quarta-feira, 30 de março de 2016

A solidão nas telas de Edward Hopper

EDWARD HOPPER E A SOLIDÃO (adaptado)
Victor Oliveira - em 'Obvious - Do Ser'

Um dos marcos do modernismo, Edward Hopper foi um pintor paisagista que conseguiu captar de forma singular espaços urbanos contrastados com a individualidade de seus personagens, passando para o observador uma sensação melodramática.

Edward Hopper foi um pintor e artista gráfico norte-americano, nascido na capital financeira do mundo – Nova York – em 1882.
Ficou mundialmente conhecido por retratar a solidão contemporânea em suas obras, principalmente em ambientes urbanos, evidenciando assim que a individualidade do capitalismo nos traz a solidão.

As obras de Hopper retratam a vida moderna americana, focalizando a subjetividade e a solidão urbana, causando no observador um impacto psicológico.
Suas obras sofreram influência de psicólogos, como Freud e Bergson.

O ambiente nas obras do pintor americano, são paisagens urbanas, porém desertas, com um certo ar melancólico e iluminadas por uma luz “dramática”.
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Automat (1927)
Evidenciando a solidão urbana, em “Automat” é retratada a cena de uma mulher sozinha em uma cafeteria, tarde da noite olhando para uma xícara de café.
As feições da moça revelam uma mistura de melancolia e exaustão, como quem retorna de um dia exaustivo em um trabalho  realizado sem gosto, algo comum nas grandes cidades.

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Hotel room (1931)
Em “Hotel room”, uma mulher senta-se na cama fingindo ler um livro.
O quarto possui  mobiliário básico.
As malas estão fechadas, seus ombros curvados sugerem renúncia ou desespero.
Segundo Hopper, ela foi abandonada por um amante e esse  é o momento em que ela navega dentro de si mesma,

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Room in New York (1932)
A inspiração dessa tela, segundo Hopper, foi um conjunto de impressões que o artista tivera dos vislumbres iluminados das casas e prédios que ele reparava durante suas caminhadas.
Essa obra retrata bem o individualismo dos casais que ao invés de estarem fazendo algo juntos estão cada um realizando suas próprias atividades, ele lendo um jornal e ela tentando se distrair com um piano, mas claramente sem qualquer resultado.

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Nighthawks (1942)
Mais famosa obra de Edward Hopper que serviu de inspiração para outras linguagens artísticas  - o cinema, outros trabalhos em artes plásticas  etc.
A tela retrata pessoas em um restaurante no fim da noite.
Esta tela não retrata  a solidão dessas pessoas,  todas no mesmo ambiente.  O foco é a ausência de movimento na rua que não reflete a efervescência de uma cidade grande.

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Excursion in filosofia (1959)

Obra impactante do artista norte-americano, “Excursion in filosofia” mostra um homem de meia idade tendo um conflito existencial :  aparentemente insatisfeito com o trabalho, está sentado na cama, pronto para sair, mas com uma postura desanimada.

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terça-feira, 22 de março de 2016

Rubem - Ana Luísa Escorel

Rubem Braga (1913-1990)

RUBEM
Ana Luisa Escorel - Blog 'de tudo um pouco' - 18 de janeiro de 2016

Para quem o conheceu na beira dos sessenta fica a imagem do homem de rosto e corpo largos, estatura mediana, cabelos fartos, bigodes bastos: um ursão grisalho. 
Olhar quase sempre mirando de baixo para cima, ariscos como os dos matutos. 
Na progressão da conversa passavam a espantados, diferentes das fotografias, em moço. Aí era magro, mais moreno – queimado de sol, talvez –, olhos tendendo a inquisidores. Devem ter ido se espantando com o correr da vida.

A fala – travada, pouco audível, entre fanha e ciciosa – não era a melhor forma de contato:  Rubem parecia estar sempre pedindo desculpas por não poder se passar do aparelho fonador. O som lhe escapava aos solavancos, pedaços de frases que se ligavam uns aos outros pela atenção de quem ouvia, não por mérito seu. 
Franco, muito franco, frequentemente ranzinza, dava a impressão de estar mais à vontade na escrita que na lida com a inelutável sucessão dos dias. 
E era de forma brusca que sabia ser gentil, quase empurrando para cima do objeto de seus afetos um presente ou um agrado escondidos dos quais, num dado momento, precisava como que imperiosamente se livrar.

Por bom tempo gostou da convivência em bares onde a conversa solta, o cigarro e a zonzeira da bebida ajudam a atiçar a curiosidade sobre o comportamento alheio. 
Mas isso ele não punha nas crônicas, limitava à vida. Razão pela qual seu texto continua soberbo oferecendo uma textura transparente como só as manhãs de maio no leste do Brasil. 
Nele reinam as lembranças de Cachoeiro – Cachoeiro do Itapemirim – onde ficaram avós e tios em suas fazendas; pais e irmãos no casarão protegido pelo cajueiro monumental; vizinhos de maus e bons bofes; a escola; os primeiros escritos e os alumbramentos fundamentais.

