sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

GILBERTO GIL - A linha e o linho (Gilberto Gil)

DALTON TREVISAN - Apelo

Apelo
Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa da esquina.  Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou.  A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada.  Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo.  Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos.  Uma hora da noite eles iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero da salada - meu jeito de querer bem.  Acaso é saudade, Senhora?  Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham.  Não tenho botão na camisa, calço a meia furada.  Que fim levou o sacarrolhas?  Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando.  Venha para casa, Senhora, por favor.
*            *            * 
In: "O conto brasileiro contemporâneo". Org. Alfredo Bosi. S.Paulo. Cultrix. p.190

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

GUIMARÃES ROSA - (trecho)



"Tudo flui e nada permanece"
Heráclito, filósofo grego


O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.  E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo; ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha, que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei, - "Amanhã eu tiro..." - falei comigo.  Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então sabia: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido roído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta.  Deixei, para mais ver.  Estala, espoleta!  Sabe o que foi?  Pois, nessa mesma tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo - por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro.  Aí está: Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...

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Rosa, João Guimarães, in: "Grande Sertão: Veredas" , 14ª ed. Rio de Janeiro. J.Olympio. 1980. p.20-1

WILLIAM SHAKESPEARE - Monólogo de Hamlet

Monólogo de Hamlet
William Shakespeare, 1564-1616, poeta e dramaturgo inglês

Ser ou não ser, eis a questão.
O que é mais nobre? Sofrer na alma
as flechas da fortuna ultrajante
ou pegar em armas contra um mar de dores
pondo-lhes um fim?

Morrer, dormir, nada mais;
e por via do sono por ponto final
aos males do coração e aos mil acidentes naturais
de que a carne é herdeira, num desenlace
devotadamente desejado.
Morrer! Dormir; dormir,
dormir, sonhar talvez:
mas aqui está o ponto de interrogação;
porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
uma vez fora da confusão da vida?

É isso que nos obriga a refletir: é esse respeito
que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras.
Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo,
as injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos,
a tortura do amor desprezado, as demoras da lei,
a insolência do oficial e os pontapés
que o paciente mérito recebe do incompetente
quando o próprio poderia gozar da quietude
dada pela ponta de um punhal?

Quem tais fardos suportaria
preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante
a não ser pelo medo de algo depois da morte,
esse país desconhecido de cujos campos
nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade
e nos faz suportar os males que temos
em vez de voar para o que não conhecemos?

Assim a consciência nos faz a todos covardes
e assim as cores nascentes da resolução
empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento
e os planos de grande alcance e atualidade
por via desta perspectiva mudam de sentido
e saem do reino da ação.

*            *            *

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

MÁRIO QUINTANA - Emergência

Emergência
Mário Quintana


Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

- para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

*            *            *

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ANTONIO GEDEÃO - Viagem

VIAGEM
Antonio Gedeão

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...

(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

*            *            *

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

MANUEL BANDEIRA - Consoada

Consoada
Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

*            *            *

sábado, 7 de janeiro de 2012

ÉRICO VERÍSSIMO - Solo de clarineta


Érico Lopes Veríssimo (Cruz Alta - RS, 17 de dezembro de 1905 — Porto Alegre - RS, 28 de novembro de 1975)


"Carrego sempre comigo uma boa provisão do sal da malícia e da dúvida para temperar muitas das coisas que digo, escrevo, penso ou faço."
(Solo de Clarineta)

**

"O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica e displicente em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, em uma linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes – alheias ou nossas, antigas ou recentes –, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado — e às vezes, inexplicavelmente, do futuro —; enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite anterior, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz e pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas… uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito.
 
Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem", murmuro-lhe às vezes, "Tuas carnes se tornam flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". "E como imaginas que estás?", replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso será verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.
 
No Homem do Espelho reconheço os olhos escuros e melancólicos de minha mãe. Essa cabeçorra, quase desproporcional ao resto do corpo, herdei-a de meu pai. Quanto à pele morena, talvez me tenha vindo de algum remoto antepassado índio ou mouro. As sobrancelhas negras e espessas — que passaram a vida no vão esforço de dar a essa cara um ar façanhudo, decerto com o propósito de atenuar a mansuetude quase humilde dos olhos — foram suavizadas pela prata com que o tempo as retocou.
 
