quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CINCO POEMAS PARA TEMPOS DIFÍCEIS - FERNANDO PAIXÃO


Cinco Poemas para dias difíceis

FERNANDO PAIXÃO
(Folha de São Paulo, Ilutríssima, 5.12.2010)

CATECISMO

Água benta para os olhos
ícone de circuitos e tentáculos
vaivém de saberes e cascalhos
sagrados venais profanos
agora somos cibernéticos
nem gregos nem moicanos
todos os dias oramos
Ave Maria à internet.

**


GUERRA

Trovão
das mortes
clareia
o carvão.
**

CONDIÇÕES ATMOSFÉRICAS

A noite permanece triste
no subúrbio.
Os animais humanizam os cartazes
de propaganda.
É de metal a passagem dos meses.
Pouco sabemos
do tempo vindouro.
As névoas
movimentam-se entre guindastes.
Tão indelicada
a chuva
fora de hora...

**


FENDA

Já não repito
os mesmos
nítidos
idos gestos
entre lábios
cresce
orvalho
o novo travo.
Não sai o som
da voz
na manhã seguinte
com igual exatidão:
mudei
de mim?
Entre ontem
e amanhã
minha face
tem o rosto
- de quem?

**


POÉTICA

Sem autoria e sem versos a poesia será encontrada
na pedra
no rosto e na copa das árvores ensimesmada
sinal
da sina
cor nos azulejos
o abraço das palavras
renova a presença das portas
e janelas de uma casa.



A poesia sim
se presta à prosa
da vida
invisível porcelana.


*        *        *

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

SUGESTÃO DO PAULO CESAR


Conclusões de Aninha
Cora Coralina

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.

Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.
       Cora Coralina

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos
    
*        *        *

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ESPLENDORES - ADÉLIA PRADO

Neste sábado, 11 de dezembro, recebi um presente da minha amiga querida Nádia. 
E que presente! Um livro de Adélia Prado - "A duração do dia" .
Leio-o com encantamento e apreensão, pois que essa senhora desafia a nossa sensibilidade a cada palavra, a cada espaço entre linhas. Que coisa... 
E minha amiga sabe disso. Ela - a minha amiga - é "danadinha".



ESPLENDORES
Adélia Prado

Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas da compaixão
e eu sobrevivo.

*        *        *

In: 'A duração do dia' - Record 2010)


domingo, 12 de dezembro de 2010

PRESENTES DE NATAL - SUGESTÕES

caixa de presente passo a passo

“Christmas gift suggestions:


To your enemy, forgiveness.
To an opponent, tolerance.
To a friend, your heart.
To a customer, service.
To all, charity.
To every child, a good example.
To yourself, respect.”


       Oren Arnold - jornalista e humorista americano (Texas, 1900-1980)


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ONDE DEUS POSSA ME OUVIR - VANDER LEE

Composição: Vander Lee

Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pr´um abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PIADA DE MAU GOSTO - Helio Schwartsman

Piada de mau gosto – Hélio Schwartsman – Folha.com, 29/07/2010



(...)


À medida que os indivíduos crescem, vão --espera-se-- buscando formas mais sofisticadas e cerebrais de humor.
Essa "gramática" dá conta da estrutura intelectual das piadas, mas há outros aspectos em jogo. O humor também encerra dinâmicas emocionais. Ele de alguma forma se relaciona com a surpresa. Kant diz que o riso é o resultado da "súbita transformação de uma expectativa tensa em nada" ("Crítica do Juízo", I, 1, 54). Rimos porque nos sentimos aliviados. É nesse contexto que se torna plausível rir de desgraças alheias. Em alemão, até existe uma palavra para isso: "Schadenfreude", que é o sentimento de alegria ou prazer provocado pelo sofrimento de terceiros. Não necessariamente estamos felizes pelo infortúnio do outro, mas sentimo-nos aliviados com o fato de não termos sido nós a vítima.

Mais ou menos na mesma linha caminha Sigmund Freud, que também é autor de um livrinho sobre o humor ("O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente"). Para o pai da psicanálise, gracejos funcionam um pouco como os sonhos. Teriam força orgásmica e também revelariam impulsos inconscientes.