Cachoeiro. Diagrama que dá nexo sustentando, até o fim, a visão fresca do cronista. 
Vem provavelmente de lá o cuidado de frear o comentário mais direto sobre esse ou aquele personagem, dos inúmeros que povoaram as impressões cotidianas com as quais, por volta de seis décadas, registrou as ansiedades de um país sempre crisálida. 
Deve vir também de Cachoeiro – e da ética estrita da classe média provinciana – a discrição com que dosava as reações sem atingir ninguém, a não ser a si mesmo, com o travo ácido de uma lucidez cortante. 
No texto de Rubem a observação se inclina para o abstrato. 
O compromisso não parece repousar no enredo, mas no esforço de compreender a dinâmica na qual se debatem homens e mulheres na massa física de que é feito o mundo.

Mar. Infância. Namoradas. Temas recorrentes repetidos à exaustão. Quase pretextos para justificar o exer­cício de uma escrita impecável onde, com domínio da forma e profundo senso da língua Rubem Braga induz, quem o lê, a achar que escrever  é  fácil.

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Lembranças da Farmácia Piauí

 DE TUDO UM POUCO BLOG por Ana Luisa Escorel 

 Capa_Farmacia

UMA FARMÁCIA EM 3 TEMPOS
21 de março de 2016

O Leblon é um bairro empenhado em oferecer ilhas de sofisticação em meio à feiura crescente do espaço construído do Rio de Janeiro, onde a exploração do solo urbano tem se imposto da pior forma possível. 
O efeito disso está impresso nas calçadas imundas, cheias de falhas, frestas, lixo, buracos, desníveis; nos muros pichados – do subúrbio à mais cara das vizinhanças –; nos prédios de péssima arquitetura excessivamente próximos uns dos outros, paredões de concreto vencendo a altura das montanhas e aviltando a extraordinária topografia do Rio. Nas pistas de velocidade que destroem bairros inteiros; em postes de tudo quanto é jeito e tamanho entrelaçados a cipoais de fios conduzindo serviços de utilidade pública pouco eficientes; nas centenas de coletivos rodando ao mesmo tempo em perfeita sintonia com nuvens de gás carbônico que entopem vias de acesso indispensáveis, com alto risco para a segurança de quem ousa resistir a eles. 
Sem falar nas aceleradas em coro contínuo, código com que tornam clara a disposição permanentemente agressiva. 
E tudo isso coroado pelas favelas, encarapitadas em todos os morros disponíveis, solapando encostas e pondo abaixo extensões e mais extensões de florestas.

Nesse quadro, alguns pontos da zona sul do Rio, como o Leblon, justamente, tentam construir um mundo à parte voltado para as camadas privilegiadas, com bons restaurantes, ótimas livrarias, ­muitas delas contando com cafés agradabilíssimos e patisserie de primeira; lojas que vendem produtos finos de qualquer natureza – nacionais e importados –; bancas de jornais e revistas onde se pode comprar notícias de todos os cantos do mundo.

Pois numa esquina do Leblon ficava a farmácia Piauí, aberta de sol a sol, sempre atenta ao bairro e a todos aqueles que, mesmo vindos de longe, precisassem de socorro em horários improváveis. 
Durante anos seguidos a Piauí acudiu em seus balcões os achacados por dor física ou moral oferecendo, de quebra, a possibilidade do encontro entre amigos e conhecidos que se esbarravam neles de manhã, de tarde, de noite ou de madrugada.

Um dia a Piauí fechou para tristeza de todos os horários, dando lugar a mais um elo da portentosa cadeia Raia, que há alguns anos vem cravando pelo Brasil afora suas incontáveis franquias: não houve choradeira que segurasse a marcha dos negócios.

Nesse novo cenário, uma paulista perdida no Rio há tempos, na habitual visita de fins de semana ao Leblon, deu com a novidade afixada do lado de fora da Droga Raia – antiga Piauí – na face que dá para a rua lateral, a Rita Ludolf. 
Ao lançar pela undécima vez o olhar sobre a esquina da velha farmácia, buscando pretexto para alimentar a saudade, deu com motivo mais consistente de nostalgia: a ampliação em preto e branco de uma foto mostrando certo espaço comercial, cortado pela frase “Há mais de cinquenta anos servindo com qualidade”. 
No registro da fotografia, armários escuros, caixilhos de madeira lavrada, portas de vidro, frascos transparentes misturados a embalagens de papel enfileirados com ordem nas prateleiras, mais um cheiro acre-doce de cânfora que varava os limites da memória. 
O farmaceutico, avental branco muito limpo atrás do balcão, óculos de aros fortes, cabelos rentes, bigodes escuros cuidadosamente aparados acusava, como todo o resto, as maneiras, os arranjos, o espírito, enfim, do atendimento comercial do final dos anos 1940, meados dos anos 1950.

