terça-feira, 25 de outubro de 2011

HOJE É DIA DE MARIA (2)


Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella cantando Melodia Sentimental,  de Heitor Villa-Lobos, com letra de Dora Vasconcelos.
Ficou bonito...

sábado, 22 de outubro de 2011

EDDIE VEDDER - Society

HISTÓRIA PARA MEUS NETOS


HÁ 50 ANOS...
O que vou lhes contar é fato e aconteceu há uns três dias. Faço questão de registrar aqui, no blog, ferramenta moderna, do seu tempo, que eu - atrevida, como sempre - insisto em utilizar, talvez para que possamos eliminar a tal barreira entre as gerações.
Temos uma relação de amor e carinho muito grande, por isso sempre que estou com vocês adoro quando me perguntam sobre "o seu tempo".
Quantas vezes fico maravilhada com o seu espanto quando falo das brincadeiras das crianças numa época em que não havia tantos recursos tecnológicos. Aos olhos dos netos - ávidos de histórias antigas - , vovó já 'nasceu' vovó.
Sei que é mesmo espantoso, para vocês, o fato de que a vovó também já foi criança, brincou com os amigos, foi adolescente, namorou, curtiu os artistas da época.
Ri muito, também, certa vez em que um de vocês viu minha máquina de escrever - aquela Lettera pequenininha - e achou extraordinário não precisar ligar na tomada nem ter impressora.
Pois bem, aqui vai mais uma historinha, esta, recente:
Ao abrir os e-mail (estou vivendo o tempo de vocês), reparei, em um deles, um endereço lá no fim da página, com um nome que despertou a minha memória.
Resolvi, então, entrar em contato com a pessoa para saber se o nome correspondia ao de uma colega do tempo do Ginasial (!), relacionado hoje à segunda fase do Ensino Fundamental.
Enviei o e-mail, desculpando-me pela invasão, mas querendo satisfazer minha curiosidade.
E não é que se tratava da mesma pessoa? Respondeu com outro e-mail muito gentil, dizendo-se agradavelmente surpresa pelo reencontro.
Dali, foi possível reiniciar uma amizade de 50 anos atrás! Temos a mesma idade e falamos, em linhas gerais, sobre o que aconteceu conosco nesses 50 anos, como tem sido nossa vida e como estamos hoje. Graças a Deus, a vida tem sido generosa conosco - com ela e comigo - alternando as dificuldades normais com alegrias e recompensas, como a presença de vocês.
O que eu gostaria que vocês percebessem é que a tecnologia está aí para facilitar a nossa vida, para reatar laços interrompidos por circunstâncias várias, para aproximar as pessoas e não para pretensamente congregar milhões de 'amigos' em redes sociais efêmeras. Não deve servir também para que as pessoas se isolem na ilusão de que não precisam do outro.
Digo sempre que a Internet é uma ferramenta fantástica, mas é fer-ra-men-ta. A amizade, a solidariedade, o amor são sen-ti-men-tos valiosíssimos e permanentes, privilégio das almas abençoadas.
Enfim, é só mais uma historinha da vovó.
O beijo e o amor de sempre.
* * *
Comemorando o acontecimento, um vídeo dos Beatles, ídolos na época de nossa juventude - minha e da minha amiga.
Ah, assistam também à música "Imagine", com John Lenon. Linda...linda. A letra fala do sonho da época, que, infelizmente, não se realizou.




sexta-feira, 21 de outubro de 2011

MUNDO DISNEY

O Google hoje homenageia o centenário de nascimento de Mary Blair, artista de cartoons da Disney.
Muita gente sabe que sou leitora desde sempre. Aos cinco anos de idade lia revistinhas infantis e - claro - o mundo de Walt Disney me arrebatou  como a todas as outras crianças.
Sempre gostei muito dos desenhos lindos dos contos de fadas . Só não sabia, na época, quem os fazia. Mais tarde, já adolescente, tomei conhecimento da arte de Mary Blair e muitas vezes enfeitei meus cadernos com réplicas de seus desenhos. As cores suaves, os traços leves têm mesmo o apelo da inocência e doçura infantis. Às vezes, também, ousava utilizando cores fortes e contrastantes. Talvez tenha sido isso que me chamou a atenção desde criança. A variedade de expressão nas cores mantendo a mesma 'personalidade' não é algo simples mas Mary fazia com simplicidade.

