sábado, 26 de setembro de 2015

Por que as pessoas falam - Eliane Brum



Por que as pessoas falam
Eliane Brum - 

Uma vez passei dez dias num retiro de meditação vipassana, no interior do Rio de Janeiro, para fazer uma reportagem para ÉPOCA. 
Havia muitas regras. Uma delas era o silêncio. Por dez dias era proibido falar. 
Também devíamos evitar olhar para as outras pessoas. O objetivo era silenciar a mente até que não houvesse nenhum ruído também dentro de nós. 
Foi uma experiência fantástica, que me mudou para sempre. Nunca antes estive tão em mim. 
E nunca depois voltei a estar.

O silêncio e um progressivo mergulho interno, em vez de me alienar do mundo, me conectaram a ele de um modo até então inédito para mim. 
Eu sentia cada segundo, por que eles demoravam a passar. Percebia o vento e as nuances das cores do céu e das folhas das árvores em detalhes. Olhava, cheirava, ouvia e tocava o mundo como se tudo fosse novo. Cada centímetro de terra era capaz de me ocupar por minutos. 
Sem palavras, a realidade me alcançava com mais força. 
Finalmente eu não apenas compreendia, mas vivia a poesia de Alberto Caeiro: “Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”.

Antes que alguém tenha ideias, experimentei tudo isso sem nenhuma droga. Nenhuma mesmo. 
Não podíamos tomar álcool, fumar ou ingerir qualquer medicamento, nem mesmo aspirina. 
Minha droga era a lucidez. Naqueles dez dias, ouvi com mais clareza a mim mesma. E passei a escutar melhor o mundo em que vivia. Senti que finalmente estava no mundo. 
Eu era.

No décimo dia, voltamos a falar. O retiro acabaria no dia seguinte e precisávamos nos preparar para retornar a uma realidade cotidiana de ruídos e demandas excessivas. 
Lembro que eu não queria falar. 
Fiquei assustada quando todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. 
Percebi que a maioria do que se dizia nunca deveria ter sido dito. Sobrava.

Uma parte eram fofocas que haviam sido guardadas por dias. E que poderiam ter ficado impronunciadas para sempre. 
Percebi, principalmente, que depois de dez dias de silêncio muitas de nós não queriam ouvir. Só falar. Poucas eram aquelas que realmente desejavam escutar a experiência da outra, a voz da outra. A maioria só queria contar da sua. Não tinham sentido falta de outras vozes, apenas do som da sua.
Dez dias de silêncio não tinham sido suficientes para acabar com nossa surdez à voz alheia.

A reportagem foi publicada, com o título de “O inimigo sou eu”. 
Eu segui, guardando em parte o que aprendi lá. E tenho sentido falta daqueles dez dias de silêncio, agora que aumenta em níveis quase insuportáveis a poluição sonora dentro e fora de mim.

Acho que nunca escutamos tão pouco. E talvez por isso nunca fomos tão solitários. 
Quando faço palestras sobre reportagem, os estudantes de jornalismo costumam perguntar o que devem fazer para se tornarem bons repórteres. 
Minha resposta é sempre a mesma: escutem. 
Acredito que mais importante do que saber perguntar é saber escutar a resposta. Não apenas para ser um bom jornalista, mas para ser uma boa pessoa. 
Escutar é mais do que ouvir. Como repórter e como gente esforço-me para ser uma boa “escutadeira”.

É a escuta que nos leva ao mundo. E é a escuta que nos leva ao outro. 
Quando não escutamos, nos tornamos solitários, mesmo que estejamos no meio de uma festa, falando sem parar para um monte de gente. 
Condenamo-nos não à solidão necessária para elaborar a vida, mas à solidão que massacra, por que não faz conexão com nada. 
Não escutamos nem somos escutados. Somos planetas fechados em si mesmos. Suspeito que essa é uma época de tantos solitários em grande parte pela dificuldade de escutar.

Basta observar. As pessoas não querem escutar, só querem falar. 
Depois de muita observação, classifiquei cinco tipos básicos de surdos. 
Há aqueles que só falam e pronto. Emendam um assunto no outro. 
Fico prestando atenção para detectar quando respiram e não consigo. Acho que inventaram um jeito de falar sem respirar. E ganhariam mais dinheiro se entrassem em algum concurso de tempo sem oxigênio embaixo d’água. Aí, pelo menos, ficariam quietas.

Existem aqueles que falam e falam e, de repente, percebem que deveriam perguntar alguma coisa a você, por educação. Perguntam. Mas quando você está abrindo a boca para responder, já enveredaram para mais algum aspecto sobre o único tema fascinante que conhecem: eles mesmos.

Há aqueles que fingem ouvir o que você está dizendo. Você consegue responder. Mas, quando coloca o primeiro ponto final, percebe que não escutaram uma palavra. De imediato, eles retomam do ponto em que haviam parado. E não há nenhuma conexão entre o que você acabou de dizer e o que eles começaram a falar.

Existem aqueles que ouvem o que você diz, mas apenas para mostrar em seguida que já haviam pensado nisso ou que sabem mais do que você, o que é só mais um jeito de não escutar.

Há ainda os que só ouvem o que você está dizendo para rapidamente reagir. 
Enquanto você fala, eles estão vasculhando o cérebro em busca de argumentos para demolir os seus e vencer a discussão. Gostam de ganhar. 
Para eles, qualquer conversa é um jogo em que devem sempre sair vitoriosos. E o outro, de preferência, massacrado. Só conhecem uma verdade, a sua. E não aprendem nada, por acreditarem que ninguém está à altura de lhes ensinar algo.

É claro que há um mix das várias espécies de surdos. E devem existir outras modalidades que você deve ter detectado, e eu não. 
O fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. E uma boa parte deles se queixa de solidão.

É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. 
Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. 
Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.

Num ótimo artigo, intitulado Escutatória, o escritor Rubem Alves diz: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.

Quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. 
Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe – e já sabe mais. 
Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. 
Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.

Tornamo-nos muito sozinhos no gesto de não escutar. Em Revolutionary Road (Sam Mendes, 2008), traduzido para as telas de cinema do Brasil como “Foi apenas um sonho”, a cena final é a síntese dessa relação simbiótica entre surdez e solidão. Não a surdez causada pela deficiência auditiva, mas essa outra de que falamos, esta que é mais triste por ser escolha. 
Quem viu, não esqueceu. Quem não viu, pode pegar o dvd em qualquer locadora. Essa cena final vale por alguns milhares de palavras.

Sempre pensei muito sobre por que as pessoas falam tanto – e por que têm tanta dificuldade de escutar. 
Qual é a ameaça contida no silêncio? 
O que temem tanto ouvir se calarem a sua voz por um momento? 
Por que precisamos preencher nosso mundo – inclusive o interior – com tantos ruídos?

Acho que cada um de nós poderia parar alguns minutos e fazer a si mesmo estas perguntas.

