''Desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo.''
MURIEL BARBERY in "A elegância do ouriço"
Do norte a outra vem, lenta e feérica. Uma fada loura salpicando sensualidade. Via-a todos os dias ir e vir do trabalho, ambas anônimas porém cada vez menos indiferentes. Bebia-lhe o perfume, prendia-se ao seu andar, aprendia-lhe as cores das roupas, horários, jeito e gestos. À noite, voava até sua janela e sonhava-lhe a intimidade. Certa vez, num misto de cálculo, estratégia e destino, conseguiu sentar exatamente atrás dela no ônibus pela manhã. O vento entrando pela janela fez os leves cachos de sol roçarem em seus dedos emocionados. Descobriu mínimas sardas espalhadas por seus ombros (ela usava um vestido de decote largo). Gostava de ser secreta, íntima espera ansiosa por trás de vidraças ou grades trabalhadas ou falsas distrações. Às vezes, a fada passava rasante pela sua porta e o olhar dela sempre a flechava de soslaio. Agora, no entanto, o imprevisível acontecia e a cercava sem saída. O corpo branco veio vindo, os olhos dourados flamejantes e doces, e o mundo todo foi morrendo devagarzinho para não assustar as crianças e os enternecidos. Sob a chuva com sol seu corpo foi invadido por ondas de ternura ardente, delicadeza e frisson. O olhar dela a tocou num golpe profundo. "Teu desejo me irrita e me atrai. Me seduz essa contradição." - disse a fada, sem falar. O olhar dela próximo, tão próximo, cruzou os céus do seu segredo. Ela passou e levou o sol, a chuva, encantou as palavras quase ditas e deixou um quê de infinito tremeluzindo pelo resto da tarde cinza. (TEL MONT)
Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada.
Esse homem sempre vai ficar de sombra: nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu astro não era o Sol. Nem seu país não era a vida. Talvez, por razão disso, ele habitasse com cautela de um estranho.
O vendedor de pássaros não tinha sequer o abrigo de um nome. Chamavam-lhe o passarinheiro. Todas manhãs ele passava nos bairros dos brancos carregando suas enormes gaiolas. Ele mesmo fabricava aquelas jaulas, de tão leve material que nem pareciam servir de prisão. Parecia eram gaiolas aladas, voláteis. Dentro delas, os pássaros esvoavam suas cores repentinas. À volta do vendedeiro, era uma nuvem de pios, tantos que faziam mexer as janelas: - Mãe, olha o homem dos passarinheiros! E os meninos inundavam as ruas. As alegrias se intercambiavam: a gritaria das aves e o chilreio das crianças. O homem puxava de uma muska (Muska - nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.) e harmonicava sonâmbulas melodias. O mundo inteiro se fabulava.
Por trás das cortinas, os colonos reprovavam aqueles abusos. Ensinavam suspeitas aos seus pequenos filhos - aquele preto quem era? Alguém conhecia recomendações dele? Quem autorizara aqueles pés descalços a sujarem o bairro? Não, não e não. O negro que voltasse ao seu devido lugar. Contudo, os pássaros tão encantantes que são - insistiam os meninos. Os pais se agravavam: estava dito. Mas aquela ordem pouco seria desempenhada. Mais que todos, um menino desobedecia, dedicando-se ao misterioso passarinheiro. Era Tiago, criança sonhadeíra, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. Despertava cedo, colava-se aos vidros, aguardando a chegada do vendedor. O homem despontava e Tiago descia a escada, trinta degraus em cinco saltos. Descalço, atravessava o bairro, desaparecendo junto com a mancha da passarada. O sol findava e o menino sem regressar. Em casa de Tiago se poliam as lástimas: - Descalço, como eles. O pai ambicionava o castigo. Só a brandura materna aliviava a chegada do miúdo, em plena noite. O pai reclamava nem que fosse esboço de explicação: - Foste a casa dele? Mas esse vagabundo tem casa? A residência dele era um embondeiro, o vago buraco do tronco. Tiago contava: aquela era uma árvore muito sagrada, Deus a plantara de cabeça para baixo. - Vejam só o que o preto anda a meter na cabeça desta criança. O pai se dirigia à esposa, encomendando-lhe as culpas. O menino prosseguia: é verdade, mãe. Aquela árvore é capaz de grandes tristezas. Os mais velhos dizem que o embondeiro, em desespero, se suicida por via das chamas. Sem ninguém pôr fogo. É verdade, mãe. - Disparate - suavizava a senhora. E retirava o filho do alcance paterno. O homem então se decidia a sair, juntar as suas raivas com os demais colonos. No clube, eles todos se aclamavam: era preciso acabar com as visitas do passarinheiro. Que a medida não podia ser de morte matada, nem coisa que ofendesse a vista das senhoras e seus filhos. O remédio, enfim, se haveria de pensar. No dia seguinte, o vendedor repetiu a sua alegre invasão. Afinal, os colonos ainda que hesitaram: aquele negro trazia aves de belezas jamais vistas. Ninguém podia resistir às suas cores, seus chilreios. Nem aquilo parecia coisa deste verídico mundo. O vendedor se anonimava, em humilde desaparecimento de si: - Esses são pássaros muito excelentes, desses com as asas todas de fora. Os portugueses se interrogavam: onde desencantava