Carruagem de Cinderela


Mary Blair trabalhando...

Alice no País das Maravilhas


Segundo alguns estudiosos, esse trabalho conceitual das formas e cores  representa a falta de sentido  do País das Maravilhas e também do nosso mundo real.  Disso não sei, mas gosto muito.

Há muitos cartoons interessantes. Todos lindos, lindos... E eu quis deixar registrada aqui a minha admiração pela arte de Mary Blair que coloriu minha infância e adolescência.




Informações do Google:
Mary Blair foi uma animadora, que com suas cores imaginativas, conseguiu introduzir a arte moderna nos estúdios Disney, ao longo de 30 anos. Com os seus trabalhos inspirou filmes e parques da DisneyLandia.

Frank Thomas disse: ''Mary foi a primeira pessoa que eu conheci, que tinha vários tons de vermelhos um ao lado do outro. Eu dizia: Você não fez isso! Mas Mary sim, ela tinha feito um excelente trabalho.''

Walt Disney amava o estilo doce de Mary fazer arte, e o  toque ''infantil'' que ela dava as suas obras. Foi o que disse o Disney Imagineering, Roland Crump ao historiador de animações, John Canemaker: ''Mary sabe se relacionar com as crianças, por isso, o seu modo de pintar é tão doce e maravilhoso.''

*            *            *

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

EMBRENHADA NO "GRANDE SERTÃO"


Grande Sertão: Veredas
Guimarães Rosa

"Coração de gente — o escuro, escuros."

"Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade."

"Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar."

"Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto...
(...) E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele."

"O amor? Pássaro que põe ovos de ferro."

"Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é."

"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas."

"A colheita é comum, mas o capinar é sozinho."

"A vantagem do valente é o silêncio do rumor…” – Zé Bebelo sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio."

"As coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência. (…) Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles todos, que sim. Então, eu não era jagunço completo, estava ali no meio executando um erro. Tudo receei. Eles não pensavam. Zé Bebelo, esse raciocinava o tempo inteiro, mas na regra do prático. E eu? Vi a morte com muitas caras."

"Tudo nesta vida carece de direito se acertar."

"Quem muito se evita, se convive."

"Julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado."

"O que lembro, tenho."

"Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice."

"Vingar… é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais."

"Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?"

"Ser chefe — por fora um pouquinho amargo; mas, por dentro, é risonhas flores. Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta."

"Comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem."

"Toda saudade é uma espécie de velhice. Riu de me dar nojo. Mas nojo medo é, é não?"

"Tudo é e não é."

"Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir."

"Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!"

"O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa."

"O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena."

"Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas."

"O senhor sabe o que é silêncio é? É a gente mesmo, demais."

"A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero."

"A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão e as vertentes do viver."

"Manter firme uma opinião, na vontade do homem, em mundo transviável tão grande, é dificultoso."

"Viver — não é? — é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo."

"Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães…"

"Feito flecha, feito fogo, feito faca. Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem."

"O sertão é do tamanho do mundo. (…) é dentro da gente (…) é sem lugar (…) é uma espera enorme."

"Quando a gente dorme, vira de tudo: vira pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. Dormi nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo o que é bonito é absurdo - Deus estável."


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terça-feira, 18 de outubro de 2011

'SARAU EM MOVIMENTO'


Fim de semana animado e divertido. 
Convite para um "IV Sarau em Movimento", iniciativa de um grupo em Resende. Muuuito bom.
Pessoas que gostam de boa música e - dentre eles - vários artistas da região. Malu Rocha, ótima cantora  que se dispõe a, uma vez por mês, reunir seus músicos e quem mais quiser participar, para um sarau na casa de pessoas que se oferecem como anfitriãs.
Neste último sábado foi na casa de uma amiga da minha filha Liliane, a Cláudia Lyra. Fui convidada e convidei minha irmã Stela. O convite é uma graça:

Olá, Pessoas Especiais !
Com imensa alegria envio convite em anexo para a IV Edição do nosso Sarau em Movimento, que desta vez terá como anfitriã Claudia Lyra (até no nome ela tem música...rsrsrs )

Estamos muito felizes com a boa vontade, o entusiasmo e o desejo unânimes de continuar realizando este encontro tão especial !
Queremos manter acesa a chama e fazê-la crescer lentamente...
Queremos que se acheguem os que ainda não vieram !
Queremos ver fluir a expressão dos que assim desejarem.
Para tudo isso é preciso que todos tenham consciência do quanto é importante cada participação.
È um trabalho de pura cooperação, (que não envolve dinheiro, o que, nos dia de hoje, é pouco usual... e do quão raro é este espaço, que merece ser VIVENCIADO PLENAMENTE como cada um quiser, em forma de música, poesia, palhaço, mágica...