O coração da moça começou a bater depressa. Não!… Seria possível?…Afinal, a disposição interna das farmácias daquele tempo era muito parecida… 
Então fincou bem o olho na imagem e, examinando os detalhes, teve a confirmação na figura elegante de um rapaz de olhos gateados, entrevisto na portinhola atrás de um dos balcões, em frente ao quartinho em que se aplicavam as injeções. Era ele! Era ele, sim! O moço da farmácia Internacional! 
Filho do dono ou do gerente, talvez, com quem, anos a fio, nossa paulista, ainda criança, cruzava pela cidade nas férias passadas em Araraquara! No clube, jogando tênis, impecável, roupa toda branca; nas matinês de carnaval, vendo o baile em pé, muito composto na beira do salão; e, claro, todos os dias dentro da farmácia, ajudando. 
Sempre comedido, impressionando a menina com quem jamais trocou palavra e que, mesmo assim, não apagou da lembrança a expresão doce, a figura sempre de claro que, por conta dos olhos azuis, da pele rosada, do cabelo louro, ela associava às representações dos arcanjos renascentistas, folheando os livros de arte da mãe. 
O que terá sido feito do moço? Terá alguma coisa a ver com o formidável crescimento da rede de drogarias Raia? O negócio ainda estará com a família? Seria ele da família? Estará vivo? 
Dúvidas sem volta nem resposta.

De qualquer forma, agora, no Leblon, mais precisamente na esquina de Ataulfo de Paiva com Rita Ludolf, a moça passará a ter, a cada fim de semana, um diálogo mudo com a fotografia, deixando a memória levar o coração para um tempo bom, até o dia em que a farmácia mudar outra vez de mãos, ou os donos resolverem tirar a fotografia da parede por achar que já terá cumprido a função.

A partir daí, para a moça, a esquina voltará a ser apenas o entroncamento de ruas barulhentas, sujas e malcuidadas, num bairro comprometido em escamotear as próprias limitações com expedientes frágeis, repetindo, em menor grau, a dinâmica que se amplia dele para toda a cidade e da cidade para o país, levando o Brasil a ser um repositório inexcedível no campo da contrafação, da injustiça social, da violência e da falta de planejamento urbano.

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segunda-feira, 21 de março de 2016

Moda - YOSKHAZ



Ser gente nunca sai de moda
YOSKHAZ,  O Caçador de estrelas

A necessidade de andar na moda, a aflição inconsciente de estar em sintonia com o que se imagina ser moderno, revela uma busca por identificação e aceitação, uma vontade, em geral não percebida, de encontrar um lugar para se viver em paz. 
A moda nasce da necessidade cultural das pessoas de entender quem são e aonde caminham. 
Roupas, acessórios, carros, ideias enlatadas, maneiras de agir e falar tentam desesperadamente rotular o ser na tentativa de fazê-lo acreditar que pela casca se reconhece o valor da fruta. 
Em vão.

Perde-se a beleza de inventar a si próprio e a força de ser único. 
A moda traz consigo o perigo de projetar um suposto ideal que com certeza não somos.

O limite da forma estabelece fronteiras. 
Qualquer modelo pronto a ser usado rouba a originalidade do indivíduo, a beleza dos voos solos em altitudes inimagináveis, onde, só então, se defrontará com mundos e possibilidades apenas acessíveis a quem ousa ir além da normalidade e das permissões mundanas. 
O exercício da criatividade desenvolve as asas da liberdade.

Nada contra a indústria de consumo, como roupas, carros ou entretenimento que precisa produzir e vender para gerar riqueza e empregos que movimentam o planeta. 
Beleza e conforto, quando atingidos e usufruídos de maneira digna, são bem-vindos. 
Para ser feliz não é preciso ser um asceta no sentido original da palavra. Porém, há que se entender o limite de todas as coisas e o sentido da busca de cada um.

A moda costuma servir de referência para o sujeito se situar em determinado grupo social seja atrás de aceitação ou destaque. Um jeito ingênuo de imaginar quem é ou gostaria de ser, um lugar na tribo que admira, na tentativa de se impor e encontrar o seu canto no mundo. 
Em suma, a moda tenta acomodar nos porões da mente as mitológicas indagações de quem somos e para aonde vamos. 
Mas de que adianta um espelho se não se quer ver? 
De que serve mapa e bússola se não se sabe para aonde ir? 
Pode a forma ganhar mais importância do que a essência?

Inconscientemente a moda ilude o consciente, vendendo o que não pode entregar.

Ainda que não esteja claramente decodificado no entendimento de cada indivíduo, caminhamos, invariavelmente, em busca da plenitude do ser, onde, só então, conseguiremos encontrar toda a paz que precisamos e, em análise honesta, é o que importa. Entretanto, chegar até esse paraíso é a pergunta que não se cala.

Por ainda não terem decodificado o processo, muitos ainda procuram desesperadamente na moda signos de identificação, na ilusão de não se sentirem perdidos, como se a felicidade estivesse disponível na vitrine ou na prateleira das lojas ao alcance do cartão de crédito. 
É bem mais simples e confortável trabalhar a forma do que a essência. Porém, o resultado nunca será o mesmo. 
Trocar de vestido não cicatriza as feridas do coração; o brilho de uma jóia não ilumina os vãos escuros da tristeza; um belo e caro carro pode despertar admiração dos outros e te levar a um confortável passeio, mas as angústias mal resolvidas te acompanharão por toda a parte; o acesso às modernas tecnologias não te dão resposta às questões profundas da alma.

Adiar o mergulho no autoconhecimento é ficar sentado na estação vendo passar o trem da plenitude. É necessário coragem de se ver e entender quem realmente é, encarar as próprias dores e frustrações, assumir as responsabilidades, lamber as feridas para curá-las. E, então, se transformar. 
A busca é árdua, mas o encontro é mágico. 
Extrair e vivenciar o que há de melhor em si, como diamante que precisa lapidar o cascalho até refletir perfeita luz, define a sua roupa.

