''Desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo.'' MURIEL BARBERY in "A elegância do ouriço"
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
GRANDE ARTIGO - e extenso...
Os robôs não nos invejam mais
ELIANE BRUM (*) - Revista 'Época' 24/10/2011
Livro mostra que, diante das classificações psiquiátricas, seríamos todos “doentes mentais” e alerta para a medicalização da vida cada vez mais cedo – transformando o ser humano da pós-modernidade numa espécie de “homo automaticus"
Os primeiros robôs da ficção tinham um conflito: eles eram criados e programados para dar respostas automáticas e objetivas, mas queriam algo vital e complexo. Em algum momento, às vezes por uma falha no sistema, eles passavam a desejar. E desejar algo que lhes era negado: subjetividade. Condenados às respostas previsíveis, revoltavam-se contra a sua natureza de autômato. Humanizar-se, sua aspiração maior, significava sentir angústia, tristeza, amor, raiva, alegria, dúvida e confusão. Os robôs da modernidade queriam, portanto, a vida – com suas misérias e contradições. Ao entrar em conflito e ao desejar, os robôs já não eram mais robôs, mas um algo em busca de ser. Um ser humano, portanto. A partir desta premissa, grandes clássicos da ficção científica da modernidade foram construídos, como O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov, que depois virou o filme estrelado por Robin Williams.
Hoje, a pós-modernidade nos encontra em uma situação curiosa: os humanos querem se tornar robôs. Cada vez um número maior de pessoas se oferece em sacrifício, imolando sua vida humana, ao deixar-se encaixar em alguma patologia vaga do manual das doenças mentais e medicalizar o seu cotidiano para se enquadrar em uma pretensa normalidade. E assim dar as respostas “certas”.
Para quê? Ou para quem?
Basta olhar ao redor com alguma atenção para perceber que, nas mais variadas esferas do nosso cotidiano, esperam-se respostas automáticas e objetivas. Seja na área amorosa e no “desempenho” sexual, seja no comportamento profissional. Até mesmo dos bebês espera-se que atendam às classificações previstas nos muitos compêndios sobre o que esperar de um filhote humano a cada fase. Vivemos no mundo dos manuais de todos os tipos, difundidos pelo mercado editorial e reproduzidos e amplificados pela mídia, que nos ensinariam um “modo de nos usar”, com o objetivo de alcançar um tipo específico e previamente anunciado de resultado.
Dar respostas automáticas e objetivas diante de situações determinadas nos daria um lugar no mundo dos “normais”. E dos bem-sucedidos, já que hoje a normalidade é determinada por um tipo particular de sucesso. Tornar-se robô na vã tentativa de apagar a subjetividade humana é, portanto, o que uma parte da humanidade ocidental tem desejado para si – e se esforçado para impor aos filhos. E nisso tem a ajuda decisiva da indústria farmacêutica, que possivelmente nunca tenha ganhado tanto dinheiro com psicofármacos como hoje, e de um certo tipo de profissional da medicina que manipula o “Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM-IV)” como uma Bíblia.
(...)
Afinal, não é o caso de demonizar a indústria farmacêutica e a psiquiatria, como se tivessem o poder superior de nos fazer acreditar que os sentimentos e as contradições inerentes à condição humana constituíssem um estorvo dos quais fosse preciso se livrar com a maior rapidez possível. Tampouco radicalizar afirmando que os medicamentos não têm função alguma nem possam representar uma conquista em determinadas situações. É importante assinalar: existem casos em que os remédios são benéficos e podem ajudar a pessoa a sair de um estado de paralisia. E há bons profissionais que são parcimoniosos e responsáveis no seu uso, em geral por tempo determinado e com rigoroso acompanhamento, para que os efeitos colaterais das drogas não se tornem mais nocivos do que o problema que motivou o seu uso. Infelizmente, a realidade nos mostra que esta não tem sido a regra.
Vivemos hoje uma patologização da vida humana e um uso indiscriminado, abusivo e cada vez mais precoce de psicofármacos. A importância deste livro é nos ajudar a compreender o que isso diz sobre a forma como estamos vivendo as nossas vidas, sobre a qualidade do nosso desejo e sobre a lógica socioeconômica que tem movido nosso mundo. Para isso, de nada valeria trocar um dogma por outro. E o livro tem o mérito de não fazê-lo.
Se muitas vezes a ciência é colocada no lugar de divindade e damos aos médicos o poder de determinar como vamos viver – e como vamos morrer –, é porque nós permitimos que isso aconteça. Porque é mais fácil transferir a um outro a responsabilidade por escolhas que deveriam ser nossas. Ainda que seja difícil escapar das engrenagens do mundo, especialmente quando elas enriquecem as grandes corporações, em alguma medida é justo pensar que temos, se não liberdade, pelo menos uma paleta de alternativas. Com todos os riscos que implica escolher contra a lógica dominante.
