sexta-feira, 29 de abril de 2011

CORA CORALINA - CORAÇÃO É TERRA...


Coração é terra que ninguém vê
Cora Coralina

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.

Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão

Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração.
Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...

*        *        *

SARAH BRIGHTMAN Hijo de la Luna

SECRET GARDEN

UM POUQUINHO DE GRAMÁTICA...


O que é erro de gramática na Língua Portuguesa


Uma exposição sobre os diferentes tipos de erros gramaticais
Prof. Leo Ricino*

Há alguns bons anos, venho refletindo muito sobre o conceito de erro gramatical. Acho que muitas vezes alguns “erros” por aí apregoados não passam de maneiras diferentes de empregar a língua.


Num artigo nesta mesma revista, eu disse que nada é tão democrático quanto a língua. Mas… como toda democracia, ela requer sacrifícios e concessões no seu emprego. Democracia não é fazer o que se quer, mas sim o que é possível fazer, com respeito aos demais. O mesmo se pode dizer da língua: não se pode usá-la de qualquer jeito, mas sim de acordo com certo padrão.


Que padrão é esse? Quem estabeleceu esse padrão? Por que esse padrão e não outro padrão? Muitas perguntas, mas basta uma resposta. Temos de garantir à língua sua função primordial: promover a comunicação e, com ela, garantir a inteligibilidade das mensagens. Ora, para isso, é preciso usar um padrão linguístico que garanta a universalização de entendimento dentro da língua. Esse padrão é conhecido como normaculta e é usado pelos meios de comunicação, pelos livros não literários e literários, pelas pessoas de boa formação cultural... Basicamente, a norma-padrão ou culta é conhecida e reconhecida. É a ensinada nas escolas ou, pelo menos, deveria ser. A escola deve partir da língua usada pelos seus alunos e ensinar-lhes a norma-culta. Senão, a escola para nada serve, pois todas as disciplinas e todo o repertório do homem são consolidados pela língua-padrão. Empregar a língua culta amplia a possibilidade de ascensão social.


Se aceitássemos como padrão os vários regionalismos e mesmo dialetos, acabaríamos por formar outras línguas. O latim vulgar nos deu exemplo disso e transformou-se em várias línguas, incluindo a nossa. Talvez aqui possamos ampliar o conceito de poliglota. Deixa de ser só aquele que fala várias línguas para incluir também aquele que consegue pelo menos compreender e falar razoavelmente os vários regionalismos e dialetos de sua própria língua.


ERRO DE ORTOGRAFIA
Bem, voltemos aos erros de português. A língua portuguesa é etimológica, ou seja, as palavras são escritas de acordo com sua origem. Assim, não existe, por exemplo, “octagésimo” em português, porque a forma “octogésimo” já veio assim do latim octogesimu. Escrevemos “justiça” porque o “t” latino, em determinadas situações e a partir de algum momento, transformou-se em “ç” em português: justitia > justiça; petitio/onis > petição: locutio/onis > locução, etc.


Portanto, sendo nossa língua etimológica e assim consagrada nos oito países que a têm como oficial, escrever de forma que fuja à origem é um erro de português. Não dá para aceitar uma “caza” assim, com “z”, porque não era assim no latim. Ou “análize” porque veio do latim análusis. Erro de ortografia é, portanto, um erro gramatical e linguístico.


ERRO DE ACENTUAÇÃO GRÁFICA
Atualmente, após o recente Acordo Ortográfico, a língua portuguesa passou a ter 26 letras. Mas o número de fonemas e das diferentes entoações é maior (só com as vogais, por exemplo, temos 12 fonemas). É exatamente por essa diferença numérica que fomos obrigados a criar recursos auxiliares na representação gráfica dos fonemas e entoações. Por isso surgiram os sinais diacríticos ou notações léxicas (til, cedilha, acentos agudo, grave e circunflexo, hífen, trema e apóstrofo) e os dígrafos, esses também para adaptação ortoépica.


