sexta-feira, 25 de outubro de 2013

GUIMARÃES ROSA e DRUMMOND


Escritor mineiro João Guimarães Rosa é autor de "Grande Sertão: Veredas", clássico da literatura brasileira
João Guimarães Rosa

"Afinal o esperado romance de Guimarães Rosa".

Esse era o chamariz do anúncio da editora José Olympio no "Correio da Manhã" de 17 de julho de 1956.
O anúncio ainda advertia: 
"Quando V. ler esse livro, não passe adiante o seu enredo. Deixe aos outros o prazer de descobrir o GRANDE SERTÃO: VEREDAS".

Dias depois, em 5/8, no mesmo jornal, o cronista Carlos Drummond de Andrade versejava:


"Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há, Guimarães Rosa
em seu 'Grande Sertão', traça veredas
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias".
*
Luís Felipe de Macedo Soares in:Folha de S.Paulo - Ilustríssima



Foto: Rosa e Aracy

Foi no início da década de 1960 que leitores do mundo inteiro tiveram as primeiras notícias sobre grandes escritores de países da América Latina. Surgia o Realismo Mágico – ou Realismo Fantástico – apresentando nomes como os argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, o colombiano Gabriel García Márquez, o peruano Mario Vargas Llosa, os cubanos José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante, os mexicanos Juan Rulfo e Octavio Paz, os chilenos Pablo Neruda e Violeta Parra, o paraguaio Augusto Roa Bastos, os uruguaios Mario Benedetti e Juan Carlos Onetti ou os brasileiros João Guimarães Rosa, Jorge Amado e Clarice Lispector, entre outros...

Imagem: João Guimarães Rosa e sua esposa, Aracy de Carvalho, em foto de 1942, quando o casal morava em Hamburgo, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Rosa exercia o cargo de Cônsul do Brasil na Alemanha. 

Veja mais em:
http://semioticas1.blogspot.com.br/2013/02/bodas-do-boom.html 

Veja também:
http://semioticas1.blogspot.com.br/2013/01/das-minas-gerais.html
.
João Guimarães Rosa e sua esposa, Aracy de Carvalho, em foto de 1942, quando o casal morava em Hamburgo, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Rosa exercia o cargo de Cônsul do Brasil na Alemanha. 

Foi no início da década de 1960 que leitores do mundo inteiro tiveram as primeiras notícias sobre grandes escritores de países da América Latina. 
Surgia o Realismo Mágico – ou Realismo Fantástico – apresentando nomes como os argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, o colombiano Gabriel García Márquez, o peruano Mario Vargas Llosa, os cubanos José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante, os mexicanos Juan Rulfo e Octavio Paz, os chilenos Pablo Neruda e Violeta Parra, o paraguaio Augusto Roa Bastos, os uruguaios Mario Benedetti e Juan Carlos Onetti ou os brasileiros João Guimarães Rosa, Jorge Amado e Clarice Lispector, entre outros.

*            *            *

terça-feira, 22 de outubro de 2013

SOROLLA - " O pintor da luz"


Joaquín Sorolla y Bastida nasceu em 27 de Fevereiro 1863 em Valência, Espanha. Recebeu sua educação artística inicial com 14 anos em sua cidade natal.

Com 18 anos viajou para Madrid para estudar pinturas no Museo del Prado. Depois do serviço militar ganhou uma bolsa para estudar pintura em Roma durante 4 anos.

Sorolla dedicava-se à produção de telas grandes, temas mitológicos, históricos e sociais para exibições em salões e exposições internacionais em Madrid, Paris, Veneza, Munique, Berlim e Chicago.

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Self-portrait


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Strolling along the Seashore

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Bathing on the beach

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Girls with flowers

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Otra Margarita

Com o notável Otra Margarita (1892)  foi premiado com uma medalha de ouro na Exposição Nacional em Madrid e com um prêmio na Exposição Internacional de Chicago. Logo tornou-se reconhecido.

