segunda-feira, 7 de novembro de 2011

MAIS HISTORINHA DA 'VÓ'

Hoje, mais uma historinha da juventude da 'vó'. 
Por causa do Google, que nos faz lembrar de Marie Curie, ou Madame Curie, como era chamada na época (época chic, não?).

Muita gente fica surpresa ao saber que gosto tanto de Física, uma vez que me formei na área de Ciências Humanas. Não que uma tendência anule a outra, mas as coisas são assim mesmo. Explico.
Certa vez, quando muito jovem, ganhei de presente uma coleção de livros cujo título era "As mulheres célebres da História" .  Sempre me interessei por leitura, pela história das pessoas, ou seja, literatura era mesmo a minha "praia".  

Pois bem, a tal coleção continha uns doze ou quinze volumes, não me lembro bem, cada um com a biografia romanceada de uma mulher que tivesse uma história de vida interessante ou que tivesse deixado a marca de sua passagem pelo mundo.  
Entre elas, Berthe Morisot (artista plástica, aluna e cunhada de E. Manet, neta do também pintor Fragonard), a princesa Carlota Joaquina (esposa de D.João VI, mãe de Dom Pedro I, Princesa Izabel e mais sete filhos, uma figura engraçadíssima), Madame de Pompadour (conselheira e amante do rei Luiz XV), George Sand ou Amandina Lúcia Aurora Dupin (escritora e amante do compositor F. Chopin), Joanna d'Arc (heroína francesa e santa), Cleópatra (rainha do Egito) e, claro, Marie Curie (estudante de Física, cujo namorado e depois marido tornara-se um cientista famoso) além de outras mulheres também interessantes.


Ao ler a história de vida de Marie Curie, fiquei encantada pela dedicação e persistência de uma mulher  diferente das de seu tempo, e que, por isso mesmo, teve a vida tão dificultada pelos padrões da época. 
Estudante aplicadíssima, mais tarde assistente do marido, foi a primeira mulher a conquistar o Prêmio Nobel (junto com o marido) pelos estudos sobre radioatividade. 
Desenvolvendo, paralelamente, o próprio trabalho, também foi a primeira cientista a receber o segundo prêmio Nobel, desta vez na área de Química, pela descoberta dos elementos rádio e polônio. 
Foi ainda a primeira mulher a ocupar o cargo de Professora de Física Geral na Faculdade de Ciências da Universidade de Sorbonne (França).

Sei que hoje tudo isso é muito comum, mas para mim, num tempo ainda em que nós, mulheres, nascíamos com a tarefa de nos preparar para ser boa esposa e mãe, a leitura da história dessas mulheres me fascinou , tornando-se um dos motivos por que gosto de ler biografias.

É isso: a história de vida de Madame Curie me incentivou a ser uma boa aluna de Física, ciência que me atrai muito. 
A Física veio por meio da Literatura. Não é bem legal?

O Google, com seus "doodle" ( é assim que se escreve?), sempre reativa a minha memória e me faz querer contar coisas que ficaram esquecidas. 

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domingo, 6 de novembro de 2011

MÔNICA SALMASO - VALSINHA (Chico Buarque)

PADRE ANTONIO VIEIRA - Falando de amor

Trechos Sermão do Mandato (1643)
Padre Antonio Vieira
Portugal,1608-Brasil, 1697

O Tempo
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sábiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

Ausência
Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra. E o amor como a lua que, em havendo terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes, passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor. Os filósofos definiram a morte pela ausência: Mors est absentia animae a corpore. Despediram-se com grandes demonstrações de afeto os que muito se amavam, apartaram-se enfim, e, se tomardes logo o pulso ao mais enternecido, achareis que palpitam no coração as saudades, que rebentam nos olhos as lágrimas, e que saem da boca alguns suspiros, que são as últimas respirações do amor. Mas, se tomardes depois destes ofícios de corpo presente, que achareis? Os olhos enxutos, a boca muda, o coração sossegado: tudo esquecimento, tudo frieza. Fez a ausência seu ofício, como a morte: apartou, e depois de apartar, esfriou.