Por exemplo. Quando os pais levam uma criança que não está dando as respostas “adequadas”, seja em casa ou na escola, a um psiquiatra ou a um pediatra ou a um neurologista ou a qualquer outra especialidade e saem de lá com um diagnóstico e uma receita de psicofármaco, não me parece que estão sendo enganados. Acredito que a ética do médico pode ser questionada. Mas acredito também que os pais, assim como cada um de nós, procuram – e encontram – o profissional que vai dizer aquilo que gostariam de ouvir.
Hoje parece mais fácil para os pais lidar com um diagnóstico de transtorno psiquiátrico e tentar calar seus filhos com medicamentos do que empreender uma travessia que seguramente será mais espinhosa, exigirá tempo e dedicação maiores e poderá levar a respostas impossíveis de prever – quando não a novas perguntas. Da forma como hoje é colocado, o “transtorno” mental aparece como algo que está convenientemente fora, não tem nada a ver nem com o paciente, nem com o funcionamento da família. Sem contar que parte dos pais adora delegar a difícil tarefa de serem pais – e parte dos médicos adora assumir a prazerosa tarefa de ser Deus.
No capítulo intitulado “Gotinhas e comprimidos para crianças sem história. Uma psicopatologia pós-moderna para a infância”, Alfredo Jerusalinsky afirma: “Nos últimos trinta anos, tem havido um deslocamento das categorias nosográficas (de descrição das doenças) para o terreno dos dados. Não se questiona o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar. (...) Na trajetória que estamos descrevendo, foi se apagando esse esforço por ver e escutar um sujeito, com todas as dificuldades que ele tivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se substituindo o dado ordenado segundo uma nosografia (descrição das doenças) que apaga o sujeito. (...) É assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta. Os nomes das categorias não são inocentes”.
E, mais adiante: “De nossa parte, continuamos sustentando uma psicopatologia interpretativa, o que quer dizer não nosográfica, porque não depende de dados, não depende de sintomas, mas de deciframento. (...) Colocam na cabeça dos pais que eles não têm nada para ver nem entender e, então, eles se comportam como se não tivessem nada para ver nem entender; consequentemente a criança fica condenada aos automatismos mentais. Mas, claro, para eles só existem os automatismos mentais, então o que é preciso é trocá-los por outros”.
Quando as crianças apresentam um comportamento não esperado (esperado por quem e para quê?), a resposta predominante de pais, médicos e professores têm sido não escutar, mas transformar expressões em transtornos porque o que a criança diz, por palavras, gestos ou ações, pode transtornar os pais. E por isso precisa ser calado o mais cedo e o mais rápido possível. Em nome desta lógica, esquece-se de que somos seres dotados de inteligência e são poucos os que se questionam: se nunca houve tantos diagnósticos psíquicos (e, portanto, tantas patologias), se nunca existiram tantos medicamentos disponíveis para tratar essas doenças ou distúrbios, por que o número de casos não para de crescer e estaríamos vivendo verdadeiras epidemias de doenças mentais, transtornos de comportamento ou como queiram chamar essas síndromes que têm se multiplicado como coelhos? Não seria legítimo questionar: então, os remédios não curam?
Se aceitarmos como verdade única que o problema se resume a uma disfunção química no nosso cérebro, alheia ao viver, algo da ordem dos mecanismos fisiológicos, como o desarranjo de um sistema robótico, não bastaria “corrigir” com drogas para ser “curado”? Pelas estatísticas, tão valorizadas e difundidas pela própria indústria, sabemos que não é isso o que está acontecendo. O número de “depressivos”, “bipolares” e doentes do “pânico”, no mundo dos adultos, assim como o número de crianças com “transtorno de hiperatividade e déficit de atenção” e até mesmo com “autismo” não para de crescer. Se os remédios são tão eficazes e os diagnósticos tão fáceis de fazer como aqueles testes que a imprensa costuma publicar, do tipo “descubra se você é depressivo”, os doentes não deveriam diminuir em vez de aumentar? Afinal, sempre que a ciência descobriu a cura ou uma vacina para as doenças, iniciava-se um processo de redução no número de casos até a total erradicação.
Sobre este aspecto, os organizadores levantam uma questão interessante na apresentação da obra: “A ligeireza (e imprecisão) com que as pessoas são transformadas em anormais é diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser surpreendente que o que foi apresentado como avanço na capacidade de curar tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica a quantidade de ‘doentes mentais’”.
(...)
O que vale a pena perceber é que ninguém é normal, mesmo. Basicamente porque não há como saber o que seja isso. O que não é razão para sermos todos tratados como portadores de algum transtorno mental desde bebê. Como afirmam Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik: “A generalização e multiplicação dos signos psicopatológicos preparam o território para a expansão industrial na fabricação de psicofármacos, que passam a ser consumidos em massa. Nasce assim uma hipocondria dos estados de humor, dos afetos, das dúvidas, dos desejos, das tristezas. As variações mentais e as singularidades pessoais são comparadas com uma média estatística que cria uma medida comum inexistente na realidade. Esse ‘boneco padrão’ subjacente descreve uma ‘normalidade’ definida pela uniformidade. Comparados com ele, viramos todos ‘doentes mentais’”.