Eu gostaria de simplificar o problema de meu temperamento apresentando-me como a manifestação de uma dicotomia, segundo a qual tendências que herdei de minha mãe — sobriedade, senso de responsabilidade, devoção ao trabalho, à ordem e à normalidade — podem ser comparadas com os muros de uma cidadela sitiada e repetidamente atacada por insidiosos e alegres bandos de guerrilheiros constituídos por certos componentes do caráter de meu pai: sensualidade, auto-indulgência, inclinação para o ócio e para uma espécie de hedonismo irresponsável.
 
"Mas a coisa não é tão simples e nítida assim", observa o Outro.
 
"Eu sei, eu sei", respondo em pensamentos, "mas vamos adiante, companheiro. É pelos sendeiros do erro e da dúvida que havemos de chegar um dia ao reino da verdade."
 
O Fantasma foca em mim os seus olhos secretamente céticos e murmura: "Será que esse reino existe mesmo fora da mitologia?"
 
Ambos encolhemos os ombros. Nem eu sei sobre a verdade, nem ele sabe, e nem ninguém mais: esta é a verdade." 
 
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Prólogo de "Solo de Clarineta", livro autobiográfico, publicado em 1973

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

LUCIANA SADDI - Coisas de fazer e...

Tela de W.Simon - 1910
Coisas de fazer e coisas de amar
Luciana Saddi

Eu só me encontro nas coisas de fazer. Preparar um belo risoto. Funghi de molho no leite e vinho, cortar cogumelos variados em fatias grosseiras, picar cebola, cozinhar um caldo de legumes horas a fio. Sentir nas mãos o cheiro das coisas que vêm da terra, a vida é feita disso. O dourado da fritura, o ponto de cozimento, a textura do arroz. Mais sal, menos sal. A proporção de azeite, manteiga e parmesão, problema simples. Não esquecer do vinho, mexer bastante, sentir o aroma subindo da panela. Tudo que precisamos está ali aos nossos pés, no final dá certo, é bom e é de comer.

Eu me desencontro nas coisas de amar. Não tem preparação, as receitas não funcionam, nunca é como o cheiro da terra, mesmo quando é sincero e intenso. Não é um jogo embora envolva conquista. O que falar, como falar, quando falar, preocupações, como se fizesse alguma diferença. Uma palavra doce, um elogio a mais, um detalhe não percebido, um sorriso azedo, um beijo melado. Como agradar ao paladar tão variado? Bunda demais, peito de menos, umas rugas estúpidas, a cor do batom, a celulite é a culpada. É muito fácil se queimar. No final todos saem perdendo. O coração é matéria prima delicada, assustada, viva.

Para as coisas de fazer, ordem, sequência, controle, início e fim, método, técnica, tempo do relógio, prova e repetição. Substantivos concretos. Palavras pequenas. Todo mundo entende essa língua.

Para as coisas de amar, sentimentos, expectativas, sonhos, ilusões, sedução, esperança, solidão, ciúmes e exclusão. Substantivos abstratos. Palavras grandes. Ninguém entende do que se trata.

Nas coisas de fazer, executar com paixão garante o bom resultado e a sobrevivência.

Nas coisas de amar, a paixão não se presta como garantia e muitas vezes flerta com a morte.

Por isso eu só me encontro nas coisas de fazer, no trabalho cotidiano, cortar, lavar, cozinhar, que mesmo dando errado sempre acaba bem.

Para as coisas de amar é melhor nem começar.

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Do livro 'O amor leva a um liquidificador' (Ed. Casa do Psicólogo).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

LÁ TAMBÉM TEM ESSAS COISAS...

Pérolas políticas aparecem em qualquer país, até mesmo na França.
Melhor ainda é o comentário do jornalista...



Parmi les autres auteurs de ces phrases drôles, volontairement ou non, le patron des députés UMP à l'Assemblée, Christian Jacob : "Le socialisme c'est vraiment une île au milieu des terres".
Ancien militant agricole, Jacob n'a pas vu la mer depuis longtemps... (kkkkkkk!!!!!!)

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'A CARTEIRA DE MEU TIO' - Joaquim Manuel de Macedo


Joaquim Manuel de Macedo é autor de " A moreninha" - seu romance mais conhecido e até adaptado para o cinema e a televisão.
Quando lemos pela primeira vez sua obra - geralmente no ensino médio, por "obrigação", porque o professor alerta que cobrará em prova, essas coisas -  não percebemos o extraordinário cronista de costumes que ali se apresenta. Há em seus escritos toda uma observação da época e uma fina ironia ao descrever os desmandos políticos e a vida das pessoas na cidade do Rio de Janeiro.