*            *            *

Fonte:  "Esconderijo" , in OBVIOUS

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

VINÍCIUS DE MORAES - Lapa de Bandeira


LAPA DE BANDEIRA
Vinícius de Moraes - Rio de Janeiro , 1952

(Quinta rima) 
A Manuel Bandeira 

Existia, e ainda existe 
Um certo beco na Lapa 
Onde assistia, não assiste 
Um poeta no fundo triste 
No alto de um apartamento 
Como no alto de uma escarpa. 

Em dias de minha vida 
Em que me levava o vento 
Como uma nave ferida 
No cimo da escarpa erguida 
Eu via uma luz discreta 
Acender serenamente. 

Era a ilha da amizade 
Era o espírito do poeta 
A buscar pela cidade 
Minha louca mocidade. 
Como uma nave ferida 
Perambulando patética. 

E eu ia e ascensionava 
A grande espiral erguida 
Onde o poeta me aguardava 
E onde tudo me guardava 
Contra a angústia do vazio 
Que embaixo me consumia. 

Um simples apartamento 
Num pobre beco sombrio 
Na Lapa, junto ao convento... 
Porém, no meu pensamento 
Era o farol da poesia 
Brilhando serenamente.

*        *        *

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Maria Bethânia - Poema dos Olhos da Amada



POEMA DOS OLHOS DA AMADA
Vinícius de Moraes

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus 
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

*        *        *

sábado, 12 de outubro de 2013

GUIMARÃES ROSA - A menina de lá

A menina de lá
Guimarães Rosa

Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes.
Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito.  Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. - "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." - dizia o Pai, com certo espanto.
Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" - e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia.  Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido.  Com riso imprevisto: - "Tatu não vê a lua..." - ela falasse.  Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem;  de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava;  ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo.  Só a pura vida.

Em geral, porém, Nhinhinha, com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios. Nem parecia gostar ou desgostar especialmente de coisa ou pessoa nenhuma. Botavam para ela a comida, ela continuava sentada, o prato de folha no colo, comia logo a carne ou o ovo, os torresmos, o do que fosse mais gostoso e atraente, e ia consumindo depois o resto, feijão, angu, ou arroz, abóbora, com artística lentidão. 
De vê-la tão perpétua e imperturbada, a gente se assustava de repente. – "Nhinhinha, que é que você está fazendo?" – perguntava-se. E ela respondia, alongada, sorrida, moduladamente: - "Eu... to-u... fa-a-zendo". Fazia vácuos. Seria mesmo seu tanto tolinha?

Nada a intimidava. Ouvia o Pai querendo que a Mãe coasse um café forte, e comentava, se sorrindo: - "Menino pidão... Menino pidão..." Costumava também dirigir-se à Mãe desse jeito: - "Menina grande... Menina grande..."  Com isso Pai e Mãe davam de zangar-se. Em vão.  Nhinhinha murmurava só: - "Deixa... Deixa..." – suasibilíssima, inábil como uma flor. O mesmo dizia quando vinham chamá-la para qualquer novidade, dessas de entusiasmar adultos e crianças. Não se importava com os acontecimentos. Tranquila, mas viçosa em saúde. Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo. Mas, o respeito que tinha por Mãe e Pai, parecia mais uma engraçada espécie de tolerância. E Nhinhinha gostava de mim.
Conversávamos, agora. Ela apreciava o casacão da noite. – "Cheiinhas!" – olhava as estrelas, deléveis, sobre-humanas. Chamava-as de "estrelinhas pia-pia". Repetia: - "Tudo nascendo!" – essa sua exclamação dileta, em muitas ocasiões, com o deferir de um sorriso. E o ar. Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança. – "A gente não vê quando o vento se acaba..." Estava no quintal, vestidinha de amarelo. O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: - "Alturas de urubuir..." Não, dissera só: - "... altura de urubu não ir." O dedinho chegava quase no céu. Lembrou-se de: - "Jabuticaba de vem-me-ver..." Suspirava, depois: - "Eu quero ir para lá." – Aonde? – "Não sei" Aí, observou: - "O passarinho desapareceu de cantar..." De fato, o passarinho tinha estado cantando, e, no escorregar do tempo, eu pensava que não estivesse ouvindo; agora, ele se interrompera. Eu disse: - "A Avezinha." De por diante, Nhinhinha passou a chamar o sabiá de "Senhora Vizinha..." E tinha respostas mais longas: - "E eu? Tou fazendo saudade." Outra hora falava-se de parentes já mortos, ela riu: - "Vou visitar eles..." Ralhei, dei conselhos, disse que ela estava com a lua. Olhou-me, zombaz, seus olhos muito perspectivos: "Ele te xurugou?" Nunca mais vi Nhinhinha.

