sábado, 8 de junho de 2013

CLARICE - Uma história de tanto amor


Uma História de Tanto Amor
Clarice Lispector

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. 
A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. 
Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.
Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. 
Então pedia um remédio a uma tia. E a tia : “Você não tem coisa nenhuma no fígado”. Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio.
A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. 
A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café - e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. 
A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. 
A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.
Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. 
A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:
- Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou:
- Nós comemos Petronilha.
A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. 
O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe:
- Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. 
A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas-gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. 
Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. 
As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.
Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. 
Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. 
A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.

*            *            *
                                       
Do livro 'A Felicidade Clandestina'

sexta-feira, 7 de junho de 2013

CECÍLIA MEIRELES - por ela mesma (parte I )

Cecília Meireles

A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964

Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” 
“Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. 
Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. 
Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

Cecília é carioca. Nasceu em novembro, dia de S. Florêncio (filha de Matilde e Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil), em Haddock Lobo, na Rua São Luís.
Seriam quatro irmãos, mas nunca chegaram a ser dois sequer, porque, mal nascia um, o outro já tinha morrido. Só ficou Cecília. 
Perdeu a mãe com três anos e meio, tendo sido criada pela avó, Jacinta Garcia Benevides, da Ilha de São Miguel, Açores, descendente de gente que andou do lado do Infante D. Henrique. 
A ela dedica Cecília:
'Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído…
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.' 
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"Minha primeira escola foi a Estácio de Sá, que depois passou a Escola Normal, onde me formei. Olhando para trás me sinto uma criança extremamente poética. Em casa de meu padrinho, Louzada, onde brincava, sempre silenciosa e observando-a, via estátuas, pinturas, coleções de pequeninos, objetos e leques em vitrinas, coisas que me levaram a fazer o “Inventário Lírico”."
**
"Vovó era uma criatura extraordinária. Ex­tremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: “Por quem você está rezando?” “Por todas as pessoas que sofrem.” 
Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida."
**
"Uma das coisas que mais me encantavam em minha vida de infância era o eco que vivia em casa de minha avó. Eu vivia procurando o meu eco. Mas tinha vergonha de perguntar. Recolhida, tímida, deslumbrada, me debruçava no mistério das palavras e do mundo. Queria saber, mas tinha imenso pudor de confessar minha ignorância."
'Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.'
**
"Terminada a Escola Normal, fui lecionar o primário, ainda com um jeito de menina, num sobrado da Avenida Rio Branco. Ali, na mesma sala, havia duas turmas e duas professoras, a metade voltada para cada lado. Pois as crianças, vendo-me quase tão menina quanto elas, viraram quase todas para mim. 
Sempre gostei muito de ensinar. Trabalhei na Escola Deodoro, ali junto ao relógio da Glória. Fui professora de Literatura da Universidade do Distrito Federal. Criei a primeira biblioteca infantil, ali onde era o Pavilhão Mourisco. 
Criança que não tivesse onde ficar podia encontrar o livro que lhe faltava, coleção de selos, moedas, jogos de mesa, sonhos, histórias e as explicações de professoras prontas e atentas. 
Acabou, depois de quatro anos, mas frutificou em São Paulo onde hoje existe até biblioteca infantil para cegos. 
Também ensinei História do Teatro na Fundação Brasileira. O resto da minha atividade didática está nas conferências em que sempre procuro transmitir algo."


'Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.'
**
"Você sabe que eu tenho muito medo da literatura que é só literatura e que não tenta comunicar?"


'Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.'
**
"Vivo constantemente com fome de acertar. Sempre quase digo o que quero. Para transmitir, preciso saber. Não posso arrancar tudo de mim mesma sempre. Por isso leio, estudo. Cultura, para mim, é emoção sempre nova. Posso passar anos sem pisar num cinema, mas não posso deixar de ler, deixar de ouvir minha música (prefiro a medieval), deixar de estudar, hindi ou o hebraico, compreende?"
'Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.'
**                                                  
"Casei com vinte anos. Tenho três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda. As três são bibliotecárias mas a minha biblioteca não está fechada. Maria Fernanda você conhece como atriz, não é mesmo? 
As três têm em comum uma bondade comovente mas são de temperamentos completamente diferentes. 
Tenho cinco netos. 
Viúva, casei em 1940 com Heitor Grilo, um homem admirável pela sua extraordinária fé no ser humano, em sua ânsia de tudo elevar. Basta dizer a você que, nesta primeira e única doença que tive e que me segurou cinco meses, ele não arredou pé, um momento de carinho, gesto e palavra prontos, apesar de suas inúmeras responsabilidades e ocupações. Conheci-o quando fui entrevistá-lo certa vez. Depois… nunca mais o entrevistei. Entendemo-nos até calados."


'No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.'


*            *            *
Fonte: 'Revista Bula'

quarta-feira, 5 de junho de 2013

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS - 'Vermelho Amargo' (trecho)

Vermelho Amargo  (trecho)
Bartolomeu Campos de Queirós

Mesmo em maio — com manhãs secas e frias — sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. 
Desconheço o ruído que interrompeu meu sono naquela noite. Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo. 
A vida me pareceu inteiramente concluída. Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa. Preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo das mentiras.

Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro. Principia nas unhas, passa pelos cabelos, contagia os ossos, penaliza a memória e se estende pela altura da pele. Nada fica sem dor. Também os olhos, que só armazenam as imagens do que já fora, doem. 

A dor vem de afastadas distâncias, sepultados tempos, inconvenientes lugares, inseguros futuros. Não se chora pelo amanhã. Só se salga a carne morta.
No princípio, se um de nós caía, a dor doía ligeiro. Um beijo seu curava a cabeça batida na terra, o dedo espremido na dobradiça da porta, o pé tropeçado no degrau da escada, o braço torcido no galho da árvore. Seu beijo de mãe era um santo remédio. Ao machucar, pedia-se: mãe, beija aqui!

Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. 

Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se — em lágrimas — do paraíso, é condenar-se à liberdade. Houve, e só depois, o tempo da alegria ao enxergar o mundo como o mais absoluto e sucessivo milagre: fogo, terra, água, ar e o impiedoso tempo.

Sem a mãe, a casa veio a ser um lugar provisório. Uma estação com indecifrável plataforma, onde espreitávamos um cargueiro para ignorado destino. Não se desata com delicadeza o nó que nos amarra à mãe. Impossível adivinhar, ao certo, a direção do nosso bilhete de partida. Sem poder recuar, os trilhos corriam exatos diante de nossos corações imprecisos. Os cômodos sombrios da casa — antes bem-aventurança primavera — abrigavam passageiros sem linha do horizonte. Se fora o lugar da mãe, hoje ventilava obstinado exílio.


Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós. Seis.


O pai, amparado pela prateleira da cozinha, com o suor desinfetando o ar, tamanho o cheiro do álcool, reparava na fome dos filhos. Enxergava o manejo da faca desafiando o tomate e, por certo, nos pensava devorados pelo vento ou tempestade, segundo decretava a nova mulher. Todos os dias — cotidianamente — havia tomate para o almoço. Eles germinavam em todas as estações. Jabuticaba, manga, laranja, floresciam cada uma em seu tempo. Tomate, não. Ele frutificava, continuamente, sem demandar adubo além do ciúme. Eu desconhecia se era mais importante o tomate ou o ritual de cortá-lo. As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar.


Sem o colo da mãe eu me fartava em falta de amor. 

O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos. Para abrandar minha impaciência, sujeitava-me aos caprichos de muitos. Exercia a arte de me supor capaz de adivinhar os desejos de todos que me cercavam. Engolia o tomate imaginando ser ambrosia ou claras em neve, batidas com açúcar e nadando num mar de leite, como praticava minha mãe — ilha flutuante — com as mãos do amor.

Eu desconhecia o amor, mesmo fantasiando em me sentir amado. Repetia o verbo amar a Deus sobre todas as coisas, amar o próximo como a si mesmo, não matar, não pecar contra a castidade, honrar pai e mãe, por frequentar a catequese, nas tardes ociosas dos sábados. Decorar os dez mandamentos encurtava o caminho para o céu, tantos me repetiam. E contrito, mãos amarradas sobre o peito, eu duvidava da fé, mas insistia em crer em Deus Pai, todo-poderoso. Atravessar do infinito ao infinito e alcançar o pleno azul, sobre a bicicleta do padre, negociada em pecado e segredo, tornava o céu mais viável.


A mãe partiu cedo — manhã seca e fria de maio — sem levar o amor que diziam eu ter por ela. Daí, veio me sobrar amor e sem ter a quem amar. 

Nas manhãs de maio o ar é frio e seco, assim como retruca o coração nos abandonos. Ela viajou indignada, por não ser consultada. Evadiu-se, sem suplicar um socorro. Nem murmurou um “com licença” — eu confirmo — para adentrar em outra vida, como nos era recomendado. Já não cantava, sobrevivia isenta, respirando o medo pelo desconhecido. A mão da morte soterrou até sua sombra. Foi um adeus inteiro, definitivo, rigoroso, sem escutar nosso pesar. Eu pronunciava, seguidamente, a palavra amor, amor, sem ter a presença amada.

A esposa do meu pai prezava o tomate sem degustar o seu sabor. Impossível conter em fatia frágil — além da cor, semente, pele — também o aroma. Quando invertida, a palavra aroma é amora. Aroma é uma amora se espiando no espelho. Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela, me esconde. Toda palavra é espelho onde o refletido me interroga. O tomate — rubro espelho — espelhava uma sentença suspeita.


O pai, que suportava o peso das caixas de manteiga, agora andava leve, manso, tropeçando em penumbras e suspiros. O amor encarnou em todo o seu destemido corpo e afrouxou até seus pesares. Amava em dobro: o amor que sobra aos viúvos e mais o amor reinventado, e capaz de camuflar o luto. E, para ganhar mais amor, negociava com o tomate o destino dos filhos, clandestinamente.


A parede da casa sustentava um espelho cercado por moldura vermelha. 

Na ponta dos pés — equilibrista — eu buscava meu rosto e deparava com outro e me estranhava. 
O espelho é a verdade que, ainda hoje, mais me entorpece. Espelho sustenta o concreto e prefiro a mentira dos sonhos nas manhãs frias e secas. 

Do tomate exalava um gosto de cera, flor, reza e terra. Sempre engoli minha fatia por inteiro. Descia garganta abaixo arranhando as cordas, desafinando as palavras, esfolando o percurso. Libertava-me dela na primeira colherada. “Garfo é arma, e menino não anda armado”, sentenciava o pai. Talvez nos projetasse assassinos. 

Quanto mais amor mais a morte se anuncia.

*            *            *

terça-feira, 4 de junho de 2013

CLARICE: Pinturas


Clarice, por Alfredo Ceschiatii - Paris, 1947

Um retrato para fazer jus ao tema do post, o volume “Clarice Lispector: Pinturas”, do angolano Carlos Mendes Sousa, que acaba de sair pela Rocco.

Mendes Sousa, professor de literatura brasileira na Universidade do Minho e um dos maiores especialistas do mundo em Clarice, fez um estudo de sua relação com as artes plásticas, seja como colecionadora, seja como jornalista, seja como, hm, bem, artista.

Clarice: ‘Eu pinto tão mal que dá gosto’

Clarice não pintava bem como escrevia, é verdade. Mas o que escrevia, diz Mendes Sousa, transparecia muito do que pensava sobre as artes plásticas.

“Pergunto-me também como é que vou cair de quatro em fatos e fatos. É que de repente o figurativo me fascinou: crio a ação humana e estremeço. Também quero o figurativo assim como um pintor que só pintasse cores abstratas quisesse mostrar que o que fazia por gosto, e não por não saber desenhar” (trecho de “A Hora da Estrela”)


Tela de Clarice:'Escuridão e luz - Centro da vida', 1975
Óleo sobre madeira: 'Pássaro da Liberdade', - 1975
Clarice Lispector 
Tela de Clarice Lispector - 'Volumes', 1975

Mais do que isso, argumenta o autor, “a atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis, como os jogos de luz e sombra, os recortes formais, as descrições, a presença da cor etc., elementos observáveis especialmente nos planos narrativo ou estilístico-retórico”. Como nesse trecho de “Água Viva”:

“Vou te dizer uma coisa: não sei pintar nem melhor nem pior do que faço. Eu pinto um ‘isto’. E escrevo com ‘isto’ –é tudo o que posso. Inquieta. Os litros de sangue que circulam nas veias. Os músculos se contraindo e retraindo. A aura do corpo em plenúrio. Parambólica –o que quer que queira dizer essa palavra. Parambólica que sou. Não posso me resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo.”

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Conversa com LYGIA...

