segunda-feira, 13 de julho de 2015

É preciso estranhar Clarice

Clarice escreve como que em espanto, como se cada palavra surgisse de repente no papel e precisasse ser dita. Mas é precisamente nos não ditos dos seus textos que se insinua a possibilidade de nos fazermos sentir naquilo que realmente nos interessa. É como se uma batalha (ou quem sabe uma dança) fosse travada com a palavra para que dela, através dela, pudesse surgir o que de fato se pretendia anunciar. E o que se pretendia anunciar?



É PRECISO ESTRANHAR CLARICE
Danielle Mezzari -  em "Obvious - magazine"

Quando entrei em contato com a literatura de Clarice entrei em choque. 
Era ainda menina e me perguntava o que era aquilo que lia, tão profundo e suave. Tão direto e indeciso. 
Acho necessário fazer um esforço no sentido contrário da pretensão da pergunta formulada acima. 
Ao invés de nos perguntarmos o que pretendia anunciar Clarice Lispector com seus textos, o que ela queria dizer, deveríamos começar a nos indagar sobre o que nós pretendemos com eles. O que somos capazes de criar a partir do contato com suas obras?
Alguma coisa fica por ser dita. Alguma coisa dita ficou por dizer. 
Clarice não nos dá respostas, não traça caminhos a serem percorridos e não há nenhum sentido já dado em seus textos. Pelo contrário, é quando nos deixamos tocar, ou quando alguma coisa no texto encontra algo em nós que um sentido, ou qualquer outra coisa, é produzido. 
Quero dizer que não há nada pronto em sua obra, apenas para ser contemplado ou encontrado. 
O que há é o vislumbre de uma dor, de uma potência de dor. 
O que há é a possibilidade de produção de sentidos. 
A autora sozinha, seus textos, não transmitem nada. É só no contato com um outro que as palavras ganham corpo, ganham vida. É só através de um outro que um texto pode ter um direcionamento e uma aplicação. Cabe a nós, enquanto leitoras e leitores, a partir do que temos, de nossas experiências, produzir novos caminhos e interpretações.

Acredito na potência do silêncio. Silêncio enquanto condição para a produção de sentidos. 
Eni Orlandi em seu livro “as formas do silêncio” nos diz que este não se refere ao vazio, mas que ele é o indício de uma totalidade significativa. 
O silêncio diz da produção de possibilidades, de conexões, de relações que muitas vezes transgridem, subvertem o efeito esperado por quem escreveu. 
O silêncio faz alusão a uma totalidade que a palavra mobiliza na tentativa de fazer referência e atribuir significado a uma parte desse todo. É, portanto, só na palavra que o silêncio se manifesta, se esconde e cria espaços que a palavra não consegue dizer.

Uma das questões que passaram a me incomodar após o contato com Clarice diz respeito justamente à palavra. 
A palavra é paradoxal desde o seu nascimento. No momento em que designo algo estou ao mesmo tempo a potencializar e a limitar o objeto designado. Potencializo ao lhe atribuir um significado e limito ao negar-lhe o movimento, o deslizamento por entre outros sentidos. 
Parece-me que Clarice enfrenta esse dilema, paradoxo intransponível, e busca criar a não palavra dentro da própria palavra. A palavra que nega a si própria enquanto capacitada de designação, do conhecimento necessário. 
Clarice subverte a própria língua para nela criar uma oscilação, uma linguagem que, se não é outra coisa, também não é mais a mesma.

Deleuze fala sobre a capacidade que a literatura possui de produzir uma minoração na língua, de criar um devir-outro da língua, “uma linha de feiticeira que se escapa do sistema dominante”.
Para fazer isso é preciso um pouco de estranheza. É preciso estranhar o mundo, estranhar a si mesma.

A escritora e professora Noemi Jaffe nos fala um pouco sobre isso. Ela nos explica que o estranho ou o estrangeiro é aquele que é de fora, que não pertence a um determinado lugar e que, por este motivo, olha as coisas com um olhar de espanto, como quem vê algo pela primeira vez. 
Essa “estrangereidade” é marcante na obra de Clarice. No entanto, ela relativiza essa relação fora-dentro. 
É possível ser estrangeira no seu próprio país, na sua própria cidade. É possível ser um estrangeiro de si, em si. 
Clarice estranha o que é dado como óbvio, o que é naturalizado e, portanto, tornado invisível no nosso cotidiano. Esse estranhamento faz com que ela possa olhar a si mesma e ao mundo a partir de perspectivas outras e criar a partir de outros lugares.