Mais uma vez, coincidentemente, teremos comemorações...
Este é o mês dos librianos.
Regidos por Vênus, eles amam a arte e a beleza!
Curioso, existe, estatisticamente, um grande contingente de librianos musicais cantantes, pelo mundo afora, e aqui conosco inclusive a própria anfitriã Cláudia Lyra e também no grupo dos convidados :
Dani Peixoto, Alexandre Magno, Ana Paula Santiago, Maurício Penna Firme, Rosane Felix,  José Philomeno, Erick Raydan, Andiana Freitas, Francisco Schwab, Simone Vieira, e me perdoem se esqueci alguém mais
( apareçam e cantem, no mínimo, Parabéns !!!!...rsrsrs)

Mesmo esquema de sempre, cada um leva sua bebida,
quem quiser contribuir com deliciosos quitutes será bem vindo
lembrem-se de confirmar a presença, ok ?
e digam se pretendem levar comida pra gente organizar.

Quem tiver habilidades cenográficas pode ajudar a enfeitar a casa !
Pedido especial : Seja abençoado quem puder ajudar o Maurício Laje com o equipamento de som (com carro grande e força para carregar...)
Estou enviando com os e-mails visíveis pra todo mundo poder se comunicar, ok ?
gratíssima
abraço
Malu

Impossível resistir, não? E foi realmente ótimo. O grupo é simpaticíssimo, comunicativo, sem frescura, enfim, reunião de gente da melhor qualidade!  E a música, então? Ecletismo puro. Teve de tudo: Vinícius, Chico Buarque, Frank Sinatra, Ray Charles, Samba de roda, Forró , Rock internacional, Rock brasileiro, enfim, um "caldeirão" maravilhoso. Valeu, mesmo!
E outra coisa: gente de todas as idades; de crianças (meus netos Pedro e Marcos também foram) a jovens e não tão jovens de idade, mas de animação e boa vontade. E de outras cidades da região: um casal veio de Volta Redonda.
Muito, muito bom. Estavam lá  músicos e seus instrumentos - bateria, teclado, violões, além da belíssima voz da Malu Rocha, outras pessoas também cantando - de repente, o som de uma flauta que se junta aos músicos... A cantora, de olhos fechados, continua a música. Quando termina, abre os olhos, encantada, olha para o flautista, agradece e pergunta: "Quem é você?". Ele então se apresenta e dali em diante teve também Chorinho com solo de flauta. Depois, continua com os músicos. Pura magia. Achei tão bonito!
É assim que acontece...
Ah, também já me ofereci como anfitriã para esses encontros. Desse modo, o Sarau continua em 'movimento' (adorei o título),  pois a cada anfitrião, novos amigos se juntam. Idéia bem legal que merece todo apoio. Vamos lá, gente!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CONSELHOS ÚTEIS...



“Trabalho perfeito. Não existe.
Casa perfeita. Não existe.
Filho perfeito. Não existe.
Corpo perfeito. Não existe.
Gente que vai aparecer do nada e te salvar. Não existe.
Bruxa má. Existe.
Sapo. Existe.

Sim, e vamos dar mais valor aos sapos. Esses sim, seres incríveis que vagam por aí querendo ser beijados. Só que eles não vão virar príncipes depois. Quer dizer, eles vão virar cada vez mais sapos.
Mas existe um bando de sapo charmoso, inteligente e bacana por aí.”
(Nina Lemos)




PROPAGANDA INTERESSANTE...

sábado, 15 de outubro de 2011

EDUCAR - Rubem Alves

PROFISSÃO PROFESSOR



Profissão Professor
Paulo Freire

Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores.
Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados.

Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.

A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos.

Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.
* * *

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

ANTOINE SAINT-EXUPÉRY - O pequeno príncipe (trecho em vídeo)





A criança que vive com o ridículo aprende a ser tímida.
A criança que vive com crítica aprende a condenar.
A criança que vive com suspeita aprende a ser falsa.
A criança que vive com antagonismo aprende a ser hostil.