ele tão maravilhosas criaturas? onde, se eles tinham já desbravado os mais extensos matos? O vendedor se segredava, respondendo um riso. Os senhores receavam as suas próprias suspeições - teria aquele negro direito a ingressar num mundo onde eles careciam de acesso? Mas logo se aprontavam a diminuir-lhe os méritos: o tipo dormia nas árvores, em plena passarada. Eles se igualam aos bichos silvestres, concluíam. Fosse por desdenho dos grandes ou por glória dos pequenos, a verdade é que, aos pouco-poucos, o passarinheiro foi virando assunto no bairro do cimento. Sua presença foi enchendo durações, insuspeitos vazios. Conforme dele se comprava, as casas mais se repletavam de doces cantos. Aquela música se estranhava nos moradores, mostrando que aquele bairro não pertencia àquela terra. Afinal, os pássaros desautenticavam os residentes, estrangeirando-lhes? Ou culpado seria aquele negro, sacana, que se arrogava a existir, ignorante dos seus deveres de raça? O comerciante devia saber que seus passos descalços não cabiam naquelas ruas. Os brancos se inquietavam com aquela desobediência, acusando o tempo. Sentiam ciúmes do passado, a arrumação das criaturas pela sua aparência. O vendedor, assim sobremisso, adiantava o mundo de outras compreensões. Até os meninos, por graça de sua sedução, se esqueciam do comportamento. Eles se tornavam mais filhos da rua que da casa. O passarinheiro se adentrara mesmo nos devaneios deles: - Faz conta eu sou vosso tio. As crianças emigravam de sua condição, desdobrando-se em outras felizes existências. E todos se familiavam, parentes aparentes. - Tio? Já se viu chamar de tio a um preto? Os pais lhes queriam fechar o sonho, sua pequena e infinita alma. Surgiu o mando: a rua vos está proibida, vocês não saem mais. Correram-se as cortinas, as casas fecharam suas pálpebras. Parecia a ordem já governava. Foi quando surgiram as ocorrências. Portas e janelas se abriam sozinhas, móveis apareciam revirados, gavetas trocadas. Em casa dos Silvas: - Quem abriu este armário? Ninguém, ninguém não tinha sido. O Silva maior se indignava: todos, na casa, sabiam que naquele móvel se guardavam as armas. Sem vestígios de força quem podia ser o arrombista? Dúvida do indignatário. Em casa dos Peixotos: - Quem espalhou alpista na gaveta dos documentos? O qual, ninguém, nenhum, nada. O Peixoto máximo advertia: vocês muito bem sabem que tipo de documentos tenho aí guardados. Invocava suas secretas funções, seus sigilosos assuntos. O alpisteiro que se denunciasse. Merda da passarada, resmungava.
No lar do presidente do município: - Quem abriu a porta dos pássaros? Ninguém abrira. O governante, em desgoverno de si: ele tinha surpreendido uma ave dentro do armário. Os sérios requerimentos municipais cheios de caganitas. - Vejam este: cagado mesmo na estampilha oficial. No somado das ocorrências, um geral alvoroço se instalou no bairro. Os colonos se reuniram para labutar em decisão. Se juntaram em casa do pai de Tiago. O menino iludiu a cama, ficou na porta escutando as graves ameaças. Nem esperou escutar a sentença. Lançou-se pelo mato, rumo ao embondeiro. O velho lá estava ajeitando-se no calor de uma fogueira. - Eles vem aí, vêm-te buscar. Tiago ofegava. O vendedor não se desordenou: que já sabia, estava à espera. O menino se esforçava, nunca aquele homem lhe tivera tanto valor. - Foge, ainda dá tempo. Mas o vendedor se confortava, em sonolentidão. Sereno, entrou no tronco e ali se ademorou. Quando saiu já vinha gravatado, de fato mesungueiro (Mesungueiro - de “mesungo”, homem branco). De novo, se sentou, limpando as areias por baixo. Depois, ficou varandeando, retocando o horizonte. - Vai, menino. É noite. Tiago deixou-se. Espreitava o passarinheiro, aguardando o seu gesto. Ao menos, o velho fosse como o rio: parado mas movente. Enquanto não. O vendedeiro se guardava mais em lenda que em realidade. E porquê vestiste o fato? Explicou: ele é que era natural, rebento daquela terra. Devia de saber receber os visitantes. Lhe competia o respeito, deveres de anfitrião. - Agora, você vai, volta na sua casa. Tiago levantou-se, difícil de partir. Olhou a enorme árvore, conforme lhe pedisse protecção. - Está a ver a flor? - perguntou o velho. E lembrou a lenda. Aquela flor era moradia dos espíritos. Quem que fizesse mal ao embondeiro seria perseguido até ao fim da vida. Barulhosos, os colonos foram chegando. Cercaram o lugar. O miúdo fugiu, escondeu-se, ficou à espreita. Ele viu o passarinheiro levantar-se, saudando os visitantes. Logo procederam pancadas, chambocos, pontapés. O velho parecia nem sofrer, vegetável, não fora o sangue. Amarram-lhe os pulsos, empurraram-lhe no caminho escuro. Os colonos foram atrás deixando o menino sozinho com a noite. A criança se hesitava, passo atrás, passo adiante. Então, foi então: as flores do embondeiro tombaram, pareciam astros de feltro. No chão, suas brancas pétalas, uma a uma, se avermelharam. O menino, de pronto, se decidiu. Lançou-se nos matos, no encalço da comitiva. Ele seguia as vozes, se entendendo que levavam