É preciso que também nós, enquanto leitoras e leitores, estranhemos Clarice. 
Pode ser que o impacto seja tanto que nos afastemos de imediato frente ao desconhecido de sua obra. No entanto, talvez desse encontro prolifere caminhos e se crie outros sentidos para coisas que já estávamos tão habituadas/os a ver.

*            *            *

sábado, 11 de julho de 2015

Rui Veloso e Mariza - Não Queiras Saber de Mim





Não queiras saber de mim
Rui Veloso

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim
Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo
Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado
Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo
Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

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terça-feira, 30 de junho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

...a dor dos noticiários - Nara Rúbia Ribeiro

Da página 'Conti outra'

Por que as pessoas buscam a dor dos noticiários?  
Nara Rúbia Ribeiro


Arte naif: Eliete Tordin

Liguei a TV. Algo de medonho havia ocorrido. Dados alarmantes, números bizarros e depoimentos diversos davam notícia de que o futuro havia chegado de mãos dadas com o fim. Tudo pareceu-me desolado. A economia desconsolada, o Judiciário vendido, a democracia vilipendiada. E mortes e insegurança e indignação e desespero… Deus! Quem foi que violentou a alma do mundo para que tudo sangrasse assim,  com tanta força?


Mas eu tive a ousadia de desligar a TV. Eu tive a audácia de não ler jornais. Eu tive o despreparo de andar pela rua e de observar pessoas, coisas e tentar enxergar abstratos.


Uma mãe segurava a mão do filho pequenino e dizia:  – Não, Artur. Depois do “3” não vem já o “5”. Vem o “4”.


Uma senhora sorriu, escorada no umbral da entrada de uma casa, ao perceber a confusão numérica da criança. E prosseguiu observando mãe e filho a sumirem de vista, enquanto acariciava um gato vira-latas que parecia também observar a cena.


Havia flores nos canteiros das casas e crianças uniformizadas, ainda sonolentas, seguiam para a escola. 

Passarinhos povoavam os fios de alta tensão como se a delicadeza desafiasse a força, como se as penas blindassem as suas almas da violência do mundo.
Em meio ao barulho dos automóveis, quem tivesse o ouvido inclinado à beleza poderia ouvir o canto indecifrável desses pássaros.

Um jovem me viu parada a observar essas coisas e perguntou-me: – Você está bem?  A custo compreendi a pergunta, e respondi: – É um bom dia, não é? Ele acenou com a cabeça positivamente, e seguiu caminho.


E vi muitas pessoas sorrindo e contando anedotas. 

Vi um beija-flor meio perdido entre flores de vida e rosas de plástico, mas ele sobreviveu. 
Vi pedrinhas coloridas numa calçada. 
Ouvi o porteiro do prédio a relatar, a um amigo, o desfecho triunfal de sua noite de amor.

E percebi que a ausência da vida é resultante do distanciamento da sua essência. 

Percebi que as verdades poéticas e cotidianas não são notícia. 
Quem quer saber de beija-flores confusos ou de pequenos aprendizes matemáticos? 
Quem quer noticiar a glória de pássaros que desafiam a insensibilidade das almas? 
Quem quer saber de tudo isso se nem sabe que isso existe?

As pessoas necessitam da dor dos noticiários. Necessitam de ver o sangue, a violência, a podridão do mundo porque querem urgente e desesperadamente compreender o que lhes dói. 

Elas precisam saber o que fez do seu peito um oco, um vazio, um vão imensurável e doído. 
Elas precisam saber da origem do nada que as incomoda, o nascedouro do apego ao concreto, a gênese de sua indiferença, a origem do medo generalizado que arrebata o sentido. 
E é isso que o noticiário vende!

Estou farta de ver holofotes plenos à mediocridade dos homens. 