A tentativa de classificar toda singularidade como anormalidade pode se tornar uma grande comédia. Em 1992, o psicólogo clínico britânico Richard Bentall propôs em um artigo para o “Journal of Medical Ethics” o seguinte: classificar a felicidade como distúrbio psiquiátrico e incluí-la no manual dos transtornos mentais (DSM-IV). Richard escreveu com grande rigor acadêmico e citou 32 artigos de importantes revistas científicas britânicas. Passo a passo, ele prova que a felicidade é um estado estatisticamente anormal, acompanhado por sintomas como disfunção cognitiva e marcado por uma percepção distorcida da realidade.
Os pacientes afetados por esse distúrbio apresentam um quadro de euforia, sem contrapartida real, podendo resultar em desvantagem adaptativa. Sem contar que há uma relação significativa da felicidade com obesidade e ingestão de álcool. Richard propõe que os psiquiatras busquem tratamento para a felicidade e sugere até um nome para classificá-la como doença mental: “major affective, pleasant type”. A história é deliciosa porque Richard percebeu que, para evidenciar o absurdo que estava – e continua – sendo praticado, só mesmo assumindo o discurso psiquiátrico, mas pelo avesso. Se a tristeza é tratada como uma anomalia que pode e precisa ser curada, por que não a felicidade?
(...)
“O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” afirma que o ideal pós-moderno é o pensamento simplificado: memória reduzida + seleção de respostas corretas. Dizem Alfredo e Silvia: “Enquanto a cibernética eletrônica procura engenhosamente capacitar seus robôs para responder a questões cada vez mais aleatórias, e até para formular perguntas, nós humanos somos levados a uma ‘padronização’ do controle da ‘mente’. Amparados em padrões diagnósticos cada vez mais amplos – depressão, TOC, Asperger etc –, incluem-se os mais heterogêneos conjuntos de sintomas justificando deste modo a utilização dos mesmos psicofármacos. (...) Em um mundo em que o sujeito se desvanece ao redor da promessa de ter respostas para tudo, curiosamente surgem e proliferam as ‘patologias’ (...). O modelo atualmente proposto substitui o saber pela informação, a falta pela completude, a busca pela resposta ‘já’, a singularidade da diferença pela repetição do idêntico, o enigma do passado e do futuro pela pretensa certeza garantida do presente. O ideal seria que adaptássemos nossa experiência àquilo que, com toda a propriedade, poderia se chamar: Homo Automaticus?”.
Um dos traços marcantes da modernidade é a descoberta de que nossa consciência é apenas uma pequena parte do que somos. Há um vasto mundo inconsciente ou pré-consciente que nos constitui. Assim, não deixa de ser curioso, ainda que bastante lógico, que a partir da descoberta transformadora de que a consciência nem nos governa nem é nosso “eu” total, de repente desejamos nos robotizar para escapar da aventura ao mesmo tempo extraordinária e assustadora que é criar uma vida. Será que o melhor acordo que podemos fazer com nós mesmos é engolir pilulinhas na tentativa de manter um ilusório controle sobre nossa mente e sobre o outro, quando se trata de nossos filhos? Pílula para comer ou para não comer, pílula para dormir ou para ficar acordado, pílula para ter desejo sexual ou para diminuir o desejo sexual, pílula para se acalmar ou para estimular... Como se a condição humana, com todas as suas ambiguidades, pudesse ser reduzida ao mero ajuste de um corpo-máquina.
O crescimento dos distúrbios mentais na mesma proporção das supostas pílulas da felicidade e de outros “ajustadores” da mente mostra que há algo que não fecha nessa conta. Enquanto puder, a indústria farmacêutica vai continuar ganhando com a transformação de qualquer sofrimento em patologia e com a consequente medicalização da vida. E, quando (e se) algo mudar, vão ganhar com outra coisa. Mas nós, nós e nossos filhos, só temos uma vida para viver da forma mais ampla e rica possível. Convém não perdê-la na tentativa de anular a singularidade que nos pertence.
Como dizem Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik, os organizadores de “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea”: “Os robôs não precisam se preocupar, já que hoje em dia parecem ser eles os que encarnam o ideal: sem desejos, sem envelhecimento, sem falhas, com automatismos garantidos para cada situação específica, sem vacilação, tudo positivado em um pensamento ‘positivo’. No entanto, devemos sublinhar que, enquanto aqueles robôs dos anos 1930 representavam em sua rebelião os ideais de um modernismo romântico, os atuais ‘transtornos’, sob suas formas toxicomaníacas, bulímicas, anoréxicas, de padrões sociais de sucesso ou de quimiopsiquiatria, representam a obediência recoberta por um falso manto de liberdade”.