Na medida que vamos nos conhecendo e transmutando sombras em luz, trocamos o paletó da inteligência, o vestido do coração, o guarda-roupa da alma. 
Saber quem somos é fundamental para entender os outros e o mundo. 
Se a vida oferece andrajos ou prêt-à-porter, lembre-se que somos os nossos próprios alfaiates. Cabe a cada um escolher os tecidos do amor, costurar com as linhas da compaixão, abotoar com sabedoria, vestir com a paciência da eternidade. 
Depois basta distribuir os lenços da alegria por onde passar, a qualquer um, sem distinção.

Encontrar brilho na trajetória de todas as pessoas revela a luz que há em ti. 
A beleza das novas vestes vai encantar inimagináveis passarelas e todos desejarão estar por perto, desfilar ao teu lado, independente da cor da calça, do modelo do carro ou da marca do sapato. 
A elegância não está na grife, porém no estilo.

Não é o que se usa, mas um jeito de ser.

Ser gente nunca sai de moda.


*            *            *

domingo, 20 de março de 2016

Outonal - Florbela Espanca

Outonal
Florblea Espanca

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…

 *            *            *

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)


quinta-feira, 17 de março de 2016

Eu não gosto... - Eberth Vêncio em "Revista Bula"


EU NÃO GOSTO DE NADA QUE O MUNDO GOSTA
Eberth Vêncio - colunista de "Revista Bula"

Eu não gosto de sonhar dormindo mais do que eu sonho ao permanecer acordado.
Eu não gosto do altruísmo narcisista das redes sociais.
Eu não gosto de carinho quando estou nervoso. Eu não sou um cãozinho faminto que rola e late.
Ainda que seja amargo como eu, eu não gosto de chocolate.
Eu não gosto de esconder os ovos de Páscoa das crianças nos arbustos do jardim.
Eu não gosto de brincar com os sentimentos dos outros.
Eu não gosto de ficar bêbado até dizer a verdade.
Eu não gosto de revelar os meus deslizes sexuais a um padre.
Eu não gosto das farras animais.
Eu não gosto de rodeio, de meter as esporas.
(...)
Eu não gosto de puteiros, de igrejas e da maçonaria.
Eu não gosto de tanto mistério acerca da vida e da morte.
Eu não gosto da incompreensível euforia do carnaval.
Eu não gosto do réveillon.
Por mais estranho que possa parecer, eu não gosto de me confraternizar com estranhos.
Eu não gosto de feriados prolongados.
Eu não gosto de enforcar sextas-feiras.
Eu não gosto de mendigar atestado médico para salvar um dia.
Eu não gosto de entrar num elevador sem dizer “bom dia”.
Eu não gosto de seguir a onda.
Eu não gosto de fazer a ola no estádio.
Eu não gosto de estagiárias burras e desinibidas.
Eu não gosto de jogar na loteria.
Eu não gosto de sonhar em ficar rico.
Eu não quero uma Ferrari, uma ilha só pra mim ou um novo par de tetas.
Eu não gosto das mutretas.
Eu não gosto de operar milagres no SUS.
Eu não gosto de assistir a uma sessão de espancamento do MMA.
Eu não gosto de sangue no tatame.
Eu não gosto de ketchup no salame.
Eu não gosto dos filmes do Cobra e do Jean-Claude Van Damme.
Eu não gosto da ditadura do silicone.
Eu não gosto das cicatrizes que, de tão perfeitas, nem parecem cicatrizes.
Eu não gosto das caras recauchutadas das atrizes e das madames.
Eu não gosto da farsa de uma toxina botulínica sobre o sorriso.
Eu não gosto de dizer “eu te amo”, da boca pra fora, como se fosse “me passa a margarina”.
Eu não gosto de rissoles frios e de festa infantil.
(...)
Eu não gosto do bife bem passado.
Eu não gosto daquele tempo em que eu era feliz e não sabia.
Eu não gosto de enaltecer o futebol como se ele fosse arte.
Eu não gosto do tira-teima da TV.
Eu não gosto de enaltecer o erro, esmiuçá-lo: o beiço de pulga, a pontinha da chuteira, o passinho-a-mais-à-frente… Eu acho deplorável massacrar um trio de arbitragem.
Eu não gosto de ler as bulas dos remédios.
Mesmo me sentindo — às vezes — um vendido, eu não gosto de ler os livros mais vendidos.
Eu não gosto das dinâmicas em grupo, do esforço concentrado, de rezar o terço, de fazer suruba.
Eu não gosto de novena, de novela e da dança da manivela.
Eu não gosto de assistir às retrospectivas de final de ano.
Eu não gosto da santa hipocrisia que reina em dezembro.
Eu não gosto de fazer planos em janeiro.
Eu não gosto do show da virada do Roberto Carlos.
Neste quesito, em particular, eu sou, sim, um cão que abomina foguetório.
Eu não gosto de negociar partilhas durante um velório.
Eu não gosto de dar esmolas no semáforo.
Eu não gosto de me sentir só no meio da multidão animada.
Por fim, de tudo o que o mundo gosta, eu gosto de quase nada.