Sei, porém, que foi por aí que ela começou a fazer milagres.
Nem Mãe nem Pai acharam logo a maravilha, repentina. Mas Tiantônia. Parece que foi de manhã. Nhinhinha, só, sentada, olhando o nada diante das pessoas: - "Eu queria o sapo vir aqui" Se bem a ouviram, pensaram fosse um patranhar, o de seus disparates, de sempre. Tiantônia, por vezo, acenou-lhe com o dedo. Mas, aí, reto, aos pulinhos, o ser entrava na sala, para aos pés de Nhinhinha – e não o sapo de papo, mas uma bela rã brejeira, vinda do verduroso, a rã verdíssima. Visita dessas jamais acontecera. E ela riu: - "Está trabalhando um feitiço..." Os outros se pasmaram; silenciaram demais.

Dias depois, com o mesmo sossego: - "Eu queria uma pamonhinha de goiabada" – sussurrou; e, nem bem meia hora, chegou uma dona, de longe, que trazia os pãezinhos da goiabada enrolada na palha. Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita. Assim, quando a Mãe adoeceu de dores, que eram de nenhum remédio, não houve fazer com que Nhinhinha lhe falasse a cura. Sorria apenas, segredando seu – "Deixa... Deixa..." – não a podiam despersuadir. Mas veio vagarosa, abraçou a Mãe e a beijou , quentinha. A Mãe, que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto. Souberam que ela tinha também outros modos.

Decidiram de guardar segredo. Não viessem ali os curiosos, gente maldosa e interesseira, com escândalos. Ou os padres, o bispo, quisessem tomar conta da menina, levá-la para sério convento. Ninguém, nem os parentes de mais perto, devia saber. Também, o Pai, Tiantônia e a Mãe, nem queria versar conversas, sentiam um medo extraordinário da coisa. Achavam ilusão.

O que ao Pai, aos poucos, pegava a aborrecer, era que de tudo não se tirasse o sensato proveito. Veio a seca, maior, até o brejo ameaçava se estorricar. Experimentaram pedir a Nhinhinha: que quisesse a chuva. – "Mas, não pode, ué..." – ela sacudiu a cabecinha. Instaram-na: que, se não, se acabava tudo, o leito, o arroz, a carne, os doces, frutas, o melado. – "Deixa... Deixa..." – se sorria, repousada, chegou a fechar os olhos, ao insistirem, no súbito adormecer das andorinhas.

Daí a duas manhãs quis: queria o arco-íris. Choveu. E logo aparecia o arco-da-velha, sobressaído em verde e o vermelho – que era mais um vivo cor-de-rosa. Nhinhinha se alegrou, fora do sério, à tarde do dia, com a refrescação. Fez o que nunca lhe vira, pular e correr por casa e quintal.- "Adivinhou passarinho verde?" – Pai e Mãe se perguntavam. Esses, os passarinhos, cantavam, deputados de um reino. Mas houve que, a certo momento, Tiantônia repreendesse a menina, muito brava, muito forte, sem usos, até a Mãe e o Pai não entenderam aquilo, não gostaram. E Nhinhinha, branda, tornou a ficar sentadinha, inalterada que nem se sonhasse, ainda mais imóvel, com seu passarinho-verde pensamento. Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.


E, vai, Nhinhinha adoeceu e morreu. Diz-se que da má água desses ares. Todos os vivos atos se assam longe demais. 

