quarta-feira, 18 de março de 2015

Machado e a loucura - Adlla Rijo em 'Obvious'


A genialidade de Machado de Assis na abordagem sobre a loucura
Adlla Rijo - 'Obvious Literatura'


Um dos contos de feitura mais admirável de Machado de Assis, O alienista é uma sátira magistral acerca da inviabilidade de se definir a esfera da loucura, sob pena de incorrer numa generalização abominável. 
Afinal, como diz o ditado popular: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”.

A estória se passa na vila de Itaguaí, onde um médico, o Dr. Simão Bacamarte, obcecado por detectar enfermidades psíquicas, passa a recolher os supostos enfermos num asilo por ele criado, a chamada “Casa Verde”, com o propósito de tratá-los, assim como de desenvolver suas teorias científicas. 
Já desde o início de sua obra-prima, Machado dá dicas da insolência da missão abraçada pelo personagem. 
Não é à toa que o apresenta, na primeira página, como o “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas". 
A ironia machadiana resplandece fosforescente nesse texto.

No decorrer da narrativa, é apresentado ao leitor um fato inusitado: “[…] quatro quintos da população da vila estavam aposentados naquele estabelecimento […]”, ou seja, na Casa Verde. E disso decorre o mais curioso, que é a conclusão do Dr. Bacamarte: “[…] que desse exame e do fato estatístico resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; […]”. 

Com isso, o protagonista resolve dar liberdade aos reclusos da Casa Verde, que já representavam a esmagadora maioria da população local, e agasalhar nela as pessoas que se achassem na condição acima exposta, qual seja: equilíbrio ininterrupto das faculdades mentais.

Tendo em vista que a anomalia é tida como exceção e não como regra, o excêntrico personagem de Machado deduz que a loucura seria, então, o oposto daquilo que a maioria vem manifestando, ainda que o comportamento dessa maioria tenha sido, outrora, para ele, o indicativo de desajuste.

Salta aos olhos, também no conto, o perigo de se atribuir a um único homem um poder dessa natureza: o de classificar indivíduos segundo o seu critério e tolher a liberdade das pessoas, mesmo que em nome da ciência.

Secionar a humanidade em categorias, seja qual for o objetivo, é algo no mínimo temerário e pode levar, em casos extremos, a situações dramáticas como o holocausto. Os seres humanos tem suas particularidades e cada indivíduo é um mundo.

Não há como deixar escapar a intenção do autor de criticar de maneira sarcástica a psicologia sanitarista que dominava a época, bem como a postura pretensiosa de alguns no sentido de considerar que encontraram a chave para as mazelas da humanidade; como se tal chave existisse!

Convém notar que Simão Bacamarte não era um homem desprezível. Ao contrário; desfrutava de intensa credibilidade junto aos cidadãos da vila e à própria Câmara de Vereadores, e suas intenções foram expostas como sendo as melhores. 
Tanto é assim que na narrativa ele enclausura na Casa Verde a mulher que ama, sua própria esposa, D. Evarista da Costa e Mascarenhas, ao constatar a sua suposta patologia.

Nenhum desvio se subtraía aos olhos daquele homem que, paradoxalmente, acaba se apresentando, na trama, como o mais anormal de todos. 
Afinal, como fica evidente no texto de Machado, a totalidade dos hóspedes da Casa Verde conseguira, senão obter a cura, retornar às suas vidas fora desse estabelecimento, exceto Simão Bacamarte. 
É que, achando em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral, decide fechar-se na Casa Verde, apesar dos apelos contrários da mulher e dos amigos, entregando-se ao estudo e à cura de si mesmo até sua morte, que não teria tardado, segundo se depreende da narrativa.

Aliás, cabem aqui parênteses para reforçar o quanto uma obra está intrincada com as vivências de seu autor. 
Em seu livro Machado de Assis - Um gênio brasileiro, Daniel Piza destaca: “[….] Ele enfrentou muitos preconceitos de sua época: o preconceito racial, como um mulato escuro que viveu 49 dos 69 anos num Brasil escravocrata; o preconceito social, como um epiléptico de origem muito pobre que tinha grandes ambições literárias; e o preconceito intelectual, como escritor que adotou linguagem concisa e cristalina, rejeitou o otimismo e a religião e jamais aderiu a modas estéticas.”
E acrescenta, referindo-se à epilepsia de que era portador o nosso gênio: “[…] 
Depois da morte da amada, ressurgiu sem dó o mal que, para muitos, naqueles tempos, era sinal de insanidade.”

Com sua genialidade, Machado nos apresenta uma forma brilhante de fazer o grande público enxergar o risco na atitude indesejada de rotular pessoas, de secionar populações, de superestimar indivíduos e teorias, sejam elas filosóficas, religiosas ou científicas; e por fim, de “nunca sair dos trilhos”.

O ser humano é um misto de alegria e tristeza, de amor e ódio, de inquietude e paz, de loucura e sanidade. Carregamos o bom e o mau dentro de nós. 
Temos, cada qual, um pouco de Deus e do diabo em nossas entranhas. 
Negar isso significa negar a nossa própria essência, o que resulta não só em tolice, mas na maior e mais destrutiva loucura; que o diga Simão Bacamarte!


*            *            *

terça-feira, 17 de março de 2015

Não podemos ter a certeza de nada - José Luís Peixoto

Da página "Conti outra Artes e Afins"


Não podemos ter a certeza de nada
José Luís Peixoto - escritor português

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. 
As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. 
Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. 
Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. 
Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida.

— Por quê, pai?

— Não sei. Mas creio que é assim.

Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. 
Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. 
Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. 
Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. 
E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. 
Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.

— Por quê, pai?