Por mais que tudo nos empurre para a patologização e a medicalização da vida na busca de uma normalidade inexistente, acredito que há algo do humano que resiste, que não é calado e que grita, ainda que dopado. É por isso que a conta não fecha. Porque, por mais que se divulgue a crença – e é neste momento que a ciência se coloca no lugar da religião – de que é possível controlar o sofrimento e garantir a felicidade, a humanidade que mora em nós desmascara essa ilusão dia após dia. E por isso é preciso encontrar uma nova panaceia para dar conta de cada novo “transtorno”.
Se a dor é inerente à vida, ela necessariamente não é algo ruim, mas algo que nos impele a buscar um jeito de viver que faça mais sentido para nós. Se a confusão pode ser infernal no cotidiano, com todas as dúvidas que ela traz, não há como achar algo ou a si mesmo sem ela, para em seguida nos perdermos de novo, porque é assim que alcançamos outros mundos também dentro de nós. A angústia não deve ser silenciada, mas ouvida, porque está nos dizendo algo que nos diz respeito. E, se você for pai ou mãe, é sua a responsabilidade de lidar com as questões trazidas por seus filhos, sejam em forma de palavras, de gestos ou de comportamento. É sua – e não dos médicos – desde que você escolheu ser pai ou mãe – e até que suas crianças progressivamente assumam a responsabilidade pelos rumos da própria vida. E, acredite, a melhor forma de lidar ainda começa por escutar. Escutar de verdade.
É na incompletude, que não se fecha com nenhuma pílula, que talvez possamos, individual e coletivamente, empreender uma busca sem nenhuma garantia, como são todas as buscas, que nos leve a criar uma vida que ainda possa fazer um robô aspirar a uma existência humana.
* * *
(*) ELIANE BRUM é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance -Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada.
'A VOZ DO POVO...'
O mais famoso aniversariante de 25 de dezembro acaba sendo esquecido por causa das brilhantes luzes coloridas, o velhinho que distribui presentes e aquela árvore toda enfeitada de coisas.
Acho que estou entrando para o rol daqueles cujo humor piora nesta época do ano. hihihihihi!!!!!
É muito engraçado observar tanto as pessoas que exageram nas comemorações, quanto aquelas que suportam toda a hipocrisia social durante o ano mas se irritam quando chegam as festas de Natal e Ano Novo.
Admito ser uma diversão meio malvadinha, mas não resisto em trazer 'flashes' sobre o fim de ano.
(...)E as festinhas de amigo secreto que reúnem um monte de inimigo explícito? Ninguém queria estar ali, mas sempre tem aquela animada de oliveira que faz questão de organizar o encontro em que gente que mal se falou durante o ano é obrigada a trocar gentilezas e presentinhos sem graça. Esta semana mesmo vi um amigo secreto num restaurante (no restaurante é pior ainda...) em que o clima estava mais para velório do que para fim de ano.
E a hipocrisia campeia solta nesta época, argh! Ontem mesmo a vizinha do 16º, que nunca olha na cara da gente, já estava toda sorridente, desejando "boas festas" para quem encontrasse pela frente... " (Luiz Caversan - Folha de S.Paulo, 11 de dezembro de 2011)
**
"Meu sonho é passar a virada de ano preso no elevador. Sem ouvir rojões, sem ouvir buzinaço, sem que me pendurem louros nas orelhas nem me enfiem goela abaixo sete bagos de uva. E, especialmente, sem ser constrangido a pensar positivamente."
**
"Na festa de fim de ano do Clube dos Vegetarianos o Presidente começa o seu discurso:
- Vou ser breve, senão o nosso jantar murcha!"
**
"Foi um ano de esperança _ em primeiro lugar, no sentido de "Eu me sinto esperançoso!"
E, mais tarde, depois de alguns meses, no sentido de "Eu espero que este ano termine em breve!"
**
“Se eu pudesse dormiria no final de novembro e acordaria em janeiro, quando este pesadelo tivesse passado”. (taxista em S.Paulo)
**
"Oxalá pudéssemos meter o espírito de natal em jarros e abrir um jarro em cada mês do ano." (Harlan Miller)
MIGUEL TORGA - dois poemas
Miguel Torga
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
* * *
Natal Divino
Milguel Torga
Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…
* * *
Milguel Torga
Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…
* * *
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
FERNANDO PESSOA - O guardador de rebanhos II (Alberto Caeiro)
Alberto Caeiro
O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar..