É preciso entender que o Homem é maior do que é. 
É preciso compreender e amar a beleza que germina  em todas as coisas e antever a árvore frondosa e a doçura do fruto. 
É preciso valorar as pequenas delicadezas, as imperceptíveis gentilezas. 
É preciso ver a beleza que existe, talvez ainda embrionária, em cada um. 
É preciso que a alma não se renda à morte vendida nos noticiários, e ainda se mostre rendilhada e rebordada na afeição de pequenos e reiterados gestos.

Por isso eu o convido, hoje, a ter a ousadia de desligar a TV, de desconectar-se das redes sociais que tantas vezes destilam ódio, de não ler jornais. 

Convido a fazer uso do seu wi-fi interior. Da sua antena superior. E conectar-se às belezas que o circundam. Sintonizar-se com o encantamento que paira sobre o inusitado das existências anônimas, das pessoas anônimas, dos objetos e seres desimportantes. Afinal, se essa beleza nos preenche, porque haveríamos de justificar os vazios?

Goiânia, 13 de março de 2015.



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sexta-feira, 12 de junho de 2015

ANDRÉ J. GOMES - Para as almas amorosas...


PARA AS ALMAS AMOROSAS, QUALQUER LUGAR LONGE DO SER AMADO É TERRA ESTRANGEIRA

André J. Gomes - em 'Revista Bula'


Não olhe agora. Mas nós estamos cercados de estrangeiros. O mundo, esse lugar tão grande quanto a sala da nossa casa, anda povoado de forasteiros. 
É gente nascida em todo canto, rumando para todo lado, mas que em algum instante, de alguma sorte, seguiu para longe de seu amor. Uns há horas, outros há dias, semanas, meses, anos, todos se encontram distantes do ser amado.

O jeito não engana. Essa gente enamorada de alguém que vai longe tem um jeito aplicado de trabalhar direito, como quem quer logo voltar para casa. 
Tem distância geográfica, lonjura do coração ou os dois. Não importa. Tudo é longe para quem não caminha junto de seu amor.

Alguns sequer o encontraram. Outros o acharam e o deixaram partir. 
Há os que têm saudade simplesmente porque não podem estar o tempo todo agarrados a seu bem. 
Todos são andarilhos em terra estrangeira, vagando em busca de amor. 
As almas enamoradas são assim. Longe a qualquer distância de quem amam, sentem no coração um banzo, uma saudade, um não-sei-quê de nostalgia.

Assim como os imigrantes que partem para um país distante, levando escondidos na bagagem um saquinho do feijão de sua terra, um punhado do café de sua cidade, uma muda do hortelã dos avós para o chá das noites de insônia e tristeza, há também os que só resistem à saudade porque carregam consigo lembranças de seus dias de amor e de paz.

Não há remédio que dê jeito na falta do amor distante. Nada senão rumar para onde o coração ficou cativo. Depois seguir de alma leve, remoçada. 
Almas enamoradas funcionam assim. Se vão, carecem de voltar. Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é terra estrangeira. Do outro lado do mundo ou ali na esquina.

Eu entendo as almas enamoradas de todo canto. Eu aqui, em minha solidão de bicho, compreendo sua disposição para a vida, sua lida convicta de honestos trabalhadores, seu jeito firme e manso que só têm as pessoas boas. Entendo, respeito, admiro e agradeço.

Porque as almas enamoradas, mesmo aquelas que caminham sós em busca do amor que talvez nunca venha, carregam e levam adiante nossa primeira e maior vocação: a de dar e receber amor por aí.

Em sua labuta, as almas enamoradas assumiram a tarefa de entregar, umas às outras e a quem mais estiver perto, palavras de tão profundo carinho, embrulhadas em gestos tão simples, que desarmariam as caras mais feias e desmontariam as intenções mais odiosas.

A cada novo encontro amoroso, conspiram os enamorados por um mundo de pessoas livres, ativas e gentis. Gente que acredita no trabalho e pratica seu ofício com honestidade e gratidão. Almas que valorizam o tempo e não o perdem com besteira. Que apontam o barco para a frente e não o dedo a ninguém. Que ouvem o que lhes dizem, guardam o que desejam e respondem o que precisam. 
Criaturas imperfeitas que vivem sua vida e deixam em paz a dos outros. Que preferem a crença no esforço próprio e dispensam a crítica ao empenho alheio.