— Porque o amor, filho.
*            *            *

No livro ‘Abraço’

segunda-feira, 16 de março de 2015

"Morte e vida severina" - João Cabral de Melo Neto

"Retirantes" - Cândido Portinari

JOÃO CABRAL DE MELO NETO – A ATEMPORALIDADE DA VIDA SEVERINA
Angelo Rafael - em "Obvious - Literatura"

O auto de natal pernambucano – Morte e Vida Severina - obra do escritor João Cabral de Melo Neto (1920-1999), escrito numa conjuntura política e social de um passado marcado pela migração de retirantes, diáspora nacional de proporções bíblicas, em busca de trabalho, pouso, água, víveres, pode ser vista hoje, na aldeia sem fronteiras e demarcações, como uma tentativa de cicatrizar a chaga na veia aberta de um país desigual, em meio à dignidade ou na absoluta falta dela. 

Sair dos confins da Serra da Costela em direção ao litoral, desfiando as cinquenta e três Ave Marias de um terço, desgastado e enegrecido pelo pretume da fumaça das velas de oratório, foi a única saída para Severino retirante. Partir! 
Não sabia ele, apenas desconfiava, que o curso do rio, ora trilha de barro rachado, ora fio lamacento de um Capibaribe que desemboca nos mangues populosos e no mar, que seu nome se tornaria adjetivo e timbre para uma vida miserável, sem outro alvorecer que não o sofrimento e o sempre caminhar e sobreviver.

No “desfiar do rosário”, de povoado em povoado, a vida severina encontra sua cumplicidade nas personagens da estrada: a rezadeira, que “vive de mortos a enterrar”; carpideiras e suas incelenças pranteando à beira de um minifúndio de sete palmos de terra; degredados filhos de Eva que entoam músicas evocativas às atividades pastoris ibérico medievais, numa região digna de um dos círculos de Dante, mas querida enquanto torrão nascedouro de esperanças e milagres. 
A obra, encenada e estudada em todo o Brasil e alhures, é um ato dramático na sua composição literária, enquanto métrica arcaica, cuja entonação do grito se iguala ao desespero, sem aquele que desafia em recitá-la o perceba.

Quando o Rio Capibaribe se apresenta como fio caudaloso e lamacento, esta esperança vem a brotar como as folhas verdes de cana fina da Zona da Mata, ou como canto mavioso de um mês mariano.
Mas como Caronte, os espíritos que mantiveram Severino firme até seu último passo, oferecem o golpe mortal do desânimo e apatia, no fim de uma jornada quase inútil e desesperadamente irremediável, até que o Mestre Carpina lhe mostra, numa simplicidade invejável que não vale a pena saltar fora da ponte e da vida. 


A “explosão de uma vida severina”, mesmo com todo o peso e fatalidade do adjetivo, é suficiente para que a vida se renove e vingue. 
O nascimento de uma criança em tal cenário de palafitas assombradas se sobrepõe a todas as vicissitudes de miséria e desengano. 
Acorre ao neonato toda a sorte de presentes natalícios, vindo de quem não tem quase nada para oferecer, mas cujo ato de doar o que possui é a quintessência do que melhor e ainda tem o ser humano.

“- Minha pobreza tal é que coisa não posso ofertar somente o leite que tenho para meu filho amamentar aqui são todos irmãos, de leite, de lama, de ar. -
- Minha pobreza tal é que não tenho presente melhor trago papel de jornal para lhe servir de cobertor, cobrindo-se assim de letras, vai um dia ser doutor.
- Minha pobreza tal é Que não tenho presente caro Como não posso trazer Um olho d’água de Lagoa do Carro, Trago aqui água de Olinda, Água da bica do Rosário.”

Não falta na obra o componente místico e messiânico, por meio dos oráculos e adivinhações, ora com nuances premonitórios da fatalidade da sina do retirante, ora no decretar o advir para a criança, que nasce nas palavras do embate entre as duas ciganas saídas da casa lamacenta dos caranguejos.

“-Atenção peço, senhores, para esta breve leitura: somos ciganas do Egito, lemos a sorte futura. vou dizer todas as coisas que desde já posso ver na vida deste menino acabado de nascer: aprenderá a engatinhar por aí, com aratus, aprenderá a caminhar, na lama, como goiamuns, e a correr o ensinarão os anfíbios caranguejos, pelo que será anfíbio como a gente daqui mesmo."

O contraponto abissal das leituras ciganas fala mais alto: o simples fato de uma vida vir à luz. 
Anos 1950, emblemático momento social, encontramos nas entrelinhas desta obra a verve do acreditar e esperar, como estigma sangrento de todo aquele que nasce sob a linha do Equador, numa terra a nordeste do continente.

“- E belo porque com o novo Todo o velho contagia... - Belo porque corrompe Com sangue novo a anemia. - Infecciona a miséria Com vida nova e sadia -Com oásis, o deserto, Com ventos, a calmaria."

Nas palavras do Mestre Carpina ancoramos toda a esperança do povo nordestino, brasileiro, construtor de cidades e vilas, de pontes e ferrovias, arautos da crença que desafia o nefasto pessimismo, protagonista da construção de uma identidade forjada a suor, sangue e lágrimas.

“— Severino retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga; é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva. E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida; mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida; mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida severina.”

E assim, esta vida, conduzida conta a conta como o debulhar do rosário em noite de novena, está presente de forma clara ou velada, em todos os lugares, estradas, famílias, aldeias, populações, porque ser severino é uma sina, ou mais, um estado de espírito.


*            *            *

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Conto "O Duelo" - Guimarães Rosa

Do site "Arte Médica" , de Renata Calheiros Viana - espetacular!

Cardiopatia Reumática em Conto de Guimarães Rosa



Uma apetitosa aula de insuficiência cardíaca congestiva conseguinte a cardiopatia adquirida da febre reumática é encontrada no conto O Duelo (Sagarana), de Guimarães Rosa. 


A cardiopatia reumática crônica (CRC) é uma complicação da faringoamigdalite causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A e decorre de resposta imune tardia a esta infecção em populações geneticamente predispostas. A febre reumática afeta especialmente crianças e adultos jovens. O acometimento cardíaco é caracterizado pela pancardite, entretanto são as lesões valvares as responsáveis pela síndrome e prognóstico.

[...] porque o Cassiano Gomes não dera baixa da polícia à toa, e sim excluído pela junta médica; e, apesar do seu garboso aspecto, não lhe prestava para muito o coração.

