sábado, 6 de junho de 2015

ADRIANO DIAS - "Enquanto chorou..."

Arte de Voider Sun
Enquanto chorou gotas iluminadas,
mínimas entre as lágrimas,
despertou apenas certa curiosidade,
nenhum cientista levou a sério,
relegando a pesquisa do mistério
para outro dia, quem sabe.
Mas a moça insistisse serem estrelas
vindas do céu que sonhava o tempo todo
causou um crescente alvoroço,
pois, embora fossem pequenas, 
conforme o volume da emoção que tivesse
seu rosto encharcava em pontos brilhantes
de um modo como não fora visto nunca antes,
exceto quem olhasse o manto celeste.
E como acontece à nossa raça,
quando perante tal tipo de fenômeno,
sedentos por milagres que somos,
aguardando ansiosos por quem os faça,
cresceu no entorno da moça, como fumaça,
um absorvente incômodo,
inebriante, conjurando em todos 
o impulso que nos produz a fé,
como também o delírio e o desespero até.
Houve quem arvorasse orientar os ritos
lembrasse profecias,
batucassem ritmos esquisitos,
convencesse ter visões dos próximos dias,
outros diziam ter visto, 
com aqueles olhos maníacos,
na face estelar da moça,
a organização dos signos do zodíaco,
ou quem decidisse rasgar-lhe os globos,
alegando ouvir vozes mais acres, sons tenebrosos,
exigindo sangue, sacrifício, as carnes suas...
Foi quando ela chorou as luas,
para encanto da plateia circundante!
Não só uma, como duas,
a cheia e a minguante.
E a luz serena que emanou no mesmo instante,
contínua, cálida, envolvente,
tornou todo desespero caos culto de antes
em uma plenitude jamais experimentada.
E porque nessas horas não cabe mais nada,
ninguém reparou o sumiço da moça,
desfez-se em noite e lágrimas escuras,
restando ao chão apenas uma enorme poça,
espelhando um impossível céu de duas luas.

*        *        *

Adriano Dias - na página 'Semema'

terça-feira, 2 de junho de 2015

Você está...- Cátia Rodrigues em 'Obvious'



Você está sozinho nessa e tudo bem...
Cátia Rodrigues - em 'Obvious - sociedade'
(...)
Acontece que nascer significa, quase que imediatamente, se desvincular da mãe, daquela unidade que com ela fomos desde o início da nossa formação fetal. Ao nascer, ficamos sozinhos. E isso se dá no plano mais concreto possível: o que nos liga ao outro é cortado e dispensado. E ainda por cima nos deixa um buraquinho na barriga.
(...)
Mas não tem jeito: a partir do dia em que nascemos, vamos sistematicamente nos desligando da única pessoa com quem realmente temos uma ligação palpável. 
E isso dá medo. Uma tremenda angústia. O escuro assusta. A ausência apavora. A solidão parece que nos mata. 
E choramos. E somos confortados pela mãe e outros amores que a vida vai nos apresentando. E claro que isso é bom. Aprendemos a ser amados e acolhidos.
(...)
Aprendemos também, sem querer, que estar bem é estar com os outros, é estar acompanhado, é ser aceito. E acabamos por fazer loucuras para nos sentir incluídos em grupos e meios que nem de longe servem à nossa singularidade. A qualquer preço, "alguém fica aqui, junto comigo, por favor": só para não lidarmos com a tal vilã do mal, a solidão. Acabamos por aprender, subjetivamente, que o amor vem do outro, e que estar só é sinônimo de abandono. E isso é uma ilusão que nos aterroriza vida afora, sem razão. Ficamos a sentir o mal estar no meio da multidão, sem saber o motivo ou a solução.
(...)
A necessidade de nos relacionar existe, mas como troca e aprendizado, reconhecimento existencial para manter o equilíbrio mental e, apesar de muitas vezes ser um delicioso prazer, a convivência humana não tem mais a função de nos assegurar segurança e sobrevivência.
A real é que na vida somos todos sozinhos, mas podemos estar acompanhados e acompanhando muitas pessoas nos diferentes momentos da vida. Por escolha, sem medo de estar bem só consigo mesmo. 
O “buraco” na barriga, que não é só o umbigo, se chama angústia. E ela é bonita na sua essência, e tem importância para nossa existência. 
A angústia nos mobiliza, nos indica que algumas acomodações feitas pelo caminho estão com o prazo de validade expirado. 
E, do mesmo lugar de onde ela pulsa de dentro de nós, emerge também a nossa criatividade, a intuição e a subjetividade que nos tornam únicos.
Não vale a pena tapar esse buraco na alma. 
Mas só podemos mergulhar e desfrutar da sua beleza quando aprendemos a nadar na imensidão do amor – não o amor do outro, mas aquele amor que temos dentro de nós para nós mesmos, no prazer da própria companhia. 
Descobrir que ser sozinho não é sinônimo de estar sozinho, e que na solitude da própria existência somos plenos, transcendemos em direção ao Sagrado. 
É nessa hora que percebemos um dos grandes tesouros da vida: podemos estar com os outros, mas sempre somos só "eu mesmo" - e isso é o suficiente para se viver.