Assim são as almas enamoradas. Boas quando longe de seu amor. Melhores ainda quando perto. 
Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é uma fria, distante e aborrecida terra estrangeira.


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Nicole Ayres Luz - sobre Contos de Fadas

Por trás dos Contos de Fadas
Nicole Ayres Luz - em 'Homo Literatus


Em sua origem, os contos de fadas eram bem sombrios, nada muito semelhante aos contos de fadas atuais, como vemos nas adaptações cinematográficas


Se pensamos em contos de fadas hoje em dia, lembramos basicamente das adaptações da Disney, mas as origens do gênero são bem mais sombrias. 
Se passar fome ou ser atacado por animais na floresta parecem ameaças distantes para nós, antigamente eram situações que faziam parte da realidade cotidiana. 

Na verdade, as histórias não eram voltadas para o público infantil. 
Apenas no século XVII, com a coletânea de Charles Perrault, estabeleceu-se o gênero literário, baseado em lendas da tradição europeia. 
No século XIX, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen fizeram novas versões. Essas são as fontes mais conhecidas. 
Já havia então o conceito de família burguesa, em que as crianças seriam mais protegidas, teriam seu espaço na sociedade.

O contexto social muda gradativamente, e com isso certas versões prevalecem ou se modificam. 
Cada vez mais houve uma amenização da crueldade dominante nas lendas originais. 
Na atualidade, também é muito comum que se trabalhem sátiras, como Shrek, que desmistificam o próprio gênero.

Normalmente, o primeiro contato com a ficção se faz através dos contos de fadas. 
Numa fase da vida em que a imaginação é guia para a compreensão da realidade, eles ajudam, por metáforas, a lidar com os conflitos latentes. 
Vários estudos psicológicos foram desenvolvidos nesse sentido. 
O mais famoso é Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelhein. 
Uma versão mais atualizada é Fadas no Divã, do casal de brasileiros Mário e Diana Corso, em que são comentadas desde narrativas clássicas, como Cinderela, Rapunzel, João e Maria, até tramas contemporâneas, como Ursinho Pooh, A Turma da Mônica e Harry Potter.

É muito comum que, nos contos de fadas, haja um protagonista criança e vilões encantados, como bruxas e ogros. 
Essas criaturas representariam outra faceta dos próprios pais, seu lado controlador e punitivo. 
A situação do abandono é bastante comum, como em João e Maria e O Pequeno Polegar. 
Isso acaba trabalhando a questão da autonomia da criança, que deve saber como agir sozinha em determinadas situações. 
Já quando são adolescentes ou jovens adultos, o desenlace passa a ser amoroso. 
Príncipes e princesas devem vencer obstáculos para alcançar seu final feliz, como em Branca de Neve, A Bela e a Fera, Rapunzel. 
Esse é o momento em que o jovem deixa a casa dos pais para se casar e formar sua própria família, não sem passar por conflitos diversos.

Enquanto Bruno Bettelhein defende a leitura dos contos originais, o casal Corso acredita que, além de ser difícil de recuperar as verdadeiras fontes, toda forma de ficção é válida como alimento para a imaginação infantil. 
As histórias se transformam conforme a época. 
Hoje, o maniqueísmo clássico está sendo quebrado com personagens dúbios, híbridos, humanos. 
No filme Malévola, o drama da vilã torna-se o mote central, mudando a perspectiva. 
Na série Once Upon a Time, os heróis também erram e certos vilões se redimem. 
Os caminhos são tortuosos, as escolhas difíceis, por isso os personagens hesitam em determinados momentos. Seu caráter pode ser íntegro, porém não é impecável.

Em um tempo dinâmico, ágil, de informação disponível por vários meios, a criança é estimulada cada vez mais cedo a lidar com as questões complexas da vida. 
O importante é que ela não perca sua capacidade criativa, seu jeito diferenciado, fantasioso, poético, de apreender a realidade. 
Com isso, os contos de fada continuam cumprindo seu papel.
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Referências:

CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mário. Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.

FRANCO, Maria Dorothea Barone. Malévola: um outro espaço, uma nova imagem. In: Revista Conhecimento Prático Literatura nº 60. São Paulo: Escala, 2015.