A escritora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a amizade com Clarice Lispector e Hilda Hilst, a viagem à China em 1960, o encontro com Montero Lobato e a agonizante espera pela liberação de 'As meninas' pela censura


Falando de Clarice Lispector:

"Era uma grande amiga, além de excepcional escritora. Sempre me dizia: “Liginha, não sorria nas fotos. Ninguém leva a sério mulher que aparece sorrindo na fotografia!”.
Também era ótima companhia em viagens. Certa vez, em Cali, na Colômbia, abandonamos os debates para ficar no bar, bebendo champanhe (ela) e vinho tinto, enquanto ríamos gostosamente e ela pedia a minha opinião sobre quem era mais indiscreto nas suas traições, o homem ou a mulher.

Aliás, na viagem de ida, quando o avião balançava muito e eu estava preocupada, Clarice se voltou para mim e disse: “Não tenha medo porque o avião não vai cair. Minha cartomante disse que eu morreria deitada, portanto, fique tranquila”. Esse misticismo era contagiante.

Certa noite, quando eu dormia em um hotel da cidade de Marília, onde participava de um seminário, fui acordada por uma andorinha desgarrada, que entrou voando no meu quarto. Levei um susto, mas logo estranhei a forma como o animal me encarava, muito amigável. Logo, consegui que o pássaro saísse pela janela. No dia seguinte, fui informada que Clarice morrera naquela noite. Só consegui dizer, baixinho: “Eu já sabia”."
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Hilda Hilst

"Verão de 1952. 
Eu já estava casada com Goffredo quando a Hilda foi nos visitar no Rio. Ficou hospedada no Hotel Olinda, em Copacabana.
Ela usava um maiô claro de tecido acetinado, inteiriço, na moda, os discretos maiôs inteiriços. Lembro que tinha no pescoço um longo colar de conchinhas.
Falou-me dos novos planos, tantos. Estava amando e escrevendo muito, quando ela se apaixonava a gente já sabia que logo viria um novo livro celebrando o amor. Nesse sábado, tínhamos marcado no nosso apartamento um encontro com alguns amigos, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Breno Accioly, José Condé…
Hilda Hilst chegou toda de preto, os cabelos dourados soltos até os ombros. Falou em Santa Teresa d’Ávila, a do “amor duro e inflexível como o inferno”.
Pedi-lhe que dissesse o seu poema mais recente.
Então, eu me lembro, Cyro dos Anjos cumprimentou-a com entusiasmo e começou a examinar a pequena palma da mão que ela lhe estendeu, ele sabia ler o destino nas linhas da mão."


Hilda e Lygia
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Paulo Emílio Salles Gomes

"Meu segundo marido era um homem encantador, inteligente, vibrante, irônico. Ele me apelidou de Cuco, brincadeira com o relógio de uma velha tia cujo cuco sempre cantava as horas com atraso – eu sempre me atrasava para nossos compromissos. 
Também apelidou meu filho Goffredinho de Cré, pois, nas aulas de francês, quando o garoto errava feio, Paulo disparava: ‘Crétain!” (cretino).

Paulo sempre foi um grande incentivador da minha obra, especialmente nos momentos mais difíceis. Como em 1973, quando publiquei As Meninas.
Era época pesada da ditadura militar e eu me inspirei, entre outras coisas, num panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político. Coloquei isso no meio da trama e fiquei apreensiva quando o livro foi enviado para a censura.
Enquanto aguardava, nervosa, o veredicto, fui surpreendida pela chegada, alegre, de Paulo, em nosso apartamento. Ele trazia uma garrafa de vinho e estava muito disposto a comemorar. Logo explicou: aborrecido com uma história em que não acontecia nada, o censor só lera algumas páginas, não chegara àquele ponto da tortura e liberava a obra."
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Monteiro Lobato

"No longo corredor que me pareceu sombrio, o carcereiro avisou que a visita teria que ser breve, mesmo porque já tinha um visitante lá dentro.
Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis.
Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. 
Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdeada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras.
Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. “Este aqui é um caro editor”, apresentou-o e disse o nome do editor que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, “ah! as paixões da minha adolescência”: Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-pererê…
Ele me interrompeu com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas porque livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler, mas não liam e daí a ideia das cartas curtas e diretas.
“Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso. A mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?” 
Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante: “Pois foi lá que eu me formei!”. Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. “Ah! Se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?”
Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, eu era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim anunciar um bom emprego.
Na realidade queria ser escritora, escrever contos, romances…
Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro. “Olha aí, a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!”, disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta. “Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça.”


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Fonte: Ubiratan Brasil - Jornal "O Estado de S.Paulo"

domingo, 2 de junho de 2013

GRACILIANO RAMOS - excertos de matéria de O Globo, 01-6-2013



Outras vidas, a mesma seca

Jornal 'O Globo', 01 de junho de 2013
Texto: André Miranda
Fotos: Custódio Coimbra


Buíque -Pernambuco
Em meio à pior estiagem das últimas cinco décadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas à trajetória do autor de “Vidas secas”, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos Índios, onde ele foi prefeito, mostram a persistência de antigas mazelas e a resistência de seus habitantes.


Não há muitas sombras nas estradas do interior de Alagoas. Mal há vegetação. Com os espinhosos mandacarus, que resistem à seca, e as árvores sem folhas que estão por toda a parte, a paisagem é um grande deserto.

O estado do gado também torna a visão mais árida. Sem comida e sem água, bois e vacas emagrecem, muitos morrem. Os fazendeiros costumam amarrar os animais mais fracos a cercas ou caules de árvores para evitar que eles caiam. É uma tentativa de adiar a morte, de evitar que o clima imponha sua força. Aos poucos, os mugidos silenciam, as carcaças se acumulam, a vida se vai. Porém, entre os rios sem água, os animais mortos estirados no solo e as plantas cinzentas, ressecadas, a imagem que mais chama atenção é mesmo a da desolação humana. O homem não consegue viver sem os rios, sem os bois, sem a terra. Só que ele permanece de pé, continua a caminhar. O clima faz seu estrago, mas o tempo sertanejo parece não autorizar o homem a morrer.

Já era assim quando Graciliano Ramos de Oliveira nasceu, em 27 de outubro de 1892. Ele escreveu, décadas mais tarde, em “Angústia”, seu terceiro romance, publicado em 1936: “O que lhe interessa na minha terra é o sofrimento da multidão, a tragédia periódica das secas. Procuro recordar-me dos verões sertanejos, que duram anos. A lembrança chega misturada com episódios agarrados aqui e ali, em romances. Dificilmente poderia distinguir a realidade da ficção”.
(...)