*            *            *

segunda-feira, 11 de maio de 2015

ADRIANO DIAS - No Dia das mães - 10/5/2015

Arte: Rahaf Dk Albab

Alguns dias atrás
abri o baú das eternas relíquias do que vivi,
agora como pai,
e encontrei recordações maternas que antes não estavam ali:
Carinhos que não senti
quando dormindo,
Broncas que não ouvi
quando saí de fininho, escondido,
Conselhos que perdi,
tapando meus ouvidos
e lágrimas que não vi,
quando seguia "meu caminho",
seguro dos bons modos que achava terem nascido comigo.
Ainda os milagres acumulados ao longo dos anos,
os pequenos, cotidianos:
de repente a roupa limpa,
a comida quente,
eu na cama, de repente,
coberto contra o frio
e nem desconfio ela ali, presente, 
sabendo-me de cor,
o tempo todo, toda hora.
Aí flagrei seu cheiro ao meu redor, 
ainda hoje, ainda agora
e soube, enfim, que não basta gratidão,
não há suficiente no mundo
que dê conta desse mar de amor tão fundo,
tão quente, tão sempre, tão tudo.
Ainda assim, embargado,
o termo escapa de meu choro mudo:
...obrigado...

*        *        *
Adriano Dias - página 'Semema'


sábado, 9 de maio de 2015

ADRIANO DIAS - "Escrevo aqui meus últimos..."

Arte: Erik Jones

Escrevo aqui meus últimos versos,
meio vagos, ansiosos, dispersos,
estou sendo seguido...
antes que me despedacem, despeço-me aqui,
preciso fugir,
estão atrás de mim, 
sequiosos de vasculhar a fonte de meus poemas,
roubar à carne de minhas entranhas o que sai da pena.
E arrombarão cada compartimento,
meu baú de metáforas,
as sacas de sinestesias orientais,
compotas de aliterações,
talvez que nem minha memória sobre.
Ainda planejam carregar a reboque,
puxado por um cabresto,
o complexo maquinário 
que agora uso para fazer este último texto.
Esses bárbaros analfabetos
rasgarão meu couro 
e, diferente da galinha dos ovos de ouro,
de mim verterão épicos completos,
dramas, rimas raras, heróis cristãos e mouros,
e se formará ao chão
uma poça de eus-líricos com seus rostos
boiando entre os mais complexos paradoxos.
Aí acometerão, esfomeados,
por todos os lados,
todo tipo de gente pilhar meus escombros literários,
a turba faminta de palavras, 
de um sentido para suas vidas,
sorvendo-me as letras como fossem comida,
incapazes de saber que as verdades poéticas têm seu tempo,
têm sua hora,
e que as guardava em mim até agora
não por usura,
os poemas nunca foram meus,
mas para uma plenitude gradativamente futura...
Portanto, 
Adeus...

*        *        *
Adriano Dias - página 'Semema'

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fuja das almas mesquinhas - André J.Gomes


Fuja das almas mesquinhas.
Viver é um exercício de grandeza. 
André J. Gomes - in 'Revista Bula'

Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. 
Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. 
Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. 
Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.

Falta grandeza na gente, sim.
Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. 
Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. 
Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. 
Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. 
Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além do fardo de doze cervejas previamente combinadas. 
Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. 
Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.

Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. 
Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.

Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? 
Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. 
Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. 
Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. 
Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.

Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! 
Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? 
Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. 
Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para o perdermos com pequenezas.

Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. 
Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. 
Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. 
Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.