A acentuação gráfica é, por isso, uma necessidade da escrita para representar corretamente a pronúncia das palavras. É evidente que “medico” é diferente de “médico” e, na fala, isso não apresenta qualquer dificuldade. Mas como representar as duas pronúncias na escrita? Aí entra o acento gráfico colocado sobre o acento tônico da palavra representada: médico. “Amássemos” e “amassemos” não apresentam complicação na fala, mas apresentariam na escrita, mesmo sendo verbos diferentes, se não contássemos com o recurso do acento gráfico. Idem com “amara” e “amará”, “pôde” e “pode” etc. Diante do exposto, já se percebe a imprescindibilidade do uso dos acentos gráficos para a escrita. Portanto, erro de acentuação gráfica também é erro gramatical.


ERROS DE CONCORDÂNCIA
Seis das dez classes de palavras da nossa língua são variáveis, flexíveis. Essas flexões ocorrem para atender sintaticamente à concordância entre elas. Como já afirmei em artigo numa edição anterior desta revista, metaforicamente, podemos afirmar que há entre as classes de palavras dois fortes feudos, um tendo como senhor o substantivo, que domina quatro vassalos: o adjetivo, o artigo, o numeral e o pronome. Esses vassalos, absolutamente obedientes e servis, se flexionam para concordar com seu senhor e rei, o substantivo, em gênero (masculino, feminino e até neutro) e número (singular e plural). A esse fenômeno se dá o nome de concordância nominal.


Outro senhor na morfologia é o verbo, que tem um súdito seu: o advérbio. No entanto, quando passamos para a sintaxe, o verbo vira vassalo obediente do seu sujeito, totalmente subserviente a ele (deixemos de lado aqui a velhíssima discussão sobre quem é mais importante: o sujeito ou o predicado). Aí o verbo concorda com seu sujeito (sua pessoa reta, que sempre pode ser representada pelos pronomes pessoais retos) em número (singular e plural) e pessoa (1ª, 2ª e 3ª). A esse fato se dá o nome de concordância verbal.


Outro senhor na morfologia é o verbo, que tem um súdito seu: o advérbio. No entanto, quando passamos para a sintaxe, o verbo vira vassalo obediente do seu sujeito, totalmente subserviente a ele (deixemos de lado aqui a velhíssima discussão sobre quem é mais importante: o sujeito ou o predicado). Aí o verbo concorda com seu sujeito (sua pessoa reta, que sempre pode ser representada pelos pronomes pessoais retos) em número (singular e plural) e pessoa (1ª, 2ª e 3ª). A esse fato se dá o nome de concordância verbal.


Por causa do fenômeno da concordância é que não podemos aceitar frases como a dita por uma repórter do tempo numa rádio de São Paulo: “... isso porque o nível dos córregos e rios continuam bastante elevados.” (Rádio Jovem Pan, 21/12/09). O verbo deveria estar no singular porque seu sujeito é “o nível dos córregos e rios”, cujo núcleo é a palavra “nível”. E o “elevados” também deveria concordar com “nível” e passar para o singular. Também é errada a frase dita por outro repórter de outra rádio de São Paulo: “O pensamento dos Estados Unidos sobre combustíveis fósseis, aquecimento global e mudanças climáticas começam a mudar, e o etanol brasileiro foi beneficiado com isso.” (um repórter da Rádio Bandeirantes, janeiro de 2010), visto que o núcleo do sujeito é “O pensamento”, com o qual o verbo “começar” deveria concordar. No singular, portanto. Para falar de concordância, precisaríamos, no entanto, de um artigo exclusivo. Mas... erro de concordância é, sem dúvida, erro gramatical.
*            *            *

kkkkkkkk.!!!!!...

NARA LEÃO - Cuitelinho



CUITELINHO

Cheguei na bera do porto
onde as onda se espaia.
As garças dá meia volta
e senta na bera da praia.
E o cuitelinho não gosta
que o botão de rosa caia, ai, ai...


Quando eu vim de minha terra,
despedi da parentaia.
Eu entrei no Mato Grosso,
dei em terras paraguaia.
Lá tinha revolução,
enfrentei fortes bataia, ai, ai...


A tua saudade corta
como aço de navaia.
O coração fica aflito,
bate uma, a outra faia.
E os óio se enche d'água
que até a vista se atrapaia, ai, ai...
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Os arcaísmos de nossa língua mátria
"Cuitelinho": designação dada a certa espécie de beija-flor; é também o título de uma modinha do folclore do Centro-oeste do Brasil, adaptada por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó, e que tornou-se um clássico da genuína música sertaneja. Entre as muitas gravações - Milton Nascimento, Renato Teixeira e outros - é na voz de Nara Leão a de que gosto mais.