Não é à toa, porém, que um cavaleiro, excluído das armas por causa de más válvulas e maus orifícios cardíacos, se extenua em raids tão penosos, na trilha da guerra sem perdão.

O personagem roseano Cassiano Gomes, dispensado do exército devido às "más válvulas e maus orifícios cardíacos", teria o coração acometido pela cardiopatia reumática, evoluindo mais tarde para um quadro de insuficiência cardíaca congestiva: 

Pois foi lá que Cassiano Gomes teve o seu desarranjo, com a insuficiência mitral em franca descompensação. Desceram-no do cavalo e deram-lhe hospitalidade.

A lesão mitral descrita por Rosa corrobora com o diagnóstico de febre reumática, sendo esta valva a mais frequentemente acometida na doença. 

Cassiano, perseguindo por vingança Turíbio Todo durante longas cavalgadas, manifesta o edema em membros inferiores e a dispneia aos esforços característica da insuficiência cardíaca congestiva:

Cassiano sentiu que, agora, ao menor esforço, nele montava a canseira. E, do meio dia para a tarde, não podia mais ficar calçado, porque os tornozelos começavam a inchar.
Foi ao boticário e pediu franqueza. – Franqueza mesmo, mesmo, seu Cassiano? O senhor... Bem, se isso incha de tarde e não incha nos olhos, mas só nas pernas, é mau sinal... - Pra morrer logo? - Assim sem ser ligeiro... Lá pra o São-João do ano que vem...Mas já indo empiorando um pouco, aí por volta do Natal.

Mas não pode dar mais de três passos: cambaleou e teve de sentar-se à porta do cafua; e foi ali sentado que passou a passar todo o tempo, dia pós dia, com o peito encostado nos joelhos e, por via dos hábitos, com a winchester transversalmente no colo e a parabellum ao alcance da mão.

A posição “tronco elevado” assumida pelo personagem, evitando a horizontalização do corpo, aliviaria a dispneia pela melhora da capacidade respiratória. O edema, devido a gravidade, fica mais pronunciado nos pés, acometendo menos a face. 

E ele foi para um Jirau, com a barriga de hidrópico e a respiração difícil de um cachorro veadeiro que volta da caça. [...] Em volta dos lábios laivos azulados, e a doença lhe esgarçava o coração.

A cianose (“lábios lavios azulados”, a dispneia em repouso (“respiração difícil de um cachorro veadeiro”) bem como a ascite ("barriga de um hidrópico") faz parte do quadro terminal da insuficiência cardíaca. 

A poética descrição clínica da doença exala a essência médica no escritor Guimarães Rosa que, mesmo após abandonar o exercício da medicina, conserva a sensibilidade diagnóstica tão viva quanto suas personagens.
**

Postado por Renata Calheiros Viana às 16:03 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

HIRONDINA JOSHUA - As águas do tempo

Da página 'CONTI OUTRA arte e afins'

Gorongosa, Moçambique
AS ÁGUAS DO TEMPO
Hirondina Joshua (*)

Chegamos cedo ao Parque Nacional de Gorongosa. Queríamos anteceder o Sol que naquele dia se fazia primeiro.
─ …Eu definiria a água deste lugar, como a água que já tivesse percorrido o Universo, mas sem que ela própria o tivesse feito. O olhar me leva à posição de uma tal capacidade metafísica de ver e compreender a maravilhosa paisagem do conhecimento absoluto: entender a linguagem da água, o corpo e o verbo da sua molécula.
Sentei no horizonte como se Ser do horizonte fosse, estendendo distâncias à Vida.
A água me significou tudo. Era o planeta todo em estado de transcendência, mundos em estado de (di) fusão. 
Aconteci. Todo o instante que ali me fiz, inventou-se em mim a Terra : e crescia dentro e fundo e imaculado na razão mística da existência. Olhava o azul em todos os seus tons alguns até que se confundiam com o verde, os sons eram música sem pauta. Rítmicas e de uma tal perfeição que movia os ouvidos da emoção.
Enquanto pensava alto, ouvia o som da água, relaxando a carne interior. 

─ Vamos para outra direcção…há mais coisas fascinantes do outro lado. O meu colega já vinha a incomodar com aquele ar grave e irritado.

Eu não podia crer no que via, nem muito menos deixar de o fazer. As águas azuis transcendiam o verde que prezo, os montes, e todo o resto…Era a água a falar, eram os sons a dialogar, eu não via mais nada diante de mim senão o Ser azulado em que transformava. 

─ Vou mesmo embora. Estás a ouvir-me? 

Aquela voz irritante voava no azul das águas, fazia-se paz em toda a extensão da palavra. 

De olhos fitos no azul, retornei-me mar, rio, lago…esculpindo a beleza interior por via exterior. 

─ A água é certamente a coisa mais bela que Deus criou. Pensei com medo e receio mas eu gosto de sentir esta verdade que traço. Ainda que de forma escorregadia.
─Phiu phiu phiu phiu…ouvi um animal ao alto, parecia uma garça eu não sei diferenciar o canto das aves… distraída vi-me sozinha naquele espaço. 

Já o meu colega tinha ido embora, certamente à procura de uma outra maravilha naquele gigantesco Parque. Sacudi as calças; percorri o tempo com a mesma velocidade com que se percorre a luz. 
E pela primeira vez na vida; corri…
*        *        *


Hirondina Joshua nasceu em Maputo, Moçambique, a 31 de Maio de 1987. 
Está integrada em várias antologias, revistas, jornais, sites, blogues nacionais e internacionais.
 Teve Menção Extraordinária no Premio Mundiale di Poesia Nósside 2014.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MANUEL BANDEIRA - Mundo de Chagall

Tela de Marc Chagall
Mundo de Chagall
Manuel Bandeira

Ao diabo a crônica que eu deveria escrever hoje!  Sinto o corpo cansado, o espírito deprimido, a vontade incerta.  Estou precisando de um banho de poesia.  Não de poesia participante ou de pesquisa, concreta ou neoconcreta ou eletrônica, mas de poesia levitativa, astronáutica, poesia que me leve a outros mundos longe deste, ao mundo de Chagall, por exemplo.
Chagall é de profissão pintor.  Sem embargo, de vez em quando desabafa em poemas tão lenitivos nas suas imagens quanto a sua pintura em cores inocentes e frescas.
Ao banho pois:

"Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta,
Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
à procura de um lar.
Instalam-se em minha alma.
Eis por que sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas faces
Se cobriam de um orvalho amoroso,
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O país que trago dentro da alma."