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
* * *
CARTAS
Buscando informações sobre a peça que Sura Berditchevesky estreia nesta quinta feira - baseada em cartas trocadas entre Drummond e sua filha Maria Julieta - encontrei o blog de Lionel Fischer, que recomendo. Ali, o crítico e professor de teatro inicia sua crônica com um texto que me deixou reconfortada em relação à minha inabilidade com as coisas da informática. Percebi não ser alguém de "outro mundo". Aí está:
"Como já disse inúmeras vezes, sou completamente indiferente aos avanços tecnológicos no campo da informática - meu computador e eu mantemos uma relação extremamente delicada e não consigo resolver impasses que uma criança de três anos (com sono) resolve em segundos. Isto posto, cumpre declarar que sou completamente apaixonado por papel, por livros (adoro o cheiro deles) e por cartas - meus amigos costumam dizer que sou um homem, no máximo, do século 19, o que recebo como delicioso elogio." Lionel Fischer
É isso: também me atrapalho com o excesso de recursos dessa invenção. Fiquei fora alguns dias - duas semanas - o que foi suficiente para um dos programas do meu computador ser desativado. Estou tentando corrigir e não consigo. Vou esperar meu neto chegar e pedir para que ele resolva o problema - o que, tenho certeza, será feito em segundos. (ah, esse meu neto não tem três anos, tem um pouquinho mais...)
Talvez eu devesse entrar para um curso de informática e aprender de vez essa encrenca, mas, sinceramente? não tenho a menor paciência com máquinas... E o computador... esse "ser" que compete conosco, me inibe, embora me ajude em algumas coisas.
Voltando ao assunto, a peça teatral chamou minha atenção justamente por se tratar de cartas, meio de comunicação que me fascina e que foi abolido do mundo atual. Adoro cartas - recebi e escrevi muitas - e tenho algumas guardadas que me emocionam até hoje, como a de um professor dos tempos do "ginásio" - Professor Nilo Camilo Ayuppe . Nela, esse professor que eu admiro tanto, me trata como igual, não como ex-aluna; fala-me de suas alegrias e de suas contrariedades, dos seus sucessos e das injustiças do mundo, enfim, permanece um Educador, narrando, em primeira pessoa, a história comum a todos nós que estamos aqui em permanente aprendizado.
Guardo também muitas cartinhas de minhas filhas, quando ainda adolescentes, e depois quando estudavam ou passeavam em outras cidades. Também cartas de amigos queridos, que por circunstâncias diversas se encontravam distantes fisicamente. São memórias de amor.
O que me encanta nas cartas é a disponibilidade das pessoas em reservar um tempo para escrever - manualmente - à outra, muitas vezes interrompendo ou adiando suas tarefas cotidianas, demonstrando a importância e o apreço de uma amizade. Isso não há mais. Ninguém tem tempo para o que realmente importa. Hoje, as pessoas nem se falam mais; visitas? conversas "olho no olho'? impensável. Nem mesmo o e-mail consegue suprir a tal pressa para tudo; os internautas estão preferindo as 'redes sociais', principalmente o 'facebook' , pela facilidade, rapidez e descompromisso de resposta. Estamos sempre 'na correria', como se diz. E para quê? 'Correr' para quê? O destino final continua o mesmo...
Já disse, inúmeras vezes, que essas invenções modernas facilitam a vida em alguns aspectos, mas em outros, podem também nos 'endurecer', tirando nossa humanidade.
As cartas nos aquietam a alma, voltam nossos pensamentos e nosso coração para o destinatário ou remetente, nos envolvem afetivamente.
Talvez por isso eu continue escrevendo - ainda que para mim mesma - aqui neste Baú do Ouriço, com esta Língua de Trapo - expressão tão antiga quanto o exercício de escrever cartas.
Carta
Carlos Drummond de Andrade
Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
"Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
In: Lição de coisas
* * *
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
DRUMMOND - Ainda que mal
Ainda que mal
Carlos Drummond de Andrade
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entendas,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda, assim, pergunto:
me amas?
E me queimando em teu seio,
me salvo e me dano...
... de amor.
* * *
SABEDORIA ORIENTAL
Um ocidental em visita à China ficou surpreso de ver a quantidade de velhos saudáveis e, curioso a respeito da milenar medicina chinesa, indagou a um experiente médico qual o segredo para se viver mais e melhor.
Ouviu do mesmo a sábia resposta:
Um ocidental em visita à China ficou surpreso de ver a quantidade de velhos saudáveis e, curioso a respeito da milenar medicina chinesa, indagou a um experiente médico qual o segredo para se viver mais e melhor.
Ouviu do mesmo a sábia resposta:
"É muito simples. É só:
Comer a metade.
Andar o dobro.
E rir o triplo."
ELISA, A IRMÃ
Alguém já ouviu algo sobre Elisa Lispector? Pois é... foi funcionária pública por 30 anos e escreveu sete romances.
Caso de 'segundo plano', por ter nascido em família que já tem alguém famoso.
Tem um único livro em catálogo hoje em dia, "No Exílio" (1948), reeditado em 2005 pela José Olympio.