*            *            *

quinta-feira, 16 de abril de 2015

JOSEANE MAYTÊ - "Carpe diem-se"

"Carpe diem-se"
Joseane Maytê - em 'Obvious - recortes'

Certa feita, enquanto planejava uma aula sobre VIDA (sem trocadilho!) para crianças, me veio à cabeça o tempo. 
Idealizei por um momento uma dinâmica em que eu pudesse demonstrar para elas que o valor da vida está associado ao valor que damos ao nosso tempo, uma analogia, talvez, ao filme “O preço do Amanhã”, aquele em que o Justin Timberlake aparece na pele do rebelde e lindo Will, película na qual valem as máximas “não perca de tempo" ou "tempo é dinheiro". 

Na proposta, as crianças teriam um tempo para pintar, com esmero, diversos desenhos, atentas às cores e aos contornos sugeridos para cada figura. 
Esse tempo, porém, seria muito pequeno para tão perfeito traçado e preenchimento, assim como ocorre na vida. 
Não há tempo suficiente para aprendermos tudo, até mesmo porque não sabemos quanto tempo temos. 
Frequentemente nos damos conta do quanto falíveis e mortais somos (me acontece quando perco pessoas queridas), mas esse aprendizado é tão fugaz quanto o próprio senhor das horas... voa! 
E aí, voltamos para as nossas atividades e atribuições cotidianas, esquecendo-nos do principal: viver (você não leu sobreviver!). 
Atropelamos o tempo e somos atropelados pela vida (ou seria o contrário?). Entramos “verdes” na faculdade, na profissão, nas nossas relações pessoais. 
Tombamos, “grises”, levantamos e partimos para o próximo desenho, com mais esmero, com melhores traços, é bem verdade! E, então, nos perdemos novamente em afazeres, em escritórios, em demandas acadêmicas, em reclamações outras, negligenciando boas risadas, manhãs de sol, noites de pizza, tardes de brigadeiro com as amigas, a companhia mais afável da família e os arroubos das paixões.

Esquecemo-nos de ser como as crianças, leves, verdadeiras, coloridas... Por isso, queria dizer às crianças o quão generosa é a energia lá de cima – seja lá qual for o nome que queiram dar a ela - com as oportunidades concedidas, ainda que estejamos despreparados para aproveitá-las. 
Queria que elas percebessem que haverá possibilidades inúmeras de um bom acabamento dos seus muitos desenhos, mas que isso também passará, não será para sempre. 
Queria que entendessem o quanto é importante valorizar cada pintura, cada detalhe, cada textura, assim como os momentos dessa vida, porque quando o TIC TAC ecoa já não é possível voltar e fazer melhor. 
Queria, na verdade, dizer: não percam tempo, não se deixem descolorir, não deixem a vida passar, porque diferente do filme, não temos chances para ganhar tempo, não há acréscimos; há, sim, histórias bem vividas, narrativas bem contadas, pessoas bem amadas e TEMPO, sem dúvida, decorrido. 
Queria dizer às crianças, sobretudo àquelas que ainda existem em nós: Aproveitem os dias! Apreciem o presente! “Carpe diem-se”!

*        *        *

terça-feira, 14 de abril de 2015

ADRIANO DIAS - "E eu, de novo, tentando fazer em versos..."


Tela de Tahis Dz

E eu, de novo, tentando fazer em versos
os pedaços dispersos
que apreendo de quem é você, 
cuja beleza, 
poesia viva, 
quero tornar letra, subjetiva,
mas a arapuca da palavra, sem escolha, 
sabota meu projeto
tão logo toco a tinta na folha
e tudo que era você por completo,
e me dominava ainda agorinha, 
acaba emoção de esteta, 
e mais,
enquanto o texto por si, caminha,
nada perto do que era antes,
eu, apaixonado pelos termos,
melodia das vogais,
pelo ritmo das consoantes,
mergulho no inebriante precipício que só vemos
no exercício da criação da arte.

E esse novo fracasso,
o presente poema que faço
e as delícias de compô-lo,
muito mais que consolo,
proporciona o mesmo nível epifânico de deleite
que tenho ao ver seu rosto, corpo inteiro,
ouvir o canto, sentir seu cheiro.

Nem espero que entenda, tampouco que aceite,
mas saiba que ainda mais lhe devo 
na contabilidade dos prazeres que me desperta!
Agora, além de sua realidade concreta,
o gozo de contemplar seu relevo,
soma-se a transcendência a que me elevo,
quando aqui me faço poeta!