o passarinheiro para o calabouço. Quando se ensombrou por trás do muro, no próximo da prisão, Tiago sufocava. Valia a pena rezar? Se, em volta, o mundo se despojara das belezas. E, no céu, tal igual o embondeiro, já nenhuma estrela envaidecia. A voz do passarinheiro lhe chegava, vinda de além-grades. Agora, podia ver o rosto de seu amigo, o quanto sangue lhe cobria. Interroguem o gajo, espremam-no bem. Era ordem dos colonos, antes de se retirarem. O guarda continenciou-se, obediente. Mas nem ele sabia que segredos devia arrancar do velho. Que raivas se comprovavam contra o vendedor ambulante? Agora, sozinho, o retrato do detido lhe parecia isento de suspeita. - Peço licença de tocar. É uma música da sua terra, patrão. O passarinheiro ajeitou a harmónica, tentou soprar. Mas recuou da intenção com um esgar. - Me bateram muito-muito na boca. É muita pena, senão havia de tocar. O polícia lhe desconfiou. A gaita-de-beiços foi lançada pela janela, caindo junto do esconderijo de Tiago. Ele apanhou o instrumento, juntou seus bocados. Aqueles pedaços lhe semelhavam sua alma, carecida de mão que lhe fizesse inteira. O menino se enroscou, aquecido em sua própria redondura. Enquanto embarcava no sono levou a muska à boca e tocou como se fizesse o seu embalo. Dentro, quem sabe, o passarinheiro escutasse aquele conforto? Acordou num chilreino. Os pássaros! Mais de infinitos, cobriam toda a esquadra. Nem o mundo, em seu universal tamanho, era suficiente poleiro. Tiago se acercou da cela, vigiou o calabouço. As portas estavam abertas, a prisão deserta. O vendedor não deixara nem rasto, o lugar restava amnésico. Gritou pelo velho, responderam os pássaros. Decidiu voltar à árvore. Outro paradeiro para ele já não existia. Nem rua nem casa: só o ventre do embondeiro. Enquanto caminhava, as aves lhe seguiam, em cortejo de piação, por cima do céu. Chegou à residência do passarinheiro, olhou o chão coberto de pétalas. Já vermelhas não estavam, regressadas ao branco originário. Entrou no tronco, guardou-se na distância de um tempo. Valia a pena esperar pelo velho? No certo, ele se esfumara, fugido dos brancos. No enquanto, ele voltou a soprar na muska. Foi-se embalando no ritmo, deixando de escutar o mundo lá fora. Se guardasse a devida atenção, ele teria notado a chegada das muitas vozes. - O sacana do preto está dentro da árvore. Os passos da vingança cercavam o embondeiro, pisando as flores. - É o gajo mais a gaita. Toca, cabrão, que já danças! As tochas se chegaram ao tronco, o fogo namorou as velhas cascas. Dentro, o menino desatara um sonho: seus cabelos se figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam. Os dedos, lenhosos, minhocavam a terra. O menino transitava de reino: arvorejado, em estado de consentida impossibilidade. E do sonâmbulo embondeiro subiam as mãos do passarinheiro. Tocavam as flores, as corolas se envolucravam: nasciam espantosos pássaros e soltavam-se, petalados, sobre a crista das chamas. As chamas? De onde chegavam elas, excedendo a lonjura do sonho? Foi quando Tiago sentiu a ferida das labaredas, a sedução da cinza. Então, o menino, aprendiz da seiva, se emigrou inteiro para suas recentes raízes.
* * *
Do livro: "Cada Homem é uma Raça"
Notinhas:
Embondeiro - Baobá (árvore citada no livro "O pequeno príncipe", de Saint-Éxupery)
Chissena - Língua falada nas províncias de Sofala, Manica, Zambézia e Tete, em Moçambique.
O poema Funeral Blues foi escrito por Auden em 1936, como a Canção 9 do livro Twelve songs, e costuma ser citado como expressão exemplar de um forte sentimento de perda e de luto, individual ou coletivo. Representativo do controle extraordinário do verso e da habilidade na manipulação da métrica do autor, o poema ganhou popularidade internacional no filme "Quatro casamentos e um funeral", numa cena em que o personagem Matthew homenageia seu companheiro morto.
Funeral Blues foi musicado por Benjamin Britten. Segue o original e algumas traduções, que mostram como é difícil o desafio de se traduzir bem boa poesia.
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
April 1936
___
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
(tradução de Nelson Ascher)
_______
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
_______
Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.
Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.
Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.
Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.
(tradução de Vasco Graça Moura)
______
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e abafem o tambor
Tragam o caixão, deixem passar a dor.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe nos pescoços das pombas da região,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: “não tinha razão”.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora nada mais de bom nos resta.
(tradução de ???)
_____
Parem os relógios, cale o telefone
Evite o latido do cão com um osso
Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie
a vinda do caixão, seguido pelo cortejo.