Ingratidão
Assim como os remédios mais eficazes são ordinariamente os mais violentos, assim a ingratidão é o remédio mais sensitivo do amor, e juntamente o mais efetivo. A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo o ódio. Finalmente o tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver? O exemplo que temos para justificar esta razão ainda é maior que os passados.

O melhorar de objeto
Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. Em aparecendo o maior e melhor objeto, logo se desamou o menor.

Amor Sem Remédio
E quando se rendem ao mesmo amor todos os contrários, será justo que lhe resistam os seus, e se na hora em que morre de amor sem remédio o mesmo amante, será bem que lhe faltem os corações daqueles por quem morre? Amemos a quem tanto nos amou, e não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que não perseveremos em seu amor.

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sábado, 5 de novembro de 2011

LUIZ BONFÁ - Manhã de carnaval



O compositor e violonista é Bonfá, a letra dessa música é do poeta e jornalista Antônio Maria, mas o solo lindíssimo de trompete (ou trombone) não sei quem é. 
 Injustiça não aparecer o nome do instrumentista...

JORGE LUÍS BORGES - Os justos

Os Justos
Jorge Luis Borges
Argentina, 1899-1986

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.

In "A Cifra"
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CECÍLIA MEIRELES - Como se morre...

Como se Morre de Velhice
Cecília Meireles (1901-1964)

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

In 'Poemas (1957)'

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VICTOR HUGO

O Interior da Alma
            Victor Marie Hugo
            (França, 1802-1885)


O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espetáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma.

Fazer o poema da consciência humana, mas que não fosse senão a respeito de um só homem, e ainda nos homens o mais ínfimo, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva.

A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: é o pandemónio dos sofismas, é o campo de batalha das paixões.

Penetrai, a certas horas, através da face lívida de um ser humano, e olhai por trás dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. Há ali, sob a superfície límpida do silêncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de dragões e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais visionárias como em Dante.

Sombria coisa esse infinito que todo o homem em si abarca, e pelo qual ele regula desesperado as vontades do seu cérebro e as ações da sua vida!
**

A Verdadeira Divisão Humana

Você é um daqueles a quem se chama feliz?
Pois bem, você está triste todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremia pela saúde de alguém que lhe é caro, hoje receia pela sua própria saúde; amanhã será uma inquiteação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a sua consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente.

Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E você é desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.

Os espíritos refletidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes.

A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.

Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila.

De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do gênio.

Quando amar, sofrerá ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos.
In 'Os Miseráveis'

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terça-feira, 1 de novembro de 2011

QUEEN - TOO MUCH LOVE WILL KILL YOU


Gosto demais dessa música e optei por este vídeo pela qualidade do som.

ADÉLIA PRADO - COM LICENÇA POÉTICA

Com licença poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

*            *            *

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Hoje é o "Dia D" - DRUMMOND

Aniversário de Drummond
Instituído o "Dia D", que agora faz parte do Calendário Cultural no Brasil e em Portugal
31 de outubro, nascimento de Carlos Drummond de Andrade

O seu Santo Nome
Do livro "Corpo"

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
*    *

Além da Terra, além do Céu

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.


*   *
 

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
*        *        *

domingo, 30 de outubro de 2011

ALIVIANDO...