Desabado aquele feito, houve muitas diversas dores, de todos, dos de casa: um de repente enorme. A Mãe, o Pai e Tiantônia davam conta de que era a mesma coisa que se cada um deles tivesse morrido por metade. E mais para repassar o coração, de se ver quando a Mãe desfiava o terço, mas em vez das ave-marias podendo só gemer aquilo de – "Menina grande... Menina grande..." – com toda ferocidade.E o Pai alisava com as mãos o tamboretinho em que Nhinhinha se sentava tanto, e em que ele mesmo se sentar não podia, que com o peso de seu corpo de homem o tamboretinho se quebrava.

Agora, precisavam de mandar um recado, ao arraial, para fazerem o caixão e aprontarem o enterro, com acompanhantes de virgens e anjos. Aí, Tiantônia tomou coragem, carecia de contar: que, naquele dia, do arco-íris da chuva, do passarinho, Nhinhinha tinha falado despropositado desatino, por isso com ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites de verdes brilhantes... A agouraria! Agora, era para se encomendar o caixãozinho assim, sua vontade?

O Pai, em bruscas lágrimas, esbravejou: que não! Ah, que, se consentisse nisso, era como tomar culpa, estar ajudando ainda Nhinhinha a morrer... 

A Mãe queria, ela começou a discutir com o Pai. Mas, no mais choro, se serenou – o sorriso tão bom, tão grande – suspensão num pensamento: que não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser! – pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha.

*            *            *

In: "Primeiras Estórias" - Livraria José Olympio Editora - 1981 - 12ª ed. - p.17-21

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CECÍLIA MEIRELES - Mar absoluto


Mar Absoluto
Cecília Meireles

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.
E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.
Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta,
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”

Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heroico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.
Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.
Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.
E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.
Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.
Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.
E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.
E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

*            *            *

DRUMMOND - O quarto em desordem

Tela de Leonid Afremov
O quarto em desordem
Carlos Drummond de Andrade

Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe com é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,
verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

*            *            *

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

HABEAS PINHO - poema interessante...



Habeas Pinho

poema de Ronaldo Cunha Lima e Roberto Pessoa de Souza -

Em João Pessoa - Paraíba, alguns elementos que faziam uma serenata foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido.
Tomando conhecimento do acontecido, o famoso poeta e senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.


Senhor Juiz:
Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do “crime”que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão.

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno acoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem : em um soneto !

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte á rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.


*            *            *

JACQUES PRÉVERT - Para pintar o retrato de um pássaro


Pour faire le portrait d’un oiseau
Jacques Prévert

Peindre d’abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d’utile
pour l’oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l’arbre
sans rien dire
sans bouger…
Parfois l’oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s’il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l’arrivée de l’oiseau
n’ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l’oiseau arrive
s’il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l’oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l’oiseau
Faire ensuite le portrait de l’arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l’oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l’herbe dans la chaleur de l’été
et puis attendre que l’oiseau se décide à chanter
Si l’oiseau ne chante pas
c’est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s’il chante c’est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l’oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.
**

Para pintar o retrato de um pássaro

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

*            *            *
In: "Poemas de Jacques Prévert". Tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

EDUARDO GALEANO e Machado de Assis

Galeano, a respeito de Machado de Assis

"1897 / Rio de Janeiro:
Ele é o grande romancista latino-americano desse século. Seus livros tiram as máscaras, com amor e humor, da alta sociedade de desocupados que ele, filho de pai mulato, conquistou e conhece como ninguém. Machado de Assis arranca a decoração de papel, falsas molduras de falsas janelas com paisagens da Europa, e pisca o olho para o leitor enquanto despe a parede de barro."