Nota informativa:
Os castelhanos chamam de “yeísmo” ao fenômeno em que o “LL” deles, nosso “LH”, é pronunciado como “i”, como em caballo (cavalo), que se diz “cabaio”, pelo povão espanhol, no Caribe e na América Central. Curiosamente, na França, o mesmo “LL” , como em bataille (batalha), abeille (abelha), se pronuncia “batáie” e “abéi”, respectivamente.
Da mesma forma, o nosso falante do interior do Brasil, segue, por uma origem comum e remota, as mutações de pronúncia das línguas do mesmo tronco neolatino; como se vê nos exemplos de Cuitelinho: batáia (batalha), espáia (espalha), naváia (navalha).


(BAGNO, Marcos, A Língua de Eulália, Ed. Contexto, 1997)

CHOPIN - Nocturno N° 1 en Si Bemol menor OP 9

quinta-feira, 28 de abril de 2011

300 FLOWERS


300 Flowers
Allison Miller

You and I
Said goodbye
I thought I'd die
300 flowers
I've sitting here for hours
Can't seem to make up my mind

You and I
Second chance
Home town romance
300 flowers
When I gave up what was ours
I met a man so kind

Red petals tickling my feet
Like an oriental carpet
Thick and sweet

What once was dust now is grain
I believe
I've found my new man

Maybe you
Won't be blue
I've someone new
300 flowers
I've been sitting here for hours
I've up and changed my mind
Yeh
I've up and changed my mind


* * *

CLARICE LISPECTOR - FRAGMENTOS


"Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.

Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.

 Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.

Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é a angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa.

 Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.

Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.

Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."
*        *        * 
Clarice Lispector in: 'Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres'

ROLAND BARTHES


SEM RESPOSTA
(Texto extraído do livro "Fragmentos de um Discurso Amoroso" - Roland Barthes)

1. "Quando se falava com ele, discursando para ele sobre qualquer que fosse o assunto, X parecia frequentemente olhar e escutar ao longe, espiando alguma coisa nas redondezas: parava-se desencorajado; no fim de um longo silêncio, X dizia: 'Continua, eu estou escutando'; então se retomava meio sem jeito o fio de uma história na qual já não se acreditava mais."

(O espaço afetivo, como uma péssima sala de concerto, comporta recantos mortos, onde o som não circula. - O interlocutor perfeito, o amigo, não será aquele que constrói ao redor de você a maior ressonância possível? A amizade não poderia ser definida como um espaço de uma sonoridade total?)


2. Essa escuta fugidia, que só posso capturar depois de algum tempo, me envolve num pensamento sórdido: empenhado com ardor em seduzir, em distrair, eu acreditava exibir, ao falar, tesouros de engenhosidade, mas esses tesouros são apreciados com indiferença; gasto minhas qualidades à toa; toda uma excitação de afetos, de doutrinas, de saber, de delicadeza, todo o esplendor do meu eu vem se enfraquecer, se amortecer num espaço inerte, como se - pensamento culpado - minha qualidade excedesse a do objeto amado, como se eu estivesse mais adiantado do que ele. Ora, a relação afetiva é uma máquina exata; a coincidência, a justiça, no sentido musical, são fundamentais; o que não está no mesmo nível é imediatamente demais: minha fala não é propriamente um detrito mas um "não vendido"; aquilo que não se consome no momento (no movimento) e é destruído.

(Da escuta distante nasce uma angústia de decisão: devo continuar, pregar "no deserto"? Seria preciso uma segurança que a sensibilidade amorosa precisamente não permite. Devo parar, desistir? Seria parecer me vexar, colocar o outro em questão, e daí começar uma "cena". Mais uma vez a armadilha.)


3. "A morte é sobretudo isso: tudo que foi visto, terá sido visto para nada. É o luto daquilo que percebemos." Nesses breves momentos em que falo à toa, é como se eu morresse. Porque o ser amado se torna um personagem de chumbo, uma figura de sonho que não fala, e o mutismo, em sonho, é a morte. Ou ainda: a Mãe gratificante me mostra o Espelho, a Imagem, e me fala: "É você". Mas a Mãe muda não me diz o que sou: não tenho mais base, flutuo dolorosamente, sem existência.