(20.IX.1961)
*            *            *

No livro "Andorinha, andorinha" - Seleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade. Círculo do Livro, por cortesia de José Olympio Editora S.A.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

JANAÍNA BARROSO - Simplesmente complexo

Da página "Obvious - Recortes"


Simplesmente Complexo
Janaína Barroso

Catava conchinhas enquanto todos se divertiam no mar ou paqueravam na praia. 
Ao fim do dia sentou-se na areia e ficou admirando o pôr-do-sol enquanto alguns se arrumavam para a balada, e outros conversavam futilidades. 
Não havia nada de errado em falar futilidades e paquerar na praia, nem se jogar no mar ou na noitada, muito menos. 
Apenas queria desfrutar das conchas na areia e admirar o pôr-do-sol de mãos dadas com a solidão.

Pois ela não se sentia mais sozinha. O bom de envelhecer era que muitas coisas ficavam claras de uma hora para outra. 

Soube que "Todos somos sós, nascemos sós e morreremos sós." Mas que a diferença estava em se nos sentíamos sós. 
Alguns buscam pessoas para partilhar momentos, outros aventuras, e até alguns felizardos encontram o amor, mas todos se mantêm ocupados para não pensar muito na própria solidão. 
Alguns surtam se ficam mais de um minuto somente em companhia de seus próprios pensamentos, acabam buscando música, TV, internet, uma conversa ao telefone ou a leitura de um livro, e nem se dão conta disso.

Ela era assim, mas aprendeu a tirar coisas boas de sua própria solidão, de sua própria companhia. Parou de buscar loucamente aprovação das pessoas, de buscar alguém que aquecesse seu coração, de conhecer pessoas que se afinassem com ela. 

Talvez ela tenha visto que nada valia a pena no final das contas.

Não odiava todas as pessoas do mundo, mas queria por perto somente quem gostasse dela sem esperar nada em troca, e a maioria sempre esperava algo em troca. E ela sabia que não tinha mais nada a oferecer. Estava seca como o deserto.
"A vida é simples, as pessoas é que complicam." -Pensava

Ficou chacoalhando as conchinhas na sacola e sorria sozinha, pelo barulhinho engraçado que saía delas e pelo barulhinho que sua mente fazia ao mesmo tempo, pela felicidade que uma coisa tão boba podia proporcionar. O que faria mesmo com elas?


Levaria pra casa, as lavaria, guardaria por um tempo e depois iriam para o lixo com todo o monte de tralhas que guardava e depois abandonava. 

Não conseguia guardar as coisas por muito tempo, diferente dos acumuladores, ela precisava jogar fora, doar, arrumar.
(...)

Jogou as conchinhas na areia e decidiu escolher uma só para guardar, e dentre tantas perfeitas e branquinhas, escolheu aquela que nos permitia ouvir o som do mar. 

Encostou-a em sua orelha e soube que ela sempre seria como um telefone com ligação direta para aquele instante mágico que vivia.

Juntou as outras conchas novamente na sacola e se levantou, indo até a beira do mar, sentindo as pequenas ondas morrerem em seus pés descalços. 

Começou a jogá-las uma a uma como quem joga moedas numa fonte esperando que seus desejos se realizassem.



Talvez ela tenha feito seus pedidos em segredo, ou tenha feito algum pacto que somente o Mar saberia. 
Quem sabe tenha se livrado de todo o peso que o passado e o futuro depositavam em sua costas. Sabia que apenas o momento presente era tudo que tinha agora. 
Guardou a conchinha escolhida consigo e foi embora, agora olhando as estrelas que enfeitavam o céu como vagalumes. 
Seu mundo era tão complexamente simples...


*            *            *

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

TEL MONT - Filme breve



FILME BREVE

Do norte a outra vem, lenta e feérica. Uma fada loura salpicando sensualidade. Via-a todos os dias ir e vir do trabalho, ambas anônimas porém cada vez menos indiferentes. Bebia-lhe o perfume, prendia-se ao seu andar, aprendia-lhe as cores das roupas, horários, jeito e gestos. À noite, voava até sua janela e sonhava-lhe a intimidade.

Certa vez, num misto de cálculo, estratégia e destino, conseguiu sentar exatamente atrás dela no ônibus pela manhã. O vento entrando pela janela fez os leves cachos de sol roçarem em seus dedos emocionados. Descobriu mínimas sardas espalhadas por seus ombros (ela usava um vestido de decote largo).

Gostava de ser secreta, íntima espera ansiosa por trás de vidraças ou grades trabalhadas ou falsas distrações. Às vezes, a fada passava rasante pela sua porta e o olhar dela sempre a flechava de soslaio. Agora, no entanto, o imprevisível acontecia e a cercava sem saída.
O corpo branco veio vindo, os olhos dourados flamejantes e doces, e o mundo todo foi morrendo devagarzinho para não assustar as crianças e os enternecidos. Sob a chuva com sol seu corpo foi invadido por ondas de ternura ardente, delicadeza e frisson.
O olhar dela a tocou num golpe profundo.
"Teu desejo me irrita e me atrai. Me seduz essa contradição." - disse a fada, sem falar.
O olhar dela próximo, tão próximo, cruzou os céus do seu segredo. Ela passou e levou o sol, a chuva, encantou as palavras quase ditas e deixou um quê de infinito tremeluzindo pelo resto da tarde cinza. 

(TEL MONT)

*        *        *

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

MIA COUTO - O embondeiro que sonhava pássaros

O embondeiro que sonhava pássaros
Mia Couto


Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada.

Esse homem sempre vai ficar de sombra: nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu astro não era o Sol. Nem seu país não era a vida. 
Talvez, por razão disso, ele habitasse com cautela de um estranho.