O mais elogiado (ou, como querem alguns, um livro que "não deixa nada a dever a Clarice") é "O Muro de Pedras", cujos direitos a JO também comprou, mas que acabou nunca sendo reeditado, porque as vendas de "No Exílio" não foram muito emocionantes.
Prevista para as próximas semanas a publicação de "Retratos Antigos", que Elisa escreveu nos anos 70. O texto ajuda a esclarecer pontos da biografia dos Lispector desde antes de eles pensarem em sair da Ucrânia. É um texto informal, que Elisa fez para os sobrinhos (ela própria nunca casou nem teve filhos) e que revela histórias, singelas até, que talvez Clarice mesmo não soubesse.
Esses dados estão na reportagem de capa de 'Ilustríssima', suplemento do jornal Folha de S.Paulo, de 04/12/2011. (a seguir)
Relato biográfico resgata Elisa, a irmã mais velha de Clarice Lispector
RAQUEL COZER
Da esquerda para a direita, as irmãs Tania, Elisa e Clarice Lispector em fotografia tirada na década de 1920 |
O naufrágio que matou 55 pessoas na véspera do Réveillon de 1989 não tinha relação com Elisa --que morreu naquele 6 de janeiro com câncer e problemas renais--, mas foi responsável por uma triste ironia final em sua história.
No dia 7, o registro na imprensa carioca do óbito da autora de "No Exílio" (1948) foi ofuscado pelo anúncio, muito maior, da missa de sétimo dia da mais famosa vítima do Bateau Mouche, a atriz Yara Amaral, que até pouco antes estava no ar na novela "Fera Radical", da Globo. Com isso, quase ninguém àquela altura soube da morte de Elisa --como se não bastasse ela ter passado a vida sob a sombra de Clarice (1920-77).
(...)
O que por décadas apenas a família soube é que, nos anos 70, Elisa iniciou um resgate não ficcional da saga dos Lispector. É esse material, datilografado e rabiscado em 28 laudas --"esboços a serem ampliados", como anotou Elisa--, que a Editora UFMG lança nas próximas semanas. "Retratos Antigos" [org. Nádia Battella Gotlib, 144 págs., preço a definir] sai com dois cadernos de fotos, a maioria inédita. As mais antigas, dos avós de Elisa, são do início do século 20, na Ucrânia, então pertencente à Rússia.
LEGADO
Elisa, que nunca casou nem teve filhos, dedicou aquelas páginas aos sobrinhos, em especial a Nicole --neta de Tania, a irmã do meio. O texto foi concebido para que, crescida, a sobrinha-neta soubesse o passado da família.
A história é contada a partir de desbotadas fotografias de um álbum "aristocrático", de "capa e contracapa trabalhadas em alto relevo sobre almofadas forradas de puro couro da Rússia", uma lembrança dos tempos em que os Lispector ainda resistiam aos pogroms, os ataques contra judeus e outras minorias, comuns na Rússia do início do século 20.
(...)
"É uma obra importante sobre a questão da imigração judaica no Brasil", afirma Wander Melo Miranda, professor de literatura comparada e diretor da Editora UFMG.
(...)
Para além da temática judaica, "Retratos Antigos" ajuda a esclarecer ao menos um ponto nebuloso da biografia de Clarice: a doença que matou, lentamente, sua mãe. O texto explicita que Mania Lispector sofria de hemiplegia (paralisia parcial do corpo) e que esse estado resultou de um "trauma decorrente daqueles fatídicos pogroms".
Não é pequeno o impacto da paralisia da mãe na vida e obra de Clarice. Para ficar num raro exemplo explícito, já que em geral ela era mais discreta que isso, há a crônica "Restos de Carnaval". O texto lembra a noite em que ela, criança, precisou interromper seus preparativos para a festa e correr envolta em crepom pelas ruas de Recife atrás de remédios para a mãe. "Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim."
(...)
PRIMOGÊNITA
Se a autora de "Laços de Família" (1960) motiva discussões que para alguns extrapolam sua obra, Elisa permanece pouco estudada.
A primogênita de Pinkhas e Mania Lispector lançou o primeiro livro, "Além da Fronteira", em 1945, aos 34 anos, dois anos após a estrondosa estreia de Clarice, com "Perto do Coração Selvagem". Depois, publicou mais seis romances --o quarto, "O Muro de Pedras", considerado o seu melhor, recebeu prêmios da editora José Olympio e da Academia Brasileira de Letras-- e três volumes de contos.
Afora o que hoje está em sebos, a obra de Elisa quase desapareceu. Um único romance, "No Exílio", está à venda pela José Olympio, em reedição de 2005. Na ocasião, a editora comprou também os direitos de "O Muro de Pedras", mas as vendas fracas de "No Exílio" a fizeram "repensar o projeto da autora na casa", segundo a gerente editorial, Maria Amélia Mello.
(...)
* * *
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
JORGE LUÍS BORGES
Jorge Luís Borges
![]() |
| Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Argentina,Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Suíça, Genebra, 14 de junho de 1986) escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino. |
Foi diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires.
