quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PAULINHO MOSKA - A flor e o espinho



A FLOR E O ESPINHO
Composição: NELSON CAVAQUINHO / GUILHERME DE BRITO / ALCIDES CAMINHA

CECÍLIA MEIRELES - Das palavras aéreas

Das Palavras Aéreas
Cecília Meireles

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...

A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta;
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...

Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra...

Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois agora?

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

In: "Romanceiro da Inconfidência" - Romance LIII

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

SABIÁ - Ave símbolo do Brasil



Composição: Chico Buarque e Tom Jobim

BRASIL e Cancões do exílio

Canção do Exílio
Gonçalves Dias - (Coimbra, Julho 1843)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.         

**

Nova Canção do Exílio
Ferreira Gular

Minha amada tem palmeiras
onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos

Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim

Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata

Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos

sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos.
**
 
Canto de Regresso à Pátria
Oswald de Andrade
 
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos aqui
Não cantam como os de lá
 
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
 
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.
** 

Canção do exílio
Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!
**
 
Nova Canção do Exílio
Carlos Drummond de Andrade

Um sabiá na
palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.
O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.
Onde tudo é belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.

(Um sabiá,
na palmeira, longe.)
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde tudo é belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
**

Canção do Exílio Facilitada
José Paulo Paes

Lá?
Ah!

Sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

Cá?
Bah!

*        *        *




Quarteto em Cy e MPB 4
Carta ao Tom e "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim 

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra 
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor talvez 
Possa espantar as noites
Que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas 
De me perder
Fiz de tudo e nada 
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida
Já vai chegar
E que a solidão 
Vai se acabar


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

LEDO IVO - A passagem

A Passagem
Ledo Ivo - in: "O Rumor da noite"

Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho
E que ninguém me siga na passagem
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar exijo estar sozinho
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.

Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho.

*          *          *

QUEEN - Love of my life



Mais uma homenagem no Google

Freddie Mercury, nome artístico de Farrokh Bulsara, completaria hoje 65 anos. (Stone Town, 5 de setembro de 1946 — Londres, 24 de novembro de 1991)
Mercury,  vocalista da banda inglesa Queen,  morou em Londres, mas nasceu em Zanzibar em 1946, quando a ilha ainda pertencia à coroa britânica. O cantor morreu em Londres, aos 45 anos.

sábado, 3 de setembro de 2011

DO JEITO DA "VÓ"


Neste 3 de setembro de 2011, em que meu amado neto Henrique chega à maioridade, valho-me das sábias palavras de um mestre da vida:

“Se eu pudesse deixar algum presente a você,
deixaria aceso o sentimento de amar
a vida dos seres humanos.
A consciência de aprender
tudo o que foi ensinado pelo tempo a fora.
Lembraria os erros que foram cometidos
para que não mais se repetissem.
A capacidade de escolher novos rumos.
Deixaria para você, se pudesse,
o respeito àquilo que é indispensável.
Além do pão, o trabalho.
Além do trabalho, a ação.
E, quando tudo mais faltasse, um segredo:
o de buscar no interior de si mesmo
a resposta e a força para encontrar a saída."

(Mahatma Gandhi)


O beijo e o carinho de sempre.
Vó Sueli

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

"SEMENTE ALADA"


Continuando a tarefa de descartar coisas já sem utilidade, encontro uma das agendas antigas.
Pois é, e lá está um poeminha sobre uma planta. Isso mesmo. Um colega da época - professor de Biologia no colégio em que eu também lecionava - veio me mostrar uma plantinha interessante: depois de maduro (seco) seu fruto possui uma casca parecida com o coco, mas quando se abre, há uma porção de casquinhas mais leves que não caem simplesmente, elas esvoaçam até pousar no chão. Disse-me o professor que o nome popular é Semente Alada.  Hoje, com a facilidade da internet e o incrível Google, pude pesquisar e encontrei no blog movimentosdafisica um trecho bastante explicativo sob o ponto de vista da Ciência:

"Paraquedismo e aerodinâmica - Alguns exemplos da força de resistência do ar
(...)
São vários os exemplos do efeito da força de resistência do ar sobre os mais diferentes corpos. Existem aqueles corpos que tentam aumentar a força de resistência do ar sobre eles, diminuindo suas velocidades, como os paraquedistas. Por outro lado, existem também aqueles corpos que tentam diminuir a força de resistência do ar, de maneira que se movimentem o mais rápido possível; são exemplos disso os carros de fórmula 1 e todas as novidades da Jabulani, a bola da Copa do Mundo de Futebol de 2010, exemplos que dizem respeito à aerodinâmica.
(...)
Antes do homem inventar o paraquedas, alguns animais já se utilizavam do efeito da força de resistência do ar para planar ou realizar uma queda amortecida. São exemplos desses animais a serpente voadora, o lagarto voador, o esquilo voador e a rã voadora.
(...)
Mas não é só o mundo animal que se aproveita do efeito dessa força; o mundo vegetal também o faz e muito bem.Alguns frutos e sementes apresentam uma estrutura que aumenta a força de resistência do ar sobre eles, fazendo-os cair mais devagar e permitindo que o vento os leve para mais longe. Essas estruturas de frutos e sementes superam muitas vezes as feitas pelo homem, pois podem suportar uma carga maior do que o seu próprio peso e mesmo assim estabilizarem-se durante a queda."

Não sendo cientista, na minha visão ficou assim:

Da divina Natureza:
a força, a sabedoria
numa explosão de beleza
em casca de poesia.
Em sua dança e alegria,
não cai, desliza no espaço
numa lição de harmonia,
docemente, passo a passo.

Da humana delicadeza:
o gesto, na cor da amizade,
que também é flor antiga
dos ventos de liberdade.
Concha que sempre abriga
flor possível, delicada,
tornando a semente amiga
da terra bem cultivada.
                                                                            (Sueli, em 30/10/1995)
*            *            *

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

TARSILA DO AMARAL


Segundo o Google, 125º aniversário de TARSILA DO AMARAL, (1 de setembro de 1886, Capivari — 17 de janeiro de 1973, São Paulo)


Pintora e desenhista, uma das figuras centrais da pintura brasileira e da primeira fase do movimento modernista brasileiro.

Seu quadro Abaporu, de 1928, inaugura o movimento antropofágico nas artes plásticas.

ABAPORU
ESTRADA DE FERRO CENTRAL DO BRASIL

OPERÁRIOS

O Modernismo foi criado no período compreendido entre 1922 a 1930; teve início com o marco da Semana de Arte Moderna em fevereiro 1922, no teatro Municipal de São Paulo e pretendia fazer com que a população, de modo geral, tomasse consciência da realidade brasileira.
CARNAVAL

A Semana de Arte Moderna trouxe um rompimento, uma destruição das estruturas clássicas, acadêmicas, harmônicas, e por esse motivo tem caráter anárquico e destruidor.
Pode-se identificar duas posturas nacionalistas distintas: de um lado o nacionalismo consciente, crítico da realidade brasileira, e de outro um nacionalismo ufanista, utópico, exacerbado.

MAMOEIRO
Gosto demais da pintura de Tarsila do Amaral. Sem falar no comprometimento social e político, seus quadros me trazem uma sensação de doçura, lembrando os desenhos infantis.
Sua técnica - apuradíssima - nos faz entender como é difícil chegar à simplicidade. 

Aí está, pois, mais uma homenagem a essa talentosa artista brasileira.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

JOSH GROBAN - Remember When It Rained

LEITURAS E RELEITURAS MINHAS...


Em fase de melhoramentos na casa (incluindo reformas com obra de alvenaria, pedreiros, ai, ai...)  tenho aproveitado para vasculhar o que está guardado há tempos e fazer uma "limpeza geral": jogar fora o que não tem mais utilidade ou sentido em continuar guardado - livros, escritos, papéis, essas coisas.

Com isso, encontrei livros que desejo reler.  Um deles é "A montanha da alma" (que título!) de Gao Xingjian (que nome difícil!), escritor chinês Prêmio Nobel de Literatura em 2000.
Segundo a resenha do jornalista Flávio Carneiro, esse autor se recusou a usar seus livros como forma de propaganda da Revolução Cultural de seu país.  Sofreu, por isso, forte censura e acabou refugiando-se na França.