O vendedor de pássaros não tinha sequer o abrigo de um nome. Chamavam-lhe o passarinheiro. Todas manhãs ele passava nos bairros dos brancos carregando suas enormes gaiolas. 
Ele mesmo fabricava aquelas jaulas, de tão leve material que nem pareciam servir de prisão. Parecia eram gaiolas aladas, voláteis. Dentro delas, os pássaros esvoavam suas cores repentinas. 
À volta do vendedeiro, era uma nuvem de pios, tantos que faziam mexer as janelas: - Mãe, olha o homem dos passarinheiros! E os meninos inundavam as ruas. 
As alegrias se intercambiavam: a gritaria das aves e o chilreio das crianças. 
O homem puxava de uma muska (Muska - nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.) e harmonicava sonâmbulas melodias. 
O mundo inteiro se fabulava.

Por trás das cortinas, os colonos reprovavam aqueles abusos. Ensinavam suspeitas aos seus pequenos filhos - aquele preto quem era? Alguém conhecia recomendações dele? Quem autorizara aqueles pés descalços a sujarem o bairro? Não, não e não. O negro que voltasse ao seu devido lugar. 
Contudo, os pássaros tão encantantes que são - insistiam os meninos. 
Os pais se agravavam: estava dito. Mas aquela ordem pouco seria desempenhada. 

Mais que todos, um menino desobedecia, dedicando-se ao misterioso passarinheiro. 
Era Tiago, criança sonhadeíra, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. 
Despertava cedo, colava-se aos vidros, aguardando a chegada do vendedor. 
O homem despontava e Tiago descia a escada, trinta degraus em cinco saltos. Descalço, atravessava o bairro, desaparecendo junto com a mancha da passarada. 

O sol findava e o menino sem regressar. 
Em casa de Tiago se poliam as lástimas: - Descalço, como eles. O pai ambicionava o castigo. Só a brandura materna aliviava a chegada do miúdo, em plena noite. O pai reclamava nem que fosse esboço de explicação: - Foste a casa dele? Mas esse vagabundo tem casa? 
A residência dele era um embondeiro, o vago buraco do tronco. Tiago contava: aquela era uma árvore muito sagrada, Deus a plantara de cabeça para baixo. - Vejam só o que o preto anda a meter na cabeça desta criança. O pai se dirigia à esposa, encomendando-lhe as culpas. 
O menino prosseguia: é verdade, mãe. Aquela árvore é capaz de grandes tristezas. Os mais velhos dizem que o embondeiro, em desespero, se suicida por via das chamas. Sem ninguém pôr fogo. É verdade, mãe. - Disparate - suavizava a senhora. E retirava o filho do alcance paterno. 

O homem então se decidia a sair, juntar as suas raivas com os demais colonos. 
No clube, eles todos se aclamavam: era preciso acabar com as visitas do passarinheiro. Que a medida não podia ser de morte matada, nem coisa que ofendesse a vista das senhoras e seus filhos. O remédio, enfim, se haveria de pensar. 

No dia seguinte, o vendedor repetiu a sua alegre invasão. 
Afinal, os colonos ainda que hesitaram: aquele negro trazia aves de belezas jamais vistas. Ninguém podia resistir às suas cores, seus chilreios. Nem aquilo parecia coisa deste verídico mundo. 
O vendedor se anonimava, em humilde desaparecimento de si: - Esses são pássaros muito excelentes, desses com as asas todas de fora. Os portugueses se interrogavam: onde desencantava ele tão maravilhosas criaturas? onde, se eles tinham já desbravado os mais extensos matos? O vendedor se segredava, respondendo um riso. 
Os senhores receavam as suas próprias suspeições - teria aquele negro direito a ingressar num mundo onde eles careciam de acesso? Mas logo se aprontavam a diminuir-lhe os méritos: o tipo dormia nas árvores, em plena passarada. Eles se igualam aos bichos silvestres, concluíam. 

Fosse por desdenho dos grandes ou por glória dos pequenos, a verdade é que, aos pouco-poucos, o passarinheiro foi virando assunto no bairro do cimento. 
Sua presença foi enchendo durações, insuspeitos vazios. Conforme dele se comprava, as casas mais se repletavam de doces cantos. Aquela música se estranhava nos moradores, mostrando que aquele bairro não pertencia àquela terra. Afinal, os pássaros desautenticavam os residentes, estrangeirando-lhes? Ou culpado seria aquele negro, sacana, que se arrogava a existir, ignorante dos seus deveres de raça? 
O comerciante devia saber que seus passos descalços não cabiam naquelas ruas. Os brancos se inquietavam com aquela desobediência, acusando o tempo. Sentiam ciúmes do passado, a arrumação das criaturas pela sua aparência. O vendedor, assim sobremisso, adiantava o mundo de outras compreensões. 
Até os meninos, por graça de sua sedução, se esqueciam do comportamento. Eles se tornavam mais filhos da rua que da casa. 
O passarinheiro se adentrara mesmo nos devaneios deles: - Faz conta eu sou vosso tio. 
As crianças emigravam de sua condição, desdobrando-se em outras felizes existências. E todos se familiavam, parentes aparentes. - Tio? Já se viu chamar de tio a um preto? 
Os pais lhes queriam fechar o sonho, sua pequena e infinita alma. 
Surgiu o mando: a rua vos está proibida, vocês não saem mais. Correram-se as cortinas, as casas fecharam suas pálpebras. Parecia a ordem já governava. 
Foi quando surgiram as ocorrências. Portas e janelas se abriam sozinhas, móveis apareciam revirados, gavetas trocadas. Em casa dos Silvas: - Quem abriu este armário? Ninguém, ninguém não tinha sido. O Silva maior se indignava: todos, na casa, sabiam que naquele móvel se guardavam as armas. 
Sem vestígios de força quem podia ser o arrombista? Dúvida do indignatário. Em casa dos Peixotos: - Quem espalhou alpista na gaveta dos documentos? O qual, ninguém, nenhum, nada. O Peixoto máximo advertia: vocês muito bem sabem que tipo de documentos tenho aí guardados. Invocava suas secretas funções, seus sigilosos assuntos. 
O alpisteiro que se denunciasse. Merda da passarada, resmungava.