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sábado, 6 de junho de 2015

ADRIANO DIAS - "Enquanto chorou..."

Arte de Voider Sun
Enquanto chorou gotas iluminadas,
mínimas entre as lágrimas,
despertou apenas certa curiosidade,
nenhum cientista levou a sério,
relegando a pesquisa do mistério
para outro dia, quem sabe.
Mas a moça insistisse serem estrelas
vindas do céu que sonhava o tempo todo
causou um crescente alvoroço,
pois, embora fossem pequenas, 
conforme o volume da emoção que tivesse
seu rosto encharcava em pontos brilhantes
de um modo como não fora visto nunca antes,
exceto quem olhasse o manto celeste.
E como acontece à nossa raça,
quando perante tal tipo de fenômeno,
sedentos por milagres que somos,
aguardando ansiosos por quem os faça,
cresceu no entorno da moça, como fumaça,
um absorvente incômodo,
inebriante, conjurando em todos 
o impulso que nos produz a fé,
como também o delírio e o desespero até.
Houve quem arvorasse orientar os ritos
lembrasse profecias,
batucassem ritmos esquisitos,
convencesse ter visões dos próximos dias,
outros diziam ter visto, 
com aqueles olhos maníacos,
na face estelar da moça,
a organização dos signos do zodíaco,
ou quem decidisse rasgar-lhe os globos,
alegando ouvir vozes mais acres, sons tenebrosos,
exigindo sangue, sacrifício, as carnes suas...
Foi quando ela chorou as luas,
para encanto da plateia circundante!
Não só uma, como duas,
a cheia e a minguante.
E a luz serena que emanou no mesmo instante,
contínua, cálida, envolvente,
tornou todo desespero caos culto de antes
em uma plenitude jamais experimentada.
E porque nessas horas não cabe mais nada,
ninguém reparou o sumiço da moça,
desfez-se em noite e lágrimas escuras,
restando ao chão apenas uma enorme poça,
espelhando um impossível céu de duas luas.

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Adriano Dias - na página 'Semema'

terça-feira, 2 de junho de 2015

Você está...- Cátia Rodrigues em 'Obvious'



Você está sozinho nessa e tudo bem...
Cátia Rodrigues - em 'Obvious - sociedade'
(...)
Acontece que nascer significa, quase que imediatamente, se desvincular da mãe, daquela unidade que com ela fomos desde o início da nossa formação fetal. Ao nascer, ficamos sozinhos. E isso se dá no plano mais concreto possível: o que nos liga ao outro é cortado e dispensado. E ainda por cima nos deixa um buraquinho na barriga.
(...)
Mas não tem jeito: a partir do dia em que nascemos, vamos sistematicamente nos desligando da única pessoa com quem realmente temos uma ligação palpável. 
E isso dá medo. Uma tremenda angústia. O escuro assusta. A ausência apavora. A solidão parece que nos mata. 
E choramos. E somos confortados pela mãe e outros amores que a vida vai nos apresentando. E claro que isso é bom. Aprendemos a ser amados e acolhidos.
(...)
Aprendemos também, sem querer, que estar bem é estar com os outros, é estar acompanhado, é ser aceito. E acabamos por fazer loucuras para nos sentir incluídos em grupos e meios que nem de longe servem à nossa singularidade. A qualquer preço, "alguém fica aqui, junto comigo, por favor": só para não lidarmos com a tal vilã do mal, a solidão. Acabamos por aprender, subjetivamente, que o amor vem do outro, e que estar só é sinônimo de abandono. E isso é uma ilusão que nos aterroriza vida afora, sem razão. Ficamos a sentir o mal estar no meio da multidão, sem saber o motivo ou a solução.
(...)
A necessidade de nos relacionar existe, mas como troca e aprendizado, reconhecimento existencial para manter o equilíbrio mental e, apesar de muitas vezes ser um delicioso prazer, a convivência humana não tem mais a função de nos assegurar segurança e sobrevivência.
A real é que na vida somos todos sozinhos, mas podemos estar acompanhados e acompanhando muitas pessoas nos diferentes momentos da vida. Por escolha, sem medo de estar bem só consigo mesmo. 
O “buraco” na barriga, que não é só o umbigo, se chama angústia. E ela é bonita na sua essência, e tem importância para nossa existência. 
A angústia nos mobiliza, nos indica que algumas acomodações feitas pelo caminho estão com o prazo de validade expirado. 
E, do mesmo lugar de onde ela pulsa de dentro de nós, emerge também a nossa criatividade, a intuição e a subjetividade que nos tornam únicos.
Não vale a pena tapar esse buraco na alma. 
Mas só podemos mergulhar e desfrutar da sua beleza quando aprendemos a nadar na imensidão do amor – não o amor do outro, mas aquele amor que temos dentro de nós para nós mesmos, no prazer da própria companhia. 
Descobrir que ser sozinho não é sinônimo de estar sozinho, e que na solitude da própria existência somos plenos, transcendemos em direção ao Sagrado. 
É nessa hora que percebemos um dos grandes tesouros da vida: podemos estar com os outros, mas sempre somos só "eu mesmo" - e isso é o suficiente para se viver.