Percebo também que há uma pressão para que nos tornemos falantes. 
Ser falante supostamente seria uma vantagem no mundo, especialmente no mundo do trabalho. Mesmo que você não diga nada de novo, mesmo que você repita o que o chefe disse com outras palavras. 
Mas falar, qualquer coisa, é marcar presença, é uma tentativa de garantir-se necessário. E ser quieto, calado, é visto como um tipo invisível de deficiência. Como se lhe faltasse algo, palavras. 
Mas será que as palavras estão ali, nessa falação desenfreada? Ou melhor, será que quem fala está realmente naquele discurso? Tenho dúvidas.

Por qualquer caminho que se possa pensar, me parece que o silêncio soa ameaçador. Em parte, pelo que ele pode dizer sobre nós. 
Enchemos nossa vida de barulho, da mesma forma que atulhamos nossos dias de tarefas, com medo do vazio. Tarefas em uma agenda cheia constituem outro tipo de ruído. E o vazio também é uma forma de silêncio.

Em rasgos de intolerância, achava que os falantes compulsivos eram apenas muito chatos e muito egocêntricos. Que as pessoas não escutavam – o silêncio e o outro – por prepotência. Mas acredito que é bem mais complicado que isso.

Há dois livros muito interessantes que pensam sobre a escuta. A Hermenêutica do Sujeito, de Michel Foucault (Martins Fontes), e Como Ouvir (Martins Fontes), um livrinho pequeno e precioso de Plutarco. 
Eles mostram que escutar é se arriscar ao novo, ao desconhecido. Na audição, mais do que em qualquer outro sentido, a alma encontra-se passiva em relação ao mundo exterior e exposta a todos os acontecimentos que dele lhe advêm e que podem surpreendê-la. 
Ao ouvir, nos arriscamos a sermos surpreendidos e abalados pelo que ouvimos, muito mais do que por qualquer objeto que possa nos ser apresentado pela visão e pelo tato.

Faz muito sentido. As pessoas não escutam porque escutar é se arriscar. É se abrir para a possibilidade do espanto. Escancarar-se para o mundo do outro – e também para o outro de si mesmo.

Escutar é talvez a capacidade mais fascinante do humano, por que nos dá a possibilidade de conexão. Não há conhecimento nem aprendizado sem escuta real. Fechar-se à escuta é condenar-se à solidão, é bater a porta ao novo, ao inesperado.

Escutar é também um profundo ato de amor. Em todas as suas encarnações. 
Amor de amigos, de pais e de filhos, de amantes. 
Nesse mundo em que o sexo está tão banalizado, como me disse um amigo, escutar o homem ou mulher que se ama pode ser um ato muito erótico. Quem sabe a gente não experimenta?

Escutar de verdade implica despir-se de todos os seus preconceitos, de suas verdades de pedra, de suas tantas certezas, para se colocar no lugar do outro. 
Seja o filho, o pai, o amigo, o amante. E até o chefe ou o subordinado. O que ele realmente está me dizendo?
Observe algumas conversas entre casais, famílias. Cada um está paralisado em suas certezas, convicto de sua visão de mundo. 
Não entendo por que se espantam que ao final não exista encontro, só mais desencontro. 
Quem só tem certezas não dialoga. Não precisa. 
Conversas são para quem duvida de suas certezas, para quem realmente está aberto para ouvir – e não para fingir que ouve. 
Diálogos honestos têm mais pontos de interrogação que pontos finais. E “não sei” é sempre uma boa resposta.

Escutar de verdade é se entregar. 
É esvaziar-se para se deixar preencher pelo mundo do outro. E vice-versa. 
Nesta troca, aprendemos, nos transformamos, exercemos esse ato purificador da reinvenção constante. 
E, o melhor de tudo, alcançamos o outro. 
Acredite: não há nada mais extraordinário do que alcançar um outro ser humano. Se conseguirmos essa proeza em uma vida, já terá valido a pena.
Escutar é fazer a intersecção dos mundos. Conectar-se ao mundo do outro com toda a generosidade do mundo que é você. 
Algo que mesmo deficientes auditivos são capazes de fazer.

*            *            *

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Adriano Dias - Crianças de porcelana

Crianças de porcelana: a geração criada sem anticorpos
Adriano Dias -  página 'Semema'


Seja por conta do crescente distanciamento da vida rural, dos processos de produção de tudo que nos cerca e consumimos para sobrevivermos, seja pelo ciclo paranoico de proteção à vida via espetacularização da violência, seja pela onda pornográfica da publicidade das empresas ávidas em lucrar com mais um nicho de mercado (e a lista de forças a essas que se somam é bem mais vasta), estamos vendo brotar uma geração de crianças bajuladas como príncipes indefesos, que guardam a centelha da preciosidade em cada gesto, troféus de seus pais, muito amados em selfies dos aniversários mês a mês de suas vidas, book completo e meias sempre limpas. 
E ai de quem ousar agredi-los, insultá-los, incapazes de reconhecer neles o milagre que carregam. Pobres crianças de porcelana…

Nos condomínios da vida urbana
cultivam-se crianças de porcelana
com chips subcutâneos
que quase brincam suas infâncias…
quase crianças
cujos pais correm aos seus encalços
antepondo aos passos
nuvens esterilizadas
e escondem as quinas, os rasgos,
as pontas mais finas,
num mundo de almofadas.
Gerenciada via satélite,
a geração de príncipes-cristais
cresce a sós,
ameaçada pela horda
do resto do mundo,
seus desiguais,
todos nós…
Fiz o poema acima após uma vivência social em que presenciei o desesperado zelo de algumas elegantes mães, com condição econômica para bancar o berço de ouro ao filho (raramente passa-se do primeiro) e o chão e as roupas e ouro salpicado ao seu redor, impedindo cada gesto que saísse o mínimo de sua zona de controle (cerca de 10 centímetros), e cujo pavor dos riscos que os pequenos corriam era legítimo, nada disfarçado. 
Cada toque na louça dos pequenos parece que produziria uma onda de calafrios na respectiva mãe.

A cena me escandalizou e soube por uma amiga que era comum, era a regra, é a forma como vêm sendo criadas muitas das crianças ricas que ela conhecia: príncipes.
Contudo, o poema já me incomodou enquanto escrevia, percebendo uma distinção evidente que não é verdadeira, como se o endeusamento perigoso das atuais crianças por seus respectivos pais fosse circunscrito às camadas de mais alta renda, um clichê ridículo, mas encontrei as fotos incríveis da russa Ksenia Usacheva (usadas para ilustrar o presente artigo) e não resisti ao jogo poético que compunham com o texto. 
Até porque houve o flagrante: ali estavam crianças crescendo com tapetes sendo colocados aos seus pés, espaguetes de espuma colados às quinas das mesas, assepsia extrema em um mundo alvíssimo. Senti pavor.

Mas vivencio o cotidiano de outras camadas sociais, inclusive da mais baixa (escola pública), onde presencio e ouço relatos de tantas mães que vêm à escola reivindicar a expulsão de um professor por ter cobrado seu filho, dado uma lição de moral por uma conduta indesejada, indisciplinada, por exemplo. 
Há poucos dias flagrei o caso de um grupo de mães que se articulavam para tentar exonerar uma professora que chamou seus filhos de “orelhudos”, termo usado sem a intenção de designar “burros” com raiva, mas uma bronca “faceira” para uma turma pela qual a docente tem muito carinho.