*    *    *
Adriano Dias - página 'Semema'

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sonhos que não envelhecem - Eberth Vêncio

Lista dos sonhos que nunca envelhecem
Eberth Vêncio - colunista 'Revista Bula'

Nem sei por onde começar.

Fazer um recall da Big Bang. 
Disputar o céu com os pássaros usando apenas as minhas asas de cobra.
Morrer pela boca num beijo bem velhinho dormindo num dia de domingo e despertar no paraíso com a cabeça repousada no colo da vovó com Deus uma mulher (que surpresa incrível!) a coar o café.
Enterrar pessoas só de brincadeirinha única e exclusivamente na areia. 
Construir castelos na praia sem ter medo da maré.

Voar na maionese: cantar “Blackbird” em dueto com Paul McCartney. Ser o quinto beatle. 
Caminhar pela zona do baixo meretrício com a autoestima em alta. 
Apaixonar-me pela prostituta tímida meiga bonita e tirá-la daquele lugar. 
Casar uma aposta com véu e grinalda.
Roubar flores no jardim da minha vizinha rabugenta onde hoje levantam duas torres monumentais com oito apartamentos por andar três vagas na garagem e nenhuma rosa para ser cobiçada. 
Ser reconhecido como um poeta.

Ficar famoso o suficiente para que todos prestem atenção quando eu disser em rede nacional “Eu preciso de um pouco mais de respeito”. Então pedir que me esqueçam. 
Me mandar do planeta num foguete para a lua. Flutuar com a consciência tranquila na gravidade zero. 
Engravidar um grande amor no banco de couro de um Maverick quatro cilindros ao som de “Born to be wild”. 
Rir de tudo que não tiver a menor graça. 
Plantar bananeira no meio da rua e semáforos no pomar.

Almoçar em casa todo santo dia. Ir a pé pro trabalho. 
Acordar no meio de um enorme problema e constatar que tudo não passava de um pesadelo. 
Ouvir na cama os segredos picantes que os seus grandes lábios têm pra me contar. 
Morar em casa própria tipo rancho à beira de um lago e ter um monte de filhos com uma pá mecânica. 
Lavar a minha égua no Poema Sujo. 
Cuspir com classe e estilo do alto da Torre Eiffel. 
Gritar na Wall Street que dinheiro não traz felicidade. 
Cavar um túnel até fugir da prisão chegar ao Japão ou fazer calos nas mãos o que acontecer primeiro. Matar a curiosidade: fazer sexo com uma japonesa.

Desvendar os segredos da maçonaria. 
Descobrir a cura para o câncer da corrupção. 
Decorar a última parte do Hino Nacional. 
Beber leite misturado com manga e não enlouquecer. 
Passar no vestibular da vida. 
Ter uma árvore. Plantar um livro. Escrever um filho. 
Investir num consórcio operar o períneo fazer uma lipo levantar os peitinhos e de quebra entender as mulheres. 
Juntar meu primeiro milhão de amigos. 
Ganhar na loteria dos pênaltis. 
Deitar e rolar com você para que os corpos não criem limo.

Acabar com a violência a miséria e as fronteiras entre os países para que o mundo seja finalmente um único quintal. 
Curar-me do sarcasmo e do cinismo. 
Sonhar sonhos mais factíveis. 
Amadurecer o suficiente mas sem cair de maduro. 
Crescer tornar-me um adulto resolvido e nunca mais querer ser alguém nessa vida além de eu mesmo.

*          *          *

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Especulações... - DRUMMOND


Especulações em torno da palavra homem
Carlos Drummond de Andrade

Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?

Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?

Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?

Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?

Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?

Como morre o homem,
como começa a?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?

A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?

Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?

mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?

Mas existe o homem?