É o aspecto emocional, acredito, que torna muito frequente no humor um elemento menos bonito: a crueldade. Como observa Bergson, muitas piadas exigem "uma anestesia momentânea do coração". Nos gracejos mais elaborados essa crueldade quase desaparece, mas ainda deixa algum traço, na forma de "malícia", "esperteza" ou mais simplesmente na suspensão da solidariedade para com a vítima (sim, piadas geralmente têm vítimas). Bergson vê o riso como um "gesto social". Para o filósofo, o temor de tornar-se objeto de riso reprime as excentricidades do indivíduo. É uma espécie de superego social portátil.


Na visão bergsoniana, o riso deixa assim de ser um movimento puramente estético, à medida em que visa também ao aperfeiçoamento da sociedade. Mas, ao mesmo tempo, conserva algo de puramente estético, porque os homens, quando já não se preocupam unicamente com sua sobrevivência individual e do grupo, podem "dar-se como espetáculo aos homens".


Numa abordagem mais contemporânea, o psicólogo evolucionista Steven Pinker também parte em busca de funções sociais. A exemplo do que ocorre com nossos primos símios, o riso e o humor são uma forma de comunicar estados internos à prova de fingimento (quem não reconhece uma risada forçada?). Isso é particularmente útil quando nos dedicamos a atividades que podem ser mal interpretadas, como as brincadeiras de luta. Elas exigem um equilíbrio delicado. Devem ser realistas o suficiente para que cumpram o objetivo de nos adestrar para batalhas de verdade, mas não a ponto de desandar para um conflito real, no qual os riscos de alguém se ferir seriamente aumentam bastante. O riso é a resposta, diz Pinker em "How the Mind Works" (como a mente funciona). Enquanto rimos, revelamos a nosso companheiro/adversário que não temos a intenção de feri-lo. Podemos seguir nos exercitando e, talvez ainda mais importante, forjando alianças políticas --que é outro nome para amizades.


É nesse contexto que se enquadra a escola judaica (desculpem, não resisti à piada) do humor autodepreciativo. Quaisquer dois indivíduos que tomemos, sempre haverá diferenças entre eles. Um será mais forte que o outro, que pode, por seu turno, ser mais bonito e inteligente, ainda que perca em riqueza e conexões sociais. Quando uma pessoa troça moderadamente de si mesma (nesse gênero, as pilhérias nunca são aniquiladoras), ela sinaliza que está disposta a diminuir um pouquinho a si própria para obter a cumplicidade do outro e rirem juntos. É, como diria Woody Allen em "Play it Again, Sam", o começo de uma bela amizade.


Só que o riso também pode ser uma arma, especialmente em ambientes mais civilizados, que trocaram pauladas e pedradas por debates. Um bom exemplo lembrado por Pinker é o gracejo antiaborto de Ronald Reagan: "--Noto que todos os que são favoráveis ao aborto já nasceram!".


Numa primeira leitura, o raciocínio seria trivial demais. É tão óbvio que todo ser humano já nasceu que nem faria muito sentido afirmá-lo. Assim, se o fazemos, estamos dividindo o mundo em duas categorias de indivíduos, os que já nasceram e os que não (os abortados), que é justamente os termos nos quais os antiabortistas querem colocar a discussão, de modo a aproximar aborto de assassinato. Apenas entender a piada já implica, portanto, ou coonestar esse enquadramento ou colocar-se como um hipócrita que goza de um privilégio (ter nascido) que não quer estender aos demais. Como argumento não é lá grande coisa, mas, como tirada é excelente e praticamente acaba com a discussão. Uma resposta exigiria no mínimo algumas centenas de palavras totalmente fora do "timing" do debate.


À medida em que mais indivíduos entram no jogo social, multiplicam-se as funções potenciais do humor. Sendo essencialmente uma forma de comunicação, o riso coletivo é capaz de sincronizar reações, o que o torna perigosamente subversivo. O paradigma aqui é a história de Hans Christian Andersen da roupa nova do rei. Na vida real, não é desprezível o papel que as piadas sobre as agruras do socialismo real desempenharam para a queda do comunismo no Leste europeu.