Pode-se até questionar a bronca, mas a inversão é grotesca, comprova o paradoxo educacional que estamos vivendo (sem encontrar saída): os pais não têm tempo para educar, ou força moral, tamanho medo em traumatizar os pequenos, pois trabalham e amam demais, portanto, precisam e cobram da escola uma ação formadora que capacite seus bebês, contanto que seus bebês não reclamem maus tratos em casa, o que passou (eles aprendem rápido) a ser qualquer ação do professor, diretor, instituição, que desagrade o pequeno acostumado ao principado. 

Quem é que cuida da criança?
Não posso deixar de lado meus conclassistas médios, com nossas contas sempre apertadas que agora ganharam o incremento das necessárias parcelas do estúdio de fotografia e do buffet para a festa infantil, para não ficar de fora do bonde da história, sem falar da obrigatoriedade de seguirmos o crescimento, passo a passo, de cada príncipe pelas mídias sociais.
Parece mesmo que a sociedade está avançando no sentido de aperfeiçoar a forma como os indivíduos crescem em seu seio, como são capacitados, estimulados. 
Questionar os modelos estabelecidos e identificar os abusos que vêm ocorrendo ao longo da história é a única forma de progredir na formação humana, que é o fim último da sociedade e suas instituições, mas ainda estamos testando os limites que podem ser mantidos, as balizas que serão usadas para determinar a mais sólida e eficiente educação e formação das crianças.

O custo, certamente, será de uma safra inteira de preciosidades frágeis, cujos corpos não estão podendo desenvolver as próprias defesas assim como suas personalidades. 

De um lado, os Pedros, Joões, Marias (nomes que esbanjam uma simplicidade não espelhada na conta dos cartões de crédito), de outro, os Greycyellys Tassianys, Victórias, Sharlennys (nomes que guardam a expectativa do brilho que certamente terão), todos sem anticorpos nem para as bactérias das comidas que caem no chão, nem, pior, para lidar com seus próprios erros, incapacidades e broncas da vida…


*            *            *

domingo, 13 de setembro de 2015

Hora da despedida - JOSÉ CASTELLO - Jornal O Globo

Ainda consigo me surpreender desagradavelmente com o que estamos presenciando em termos de leitura, cultura e 'informação'.
Há algum tempo venho me sentindo sempre mais isolada, apartada mesmo, desse mundo que se transforma com tamanha rapidez - não sei se para melhor, em que pese o desenvolvimento tecnológico. 
Esta notícia realmente representa o fim de uma tentativa para não sucumbir aos ataques gratuitos da ignorância coletiva avassaladora.
Poucos são os que se empenham em melhorar esses tempos de mediocridade e imediatismo.
José Castello é um deles. Seu texto, sempre atual, moderno no que tem de melhor essa palavra, nos direciona para longe do lugar comum, da estupidez e grosseria agora vigentes.

Resta-nos desejar-lhe mais sucesso ainda e pedir-lhe que nos informe onde poderemos encontrá-lo.
Sueli
**
Hora da despedida
por  José Castello - Jornal O Globo - Segundo Caderno - 12/09/2015 12:00


Chegou a hora de me despedir de meus leitores. 
Não é um momento fácil - nunca é. 
Mas ele se agrava porque, com o fechamento do "Prosa", incorporado ao "Segundo Caderno", desaparece um último posto de resistência na imprensa do sudeste brasileiro. 
Os suplementos de literatura e pensamento já não existem mais. Um a um, foram condenados e derrotados pela cegueira e pela insensatez dos novos tempos. 
Comandado pela vigorosa Manya Millen, o "Prosa" resistia como um último lugar de luta contra a repetição e a dificuldade de pensar com independência. Isso, agora, também acabou.

Nosso mundo se define pelo achatamento e pela degola. 
No lugar do diálogo, predominam o ódio e o desejo de destruição. 
No lugar da tolerância, a intolerância e a rispidez, quando não a agressão gratuita. 
É o mundo do Um - em que todos dizem as mesmas coisas, usando quase sempre as mesmas palavras.  Um mundo em que a verdade, que todos ostentam, de fato agoniza.

Nesse universo, a literatura se impõe como um reduto de resistência. 
A literatura é o lugar do diálogo, do múltiplo, da diferença. 
Não é porque gosto de Clarice que devo odiar Rosa. Não é porque amo Pessoa que devo desprezar Drummond. Ao contrário: na literatura (na arte) há lugar para todos.

Uma pena que o "Prosa" se acabe justamente em um momento em que nos sentimos espremidos por vozes que repetem, sempre, os mesmos ataques e as mesmas agressões. 
Nesse mundo de consensos nefastos e de clichês que encobertam a arrogância, nesse mundo de doloroso silêncio que se apresenta como gritaria, a literatura se torna um lugar cada vez mais precioso. Nela ainda é possível divergir. Nela ainda é possível trocar ideias com lealdade e dialogar com franqueza.

Sabendo que o diálogo, em vez de sinal de fraqueza, é prova de força. Lá se vai o "Prosa" com tudo o que ele significou de luta e de aposta na criação.

A meus leitores, que me acompanharam lealmente durante mais de oito anos, só posso dizer obrigado. 
E dizer, ainda, que conservem a coragem porque a pluralidade e a liberdade vencerão o escândalo e a cegueira. 

Apesar de tudo o que se diz e de tudo o que se destrói, ainda acredito muito no Brasil. É com essa aposta não apenas no futuro, mas sobretudo no presente, que quero me despedir de minha coluna e encerrar esse blog. 

Aos leitores, fica a certeza de que certamente nos encontraremos em outros lugares. 
Nem a loucura do nazismo, com suas fogueiras de livros, conseguiu destruir a literatura. 
Não tenho dúvidas também: nesse mundo de estupidez e insolência, ela não só sobreviverá, como se tornará cada vez mais forte.


*            *            *

José Castello é escritor e jornalista. 
Autor, entre outros, de “Ribamar”, Prêmio Jabuti de “romance do ano” em 2011, “Vinicius: o poeta da paixão” (Jabuti de “ensaio do ano” em 1995) e “A literatura na poltrona. 
É Mestre em Comunicação pela UFRJ

domingo, 6 de setembro de 2015

Poucos merecem ver nossas lágrimas - Obvious Magazine

"Ninguém merece as tuas lágrimas, mas quem quer que as mereça não te vai fazer chorar". 
(Gabriel Garcia Márquez)


Poucos merecem ver nossas lágrimas
Marcel Camargo - em 'Obvious Magazine - Recortes'


Um dos melhores conselhos que nossos pais nos transmitem, quando somos pequenos, e que deveríamos carregar pelo resto de nossas vidas é: “engole esse choro!”. 
Embora, na época, eles pudessem visar a outros objetivos, em contextos específicos, ao nos mandar parar de chorar, mesmo assim já estavam nos preparando para que nos tornássemos pessoas mais fortes, seguras, capazes de enfrentar as rasteiras que a vida não cansaria de nos dar desde então, sem sucumbirmos às frustrações e perdas, sem nos tornarmos vulneráveis diante de quem está à espreita, esperando para usar nossas fraquezas contra nós e em proveito próprio.