A criança que vive com afeição aprende a amar.
A criança que vive com estímulo aprende a confiar.
A criança que vive com a verdade aprende a ser justa.
A criança que vive com o elogio aprende a dar valor.
A criança que vive com generosidade aprende a repartir.
A criança que vive com o saber aprende a conhecer.
A criança que vive com paciência aprende a tolerância.
A criança que vive com felicidade conhecerá o amor e a beleza.

Ronald Russel

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

PAULINHO DA VIOLA - Meu mundo é hoje

ADÉLIA PRADO - Manuscritos de Felipa


Em Manuscritos de Felipa
Adélia Prado

(...) " O texto que se escreve para ocultar um subtexto que só os muito inteligentes vão sacar, faça-me o favor. 
Só há subtexto em textos diretíssimos como - vou arriscar - os loguia de Jesus: 'Ama teu próximo como a ti mesmo'.  
Mais direto impossível, mas vai viver o mandamento, experimenta e adentrarás à cidade submersa plantada em teu peito.  
Põe lá o teu pezinho e mais rápido que São Pedro desistindo de andar sobre as águas darás braçadas patéticas suplicando ar.  
Dói tanto que a gente vai pro médico se queixar e volta com a mão cheia de pílulas e passa a viver com susto e a queixar-se até virar uma pessoa muito chata e desagradável, cheia de textos, falsazinha."  p.20

**
(...) " Que bom escrever assim, meio errado, uma palavra aqui, outra ali, próclises, elipses, até que vire um dialeto desconhecido, um orar em línguas.  
Trabalho pela elisão, palavra que nunca usei, estou arriscando.  
A julgar por elipse, só pode ser exclusão, supressão, uma limpada.  
Me incomoda um pouco não conhecer todo o português, tenho sempre a ideia de que engano as pessoas que me julgam letrada. 
Pois sim, ou pois não, que dá na mesma confusão.  
Não disse?  Pego as palavras no palpite, nunca deu errado, porque só falo do que dói e grito todo mundo entende.  
Quando caio em tentação, sempre acho que peco quando escrevo."  p.46

**
"Envelheço para trás, ideia consoladora, porque envelhecer para trás é voltar ao começo, ao lugar ageográfico onde se iria casar, ter filhos, uma casa com coisas minhas, quinquilharias de que poderia dispor como bem entendesse.  
Tudo se cumpriu, não apenas meus seios.  
Ninguém tira do lugar, por inadequado que seja, o quadro, o jarro, o relógio, sou a dona, governo a combinação dos legumes, decido entre carne e peixe, desembarco na plataforma onde uma mulher, sem se preocupar se a alça do sutiã está aparecendo, anuncia ao mundo: sei como se aquece uma casa.  
Contudo me ronda, com desassossegado apetite, o demônio da tristeza, ronda à minha cata, à cata do mundo, certamente aliciando mulheres como eu, nos confundindo quanto a hormônios, palpites na criação dos netos, minando com maestria os muros do castelo."  p.83

*            *            *

domingo, 9 de outubro de 2011

OCTAVIO PAZ - Poesia e Poema / Irmandade

a

POESIA E POEMA
Octavio Paz em 'O Arco e a Lira'

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior.
A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une.
Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular.
Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença.
Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente.
Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido.
Filha do acaso; fruto do cálculo.

Perguntando ao poema pelo ser da poesia, não confundimos arbitrariamente poesia e poema? nem todo poema - ou, para sermos exatos, nem toda obra construída sob as leis da métrica - contém poesia.
No entanto, essas obras métricas são verdadeiros poemas ou artefatos artísticos, didáticos ou retóricos.
Um soneto não é um poema mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico - estrofes, metros e rimas - foi tocado pela poesia.
Há máquinas de rimar, mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poemas; paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos: são poesia sem ser poemas.
Pois bem, quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta, estamos diante do poético.
Quando - passivo ou ativo, acordado ou sonâmbulo - o poeta é o fio condutor e transformador da corrente poética, estamos na presença de algo radicalmente distinto: uma obra.
Um poema é uma obra.
A poesia se polariza, se congrega e se isola num produto humano: quadro, canção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue.
Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente.
É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo.
O poema não é uma forma literária, mas o lugar do encontro entre a poesia e o homem.
O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou omite poesia.
Forma e substância são a mesma coisa.
**

Irmandade
Octavio Paz

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
***