*            *            *

sexta-feira, 11 de março de 2016

Se você engolir tudo o que sente... - Ruth Borges


‘SE VOCÊ ENGOLIR TUDO QUE SENTE, NO FINAL VOCÊ SE AFOGA’
Ruth Borges - em "Revista Bula"

Engole o choro. Engole sapo. Não diga, não quero saber. Cala a boca, cala o peito, cale-se!
Mas o corpo fala, e como fala.
Fala a ponta dos dedos batendo na mesa, fala o dente acirrado, rangendo estridente.
Falam os pés inquietos na cama. Falam os olhos caindo tristonhos.
Fala dor de cabeça, dor na alma. Fala gastrite, psoríase, fala ansiedade, fala memória perdida.
Fala o corpo curvado, fala o nó na garganta atravessado.
Fala angústia, fala ruga. Fala insônia, fala sono demasiado.
Falador.

É impossível entrar no tatame da vida sem levar uns tapas dela.
Mágoa, tristeza, dor, raiva, são sentimentos que nos atravessam sem pedir licença.
A verdade é que enquanto estamos sentados na pedra fitando o abismo em dor, mastigamos as emoções, mas nem sempre as digerimos bem.
Emoções engolidas e não digeridas corroem feito ácido. É bicho morando no estômago, mordente, cáustico. É soda!
Emoções indigestas são como bruxas trancafiadas no corpo. Medonhas, a carregar sensações malditas e mal ditas.
Ninguém quer saber de falar de sentimentos mal cheirosos. Então a gente engole, e esse mal entendido vira coisa que entra no estômago, percorre a garganta, o peito, e se deixarmos, calará nossa boca e nossa paz por uma vida inteira.

E aí, cedo ou tarde, todas as dores do mundo hão de querer vomitar, regurgitar o mal resolvido, e nos contorcer novamente as entranhas.
É preciso um pouco de coragem para se fazer falar. Emoção amordaçada nos faz refém dela.
Dor tapada, cala necessidade. Mágoa não entendida, enfarta a fé nas pessoas. Raiva carregada, pesada, transita ardente pelas costas.
Não dá pra engolir tudo e dizer amém! Eu sei.
Também não dá pra cometer sincericídios por aí.
Mas dá para expressar. O que se sente cabe tradução.

Freud disse certa vez: “a ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como são umas poucas palavras boas”.
É isso, tem hora que o sentimento pede pra ser dito, entendido, descodificado, traduzido. Tudo que ele quer é ser exorcizado pela palavra ou pela via que lhe cabe melhor. Expressar tranquiliza-a-dor. Dor não é pra sentir pra sempre. Dor é vírgula.

Então diz! Diz logo o que quer dizer sua bruxa.
Coloca a dor no caldeirão e faz sopa de letrinhas.
Faz uma carta, um poema, um livro. Faz uma orquestra tocar. Pega as sapatilhas, sapateia.
Faz uma aquarela. Faz uma vida. Faz lá, sol, manda a dó se catar.
Faz piada, faz texto, faz quadro, faz encontro com amigo.
Faz corrida no parque. Fala pro seu analista, discute com Deus, se pinta de artista.
Conversa sozinho, papeia com seu gato, berra aos céus, mas não te cales.
Fala, vai. Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se afoga”.
É que emoções indigestas e encarceradas mergulham no coração mais tarde para explodi-lo.

E aí, me diz, quem será capaz de nos juntar?
Jamais a mágoa e toda a lama que ela carrega será melhor do que a nossa paz.

*            *            *

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Quando nossos filhos voam - Rubem Ales

Quando Nossos Filhos Voam
Rubem Alves


Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho.
Eu mesmo sempre os empurrei para fora. 
Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. 
Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. 
O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. 
Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.
É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.

É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. 
Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. 
Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. 
Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. 
Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados. 

Muitas vezes confundimos amor com segurança. 
Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. 
Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. 
Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. 
Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança. 

Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. 
Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.
Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase. 
Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno. 
Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assustam por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível. 
Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar. 
E não há estrada mais bela do que essa."

*            *            *

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A velha amiga - crônica de Rachel de Queiroz


Cena do filme "Encontro Marcado"
A Velha Amiga
Rachel de Queiroz

Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro.

Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.

Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.

A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.

Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.

Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?

Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.

E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.

Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade – mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.

Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo – e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.

Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.

A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.

E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.

Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou.
*            *            *

Crônica publicada originalmente no jornal “O Estado de São Paulo” – 13/01/2001 – Extraída do livro: Melhores Crônicas -  Rachel de Queiroz

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Branca de Neve - Adélia Prado


Branca de Neve
Adélia Prado


Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
'Nem todo alemão conhece Mozart.'
Um óbvio, pois nem é preciso, 
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.

Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma da sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.

"Geração perversa, raça de víboras"
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?

Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.

Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro 'tino escolhitivo'.
Pra quem me pede dou lista de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.

*            *            *
 Do livro "Miserere".