No lar do presidente do município: - Quem abriu a porta dos pássaros? Ninguém abrira. 
O governante, em desgoverno de si: ele tinha surpreendido uma ave dentro do armário. 
Os sérios requerimentos municipais cheios de caganitas. - Vejam este: cagado mesmo na estampilha oficial. 
No somado das ocorrências, um geral alvoroço se instalou no bairro. Os colonos se reuniram para labutar em decisão. Se juntaram em casa do pai de Tiago. O menino iludiu a cama, ficou na porta escutando as graves ameaças. Nem esperou escutar a sentença. Lançou-se pelo mato, rumo ao embondeiro. 
O velho lá estava ajeitando-se no calor de uma fogueira. - Eles vem aí, vêm-te buscar. Tiago ofegava. O vendedor não se desordenou: que já sabia, estava à espera. O menino se esforçava, nunca aquele homem lhe tivera tanto valor. - Foge, ainda dá tempo. Mas o vendedor se confortava, em sonolentidão. 
Sereno, entrou no tronco e ali se ademorou. Quando saiu já vinha gravatado, de fato mesungueiro (Mesungueiro - de “mesungo”, homem branco). 
De novo, se sentou, limpando as areias por baixo. Depois, ficou varandeando, retocando o horizonte. - Vai, menino. É noite. Tiago deixou-se. Espreitava o passarinheiro, aguardando o seu gesto. Ao menos, o velho fosse como o rio: parado mas movente. Enquanto não. O vendedeiro se guardava mais em lenda que em realidade. E porquê vestiste o fato? Explicou: ele é que era natural, rebento daquela terra. Devia de saber receber os visitantes. Lhe competia o respeito, deveres de anfitrião. - Agora, você vai, volta na sua casa. Tiago levantou-se, difícil de partir. Olhou a enorme árvore, conforme lhe pedisse protecção. - Está a ver a flor? - perguntou o velho. E lembrou a lenda. 
Aquela flor era moradia dos espíritos. Quem que fizesse mal ao embondeiro seria perseguido até ao fim da vida. 

Barulhosos, os colonos foram chegando. Cercaram o lugar. O miúdo fugiu, escondeu-se, ficou à espreita. 
Ele viu o passarinheiro levantar-se, saudando os visitantes. Logo procederam pancadas,
chambocos, pontapés. O velho parecia nem sofrer, vegetável, não fora o sangue. 
Amarram-lhe os pulsos, empurraram-lhe no caminho escuro. 
Os colonos foram atrás deixando o menino sozinho com a noite. 
A criança se hesitava, passo atrás, passo adiante. Então, foi então: as flores do embondeiro tombaram, pareciam astros de feltro. No chão, suas brancas pétalas, uma a uma, se avermelharam. 
O menino, de pronto, se decidiu. Lançou-se nos matos, no encalço da comitiva. Ele seguia as vozes, se entendendo que levavam o passarinheiro para o calabouço. 
Quando se ensombrou por trás do muro, no próximo da prisão, Tiago sufocava. Valia a pena rezar? Se, em volta, o mundo se despojara das belezas. E, no céu, tal igual o embondeiro, já nenhuma estrela envaidecia. 
A voz do passarinheiro lhe chegava, vinda de além-grades. Agora, podia ver o rosto de seu amigo, o quanto sangue lhe cobria. 
Interroguem o gajo, espremam-no bem. Era ordem dos colonos, antes de se retirarem. O guarda continenciou-se, obediente. Mas nem ele sabia que segredos devia arrancar do velho. Que raivas se comprovavam contra o vendedor ambulante? Agora, sozinho, o retrato do detido lhe parecia isento de suspeita. - Peço licença de tocar. É uma música da sua terra, patrão. 
O passarinheiro ajeitou a harmónica, tentou soprar. Mas recuou da intenção com um esgar. - Me bateram muito-muito na boca. É muita pena, senão havia de tocar. 
O polícia lhe desconfiou. A gaita-de-beiços foi lançada pela janela, caindo junto do esconderijo de Tiago. Ele apanhou o instrumento, juntou seus bocados. Aqueles pedaços lhe semelhavam sua alma, carecida de mão que lhe fizesse inteira. O menino se enroscou, aquecido em sua própria redondura. Enquanto embarcava no sono levou a muska à boca e tocou como se fizesse o seu embalo. 
Dentro, quem sabe, o passarinheiro escutasse aquele conforto? Acordou num chilreino. Os pássaros! Mais de infinitos, cobriam toda a esquadra. Nem o mundo, em seu universal tamanho, era suficiente poleiro. 
Tiago se acercou da cela, vigiou o calabouço. As portas estavam abertas, a prisão deserta. O vendedor não deixara nem rasto, o lugar restava amnésico. 
Gritou pelo velho, responderam os pássaros. Decidiu voltar à árvore. Outro paradeiro para ele já não existia. Nem rua nem casa: só o ventre do embondeiro. 
Enquanto caminhava, as aves lhe seguiam, em cortejo de piação, por cima do céu. 
Chegou à residência do passarinheiro, olhou o chão coberto de pétalas. Já vermelhas não estavam, regressadas ao branco originário. Entrou no tronco, guardou-se na distância de um tempo. Valia a pena esperar pelo velho? No certo, ele se esfumara, fugido dos brancos. 
No enquanto, ele voltou a soprar na muska. Foi-se embalando no ritmo, deixando de escutar o mundo lá fora. 
Se guardasse a devida atenção, ele teria notado a chegada das muitas vozes. - O sacana do preto está dentro da árvore. Os passos da vingança cercavam o embondeiro, pisando as flores. - É o gajo mais a gaita. Toca, cabrão, que já danças! 
As tochas se chegaram ao tronco, o fogo namorou as velhas cascas. 
Dentro, o menino desatara um sonho: seus cabelos se figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam. Os dedos, lenhosos, minhocavam a terra. O menino transitava de reino: arvorejado, em estado de consentida impossibilidade. E do sonâmbulo embondeiro subiam as mãos do passarinheiro. Tocavam as flores, as corolas se envolucravam: nasciam espantosos pássaros e soltavam-se, petalados, sobre a crista das chamas. 
As chamas? De onde chegavam elas, excedendo a lonjura do sonho? Foi quando Tiago sentiu a ferida das labaredas, a sedução da cinza. 
Então, o menino, aprendiz da seiva, se emigrou inteiro para suas recentes raízes.