*      *      *

domingo, 29 de março de 2015

Sobre a menina síria que confundiu... - Nara Rúbia Ribeiro

Há alguns dias um fotógrafo capturou, na Síria, a imagem de uma criança que se rendeu em frente sua câmera. Segundo informações do site Huffington Post, a pequena levantou os braços ao confundir a câmera com um rifle.
Sobre a menina síria...
Nara Rúbia Ribeiro - página 'CONTI outra arte e afins'

Quando ainda menina, lia muito Drummond. Achava um exagero ele dizer que chegaria um tempo de absoluta depuração, em que “(…) os olhos não choram./E as mãos tecem apenas o rude trabalho./E o coração está seco.” 
Mas hoje eu vi no noticiário uma cena muito peculiar, e a verdade do poema me veio à alma, imediatamente. 
Um fotógrafo, ao tentar retratar a vida das crianças sírias, conseguiu captar não a frieza deste mundo, mas já a sua consequência. 
Ele enquadra a criança em sua lente e essa levanta os braços, rendida, pensando ser uma arma.

Deus! Que mundo é este, onde a inocência caminha de mãos levantadas e a alma do mundo não sangra, e os olhos dos homens não choram, e a dor já não nos pode chocar? 
Que mundo é este cujos avanços tecnológicos não encontram eco na evolução moral dos indivíduos e onde só o que conta são os cifrões?

Um mundo cujo colorido já não é convidativo aos olhos. Onde a beleza é preterida. Onde a pureza dos pequeninos ainda é roubada e banhada do sangue de seus pares, de seus pais e, não raro, do seu próprio sangue. 
Um mundo cujas crianças já têm a esperança prematuramente envelhecida pela dor que transborda dos noticiários e que não raro floresce ao seu lado. 
Um mundo em que, a cada dia, o homem teme mais e mais o próprio homem.

Frequentei um curso, há um tempo, e algo me deixou sobremodo perplexa. 
O instrutor mostrava-nos diversos vídeos com acidentes causados por veículos. 
Em dada situação, um homem fora atropelado por não olhar para a sua direita quando um carro vinha na contra mão.  
Alguns dos colegas, a maioria jovens entre 18 e 25 anos, riram da cena. 
Noutro atropelamento, a maioria riu. 
Esboçaram alguma comoção, leve, quando uma criança foi atropelada. 
(...)
A dor do outro é estatística. “Quantas mortes, mesmo, na Síria? Quantos desabrigados no Acre? Quantas mulheres são agredidas por ano? Quantas crianças são estupradas por parentes próximos?” 
Não! Essa postura desmerece o infinito que somos, desautoriza a angelitude a que estamos destinados, desmente a centelha do Eterno que permeia a alma de cada um de nós!

Necessitamos ver o outro como parte desprendida, mas ainda ligada a nós por laços infindáveis de natureza espiritual. 
Ninguém pode ser plenamente feliz enquanto um só de nós estiver de braços levantados, rendida criança assustada pelos estrondos da guerra, cativa da dor e da morte. 
Esfomeada de uma Justiça que ela não pode compreender ou dizer, mas, humana que é, já a pode desejar e de sua falta se ressentir.

Que esta criança que hoje vi de mãos levantadas por confundir a câmera com uma arma possa ainda, é o que utopicamente desejo, levantar novamente as suas mãos, mas não por medo. 
Que ela ainda possa, na pontinha dos pés, elevar os seus braços para brincar com as estrelas.


*            *           *

E agora, o ABSURDO ainda maior.  De qualquer modo, o texto acima é impactante, movido pela sensibilidade que falta à maioria das pessoas. 
A mentira descarada não é mais 'privilégio' individual. A grande mídia aderiu.  A pergunta é : como saber quem está mentindo?
Tenho que concordar com a frase "A humanidade fracassou."
**


Desvendado mistério de foto viral de criança síria que "se rende"


 Ouvir texto

0:00
 Imprimir Comunicar erro

  • Osman Sagirli
    Foto que viralizou foi tirada pelo fotógrafo turco Osman Sagirli
    Foto que viralizou foi tirada pelo fotógrafo turco Osman Sagirli
Milhares de pessoas compartilharam a imagem de uma criança síria com as mãos para cima, como se estivesse se entregando, ao confundir a câmera fotográfica com o cano de uma arma.

Mas quem fez este flagrante?

A imagem começou a viralizar no Twitter na terça-feira da semana passada, quando foi postada por Nadia Abu Shaban, uma fotógrafa baseada em Gaza.

A mensagem original foi retuitada mais de 11 mil vezes. "Estou chorando", "muito triste" e "a humanidade fracassou" foram alguns dos comentários.

Na sexta-feira, a imagem foi compartilhada no Reddit, onde recebeu mais de 5.000 votos positivos e 1.600 comentários.