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A magia das palavras - YOSKHAZ

A magia das palavras
 Yoskhaz

Todos somos feiticeiros e a palavra é o principal ingrediente do caldeirão.
Através do que é dito ou escrito podemos convidar os povos a dançar, semeando alegria e esperança ou construir muros, espalhando ódio e medo.
Este é o poder e ele é seu.
Assim, cada manifestação se torna um ato de magia e define qual tipo de feiticeiro escolhemos ser.

Desde tempos remotos ensina-se que a palavra tem poder.
Toda palavra traz em si uma ideia.
Diversas culturas ensinam valiosas lições sobre o cuidado que devemos ter com a palavra.

O cristianismo orienta que as palavras revelam o que cada um tem no coração.
Elas são a exata medida do nível de consciência de quem as emite.

Os cabalistas narram uma bela história em que um professor, para corrigir um aluno que difamou o colega, pede que escreva a ofensa em um pedaço de papel. Depois que a rasgue em muitos pedaços e os solte em lugar assolado por forte ventania. Agora recolha tudo, determina o professor. Impossível, responde o aluno faltoso que já não consegue ver para onde os pedaços restaram espalhados e perdidos.
Assim acontece com as nossas palavras, explica o bondoso professor, depois de ditas já não nos pertence mais e ignoramos qual será o seu destino.

– Preste atenção antes de falar. Escute todos os lados envolvidos; em toda discórdia há no mínimo duas versões, além da verdade.

– Pondere quais sentimentos te movem: ódio, ciúme, vingança, inveja ou amor e paz?

– Outro cuidado que devemos ter é não travestir o desejo de vingança com as vestes da justiça.
Não raro, sob a falsa e pretensa alegação do ato nobre, ocultamos e damos vazão aos nossos sentimentos mais densos e sombrios.

– Seja claro e objetivo em suas palavras. Não é não; sim é sim.
Exponha seu raciocínio serenamente e respeite o entendimento alheio contrário ao seu.
Que seu coração nunca esqueça que a boa semente não se perde e, no momento oportuno, germinará.

– As mais sábias palavras despencam no abismo se não forem o espelho das atitudes de quem as disse.

– Seja sempre sincero e nunca finja afeição, porém lembre que o amor é a força mais poderosa que existe. O amor é a matéria-prima de todos os milagres.
A palavra traz Luz aos cegos.

O budismo ensina que Universo é um ser vivo em eterna transformação e reage na exata razão das nossas ações.
A melhor maneira de comungar com Ele é espalhando alegria por toda a gente.
Para tanto, a palavra é uma sementeira poderosa e barata.

A sabedoria empresta cores à filosofia das mais diversas tradições.
Reconhecer a árvore através de seu fruto é outro belo quadro desenhado com as mesmas tintas.
Sendo você a árvore, os frutos são suas palavras (e atitudes).
Decida se vai envenenar ou alimentar a humanidade em suas ceias espirituais.
Você se define a cada ato ou palavra.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Subterrâneos - Leticia Wierzchowski

Subterraneos
"No fundo, somos todos uma Roma"

Subterrâneos
Leticia Wierzchowski  
11 de fevereiro 2016 ,  blog Editora Intrínseca

No fundo, somos todos uma Roma. (fonte)

Somos nossa própria alvenaria.

Horas e dias e anos amontoam-se dentro da gente como peças e recantos de uma casa na qual o único desenho é o destino. 
Alguns de nós conseguem delimitar um espaço aqui ou ali por vontade própria, afinal sempre existem os estoicos.

Mas a planta geral da nossa existência é aleatória.

E os desabamentos acontecem, grandes ou pequenos. Tragédias íntimas, quem não as tem?

Falências, mortes, divórcios, doenças, sonhos que morrem e afetam profundamente os alicerces da nossa vida, derrubam paredes, interditam caminhos, escondem a vista. 
Podemos colocar tábuas e construir pontes que nos ajudem a atravessar essas crateras emocionais no dia a dia. Mas o passado que ruiu seguirá em cada um de nós feito uma cicatriz, assim como — oxalá! — as boas surpresas da vida às vezes nos entregam uma inesperada varanda para o mar, um sótão iluminado ou uma escada para novos horizontes.

Com o passar dos anos, todos seremos como essas cidades antigas sobre as quais o tempo vai depositando teimosamente suas incontáveis camadas, uma coisa soterrando a outra, e assim por diante, de forma que chegamos a imaginar que conseguimos esquecer certas pessoas, algumas memórias e antigas dores. 

Mas aí, subitamente, nos vemos obrigados a cavar uma vala, abrir espaço para o futuro, construir o túnel dos nossos dias, e lá está tudo intacto no fundo da gente, como a bela cidade de Roma com suas eternas obras do metrô — seus teimosos túneis acabam sempre topando com um palácio, ou catacumbas, ou termas, ou um anfiteatro. 
E os engenheiros precisam driblar esses tesouros renascidos das entranhas do tempo, contornando judiciosamente o passado que brota do chão romano por todos os lados.

No fundo, somos todos uma Roma — o passado inexpugnável nos habitará para sempre, oculto no centro palpitante da nossa memória.

Basta cavar.

E, às vezes, nem muito.

*            *            *

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pensamentos em Itatiaia - Uma crônica de Rubem Braga




Pensamentos em Itatiaia 
Rubem Braga

Certamente ela desceu para este pomar, aventurou-se para junta da mata, ouviu cantar esses pássaros. E na varanda, de tarde, talvez tenha pensado em mim. 
De algum modo eu vivi aqui, eu existi um pouco nessas alturas há longos, longos anos.