Tá legal, tá legal... O post anterior foi esquisito mesmo. Então, vamos aliviar com umas coisinhas que encontrei naquelas agendas antigas... Lá vai:

A vingança de Eva

"Exijo três coisas num homem: que seja bonito, impiedoso e burro."  (Dorothy Parker - escritora)

"Se os homens soubessem de que as mulheres acham graça, jamais dormiriam conosco. (Erica Jong - escritora)

"A desilusão masculina mais comum é descobrir que a mulher pensa" (Margareth Mitchell - escritora)

"O homem é um animal doméstico que, se tratado com firmeza e doçura, pode ser treinado para fazer quase tudo." (Jilly Cooper -  jornalista)

"Alguns dos meus melhores galãs foram cachorros e cavalos." (Elizabeth Taylor - atriz)

"Uma das coisas que a política me ensinou é que os homens não são um sexo racional nem razoável" ( Margareth Thatcher - ex-primeira-ministra inglesa)

"Dê uma mãozinha a um homem e ele logo a passará em você." (Mae West - atriz)

"Pode imaginar um mundo sem homens? Nada de crimes e um monte de mulheres gordas e felizes." (Nicole Hollander - escritora)

"Maridos, vejam pelo lado bom: quanto mais lotado um guarda-roupa, menor a chance de caber alguém lá dentro." (De uma peça publicitária)

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TÉDIO...TÉDIO...TÉDIO


Itatiaia, 29 de outubro de 2011 – sábado à noite

A data hoje é de lembranças. Boas, não tão boas, enfim, lembranças que só a mim dizem respeito. Só estou registrando. Nem há um motivo para isso. “Seja o passado, passado; tome-se outra vereda e pronto” (Miguel de Cervantes).
Sem internet – o provedor aqui em Itatiaia é muito ruim. A programação de TV nos fins de semana consegue ficar pior do que nos outros dias. Um calor sufocante anuncia chuva. Ah, também estou sem sono. Ou seja, tudo ao mesmo tempo colaborando para o tédio absoluto.
Resolvi que nada disso conseguirá me atrapalhar. Tive um dia solitário mas produtivo. Fiz o que havia programado para hoje.
Estive relendo Clarice Lispector – “A paixão segundo G.H.” – o que se pode notar pelo post anterior. Também uma escritora que me instiga, mexe comigo, me vira do avesso. Tive um professor que não gostava muito da escritura dela, dizendo ser muito voltada para os próprios sentidos... Tudo bem, gosto literário é assim mesmo. O autor brasileiro de que não gosto, definitivamente não gosto, é Jorge Amado. Por que será?
O que esse professor admira e reverencia são os escritos de Guimarães Rosa – e sabe tudo sobre o escritor. Aprendi tanto com ele (professor) que hoje, sem sombra de dúvida, esse é o autor da minha preferência em Literatura Brasileira.
Às vezes fico pensando: tive tão bons professores na área de Língua e Literatura... Não sinto o mesmo interesse nos jovens de hoje pela leitura de bons ficcionistas. Para esses jovens a leitura tem que ser ‘objetiva’, ‘servir para alguma coisa’, foi o que ouvi de alguns. Que coisa, não? Eles pensam apenas no  valor  informativo da leitura. Cultura, conhecimento, segundo eles, não ‘servem’ para nada. Por outro lado, se essa leitura informativa fosse feita de verdade, leriam os manuais desses aparelhos demoníacos que têm sido inventados. Mas nem isso... Não leem nem os comandos dos programas no computador. São sempre autodidatas, prescindindo da colaboração de outras pessoas às vezes mais experientes, embora não tão conhecedoras do tal mundo moderno. É como se não quisessem aprender com a experiência do outro. São individualistas, independentes, nascem sabendo de tudo... Tá bom.
Vou parar por aqui. Meus pensamentos estão à solta e quando isso acontece não há rédea que os conduza a um nível razoável de expressão. Parece que fico doida, sei lá, me expondo de maneira descontrolada. O texto acaba ficando confuso, desconexo – des-co-nec-ta-do, como essa bendita internet!
(Se houver acesso à internet amanhã, esse minitexto irá para o blog; em caso contrário, deixa pra lá... a notícia fica velha, né? Tô aprendendo...tô aprendendo...)
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Gosto muito da personagem Renée Michel de “A elegância do ouriço” porque apesar da rabugice vejo ali um certo desconforto quando seu interior se revela ‘inadvertidamente’. É claro que sendo a narradora-protagonista ela precisa ser assim, mas é muito interessante o leitor também poder sentir aquele constrangimento pela exposição do que ela pensa e sente.
E aqui - respeitando as proporções, por favor – é mais ou menos o que eu fiz. E me sinto constrangida.
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sábado, 29 de outubro de 2011

CLARICE LISPECTOR - A Paixão segundo G.H.