“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.” 
(trecho de "Vidas secas", de 1938)

A grande obra da literatura brasileira a tratar do tema da seca foi publicada em 1938. O título era direto e resumiu bem o sentimento de milhões de nordestinos. “Vidas secas” foi o quarto livro lançado por Graciliano Ramos — depois de “Caetés” (1933), “São Bernardo” (1934) e “Angústia” (1936) — e, hoje, é seu romance mais representativo, com 120 edições no Brasil e traduções para mais de 20 idiomas.
Inspirada em muitas das histórias que Graciliano acompanhou desde a infância, a trama de “Vidas secas” mostra como uma família de retirantes — guiada pelo pai Fabiano e acompanhada pela cachorra Baleia, dois dos personagens mais famosos da literatura nacional — parte em busca de uma condição mais humana para a sobrevivência. Não há um trajeto definido no livro, mas as paisagens descritas pelo autor ainda estão presentes em vários cantos do interior do Nordeste, não somente em seu estado natal.

Em 1895, a família de Graciliano deixou Alagoas para viver em Buíque, cidade do sertão de Pernambuco, próxima a Garanhuns, hoje com 52 mil habitantes. Porém, apesar do número maior de pessoas, na memória coletiva de Buíque há ainda menos sobre o escritor do que em Quebrangulo. Apenas sua biblioteca municipal, inaugurada em maio de 2002, leva o nome de Graciliano Ramos. Em conversas com uma dezena de buiquenses, poucos sabem dizer quem exatamente foi o escritor. Mesmo um vaqueiro sentado numa calçada a menos de dez passos da biblioteca afirma que nunca ouviu falar nele.
(...)
O mesmo tempo que fez com que Graciliano passasse a ser praticamente ignorado em Buíque não privou a cidade das vidas secas que o autor descreveu no passado. Buíque teve que decretar estado de emergência para tentar combater os efeitos da estiagem. Sua situação é tão ruim ou talvez pior do que a dos municípios alagoanos: como a Barragem do Mulungu, a principal que abastece a cidade, secou quase completamente, seus moradores não recebem água nos encanamentos das casas desde janeiro. Até mesmo o hospital municipal vem dependendo de carros-pipa.
Para suprir a necessidade, uma nova categoria profissional proliferou em Buíque: o vendedor de água.
(...)
Mandacaru - planta nativa que acumula água
“Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, município de Viçosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade São Bernardo, onde trabalhei, no eito, com salário de cinco tostões”, escreveu Graciliano Ramos em “São Bernardo”, o seu segundo romance. 
O livro conta a história de Paulo Honório, homem de origem humilde, empreendedor, que vai acumulando riquezas, numa típica trama de ascensão social que, aos poucos, torna-se uma de derrocada pessoal.

Atualmente com cerca de 26 mil habitantes, Viçosa tem metade do tamanho de Buíque, mas é claramente mais bem preservada e desenvolvida. Lembra Quebrangulo pelos prédios históricos e ambiente acolhedor, porém é maior, com um comércio mais robusto. Além disso, a cidade tem uma movimentação turística regular, muito por conta de suas belezas naturais. É nas redondezas de Viçosa que fica a Serra Dois Irmãos, com cachoeiras, trilhas e o local onde o líder negro alagoano Zumbi dos Palmares foi morto em 20 de novembro de 1695.
Só que, com a seca, o volume de água no início do ano não foi suficiente para dar vazão às cachoeiras de Viçosa. O município teve que decretar, em meados de abril, estado de emergência. O panorama se tornou crítico quando o Rio Caçamba secou, e a prefeitura precisou reativar uma pequena barragem, não utilizada havia 12 anos, para tentar acumular água.
(...)

Foi em Viçosa que Graciliano estreou no universo literário, com a publicação do conto “O pequeno pedinte” no jornal “O Dilúculo”, um periódico feito por alunos do Internato Alagoano, onde estudava. A data foi 24 de junho de 1904. Graciliano tinha 11 anos e escolheu para tema de seu conto um menino que passava os dias pedindo esmola pelas ruas.

“Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto. Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo”, escreveu Graciliano.

Parece ingênuo imaginar que, aos 11 anos, aquele menino já se preocupava com os problemas sociais do país. Mas também seria injusto ignorar que, em praticamente toda a obra de Graciliano, questões como exclusão foram exploradas. Tanto na obra literária, quanto na política. E foi em ambas que sua trajetória se encontrou com Palmeira dos Índios, cidade em que escreveu a maioria de seus livros, casou-se duas vezes, teve seis de seus oito filhos e foi eleito prefeito.
(...)


Minador do Negrão - Sertão de Alagoas

*            *            *


Notinha do Ouriço
O que me causa muita tristeza, é confirmar como está a Educação em nosso país, segundo o seguinte trecho:

..."na memória coletiva de Buíque há ainda menos sobre o escritor do que em Quebrangulo. Apenas sua biblioteca municipal, inaugurada em maio de 2002, leva o nome de Graciliano Ramos. Em conversas com uma dezena de buiquenses, poucos sabem dizer quem exatamente foi o escritor. Mesmo um vaqueiro sentado numa calçada a menos de dez passos da biblioteca afirma que nunca ouviu falar nele."

Ainda assim, vale muito a pena ler toda a matéria. Encontra-se na seção PROSA, blogs,  em O Globo on line, de 01 de junho de 2013.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

QUINTANA - dois poemas


Tenta Esquecer-me
Mário Quintana

Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma...
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

*        *        *
In: Nova Antologia Poética




*            *            *

WISLAWA SZYMBORSKA - dois poemas

Torturas
Wislawa Szimborska

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo sangue,
tem uma boa reserva de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo,
as torturas são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parece ser na porta ao lado.

Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo escala e registro sempiternos.