*          *          *
Do livro: "Cada Homem é uma Raça"



Notinhas:

Embondeiro - Baobá (árvore citada no livro "O pequeno príncipe", de Saint-Éxupery)
Chissena - Língua falada nas províncias de Sofala, Manica, Zambézia e Tete, em Moçambique.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

WILLIAM H. AUDEN - Funeral Blues


O poema Funeral Blues foi escrito por Auden em 1936, como a Canção 9 do livro Twelve songs, e costuma ser citado como expressão exemplar de um forte sentimento de perda e de luto, individual ou coletivo. 
Representativo do controle extraordinário do verso e da habilidade na manipulação da métrica do autor, o poema ganhou popularidade internacional no filme "Quatro casamentos e um funeral", numa cena em que o personagem Matthew homenageia seu companheiro morto.

Funeral Blues foi musicado por Benjamin Britten. Segue o original e algumas traduções, que mostram como é difícil o desafio de se traduzir bem boa poesia.

Stop all the clocks, cut off the telephone, 
Prevent the dog from barking with a juicy bone, 
Silence the pianos and with muffled drum 
Bring out the coffin, let the mourners come. 

Let aeroplanes circle moaning overhead 
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'. 
Put crepe bows round the white necks of the public doves, 
Let the traffic policemen wear black cotton gloves. 

He was my North, my South, my East and West, 
My working week and my Sunday rest, 
My noon, my midnight, my talk, my song; 
I thought that love would last forever: I was wrong. 

The stars are not wanted now; put out every one, 
Pack up the moon and dismantle the sun, 
Pour away the ocean and sweep up the woods; 
For nothing now can ever come to any good. 

April 1936
___

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

(tradução de Nelson Ascher)
_______

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.

(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
_______

Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.

Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.

Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.

Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.

(tradução de Vasco Graça Moura)
______

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e abafem o tambor
Tragam o caixão, deixem passar a dor. 

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe nos pescoços das pombas da região,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão. 

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: “não tinha razão”. 

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora nada mais de bom nos resta.

(tradução de ???)
_____

Parem os relógios, cale o telefone 
Evite o latido do cão com um osso 
Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie 
a vinda do caixão, seguido pelo cortejo. 

Que os aviões voem em círculos, gemendo 
e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu. 
Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua 
e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu. 

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste 
Meus dias úteis, meus finais-de-semana, 
meu meio-dia, meia-noite, minha fala e meu canto. 
Eu pensava que o amor era eterno; estava errado 

As estrelas não são mais necessárias; apague-as uma por uma 
Guarde a lua, desmonte o sol 
Despeje o mar e livre-se da floresta 
pois nada mais poderá ser bom como antes era. 

(tradução de ???)

*            *            *

JOSÉ MONTEIRO FILHO - Uma crônica

Crônica do Professor Monteiro em "Agenda Cultural Sul Fluminense"



“ NÃO DEVIA... MAS... ”
Inspirado no [re]início das Aulas em 2014
(por Monteiro Filho, José)


Meu caro leitor, com estas palavras dou Boas Vindas aos abnegados professores e professoras, alunos e todos os heróis nacionais que labutam no esforço de produzir Educação.

Eu bem sei é que a gente se acostuma a tudo sim. Ainda que não devesse. 
A gente se acostuma às carências da escola pública e a ter coragem de continuar malhando em ponta de faca, tentando esconder o sol com a peneira. E, porque não tem jeito, a gente logo se acostuma às promessas demagógicas de nossas autoridades que nunca se concretizam. São tantas que já nos acostumamos com elas, esquecemo-nos dos alunos e eles nem percebem que estamos dentro de uma sala que parece mais improvisada, sucateada, para lhes passar receitas para o bolo do conhecimento, ainda que venham a deixá-lo solar ou queimar.

A gente se acostuma a dormir tarde e acordar cedo, preparando aulas inúteis e enfadonhas; a gente se acostuma a dormir um sono de pedra retangular, negra ou verde, porque a gente se habituou a carregar nas costas a sala, o colégio, as notas, a indisciplina, o atrevimento; afinal, nem tudo passa goela abaixo, não é mesmo? Aí a gente se acostuma a levar nos ombros todos os dramas da escola.

A gente se acostuma com os apelidos, mesmo que camuflados, de loucos, neuróticos, malucos, ultrapassados, mal resolvidos, odiados porque somos a extensão da chatice dos pais ou dos responsáveis. 

A gente se acostuma a ver a vida em gritos, ralhas e chamadas de atenção. 
A gente nem vê o dia passar ali fora da janela alta, disforme, emperrada sempre. 

A gente se acostuma a discutir, vez ou outra, teorias de mestres antigos e novidadeiros e a se angustiar com elas. 

A gente se acostuma com a sensação do ridículo que passam às nossas ações, aos nossos esforços estéreis. 

A gente se acostuma a (des)preparar os jovens para o futuro de dignidade incerta e a lastimar pelo minguado salário do interminável mês. 
E a gente se acostuma a teimar com as ridículas e inócuas greves... A tudo é possível se acostumar. E é o que mais sabemos fazer. Acostumamos a ser brasileiros... 

A gente se acostuma a trabalhar com esta juventude que, desde os tempos de Sócrates ( 470-399 a.C. ) adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. 

A gente se acostuma a ver nossos filhos tiranos, não cederem lugar para os idosos e nos responderem e não nos ouvirem, porque estão com os ouvidos ocupados ouvindo melodias musicais, com letras e conteúdos de qualidade altamente duvidosos. 