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segunda-feira, 11 de maio de 2015

ADRIANO DIAS - No Dia das mães - 10/5/2015

Arte: Rahaf Dk Albab

Alguns dias atrás
abri o baú das eternas relíquias do que vivi,
agora como pai,
e encontrei recordações maternas que antes não estavam ali:
Carinhos que não senti
quando dormindo,
Broncas que não ouvi
quando saí de fininho, escondido,
Conselhos que perdi,
tapando meus ouvidos
e lágrimas que não vi,
quando seguia "meu caminho",
seguro dos bons modos que achava terem nascido comigo.
Ainda os milagres acumulados ao longo dos anos,
os pequenos, cotidianos:
de repente a roupa limpa,
a comida quente,
eu na cama, de repente,
coberto contra o frio
e nem desconfio ela ali, presente, 
sabendo-me de cor,
o tempo todo, toda hora.
Aí flagrei seu cheiro ao meu redor, 
ainda hoje, ainda agora
e soube, enfim, que não basta gratidão,
não há suficiente no mundo
que dê conta desse mar de amor tão fundo,
tão quente, tão sempre, tão tudo.
Ainda assim, embargado,
o termo escapa de meu choro mudo:
...obrigado...

*        *        *
Adriano Dias - página 'Semema'


sábado, 9 de maio de 2015

ADRIANO DIAS - "Escrevo aqui meus últimos..."

Arte: Erik Jones

Escrevo aqui meus últimos versos,
meio vagos, ansiosos, dispersos,
estou sendo seguido...
antes que me despedacem, despeço-me aqui,
preciso fugir,
estão atrás de mim, 
sequiosos de vasculhar a fonte de meus poemas,
roubar à carne de minhas entranhas o que sai da pena.
E arrombarão cada compartimento,
meu baú de metáforas,
as sacas de sinestesias orientais,
compotas de aliterações,
talvez que nem minha memória sobre.
Ainda planejam carregar a reboque,
puxado por um cabresto,
o complexo maquinário 
que agora uso para fazer este último texto.
Esses bárbaros analfabetos
rasgarão meu couro 
e, diferente da galinha dos ovos de ouro,
de mim verterão épicos completos,
dramas, rimas raras, heróis cristãos e mouros,
e se formará ao chão
uma poça de eus-líricos com seus rostos
boiando entre os mais complexos paradoxos.
Aí acometerão, esfomeados,
por todos os lados,
todo tipo de gente pilhar meus escombros literários,
a turba faminta de palavras, 
de um sentido para suas vidas,
sorvendo-me as letras como fossem comida,
incapazes de saber que as verdades poéticas têm seu tempo,
têm sua hora,
e que as guardava em mim até agora
não por usura,
os poemas nunca foram meus,
mas para uma plenitude gradativamente futura...
Portanto, 
Adeus...

*        *        *
Adriano Dias - página 'Semema'

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fuja das almas mesquinhas - André J.Gomes


Fuja das almas mesquinhas.
Viver é um exercício de grandeza. 
André J. Gomes - in 'Revista Bula'

Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. 
Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. 
Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. 
Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.

Falta grandeza na gente, sim.
Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. 
Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. 
Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. 
Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. 
Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além do fardo de doze cervejas previamente combinadas. 
Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. 
Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.

Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. 
Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.

Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? 
Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. 
Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. 
Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. 
Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.

Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! 
Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? 
Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. 
Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para o perdermos com pequenezas.

Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. 
Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. 
Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. 
Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.


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quinta-feira, 16 de abril de 2015

JOSEANE MAYTÊ - "Carpe diem-se"

"Carpe diem-se"
Joseane Maytê - em 'Obvious - recortes'

Certa feita, enquanto planejava uma aula sobre VIDA (sem trocadilho!) para crianças, me veio à cabeça o tempo. 
Idealizei por um momento uma dinâmica em que eu pudesse demonstrar para elas que o valor da vida está associado ao valor que damos ao nosso tempo, uma analogia, talvez, ao filme “O preço do Amanhã”, aquele em que o Justin Timberlake aparece na pele do rebelde e lindo Will, película na qual valem as máximas “não perca de tempo" ou "tempo é dinheiro". 

Na proposta, as crianças teriam um tempo para pintar, com esmero, diversos desenhos, atentas às cores e aos contornos sugeridos para cada figura. 
Esse tempo, porém, seria muito pequeno para tão perfeito traçado e preenchimento, assim como ocorre na vida. 
Não há tempo suficiente para aprendermos tudo, até mesmo porque não sabemos quanto tempo temos. 
Frequentemente nos damos conta do quanto falíveis e mortais somos (me acontece quando perco pessoas queridas), mas esse aprendizado é tão fugaz quanto o próprio senhor das horas... voa! 
E aí, voltamos para as nossas atividades e atribuições cotidianas, esquecendo-nos do principal: viver (você não leu sobreviver!). 
Atropelamos o tempo e somos atropelados pela vida (ou seria o contrário?). Entramos “verdes” na faculdade, na profissão, nas nossas relações pessoais. 
Tombamos, “grises”, levantamos e partimos para o próximo desenho, com mais esmero, com melhores traços, é bem verdade! E, então, nos perdemos novamente em afazeres, em escritórios, em demandas acadêmicas, em reclamações outras, negligenciando boas risadas, manhãs de sol, noites de pizza, tardes de brigadeiro com as amigas, a companhia mais afável da família e os arroubos das paixões.

Esquecemo-nos de ser como as crianças, leves, verdadeiras, coloridas... Por isso, queria dizer às crianças o quão generosa é a energia lá de cima – seja lá qual for o nome que queiram dar a ela - com as oportunidades concedidas, ainda que estejamos despreparados para aproveitá-las. 
Queria que elas percebessem que haverá possibilidades inúmeras de um bom acabamento dos seus muitos desenhos, mas que isso também passará, não será para sempre. 
Queria que entendessem o quanto é importante valorizar cada pintura, cada detalhe, cada textura, assim como os momentos dessa vida, porque quando o TIC TAC ecoa já não é possível voltar e fazer melhor. 
Queria, na verdade, dizer: não percam tempo, não se deixem descolorir, não deixem a vida passar, porque diferente do filme, não temos chances para ganhar tempo, não há acréscimos; há, sim, histórias bem vividas, narrativas bem contadas, pessoas bem amadas e TEMPO, sem dúvida, decorrido. 
Queria dizer às crianças, sobretudo àquelas que ainda existem em nós: Aproveitem os dias! Apreciem o presente! “Carpe diem-se”!

*        *        *

terça-feira, 14 de abril de 2015

ADRIANO DIAS - "E eu, de novo, tentando fazer em versos..."


Tela de Tahis Dz

E eu, de novo, tentando fazer em versos
os pedaços dispersos
que apreendo de quem é você, 
cuja beleza, 
poesia viva, 
quero tornar letra, subjetiva,
mas a arapuca da palavra, sem escolha, 
sabota meu projeto
tão logo toco a tinta na folha
e tudo que era você por completo,
e me dominava ainda agorinha, 
acaba emoção de esteta, 
e mais,
enquanto o texto por si, caminha,
nada perto do que era antes,
eu, apaixonado pelos termos,
melodia das vogais,
pelo ritmo das consoantes,
mergulho no inebriante precipício que só vemos
no exercício da criação da arte.

