as marés altas alcançam 20 metros.
Mesmo que as marés sejam uma combinação das ações do Sol e da Lua sobre a Terra, vamos nos concentrar primeiro na ação da Lua. 
A força da gravidade cai com o quadrado da distância.
Portanto, imaginando uma linha ligando a Terra à Lua, a atração da Lua sobre a Terra será maior na parte da Terra à sua frente, pois é a mais próxima.

Tanto os oceanos quanto a superfície da Terra são atraídos pela Lua, causando uma deformação em sua direção.
As águas, mais maleáveis do que o material rochoso da Terra, são mais mobilizadas, resultando em maré alta. 
As regiões perpendiculares à linha ligando Terra e Lua sofrem uma maré baixa.
E as outras duas marés? 
Voltando à linha imaginária, a parte da Terra oposta à Lua também sofre uma maré alta: embora a atração da Lua sobre a Terra ali seja mais fraca do que na parte de frente para a Lua, é ainda maior do que a atração sobre o oceano, que está mais longe.
Com isso, a superfície da Terra é ‘puxada’ debaixo do oceano, aumentando sua profundidade, ou seja, causando a maré alta.
Como a Terra completa um giro por dia, as duas marés altas ocorrem com um intervalo aproximado de doze horas.

A influência do Sol causa deformação semelhante, mas não tão drástica. 
A combinação das duas influências explica a variação da altura das marés no decorrer do ano.
Durante Lua nova ou cheia, quando Lua e Sol estão alinhados, as marés são mais pronunciadas. 

Ver a maré subindo e descendo é ver a coreografia entre Terra, Lua e Sol, regida pelas mãos da gravidade.
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BULLYING


Segundo o site da ABRAPIA, “o termo BULLYING compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder”.


Bullying é a arma de pessoas medíocres.
Medíocre, é aquele que tem poucos méritos. Pouca inteligência e nenhum futuro.


Bullying é a arma de pessoas ridículas.
Ridículo, é aquele que é insignificante, que tem pouco valor. Se acha belo o bastante para sacanear a magrela que sucederá um dia a Gisele nas passarelas do mundo e magro o suficiente para rotular o gordinho que será campeão mundial de judô.


Bullying é a arma de pessoas canalhas.
E o canalha é o grau mais baixo da ralé. Só se sente alguém na vida, quando xinga o colega, cospe no indefeso e maltrata a mulher.


Bullying é arma de pessoas fracas.
E fraco, é aquele que tem pouca consistência, insignificante, frouxo. Só se sente forte quando faz parte da turma. Medroso, está sempre necessitando dos outros para atacar, achando que nunca vai precisar se defender sozinho.


Bullying é a arma de pessoas idiotas.
Idiota, é aquele  incapaz de coordenar as idéias. É estúpido o suficiente para acreditar que riscando o carro de alguém vai um dia se dar bem na vida.


Bulling é a arma de pessoas covardes.
Covarde, é aquele que só é valente com os mais fracos, que agride à traição. Se acha o maioral quando agride um “baixinho” menor que ele. Esquece que o mundo gira em torno de si mesmo trazendo um dia após o outro. Vai encontrar, de certo, o baixinho em seu carro importado, levantando poeira da rua que está varrendo.


Bulling é a arma de pessoas pedantes.
Pedante, é aquele que se acha sábio. Acha que pode tudo, que sabe tudo, que é melhor do que os outros. Mal sabe que é um charlatão, um bocó, um Zé Ninguém que a vida vai trucidar na próxima esquina.


Bullying é a arma de pessoas fúteis.
O fútil é oco, não tem nada dentro. Um boneco de carne e osso, um nada ambulante, uma matéria orgânica. Um não humano.


Bullying é sinônimo de arrogância, petulância, babaquice, sordidez. Bulyling é igual a covardia, canalhice, idiotice, estupidez. Bullying é tudo de ruim, tudo que não presta, só que escrito em inglês.
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ALCEU WAMOSY - A tortura


A Tortura
Alceu Wamosy

Que triste é ser-se assim, forte e descrente!
Não ter o alívio das consolações
que vêm do pranto bom, do pranto ardente,
e do bálsamo ideal das orações!

Não poder ser igual a toda a gente!
Trazer o coração, dos corações
dos outros seres todos, diferente:
viúvo de crenças, ermo de ilusões!

E, nas horas amargas da desgraça,
quando a procela da alma ulula e cresce,
como um terrível furacão que passa,

ante a explosão de desespero tanto,
a boca ter fechada para a prece,
ter os olhos rebeldes para o pranto!. . .

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PLENITUDE - MANUEL BANDEIRA


PLENITUDE - Manuel Bandeira

Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto. fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura.

A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes,

Entra-me como um vinho acre pelas narinas...
Arde-me na garganta... E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem na exalação de cada terebinto.

O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas

Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude...
Canta em minh'alma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude
- Belo como Davi, forte como Golias...

E neste curto instante em que todo me exalto
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo.

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida...
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida!

*            *            *

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

HAI KAI

                       
                      
                       LUAR
                       Faz sua cama
                       E se esparrama
                       Pelo mar.
                                            
                         Sueli
                        Resende, 28/7/10