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Roland Barthes é um autor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês. Graduado em Letras Clássicas, em 1939, e Gramática e Filosofia, em 1943, na Universidade de Paris, ele integrou o movimento conhecido como Estruturalismo, seguindo as concepções do principal teórico da Lingüística, Ferdinand de Saussure.

CORA CORALINA - Poeminha amoroso

Poeminha Amoroso
Cora Coralina

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...

E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."
*        *        *

VINICIUS DE MORAES - ALÉM DO TEMPO


ALÉM DO TEMPO

Vinícius de Moraes

Esse amor sem fim, onde andará?
Que eu busco tanto e nunca está
E não me sai do pensamento
Sempre, sempre longe



Esse amor tão lindo que se esconde
Nos confins do não sei onde
Vive em mim além do tempo
Longe, longe, onde?



Por que não me surges nessa hora
Como um sol
Como o sol no mar
Quando vem a aurora



Esse amor que o amor me prometeu
E que até hoje não me deu
Por que não está ao lado meu?



Esse amor sem fim, onde andará?
Esse amor, meu amor,
Onde andará?
*        *        *
In Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"

quarta-feira, 27 de abril de 2011

FERNANDO PESSOA - fragmentos (Bernardo Soares)


Bernardo Soares (heterônimo Fernando Pessoa)

"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei.
E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios.
Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele.
Vivo mais porque vivo maior."


***
"O coração, se pudesse pensar, pararia."

***
"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo.
Não sei onde me levará, porque não sei nada.
Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros.
Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo aos que são, os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo aos que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim.
Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero."

***
"Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro.
Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem.
Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."
***

Do 'Livro do Desassossego' - Bernardo Soares  (heterônimo de Fernando Pessoa)



VINÍCIUS DE MORAES - O HAVER

O HAVER

Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
de aceitá-la tal como é, e essa visão
ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
e desnecessária presciência, e essa memória anterior
de mundos inexistentes, e esse heroísmo
estático, e essa pequenina luz indecifrável
a que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/1962

(In: "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

JOÃO UBALDO - (trecho 'Memória de livros')

Estava relendo algumas crônicas antigas de João Ubaldo Ribeiro, quando me deparei com um trecho maravilhoso sobre uma "discussãozinha" entre o pai e a avó paterna do escritor. Aí está:


 (...) "Nas férias escolares, ela ia me buscar para que eu as passasse com ela, e meu pai ficava preocupado.

- D. Amália - dizia ele, tratando-a com cerimônia na esperança de que ela se imbuísse da necessidade de atendê-lo -, o menino vai com a senhora, mas sob uma condição. A senhora não vai deixar que ele fique o dia inteiro deitado, cercado de bolachinhas e docinhos e lendo essas coisas que a senhora lê.

- Senhor doutor - respondia minha avó -, sou avó deste menino e tua mãe. Se te criei mal, Deus me perdoe, foi a inexperiência da juventude. Mas este cá ainda pode ser salvo e não vou deixar que tuas maluquices o infelicitem. Levo o menino sem condição nenhuma e, se insistes, digo-te muito bem o que podes fazer com tuas condições e vê lá se não me respondes, que hoje acordei com a ciática e não vejo a hora de deitar a sombrinha ao lombo de um que se atreva a chatear-me. Passar bem, Senhor doutor.

E assim eu ia para a casa de minha avó Amália, onde ela comentava mais uma vez com meu avô como o filho estudara demais e ficara abestalhado para a vida, e meu avô, que queria que ela saísse para poder beber em paz a cerveja que o médico proibira, tirava um bolo de dinheiro do bolso e nos mandava comprar umas coisitas de ler - Amália tinha razão, se o menino queria ler que lesse, não havia mal nas leituras, havia em certos leitores. E então saíamos gloriosamente, minha avó e eu, para a maior banca de revistas da cidade, que ficava num parque perto da casa dela e cujo dono já estava acostumado àquela dupla excêntrica. Nós íamos chegando e ele perguntava:

-Uma de cada?

- Uma de cada - confirmava minha avó, passando a superintender, com os olhos brilhando, a colheita de um exemplar de cada revista, proibida ou não-proibida, que ia formar uma montanha colorida deslumbrante, num carrinho de mão que talvez o homem tivesse comprado para atender a fregueses como nós.
- Mande levar. E agora aos livros! "

JOÃO UBALDO RIBEIRO in: Memória de Livros
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