Esse romance - A montanha da alma - é um engenhoso cruzamento de dois relatos de viagem por várias regiões da China: o do próprio narrador e o de um outro personagem, ao qual o narrador se refere como "você", o que já propõe uma aproximação mágica com o leitor.

Há um sentimento de desconforto existencial no narrador ao tratar da diluição de valores; uma dilaceração interior e mesmo perda da identidade. O diálogo com o leitor é permanente. Aliás, penso que esse personagem poderia ter saído de um romance de Jean-Paul Sartre, tal o ceticismo em alguns momentos, embora haja também descrições primorosas como a do céu visto por uma janela, do musgo às margens de um lago, da neve na montanha e tudo sinalizando a presença de Deus, o que não acontece na escritura de Sartre.
O universo das personagens é bem variado: são traçados perfis de artesãos, camponeses, prostitutas, monges, soldados e pequenos comerciantes. É do que me lembro.
Pois bem, folheando o tal livro ao acaso, uma página me mostra um trecho que diz o seguinte:

(...) "Pela janela, vejo sobre a faixa de sol coberta de neve uma minúscula rã. Ela pisca um olho e arregala o outro. Sem se mexer ela me observa.  Compreendo que se trata de Deus."

Separei o livro para posterior releitura, pois acredito que valha a pena. No momento, prossigo com "Grande Sertão: Veredas" que tem me aberto uma outra dimensão no entendimento.

Li em algum lugar que 'livros são como cartas dirigidas a amigos, apenas mais longas',  e concordo. Há momentos em que parece que o autor está falando diretamente com a gente. 
Que coisa... 
*            *           *
Sueli, agosto 2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

CARTOLA por DRUMMOND

Esta crônica é um tributo ao compositor mangueirense Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), e tem uma história curiosa. Foi publicada no Jornal do Brasil em 27/11/1980, três dias antes da morte do criador de "As Rosas Não Falam".
Ao saber que Cartola estava doente, Drummond decidiu escrever-lhe uma homenagem. "Em seus derradeiros momentos de lucidez, em sua cama no hospital, Cartola ainda pôde lê-la, transformando-a em sua última felicidade", conta o jornalista e pesquisador musical Arley Pereira, autor do livro Cartola – 90 Anos.
Cartola, no moinho do mundo

Carlos Drummond de Andrade

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

"Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio."

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).
Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.
**
Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Jornal do Brasil, 27/11/1980


*            *            *

MURIEL BARBERY - "A elegância do ouriço"

Relendo "A elegância do ouriço", de Muriel Barbery, detenho-me num trecho em que a personagem Renée Michel  faz a descrição cuidadosa de uma pintura holandesa do Século XVII - uma natureza morta de Pieter Claesz (1590-1661).
Vamos conferir:


De ouro fosco

(...) levo como que por descuido o olhar para aquele raio de luz que bate num pequeno quadro de moldura de madeira escura.
(...)
É uma natureza morta que representa uma mesa arrumada para uma refeição leve, de ostras e pão. No primeiro plano, dentro de um prato de prata, um limão semidescascado e uma faca de cabo cinzelado.  No fundo, duas ostras fechadas, um brilho na concha, cujo nácar é visível, e um prato de estanho que contém, provavelmente, pimenta.  Entre os dois, um copo deitado, um pãozinho de miolo branco à mostra, e, à esquerda, um grande copo semicheio de um líquido pálido e dourado, arredondado como uma cúpula invertida e com o pé largo e cilíndrico ornamentado de contas de vidro. A gama cromática vai do amarelo ao ébano. O fundo é de ouro fosco, um pouco sujo."
(...)

De onde vem o maravilhamento que sentimos diante de certas obras? A admiração nasce com o primeiro olhar, e, se descobrimos depois, na paciente obstinação que demonstramos em encontrar suas causas, que toda essa beleza é fruto de um virtuosismo que só se detecta escrutando o trabalho de um pincel que soube domar a sombra e a luz e restituir, magnificando-as, suas formas e texturas - jóia transparente do vidro, grão tumultuado das conchas, aveludado claro do limão -, isso não dissipa nem explica o mistério do primeiro deslumbramento. "
*            *            *
Muriel Barbery, "A elegância do ouriço", p. 213-216