Que os aviões voem em círculos, gemendo
e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu.
Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua
e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste
Meus dias úteis, meus finais-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, minha fala e meu canto.
Eu pensava que o amor era eterno; estava errado
As estrelas não são mais necessárias; apague-as uma por uma
Crônica do Professor Monteiro em "Agenda Cultural Sul Fluminense"
“ NÃO DEVIA... MAS... ”
Inspirado no [re]início das Aulas em 2014
(por Monteiro Filho, José)
Meu caro leitor, com estas palavras dou Boas Vindas aos abnegados professores e professoras, alunos e todos os heróis nacionais que labutam no esforço de produzir Educação.
Eu bem sei é que a gente se acostuma a tudo sim. Ainda que não devesse. A gente se acostuma às carências da escola pública e a ter coragem de continuar malhando em ponta de faca, tentando esconder o sol com a peneira. E, porque não tem jeito, a gente logo se acostuma às promessas demagógicas de nossas autoridades que nunca se concretizam. São tantas que já nos acostumamos com elas, esquecemo-nos dos alunos e eles nem percebem que estamos dentro de uma sala que parece mais improvisada, sucateada, para lhes passar receitas para o bolo do conhecimento, ainda que venham a deixá-lo solar ou queimar.
A gente se acostuma a dormir tarde e acordar cedo, preparando aulas inúteis e enfadonhas; a gente se acostuma a dormir um sono de pedra retangular, negra ou verde, porque a gente se habituou a carregar nas costas a sala, o colégio, as notas, a indisciplina, o atrevimento; afinal, nem tudo passa goela abaixo, não é mesmo? Aí a gente se acostuma a levar nos ombros todos os dramas da escola. A gente se acostuma com os apelidos, mesmo que camuflados, de loucos, neuróticos, malucos, ultrapassados, mal resolvidos, odiados porque somos a extensão da chatice dos pais ou dos responsáveis. A gente se acostuma a ver a vida em gritos, ralhas e chamadas de atenção. A gente nem vê o dia passar ali fora da janela alta, disforme, emperrada sempre. A gente se acostuma a discutir, vez ou outra, teorias de mestres antigos e novidadeiros e a se angustiar com elas. A gente se acostuma com a sensação do ridículo que passam às nossas ações, aos nossos esforços estéreis. A gente se acostuma a (des)preparar os jovens para o futuro de dignidade incerta e a lastimar pelo minguado salário do interminável mês. E a gente se acostuma a teimar com as ridículas e inócuas greves... A tudo é possível se acostumar. E é o que mais sabemos fazer. Acostumamos a ser brasileiros... A gente se acostuma a trabalhar com esta juventude que, desde os tempos de Sócrates ( 470-399 a.C. ) adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. A gente se acostuma a ver nossos filhos tiranos, não cederem lugar para os idosos e nos responderem e não nos ouvirem, porque estão com os ouvidos ocupados ouvindo melodias musicais, com letras e conteúdos de qualidade altamente duvidosos. Já estamos acostumando a ceder nossa liderança em favor dos bate papos, e dos joguinhos dos celulares, dos facebooks, skypes, whats app, e outros aplicativos virtuais sobre os quais não exercemos quaisquer sinais de domínio. Por vezes, excepcionalmente, exercemos domínios muito limitados, pois, nosso tempo escasso, calculado, não garante espaço para o acompanhamento diuturno da evolução perene dos meios da comunicação virtual e globalizada. A gente se acostuma a duvidar do futuro com estes exemplares de jovens em nossas vidas. A gente se acostuma a ver nos jornais e revistas e na providencial internet livros sobre educação, longe das possibilidades de nossos bolsos e de nossas leituras. A gente se acostuma a ser classe sem identidade, união e representação sérias, justamente porque a sociedade não nos leva a sério. A gente, pois, se acostuma à desvalorização, a ser joguete e bandeirola em festas políticas. A gente se acostuma a coisas de mais e de menos. A ter “peninha” dos filhos dos outros, ainda que depenados em nossa dignidade profissional. A gente se acostuma a não ter fins de semana, pizzaria, shopping ou calçadões... A gente se acostuma a um cartãozinho só e a sofrer com o pagamento mínimo. A gente só se sente feliz na hora de dormir, pois, o sono, sem sonhos, mas, às vezes, com pesadelos, chega e derruba pesado. A gente se acostuma a falar pouco em casa, com a família, com os filhos... a gente se acostuma com a dor de garganta e com o cansaço das cordas vocais. Em casa elas devem ser poupadas para o dia de amanhã. A gente se acostuma a não ter vida própria; para quê, se nossa vida é para os outros?
Mas, apesar de tudo, a gente queria se acostumar com o fato de sermos os responsáveis pela formação de tantas e tantas gerações que nem dão conta disso. E nos acostumamos a defender nossa vida, apoiando-nos nesta verdade jamais abolida.
Acostumemo-nos, pois, a sobreviver na contramão dos fatos. Afinal, como professores, acostumamo-nos a professar verdades, ética, dignidade, respeito... e nos acostumamos a acreditar que um dia acontecerá o milagre da nossa epifania. Amém !