Dominava a língua inglesa e também o francês, por ter sido educado em Genebra, Suíça. Sua obra expressa universalismo, variedade e excentricidade.
Aprendeu alemão sozinho e gostava de ler o filósofo Shopenhauer.
Segundo escritores e críticos contemporâneos era capaz de colocar um universo dentro da caixa de fósforo pela simplicidade e objetividade como escrevia em seus textos.
“Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção”(Jorge Luís Borges)
O menino Borges decidiu a certa altura ser escritor. Aos oito anos de idade, escreveu seu primeiro conto: La visera fatal.
(...)
Traduziu aos nove anos O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde, que foi publicado no jornal “El País”, de Buenos Aires.
(...)
Quase oitenta anos mais tarde, mesmo cego, velho, encurvado sob o peso da idade e sob o signo da descrença, ainda prosseguia ditando palavras.
Falava da solidão como de uma aliada às avessas de sua criação, espécie de segunda companheira, sombra sempre em volta dos livros acumulados sobre a mesa, empilhados nas estantes: “Passo boa parte do meu tempo só, conheço poucas pessoas. Então fico planejando poemas, narrações..."
A consagração de Borges só veio em 1935, depois da publicação de seu primeiro livro de contos História Universal da Infância.
O universo fantástico de suas narrativas viria a ser inaugurado mais tarde, a partir do volume Ficções, alcançando o ápice em O Aleph. Para Borges, esses dois livros eram sua bibliografia.
"Na infância pratiquei com fervor a adoração ao tigre; não o tigre cor de pêssego dos camalotes do Paraná e da confusão amazônica, mas o tigre rajado, asiático, real, que só pode ser enfrentado pelos homens de guerra, encastelados sobre um elefante. Costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das jaulas no Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres. (Lembro-me ainda dessas figuras: eu que não posso recordar sem horror o rosto ou sorriso de uma mulher). A infância passou, caducaram os tigres, e a paixão por eles, mas eles ainda permanecem em meus sonhos. Nessa lembrança submersa ou caótica, continuam a prevalecer, e assim: adormecido, um sonho qualquer distrai-me e eu sei de imediato que é um sonho. Costumo então pensar: Este é um sonho, uma pura diversão de minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre."
"Oh incompetência! Meus sonhos nunca sabem engendrar a apetecida fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado e débil, ou com impuras variações de forma, ou bastante fugaz, ou tirante a cão e a pássaro." (Jorge Luís Borges)
HINO
Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Arigento recordará
ter sido esse peixe.
Na caverna cujo nome será Altamira
uma mão sem cara traça a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acaricia
a seda que trouxeram
do reino do Imperador Amarelo
as caravanas e as naves.
O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela a seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os cães de prata perseguem os cervos
de outro.
Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de aprisionar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta como uma onda
e essas antigas coisas recorrem
porque a mulher te beijou.
(Jorge Luís Borges)
Deixou uma obra incomparável em língua espanhola, sobretudo pela capacidade inventiva e pelo poder de suas metáforas de transcendência filosófica.
Nos seus últimos anos de vida, viajou incansavelmente pelo mundo com a esposa, Maria Kodama, ex-aluna e secretária particular. Passava no máximo dois ou três dias em cada lugar, não dando muita importância nem para a cegueira nem para a velhice.
“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó” (Jorge Luís Borges)
Sempre que a ele se referiam como um dos últimos sábios sobre a terra, dizia: “Não, não tenho nenhuma sabedoria. Na verdade li muito pouco, e escrevi alguns livros, somente”.
* * *
JORGE LUÍS BORGES - Já não serei feliz...
JORGE LUÍS BORGES - 1964
Já não serei feliz. Talvez não importe.
Há tantas outras coisas no mundo;
um instante qualquer é mais profundo
e diverso que o mar. A vida é curta
e ainda que as horas sejam tão longas, uma
escura maravilha nos ronda,
a morte, esse outro mar, essa outra flecha
que nos livra do sol e da lua
e do amor. A sorte que me deste
e me tiraste deve ser apagada;
o que era tudo tem que ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste
esse inútil costume que me inclina
ao sul, a certa porta, a certa esquina.
Tradução: Alice Ruiz
* * *
ABÍLIO DINIZ - Avós e netos
Avós e netos
Saiba porque o laço entre eles é tão forte
Abílio Diniz - 03/11/2011
Se tem amor tão profundo quanto o de pais e filhos é o de avós e netos. Ainda mais nos casos de avós que acompanham a infância dos netos de perto. Agora, um estudo publicado na Association for Psychological Science, dos Estados Unidos, busca entender os motivos e as vantagens desses fortes laços afetivos entre as duas gerações.Segundo a pesquisa, a resposta para a proximidade entre avós e netos pode estar na evolução. Nas comunidades tradicionais antigas, as evidências apontam que as famílias que contavam com a assistência dos avós aumentavam as chances de sobrevivência das crianças. E, por isso, a presença deles na vida dos netos era tão importante.