Somos humanos, sim, e sensíveis, suscetíveis a momentos de fraqueza emocional e tristeza, melancolia. 
Chorar é preciso, pois as lágrimas recobram as energias, minimizam o mal estar, aliviam o sufoco, limpam as impurezas da alma, desafogam o coração. 
Mas, ao mesmo tempo, as lágrimas expõem nosso lado mais vulnerável, nossa tão característica carência humana, e por isso mesmo podem ser vistas como fraqueza por quem, naquele momento, não quer - nem nunca será capaz de - ajudar ou, pior ainda, por quem usará aquilo contra nós mesmos, oportunamente. 
Então, dependendo de onde e com quem estiver, engole esse choro!

Ao ouvir “eu não te amo mais”, "estou partindo", enquanto o outro arruma as malas para sair de casa. Nesse momento, ele já decidiu viver a própria vida longe de nós, já decidiu que tudo o que oferecíamos não bastava, não foi suficiente. Provavelmente já encontrou quem aparentemente ofereça o que ele esteja querendo e está forte o suficiente, visto ter tomado uma decisão. 
Assim, nossa fraqueza, se exposta, somente irá aumentar, enquanto o outro se fortalece ainda mais, bem ali na nossa frente. Engole esse choro!

Quando o chefe, um colega de trabalho ou um cliente elevam a voz, são deseducados, ríspidos e aparentemente injustos. 
Às vezes explodimos mesmo, justamente com quem não merece, além de existirem pessoas que não sabem agir de outra forma que não esbravejando indelicadamente, pois parecem desconhecer mínimas regras de convivência. Por serem incapazes de se colocar no lugar do outro, não entenderão nossos sentimentos, tampouco mudarão seu jeito de ser. 
Poderemos nos colocar no momento certo e deixar claro que aquela atitude nos desagrada, demonstrando firmeza - sempre com ar seguro, nunca com voz trêmula, jamais diminuídos em nossa dignidade. Engole esse choro!

Se for surpreendido por uma atitude que nunca esperaria do amigo em quem tanto confiava, sentindo-se traído, exposto, aquebrantado, humilhado. 
Você foi iludido e usado, mas não foi ingenuidade sua e sim antiética alheia. 
Distancie-se, o mais longe possível; por mais que doa ter que tirar de nossas vidas alguém de quem tanto gostávamos, é necessário fazê-lo, sem hesitação, sem titubear - sofrer, só se bem longe dele. Engole esse choro!

Escutando o que jamais esperava dos filhos, decepcionando-se com as atitudes e comportamento deles, percebendo que não parecem se sentir bem perto de você. 
No calor das emoções, eles dizem que nos odeiam, que somos os piores pais do mundo. Irão, em certo momento, se envergonhar de nós na frente dos amigos, irão querer que não apareçamos em seus quartos e não compartilharão nada de suas vidas conosco. 
Tudo isso passará e retornarão ao nosso abraço que tanto os conforta, desde pequeninos. Porque já fomos e sempre seremos seu porto-seguro, o alento revigorante quando precisarem - não esmoreçamos. Engole esse choro!

Enquanto segura as mãos de quem ama e está doente, sofrendo dores, passando por tempestades da alma, enfrentando algum revés aparentemente sem solução. 
Quem sofre quer nada mais do que alguém que o entenda e mantenha-se forte, porque as próprias forças esvaíram-se e a segurança alheia então é tudo a que se pode agarrar, para não ruir definitivamente por dentro. 
Mantenhamos as mãos firmes, as palavras serenas e os olhos secos, mas cheios de esperança. Engole esse choro!

No momento em que se despede do filho que vai procurar o seu próprio lugar no mundo. É preciso deixá-los ir, aconselhando-os a não olhar para trás, a não titubear. 
Todo mundo merece se encontrar a seu jeito, experimentando novos lugares, novas companhias, novos amores. É preciso ajudar a fazer as as malas e a abrir as perspectivas de vida dos filhos, incentivando-os ao descobrimento de si mesmos, não importa se do outro lado do globo. 
Temos que acenar firmes e altivos durante a despedida, pois é disso que eles precisarão enquanto se desprendem da zona de conforto tão nociva ao aprimorar-se contínuo a que todos temos direito. Engole esse choro!


Ao contrário do que possa parecer, não se trata, aqui, de se tornar insensível, de endurecer o coração, tampouco de abafar ou enganar os próprios sentimentos. 
Somos sujeitos a momentos de tristeza e escuridão, em que as lágrimas são sempre bem vindas. 
No entanto, poucos merecem partilhá-las e nos verem perdidos em nossas fraquezas, pois em nada ajudarão, nem ao menos tentarão nos estender as mãos. 
Ninguém merece desnudar-se física e emocionalmente em frente a quem não se entregará de volta verdadeiramente. 
Ninguém haverá de ser menosprezado enquanto junta seus cacos emocionais. 
Da mesma forma, ninguém haverá de receber lágrimas quando estiver pedindo força e motivação. Portanto, tranque as portas e feche as janelas antes de chorar.

Sempre será necessário cair ao chão de nossas tristezas e fracassos, gritar a revolta da incompreensão e maldade alheias, encarar as colheitas de nossas escolhas equivocadas, atravessar a escuridão da saudade por quem não mais voltará. 
Mas é preciso que quem esteja ao nosso lado, nesses momentos, mostre-se sinceramente disposto a nos resgatar de volta com vida e fortalecidos. 
Alguém que conhece e tem certeza de que somos muito mais do que pensamos ser, que venha correndo quando precisarmos e não saia de nosso lado enquanto não secarem nossas lágrimas. 
São poucos os que merecem assistir ao nosso pranto, sem fazer mau uso disso tudo.

Ademais, no fim da vida, muito provavelmente estaremos contando somente com nós mesmos e então saberemos lidar com nossas dores sem precisar de ninguém mais. 
Enfim, lembremos sempre aquele conselho ouvido em nossa infância, porque, em certos lugares e diante de certas pessoas, ou engolimos o choro, ou o mundo nos engole.

*               *               *

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

ADRIANO DIAS - Quero uma palavra...

Da página Semema -facebook



Quero uma palavra de fazer sonhar.
Dá-me, poeta, 
uma choupana discreta 
à beira do lago,
com névoa densa de alvorada
pairando, em sentinela,
convocações a melancolias escorridas
como as gotas suadas na janela,
ali onde habita a espera, 
mais nada...

Empresta-me um amor ardente, 
alcaloide palavra,
daqueles que se constroem 
por carnes delgadas
de uma musa incoerentemente bela,
fazendo que não sabe de nada
daquele jeito que reivindica o desejo
e foge
com suas curvas, rendas, seda e sorriso raro,
deixando o rastro da necessidade de lhe invadir
sem poder, claro...

Rapte-me à sala branca, poema, 
sem paredes, teto ou chão, 
o nada em construção
onde nascem as concepções,
pré e pós de todas as coisas,
que carrega, 
sem um símbolo sequer,
a significação interna mais pura, 
última, definitiva,
e, pela letra, 
eleva a vida...

