quarta-feira, 30 de março de 2011

CECÍLIA MEIRELES - CANTIGA OUTONAL

Cantiga Outonal
Cecília Meireles

Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...

*        *        *


Em  'Nunca Mais e Poema dos Poemas'

Carmel A-Cappella - Vivaldi - The four seasons - The spring כרמל א-קפלה



Maravilhaaaa! Hoje é dia de receber coisas lindas! Incrível como, no mesmo dia, outra amiga - a Talma - me envia, também por e-mail, este vídeo. Estou lisonjeada com tanto agrado. Obrigada, amigas de verdade!

domingo, 27 de março de 2011

How can i go on _ FREDDIE MERCURY & MONTSERRAT CABALLÉ

Fica linda a junção das duas vozes, não?

"A MAN'S WORLD James Brown & Pavarotti



Gosto muito quando se juntam cantores eruditos e cantores populares.

ARTUR DA TÁVOLA - AMOR MADURO

AMOR MADURO
Artur da Távola

O amor maduro não é menor em intensidade.

Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.

Não carece de demonstrações: Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
amplia-se com as usências significantes.

O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.

Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca
e do cheiro do outro – está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.

Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.

Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo.

*        *        *

sábado, 26 de março de 2011

CORA CORALINA - ACEITA UM CHÁ DE JASMIM?


Aceita um chá de jasmim?
Cora Coralina
Encha um bule em forma de pássaro
com água do orvalho…
ou das tuas lágrimas.
Ponha-o em fogo brando
até que a água comece a sorrir.
Escute o suave ruído crescer
até se tornar uma gargalhada
de onda revolta.

Retire e despeje numa taça de porcelana,
suave como os fios do bicho-da-seda,
onde já repousaram as folhas do chá-de-jasmim,
colhido por virgens
no terceiro mês da Lua Brilhante.

Mexa com uma colher de porcelana vermelha
pintada de dragões.

Depois, cubra a taça com um pedacinho
de seda azul – cor do céu depois das chuvas.

Sentirá um aroma doce
como o do “Jardim das Flores que não Murcham Nunca”.

Leve a taça aos lábios
e beba devagar sete pequenos goles.

Teu corpo ficará leve como a pimeira névoa da manhã,
e então, somente então,
sentirás a felicidade suprema…

*        *        *

quinta-feira, 24 de março de 2011

CECÍLIA MEIRELES - A ARTE DE SER FELIZ



A Arte de Ser Feliz
Cecília Meireles

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente,
que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

*            *            *
                                                             

JORGE LUIS BORGES - ARTE POÉTICA


Arte poética


Fitar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.


Sentir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.


No dia ou no ano perceber um símbolo
dos dias de um homem e ainda de seus anos,
transformar o ultraje desses anos
em música, em rumor e em símbolo,


na morte ver o sonho, ver no ocaso
um triste ouro, tal é a poesia,
que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.


Às vezes pelas tardes certo rosto
contempla-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nosso próprio rosto.


Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, sem prodígios.


Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

*            *            *

BORGES, Jorge Luis. O fazedor. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

quarta-feira, 23 de março de 2011

LYA LUFT - "PENSAR É TRANSGREDIR"


"(...)
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores.  E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado ao urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar."
...............................................................................................

Um pouco de silêncio

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.
Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações.  Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
(...)
Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo - ou em trilhas determinadas - feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma.
(...)

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move ou faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos. Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar, praia ou campo.
(...)

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de ver quem - ou o que - somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Mas, se a gente aprede a gostar um pouco de sossego, descobre - em si e no outro - regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente ruins.
(...)

Então, por favor, me deem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.
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Pensar é transgredir / Lya Luft - 6ª ed. - Rio de Janeiro. Record, 2004, p.41-43



terça-feira, 22 de março de 2011

ABRAHAM LINCOLN



"Não criarás a prosperidade se
desestimulares a poupança.
Não fortalecerás os fracos se
enfraqueceres os fortes.
Não ajudarás o assalariado se
arruinares aqueles que o pagam.
Não estimularás a fraternidade humana se
alimentares o ódio de classes.
Não ajudarás os pobres se
eliminares os ricos.
Não poderás criar estabilidade permanente
baseada em dinheiro emprestado.
Não evitarás dificuldades se
gastares mais do que ganhas.
Não fortalecerás a dignidade e o ânimo se
subtraíres ao homem a iniciativa e
a liberdade.
Não poderás ajudar os homens de maneira
permanente se fizeres por eles aquilo que
eles podem e devem fazer por si próprios."

Abraham Lincoln (Hodgenville, 12 de fevereiro de 1809 — Washington, 15 de abril de 1865) foi um político estadunidense, 16° presidente dos Estados Unidos de março de 1861 até seu assassinato em abril de 1865.


E ainda disse:

"Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder."

segunda-feira, 21 de março de 2011

FERNANDO PESSOA - Segue teu destino... (Ricardo Reis)


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
do que nós queremos.
Só nós somos sempre
iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
dizer-te. A resposta
está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
no teu coração.
Os deuses são deuses
porque não pensam.

*        *        *
   
     Ricardo Reis, 11/12-9-1916
     Fernando Pessoa, Obra Poética - Ficções do Interlúdio - Odes de Ricardo Reis

FERNANDO PESSOA (ele mesmo)

Tela de ANITA MALFATI - A Ventania


Sopra demais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...