Nada mudou.
Exceto talvez os modos, as cerimônias, as danças.
O gesto da mão protegendo o rosto,
esse permaneceu o mesmo.
O corpo se enrosca, se debate, se contorce,
cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas,
fica roxo, incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Além do curso dos rios,
do contorno das costas, matas, desertos e geleiras.
Entre essas paisagens a pequena alma passeia,
estranha a si própria, inatingível,
ora certa, ora incerta da sua existência,
enquanto o corpo é, é, é
e não tem para onde ir.”
**

As três palavras mais estranhas
Wislawa Szimborska

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

*            *            *


Do livro Poemas, tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

QUINTANA - Pobre poema





O POBRE POEMA
Mário Quintana

Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão
tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

______Mario Quintana - A Vaca e o Hipogrifo

sábado, 18 de maio de 2013

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT - "Retrato do desconhecido" - Elis regina



Retrato do desconhecido
Augusto F.Schmidt


Ele tinha uns ombros estreitos, e a sua voz era tímida, 
Voz de um homem perdido no mundo, 
Voz de quem foi abandonado pelas esperanças, 
Voz que não manda nunca, 
Voz que não pergunta, 
Voz que não chama, 
Voz de obediência e de resposta, 
Voz de queixa, nascida das amarguras íntimas, 
Dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas. 

Há vozes que aclaram o ser, 
Macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio, 
Vozes de sonho, de maldição e de doçura. 
Os ombros eram estreitos, 
Ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do 
amor inconfundível, 

Ombros de quem não sabe caminhar, 
Ombros de quem não desdenha nem luta, 
Ombros de pobre, de quem se esconde, 
Ombros tristes como os cabelos de uma criança morta, 
Ombros sem sol, sem força, ombros tímidos, 
De quem teme a estrada e o destino 
De quem não triunfará na luta inútil do mundo: 
Ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão, 
Ombros de quem é sempre um Desconhecido, 
De quem não tem casa, nem Natal, nem festas; 
Ombros de reza de condenado, 
E de quem ama, na tristeza, a sombra das madrugadas; 
Ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas. 

Os seus pés e as suas mãos acompanhavam os ombros 
num mesmo ritmo. 
Mãos sem luz, mãos que levam à boca o alimento 
sem substância, 
Mãos acostumadas aos trabalhos indolentes, 
Mãos sem alegria e sem o martírio do trabalho. 
Mãos que nunca afagaram uma criança, 
Mãos que nunca semearam, 
Mãos que não colheram uma flor. 
Os pés, iguais às mãos 
— Pés sem energia e sem direção, 
Pés de indeciso, pés que procuram as sombras e o esquecimento,
Pés que não brincaram, pés que não correram.

No entanto os olhos eram olhos diferentes. 
Não direi, não terei a delicadeza precisa na expressão 
para traduzir o seu olhar. 
Não saberei dizer da doçura e da infância daqueles olhos, 
Em que havia hinos matinais e uma inocência, uma tranqüilidade, 
um repouso de mãos maternas. 

Não poderei descrever aquele olhar, 
Em que a Poesia estava dormindo, 
Em que a inocência se confundia com a santidade. 
Não poderei dizer a música daquele olhar que me surpreendeu um dia, 

Que se abriram diante de mim como um abrigo, 
O que me trouxe de repente os dias mortos, 
Em que me descobri como outrora, 
Livre e limpo, como no princípio do mundo, 
Envolvido na suavidade dos primeiros balanços, 
Sentindo o perfume e o canto das horas primeiras! 
Não direi do seu olhar! 

Não direi do seu olhar! 
Não direi da sua expressão de repouso! 
Ainda não sei se era dele esse olhar, 
Ou se nasceu de mim mesmo, num rápido instante de paz 
e de libertação! 

*            *            *


CHARLES AZNAVOUR - Mourir d'aimer




Les parois de ma vie sont lisses
Je m'y accroche mais je glisse
Lentement vers ma destinée:
Mourir d'aimer

Tandis que le monde me juge
Je ne vois pour moi qu'un refuge
Toutes issues m'étant condamnées:
Mourir d'aimer

Mourir d'aimer
De plein gré s'enfoncer dans la nuit
Payer l'amour au prix de sa vie
Pêcher contre le corps mais non contre l'esprit

Laissant le monde à ses problèmes
Les gens haineux face à eux-mêmes
Avec leurs petites idées:
Mourir d'aimer

Puisque notre amour ne peut vivre
Mieux vaut en refermer le livre
Et plutôt que de le brûler:
Mourir d'aimer

Partir en redressant la tête
Sortir vainqueur d'une défaite
Renverser toutes les données:
Mourir d'aimer

Mourir d'aimer
Comme on le peut de n'importe quoi
Abandonner tout derrière soi
Pour n'emporter que ce qui fut nous, qui fut toi

Tu es le printemps, moi l'automne
Ton coeur se prend, le mien se donne
Et ma route est déjà tracée:
Mourir d'aimer,
Mourir d'aimer,
Mourir d'aimer.

*    *    *

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RUBEM ALVES - Quando o belo...


Quando o belo também é despedida
Rubem Alves

Hoje quero falar da tristeza. Não me perguntem por que, pois eu mesmo não sei. A tristeza não pede licença, não se explica. Vai chegando de mansinho e espalhando seu perfume de jasmim pelas coisas, até que todas ficam encantadas pela beleza que nela mora. Ficam belas-tristes as nu¬vens do céu, tristes-belos os bem-te-vis nos galhos das árvores, belos-tristes os objetos silenciosos do meu escritório, e até mesmo o café-da-manhã fica triste-belo... A tristeza é sempre bela, pois ela nada mais é que o sentimento que se tem ante uma beleza que se perdeu...

Não sei o que a chamou. Teria sido a visão das florestas ardendo, com seus prenúncios de desertos quentes e fins do mundo, os pássaros fugindo para nunca mais voltar? Ou a visita a lugares antigos amados... Ah! Quem ama nunca deveria voltar... Lembro-me dos versos que decorei, o poeta visitando paisagens de outros tempos e cadenciando a sua tristeza com um refrão que se repete. "São estes os sítios? São estes... Mas eu o mesmo não sou. Marília, tu chamas? Espera que eu vou." Até a bem-amada fica à espera quando o corpo tenta recuperar os espaços perdidos. Pois é. Visitei lugares de minha infância lá em Minas, e vi que a casa velha onde morei já não existe e nem a jabuticabeira que reguei e as três paineiras a cuja sombra me assentei. Fiquei ali, diante dessas ausências. E percebo que tristeza é isto: estar diante de um espaço onde um dia houve o encontro. Saber que, cedo ou tarde, tudo o que está presente ficará ausente. A tristeza testemunha que o mistério da despedida está gravado em nossa própria carne. “Quem nos desviou assim”, perguntava Rilke, “para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?” Não é esta ou aquela despedida. As pequenas despedidas apenas acordam em nós a consciência de que a vida é uma despedida. O que Cecília Meirelles dizia de sua avó morta podemos dizer da vida inteira: “Tudo em ti era uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se...” Tristeza é isto, quando o belo e a despedida coincidem. O que revela o nosso próprio segredo, dilacerado entre o belo, que nos tornaria eternamente felizes, e os nossos braços, curtos demais para segurá-lo.