Convence-me, artista, 
das verdades que tu crias
como entorpecente recreio,
essas milagrosas fantasias
que tanto existem quando leio...

*        *        *

Adriano Dias

Foto de Ian David Soar

sábado, 1 de agosto de 2015

Pensamento e solidão... - Bruna Cosenza em OBVIOUS

Por que pensar te torna um ser mais solitário
Bruna Cosenza - em "Obvious - literatura"

“Quando Nietzsche Chorou”, obra de Irvin D. Yalom, traz grandes nomes da história como Josef Breuer, Sigmund Freud e o meu preferido: Friedrich Nietzsche. 
O autor mescla fatos reais e ficção com o intuito de explorar o nascimento da psicanálise por meio de encontros entre Breuer e Nietzsche que nunca aconteceram realmente.

O filósofo alemão sofre de uma crise existencial e depressão suicida que o atormentam profundamente, enquanto Breuer, que tem a missão de ajudá-lo, também está passando por algumas angústias pessoais. 
Dentre todos os temas discutidos ao longo do romance, o que mais me chamou a atenção foram as características de Nietzsche, que o tornam um homem completamente distante e solitário. 
Uma das falas do filósofo ilustra bem como ele se sente: “Às vezes, enxergo tão profundamente a vida que, de repente, olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo.”

Por ser tão fechado, Nietzsche não podia saber que estava sendo tratado por Breuer, pois a ideia de ter alguém invadindo sua intimidade o assusta completamente. 
A transformação ao longo das sessões é que Breuer lentamente se torna o paciente quando Nietzsche começa a ajudá-lo em relação aos seus tormentos e fantasias sexuais com uma mulher que não é a sua esposa. 
Posteriormente, o filósofo começa a confiar no psicanalista a ponto de se abrir como nunca havia feito antes.

O interessante é a forma como Nietzsche lida com a vida. 
Completamente fechado e sem conseguir estabelecer fortes laços devido a um trauma com uma mulher no passado, é um homem totalmente sozinho. 
E um questionamento que logo me veio foi: por que pessoas pensantes e reflexivas como ele costumam ser tão solitárias?

Normalmente, quem vive numa espécie de superfície tem mais facilidade de interagir com o mundo, pois seus dramas não tem a mesma magnitude daqueles vivenciados por um Nietzsche. 
E não entenda viver na superfície como uma crítica, pois é apenas uma das milhares de formas que o homem encontra para enfrentar sua jornada. 
Existem diferentes graus de se encarar a vida. Alguns mascaram as obscuridades justamente pelo medo que tem de enfrentar a dor. Outros, no entanto, transitam pela vida sem se darem conta da sua enorme teia de complexidades.

Entender e aceitar todas as dores da existência dá muito trabalho. 
Pensar resulta em incertezas, falta de respostas e, consequentemente, em angústias. 
Quem sofre com tudo isso é a psique, que de tão atormentada, pode posteriormente afetar o comportamento e a personalidade. 
Nietzsche diz enxergar a vida de forma tão profunda que se sente completamente sozinho. 
Com quem ele discutiria suas questões provenientes de uma visão tão reflexiva sobre a vida? 
Quem não tem esse mesmo nível de profundidade também não tem capacidade de viver com pessoas como Nietzsche.

Josef Breuer é contaminado por tantas reflexões de Nietzsche que em determinado ponto do romance não identifica mais nenhum sentido para sua vida. 
“Aquele rapaz agora envelhecido atingiu o ponto da vida em que não consegue mais ver seu sentido. Sua razão de viver – minha razão, minhas metas, as recompensas que me impeliram pela vida - se afigura absurda agora, quando medito em como busquei besteiras, em como desperdicei a única vida que possuo, um sentimento terrível de desespero me domina”, relata o psicanalista. 

Chegar nesse extremo é realmente desesperador, podendo resultar em crises e depressões profundas como as vivenciadas por Nietzsche.

Tendo em vista pessoas pensantes como Nietzsche, é possível fazer uma relação com a sociedade pós-moderna, permeada por indivíduos que têm extrema dificuldade de ficarem completamente sozinhos. 
Hoje, com o avanço tecnológico, as pessoas têm o costume de estarem 24 horas por dia conectadas e em momentos em que seria essencial a solidão para reflexão, rapidamente recorrem a um aparato tecnológico, uma mensagem a um amigo ou uma foto que consiga likes o suficiente com o objetivo de suprir essa carência e mal-estar. 
Estar realmente sozinho chega a ser uma raridade de poucos atualmente.

Essas pessoas que dificilmente possuem um momento de reflexão solitário, diferente dos Nietzsches, parecem ser mais leves, despreocupadas e até mais felizes - talvez por mascararem suas angústias ou simplesmente por nunca terem se deparado com elas. 
Refletir sempre vai resultar em dor e descontentamento. 
Quem pensa, se dá conta de que muita coisa na vida não tem sentido nenhum e pensar mais e mais pode só aumentar a agonia. 
É por esse motivo que os Nietzsches que andam por aí muitas vezes são vistos como pessoas amarguradas e estranhas. 
Na verdade, encarar as verdades da vida torna esses indivíduos mais críticos, pois continuam numa busca incessante por respostas que podem nunca alcançar. 
Dessa forma, se isolam da maioria por se sentirem completamente incompreendidos e desencaixados num mundo onde parece que ninguém os acompanha.

O equilíbrio é essencial. Ser um Nietzsche constantemente pode gerar muito sofrimento – como pode ser percebido no romance –, mas ser incapaz de ter um momento solo é um erro muito comum hoje em dia e que passa despercebido.

Você que está lendo isso, quando foi a última vez que se sentiu um Nietzsche? Um peixe fora d’água? 
Quando foi a última vez que passou um dia inteiro realmente sozinho? Sem recorrer a ninguém além de si mesmo quando bateu uma agonia, uma dificuldade ou simplesmente uma tristeza...

O mundo pós-moderno está carente de verdadeiras pessoas pensantes, que saem da caixa sem medo de explorarem as profundezas mais escuras desse oceano que é a vida.

Sofrer dignifica, faz crescer... Mas sofrer em excesso leva ao desespero, à dor incontrolável. 
Portanto, pensar é preciso, mas ponderar os pensamentos é obrigatório.

Quem pensa de mais, vive de menos. E por mais que eu admire os Nietzsches que ainda existem por aí - solitários e reflexivos -, tenho certeza de que quem trilha este caminho tem uma árdua tarefa que pode resultar na mesma conclusão de Nietzsche: “Penso que sou o homem mais solitário do mundo.”


*            *            *

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Adalgisa Nery - 'Poema Natural'


Arte: Paul Mitkov
Poema natural
Adalgisa Nery (1905-1980)

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tornarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

*           *            *

É preciso estranhar Clarice

Clarice escreve como que em espanto, como se cada palavra surgisse de repente no papel e precisasse ser dita. Mas é precisamente nos não ditos dos seus textos que se insinua a possibilidade de nos fazermos sentir naquilo que realmente nos interessa. É como se uma batalha (ou quem sabe uma dança) fosse travada com a palavra para que dela, através dela, pudesse surgir o que de fato se pretendia anunciar. E o que se pretendia anunciar?