Só as árvores mais antigas poderiam saber esse velho segredo triste, esse amor que se perdeu para sempre; este pensamento é tão pueril e romântico, essa coisa de árvores saberem coisas e se lembrarem das pobres coisas da gente! 
Sinto-me só, triste, vazio, diante da lembrança desse amor antigo que em certo momento era tudo o que existia no mundo e que, entretanto, não existe mais, e é como se não tivesse existido, vive apenas na pueril, inexistente lembrança dessas velhas árvores, dessa água fria que desce da montanha cantando.

O rapaz moreno e magro que alguém um dia entreviu em meio a esses troncos é um triste senhor, agora real, vestido de preto, sentado aqui. A imaginar histórias tolas de velhas árvores que saberiam coisas, que sentiriam e guardariam pensamentos que alguém há muito tempo, há tanto tempo, teria pensado aqui. É um triste senhor gordo, triste como um pobre menino falando sozinho.

Há pensões finlandesas com vapores de sauna e banhos de córrego, e os hotéis tradicionais perdidos no bosque. 

Vamos ver a cascata Maromba, andamos para baixo e para cima, e depois passeio, solitário, num desses bosques junto de um hotel.



Ah! Creio divisar, entre outros troncos, ao fundo, um vulto gentil que logo se perde na espessura. Minha memória é arbitrária e ruim. Estremeço a uma lembrança tão viva, tão pungente, de algo que eu teria vivido neste lugar a que, entretanto, nunca vim.

Sento-me em um tronco, fico ali quieto, como alguém que acaba de ser ferido. 
O nome desse hotel de que eu jamais me lembraria me restitui aquela cuja imagem há pouco acreditei ver. 
Daqui, talvez daquela pequena sala junto à entrada, há muitos e muitos anos, alguém me escreveu uma carta.

Não me lembro o que dizia; rasguei-a, depois de passar o dia inteiro na rua com esse papel no bolso, junto do coração, me queimando de ternura.

Aqui ela esteve, e estava triste. Por aquele caminho talvez tenha descido a cavalo, de manhã, os leves cabelos ao vento. Esta mesma luz do sol, coada por essas árvores, beijou-lhe as faces, na manhã de ar fino.


*            *           *

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sanzaru - Mitologia japonesa

Os três macacos sábios
Mizaru, Kikazaru e Iwazaru
Silvia Kawanami - Mitologia Japonesa

 Os três macacos sábios 

Significado de Mizaru 見 ざる, Kikazaru 聞か ざる, Iwazaru 言わ ざる

Literalmente significa: miru=olhar, kiku=ouvir, iu=falar e zaru=negar, que pode ser traduzido como “Não olhe para o mal, não escute o mal, não pronuncie o mal”.

Embora tenha diversas interpretações, eu acredito que se refira ao fato que se não praticarmos o mal aos outros, manteremos o mal distantes de nós mesmos.

Neste provérbio antigo, vemos três macaquinhos associados a ele.
Cada um complementa o ditado popular com um gesto diferente: Um tampa os olhos, o do meio tampa os ouvidos e o outro tampa a boca.
Mas de onde surgiu essa frase? O que ela realmente quer dizer?
Bom, ao que parece, sua origem é chinesa, porém é quase certo que foi no Japão que ela ganhou o mundo e se tornou um ditado popular ou um provérbio japonês, que no Japão são chamados de Kotowaza.

A relação do ditado com os macaquinhos seria devido a um jogo de palavras.
É que “Zaru” se usa no final dos verbos no Japão e sua fonética soa parecido com “Saru”, que é macaco em japonês.
Existe uma estátua dos três macacos no Santuário Toshougu, na cidade de Nikko, na qual ilustram a porta do Estábulo Sagrado.

Sanzaru, os três macacos sábios
Sanzaru, os três macacos sábios

A origem dos três macacos sábios (Sanzaru / 三猿)

 A filosofia por trás do simbolismo dos macacos vem de uma lenda Tendai-budista, na qual os macacos são usados para representar o ciclo de vida do homem.
O provérbio “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal” é chamada no Japão de “regra de ouro”, onde se se encontra outros ensinamentos que ajudam a promover harmonia entre as pessoas: Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você.
Segundo a religião budista, os gestos dos três macacos representam a divindade de seis braços Vajrakilaya, cujo principal ensinamento é não ouvir, ver ou falar mal, pois dessa forma, nós mesmos seremos poupados do mal.
Em outras interpretações dizem que as estátuas dos Três Macacos Sábios simbolizam paz e harmonia, protegem o lar das energias ruins e ajuda a evitar que o mal se espalhe.

Eles também são chamados de “Os Três Macacos Místicos” (Sambiki Saru) e além do Budismo Tendai, o macaco tem forte ligação com o Xintoísmo HIE.
Há festivais importantes, como alguns que ocorrem  durante o ano do macaco (a cada 12 anos) e um festival especial é comemorado todos os anos, o Festival de Koshin.