Estamos todos juntos. Profundamente ligados. A despeito daquilo em que nestas horas acreditam os assassinos e os canalhas, os indiferentes e os superficiais, os cegos voluntários e os simplesmente estúpidos, somos todos uma coisa só. E esta coisa tem sofrido faz tempo, padecido como agora, no choque de uma covardia impensável, na violência medonha de um novo ataque burro e cruel. Somos semelhantes. Iguais. Seremos sempre. Apesar de todas as nossas diferenças, nós ainda somos seres idênticos. Bichos afoitos da natureza, descobrindo seu próprio jeito de viver e de morrer. É claro que somos distintos, diversos de toda sorte. Nossos pés têm formas desiguais, pisam de modo e força e ritmo diferentes em terrenos variados. Rumam para cantos separados. Mas ainda somos tão parecidos! A diferença sobe por nossas pernas e se esparrama. Nossas topografias corporais divergem, nossos joelhos nos cobram o peso do caminho em moedas singulares, nossos sexos se estranham em gênero, forma, tamanho, intenção, entusiasmo mas, se deixarmos, eles dão um jeito e se atraem e se completam. Nossos intestinos, rins, bexigas, pulmões e outros órgãos internos exibem capacidades desiguais, mantêm ritmos divergentes de funcionamento, adotam padrões variados de tolerância. Entre nós, há os que se indispõem com uma mera sopa de mandioca e os que comem pedra e arrotam borboletas brancas de saúde. Somos tão diferentes em nosso por dentro e, no entanto, nossas semelhanças saltam corpo afora em jatos escandalosos de vida. Os braços que temos enlaçam empreitadas sortidas, alcançam miradas díspares, exibem largura, extensão, força, cores e capacidades várias. Mas continuam os mesmos braços que aproximam e afastam, abraçam e atacam, com mãos que afagam e agridem. Os mesmos que tateiam agora o amanhã que a Deus pertence. Somos tantos rostos se iluminando e se fechando por razões infinitas, ora similares, ora opostas. Nossas bocas sorriem ou vociferam a partir de impulsos tantos, porta-vozes de juízos que se criticam e se censuram porque no fundo padecem da mesma ânsia grandiosa de expressão. Nós somos iguais. Levamos olhos que miram vistas únicas, horizontes maiores ou menores, objetivos vis ou edificantes. Mas que são as mesmas janelas da alma que resiste lá dentro, tocada pelos sons e cheiros descobertos por nossos ouvidos e narinas, alma servida pelas escolhas que fazemos com as pontas dos dedos. Estes ombros são os mesmos que suportam o peso do choro alheio e carregam o piano do mundo. São os mesmos da indiferença demonstrada quando nos faltam sentimentos ou precisamos escondê-los. Nossas cabeças deliram sonhos incomuns. E os nossos corações, ah… esses se abrem e se fecham a partir de estímulos insuspeitados e desiguais. Trabalham em velocidades variadas, amam em intensidades diversas. Mas são exatamente os mesmos operários capazes e insistentes, batendo no peito sua vocação incansável para a vida e seu movimento furioso. Você e eu somos “o próximo” a quem se deve amar. Amemo-nos, pois. Nós estamos aqui para nada, senão para isso, rumando para o mesmo lugar. O resto é desvio, intolerância, violência exasperada e estupidez praticada em todos os níveis — de insultos verbais na Internet até atentados bárbaros como o do jornal Charlie Hebdo. O impulso de atacar e lesar e calar o outro é o mesmo. E as vítimas são as mesmas de sempre: nós. Cada um de nós. Até quando? Para quê?
Jean Alessandro Bertollo - publicado em "Obvious - Literatura"
"Seja feliz, que sua felicidade seja uma rotina diária, não demonstre tristeza, não publique coisas tristes nas redes, só mostre seu melhor lado, sua melhor imagem" Essas são coisas que estão sub-ditas, e que imperceptivelmente obedecemos, ou tentamos perseguir diariamente. Massificação. É muito mais fácil manipular indivíduos no meio de uma grande massa, há muito menos espaço para o racional, para o lógico,e como diria Freud, muito mais afloração das pulsões primitivas. Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, aparece uma sociedade onde não há espaço para o singular, onde o lema é "cada um é de todos", qualquer desvio de conduta, ou inquietação é sanado com o "soma" uma droga sem efeitos colaterais distribuída para a população. Promiscuidade sexual é regra! Satisfazer imediatamente qualquer apetite sexual, pois uma pulsão inibida, faz com que apareça inquietação, busca, questão, arte, cultura, sentimentos. E isso desestabiliza a perfeição engenhosa da sociedade futurística. Qualquer sinal de apego ou amor é sanado com tratamentos onde são injetadas altas doses de adrenalina e outros químicos que imitam o estado "apaixonado". As doenças foram mapeadas, assim como todos os genes humanos e possíveis erros, de modo que a doença não existe mais. Os seres humanos são condicionados até os 17 anos a aceitar sua condição numa determinada casta, se vem como privilegiado em estar nela, além de vários outros condicionamentos como não sentir medo da morte, se sentir altamente realizado e feliz diante de uma rotina diária e repetitiva. O próprio autor diz, alguns anos mais tarde que se espanta com o modo que suas previsões parecem cada vez estarem mais perto. Basta uma criança causar um pouco de agitação, já recebe sua dose somática de Ritalina. Basta que alguém se sinta triste por mais de um dia, logo é tachado depressivo. Dificilmente há alguém que não se enquadre em algum distúrbio ou doença mental descrita nos manuais de diagnóstico psiquiátricos CID e DSM. É quase impossível escapar