É PRECISO ESTRANHAR CLARICE
Danielle Mezzari -  em "Obvious - magazine"

Quando entrei em contato com a literatura de Clarice entrei em choque. 
Era ainda menina e me perguntava o que era aquilo que lia, tão profundo e suave. Tão direto e indeciso. 
Acho necessário fazer um esforço no sentido contrário da pretensão da pergunta formulada acima. 
Ao invés de nos perguntarmos o que pretendia anunciar Clarice Lispector com seus textos, o que ela queria dizer, deveríamos começar a nos indagar sobre o que nós pretendemos com eles. O que somos capazes de criar a partir do contato com suas obras?
Alguma coisa fica por ser dita. Alguma coisa dita ficou por dizer. 
Clarice não nos dá respostas, não traça caminhos a serem percorridos e não há nenhum sentido já dado em seus textos. Pelo contrário, é quando nos deixamos tocar, ou quando alguma coisa no texto encontra algo em nós que um sentido, ou qualquer outra coisa, é produzido. 
Quero dizer que não há nada pronto em sua obra, apenas para ser contemplado ou encontrado. 
O que há é o vislumbre de uma dor, de uma potência de dor. 
O que há é a possibilidade de produção de sentidos. 
A autora sozinha, seus textos, não transmitem nada. É só no contato com um outro que as palavras ganham corpo, ganham vida. É só através de um outro que um texto pode ter um direcionamento e uma aplicação. Cabe a nós, enquanto leitoras e leitores, a partir do que temos, de nossas experiências, produzir novos caminhos e interpretações.

Acredito na potência do silêncio. Silêncio enquanto condição para a produção de sentidos. 
Eni Orlandi em seu livro “as formas do silêncio” nos diz que este não se refere ao vazio, mas que ele é o indício de uma totalidade significativa. 
O silêncio diz da produção de possibilidades, de conexões, de relações que muitas vezes transgridem, subvertem o efeito esperado por quem escreveu. 
O silêncio faz alusão a uma totalidade que a palavra mobiliza na tentativa de fazer referência e atribuir significado a uma parte desse todo. É, portanto, só na palavra que o silêncio se manifesta, se esconde e cria espaços que a palavra não consegue dizer.

Uma das questões que passaram a me incomodar após o contato com Clarice diz respeito justamente à palavra. 
A palavra é paradoxal desde o seu nascimento. No momento em que designo algo estou ao mesmo tempo a potencializar e a limitar o objeto designado. Potencializo ao lhe atribuir um significado e limito ao negar-lhe o movimento, o deslizamento por entre outros sentidos. 
Parece-me que Clarice enfrenta esse dilema, paradoxo intransponível, e busca criar a não palavra dentro da própria palavra. A palavra que nega a si própria enquanto capacitada de designação, do conhecimento necessário. 
Clarice subverte a própria língua para nela criar uma oscilação, uma linguagem que, se não é outra coisa, também não é mais a mesma.

Deleuze fala sobre a capacidade que a literatura possui de produzir uma minoração na língua, de criar um devir-outro da língua, “uma linha de feiticeira que se escapa do sistema dominante”.
Para fazer isso é preciso um pouco de estranheza. É preciso estranhar o mundo, estranhar a si mesma.

A escritora e professora Noemi Jaffe nos fala um pouco sobre isso. Ela nos explica que o estranho ou o estrangeiro é aquele que é de fora, que não pertence a um determinado lugar e que, por este motivo, olha as coisas com um olhar de espanto, como quem vê algo pela primeira vez. 
Essa “estrangereidade” é marcante na obra de Clarice. No entanto, ela relativiza essa relação fora-dentro. 
É possível ser estrangeira no seu próprio país, na sua própria cidade. É possível ser um estrangeiro de si, em si. 
Clarice estranha o que é dado como óbvio, o que é naturalizado e, portanto, tornado invisível no nosso cotidiano. Esse estranhamento faz com que ela possa olhar a si mesma e ao mundo a partir de perspectivas outras e criar a partir de outros lugares.

É preciso que também nós, enquanto leitoras e leitores, estranhemos Clarice. 
Pode ser que o impacto seja tanto que nos afastemos de imediato frente ao desconhecido de sua obra. No entanto, talvez desse encontro prolifere caminhos e se crie outros sentidos para coisas que já estávamos tão habituadas/os a ver.

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sábado, 11 de julho de 2015

Rui Veloso e Mariza - Não Queiras Saber de Mim





Não queiras saber de mim
Rui Veloso

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim
Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo
Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado
Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo
Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

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terça-feira, 30 de junho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

...a dor dos noticiários - Nara Rúbia Ribeiro

Da página 'Conti outra'

Por que as pessoas buscam a dor dos noticiários?  
Nara Rúbia Ribeiro


Arte naif: Eliete Tordin

Liguei a TV. Algo de medonho havia ocorrido. Dados alarmantes, números bizarros e depoimentos diversos davam notícia de que o futuro havia chegado de mãos dadas com o fim. Tudo pareceu-me desolado. A economia desconsolada, o Judiciário vendido, a democracia vilipendiada. E mortes e insegurança e indignação e desespero… Deus! Quem foi que violentou a alma do mundo para que tudo sangrasse assim,  com tanta força?


Mas eu tive a ousadia de desligar a TV. Eu tive a audácia de não ler jornais. Eu tive o despreparo de andar pela rua e de observar pessoas, coisas e tentar enxergar abstratos.


Uma mãe segurava a mão do filho pequenino e dizia:  – Não, Artur. Depois do “3” não vem já o “5”. Vem o “4”.


Uma senhora sorriu, escorada no umbral da entrada de uma casa, ao perceber a confusão numérica da criança. E prosseguiu observando mãe e filho a sumirem de vista, enquanto acariciava um gato vira-latas que parecia também observar a cena.


Havia flores nos canteiros das casas e crianças uniformizadas, ainda sonolentas, seguiam para a escola. 

Passarinhos povoavam os fios de alta tensão como se a delicadeza desafiasse a força, como se as penas blindassem as suas almas da violência do mundo.
Em meio ao barulho dos automóveis, quem tivesse o ouvido inclinado à beleza poderia ouvir o canto indecifrável desses pássaros.

Um jovem me viu parada a observar essas coisas e perguntou-me: – Você está bem?  A custo compreendi a pergunta, e respondi: – É um bom dia, não é? Ele acenou com a cabeça positivamente, e seguiu caminho.


E vi muitas pessoas sorrindo e contando anedotas. 

Vi um beija-flor meio perdido entre flores de vida e rosas de plástico, mas ele sobreviveu. 
Vi pedrinhas coloridas numa calçada. 
Ouvi o porteiro do prédio a relatar, a um amigo, o desfecho triunfal de sua noite de amor.

E percebi que a ausência da vida é resultante do distanciamento da sua essência. 

Percebi que as verdades poéticas e cotidianas não são notícia. 
Quem quer saber de beija-flores confusos ou de pequenos aprendizes matemáticos? 
Quem quer noticiar a glória de pássaros que desafiam a insensibilidade das almas? 
Quem quer saber de tudo isso se nem sabe que isso existe?