Já estamos acostumando a ceder nossa liderança em favor dos bate papos, e dos joguinhos dos celulares, dos facebooks, skypes, whats app, e outros aplicativos virtuais sobre os quais não exercemos quaisquer sinais de domínio. 
Por vezes, excepcionalmente, exercemos domínios muito limitados, pois, nosso tempo escasso, calculado, não garante espaço para o acompanhamento diuturno da evolução perene dos meios da comunicação virtual e globalizada. 

A gente se acostuma a duvidar do futuro com estes exemplares de jovens em nossas vidas. 

A gente se acostuma a ver nos jornais e revistas e na providencial internet livros sobre educação, longe das possibilidades de nossos bolsos e de nossas leituras. 

A gente se acostuma a ser classe sem identidade, união e representação sérias, justamente porque a sociedade não nos leva a sério. 

A gente, pois, se acostuma à desvalorização, a ser joguete e bandeirola em festas políticas. 

A gente se acostuma a coisas de mais e de menos. A ter “peninha” dos filhos dos outros, ainda que depenados em nossa dignidade profissional. 

A gente se acostuma a não ter fins de semana, pizzaria, shopping ou calçadões... A gente se acostuma a um cartãozinho só e a sofrer com o pagamento mínimo. 

A gente só se sente feliz na hora de dormir, pois, o sono, sem sonhos, mas, às vezes, com pesadelos, chega e derruba pesado. 

A gente se acostuma a falar pouco em casa, com a família, com os filhos... a gente se acostuma com a dor de garganta e com o cansaço das cordas vocais. 
Em casa elas devem ser poupadas para o dia de amanhã. 

A gente se acostuma a não ter vida própria; para quê, se nossa vida é para os outros?

Mas, apesar de tudo, a gente queria se acostumar com o fato de sermos os responsáveis pela formação de tantas e tantas gerações que nem dão conta disso. E nos acostumamos a defender nossa vida, apoiando-nos nesta verdade jamais abolida.

Acostumemo-nos, pois, a sobreviver na contramão dos fatos. 
Afinal, como professores, acostumamo-nos a professar verdades, ética, dignidade, respeito... e nos acostumamos a acreditar que um dia acontecerá o milagre da nossa epifania. Amém !




*            *            *

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

André J. Gomes - Reflexão necessária...


Infelizmente, 2015 'promete' (no mau sentido)



Somos todos vítimas do massacre no Charlie Hebdo
André J. Gomes - 'Revista Bula'  


Estamos todos juntos. Profundamente ligados. A despeito daquilo em que nestas horas acreditam os assassinos e os canalhas, os indiferentes e os superficiais, os cegos voluntários e os simplesmente estúpidos, somos todos uma coisa só. E esta coisa tem sofrido faz tempo, padecido como agora, no choque de uma covardia impensável, na violência medonha de um novo ataque burro e cruel.

Somos semelhantes. Iguais. Seremos sempre. Apesar de todas as nossas diferenças, nós ainda somos seres idênticos. Bichos afoitos da natureza, descobrindo seu próprio jeito de viver e de morrer.

É claro que somos distintos, diversos de toda sorte. Nossos pés têm formas desiguais, pisam de modo e força e ritmo diferentes em terrenos variados. Rumam para cantos separados. Mas ainda somos tão parecidos!

A diferença sobe por nossas pernas e se esparrama. Nossas topografias corporais divergem, nossos joelhos nos cobram o peso do caminho em moedas singulares, nossos sexos se estranham em gênero, forma, tamanho, intenção, entusiasmo mas, se deixarmos, eles dão um jeito e se atraem e se completam.

Nossos intestinos, rins, bexigas, pulmões e outros órgãos internos exibem capacidades desiguais, mantêm ritmos divergentes de funcionamento, adotam padrões variados de tolerância. Entre nós, há os que se indispõem com uma mera sopa de mandioca e os que comem pedra e arrotam borboletas brancas de saúde. Somos tão diferentes em nosso por dentro e, no entanto, nossas semelhanças saltam corpo afora em jatos escandalosos de vida.

Os braços que temos enlaçam empreitadas sortidas, alcançam miradas díspares, exibem largura, extensão, força, cores e capacidades várias. Mas continuam os mesmos braços que aproximam e afastam, abraçam e atacam, com mãos que afagam e agridem. Os mesmos que tateiam agora o amanhã que a Deus pertence.

Somos tantos rostos se iluminando e se fechando por razões infinitas, ora similares, ora opostas. Nossas bocas sorriem ou vociferam a partir de impulsos tantos, porta-vozes de juízos que se criticam e se censuram porque no fundo padecem da mesma ânsia grandiosa de expressão.

Nós somos iguais. Levamos olhos que miram vistas únicas, horizontes maiores ou menores, objetivos vis ou edificantes. Mas que são as mesmas janelas da alma que resiste lá dentro, tocada pelos sons e cheiros descobertos por nossos ouvidos e narinas, alma servida pelas escolhas que fazemos com as pontas dos dedos.

Estes ombros são os mesmos que suportam o peso do choro alheio e carregam o piano do mundo. São os mesmos da indiferença demonstrada quando nos faltam sentimentos ou precisamos escondê-los.

Nossas cabeças deliram sonhos incomuns. E os nossos corações, ah… esses se abrem e se fecham a partir de estímulos insuspeitados e desiguais. Trabalham em velocidades variadas, amam em intensidades diversas. Mas são exatamente os mesmos operários capazes e insistentes, batendo no peito sua vocação incansável para a vida e seu movimento furioso.

Você e eu somos “o próximo” a quem se deve amar. Amemo-nos, pois. Nós estamos aqui para nada, senão para isso, rumando para o mesmo lugar.

O resto é desvio, intolerância, violência exasperada e estupidez praticada em todos os níveis — de insultos verbais na Internet até atentados bárbaros como o do jornal Charlie Hebdo. O impulso de atacar e lesar e calar o outro é o mesmo. E as vítimas são as mesmas de sempre: nós. Cada um de nós. Até quando? Para quê?


*            *            *

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015