“E quando nos sentimos mais seguros algo inesperado acontece: um pôr-do-sol... E estamos perdidos de novo...” (E. Browning). Mas que será aquilo que nos põe a perder? A beleza do crepúsculo? Não. Mas a percepção de que a beleza é crepúsculo. Goethe dizia do pôr-do-sol: “Tudo o que está próximo se distancia”. Ao que Borges comenta: “Goethe se referia ao crepúsculo, mas também à vida. Aos poucos as coisas vão nos abandonando”. O pôr-do-sol é triste porque nos conta que somos como ele: infinitamente belos em nossas cores, infinitamente nostálgicos em nosso adeus.

A tristeza é o espaço entre o belo e o efêmero, de onde nasce a poesia. Não é por acaso que os poetas repetem sempre o mesmo tema. “As nuvens à volta do Sol que se põe”, dizia Wordsworth, “ganham suas cores tristes de um olho que contempla a mortalidade dos homens...” E assim os poetas vão colocando suas palavras sobre o vazio. Não um vazio qualquer, vazio “pedaço arrancado de mim”, mutilação no meu corpo. Exercício de saudade, tornar de novo presente um passado que já se foi. “Saudade é o revés de um parto, é arrumar o quarto para o filho que já morreu...”

E é só agora, Drummond, que compreendo o que você diz no seu poema Ausência, onde você afirma não lastimar o espaço vazio. Não deveria ser assim... Acontece que, depois da partida, só fica a ferida, ferida que não se deseja curar, pois ela traz de novo à memória o belo que uma vez foi. "Por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim..". Não é estranho isto, que na tristeza more a beleza, e que se encontre aí mesmo um pouco de alegria? É mais bonita a dor de quem arruma o quarto para o filho que já morreu, que o vazio/ vazio de quem não tem nenhum quarto para arrumar.

Brinco com a minha tristeza como quem cuida de uma amiga fiel...

*            *            *

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RACHEL DE QUEIROZ - Um alpendre...


Um al­pen­dre, uma re­de, um açu­de
Rachel de Queiroz

MO­DÉS­TIA
A hu­mil­da­de faz a gen­te acei­tar com pa­ciên­cia tan­to o es­pe­ra­do co­mo o ines­pe­ra­do. Só o or­gu­lho nos con­ven­ce de que de­ve­ría­mos es­tar aci­ma das con­tin­gên­cias."

TA­LEN­TO
"(...) Pa­ra es­cre­ver, tem que ha­ver o dom da es­cri­ta, tal co­mo pa­ra o can­tor é pre­ci­so o dom da voz. To­dos co­nhe­ce­mos pes­soas in­te­li­gen­tes, até bri­lhan­tes na sua es­pe­cia­li­da­de - me­di­ci­na, ar­qui­te­tu­ra, en­ge­nha­ria, eco­no­mia e, na ver­da­de, por mais sa­be­do­res que se­jam no seu ofí­cio, não con­se­guem ex­pri­mir na pa­la­vra es­cri­ta es­sa sa­be­do­ria."

 "Deus sem­pre é par­co na con­ces­são de do­tes: os que acu­mu­lam são sem­pre con­ta­dos. Por que as boas can­to­ras lí­ri­cas ge­ral­men­te têm ten­dên­cia a en­gor­dar? E por que as de be­la si­lhue­ta qua­se sem­pre só dis­põem de um fio mal afi­na­do de voz?"

PRI­VI­LÉ­GIO
"Pou­cos po­vos no pla­ne­ta ain­da têm es­se re­cur­so: a fu­ga com hon­ra. Não pre­ci­sa dar pa­ra gan­gs­ter nem en­trar pa­ra um con­ven­to. Bas­ta cer­car um ro­ça­do, le­van­tar um ran­cho, plan­tar fei­jão e mi­lho, criar uma ove­lha, uns bur­ros. Mes­mo com se­ca, com en­chen­te ou gea­da, ha­ven­do tra­ba­lho e pa­ciên­cia, não dá pa­ra mor­rer de fo­me. Se­rá a po­bre­za e a re­nún­cia. Mas é sem­pre me­lhor que o de­ses­pe­ro."

FE­LI­CI­DA­DE
"Mas é pre­ci­so com­preen­der quan­to va­ria o con­cei­to de fe­li­ci­da­de en­tre o ho­mem ur­ba­no e es­sa nos­sa va­rie­da­de de bra­si­lei­ro ru­ral. Pa­ra o ho­mem da ci­da­de, ser fe­liz se tra­duz em "ter coi­sas": ter apar­ta­men­to, rá­dio, ge­la­dei­ra, te­le­vi­são, bi­ci­cle­ta, au­to­mó­vel. Quan­to mais en­ge­nho­cas me­câ­ni­cas pos­suir, mais fe­liz se pre­su­me. Pa­ra is­so se es­cra­vi­za, tra­ba­lha dia e noi­te e se ga­ba de bem-su­ce­di­do. O ho­mem da­qui, seu con­cei­to de fe­li­ci­da­de é mui­to mais sub­je­ti­vo: ser fe­liz não é ter coi­sas; ser fe­liz é ser li­vre, não pre­ci­sar de tra­ba­lhar. E, mor­men­te, não tra­ba­lhar obri­ga­do."

SA­CRI­FÍ­CIO
"No bei­ral de mi­nha va­ran­da se ani­nhou um ca­sal de an­do­ri­nhas. E a gen­te acom­pa­nhou o tra­ba­lho dos pás­sa­ros, dia­ria­men­te. Pri­mei­ro a con­fec­ção do ni­nho, pa­lha por pa­lha, ga­lhi­nho por ga­lhi­nho. De­pois o len­to, mo­nó­to­no, pro­ces­so de cho­co. De­pois o nas­ci­men­to dos fi­lho­tes, pe­la­dos, vis­co­sos, sem­pre es­fo­mea­dos. O es­for­ço de ca­tar co­mi­da, de en­cher aque­les bi­cos in­sa­ciá­veis. A pa­ciên­cia de es­pe­rar que os fi­lho­tes em­pe­nem, apren­dam a usar as asas e se li­ber­tem do ni­nho. Mas, no fim das con­tas, aque­le sa­cri­fí­cio to­do tem a sua pa­ga - re­sul­ta in­fa­li­vel­men­te em um no­vo ca­sal de an­do­ri­nhas, tão be­las quan­to as pri­mei­ras, ne­gras, lus­tro­sas e per­fei­tas."