As pessoas necessitam da dor dos noticiários. Necessitam de ver o sangue, a violência, a podridão do mundo porque querem urgente e desesperadamente compreender o que lhes dói. 

Elas precisam saber o que fez do seu peito um oco, um vazio, um vão imensurável e doído. 
Elas precisam saber da origem do nada que as incomoda, o nascedouro do apego ao concreto, a gênese de sua indiferença, a origem do medo generalizado que arrebata o sentido. 
E é isso que o noticiário vende!

Estou farta de ver holofotes plenos à mediocridade dos homens. 

É preciso entender que o Homem é maior do que é. 
É preciso compreender e amar a beleza que germina  em todas as coisas e antever a árvore frondosa e a doçura do fruto. 
É preciso valorar as pequenas delicadezas, as imperceptíveis gentilezas. 
É preciso ver a beleza que existe, talvez ainda embrionária, em cada um. 
É preciso que a alma não se renda à morte vendida nos noticiários, e ainda se mostre rendilhada e rebordada na afeição de pequenos e reiterados gestos.

Por isso eu o convido, hoje, a ter a ousadia de desligar a TV, de desconectar-se das redes sociais que tantas vezes destilam ódio, de não ler jornais. 

Convido a fazer uso do seu wi-fi interior. Da sua antena superior. E conectar-se às belezas que o circundam. Sintonizar-se com o encantamento que paira sobre o inusitado das existências anônimas, das pessoas anônimas, dos objetos e seres desimportantes. Afinal, se essa beleza nos preenche, porque haveríamos de justificar os vazios?

Goiânia, 13 de março de 2015.



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sexta-feira, 12 de junho de 2015

ANDRÉ J. GOMES - Para as almas amorosas...


PARA AS ALMAS AMOROSAS, QUALQUER LUGAR LONGE DO SER AMADO É TERRA ESTRANGEIRA

André J. Gomes - em 'Revista Bula'


Não olhe agora. Mas nós estamos cercados de estrangeiros. O mundo, esse lugar tão grande quanto a sala da nossa casa, anda povoado de forasteiros. 
É gente nascida em todo canto, rumando para todo lado, mas que em algum instante, de alguma sorte, seguiu para longe de seu amor. Uns há horas, outros há dias, semanas, meses, anos, todos se encontram distantes do ser amado.

O jeito não engana. Essa gente enamorada de alguém que vai longe tem um jeito aplicado de trabalhar direito, como quem quer logo voltar para casa. 
Tem distância geográfica, lonjura do coração ou os dois. Não importa. Tudo é longe para quem não caminha junto de seu amor.

Alguns sequer o encontraram. Outros o acharam e o deixaram partir. 
Há os que têm saudade simplesmente porque não podem estar o tempo todo agarrados a seu bem. 
Todos são andarilhos em terra estrangeira, vagando em busca de amor. 
As almas enamoradas são assim. Longe a qualquer distância de quem amam, sentem no coração um banzo, uma saudade, um não-sei-quê de nostalgia.

Assim como os imigrantes que partem para um país distante, levando escondidos na bagagem um saquinho do feijão de sua terra, um punhado do café de sua cidade, uma muda do hortelã dos avós para o chá das noites de insônia e tristeza, há também os que só resistem à saudade porque carregam consigo lembranças de seus dias de amor e de paz.

Não há remédio que dê jeito na falta do amor distante. Nada senão rumar para onde o coração ficou cativo. Depois seguir de alma leve, remoçada. 
Almas enamoradas funcionam assim. Se vão, carecem de voltar. Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é terra estrangeira. Do outro lado do mundo ou ali na esquina.

Eu entendo as almas enamoradas de todo canto. Eu aqui, em minha solidão de bicho, compreendo sua disposição para a vida, sua lida convicta de honestos trabalhadores, seu jeito firme e manso que só têm as pessoas boas. Entendo, respeito, admiro e agradeço.

Porque as almas enamoradas, mesmo aquelas que caminham sós em busca do amor que talvez nunca venha, carregam e levam adiante nossa primeira e maior vocação: a de dar e receber amor por aí.

Em sua labuta, as almas enamoradas assumiram a tarefa de entregar, umas às outras e a quem mais estiver perto, palavras de tão profundo carinho, embrulhadas em gestos tão simples, que desarmariam as caras mais feias e desmontariam as intenções mais odiosas.

A cada novo encontro amoroso, conspiram os enamorados por um mundo de pessoas livres, ativas e gentis. Gente que acredita no trabalho e pratica seu ofício com honestidade e gratidão. Almas que valorizam o tempo e não o perdem com besteira. Que apontam o barco para a frente e não o dedo a ninguém. Que ouvem o que lhes dizem, guardam o que desejam e respondem o que precisam. 
Criaturas imperfeitas que vivem sua vida e deixam em paz a dos outros. Que preferem a crença no esforço próprio e dispensam a crítica ao empenho alheio.

Assim são as almas enamoradas. Boas quando longe de seu amor. Melhores ainda quando perto. 
Para elas, qualquer lugar fora de seu amor é uma fria, distante e aborrecida terra estrangeira.


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Nicole Ayres Luz - sobre Contos de Fadas

Por trás dos Contos de Fadas
Nicole Ayres Luz - em 'Homo Literatus


Em sua origem, os contos de fadas eram bem sombrios, nada muito semelhante aos contos de fadas atuais, como vemos nas adaptações cinematográficas


Se pensamos em contos de fadas hoje em dia, lembramos basicamente das adaptações da Disney, mas as origens do gênero são bem mais sombrias. 
Se passar fome ou ser atacado por animais na floresta parecem ameaças distantes para nós, antigamente eram situações que faziam parte da realidade cotidiana. 

Na verdade, as histórias não eram voltadas para o público infantil. 
Apenas no século XVII, com a coletânea de Charles Perrault, estabeleceu-se o gênero literário, baseado em lendas da tradição europeia. 
No século XIX, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen fizeram novas versões. Essas são as fontes mais conhecidas. 
Já havia então o conceito de família burguesa, em que as crianças seriam mais protegidas, teriam seu espaço na sociedade.

O contexto social muda gradativamente, e com isso certas versões prevalecem ou se modificam. 
Cada vez mais houve uma amenização da crueldade dominante nas lendas originais. 
Na atualidade, também é muito comum que se trabalhem sátiras, como Shrek, que desmistificam o próprio gênero.

Normalmente, o primeiro contato com a ficção se faz através dos contos de fadas. 
Numa fase da vida em que a imaginação é guia para a compreensão da realidade, eles ajudam, por metáforas, a lidar com os conflitos latentes. 
Vários estudos psicológicos foram desenvolvidos nesse sentido. 
O mais famoso é Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelhein. 
Uma versão mais atualizada é Fadas no Divã, do casal de brasileiros Mário e Diana Corso, em que são comentadas desde narrativas clássicas, como Cinderela, Rapunzel, João e Maria, até tramas contemporâneas, como Ursinho Pooh, A Turma da Mônica e Harry Potter.