Transcrevo uns trechos de um outro livro do autor - "A carteira de meu tio" (publicado em 1855!)  - e que me chamaram a atenção pela pertinência e atualidade do assunto.

"Senhores, eu sou sem mais nem menos o sobrinho de meu tio: não se riam, que não há razão para isso: queriam o meu nome de batismo ou de família?
Não valho nada por ele, e por meu tio sim, que é um grande homem. Estou exatamente no caso de alguns candidatos ao parlamento e a importantes empregos públicos, cuja única recomendação é neste o ser filho do Sr. Fulano, naquele ser neto do Sr. Beltrano, e até às vezes naquele outro ser primo da Sra. Sicrana."
**

"Com efeito, do mesmo modo que sucede a todos os vadios de certa classe, a primeira idéia que me sorria, tinha sido a política!
- Mas olha que a política não é meio de vida - observou o velho.
- Engano, meu tio! A pátria deve pagar bem a quem quer fazer o enorme sacrifício de viver à custa dela."
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"A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles. O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séquito passam às mil maravilhas à custa dela!"

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GUILHERME DE FIQUEIREDO - Sobre a língua

Argumentação
Guilherme de Figueiredo

Xantós:
Mais língua? Não te disse que trouxesse o que há de melhor para o meu hóspede? Por que só trazes língua? Queres expor-me ao ridículo?

Esopo:
Que há de melhor do que a língua? A língua é que nos une a todos, quando falamos.  Sem a língua nada poderíamos dizer. 
A língua é a chave das ciências, o órgão da verdade e da razão.
Graças à língua se ensina, se persuade, se instrui, se reza, se explica, se canta, se descreve, se elogia, se demonstra, se afirma. 
É com a língua que tu dizes 'mãe', e 'querida' e 'Deus'. 
É com a língua que dizemos 'sim'. 
É a língua que ordena os exércitos à vitória, é a língua que desdobra os versos de Homero. 
A língua cria o mundo de Ésquilo, a palavra de Demóstenes. 
Toda a Grécia, Xantós, das colunas do Pártenon à estátuas de Fídias, dos deuses do Olimpo à glória sobre Tróia, da ode do poeta ao ensinamento do filósofo, toda a Grécia foi feita com a língua, a língua de belos gregos falando para a eternidade.

Xantós:
(...) Bravo, Esopo!  Realmente, tu nos trouxeste o que há de melhor. (...)
Vai agora ao mercado e traze-nos o que houver de pior, pois quero ver a tua sabedoria! (...)
Agora que já sabemos o que há de melhor na terra, vejamos o que há de pior na opinião deste horrendo escravo!  (Levanta o pano que cobre o prato).
- Língua? (Indignadíssimo)  Língua, ainda?  Não disseste, mostrengo, que língua era o que havia de melhor?  Queres ser espancado?

Esopo:
A língua, senhor, é o que há de pior no mundo.  É a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos, a mãe de todas as discussões.  ´
É a língua que usam os maus poetas que nos fatigam na praça, é a língua que usam os filósofs que não sabem pensar.  É a língua que mente, que esconde, que tergiversa, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que mendiga, que impreca, que bajula, que destrói, que calunia, que vende, que seduz, que corrompe.
É com a língua que dizemos 'morre', e 'canalha' e 'corja'.
É com a língua que dizemos 'não'.
Com a língua Aquiles mostrou sua cólera, com a língua Ulisses tramava seus ardis.
Com a língua a Grécia vai tumultuar os pobres cérebros humanos para toda a eternidade.
Aí está, Xantós, porque a língua é a pior de todas as coisas!
*            *            *
In: A raposa e as uvas, 2ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

LER - Opiniões

Ler e aprender a Viver

"Ler não é mera decifração de letras e de palavras. Não é uma operação mecânica.
Por meio da leitura seres humanos podem se encontrar, podem assimilar algo das experiências dos outros. 
Minha experiência pessoal me ensinou que jamais aprenderei a ler tão bem quanto necessitaria.  O aprendizado da leitura não cessa jamais.  Quem lê poesia, crônicas, romances, peças de teatro, ensaios, de fato está lendo a vida.
Aprender a ler então, é como aprender a viver: não termina nunca."
(Leandro Konder, in: As artes da palavra", Boitempo, 2005)
***

“Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário. E não é só o escritor que tem isso. O leitor também tem. Ele é um cara que vive dupla ou triplamente”.
A literatura é um ato de prazer, que não deve ter segundas intenções. Ela dá aos leitores um espaço muito maior.
Se você está lendo um livro, se vê obrigado a criar junto com ele — algo que, na televisão, não existe. Na TV, você pega as coisas mais mastigadas, uma torrente de anúncios e de segundos interesses. É muito ruído.” 
(Sérgio Sant’Anna)

***

“É inegável que a literatura tem uma função, assim como todas as artes têm. O primeiro cuidado a ser tomado, se a gente fala da função da literatura, é não fazer uma divisão entre produtor e consumidor. Ou seja, não fazer distinção entre escritor e leitor. Acho que a literatura tem a mesma função para ambos. Não existe um escritor que não seja leitor. Todo leitor é, por sua vez, um produtor de texto. Nós, escritores, escrevemos em uma folha de papel ou na máquina ou no computador, enquanto o leitor escreve naquilo a que os jesuítas chamavam de ‘folha de papel em branco da mente’ .
O processo de leitura é um exercício de alteridade. É você entrar em um determinado mundo que não é o seu, no qual se entra muitas vezes por um processo de surpresa. Você não esperava aquilo de maneira alguma e, de repente, entra e se encanta com aquele mundo. Quanto mais se entra naquele mundo, mais se apropria dele, mais torna aquele mundo você mesmo.
O leitor sensível, inteligente, sempre conseguirá ver as relações estreitas entre aquilo que está lendo e a possibilidade de transformação, seja da realidade imediata, a realidade do mundo, seja ainda e, sobretudo, de si próprio.”
(Silviano Santiago)
***


"Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados.
Eu saio de um livro sempre muito comovida, ou tocada, ou agressiva. Sempre me transformo de alguma maneira.
Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida.
Por que é importante ler? No nono e último círculo do Inferno, de A Divina Comédia, estão os traidores de seus hóspedes. Dante conta que eles estão perpetuamente imersos no gelo apenas com a cabeça de fora e os rostos voltados para cima, impedidos de continuarem a chorar, pois as lágrimas do ‘primeiro pranto, qual viseira de cristal’, congelam-se depois de inundar ‘do olho a cava inteira’.
Fiquei pensando se a literatura também não é a possibilidade de abaixar o rosto e chorar de olhos fechados. Desprender-se de uma só dor e poder chorar, inclusive, a dor de muitos outros”.
(Beatriz Bracher)
***

“Não ler, em muitos casos, é sintoma de preguiça e falta de condicionamento. Um mal prosaico. Muita gente não lê por levar uma espécie de vida mental sedentária. Aceitam que sua fome tão humana de fabulação seja alimentada pela TV ou pelos blockbusters e, com isso, apenas engordam sua passividade.
Digo, de cara, que quem não lê perde a chance de se mostrar ativo em relação ao seu mundo e ao seu tempo. Perde vitalidade. Perde uma ótima oportunidade de se treinar para uma vida mais rica e, quem sabe, feliz”.
(Luís Henrique Pellanda)
***

"Eu continuo brincando de não ser cego, continuo comprando livros, continuo enchendo minha casa de livros.  Outro dia me deram de presente uma edição de 1966 da enciclopédia de Brokhause.  Eu senti a presença desse livro em minha casa, eu a senti como uma espécie de felicidade.  Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver; e, no entanto, o livro estava ali.  Eu sentia como uma gravitação amistosa do livro.  Penso que o livro é uma das formas possíveis de felicidade que os homens possuem" 
(Jorge Luís Borges)
***

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ADORO BIBLIOTECAS


Biblioteca mais Circular do que Circulante


Biblioteca Árvore - quebrando o galho

Biblioteca "Dolce far niente"  -


Biblioteca Mesa - para os que devoram livros

Biblioteca Cama Sutra
Biblioteca PAC MAN
Biblioteca Despencando - 'A insustentável leveza'...etc

Biblioteca Plantando bananeira

Biblioteca para quem não gosta de ler

Biblioteca toca, para ratos de biblioteca



Fonte: "Transatlântico" - Rafael Rodrigues

domingo, 1 de janeiro de 2012

MÁRIO QUINTANA - No ano passado...


No ano passado...
Mário Quintana


Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraordinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas.

Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.

Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.
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