"Co­mo é di­fí­cil, meu Deus, co­mo é ra­ro pro­du­zir, já não di­go uma an­do­ri­nha in­tei­ra, mas um sim­ples ris­car de asa no céu, uma can­ti­ga de ave, um atre­vi­men­to de voo."

MU­LHER
"Po­dem es­can­da­li­zar-se os so­ció­lo­gos e to­da a gen­te mais: pa­ra o sé­cu­lo XXI, eu pre­ve­jo a vi­tó­ria so­cial das mu­lhe­res. As mu­lhe­res dei­xa­rão de ser o ele­men­to se­cun­dá­rio na so­cie­da­de e na fa­mí­lia pa­ra as­su­mir a van­guar­da de to­dos os atos e de to­dos os acon­te­ci­men­tos. (...) Eu só que­ria vi­ver mais cem anos pa­ra ver a rea­bi­li­ta­ção de­fi­ni­ti­va das mu­lhe­res, tão cer­ta co­mo três e três são seis."

BRA­SIL
"Pá­tria não se ar­ran­ca co­mo ti­ri­ri­ca. Se bas­ta dar com os olhos na pla­ca da Pla­ce Rio de Ja­nei­ro ao la­do do Parc Mon­ceau e re­pa­rar co­mo é tão di­fe­ren­te Pa­ris do Rio, e a sau­da­de aper­tar no pei­to jus­ta­men­te por con­ta da con­tra­di­ção que se pro­cu­rou? E que­rer vol­tar de qual­quer jei­to, que­rer so­frer, e vir pa­ra cá nem que se­ja pa­ra dar a car­ne aos la­drões e a al­ma à po­lí­cia?"

VI­DA 
"O ins­tin­to de to­do ser hu­ma­no é vi­ver. A vi­da é um bem su­pre­mo."

RE­LI­GIÃO
"Não dis­cu­to fi­lo­so­fias ou re­li­giões por­que nes­se pon­to sou mui­to fra­qui­nha. Não te­nho con­vic­ções. Não sei o que vem de­pois da mor­te, não es­pe­ro na­da, não me­di­to so­bre is­so, não es­pe­cu­lo. Acho que a vi­da já cus­ta tan­to, já é tão pe­sa­da... se­ria até in­jus­ti­ça ter mui­ta coi­sa de­pois."

MOR­TE
"Nas­ce o ho­mem nu e só de­pois é que se ves­te. Per­de a nu­dez com a ino­cên­cia; jun­to com a ino­cên­cia per­de a be­le­za e, co­mo se sen­te feio e im­pu­ro, co­me­ça en­tão a co­brir-se e a en­ver­go­nhar-se. (...) Se nas­ce nu, nu de­ve­ria mor­rer. Per­den­do com a mor­te a cons­ciên­cia de tu­do, in­clu­si­ve a cons­ciên­cia do bem e do mal, de na­da mais se po­de te­mer nem en­ver­go­nhar, co­mo aliás não se te­me nem se en­ver­go­nha, ati­ra­do que foi ao su­pre­mo aban­do­no. Os ou­tros ho­mens é que por ele se en­ver­go­nham e o co­brem, ten­tan­do man­ter no ca­dá­ver a iden­ti­da­de do vi­vo, co­mo se adian­tas­se pa­ra al­gu­ma coi­sa aque­le pre­cá­rio e pos­ti­ço adia­men­to. (...) No fun­do dis­so es­tá o ve­lho hor­ror à mor­te que to­dos os ho­mens sen­tem."

SE­ME­LHAN­ÇA
"É que os ho­mens, vis­tos de per­to, são to­dos mui­to se­me­lhan­tes. Po­lí­ti­cos, até mes­mo os ur­sos so­vié­ti­cos, re­ce­bem to­dos um cer­to po­li­men­to de sa­lão, sa­bem man­ter uma con­ver­sa agra­dá­vel; o fa­to de ser rea­cio­ná­rio, de­so­nes­to, pe­ri­go­so, não im­pe­de a um ho­mem ser amá­vel e até es­pi­ri­tuo­so."

DI­FE­REN­ÇAS
"O pro­gres­so nes­te mun­do sem­pre ca­mi­nha com pas­so de­si­gual: quan­do uns vão adian­te os de­mais ain­da se ar­ras­tam lá atrás. (...) Ain­da tem mui­ta gen­te nes­te mun­do que pen­sa que a ter­ra é cha­ta com o céu por ci­ma, o in­fer­no por bai­xo e o mar sal­ga­do em re­dor."

VAI­DA­DE
"Vai­da­de não é uma cau­sa, vai­da­de é con­se­quên­cia da­que­la no­ção exal­ta­da da nos­sa pró­pria exis­tên­cia, fe­nô­me­no ine­fá­vel e pa­ra sem­pre ma­ra­vi­lho­so. Não so­mos vai­do­sos, pro­pria­men­te. Ape­nas sen­ti­mos que em nós, em ca­da um de nós, es­tá o ei­xo do mun­do."

LEM­BRAN­ÇA
"Qua­ren­ta anos ou oi­ten­ta anos, que adian­ta? O que fi­cou pa­ra trás que im­por­ta? Nem o sol nem a lua dei­xam ris­cos no céu, mar­can­do os dias pas­sa­dos. De ca­da sol fi­ca ape­nas a lem­bran­ça; e lem­bran­ça só dói quan­do fres­ca. De­pois de cur­ti­da é con­so­lo."

DEUS
"Aque­le que acre­di­ta em Deus ima­gi­na-se não fei­to à ima­gem de Deus, mas con­ce­be Deus de acor­do com a sua pró­pria ima­gem. E por is­so o bom re­za a um Deus bom e o mau re­za a um Deus mau, ou ao dia­bo."