Trechos de "A Paixão segundo G.H."

Clarice Lispector - (1925-1977)

(...) Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio. (...)   p.12

(...) "eu ser" vinha de uma fonte muito anterior à humana..., muito maior que a humana (...) abria-se em mim a larga vida do silêncio (...)  p.54

(...) as coisas são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais, com sentimentos demais.  Só a delicadeza da inocência ou só a delicadeza dos iniciados é que sente seu gosto quase nulo.  Eu antes precisava de tempero para tudo, e era assim que eu pulava por cima da coisa e sentia o gosto do tempero (...) 
Ser é ser além do humano (...) ser homem tem sido um grande constrangimento.  p.149

(...) Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço (...) 
Nunca sofra por não ter opiniões em relação a vários assuntos.  Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la.  p.172

(...) Pois só posso rezar ao que não conheço.  E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço.  Só esta é que é uma entrega real.   p.175

(Meu livro é da 6ª ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1979)
*            *            *

MÁRCIA PELTIER - poeta


 Márcia Peltier - jornalista e poeta
 
  Vida
Márcia Peltier

Vida, amiga Vida,
aonde você me levou?
Os anos escapuliram e fugiram
de minhas mãos
como as fitas dos cabelos
que perdias,
ao correres livre,
na tua Primeira Infância.

Vida, amiga Vida,
onde estão teus horizontes de delícias
quando ainda jovem
pousava minha mente
a sobrepairar na Ilusão?

Vida, amiga Vida,
o que fiz de teus segredos
quando mística e solitária
me confiaste
um novo amanhã
e muitas vezes
me entreguei nos braços da Ciência?

Vida, amiga Vida,
eu não te traí.
Lutei com minhas armas de poeta.
Fui cavaleiro errante munido de Fé.
Combati com minhas feridas
a maldade humana,
a inverdade dos pios
e a insatisfação dos sempre saciados.

Vida, amiga Vida,
onde te encontro agora?
Pó e poeira na estrada do Templo
a cegar os olhos do Futuro
e a ressecar as mãos do Amanhã?

Vida,
quero-te Vida,
mas de que me adiantas agora
se já é minha hora de morrer?

Vida,
confio-te o brilho da cada réstia de luz
da Aurora dos dias que me restam.

Vida,
encarno na Esperança o meu Auxílio
no único Espírito o teu legado
no Infinito a minha Morada
na Poesia a minha Alma.

Na Morte,
encontro apenas
uma etapa de descanso
onde me desprego de todas as peles
e me reintegro
no Eterno Renascer.
*        *        *

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PABLO NERUDA - A Educação do Cacique

A educação do Cacique
Pablo Neruda (Chile, 1904-1973)

Tomou as lentidões do Outono
Trabalhou nas guaridas invisíveis
Dormiu nos lençóis de nevasca
Igualou a conduta das flechas
Bebeu o sangue agreste dos caminhos
Arrebatou o tesouro das ondas
Fez-se ameaça como um deus sombrio
Comeu em cada cozinha do seu povo
Aprendeu o alfabeto do relâmpago
Farejou as cinzas esparzidas
Embrulhou o coração com peles negras
Decifrou o espiral fio da fumaça
Construiu-se de fibras taciturnas
Azeitou-se com a alma da azeitona
Fez-se cristal de transparência dura
Estudou pára-vento de furacão
Combateu até apagar o sangue

Só então foi digno do seu povo.
*        *        *

(in: 'Canto Geral', parte IV, item XI)