Os três macacos sábios


Festival Koshin (Dia do Macaco)

O festival Koshin é conhecido como Dia do Macaco.
Fala sobre uma divindade chamada Koshin que tinha três macacos como mensageiros. Em algumas versões, os três macacos estão representados como três vermes que vivem dentro de nós mesmos, na qual registram tudo de bom e de mau que fazemos.

No 60° dia do calendário, enquanto as pessoas dormem, os três vermes saem e vão até o deus Koshin, que julgará e punirá a pessoa conforme o que foi relatado pelos três vermes.
Para evitar um possível castigo, portanto, é preciso ficar acordado para evitar que os vermes saiam de dentro das pessoas e relatem os maus feitos a Koshin.

Por causa dessa lenda de origem no taoismo chinês, antigamente famílias e amigos se reuniam para ficar em vigília durante a noite inteirinha, que durava desde o início da noite da véspera do Festival Koshin até o amanhecer no outro dia, onde passavam o tempo bebendo, comendo e conversando para se manterem acordados.

Esse provérbio “Mizaru, Kikazaru e Iwazaru”, “Não olhe para o mal, não escute o mal, não pronuncie o mal”, que em inglês é conhecido como “See no evil, Hear no evil, Speak no evil” serve como uma boa reflexão nesse início de ano, como uma forma de olharmos para dentro de nós mesmos, afastando tudo que nos faça mal e nos dando a chance de sermos cada dia melhores do ponto de vista espiritual.

Mizaru Kikazaru Iwazaru

sábado, 5 de dezembro de 2015

Cultura inútil

Cultura inútil
Leonardo von Mühlen - em seu blog 'vilmetáfora'



Recorrentemente, deparo-me com o termo “Cultura Inútil” nos mais diversos círculos que frequento. Proferem-no cabeças pensantes e não pensantes; mentes conservadoras e progressistas; indivíduos cultos e eruditos, personagens néscios e ignorantes. Enquanto eu os escuto discorrer sobre a inutilidade de tais e tais “culturas”, fico a me questionar:

Cultura tem mesmo de ser útil?
Qual seria a utilidade da cultura?
Teria a cultura um objetivo a ser alcançado, uma meta a ser atingida?

Nesse meu solitário devaneio, que ora me atrevo compartilhar, receio desconfiar que cultura e utilidade não guardam relação lá muito amigável entre si. Penso, até, em arriscar dizer que cultura, se for útil, sequer é cultura, mas minha pouca ousadia, de momento, não me autoriza tal decreto. Sigamos, então, na linha de que cultura, para ser cultura, dispensa o caráter de utilidade.

Ora, cultura não precisa ser uma ferramenta ou um instrumento, tampouco produzir resultados materiais, pois, para tanto, temos a figura do conhecimento, cujo objetivo é, aí sim, produzir algo, criar, modificar, promover evolução e aperfeiçoamento, gerar resultados corpóreos e visíveis – tais incumbências pertencem-lhe exclusivamente. Este sim, o conhecimento, pode ser qualificado como útil ou inútil; a cultura, jamais. Ela estará sempre léguas acima destas frivolidades.

A cultura, na acepção aqui proposta, sinto-a muito mais próxima da sabedoria do que do conhecimento. Numa ótica mais lírica, percebo a cultura como um valor interno, íntimo, algo como recitar um soneto para si mesmo, em suaves murmúrios; já o conhecimento, percebo-o como um livro de cabeceira do qual se lança mão em noites insones. É complexo de se entender – nem sei se, mesmo eu, entendo –, mas sinto essas duas grandezas abstratas assim, quase antagônicas, porém complementares.

A cultura me completa, alimenta-me a alma, transforma-me e, permitam-me um clichê, torna-me mais feliz. Então, novamente pergunto: qual a utilidade de tudo isso? O que pode haver de útil, de proveitoso, de lucrativo em ser feliz, em sentir-se completo e de alma transformada? Absolutamente nada! A cultura, sob as mais variadas formas – literatura, música, teatro... – não produz nada de concreto, é formidavelmente inútil. É algo belo – por vezes, nem tanto – com o que nos comprazemos, deleitamo-nos; é algo que diz precisamente quem somos, porque e como; aponta caminhos e também os constrói; oxigena existências. O conhecimento, por sua vez, apenas facilita.

Em tempo, lembrei-me de outra questão relevante: a cultura nunca será útil ou inútil, contudo, pode-se, eventualmente, qualificá-la de fútil, não por antonímia à utilidade, mas por ter valor cultural questionável, pueril, superficial. Observem que a erroneamente difundida “cultura útil” (quando se fala em “cultura inútil”, pressupomos a existência de uma “cultura útil”, o que produz essa falsa dicotomia) é tão inerentemente contraditória quanto o “conhecimento inútil”. A cultura é um ente de natureza maravilhosamente inútil, enquanto o conhecimento traz a utilidade, a proficuidade, na sua essência. O conhecimento confere poder; a cultura faz transcender.

Tomei coragem: cultura, se for útil, não é cultura; conhecimento, se for inútil, não é conhecimento. Decreto: toda cultura é inútil, todo conhecimento é útil, sob pena de, em não assim os sendo, não existirem como tais.

Fica o dito pelo não dito. Encontro-me, a partir de já, receptivo às pedras.

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