"Nun­ca es­ti­ve tão lon­ge de Deus quan­to em Ro­ma. Por­que lá, aque­la mas­sa de ri­que­zas, aque­las igre­jas sun­tuo­sís­si­mas, o pe­so mo­nu­men­tal da Igre­ja de São Pe­dro, afas­tam a gen­te de qual­quer ideia de es­pi­ri­tua­li­da­de."

ATEN­ÇÃO
"Ca­da coi­sa tem sua ho­ra e ca­da ho­ra o seu cui­da­do."

MAR­CAS
"Di­zem que o co­ra­ção não en­ve­lhe­ce. To­li­ce. En­ve­lhe­ce sim e mais de­pres­sa do que a ca­be­ça que não pra­teou ain­da, do que o cor­po que mal acu­sa a fa­di­ga de por tan­to tem­po an­dar de pé. A    sin­gu­la­ri­da­de do co­ra­ção é que ele     en­ve­lhe­ce com gra­ça. As cha­mas da    ju­ven­tu­de não o con­so­mem, ape­nas o dou­ram e lhe dão sus­tân­cia, co­mo ao pão o for­no."

"Ca­da ano que so­bre ele pas­sa, ca­da es­pe­ran­ça e dor dei­xam ne­le a sua mar­ca. Mas são mar­cas bo­ni­tas, não são ci­ca­tri­zes; quan­do mui­to são ta­tua­gens, ma­ri­nhei­ros e ha­vaia­nas, bor­bo­le­tas, ser­pen­tes, ân­co­ras e ban­dei­ras de vá­rios paí­ses dan­çan­do en­tre­la­ça­dos nas pa­re­des do ma­du­ro co­ra­ção."

MI­NAS
"Lou­ve-se nos mi­nei­ros em pri­mei­ro lu­gar a sua pre­sen­ça sua­ve. Mil de­les não cau­sam o in­cô­mo­do de dez cea­ren­ses. Não gri­tam, não em­pur­ram, não se­gu­ram o bra­ço da gen­te, não im­põem suas opi­niões. (...) Não têm ar­rou­bos, nem ar­ro­gân­cias, nem con­tam van­ta­gem. (...) Há gen­te que vi­ve por­que vê os ou­tros vi­ve­rem. Bem di­fe­ren­tes dis­so são os mi­nei­ros. Eles lá vi­vem co­mo en­ten­dem, ao con­trá­rio do que mui­tas ve­zes se es­pe­ra, in­cons­cien­tes da sua ori­gi­na­li­da­de, mas tre­men­da­men­te agar­ra­dos a ela."

ES­SÊN­CIA
"(...) A ter­ra é o nos­so prin­cí­pio e o nos­so fim, e pos­suí-la, ser do­no de­la, ter de seu um pe­da­ço de chão, é um pou­co co­mo vol­tar ao ven­tre de nos­sa mãe, ou au­men­tar aque­le chão à nos­sa car­ne e ao nos­so san­gue.  Di­rei que é qua­se co­mo o mis­té­rio do amor, es­se au­men­to de uma ou­tra coi­sa vi­va ao nos­so ser vi­vo, é uma ou­tra ma­nei­ra de nos pro­lon­gar­mos, de con­ti­nuar­mos, nos re­pro­du­zin­do em plan­tas e em bi­chos, co­mo nos re­pro­du­zi­mos em fi­lhos."  

CON­SE­LHO
"(...) Ter dó de si pró­prio, mor­men­te quan­do há um pre­tex­to real pa­ra es­se dó, é qua­se uma au­to­fa­gia, li­mi­ta o in­di­ví­duo em tor­no de si mes­mo, ti­ra-lhe to­da ge­ne­ro­si­da­de, to­da ca­pa­ci­da­de de se es­que­cer, pri­va-o até de mor­rer bem. Es­que­ça-se de si o mais que pu­der - sin­ce­ra, hu­mil­de­men­te, olhe os ou­tros com olhos des­pre­ve­ni­dos, olhe o mun­do, olhe as coi­sas."

MAS­SAS
"(...) Ai, as mas­sas são es­ses ho­mens dis­traí­dos, es­que­ci­dos, de­si­lu­di­dos e tão ma­gros, ras­pan­do os tor­rões de ter­ra com o ca­qui­nho da en­xa­da, der­ru­ban­do mais uma vez a so­ca da ma­ta ra­la, crian­do um boi­zi­nho sem ra­ça, tam­pan­do o rom­bo dos açu­de­cos, olhan­do me­lan­co­li­ca­men­te a água vas­ta dos gran­des açu­des, tão bo­ni­ta e tão inú­til, sem um pal­mo de ca­nal de ir­ri­ga­ção."

VE­LHO CHI­CO
"Ah, Rio São Fran­cis­co, co­mo é que eu pos­so fa­lar? O mais fá­cil de ex­pli­car é di­zer que ele é meu pa­ren­te: pa­ra nós da­qui, pa­ren­te­la é coi­sa mui­to for­te - e o que a gen­te ama as­sim tan­to, há de ser pai ou ir­mão ou pe­lo me­nos tio ou pri­mo. Ou avô, ou pa­dri­nho. Rio ve­lho meu pa­dri­nho, (...) car­re­gan­do tan­ta água, tan­to pei­xe, car­re­gan­do sa­be Deus o quê! (...) Se sou­bes­se que afo­gan­do não mor­ria, me afo­ga­va nas tuas águas só pa­ra sa­ber co­mo é vo­cê lá den­tro, na­que­le seu co­ra­ção es­con­di­do."

AMOR
"(...) Amor é uma coi­sa que dói den­tro do pei­to, dói de­va­ga­ri­nho, quen­ti­nho, con­for­tá­vel. É a mão que vem da ca­ma vi­zi­nha de noi­te e se­gu­ra na sua ador­me­ci­da. E vo­cê pre­fe­re fi­car com o bra­ço ge­la­do e doen­te a pu­xar a sua mão e cor­tar aque­le con­ta­to. Tão pre­cio­so que ele é. Amor é ter me­do - me­do de qua­se tu­do - da doen­ça, do de­sen­con­tro, da fa­di­ga, do cos­tu­me, das no­vi­da­des. Amor po­de ser uma ro­sa, um bi­fe, um bei­jo, uma co­lher de xa­ro­pe. Mas o que o amor é, prin­ci­pal­men­te, são duas pes­soas nes­te mun­do."


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 IN: "100 Crô­ni­cas Es­co­lhi­das', Jo­sé Olym­pio Edi­to­ra.