Talvez esta cousa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta cousa calma
Que me faz a alma vivida...

Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.

Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!...

*            *            *
   
Fernando Pessoa, 01-12-1914
('Cancioneiro', in Obra Poética)

sábado, 19 de março de 2011

"ENTREOUVIDO POR AÍ"

"Entreouvido por aí" é uma seção da Revista de Domingo do Jornal "O Globo" (nem sei se ainda continua). Recolhi algumas frases curiosas...
Acredito que sejam produção do próprio jornal, embora venham com crédito para as pessoas que - supostamente - enviaram. (Os nomes são muito suspeitos, kkkkk!!!!)





"Você não tá com frio, não?"
"Nem com frio nem com calor. Estou no meio ambiente."
Papo de duas funcionárias de um supermercado em Copacabana - (Antonia Barbosa)

"Você sabe o que é cerimônia bucólica?"
"Não."
"Nem eu. Deve ser alguma religião."
Conversa de uma cliente, que folheava uma revista, com a manicure de um salão em Botafogo - (Juliana Menezes)

"Vou tentar ser super-heroi, mas se for muito difícil vou ser médico mesmo."
Menino de 5 anos respondendo à mãe sobre o que quer ser quando crescer. - Maria Helena Schweizer

"Minha mãe não me deixa ficar com ninguém para não pegar gripe suína."
Menina de 15 anos a amigos - (Flávia Mesquita)

"Estou usando uma cinta antigordura, anticelulite, antiestrias. Em outras palavras, não consigo respirar."
Mulher desabafando com uma amiga em cerimônica de casamento na Urca - (Lester Confessor)

"Amor, tô indo cair no mar, se eu morrer afogado você fica com tudo."
"Tudo o quê? As 42 prestações do carro?"
Papo de marido e mulher no Arpoador - (Tom Leão)

"Querido, se colocarem São Pedro, Santo Antônio ou São João num cavalo, pra mim é tudo São Jorge."
Mulher evangélica para o marido católico num shopping em Nova Iguaçu - (Paulo Renato Wowô)

"As músicas da Igreja Católica ficaram bem melhores com a Renovação Climática."
Moça saindo de uma Igreja da Renovação Carismática em Magé - (Flávio Valadares)

"Elas fazem balé?"
Menino para a dona de duas poodles que usavam sapatilhas, na Tijuca - (Clícia Rocha)

"Você tem algum CD da Maria Callas?"
"Senhor, a pronúncia é Mariah Carey. Vou dar uma olhada no estoque."
Diálogo entre freguês e vendedor numa loja de discos carioca - (Leonardo Kierpel Grzybowski)

"Fora daí, que isso não te pertence mais."
Mulher para o marido na seção de bebidas de um supermercado em Rio das ostras - (Rosely Aguilera)

"Pai, esse sanduíche é dez!"
Dez nada, eu paguei R$ 14,50..."
Adolescente e pai conversando num shopping da Barra - Álvaro Santos)

"Vovô, me dá um jabuti?"
"Só posso se o Ibama permitir".
"Vô, não é Ibama, é Obama".
Conversa de avô e neta de 8 anos - (João Pedro Amora)

"O que Deus te deu você agradece. O resto você compra na Uruguaiana."
Maquiador conversando com uma cliente no salão de beleza - (Isabella Sued Leão)

"Eu não nasci, fui tirada."
Garota falando com uma amiga sobre sua timidez - (Flávia Foreque)

"Meu problema é gordura localizada. Ela deveria estar localizada em outra pessoa."
Moça no Rio Design Leblon - (Paula Taborda)

"Olha Jesus na gandaia!"
Menino de 7 anos, na casa do tio,  ao ver o quadro da Santa Ceia - (Mario Hamilton Alves)

"Você é a alma gêmea da sua mulher!"
"Claro que não! Se eu fosse a alma gêma da minha mulher seria gay, estilista e milionário."
Conversa entre amigos no centro do Rio - (Cosme Campos)

"Cabeleireiro é igual a cardiologista: você tem que confiar muito, porque ele dá um vacilo e acaba com a sua vida."
Amigas num banheiro de boate em Ipanema - (Manoela Penna)

"Ei, garçom, estão faltando 998 das mil folhas da minha sobremesa. Só vieram duas!"
Cliente do Troigros do Fashion Mall - (Vanessa Fernandes)

"Olha um ônibus cheio de ninguém!"
Menino de 4 anos ao ver um ônibus sem passageiros passar numa praça no Grajaú - (Marco Antonio Maciel)

"Estou tão preocupada com meu irmão... Depois que ele teve um PVC, nunca mais foi o mesmo."
Doméstica conversando com a patroa - (Malu Infante)                                                  

Mehta in Spain HAPPY BIRTHDAY VARIATIONS



Variações de "Parabéns a você", segundo os diversos estilos dos clássicos mais conhecidos.
Lindo, lindo!

sexta-feira, 18 de março de 2011

CECÍLIA MEIRELES - CASAS AMÁVEIS




Casas amáveis
 Cecília Meirelles

Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?


 Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.


Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.


As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro.

Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento.
Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides?
Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

Os jardins tinham suas deusas, seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)

E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.
As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.

As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.


Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e cujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny...


Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)


E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.

Casas amáveis.

*            *            *