De Eduardo Galeano em "Memória do Fogo", trilogia que acaba de ser publicada na Série Ouro L&PM: http://bit.ly/17JXO1E

"1897 / Rio de Janeiro:

Ele  é o grande romancista latino-americano desse século. 
Seus livros tiram as máscaras, com amor e humor, da alta sociedade de desocupados que ele, filho de pai mulato, conquistou e conhece como ninguém. 
Machado de Assis arranca a decoração de papel, falsas molduras de falsas janelas com paisagens da Europa, e pisca o olho para o leitor enquanto despe a parede de barro."

Eduardo Galeano em "Memória do Fogo".


*            *            *



Início do romance "Ressurreição" 
Machado de Assis

“Naquele dia, — já lá vão dez anos! — o Dr. Félix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol.

O dia estava esplêndido; uma fresca bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se destacavam no azul do céu. Chilreavam na chácara vizinha à casa do doutor algumas aves afeitas à vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer uma chácara nas Laranjeiras.

Parecia que toda a natureza colaborava na inauguração do ano.

Aqueles para quem a idade já desfez o viço dos primeiros tempos, não se terão esquecido do fervor com que esse dia é saudado na meninice e na adolescência. Tudo nos parece melhor e mais belo, — fruto da nossa ilusão, — e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte”.

*           *            *

"Ressurreição"- primeiro romance de Machado de Assis, publicado em 1872.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ADÉLIA PRADO - Bendito


Bendito 
Adélia Prado

Louvado sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.

Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
violar as tumbas com o arranhão das unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.

Louvado sejas porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,
– velho ao fim da guerra como uma cabra –
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.
Louvado sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.

Uma vez, quando eu era menina, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!

*        *        *

domingo, 29 de setembro de 2013

SOPHIA DE MELLO BREYNER-ANDRESEN - Um dia

Postagem da página "A louca da biblioteca" - facebook



Um dia
Sophia de Mello Breyner

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

*            *            *

sábado, 28 de setembro de 2013

FLORBELA ESPANCA - DESEJOS VÃOS - Marcos Assunção - Programa Sr. Brasil



Desejos Vãos
Florbela Espanca
Musicado por Marcos Assunção



Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

*            *            *

In:  "Livro de Mágoas"

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da Telma

Post da página facebook -  A louca da biblioteca

Foto: ANTEONTEM PELA MANHÃ, céu acinzentando-se para receber a chuva da tarde, aconteceu um fato poético que - Ave! - fui capaz de ver a tempo. Uma pequena pétala que voa*, asas marrons e brancas, pousou no meu braço, quase à altura do ombro. Pousou e ficou o tal instante exato para cristalizar o presente.
E senti-me, súbito, um ser eleito, digno de experiências além do limite da realidade - conversar com anjos, sobrevoar o tempo nas costas de um dragão,...
Tá bom, sei, grande coisa, não foi nada demais. Mas permita-me, Deus, experimentar uma gota de envaidecimento. Perdoe-me pelo meu orgulho ao olhar minhas mãos limpas de sangue e por ainda me descobrir capaz de encantar-me com essa alegria boba que estremeceu meu coração jurássico. Uma borboletinha silvestre fez-me um carinho inesperado e pincelou meu dia de sonho. (TEL MONT)

* referência a Clarice Lispector

ANTEONTEM PELA MANHÃ, céu acinzentando-se para receber a chuva da tarde, aconteceu um fato poético que - Ave! - fui capaz de ver a tempo.

Uma pequena pétala que voa*, asas marrons e brancas, pousou no meu braço, quase à altura do ombro. Pousou e ficou o tal instante exato para cristalizar o presente.

E senti-me, súbito, um ser eleito, digno de experiências além do limite da realidade - conversar com anjos, sobrevoar o tempo nas costas de um dragão,...

Tá bom, sei, grande coisa, não foi nada demais. Mas permita-me, Deus, experimentar uma gota de envaidecimento. Perdoe-me pelo meu orgulho ao olhar minhas mãos limpas de sangue e por ainda me descobrir capaz de encantar-me com essa alegria boba que estremeceu meu coração jurássico. 
Uma borboletinha silvestre fez-me um carinho inesperado e pincelou meu dia de sonho. 
(TEL MONT)

* referência a Clarice Lispector


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