do seu enquadramento minucioso. Isso sem entrar na discussão sobre um padrão americano que determina o que é normal e o que não é, sendo as sociedades e culturas diferentes. Onde está espaço para cada um ser único? A indústria da cultura e do entretenimento martela nossas cabeças com coisas que se dizem arte, e que muita gente aceita, e ainda por cima briga para defender. O consumo é regra, e o sujeito que não consome, sequer pode ser chamado de indivíduo. Em meio a tudo isso é nos ordenado que sejamos felizes, ou que pelo menos fiquemos fingindo e nos vangloriando que somos realmente. Pois não há tempo para tristeza, para luto. É preciso trabalhar, correr, trabalhar pra ter um carro melhor, depois um melhor, depois outro. E se algo esta errado, tome um antidepressivo, um relaxante, um estimulante... Estamos indo a algum lugar com tudo isso... que lugar é esse? Interessante a ideia de Contardo Calligaris sobre a felicidade: não quero ser feliz, por que ser feliz é um estado monótono onde tudo vai bem, onde tudo fica estagnado. Quero ter uma vida interessante, pois os momentos de sofrimento são necessários também. A que ponto chegamos que não temos nem o direito de sofrer em paz? (com o perdão da ironia).
No livro de Huxley há um personagem que se sente deslocado, ele resolve ir até o ultimo lugar onde ainda ha pessoas nascendo, vivendo em famílias, onde é permitido adoecer, amar, sofrer...lá conhece um selvagem, que trás para a civilização, e se torna uma espécie de ícone que desperta curiosidade em todos. O selvagem se espanta com esse mundo bizarro, pois pra ele é normal sofrer, chorar, adoecer, ser livre, poder sentir se único, poder pensar, amar, viver com intensidade... sejamos um pouco mais "selvagens" então!
Algumas experiências, aparentemente simples e banais, nos marcam profundamente. Um dia desses, por exemplo, o cachorrinho da minha casa, aquele mesmo que é quase sempre inconveniente e transportador de pulgas, inventou de adoecer, e inventou sério: quase que morre. Isso gerou uma comoção total na casa: ninguém tinha reparado que seria tão difícil viver sem aquela criaturinha que alegrava nossa chegada, com sua euforia, e perturbava nossas refeições, na esperança de participar delas. A partir daí, comecei a viver um ciclo de observações bem interessante: parei para prestar atenção em pequenas coisas belas que nunca reparo, mas que estão lá, adornando a minha vida de uma forma que percebi como indispensável. Já houve filósofos (estes que reparam em tudo) que disseram que a consciência nasce do contraste, ou seja, que notamos o valor das coisas quando as perdemos, ou corremos o risco de perder. Há um sabiá que sempre canta pelas redondezas da minha janela; chega a dobrar o trinado, exibicionista, num fôlego de fazer inveja... como nunca havia percebido a diferença que esse passarinho faz, nas minhas manhãs? Ao chegar ao trabalho, nessa época do ano (como sempre, em todos os anos), tem aquela senhora que traz todas as guirlandas natalinas da casa dela e pendura em todas as portas... e fica por ali, na esperança de alguém que passe e elogie... vai que esse alguém também veja a foto da netinha, em cima da mesa, e comente algo! Dá-lhe histórias sobre as últimas gracinhas da menina...sempre a mesma rotina! Mas o cãozinho que quase morre me deu a preciosa lição de que o “sempre” pode acabar a qualquer momento, assim, sem mandar aviso... e deixar um vazio dolorido no coração da gente. Passando pela panificadora no caminho de casa (sempre tem que passar!),o balconista sorri e dispara a pergunta: “Pão branquinho ou torradinho, moça?”. Olho para a gôndola de pão e vejo que só tem pão branquinho lá dentro...e então respondo, com a satisfação de pedir algo que ele pode me dar: “Vê para mim seis bem branquinhos, moço!” Sorrisos. As nuvens lá fora estão pesadas, talvez a condução atrase e faça chuva de vento, que molhe todo o abrigo de ônibus... “O futuro a Deus pertence”, dizia minha vó...mas o presente, a alegria singela do presente pertence agora ao moço da padaria, cheio de satisfação ao me estender o pacotinho de papel pardo... Vez por outra, no banco da pracinha, perto do portão, tem casal de namorado abraçadinho e meio bobo (como sempre são, os namorados!), olhando a lua, ainda que minguante. Mas eles nem vêem o muito de sombra que a lua tem, nesse dia, e aceitam de bom grado o fiapo de luz que ela tem para oferecer, como um presente... Na caixa de correspondência, a propaganda comercial diz: “O Natal está chegando!” Isso me causa um impacto de estranheza: como assim? para onde havia ido o Natal? Com certeza, para lugar nenhum: esteve aí o tempo todo. Isso me faz recordar a história da mãe, que sabe que seu garoto esteve a manhã inteira na rua, brincando e jogando futebol, mas que marca hora para sentir falta dele. E aí, chega na janela e grita a pleno pulmão para o menino vir para dentro, que a comida está no prato. E ele entra, com o corpo sujo de doer, mas a alma limpa e pura, transbordando pelos olhos em alegria. Parecido com isso é o que acontece conosco e com o Natal, com o seu Menino tão especial: marcamos data (dezembro, 25), para chamá-lo para dentro de casa; e lá vem Ele, luminoso, sentar à mesa ao nosso lado, sorrir, lambuzar o rosto de confeitos e mostrar suas figurinhas para trocar as repetidas conosco. E dizemos: “Eu tenho a do sabiá, a dos namorados e a lua e a do cachorrinho...você tem qual?” Menino sabido: sempre tem figurinha nova para trocar com a gente.