Não demorou para que surgissem acusações de que a foto era falsa. Muitos no Twitter questionaram quem seria o autor da foto e por que a imagem havia sido postada sem crédito.

Nadia confirmou que não tinha tirado a foto, mas não sabia explicar quem havia feito a imagem.

No Imgur, um site de compartilhamento de imagens, um usuário pesquisou a origem da fotografia - um clipping de um jornal - e disse que ela era real, mas tirada "por volta de 2012". A mensagem também nomeou o fotógrafo: o turco Osman Sagirli.

A BBC conversou com Sagirl, que agora trabalha na Tanzânia, e desvendou o mistério.

A criança é uma menina, Hudea, de 4 anos. A imagem foi tirada no campo de refugiados de Atmeh na Síria, em dezembro do ano passado. Hudea viajou ao campo - a cerca de 10 km da fronteira turca - com a mãe e dois irmãos, a 150 km da cidade deles, Hama.

"Eu usei uma lente de telefoto e ela pensou que fosse uma arma", disse Sagirli.

"Depois que eu tirei, eu olhei [para a foto] e percebi que ela [a criança] estava assustada, porque ela mordeu os lábios e levantou as mãos. Normalmente, crianças correm, escondem os rostos ou sorriem quando veem uma câmera", disse.

Ele diz que fotos de crianças dos campos de refugiados são especialmente reveladoras.

"Você sabe que há pessoas que foram desalojadas nos campos. Faz mais sentido ver o que elas sofreram através das crianças e não dos adultos. São as crianças que refletem os sentimentos com a inocência que têm."

A imagem foi publicada inicialmente no jornal "Türkiye" em janeiro e foi amplamente compartilhada pelas redes sociais em turco, mas só na semana passada se tornou viral em mídias na língua inglesa.
*          *         *

sexta-feira, 27 de março de 2015

quinta-feira, 26 de março de 2015

Trocando E-mail - Joaquim Ferreira dos Santos


De: tom@arpoador 
Para: zózimo@leblon
 (15/12/2014)
Joaquim Ferreira dos Santos - colunista jornal O Globo

Meu caro Zózimo, receba daqui, diretamente da muvuca do Arpoador, toda a minha invejinha branca por você estar aí, no outro lado do calçadão, no cantinho discreto do Leblon. 
Que sossego deve ser essa vida de estátua longe das multidões!
Não sei se você tem lido jornal, mas me colocaram no meio de uma cena infernal, na esquina dos arrastões e dos turistas internacionais. 
Eu virei aquela pedra no caminho de que falava o Drummond, outra vítima, coitado, dessa mania de fazerem estátua para todo mundo.

Estou no meio da calçada atravancando ainda mais a vida de quem quer a simplicidade feliz de andar de um lado para o outro, sem ter que desviar de um cara feito de pedra, paradão na tua frente.
Pois saiba, meu bom Zózimo, que me botaram num lugar cheio de fradinhos, antenas de operadora de celular, latões de lixo, aqueles bancos desconfortáveis para mendigo não sentar, enfim, uma confusão de obstáculos. 
Como se fosse pouco este caos de atrapalhamentos, agora colocaram mais um cotoco para o cidadão tropeçar. Eu!
Você que é jornalista, me diga: quem teve essa ideia maluca?

Estou de costas para o mar, servindo de enfeite para que gente do mundo inteiro venha se apoiar no meu ombro, se tome de intimidades com minha pacata figura tijucana e me compartilhe em milhares desse negócio que eles agora pedantemente chamam de selfie.

Como eu te invejo, querido Zózimo! O tempo todo olhando a sinuosidade do Leblon, as dunas de Ipanema. 
A vista alcançando daí até o nascer do sol aqui na praia do Diabo, um deslumbramento de cores que agora está nas minhas costas e eu para sempre fiquei condenado a nunca mais ver.
Você é um felizardo, meu caro! Te colocaram de olho direto sobre a areia, para você seguir apreciando o cenário tão ao seu gosto, o mais impressionante espetáculo sobre a terra – a eterna melhoria das sucessivas gerações de moças que vão à praia.
Elas continuam basicamente as mesmas, com todos os mesmos acessórios de sempre, mas como é que elas conseguem? Como é que o Divino lá em cima consegue? Mexem no cabelo aqui, no músculo ali, redesenham as redondilhas, as panturrilhas, aperfeiçoam minúcias que ninguém imaginava poderem ser aprimoradas – e a cada safra, a cada geração, elas se apresentam para o banho de mar com uma arte final mais espetacular do que nunca.
Pois, Zózimo, me deixaram de costas para tudo isso!
Me fizeram na medida para servir de cenário, uma curiosidade carioca a mais para que as pessoas coloquem no tal do Instagram e digam aos amigos distantes que estão no Rio e tropeçaram com o Tom Jobim. 
As operadoras de celular estão faturando às minhas custas e eu, duro de pedra, tenho que permanecer em silêncio.