Desse mesmo modo, a necessidade da presença dos avós continuou na sociedade moderna, período marcado pela saída da mãe para trabalhar fora de casa. Nessas condições, a melhor opção dos pais, quando possível, é deixar os filhos com os avós. “Os avós deram suporte às famílias no passado, continuam fazendo hoje e, sem dúvida, continuarão a contribuir no futuro”, afirma o autor da pesquisa David A. Coall.
E as vantagens desse relacionamento existem para ambos os lados. Enquanto os avós ensinam o que sabem da sua experiência e da história da família para os netos, as crianças os levam a reviver o passado e, assim, a refletirem sobre a vida. Para os avós, também é um momento em que eles podem desfrutar da relação com os netos de forma tranquila, pois não têm o dever de educar, como era com os filhos, mas apenas de conviver com eles de forma harmoniosa.
Apesar das descobertas, o estudo constatou, por outro lado, que há uma escassez de pesquisas sobre o efeito desse laço afetivo nas sociedades ocidentais modernas. O pesquisador acredita que para chegar a uma resposta definitiva sobre a influência dos dos avós na vida dos netos é necessário que cientistas dos campos da biologia, psicologia e economia evolucionária contribuam com mais estudos sobre o assunto.
Fonte: Association for Psychological Science
* * *
domingo, 4 de dezembro de 2011
sábado, 3 de dezembro de 2011
FRIDA KAHLO
![]() |
| Frida Kahlo, em 1932 |
Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón
(Coyoacán, Mexico, 6 de julho de 1907 — Coyoacán, 13 de julho de 1954).
Em 1913, com seis anos, Frida contrai poliomielite, a primeira de uma série de doenças, acidentes, lesões e operações que sofreu ao longo da vida. A poliomielite deixou uma lesão no seu pé direito, pelo que ganhou o apelido de Frida pata de palo (ou seja, Frida perna de pau). Passou a usar calças, depois longas e exóticas saias, que se tornaram uma de suas marcas pessoais.
Entre 1922 e 1925 frequenta a Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México e assiste a aulas de desenho e modelagem.
Em 1925, aos 18 anos, aprende a técnica da gravura com Fernando Fernandez.
Então sofreu um grave acidente. Um bonde, no qual viajava, chocou-se com um trem. O pára-choque de um dos veículos perfurou-lhe as costas, atravessou sua pélvis e saiu pela vagina, causando uma grave hemorragia.
Frida ficou muitos meses entre a vida e a morte no hospital, teve que operar diversas partes e reconstruir por inteiro seu corpo, que estava todo perfurado. Tal acidente obrigou-a a usar coletes ortopédicos de diversos materiais, e ela chegou a pintar alguns deles (como o colete de gesso da tela intitulada ‘A Coluna Partida'). Durante a sua longa convalescença, começou a pintar, usando a caixa de tintas de seu pai e um cavalete adaptado à cama.
![]() |
| A coluna partida |
Tentou diversas vezes o suicídio com facas e martelos, devido a sua vida extremamente infeliz, já que vinha sendo traída pelo marido e viviam brigando, mas não tinha coragem de se separar de vez.
Sob a influência da obra do marido, Frida adotou o emprego de zonas de cor amplas e simples, num estilo propositadamente reconhecido como ingênuo. Procurou na sua arte afirmar a identidade nacional mexicana, por isso adotava com muita frequência temas do folclore e da arte popular do México.
Em 1938 André Breton- poeta e teórico do surrealismo - qualifica sua obra de surrealista em um ensaio que escreveu para a exposição de Kahlo na galeria Julien Levy de Nova Iorque.
Não obstante, ela mesma declarou mais tarde: Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade.
Em 1939 expõe em Paris na galeria Renón et Colle. A partir de 1943 dá aulas na escola La Esmeralda, no D.F. (México).
Em 1953 a Galeria de Arte Contemporânea desta mesma cidade organiza uma importante exposição em sua honra.
Alguns de seus primeiros trabalhos incluem o Auto-retrato em um vestido de veludo (1926), Retrato de Miguel N. Lira (1927), Retrato de Alicia Galant (1927) e Retrato de minha irmã Cristina (1928).
Em 13 de julho de 1954, Frida Kahlo, que havia contraído uma forte pneumonia, foi encontrada morta.
Seu atestado de óbito registra embolia pulmonar como a causa da morte. Mas não se descarta que ela tenha morrido de overdose, devido ao grande número de remédios que tomava, e que pode ter sido acidental ou não.
A última anotação em seu diário diz: "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar - Frida", o que permite a hipótese de suicídio.
* * *
Assinar:
Postagens (Atom)




