Então, combinamos assim: o Natal está chegando; vamos arrumar a casa e chamar o Menino para dentro. Esse que sempre corre pelas ruas, alegre e vivo, vendo beleza e colocando beleza em todas as coisas. Mas não se esqueça de desconfiar da palavra “sempre”. Se for verdade a lição que aprendi com o meu cachorrinho, de tanto estarmos desatentos, ausentes, superficiais, confiados no “sempre”, um dia (pesadelo!), corremos o risco de abrir a janela... e o sempre virou nunca mais. Fique atento ao sempre... alimente o sempre! Já houve desses filósofos faladores do passado (e do presente!) que disseram que o sempre, bem alimentado, corre o risco de virar...eternidade. Feliz Natal para você... sempre!
O cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua história poderia ser contada e descontada não fosse seu guia, Gigito Efraim. A mão de Gigito conduziu o desvistado por tempos e idades. Aquela mão era repartidamente comum, extensão de um no outro, siamensal. E assim era quase de nascença. Memória de Estrelinho tinha cinco dedos e eram os de Gigito postos, em aperto, na sua própria mão. O cego, curioso, queria saber de tudo. Ele não fazia cerimónia no viver. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. Dizia, deste modo: - Tenho que viver já, senão esqueço-me. Gigitinho, porém, o que descrevia era o que não havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imaginação do guia era mais profícua que papaeira. O cego enchia a boca de águas: - Que maravilhação esse mundo. Me conte tudo, Gigito! A mão do guia era, afinal, o manuscrito da mentira. Gigito Efraim estava como nunca esteve S. Tomé: via para não crer. O condutor falava pela ponta dos dedos. Desfolhava o universo, aberto em folhas. A ideação dele era tal que mesmo o cego, por vezes, acreditava ver. O outro lhe encorajava esses breves enganos: - Desbengale-se, você está escolhendo a boa procedência! Mentira: Estrelinho continuava sem ver uma palmeira à frente do nariz. Contudo, o cego não se conformava em suas escurezas. Ele cumpria o ditado: não tinha perna e queria dar o pontapé. Só à noite, ele desalentava, sofrendo medos mais antigos que a humanidade. Entendia aquilo que, na raça humana, é menos primitivo: o animal. - Na noite aflige não haver luz? - Aflição é ter um pássaro branco esvoando dentro do sono. Pássaro branco? No sono? Lugar de ave é nas alturas. Dizem até que Deus fez o céu para justificar os pássaros. Estrelinho disfarçava o medo dos vaticínios, subterfugindo: - E agora, Gigitinho? Agora, olhando assim para cima, estou face ao céu? Que podia o outro responder? O céu do cego fica em toda a parte. Estrelinho perdia o pé era quando a noite chegava e seu mestre adormecia. Era como se um novo escuro nele se estreasse em nó cego. Devagaroso e sorrateiro ele aninhava sua mão na mão do guia. Só assim adormecia. A razão da concha é a timidez da amêijoa? Na manhã seguinte, o cego lhe confessava: se você morrer, tenho que morrer logo no imediato. Senão-me: como acerto o caminho para o céu? Foi no mês de Dezembro que levaram Gigitinho. Lhe tiraram do mundo para pôr na guerra: obrigavam os serviços militares. O cego reclamou: que o moço inatingia a idade: E que o serviço que ele a si prestava era vital e vitalício. O guia chamou Estrelinho à parte e lhe tranquilizou: - Não vai ficar sozinhando por aí. Minha mana já mandei para ficar no meu lugar. O cego estendeu o braço a querer tocar uma despedida. Mas o outro já não estava lá. Ou estava e se desviara, propositado? E sem água ida nem vinda, Estrelinho escutou o amigo se afastar, engolido, espongínquo, inevisível. Pela primeira vez, Estrelinho se sentiu invalidado. - Agora, só agora, sou cego que não vê. No tempo que seguiu, o cego falou alto, sozinho como se inventasse a presença de seu amigo: escuta, meu irmão, escuta este silêncio. O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. Enquanto não: há distintas qualidades de silêncio. É assim o escuro, este nada apagado que estes meus olhos tocam: cada um é um, desbotado à sua maneira. Entende mano Gigito? Mas a resposta de Gigito não veio, num silêncio que foi seguindo, esse sim, repetido e igual. Desamimado, Estrelinho ficou presenciando inimagens, seus olhos no centro de manchas e ínvias lácteas. Aquela era uma desluada noite, tinturosa de enorme. Pitosgando, o cego captava o escuro em vagas, despedaços. O mundo lhe magoava a desemparelhada mão. A solidão lhe doía como torcicolo em pescoço de girafa. E lembrou palavras do seu guia: - Sozinha e triste é a remela em olho de cego. Com medo da noite foi andando, aos tropeços. Os dedos teatrais interpretavam ser olhos. Teimoso como um pêndulo foi escolhendo caminho. Tropeçando, empecilhando, acabou caído numa berma. Ali adormeceu, seus sonhos ziguezagueram à procura da mão de Gigitinho. Então ele, pela primeira vez, viu a garça. Tal igual como descrevera Gigitinho: a ave tresvoada, branca de amanhecer. Latejando as asas, como se o corpo não ocupasse lugar nenhum. De aflição, ele desviou o vazado olhar. Aquilo era visão de chamar desgraças. Quando a si regressou lhe parecia conhecer o lugar onde tombara. Como diria Gigito: era ali que as cobras vinham recarregar os venenos. Mas nem força ele colectou para se afastar. Ficou naquela berma, como um lenço de enrodilhada tristeza, desses que tombam nas despedidas. Até que o toque tímido de uma mão lhe despertou os ombros. - Sou irmã de Gigito. Me chamo Infelizmina. Desde então, a menina passou a conduzir o cego. Fazia-o com discrição e silêncios. E era como se Estrelinho, por segunda vez, perdesse a visão. Porque a miúda não tinha nenhuma sabedoria de inventar. Ela descrevia os tintins da paisagem, com senso e realidade. Aquele mundo a que o cego se habituara agora se desiluminava. Estrelinho perdia os brilhos da fantasia. Deixou de comer, deixou de pedir, deixou de queixar. Fraco, ele careceu que ela o amparasse já não apenas de mão mas de corpo inteiro. De cada vez, ela puxava o cego de encontro a si. Ele foi sentindo a redondura dos seios dela, a mão dele já não procurava só outra mão. Até que Estrelinho aceitou, enfim, o convite do desejo. Nessa noite, por primeira vez, ele fez amor, embevencido. Num instante, regressaram as lições de Gigito. O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades. Sua cabeça andorinhava e ele guiava o coração como voo de morcego: por eco da paixão. Pela primeira vez, o cego sentiu sem aflição o sono chegar. E adormeceu enroscado nela, seu corpo imitando dedos solvidos em outra mão. A meio da noite, porém, Infelizmina acordou, sobreassaltada. Tinha visto a garça branca, em seu sonho. O cego sentiu o baque, tivessem asas embatido no seu peito. Mas, fingiu sossego e serenou a moça. Infelizmina voltou ao leito, sonoitada. De manhã chega a notícia: Gigito morrera. O mensageiro foi breve como deve um militar. A mensagem ficou, em infinita ressonância, como devem as feridas da guerra. Estranhou-se o seguinte: o cego reagiu sem choque, parecia ele já sabendo daquela perca. A moça, essa, deixou de falar, órfã de seu irmão. A partir dessa morte ela só tristonhava, definhada. E assim ficou, sem competência para reviver. Até que a ela se chegou o cego e lhe conduziu para a varanda da casa. Então iniciou de descrever o mundo, indo além dos vários firmamentos. Aos poucos foi despontando um sorriso: a menina se sarava da alma. Estrelinho miraginava terras e territórios. Sim, a moça, se concordava. Tinha sido em tais paisagens que ela dormira antes de ter nascido. Olhava aquele homem e pensava: ele esteve em meus braços antes da minha actual vida. E quando já havia desenvencilhado da tristeza ela lhe arriscou de perguntar: - Isso tudo, Estrelinho? Isso tudo existe aonde? E o cego, em decisão de passo e estrada, lhe respondeu: - Venha, eu vou-lhe mostrar o caminho!
Recebido da amiga Tel Mont, em 10 de dezembro 2014
O PAI NOSSO
(traduzido do aramaico - língua que, supostamente, teria sido falada por Jesus)
Pai-Mãe, Respiração da Vida, Fonte do Som, Ação sem Palavras, Criador do Cosmos. Faça Vossa luz brilhar entre nós, fora de nós e que possamos nos tornar úteis.
Ajude-nos a seguir nossos caminhos, respirando apenas o sentimento que emana de Vós.
Una nosso "eu posso" com o Vosso, para que nós possamos caminhar como reis e rainhas com todas as criaturas.
Que o Vosso e o nosso desejo sejam um só, em toda luz assim como em todas as formas, em toda existência individual assim como em todas as comunidades.
Faça-nos sentir a alma da Terra dentro de nós, pois assim sentiremos a Sabedoria que existe em tudo.
Não permita que a superficialidade e a aparência das coisas do mundo possa iludir-nos e nos liberte de tudo aquilo que impede nosso conhecimento.
Não nos deixe sermos tomados pelo esquecimento de que Vós sois o poder e a força viva do mundo, a canção que se renova de tempos em tempos e a tudo embeleza.
Possa o Vosso amor ser o solo onde cresçam nossas ações.
Amém.
* * *
Do livro "Prayers of the Cosmos", de Neil Douglas-Klotz)