Essas são as notinhas que eu tenho aqui do outro lado da praia, meu caro colunista.

Que saudade do tempo em que a gente ficava na Cobal do Leblon jogando conversa fora, resenhando a Humanidade. 
Ninguém chegava para fotografar. Grandes charutos, grandes chopes, papos intermináveis.
Uma vez você aproveitou na coluna uma das loucuras que saíam nessas horas. 
A gente conversava sobre um amigo, bom de copo, que se internara para uma temporada de 30 dias de desintoxicação. Aí eu disse, “pois é Zózimo, a gente passa a vida inteira construindo uma reputação pra ver tudo se perder em um mês”. 
No dia seguinte estava no jornal, em três linhas, com aquela tua classe redacional.

Pois é, meu caro, do cantinho discreto da Cobal eu vim parar no calçadão do Arpoador. 
Como se não bastasse ser abraçado o dia inteiro por gente que nunca vi mais gorda e cheia de areia, colocaram para me proteger dos vândalos um carro da Guarda Municipal estacionado do meu lado. Em cima da calçada!
Um repórter veio cobrir a inauguração daquilo a que agora estou condenado e me disse. No Rio já somos 312 bustos e, com a minha, 98 estátuas fincadas. É quase a população de um bairro. 
Imagino que em breve um decreto municipal vai nos dar vida e começar a cobrar o IPTU.

Enfim, eu agradeço a intenção de quem o fez, inclusive de terem me esculturado jovem. 
Mas quem ouviu a bossa nova sabe que eu sou zero de pompa e pose. 
A grande homenagem seria cuidar da minha sumaúma no Jardim Botânico. Conservar as praias do Oceano Atlântico sem estátua na frente ou sem a favela de quiosques escondendo as Cagarras. 
Meu negócio é a poesia do urubu solto, o resto é a lama, é a lama.
A propósito, meu bom Zózimo, eu temo que agora, com a estátua plantada no meio da calçada, comecem a cantar uma nova versão da minha música – e ela passe a ser “é pau, é pedra, é o Tom no caminho”
**
De: zózimo@leblon 
Para: tom@arpoador
04/03/2015
Joaquim Ferreira dos Santos 

Meu caro Tom Jobim, antes de mais nada seguem, de estátua para estátua, do fundo do meu coração de bronze, as desculpas por ter demorado tanto tempo, lá se vão três meses, desde que o amigo me mandou aquela carta tão simpática aí da ponta do Arpoador. 
Como vão as coisas? Muito pau de selfie? 
Parece que agora você foi cercado por hippies estrangeiros vendendo anel de lua e estrela. Muito cheiro de mato?
Seja bem vindo ao clube, Tomzinho. 
Antes, seres ambulantes, nós éramos sol, sal, sul, sexo e social. Agora, fixos nessas calçadas, somos só sol, susto e sereno. É o que rola. 
Chuva tem tido pouca. A propósito, prepare-se. São Pedro, pelo andar da carruagem e do movimento das nuvens, não vai mandar as águas de março que você tão bem cantou e fechavam o verão. 
Aposto que neguinho (escapou o politicamente incorreto!) vai aproveitar para dizer que a tua obra está superada e, se bobear, faz manifestação aí na tua frente para exigir as tuas promessas.
É, meu bom Tom, foi você quem disse: no Brasil, sucesso é ofensa pessoal.

Eu não posso reclamar da vida de estátua aqui no Leblon. 
Me colocaram de olho na praia, o que me permite dar uma geral nessa nova geração de gatinhas – a propósito, onde vai parar a evolução da espécie com esse interminável aperfeiçoamento do layout das moças? 
A Duda Cavalcanti era linda, mas no outro dia passou por aqui a Paolla Oliveira e, posso estar errado, havia nela uns músculos ainda não desenhados pelos deuses do design feminino nos anos 1960. Espero que a maresia não me enferruje as retinas e eu possa ver onde elas e o lápis divino vão parar.