É muito comum que, nos contos de fadas, haja um protagonista criança e vilões encantados, como bruxas e ogros. 
Essas criaturas representariam outra faceta dos próprios pais, seu lado controlador e punitivo. 
A situação do abandono é bastante comum, como em João e Maria e O Pequeno Polegar. 
Isso acaba trabalhando a questão da autonomia da criança, que deve saber como agir sozinha em determinadas situações. 
Já quando são adolescentes ou jovens adultos, o desenlace passa a ser amoroso. 
Príncipes e princesas devem vencer obstáculos para alcançar seu final feliz, como em Branca de Neve, A Bela e a Fera, Rapunzel. 
Esse é o momento em que o jovem deixa a casa dos pais para se casar e formar sua própria família, não sem passar por conflitos diversos.

Enquanto Bruno Bettelhein defende a leitura dos contos originais, o casal Corso acredita que, além de ser difícil de recuperar as verdadeiras fontes, toda forma de ficção é válida como alimento para a imaginação infantil. 
As histórias se transformam conforme a época. 
Hoje, o maniqueísmo clássico está sendo quebrado com personagens dúbios, híbridos, humanos. 
No filme Malévola, o drama da vilã torna-se o mote central, mudando a perspectiva. 
Na série Once Upon a Time, os heróis também erram e certos vilões se redimem. 
Os caminhos são tortuosos, as escolhas difíceis, por isso os personagens hesitam em determinados momentos. Seu caráter pode ser íntegro, porém não é impecável.

Em um tempo dinâmico, ágil, de informação disponível por vários meios, a criança é estimulada cada vez mais cedo a lidar com as questões complexas da vida. 
O importante é que ela não perca sua capacidade criativa, seu jeito diferenciado, fantasioso, poético, de apreender a realidade. 
Com isso, os contos de fada continuam cumprindo seu papel.
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Referências:

CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mário. Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.

FRANCO, Maria Dorothea Barone. Malévola: um outro espaço, uma nova imagem. In: Revista Conhecimento Prático Literatura nº 60. São Paulo: Escala, 2015.


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sábado, 6 de junho de 2015

ADRIANO DIAS - "Enquanto chorou..."

Arte de Voider Sun
Enquanto chorou gotas iluminadas,
mínimas entre as lágrimas,
despertou apenas certa curiosidade,
nenhum cientista levou a sério,
relegando a pesquisa do mistério
para outro dia, quem sabe.
Mas a moça insistisse serem estrelas
vindas do céu que sonhava o tempo todo
causou um crescente alvoroço,
pois, embora fossem pequenas, 
conforme o volume da emoção que tivesse
seu rosto encharcava em pontos brilhantes
de um modo como não fora visto nunca antes,
exceto quem olhasse o manto celeste.
E como acontece à nossa raça,
quando perante tal tipo de fenômeno,
sedentos por milagres que somos,
aguardando ansiosos por quem os faça,
cresceu no entorno da moça, como fumaça,
um absorvente incômodo,
inebriante, conjurando em todos 
o impulso que nos produz a fé,
como também o delírio e o desespero até.
Houve quem arvorasse orientar os ritos
lembrasse profecias,
batucassem ritmos esquisitos,
convencesse ter visões dos próximos dias,
outros diziam ter visto, 
com aqueles olhos maníacos,
na face estelar da moça,
a organização dos signos do zodíaco,
ou quem decidisse rasgar-lhe os globos,
alegando ouvir vozes mais acres, sons tenebrosos,
exigindo sangue, sacrifício, as carnes suas...
Foi quando ela chorou as luas,
para encanto da plateia circundante!
Não só uma, como duas,
a cheia e a minguante.
E a luz serena que emanou no mesmo instante,
contínua, cálida, envolvente,
tornou todo desespero caos culto de antes
em uma plenitude jamais experimentada.
E porque nessas horas não cabe mais nada,
ninguém reparou o sumiço da moça,
desfez-se em noite e lágrimas escuras,
restando ao chão apenas uma enorme poça,
espelhando um impossível céu de duas luas.

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Adriano Dias - na página 'Semema'

terça-feira, 2 de junho de 2015

Você está...- Cátia Rodrigues em 'Obvious'



Você está sozinho nessa e tudo bem...
Cátia Rodrigues - em 'Obvious - sociedade'
(...)
Acontece que nascer significa, quase que imediatamente, se desvincular da mãe, daquela unidade que com ela fomos desde o início da nossa formação fetal. Ao nascer, ficamos sozinhos. E isso se dá no plano mais concreto possível: o que nos liga ao outro é cortado e dispensado. E ainda por cima nos deixa um buraquinho na barriga.
(...)
Mas não tem jeito: a partir do dia em que nascemos, vamos sistematicamente nos desligando da única pessoa com quem realmente temos uma ligação palpável. 
E isso dá medo. Uma tremenda angústia. O escuro assusta. A ausência apavora. A solidão parece que nos mata. 
E choramos. E somos confortados pela mãe e outros amores que a vida vai nos apresentando. E claro que isso é bom. Aprendemos a ser amados e acolhidos.
(...)
Aprendemos também, sem querer, que estar bem é estar com os outros, é estar acompanhado, é ser aceito. E acabamos por fazer loucuras para nos sentir incluídos em grupos e meios que nem de longe servem à nossa singularidade. A qualquer preço, "alguém fica aqui, junto comigo, por favor": só para não lidarmos com a tal vilã do mal, a solidão. Acabamos por aprender, subjetivamente, que o amor vem do outro, e que estar só é sinônimo de abandono. E isso é uma ilusão que nos aterroriza vida afora, sem razão. Ficamos a sentir o mal estar no meio da multidão, sem saber o motivo ou a solução.
(...)
A necessidade de nos relacionar existe, mas como troca e aprendizado, reconhecimento existencial para manter o equilíbrio mental e, apesar de muitas vezes ser um delicioso prazer, a convivência humana não tem mais a função de nos assegurar segurança e sobrevivência.
A real é que na vida somos todos sozinhos, mas podemos estar acompanhados e acompanhando muitas pessoas nos diferentes momentos da vida. Por escolha, sem medo de estar bem só consigo mesmo. 
O “buraco” na barriga, que não é só o umbigo, se chama angústia. E ela é bonita na sua essência, e tem importância para nossa existência. 
A angústia nos mobiliza, nos indica que algumas acomodações feitas pelo caminho estão com o prazo de validade expirado. 
E, do mesmo lugar de onde ela pulsa de dentro de nós, emerge também a nossa criatividade, a intuição e a subjetividade que nos tornam únicos.
Não vale a pena tapar esse buraco na alma. 
Mas só podemos mergulhar e desfrutar da sua beleza quando aprendemos a nadar na imensidão do amor – não o amor do outro, mas aquele amor que temos dentro de nós para nós mesmos, no prazer da própria companhia. 
Descobrir que ser sozinho não é sinônimo de estar sozinho, e que na solitude da própria existência somos plenos, transcendemos em direção ao Sagrado. 
É nessa hora que percebemos um dos grandes tesouros da vida: podemos estar com os outros, mas sempre somos só "eu mesmo" - e isso é o suficiente para se viver.


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