É claro que não é todo dia, observa Pinker, que nós temos de derrubar tiranos e humilhar reis. O mesmo mecanismo, contudo, também serve para diminuir as pretensões de gabolas, valentões, tartufos e, principalmente, políticos. Ao evitar que os candidatos se submetam ao teste do humor, o TSE priva a população da mais efetiva das armas de que ela dispõe para defender-se das maquinações e truques dos políticos e seus marqueteiros. É mais um pequeno desserviço do tribunal à democracia.


Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha.com.

domingo, 5 de dezembro de 2010

BONS E INGÊNUOS TEMPOS


PROPAGANDA DE COSMÉTICO DOS ANOS 50 

Os seguintes versinhos estampavam o fundo da embalagem do Pó de arroz “Lady”:


“O feitiço deste pó,

Fez a Chiquinha Bocó

Mais feia que São Simão,

Casar com Zé Violeiro,

O cabra mais feiticeiro

E mais bonito do Sertão."

*            *            *



CUMÉ QUI É??





sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Brahms - Symphony No.3 - Poco Allegretto

CONVERSA COM O MENINO - Drummond



Conversa Informal com o Menino

                   Carlos Drummond de Andrade

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa...
Industrializar o tema,
eis o mal.

Como posso, pergunto o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?

Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale...
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.

E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hem, jogral?

Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.

Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.

Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.

Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.

Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.

Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.

Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros temas de prosa
lacrimal.

Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
mundo atual.

Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)

Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
Careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.

Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
*            *            *

LEITURAS...



A Desordem da Minha Natureza

(...) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. 
Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. 
Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco.
   Gabriel García Marquez, in 'Memória das Minhas Putas Tristes'
*


A Entrega Real

Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até ao fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. 
Tudo estará em mim, se eu não for; pois 'eu' é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo.
Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. 
Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. 
Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. 
Pois só posso rezar ao que não conheço. 
E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. 
Só esta é que é uma entrega real.
   Clarice Lispector, in 'A Paixão Segundo G.H'
*

A Melhor Prova duma Real Amizade

A melhor prova duma real amizade está em evitar os compromissos entre aqueles que se estimam. 
Ainda que devendo muito aos que muito me louvam, eu não quero ser-lhes obrigada pela gratidão. 
Mas sim grata porque estou com eles, devido a circunstâncias que a todos nós agradam e são um laço mais entre nós, sem constituírem um dever. 
Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia. 
Pois aquilo que os outros têm pelo sentimento comum não se pede, é patrimônio comum. Neste caso, a amizade.
   Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'
*


Ignoto Deo
Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos
.
Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!
      José Régio, in 'Biografia'

*            *            *

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

EXCERTOS - CLARICE LISPECTOR

Mistérios de Clarice em "Água viva"

PÓRTICO
O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? Minha experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que projeta sombra. E é trombeta que anuncia.  (57)


AQUI & AGORA

Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já. (9)


Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes, em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com a vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim. (11)


Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco. (19-20)


Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto. (59)


ASPIRAÇÃO – I
Quero apossar-me do é da coisa. (10)


Quero possuir os átomos do tempo. (10)


Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. (25)


Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente. (31)


Um dia eu disse infantilmente: eu posso tudo. Era a antevisão de poder um dia me largar e cair num abandono de qualquer lei. Elástica. (33)


*            *            *

CECÍLIA MEIRELES - Traze-me

Traze-me 
Cecília Meireles

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

*            *            *

BILHETE - MÁRIO QUINTANA

Bilhete  
Mário Quintana


Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,
.....tem de ser bem devagarinho,
.....amada,
.....que a vida é breve,
.....e o amor
.....mais breve ainda.

*        *        *

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O PEQUENO PRÍNCIPE

Excerto de "O Pequeno Príncipe", de Saint-Éxupery:


“E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui - disse a voz -, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho.
   Tu és bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs o principezinho. - Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho. Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer “cativar”?

(...)

- Eu procuro amigos. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. - Significa “criar laços”...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil garotos. Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo...

(...)


- A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. - Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!


(...)


- Os homens esqueceram essa verdade - disse a raposa. - Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.”
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