Não reclamo, Tomzinho. Eu estou na estátua um pouco menor e mais magro do que era. 
O ar de severidade do rosto também não parece ser capaz de a qualquer momento soltar uma gargalhada, e era o que eu mais fazia. 
Mas tive minhas compensações. Fiquei num cantinho discreto, fora da muvuca. A toda hora chega alguém para se apoiar em mim e começar o alongamento para a corrida, mas fazer o quê? É dura a vida de estátua ao rés do chão, obrigada ao corpo a corpo com as multidões. 
Ah, que inveja dos generais, quase cutucando o céu com suas espadas, todos sobre cavalos e pedestais.

O Drummond, coitado, que teve a sorte de ficar sentado, no outro dia me escreveu dizendo que confundem poeta com psicanalista. 
Homens e mulheres sentam ao seu lado e sussurram horas e horas de desditas amorosas, como se procurassem no silêncio dele uma inspiração para sair das armadilhas em que se meteram com seus pares. “Amor é estado de graça e com amor não se paga”, me disse o Drummond. “Virem-se, que eu já virei estátua.”

Não é fácil pra ninguém, Tonzinho, e eu, se não tenho os paus de selfie me cutucando o juízo, tenho aqui atrás uma fábrica de esgoto que de vez em quando lança uma fedentina que vou te contar.
Não reclamo, vou ficando. 
Eu sou do Jardim Botânico, nasci lá, morei 25 anos na Frei Leandro. 
Poderiam ter me posto ali onde está o Otto Lara Rezende, na esquina com a Pacheco Leão. Mas seria pior – fica na frente do supermercado, cercado da barulheira infernal dos ônibus. 
No outro dia, o Otto me escreveu. Um sujeito aproveitou a mesa do escritório – é quase um carro alegórico a estátua dele – e ficou ali tomando uma cervejota. Lambuzou tudo.

Enfim, Tomzinho, se está difícil para os que andam de um lado para o outro – a seca! a Dilma! – imagina para nós, que não temos saída. 
Estou bem. Olho as moças, vejo as novidades na praia e, esticando a vista, alcanço até o Arpoador, onde consigo perceber o seu vulto, meu amigo compositor, no meio da calçada, cercado pela multidão.

Quando a gente se encontrava na Cobal, você falava de ter passado 30 anos construindo uma reputação, músicas geniais etc, e que estava na hora de vender tudo, chutar o balde. 
Vamos reivindicar ao prefeito. Já imaginou se cada selfie abraçado com nossas empostadas figuras de bronze fizesse pingar uma moeda aos nossos pés? 
Com a chegada do metrô aqui ao Leblon, a multidão tomando o bairro, eu posso ficar rico, algo que não consegui depois de ralar 33 anos e escrever 150 mil notinhas no Globo e no Jornal do Brasil.

No outro dia quem passou por aqui foi o Boechat, todo pimpão dentro do seu inevitável sungão vermelho. Vai dar uma estátua ótima. 
Eu narrei a tua odisseia aí, meu bom Tomzinho, e falei da tua camisa branca desbotada no ombro de tanto o pessoal se apoiar para a selfie. 
O Boechat, então, repetiu o bordão que usava para fechar a coluna quando faltava só uma linha: “É dura a vida da bailarina!”. Conversamos ao nosso jeito. 
Eu reclamei que a cidade anda violenta (da mesma maneira que tiraram os óculos do Drummond, andaram me grafitando o paletó) e lancei a desconfiança de que essas estátuas, em meio à corrupção generalizada, devem servir para alguém ganhar algum por fora na licitação da obra.

É isso aí, Tomzinho, qualquer dia chega a polícia e nós vamos continuar firmes, bronzeadíssimos, olhando na direção de sempre. Quem não deve, não treme. 
Nada a declarar, a não ser, e com essa divulgação de princípios me despeço, de que enquanto houver champanhe, há esperança. Abraço firme.

PS. O Vinícius diz que quando lhe fizerem a estátua, ele precisa estar sentado. Quer que as moças façam selfies sentadinhas em seu colo calorosamente poético.


*            *            *