E esse novo fracasso,
o presente poema que faço
e as delícias de compô-lo,
muito mais que consolo,
proporciona o mesmo nível epifânico de deleite
que tenho ao ver seu rosto, corpo inteiro,
ouvir o canto, sentir seu cheiro.

Nem espero que entenda, tampouco que aceite,
mas saiba que ainda mais lhe devo 
na contabilidade dos prazeres que me desperta!
Agora, além de sua realidade concreta,
o gozo de contemplar seu relevo,
soma-se a transcendência a que me elevo,
quando aqui me faço poeta!

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Adriano Dias - página 'Semema'

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sonhos que não envelhecem - Eberth Vêncio

Lista dos sonhos que nunca envelhecem
Eberth Vêncio - colunista 'Revista Bula'

Nem sei por onde começar.

Fazer um recall da Big Bang. 
Disputar o céu com os pássaros usando apenas as minhas asas de cobra.
Morrer pela boca num beijo bem velhinho dormindo num dia de domingo e despertar no paraíso com a cabeça repousada no colo da vovó com Deus uma mulher (que surpresa incrível!) a coar o café.
Enterrar pessoas só de brincadeirinha única e exclusivamente na areia. 
Construir castelos na praia sem ter medo da maré.

Voar na maionese: cantar “Blackbird” em dueto com Paul McCartney. Ser o quinto beatle. 
Caminhar pela zona do baixo meretrício com a autoestima em alta. 
Apaixonar-me pela prostituta tímida meiga bonita e tirá-la daquele lugar. 
Casar uma aposta com véu e grinalda.
Roubar flores no jardim da minha vizinha rabugenta onde hoje levantam duas torres monumentais com oito apartamentos por andar três vagas na garagem e nenhuma rosa para ser cobiçada. 
Ser reconhecido como um poeta.

Ficar famoso o suficiente para que todos prestem atenção quando eu disser em rede nacional “Eu preciso de um pouco mais de respeito”. Então pedir que me esqueçam. 
Me mandar do planeta num foguete para a lua. Flutuar com a consciência tranquila na gravidade zero. 
Engravidar um grande amor no banco de couro de um Maverick quatro cilindros ao som de “Born to be wild”. 
Rir de tudo que não tiver a menor graça. 
Plantar bananeira no meio da rua e semáforos no pomar.

Almoçar em casa todo santo dia. Ir a pé pro trabalho. 
Acordar no meio de um enorme problema e constatar que tudo não passava de um pesadelo. 
Ouvir na cama os segredos picantes que os seus grandes lábios têm pra me contar. 
Morar em casa própria tipo rancho à beira de um lago e ter um monte de filhos com uma pá mecânica. 
Lavar a minha égua no Poema Sujo. 
Cuspir com classe e estilo do alto da Torre Eiffel. 
Gritar na Wall Street que dinheiro não traz felicidade. 
Cavar um túnel até fugir da prisão chegar ao Japão ou fazer calos nas mãos o que acontecer primeiro. Matar a curiosidade: fazer sexo com uma japonesa.

Desvendar os segredos da maçonaria. 
Descobrir a cura para o câncer da corrupção. 
Decorar a última parte do Hino Nacional. 
Beber leite misturado com manga e não enlouquecer. 
Passar no vestibular da vida. 
Ter uma árvore. Plantar um livro. Escrever um filho. 
Investir num consórcio operar o períneo fazer uma lipo levantar os peitinhos e de quebra entender as mulheres. 
Juntar meu primeiro milhão de amigos. 
Ganhar na loteria dos pênaltis. 
Deitar e rolar com você para que os corpos não criem limo.

Acabar com a violência a miséria e as fronteiras entre os países para que o mundo seja finalmente um único quintal. 
Curar-me do sarcasmo e do cinismo. 
Sonhar sonhos mais factíveis. 
Amadurecer o suficiente mas sem cair de maduro. 
Crescer tornar-me um adulto resolvido e nunca mais querer ser alguém nessa vida além de eu mesmo.

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Especulações... - DRUMMOND


Especulações em torno da palavra homem
Carlos Drummond de Andrade

Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?

Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?

Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?

Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?

Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?

Como morre o homem,
como começa a?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?

A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?

Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?

mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?

Mas existe o homem?

*      *      *